Nesses últimos três anos da premiação, o Oscar tem indicado sempre um filme que recebe uma avalanche de indicações, mas que me soa como uma fraude. Nas duas últimas edições tivemos Emília Perez e o vencedor Oppenheimer. Nesta edição, temos Marty Supreme.
Acho que essa sensação de fraude vem do fato de serem filmes muito bem produzidos, com questões técnicas bem resolvidas e uma temática revestida de um verniz de alta importância, mas que, num olhar mais aprofundado, acabam se mostrando frágeis tematicamente, pobres em suas visões críticas e dependentes de gambiarras narrativas para tentar provar um ponto.
Aqui temos Timothée Chalamet em seu modo blasé de sempre, porém apostando no “quanto mais, melhor” interpretativo. Ele e DiCaprio parecem vir da mesma escola para mim: o tipo de ator que interpreta para a câmera, sempre muito técnico, porém sem sensibilidade real. A diferença é que, neste ano, um é o ponto fraco de um filmaço, e o outro está em um filme tão fingido quanto sua própria performance.
Safdie já fez isso antes e muito melhor. Em Joias Brutas, ele joga seu personagem malandro e cheio de lábia em uma espiral de más decisões que vão desencadeando consequências cada vez piores. Porém, naquele filme, ele não tentava fazer a gente gostar de seu protagonista, nem transformá-lo em objeto de admiração. E esse é o ponto central de eu não ter gostado de Marty Supreme: nesse filme, Safdie trata seu protagonista como um babaca, sim, mas como um babaca admirável e que se acha muito mais interessante do que realmente é.
Marty é um arrogante egocêntrico. Passa o filme inteiro tratando todos como acessórios de seus desejos pessoais, assim como Safdie faz com seus coadjuvantes, que nunca parecem agir como protagonistas das próprias histórias. Marty abandona e se aproveita da mãe, da mulher grávida, de parceiros profissionais, adversários esportivos e amigos próximos.
Também me incomoda profundamente a forma como o amigo negro é utilizado apenas para gerar alguma simpatia pelo protagonista, e não como um personagem de verdade, com nuances ou força dramática própria. Isso me fez lembrar de O Brutalista, outro filme recente, igualmente ambientado em parte nos anos 50, que adota a mesma estratégia: um protagonista antipático que tem um amigo negro sem qualquer traço de personalidade, presente apenas para tentar induzir uma simpatia instantânea do espectador pelo protagonista branco, afinal, ele não pode ser uma pessoa tão má assim se é amigo de um homem negro nos anos 50. Enfim, lá e aqui, esses personagens aparecem e desaparecem da trama sem qualquer peso narrativo.
Essa falta de interesse pelos personagens e o foco quase ininterrupto em Marty (que ainda carrega a autoestima inabalável e insuportável de um estadunidense que pode tudo) tornam o filme difícil de engolir para mim. Apesar de alguém citar aqui e ali as falhas de caráter de Marty, o filme insiste em buscar nossa simpatia ou admiração por esse cara, partindo do pressuposto de que, no fundo, ele é legal, interessante e admirável. Tudo isso culmina em um fechamento com tentativa de redenção que não condiz com qualquer traço de personalidade previamente apresentado. Isso passa por um choro típico de Oscar bait, ligado a algo que, até então, o próprio personagem negava como algo que lhe pertencesse.
Marty não é um cara legal, Chalamet não tem tempero e Safdie já fez bem melhor.
Para um filme que propõe quase que literalmente a ideia de se colocar na pele de outras pessoas, achei tudo um tanto frio. Não que eu esperasse um melodrama ou algo emocionalmente apelativo, mas a fotografia é tão dura e a montagem salta tanto no tempo, que o filme parece ativamente não permitir uma conexão com a história. É uma pena, porque há boas interpretações e um coração escondido em algum lugar.
Além da representação eurocêntrica e desconjuntada sobre a América Latina e das músicas ruins, das melodias mal elaboradas às letras breguinhas, o filme tem, no mínimo, um discurso estranho sobre a transexualidade. Aquele bem neoliberal do meme do avião jogando bomba com a bandeira LGBT+ estampada na lataria, sabe? Emilia Pérez tem um passado recente de morte, desfruta da riqueza que acumulou às custas da violência e do sofrimento de muitos, porém o filme a isenta de problematização, porque afinal, ela foi uma chefe do tráfico TRANS, ela montou uma ONG, ela é poderosa e foda pra caralho! Só que não...
O filme a vê quase como uma santidade e esvazia qualquer discussão mais interessante, complexa e madura que poderia ter, desperdiçando a ótima premissa. Eu não entendo a comoção que esse filme tem causado em muitas pessoas. É o Oppenheimer do ano.
Existe um grande diretor no Matt Reeves, preso em releituras de filmes franquia e universos fantasiosos que querem não ser, apesar de gostar bastante do trabalho dele em Planeta dos Macacos. Adoraria ver algo original desde o início feito por ele.
Quanto ao Batman, o tom é de tanta auto importância adulta, que eu sinto uma forte estranheza na figura de um homem fantasiado de morcego andando por aí e sendo levado a sério. Me faz sentir saudade dos filmes do Tim Burton, que abraçavam o cartunesco, o fantasioso e a excentricidade das personagens, vilões e heróis.
Acho que saturei total dessas figuras dos filmes mais recentes da DC e Marvel, que apesar das diferenças entre si, trazem sempre essa aura de seriedade e reverência, mesmo nos filmes mais coloridos da Marvel. Acho sintomático estarmos em uma era em que o subgênero "super herói" seja o que mais leva pessoas adultas ao cinema.
A impressão que dá é de uma animação construída e lapidada através de algoritmos das redes sociais e serviços de streaming. Uma superdose de quadrinhos e cultura pop. Cores, traços e movimentos na concepção dos personagens e cenários que sempre apostam no mais estridente possível. Uma superficialidade contínua nos temas e uma constante impressão de que o filme tá tentando desesperadamente arrancar serotonina do seu cérebro a todo custo ao mesmo tempo que tenta criticar o excesso de informação a que somos expostos nas redes a todo momento.
A narrativa é moldada para encaixar nas piadas, nas referências, nas pequenas irreverências e não o contrário. Não importa se grandes eventos serão solucionados por coincidências convenientes para o roteiro a cada 5 minutos, impedindo que qualquer sensação de tensão real aconteça. A overdose de "sacadinhas espertas" está lá apesar da história e não a favor dela e isso me incomodou do início ao fim do filme.
É uma pena porque no miolo existe um comentário doce e aparentemente sincero sobre o amor familiar, mesmo que apelando pro clichê da família disfuncional que briga, mas que se ama em uma história que é fácil prever o que vai acontecer do início ao fim.
Acho que a parte que mais gostei foi ver as fotos da equipe de produção e membros do elenco com as pessoas que amam nos créditos finais.
Nem imagino o pesadelo que deve ter sido decupar esse roteiro. Ao mesmo tempo, o sonho de qualquer boa atriz/ator. Eu daria os prêmios todos da temporada para os quatro.
O que mais gostei na sátira sobre negacionismo, neoliberalismo, positividade tóxica, falta de senso de coletividade e culto ao poder de Mckay é que ele entende que seu filme é fruto de uma época tão cega, burra e doente, que trabalhar com a elegância narrativa da sutileza não faria muito sentido. Ao menos se a intenção fosse causar um mínimo de impacto em quem precisa.
Essa falta de delicadeza nas mensagens do filme, faz uma rima divertida com a própria situação dos personagens de Lawrence e DiCaprio. Que mesmo literalmente gritando em rede nacional, não conseguem se fazer ouvir e muito menos compreender.
Hoje, pra bom entendedor, meia palavra talvez não baste mais.
Cheguei ao final de "Imperdoável" com um sentimento de frustração, não por mim, mas pela equipe do filme. Isso porque é possível ver que houve afeto envolvido e uma real vontade de criar uma obra com algo a dizer dentro de um tema bastante importante e pouco explorado dentro do cinema de Hollywood. E realmente, dentro da primeira hora existe um trabalho cuidadoso, um estudo de personagens, sobre uma mulher largada dentro da sociedade depois de 20 anos presa e como sua liberdade, mesmo que comprometida, movimenta significativamente a vida de pessoas ligadas a sua história.
Portanto é uma pena que o filme em sua segunda metade abandone o que até então tinha construído para abraçar uma tentativa frágil de se tornar um thriller de reviravoltas, aparentemente com a intenção boba e desnecessária de buscar redenção e uma empatia maior pela personagem de Bullock, que consegue em uma das performances mais maduras de sua carreira, estimular a reflexão sobre a existência complexa de Ruth.
"Imperdoável" é um filme que quer com muita vontade ser relevante e estimular debate, mas que parece não confiar na sua própria elaboração do roteiro e personagens, se acovardando no meio do caminho ao se direcionar para soluções menos espinhosas e eticamente mais palatáveis do que havia desenvolvido até então.
Admiro muito como Jane Campion descasca seus personagens aos poucos, partindo de estereótipos bastante humanos e nunca desinteressantes e óbvios, mas que aos poucos desabrocham em suas reais vontades, desconfortos e desejos, escondidos atrás de uma auto repressão latente. Um estudo inteligente e consciente sobre a cultura da masculinidade em qualquer época.
De metáforas óbvias à reflexões simplistas, Michel Franco constrói um filme de muito mal gosto e que presta um desserviço a qualquer um que pretende se aprofundar sobre a temática da luta de classes.
Janelle Monáe levantando da cama dando um mortal para trás e saindo do quarto de fininho com passos de dinossauro me fez rir mais do que qualquer comédia que assisti em 2020.
Acho curioso esse filme ter estado na competitiva de Cannes junto a Bacurau, ambos saindo premiados. Apesar de completamente diferente cultural e estéticamente, trata de alguns temas bastante semelhantes ao filme do Kleber Mendonça e Juliano Dornelles, colocando o protagonismo e a ação da trama nas mãos dos personagens oprimidos, que se unem vigorosamente para proteger os seus. O filme de Joon-Ho Bong é selvagem como o brasileiro e não quer saber de sutileza ao tratar do tema da desigualdade social, levando o espectador a se questionar sobre quem é o real parasita nessa história: a família miserável que usa métodos questionáveis para trabalhar na casa de outra família ridiculamente rica ou esses últimos, que vivendo em uma realidade de regalias imorais, acreditam que podem resolver todos os seus poucos problemas com uma quantia insignificante de dinheiro a mais combinada a uma dose de humilhação.
Apesar da linguagem ser outra, não consegui deixar de relacionar esse filme a Boyhood de Richard Linklater. Isso porque, apesar de ser um documentário e ter uma escala de produção um tanto mais modesta, Homem Comum partilha uma intenção semelhante: fazer uma reflexão sobre a vida e o passar do tempo através de um ser humano absolutamente comum. Ao confrontar o documentado Nilson de Paula com perguntas sobre o sentido de tudo e com um filme dinamarquês denso e reflexivo, o diretor Carlos Nader faz o papel romântico de tentar extrair do retratado algumas emoções escondidas, enquanto Nilson, nunca compreendendo exatamente o que quer dizer, responde sempre algo que não era a intenção do documentarista. Sendo assim, Nilson faz o filme. Já que obriga a todo momento Nader a mudar o foco, inclusive chamando o cineasta novamente a trabalhar em seu documentário quando já havia desistido, por não saber exatamente o que fazer com o material. Coube ao diretor entender a sensibilidade que havia em seu filme e monta-lo de acordo com as diretrizes que Nilson deixou.
Talvez o filme mais normal da carreira de Tim Burton. Ao contar a história de uma mulher que tem sua propriedade artística roubada pelo marido, Burton tenta ser fiel a biografia de Margaret Keane, homenagear seu trabalho que possui alguma similaridade e expressividade ao seu próprio, além de fazer uma crítica ao machismo enraizado na sociedade. Mesmo honesto em sua intenção e sendo incapaz de realizar um filme feio, falta ousadia para que Grandes Olhos seja algo acima da média. Atrapalha o roteiro redondinho e previsível, preso a obrigação biográfica e sem espaço para a criatividade que deveria existir em uma história sobre uma artista com um trabalho tão incomum.
Ao adaptar a peça de Sófocles, Pasolini não se limita em recriar os significados originais da obra. Trazendo parte da história para a Itália contemporânea, o diretor faz uma correlação entre o mito e a sociedade em que estava pessoalmente inserido, dando um caráter por vezes autobiográfico ao personagem central e destacando a atemporalidade da tragédia.
Wim Wenders e Juliano Ribeiro Salgado fazem da experiência de assistir a esse filme algo próximo de uma conversa com alguém cheio de histórias impressionantes para contar, ao mesmo tempo que um álbum de fotografias é aberto como ilustração dessas passagens. Mais do que o documento da vida de Sebastião Salgado, o filme adota uma estrutura simples, permitindo que o artista esmiúce cada foto, falando sobre o contexto em que foi tirada e expondo suas sensações, impressões e o peso emocional que cada momento histórico em que estava presente traria, afetando diretamente sua vida e seus trabalhos futuros.
Cronenberg vai tão longe ao criticar o estilo de vida das celebridades da indústria de filmes de hollywood, que em certo ponto aparenta estar dirigindo uma fantasia indigesta, recheada de personagens absurdos e caricatos que, sem nenhum pudor ou limite e movidos pelo ego, demonstram estar em constante estado de alucinação pelo poder. Apesar de abraçar esse tema acertadamente sem nenhuma sutileza e contar com uma performance insana de Julianne Moore, o filme, quase contraditoriamente, é pouco imaginativo e apela para visões que geram as principais ações dos personagens, o que acaba sendo desnecessário em um mundo tão cheio de excessos.
Quando assisti ao primeiro da série, lembro que, apesar de ter achado bacana, me incomodei com o tom juvenil que impregnava todos os momentos do filme. Não que tenha problemas com isso, mas naquele caso, uma abordagem mais violenta fazia mais sentido. Afinal, era um longa sobre uma sociedade que se estruturava através da repressão e de um jogo anual onde pessoas comuns deveriam se matar até que apenas uma restasse. É ilógico que um tema como esse seja tratado com leveza, mesmo assim, na medida do possível, todos os esforços foram feitos e Jogos Vorazes é um filme com apelo adolescente. O segundo já seguiu por um caminho mais complicado, somando tópicos mais difíceis de se trabalhar e confiando mais na maturidade de seu público. Já esse terceiro quase abandona a necessidade de agradar uma faixa etária e tem mais coisas a oferecer, é o mais sci-fi e político dos três, além de usar a mídia como principal arma, tanto para a revolução, quanto para a repressão. Não é de hoje que tenho uma queda por discussões reais e contemporâneas em universos fantasiosos. Adiciona personagens interessantes e não foge, nem ameniza conflitos imprescindíveis para que a história evolua para um novo patamar. Que bom que o público envelhece e que em alguns casos, o sucesso de uma série cinematográfica acabe relaxando a rigidez dos estúdios, dando mais liberdade aos criadores.
Quando fui apresentado ao trio de mulheres absolutamente diferentes entre si no primeiro terço do filme, não cheguei ao ponto e não compreendi suas funções para a história. Suas personalidades não combinavam e não achei possível sua proximidade. A partir do início do segundo terço, Tabu mergulha em um longo flashback sobre a vida incrível de uma das personagens e é então que começa a dar sentido para o momento das três senhoras. Miguel Gomes surpreende principalmente pela mudança de linguagem. O filme que começa sonoro, logo se transforma em mudo, apenas com sons diegéticos. A paisagem opressora e escura dos apartamentos, dão lugar a paisagens amplas e iluminadas em uma fazenda na África. O diretor opta por uma ruptura brusca na narrativa, mas essa variação de espaço, tempo e estilo não só se fundamenta, como é essencial para a criação da personagem central.
Uma característica que me faz gostar bastante do Scorsese é que, ao contrário de outros diretores que amo, suas marcas registradas são sutis. Não acho tão fácil identificar um filme seu sem ler o nome nos créditos. Não tão fácil, como, por exemplo, um de Tarantino, Jeunet, Hitchcock, Polanski, Trier ou vários outros. Isso não quer dizer que o acho melhor ou pior, mas sim que o torna um grande diretor diferente, que procura moldar seu estilo de acordo com o filme e não o contrário. Dito isso, Cabo do Medo, apesar de ter claras referências aos filmes de Hitchcock e ter algumas passagens marcantes que só poderiam ser realizadas por um diretor de calibre, soa, no geral, como um filme moldado para entreter em um chuvoso sábado a noite, com pizza! Longe de ser um demérito, alguém precisa pensar em dias assim. É divertido vê-lo dirigir um roteiro, que apesar de bem correto, se encaixa em uma formula, desde a época em que foi escrito, já bem batida de filmes de suspense que começam com a apresentação do problema, intensificam o conflito durante toda a narrativa e terminam em um ápice de confronto.
Marty Supreme
3.7 317 Assista AgoraNesses últimos três anos da premiação, o Oscar tem indicado sempre um filme que recebe uma avalanche de indicações, mas que me soa como uma fraude. Nas duas últimas edições tivemos Emília Perez e o vencedor Oppenheimer. Nesta edição, temos Marty Supreme.
Acho que essa sensação de fraude vem do fato de serem filmes muito bem produzidos, com questões técnicas bem resolvidas e uma temática revestida de um verniz de alta importância, mas que, num olhar mais aprofundado, acabam se mostrando frágeis tematicamente, pobres em suas visões críticas e dependentes de gambiarras narrativas para tentar provar um ponto.
Aqui temos Timothée Chalamet em seu modo blasé de sempre, porém apostando no “quanto mais, melhor” interpretativo. Ele e DiCaprio parecem vir da mesma escola para mim: o tipo de ator que interpreta para a câmera, sempre muito técnico, porém sem sensibilidade real. A diferença é que, neste ano, um é o ponto fraco de um filmaço, e o outro está em um filme tão fingido quanto sua própria performance.
Safdie já fez isso antes e muito melhor. Em Joias Brutas, ele joga seu personagem malandro e cheio de lábia em uma espiral de más decisões que vão desencadeando consequências cada vez piores. Porém, naquele filme, ele não tentava fazer a gente gostar de seu protagonista, nem transformá-lo em objeto de admiração. E esse é o ponto central de eu não ter gostado de Marty Supreme: nesse filme, Safdie trata seu protagonista como um babaca, sim, mas como um babaca admirável e que se acha muito mais interessante do que realmente é.
Marty é um arrogante egocêntrico. Passa o filme inteiro tratando todos como acessórios de seus desejos pessoais, assim como Safdie faz com seus coadjuvantes, que nunca parecem agir como protagonistas das próprias histórias. Marty abandona e se aproveita da mãe, da mulher grávida, de parceiros profissionais, adversários esportivos e amigos próximos.
Também me incomoda profundamente a forma como o amigo negro é utilizado apenas para gerar alguma simpatia pelo protagonista, e não como um personagem de verdade, com nuances ou força dramática própria. Isso me fez lembrar de O Brutalista, outro filme recente, igualmente ambientado em parte nos anos 50, que adota a mesma estratégia: um protagonista antipático que tem um amigo negro sem qualquer traço de personalidade, presente apenas para tentar induzir uma simpatia instantânea do espectador pelo protagonista branco, afinal, ele não pode ser uma pessoa tão má assim se é amigo de um homem negro nos anos 50. Enfim, lá e aqui, esses personagens aparecem e desaparecem da trama sem qualquer peso narrativo.
Essa falta de interesse pelos personagens e o foco quase ininterrupto em Marty (que ainda carrega a autoestima inabalável e insuportável de um estadunidense que pode tudo) tornam o filme difícil de engolir para mim. Apesar de alguém citar aqui e ali as falhas de caráter de Marty, o filme insiste em buscar nossa simpatia ou admiração por esse cara, partindo do pressuposto de que, no fundo, ele é legal, interessante e admirável. Tudo isso culmina em um fechamento com tentativa de redenção que não condiz com qualquer traço de personalidade previamente apresentado. Isso passa por um choro típico de Oscar bait, ligado a algo que, até então, o próprio personagem negava como algo que lhe pertencesse.
Marty não é um cara legal, Chalamet não tem tempero e Safdie já fez bem melhor.
O Reformatório Nickel
3.3 158Para um filme que propõe quase que literalmente a ideia de se colocar na pele de outras pessoas, achei tudo um tanto frio. Não que eu esperasse um melodrama ou algo emocionalmente apelativo, mas a fotografia é tão dura e a montagem salta tanto no tempo, que o filme parece ativamente não permitir uma conexão com a história. É uma pena, porque há boas interpretações e um coração escondido em algum lugar.
Emilia Pérez
2.4 483 Assista AgoraAlém da representação eurocêntrica e desconjuntada sobre a América Latina e das músicas ruins, das melodias mal elaboradas às letras breguinhas, o filme tem, no mínimo, um discurso estranho sobre a transexualidade. Aquele bem neoliberal do meme do avião jogando bomba com a bandeira LGBT+ estampada na lataria, sabe? Emilia Pérez tem um passado recente de morte, desfruta da riqueza que acumulou às custas da violência e do sofrimento de muitos, porém o filme a isenta de problematização, porque afinal, ela foi uma chefe do tráfico TRANS, ela montou uma ONG, ela é poderosa e foda pra caralho! Só que não...
O filme a vê quase como uma santidade e esvazia qualquer discussão mais interessante, complexa e madura que poderia ter, desperdiçando a ótima premissa. Eu não entendo a comoção que esse filme tem causado em muitas pessoas. É o Oppenheimer do ano.
Uncharted: Fora do Mapa
3.1 492 Assista AgoraTransformaram Uncharted no filme fetiche do hétero top. Bom pra ver num domingão, depois de encher o bucho de carne e cerveja. Não é um elogio.
Batman
4.0 1,9K Assista AgoraExiste um grande diretor no Matt Reeves, preso em releituras de filmes franquia e universos fantasiosos que querem não ser, apesar de gostar bastante do trabalho dele em Planeta dos Macacos. Adoraria ver algo original desde o início feito por ele.
Quanto ao Batman, o tom é de tanta auto importância adulta, que eu sinto uma forte estranheza na figura de um homem fantasiado de morcego andando por aí e sendo levado a sério. Me faz sentir saudade dos filmes do Tim Burton, que abraçavam o cartunesco, o fantasioso e a excentricidade das personagens, vilões e heróis.
Acho que saturei total dessas figuras dos filmes mais recentes da DC e Marvel, que apesar das diferenças entre si, trazem sempre essa aura de seriedade e reverência, mesmo nos filmes mais coloridos da Marvel. Acho sintomático estarmos em uma era em que o subgênero "super herói" seja o que mais leva pessoas adultas ao cinema.
A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas
4.0 496A impressão que dá é de uma animação construída e lapidada através de algoritmos das redes sociais e serviços de streaming. Uma superdose de quadrinhos e cultura pop. Cores, traços e movimentos na concepção dos personagens e cenários que sempre apostam no mais estridente possível. Uma superficialidade contínua nos temas e uma constante impressão de que o filme tá tentando desesperadamente arrancar serotonina do seu cérebro a todo custo ao mesmo tempo que tenta criticar o excesso de informação a que somos expostos nas redes a todo momento.
A narrativa é moldada para encaixar nas piadas, nas referências, nas pequenas irreverências e não o contrário. Não importa se grandes eventos serão solucionados por coincidências convenientes para o roteiro a cada 5 minutos, impedindo que qualquer sensação de tensão real aconteça. A overdose de "sacadinhas espertas" está lá apesar da história e não a favor dela e isso me incomodou do início ao fim do filme.
É uma pena porque no miolo existe um comentário doce e aparentemente sincero sobre o amor familiar, mesmo que apelando pro clichê da família disfuncional que briga, mas que se ama em uma história que é fácil prever o que vai acontecer do início ao fim.
Acho que a parte que mais gostei foi ver as fotos da equipe de produção e membros do elenco com as pessoas que amam nos créditos finais.
King Richard: Criando Campeãs
3.8 419Falas emocionais com olhos marejados e uma grande dose de conversa neoliberal meritocrata.
Mass
4.0 70 Assista AgoraNem imagino o pesadelo que deve ter sido decupar esse roteiro. Ao mesmo tempo, o sonho de qualquer boa atriz/ator. Eu daria os prêmios todos da temporada para os quatro.
Não Olhe para Cima
3.7 1,9K Assista AgoraO que mais gostei na sátira sobre negacionismo, neoliberalismo, positividade tóxica, falta de senso de coletividade e culto ao poder de Mckay é que ele entende que seu filme é fruto de uma época tão cega, burra e doente, que trabalhar com a elegância narrativa da sutileza não faria muito sentido. Ao menos se a intenção fosse causar um mínimo de impacto em quem precisa.
Essa falta de delicadeza nas mensagens do filme, faz uma rima divertida com a própria situação dos personagens de Lawrence e DiCaprio. Que mesmo literalmente gritando em rede nacional, não conseguem se fazer ouvir e muito menos compreender.
Hoje, pra bom entendedor, meia palavra talvez não baste mais.
Imperdoável
3.6 531 Assista AgoraCheguei ao final de "Imperdoável" com um sentimento de frustração, não por mim, mas pela equipe do filme. Isso porque é possível ver que houve afeto envolvido e uma real vontade de criar uma obra com algo a dizer dentro de um tema bastante importante e pouco explorado dentro do cinema de Hollywood. E realmente, dentro da primeira hora existe um trabalho cuidadoso, um estudo de personagens, sobre uma mulher largada dentro da sociedade depois de 20 anos presa e como sua liberdade, mesmo que comprometida, movimenta significativamente a vida de pessoas ligadas a sua história.
Portanto é uma pena que o filme em sua segunda metade abandone o que até então tinha construído para abraçar uma tentativa frágil de se tornar um thriller de reviravoltas, aparentemente com a intenção boba e desnecessária de buscar redenção e uma empatia maior pela personagem de Bullock, que consegue em uma das performances mais maduras de sua carreira, estimular a reflexão sobre a existência complexa de Ruth.
"Imperdoável" é um filme que quer com muita vontade ser relevante e estimular debate, mas que parece não confiar na sua própria elaboração do roteiro e personagens, se acovardando no meio do caminho ao se direcionar para soluções menos espinhosas e eticamente mais palatáveis do que havia desenvolvido até então.
Ataque dos Cães
3.7 936Admiro muito como Jane Campion descasca seus personagens aos poucos, partindo de estereótipos bastante humanos e nunca desinteressantes e óbvios, mas que aos poucos desabrocham em suas reais vontades, desconfortos e desejos, escondidos atrás de uma auto repressão latente. Um estudo inteligente e consciente sobre a cultura da masculinidade em qualquer época.
Nova Ordem
3.0 45 Assista AgoraDe metáforas óbvias à reflexões simplistas, Michel Franco constrói um filme de muito mal gosto e que presta um desserviço a qualquer um que pretende se aprofundar sobre a temática da luta de classes.
Mank
3.2 461 Assista AgoraBonito e tecnicamente cuidadoso, mas um exercício de ego frágil e insosso.
A Escolhida
3.5 297Janelle Monáe levantando da cama dando um mortal para trás e saindo do quarto de fininho com passos de dinossauro me fez rir mais do que qualquer comédia que assisti em 2020.
Entre Facas e Segredos
4.0 1,5K Assista AgoraA melhor adaptação de um livro da Agatha Christie que ela nunca escreveu.
Parasita
4.5 3,7K Assista AgoraAcho curioso esse filme ter estado na competitiva de Cannes junto a Bacurau, ambos saindo premiados. Apesar de completamente diferente cultural e estéticamente, trata de alguns temas bastante semelhantes ao filme do Kleber Mendonça e Juliano Dornelles, colocando o protagonismo e a ação da trama nas mãos dos personagens oprimidos, que se unem vigorosamente para proteger os seus. O filme de Joon-Ho Bong é selvagem como o brasileiro e não quer saber de sutileza ao tratar do tema da desigualdade social, levando o espectador a se questionar sobre quem é o real parasita nessa história: a família miserável que usa métodos questionáveis para trabalhar na casa de outra família ridiculamente rica ou esses últimos, que vivendo em uma realidade de regalias imorais, acreditam que podem resolver todos os seus poucos problemas com uma quantia insignificante de dinheiro a mais combinada a uma dose de humilhação.
Homem Comum
3.7 14Apesar da linguagem ser outra, não consegui deixar de relacionar esse filme a Boyhood de Richard Linklater. Isso porque, apesar de ser um documentário e ter uma escala de produção um tanto mais modesta, Homem Comum partilha uma intenção semelhante: fazer uma reflexão sobre a vida e o passar do tempo através de um ser humano absolutamente comum. Ao confrontar o documentado Nilson de Paula com perguntas sobre o sentido de tudo e com um filme dinamarquês denso e reflexivo, o diretor Carlos Nader faz o papel romântico de tentar extrair do retratado algumas emoções escondidas, enquanto Nilson, nunca compreendendo exatamente o que quer dizer, responde sempre algo que não era a intenção do documentarista. Sendo assim, Nilson faz o filme. Já que obriga a todo momento Nader a mudar o foco, inclusive chamando o cineasta novamente a trabalhar em seu documentário quando já havia desistido, por não saber exatamente o que fazer com o material. Coube ao diretor entender a sensibilidade que havia em seu filme e monta-lo de acordo com as diretrizes que Nilson deixou.
Grandes Olhos
3.8 1,1K Assista grátisTalvez o filme mais normal da carreira de Tim Burton. Ao contar a história de uma mulher que tem sua propriedade artística roubada pelo marido, Burton tenta ser fiel a biografia de Margaret Keane, homenagear seu trabalho que possui alguma similaridade e expressividade ao seu próprio, além de fazer uma crítica ao machismo enraizado na sociedade. Mesmo honesto em sua intenção e sendo incapaz de realizar um filme feio, falta ousadia para que Grandes Olhos seja algo acima da média. Atrapalha o roteiro redondinho e previsível, preso a obrigação biográfica e sem espaço para a criatividade que deveria existir em uma história sobre uma artista com um trabalho tão incomum.
Édipo Rei
3.8 55Ao adaptar a peça de Sófocles, Pasolini não se limita em recriar os significados originais da obra. Trazendo parte da história para a Itália contemporânea, o diretor faz uma correlação entre o mito e a sociedade em que estava pessoalmente inserido, dando um caráter por vezes autobiográfico ao personagem central e destacando a atemporalidade da tragédia.
O Sal da Terra
4.6 456 Assista AgoraWim Wenders e Juliano Ribeiro Salgado fazem da experiência de assistir a esse filme algo próximo de uma conversa com alguém cheio de histórias impressionantes para contar, ao mesmo tempo que um álbum de fotografias é aberto como ilustração dessas passagens. Mais do que o documento da vida de Sebastião Salgado, o filme adota uma estrutura simples, permitindo que o artista esmiúce cada foto, falando sobre o contexto em que foi tirada e expondo suas sensações, impressões e o peso emocional que cada momento histórico em que estava presente traria, afetando diretamente sua vida e seus trabalhos futuros.
Mapas para as Estrelas
3.3 492 Assista AgoraCronenberg vai tão longe ao criticar o estilo de vida das celebridades da indústria de filmes de hollywood, que em certo ponto aparenta estar dirigindo uma fantasia indigesta, recheada de personagens absurdos e caricatos que, sem nenhum pudor ou limite e movidos pelo ego, demonstram estar em constante estado de alucinação pelo poder. Apesar de abraçar esse tema acertadamente sem nenhuma sutileza e contar com uma performance insana de Julianne Moore, o filme, quase contraditoriamente, é pouco imaginativo e apela para visões que geram as principais ações dos personagens, o que acaba sendo desnecessário em um mundo tão cheio de excessos.
Jogos Vorazes: A Esperança - Parte 1
3.8 2,4K Assista AgoraQuando assisti ao primeiro da série, lembro que, apesar de ter achado bacana, me incomodei com o tom juvenil que impregnava todos os momentos do filme. Não que tenha problemas com isso, mas naquele caso, uma abordagem mais violenta fazia mais sentido. Afinal, era um longa sobre uma sociedade que se estruturava através da repressão e de um jogo anual onde pessoas comuns deveriam se matar até que apenas uma restasse. É ilógico que um tema como esse seja tratado com leveza, mesmo assim, na medida do possível, todos os esforços foram feitos e Jogos Vorazes é um filme com apelo adolescente. O segundo já seguiu por um caminho mais complicado, somando tópicos mais difíceis de se trabalhar e confiando mais na maturidade de seu público. Já esse terceiro quase abandona a necessidade de agradar uma faixa etária e tem mais coisas a oferecer, é o mais sci-fi e político dos três, além de usar a mídia como principal arma, tanto para a revolução, quanto para a repressão. Não é de hoje que tenho uma queda por discussões reais e contemporâneas em universos fantasiosos. Adiciona personagens interessantes e não foge, nem ameniza conflitos imprescindíveis para que a história evolua para um novo patamar. Que bom que o público envelhece e que em alguns casos, o sucesso de uma série cinematográfica acabe relaxando a rigidez dos estúdios, dando mais liberdade aos criadores.
Tabu
4.1 109 Assista AgoraQuando fui apresentado ao trio de mulheres absolutamente diferentes entre si no primeiro terço do filme, não cheguei ao ponto e não compreendi suas funções para a história. Suas personalidades não combinavam e não achei possível sua proximidade. A partir do início do segundo terço, Tabu mergulha em um longo flashback sobre a vida incrível de uma das personagens e é então que começa a dar sentido para o momento das três senhoras. Miguel Gomes surpreende principalmente pela mudança de linguagem. O filme que começa sonoro, logo se transforma em mudo, apenas com sons diegéticos. A paisagem opressora e escura dos apartamentos, dão lugar a paisagens amplas e iluminadas em uma fazenda na África. O diretor opta por uma ruptura brusca na narrativa, mas essa variação de espaço, tempo e estilo não só se fundamenta, como é essencial para a criação da personagem central.
Cabo do Medo
3.8 945 Assista AgoraUma característica que me faz gostar bastante do Scorsese é que, ao contrário de outros diretores que amo, suas marcas registradas são sutis. Não acho tão fácil identificar um filme seu sem ler o nome nos créditos. Não tão fácil, como, por exemplo, um de Tarantino, Jeunet, Hitchcock, Polanski, Trier ou vários outros. Isso não quer dizer que o acho melhor ou pior, mas sim que o torna um grande diretor diferente, que procura moldar seu estilo de acordo com o filme e não o contrário. Dito isso, Cabo do Medo, apesar de ter claras referências aos filmes de Hitchcock e ter algumas passagens marcantes que só poderiam ser realizadas por um diretor de calibre, soa, no geral, como um filme moldado para entreter em um chuvoso sábado a noite, com pizza! Longe de ser um demérito, alguém precisa pensar em dias assim. É divertido vê-lo dirigir um roteiro, que apesar de bem correto, se encaixa em uma formula, desde a época em que foi escrito, já bem batida de filmes de suspense que começam com a apresentação do problema, intensificam o conflito durante toda a narrativa e terminam em um ápice de confronto.