Documentário essencial para qualquer fã de cinema, ainda mais se for uma pessoa que acompanha temporada de premiação. Gostei de saber mais sobre a Diane e também sobre algumas de suas principais composições. Acompanhamos também um pouco da sua relação quase obsessiva com o Oscar até finalmente receber um reconhecimento honorário da academia.
A música concorrente deste ano, apesar de ser um projeto muito pessoal, realmente não é tão boa. Porém é sempre bom ver a artista concorrendo, e apesar de ela já ter um prêmio por suas contribuições, espero que algum dia ela vença diretamente por algum trabalho.
"Hamnet" traz a catarse artística que sucede o luto da maior dor que um ser humano pode enfrentar, a perda de um filho.
Chloé Zhao conduz o filme com uma direção a princípio contida para construir a beleza de um lar vivo quase perfeito, com planos amplos realçando belezas naturais e a dinâmica familiar. Aos poucos, conforme a alegria dá lugar à angústia, a diretora invade o ambiente com planos mais fechados, sufocando seus personagens em uma sensação de impotência que contagia até quem está assistindo. Em determinados momentos o tom do filme se torna um pouco manipulativo ao dramatizar demais a história, e no final a diretora pesa a mão; o encerramento estava lindo com a encenação de Hamlet, mas alguns excessos tornaram o trecho meio pretensioso, especialmente envolvendo uma ação coletiva que, para mim, não funcionou. E a trilha sonora utilizada me tirou um pouco da cena por ser algo já batido, talvez o silêncio tivesse valorizado mais o momento retratado.
O roteiro subverte o senso comum de representar Shakespeare como gênio, deixando-o na sombra enquanto sua esposa Agnes assume o protagonismo. É simbólico que o nome do escritor seja pronunciado uma única vez em todo o filme; o “gênio” aqui está contido, mais humano e frágil. Há apenas um monólogo que parece ter sido escrito para funcionar como um lapso de genialidade de William, mas acaba destoando. Em contrapartida, a atenção que o texto dedica à esposa é o que sustenta o tom emotivo do longa: trata-se de uma protagonista cheia de camadas, que assume o difícil papel de cuidar da casa enquanto lida com o luto praticamente sozinha.
Jessie Buckley entrega uma performance inspiradora e emocionante; a direção lhe dá bastante espaço para reagir ao que é dito e ao que acontece, e a atriz extrai o máximo disso com intensidade e vibração. Paul Mescal demora um pouco para convencer, em parte porque o roteiro não lhe oferece tanto espaço. Ainda assim, sua atuação cresce junto do personagem quando ele é mais exigido em momentos de maior carga emocional. Também gostei muito do elenco mirim, em especial Jacobi Jupe, que interpreta Hamnet com grande carisma.
"Hamnet" desconstrói um gênio enquanto ilumina uma protagonista silenciosa da qual o mundo muitas vezes esquece que existiu. É uma história sobre distintas abordagens do luto e sobre como a arte pode transformar esse sentimento em algo suportável.
Interessante como "Kokuho" traz uma história sobre uma arte pouco conhecida no resto do mundo, neste caso, o kabuki.
Sang-il Lee conduz o filme com muito carinho e explora os detalhes minuciosos que tornam o treinamento para o kabuki tão intenso. Os momentos teatrais são quando a direção mais brilha; é recompensador acompanhar o resultado final de tanto trabalho duro. Lee tem um olhar sensível à arte dentro de sua obra, colocando o espectador em uma visão privilegiada ao mesclar bastidores com o espetáculo teatral sem perder o ritmo.
Sobre a duração, fiquei com um sentimento dúbio. Sim, é um filme excessivamente longo, mas ele aborda muita coisa de uma vez. No final, fiquei imaginando como seria uma trilogia de "Kokuho". Alguns lapsos temporais contam pequenos fragmentos de uma história com lacunas; compreendemos o que aconteceu, mas faltaram camadas. Para um único filme, é realmente longo e um pouco cansativo. Caso fosse dividido em três partes e desenvolvessem melhor cada etapa, poderia se tornar uma história mais coesa e encorpada.
O roteiro acaba pecando justamente por isso que citei: há muita coisa acontecendo ao mesmo tempo e sem o respiro necessário para digerirmos os acontecimentos. Ainda assim, o longa brilha quando se trata de estudo de personagem e em relação às consequências de uma vida inteira dedicada a uma arte. O protagonista se vê completamente imerso naquele universo e cego de qualquer discernimento que possa humanizá-lo, pois foi criado para ser o maior. Um ponto que senti faltar foi a exploração mais aprofundada da relação do personagem com a Yakuza. No início, acreditamos que isso terá importância ao longo da narrativa, mas, na maior parte do tempo, torna-se apenas um detalhe facilmente esquecido.
Kikuo é interpretado por Sōya Kurokawa na adolescência e por Ryo Yoshizawa na maior parte de sua vida. Ambos os atores dão vida ao protagonista de forma muito honesta: o primeiro apresenta um garoto mais inseguro, buscando seu lugar, enquanto o segundo entrega um Kikuo mais confiante, conforme o texto exige, sem deixar de evidenciar suas fragilidades pontuais. A entrega corporal de ambos também merece destaque e realça ainda mais a beleza do kabuki.
"Kokuho" é um estudo cultural de grande valor artístico que, apesar de pecar em sua estrutura narrativa, entrega um universo interessantíssimo de conhecer e acompanhar em todo o seu desenrolar.
"Marty Supreme" é uma "ficção biográfica" que distorce pessoas reais para ter liberdade de contar a história à sua própria maneira.
Josh Safdie conduz o filme com um tom bastante assertivo e, mesmo sendo longo, em momento algum dá espaço para o tédio. Somos constantemente bombardeados por situações que desencadeiam novas consequências, criando um efeito dominó contínuo. O diretor transita entre tensão, drama e comédia sem perder o controle ou tornar o longa pretensioso. Há também muitos enquadramentos fechados e claustrofóbicos que, somados à câmera na mão, mantêm constante o senso de urgência que a narrativa quer transmitir.
O roteiro não faz questão de transformar o protagonista em um típico "herói" que filmes sobre esporte costumam retratar. Aqui, Marty é falho e, mesmo tomando decisões equivocadas o tempo inteiro, nos pegamos torcendo por ele. É interessante notar como ele encara problemas sérios e sensíveis. Uma sequência que ilustra bem isso é quando ele pede para um personagem contar uma história envolvendo mel em tom jocoso, quando, na verdade, a situação é profundamente triste e surpreende pela forma como é conduzida.
Apesar de seu caráter duvidoso e de escolhas questionáveis, vemos lapsos de humanidade nos poucos momentos em que Marty parece realmente se importar com quem está ao seu lado, o que nos aproxima dele. O final reforça essa dimensão e encerra a trajetória de maneira satisfatória.
Para algumas pessoas, a experiência pode soar cansativa pela quantidade de informação em um filme de longa duração. Para mim, porém, isso não pesou em nenhum momento. Os diálogos são muito bem escritos e servem diretamente ao desenvolvimento da narrativa, fazendo a tensão crescer a cada cena. Não há espaço para trivialidades, cada linha carrega uma motivação e uma consequência.
Timothée Chalamet está impecável e este é, até agora, seu melhor papel. Ele incorpora com precisão a figura do homem obstinado, capaz de tudo para vencer. Seu trabalho corporal entrega a intensidade necessária ao personagem, e seu carisma é o que nos faz simpatizar com ele até nos momentos mais difíceis. Odessa A'zion tem um desenvolvimento maior do que eu imaginei. Sua personagem possui motivações próprias e também toma decisões questionáveis, o que me fez criar por ela o mesmo apego que senti por Marty. Tyler, the Creator, mesmo com pouco tempo de tela, entrega uma atuação carismática e marcante, apoiando o protagonista sem perder sua própria individualidade e conflitos.
"Marty Supreme" entrega uma história sobre obsessão pelo sucesso com a intensidade que essa premissa exige. É um filme sufocante, mas que encontra leveza e sarcasmo nos momentos certos. Mesmo extenso, é satisfatório do início ao fim e é o tipo de obra que permanece na memória.
"If I Had Legs I'd Kick You" traz uma performance feminina marcante e uma história impactante sobre pressão social e suas consequências.
A diretora Mary Bronstein conduz o longa de forma propositalmente claustrofóbica e angustiante, com enquadramentos fechados que enfatizam o desconforto constante da protagonista. O estilo frenético da montagem dita um ritmo acelerado, e a sucessão de acontecimentos nos mantém em alerta, atentos ao que virá em seguida. Ainda assim, acredito que alguns momentos foram interrompidos cedo demais, especialmente certas situações que não se resolvem em cena, o que acaba gerando uma frustração pontual.
O roteiro não tem qualquer complacência com a protagonista, e nós tampouco conseguimos deixar de sentir por ela. É interessante perceber como a obra subverte a visão tradicional da dona de casa: aqui, a maternidade se torna a principal engrenagem para que sua vida se transforme em uma bola de neve caótica. Senti falta, porém, de um momento mais claro de respiro ou catarse. A personagem é constantemente bombardeada por situações tensas até o fim, e esse acúmulo torna a experiência por vezes cansativa e pouco recompensadora. Há algo próximo disso no desfecho, mas não foi suficiente para me convencer.
Rose Byrne encarna sua personagem de corpo e alma; sentimos em seu rosto e em suas expressões o quanto aquela realidade é exaustiva. Suas compulsões e tiques dão identidade e veracidade à figura que constrói. Conan O'Brien surpreende ao interpretar um terapeuta apático e, em certos momentos, irritante, afastando-se completamente da imagem divertida que temos dele. Já A$AP Rocky está muito bem e é o único que oferece alguma atenção genuína à protagonista, evidenciando como ela lida com alguém que tenta ajudá-la, algo a que claramente não está acostumada.
"If I Had Legs I'd Kick You" peca um pouco em seus próprios excessos, mas ainda assim apresenta reflexões pertinentes sobre maternidade e as cobranças impostas às figuras femininas, especialmente quando lhes falta o apoio necessário.
"Arco" traz um estilo de animação único e uma história que apesar de parecer simples, é tocante e aborda temas como amizade, pertencimento e meio ambiente sem perder a fluidez narrativa. Apesar de ser um filme leve, ele sabe te emocionar nos momentos necessários.
O desenvolvimento dos personagens é competente e nos faz ter empatia por todos. A dupla de protagonistas tem uma boa química e o roteiro desenvolve a relação deles de um jeito muito natural e gostoso de acompanhar, a amizade deles é verdadeira e emocionante. Até os antagonistas, dos quais eu não estava gostando por causa do jeito "atrapalhado" digno de vilão de desenho animado, após descobrir sua motivação passei a compreendê-los melhor, além de terem um impacto narrativo importante.
"Arco" é o tipo de animação que comove tanto adulto quanto criança, uma experiência original, divertida e tocante. Seu desfecho poderia ter sido melhor explorado, porém o final foi satisfatório.
A animação em si é divertida, tem piadas engraçadas e é gostoso de acompanhar a relação entre o raposo e a coelha, as diferentes personalidades são bem exploradas.
Porém a história além de não ser muito atrativa, apresenta personagens que não funcionaram para mim (me perdoem, aquela cobra é chatinha...) além de muitas vezes se perder em um excesso de informação e/ou acontecimento que não permite que a gente absorva os sentimentos que o filme quer passar. Tem pelo menos uns dois momentos que deveriam ser emocionante, mas que não há o tempo necessário para que este sentimento se estabeleça antes de acontecer algo frenético novamente.
“Sentimental Value” constrói seus personagens por meio de camadas e subtextos, contando uma história através do detalhe e do silêncio.
A direção de Joachim Trier demonstra enorme sensibilidade ao observar conflitos íntimos. A câmera repousa, paciente, aguardando as reações dos atores para que compreendamos seus sentimentos pela expressividade. Trata-se de uma experiência sensorial, pouco verbalizada, e narrar dessa forma exige uma complexidade que o diretor domina com segurança. Por ser um longa denso e de ritmo cadenciado, é natural que parte do público não se conecte e o considere arrastado; ainda assim, essa escolha faz parte da própria identidade da obra.
O roteiro caminha em harmonia com a direção e desenvolve a trama com cautela. O texto carrega um realismo palpável, e a maneira como tudo se concentra naquele microcosmo familiar (especialmente dentro da casa) nos insere na dinâmica daquelas relações. Somos espectadores, mas a proximidade é tamanha que quase compartilhamos o peso emocional vivido pelos personagens. Os conflitos emergem e evoluem com sutileza, sem recorrer a artifícios rasos ou explosões dramáticas exageradas. O foco está na forma como cada personagem absorve e reage aos diálogos, e é nisso que reside a força da narrativa.
Stellan Skarsgård e Renate Reinsve conduzem o eixo central de maneira envolvente. Ele transmite um afeto torto, cheio de falhas, mas ainda assim genuíno; ela tenta compreender seus próprios traumas enquanto enfrenta batalhas internas constantes. Inga Ibsdotter Lilleaas representa a tentativa de equilíbrio entre as partes, e a atriz traduz bem essa postura conciliadora em meio ao colapso emocional ao redor. Já Elle Fanning confirma sua habilidade em se conectar emocionalmente com uma história da qual sua personagem não participa de forma direta, um papel difícil, que exige delicadeza e precisão.
Embora não seja acessível a todos os gostos, a obra se consolida como um estudo de personagem envolvente e seguro de si. A narrativa se desenrola sem concessões fáceis, mantém um tom consistente e alcança um desfecho emocionalmente poderoso.
"KPop Demon Hunters" tem uma direção de arte muito bem executada, com animações caprichadas e traços visualmente atraentes. Os momentos de ação são dinâmicos e lembram até um jogo de videogame, o que me cativou bastante. O humor provavelmente funciona melhor para quem tem pré-disposição a gostar desse tipo de filme; há momentos mais bobinhos, com aquele excesso de expressões caricatas típicos desse tipo de animação, mas ainda assim existem passagens que divertem mesmo sendo adulto. É importante dizer que não sou o público-alvo, então acredito que, dentro da proposta, funciona bem.
O roteiro não traz grandes inovações e a mensagem pode soar um pouco batida. Senti que o principal antagonista e seu desfecho poderiam ter sido melhor explorados. Ainda assim, gosto da forma como a história é segmentada e conduzida sem enrolação: é um filme leve, direto e com duração enxuta.
Não sou muito ligado em K-pop, então as músicas claramente não foram pensadas para mim. Ainda assim, é impossível negar que são bem produzidas e extremamente grudentas. Sem dúvida, são o ponto alto do filme, e suas inserções acontecem nos momentos certos, sem transformar a animação em algo excessivamente musical ou forçado.
Apesar de ter um público-alvo relativamente nichado, "KPop Demon Hunters" consegue entreter quem está disposto a assistir de mente aberta. É uma animação agradável, que não reinventa a roda, mas entrega uma história simpática e bem executada.
"Sirāt" é contemplação em meio ao caos e conduz o espectador a uma jornada onde o senso de perigo paira no ar, porém seu impacto poderia ser melhor aproveitado.
A direção de Oliver Laxe consegue transmitir a beleza árida em um contexto extremamente sensível para todos os envolvidos no filme, nós compreendemos como esse senso de liberdade é importante para estes jovens, e mesmo sem nunca sabermos explicitamente qual o conflito ocorrendo, a iminência do perigo acompanha toda a história. O som sempre grave e sufocante em harmonia com a fotografia e suas paisagens abertas apresentam uma dicotomia muito palpável, é uma experiência sensorial e bem executada.
No entanto, o roteiro peca no seu desenvolvimento. Ele começa apresentando um mistério interessante no começo, mas depois se perde nos percalços dignos de um "road movie" pouco envolventes em termos de narrativa. Não temos tanto espaço para conhecer e nos apegar aos personagens, a ideia de unir um cidadão "comum" como o protagonista com essas pessoas mais alternativas poderia render excelentes interações, mas o filme está mais preocupado com a contemplação do que em contar uma história linear, e isso prejudica nossa simpatia por eles a medida em que os problemas começam a surgir na estrada. Demora até algo realmente impactante acontecer, e quando acontece a história já se perde completamente. Não irei me alongar para não entregar spoilers, mas o final não é nada satisfatório.
Não há muito o que falar de atuações, pois o único ator de ofício aqui é o protagonista Sergi López, é interessante ver a maneira com que ele enxerga o mundo que está conhecendo, mas, como eu citei, o roteiro poderia explorar mais. O elenco de apoio sofre com a inexperiência profissional, mas quando o filme dá chance de eles performarem (por exemplo quando começam a dançar) entregam um bom carisma.
"Sirāt" é uma experiência cinematográfica diferente e merece ser apreciado com carinho, porém, no capricho de ser uma obra reflexiva e sensorial faltou pensar mais na coesão narrativa.
"Song Sung Blue" tem uma premissa interessante ao recusar histórias consagradas e nos contar sobre uma figura que, apesar de emblemática em seu segmento, viveu de poucas glórias profissionais.
A direção é de Craig Brewer, que conduz o filme de forma protocolar, mas eficiente. A fotografia é limpa e se mistura a pequenas sequências que emulam filmagens reais de arquivo. O trabalho de figurino e maquiagem acerta em cheio no estilo e na imersão da obra. O diretor também trabalha bem as cenas musicais: são sempre enérgicas, ajudam a manter um ritmo dinâmico e fortalecem a química do casal protagonista. Além disso, a trilha sonora dispensa qualquer tipo de apresentação.
O roteiro apresenta um aspecto que pode ser visto como qualidade ou defeito, dependendo da perspectiva. O filme opta por condensar muitos acontecimentos, mas raramente se aprofunda em algum deles. Conflitos surgem com frequência e são resolvidos com a mesma rapidez. A sensação é de que a intenção seja sensibilizar o público por meio de uma sucessão de momentos dramáticos. Sob o olhar emocional, funciona: é bonito de se ver e reforça como o amor permeia toda a narrativa, ajudando os personagens a superarem seus obstáculos. Já sob uma análise mais racional, percebe-se a falta de uma história mais encorpada, com excesso de acontecimentos para pouco desenvolvimento.
Isso fica evidente em um momento próximo ao final, quando um conflito aparentemente importante é estabelecido. No instante em que os personagens precisam enfrentá-lo, ocorre um lapso temporal e, de repente, tudo está resolvido. É legal e satisfatório ver a resolução, mas ela acontece de forma abrupta, sem que entendamos exatamente como. As soluções parecem fáceis demais.
As atuações dos protagonistas estão ótimas. Hugh Jackman e Kate Hudson demonstram bastante química e sustentam a narrativa com segurança. Jackman se destaca pelo trabalho corporal e por momentos mais performáticos, enquanto Hudson encontra espaço para explorar os dramas pessoais de sua personagem, um dos poucos trechos em que o roteiro permite um desenvolvimento mais consistente. O núcleo familiar também é interessante, embora apenas Ella Anderson receba maior aprofundamento. Ainda assim, teria sido interessante vê-la mais em cena, especialmente por trazer conflitos que vão além do casal protagonista e que acabam pouco explorados.
"Song Sung Blue" é um filme que na ânsia de emocionar o público e fazê-lo se apegar aos personagens, acaba apressando situações que pedem um pouco mais de calma. Em um primeiro momento é bonito e inspirador, porém ao ser racionalizado vemos o subaproveitamento de ideias que poderiam torná-lo inesquecível.
"The Smashing Machine" busca sair do senso comum ao apresentar uma cinebiografia de um lutador sem focar diretamente em sua carreira e cartel, mas sim em seus conflitos internos e interpessoais.
Benny Safdie já consolidou uma cinematografia muito autoral desde Joias Brutas, dirigido ao lado do irmão. Aqui, no entanto, isso não funciona. Falta o dinamismo do trabalho anterior. Os longos planos com câmera na mão, que deveriam dar um aspecto documental à trama, são pouco aproveitados, e as tomadas excessivamente contemplativas soam vazias, como as cenas de personagens caminhando acompanhados por uma câmera aérea que busca apenas um pseudo refinamento visual.
As sequências de luta não inspiram: são curtas e conduzidas de forma irregular. Ou a câmera está próxima demais, prejudicando o entendimento, ou distante demais, comprometendo o impacto.
A trilha sonora, embora apareça em poucos momentos, é repetitiva e cansativa.
O roteiro tenta abordar os dramas de Mark em um recorte específico de sua vida, mas é irregular. Os desentendimentos com sua esposa não soam naturais, e os diálogos são, em sua maioria, expositivos e rasos. Logo no início, há uma cena em que Mark explica como o MMA funciona; além de artificial, ela falha tanto em caracterizá-lo como alguém simpático quanto em explicar o esporte de maneira orgânica.
Além disso, o longa falha em ser informativo. Entendo que a carreira não seja o foco, mas o filme insiste em reforçar que ele é uma “máquina”, enquanto o que vemos é apenas um lutador medíocre. É uma pena, pois Mark Kerr na vida real é muito maior e mais relevante do que o retrato apresentado.
Quanto às atuações, ambos os atores parecem desperdiçados. Dwayne Johnson está esforçado e mantém seu carisma magnético, enquanto Emily Blunt é sempre uma presença satisfatória em tela. Ainda assim, os dois sofrem com um roteiro fraco que limita suas possibilidades emocionais.
"The Smashing Machine" tem uma maquiagem muito bem executada e uma premissa interessante, mas sua execução resulta em um filme decepcionante e entediante na maior parte do tempo.
"One Battle After Another" faz jus ao próprio título ao entregar exatamente o que promete: uma sucessão de acontecimentos que capturam a atenção do início ao fim.
Paul Thomas Anderson conduz o tom do filme como um maestro à frente de sua orquestra. O prólogo apresenta todo o background da história de maneira dinâmica e eficiente, permitindo que acompanhemos seus desdobramentos 16 anos depois já familiarizados com o que aconteceu. A partir daí, não há espaço para desperdício. Mesmo com quase três horas de duração, cada cena tem propósito, cada sequência prepara algo relevante, tudo é conduzido com precisão. PTA também subverte certos conceitos associados a filmes de resgate, especialmente nas cenas de perseguição, que adotam uma perspectiva mais contemplativa e menos frenética. A tensão surge de tomadas abertas em estradas longas e retas, sem o uso exagerado de cortes rápidos, o que torna tudo ainda mais impactante.
O roteiro demonstra maturidade ao abordar o tema da revolução sem romantizar nem demonizar seus envolvidos. Compreendemos as motivações dos revolucionários ao mesmo tempo em que somos confrontados com as consequências de seus atos. Paralelamente, o desenvolvimento do núcleo de personagens é inspirador. Cada elemento não apenas cumpre uma função narrativa essencial, como também possui personalidade própria e identidade marcante. Desde os revolucionários até a misteriosa “sociedade secreta” fictícia, que mesmo com pouco tempo de tela deixa um forte impacto narrativo e carrega um subtexto riquíssimo. Há também o cuidado em não deixar pontas soltas; o espectador termina o filme com a sensação de que tudo o que precisava ser contado foi devidamente encerrado, sem excessos. Assim como a direção, o roteiro mantém controle absoluto do tom, transitando entre diferentes gêneros de forma orgânica, tornando o longa envolvente e divertido, sem jamais perder a tensão e o senso de urgência que atravessam toda a narrativa.
As atuações elevam ainda mais o material. Leonardo DiCaprio entrega um protagonista diferente do esperado, e isso funciona muito bem. Seu personagem desmonta a imagem clássica do herói de guerra ao se apresentar como um ex-revolucionário atrapalhado, ao mesmo tempo em que deixa transparecer vestígios do homem que um dia foi através de suas interações com antigos companheiros. Benicio Del Toro, apesar de surgir mais tarde e ter menos tempo de tela, desperta curiosidade imediata. Sua postura serena transmite a sensação de que ele está sempre no controle, oferecendo ao protagonista (e ao público) uma calma quase reconfortante em meio ao caos. Chase Infiniti cresce ao longo do filme de maneira surpreendente; inicialmente parece ser o elo mais frágil, mas ganha força justamente nos momentos mais decisivos. Teyana Taylor imprime intensidade e paixão no prólogo, sendo fundamental para que sintamos empatia pelo grupo revolucionário, ao mesmo tempo em que revela fragilidade e decisões questionáveis. No entanto, a grande atuação é a de Sean Penn. Seu personagem é detestável, suas ações são desprezíveis, mas seu carisma adiciona camadas que o afastam do clichê do coronel vilanesco. Seus trejeitos, sua maneira de caminhar e sua presença imponente constroem um antagonista vivo, cuja motivação expõe um ego frágil diante das próprias consequências. É uma performance praticamente irretocável.
"One Battle After Another" marca o retorno de PTA em grande estilo, mais uma obra de um diretor que, com enorme probabilidade, verá este filme se consolidar como mais um clássico nos próximos anos.
"Jurassic World Rebirth" é mais uma tentativa de revigorar uma franquia que deveria estar tendo um descanso merecido.
A direção de Gareth Edwards entrega sequências interessantes de ação e tensão, porém peca em fazer esses momentos serem raros a ponto de não sustentar completamente o que estamos assistindo. Os efeitos são legais de assistir, mas faltou inspiração artística, principalmente em alguns momentos contemplativos que o diretor tenta trazer sem qualquer impacto. Sem contar todo o segmento da família que é completamente dispensável, trazendo uma ideia até de domesticar um dinossauro... completamente sem sentido.
O roteiro é paupérrimo, é o velho clichê da empresa malvadona buscando lucro a todo custo, e seu representante nesta trama tem um arco tão mal desenvolvido quanto sua resolução simples e apressada. Os personagens não possuem desenvolvimento e tudo o que sabemos sobre eles é contado em diálogos rasos e que não traz absolutamente nada de relevante.
As atuações pagam o preço por um roteiro superficial, é um desperdício ver atores como Mahershala Ali e Scarlett Johansson conduzindo personagens tão pouco carismáticos.
No fim, "Jurassic World Rebirth" não consegue transformar seu potencial visual em sequências realmente inspiradas. Resta um produto excessivamente protocolar que, em grande parte do tempo, parece mais uma obrigação do que um espetáculo capaz de envolver até os créditos finais.
Admito que estava receoso em assistir a esta adaptação por se tratar de uma história amplamente conhecida e já bastante revisitadas pelo cinema. Ainda assim, fui positivamente surpreendido pelo resultado apresentado.
Guillermo del Toro consegue renovar a narrativa de "Frankenstein" ao conduzi-la por uma perspectiva mais próxima do drama existencial do que do tradicional terror de monstro, tantas vezes explorado a ponto de se tornar caricato. O refinamento estético empregado pelo diretor revela novas camadas a uma criatura menos grotesca e mais sofisticada. É o monstro de Frankenstein mais humano que já vimos, sem que isso descambe para um sentimentalismo exagerado ou um melodrama excessivo.
O roteiro reconstrói a história como uma verdadeira fábula gótica, dividindo o olhar entre o já conhecido cientista obcecado e sua criação, que descobre o mundo enquanto enfrenta as consequências de uma existência marginalizada. No entanto, acredito que o filme tropeça em parte de suas reflexões filosóficas e críticas. Esse aspecto, que deveria ser seu maior diferencial, por vezes se torna redundante, permitindo que você antecipe com facilidade como determinadas sequências irão se desenrolar.
Gosto muito de Oscar Isaac, e aqui ele incorpora com precisão o cientista consumido pelo próprio senso de grandeza. Inicialmente, nutrimos certa empatia por ele, mas rapidamente ele faz questão de revelar o quão desprezível pode se tornar. Jacob Elordi está irretocável ao entregar corpo e alma a uma criatura singular e conceitualmente fascinante; seu trabalho vocal é especialmente impressionante. Menção honrosa para Christoph Waltz sendo... Christoph Waltz, o que por si só já é um atrativo.
"Frankenstein" ressignifica a trajetória de um dos monstros mais icônicos da cultura pop ao colocá-lo no centro de sua própria narrativa e enfatizar sua humanidade. Ainda assim, sua certa autocomplacência compromete o impacto do terror que deveria compor sua essência. Faltou um pouco mais de equilíbrio nesse aspecto.
O choque cultural com este documentário é absurdo, a realidade aqui é retratada com tanta crueza que parece um universo paralelo. Sara é uma mulher forte e é satisfatório ver que apesar dos pesares, ela não está completamente sozinha em sua luta.
Ela pode não ser capaz de mudar a realidade cultural que a cerca, mas com certeza mudará a vida de pelo menos algumas das meninas que a admiram e se inspiram por ela. E com certeza isso já é recompensador.
"Bugonia" é mais uma obra-prima de Yorgos Lanthimos, que sabe utilizar absurdos situacionais para gerar entretenimento ao mesmo tempo em que nos faz viajar na psique de seus personagens peculiares.
Lanthimos já é um diretor bastante consolidado por sua autoralidade, e aqui sua identidade está presente na maneira como ele conduz a trama e os absurdos causados por ela. A tensão entre os conflitos é criada a partir do contraste entre as duas partes, uma sendo mais fria e outra mais impulsiva, e isso resulta em uma série de acontecimentos no final que deixam o espectador curioso para descobrir como irá terminar. Há também um tom ácido nos diálogos, muito presente na filmografia do diretor; em certos momentos, a gente até acha graça de algumas sacadas, mesmo o filme não se apegando a esse propósito.
O roteiro é muito bem escrito, desenvolve a narrativa com passagens afiadas e apresenta críticas a ambos os lados: de um lado, a corporação que trata pessoas como cobaias; do outro, a euforia coletiva causada por teorias conspiratórias e a maneira como se espalham. O final é bem construído, mas a sensação que me deu foi de que faltou "algo". Foi como se o longa quisesse surpreender, porém estivesse com medo de ousar um pouco mais.
Emma Stone entrega mais uma de suas irretocáveis performances ao lado de Lanthimos. Sua personagem transita entre a calma e a explosão em momentos específicos; é um trabalho de muita intensidade e carisma. Jesse Plemons e Aidan Delbis trabalham muito bem como a tradicional "dupla de vilões", em que um é o cérebro e o outro apenas segue ordens. Plemons, no entanto, puxa a atenção para si: ele sempre tem uma resposta ou uma teoria mirabolante para algo apresentado, e o trabalho estético é muito bem realizado. Ele parece perfeitamente um conspiracionista que vive para provar seu ponto.
"Bugonia" apresenta uma guerra narrativa conduzida de forma brilhante, consolidando mais uma história marcante desse excelente (e maluco) diretor.
"Viva Verdi!" é de encher os olhos de qualquer fã de ópera, como é meu caso. As personalidades aqui apresentadas são riquíssimas em conteúdo e carisma, cada um tem sua história e de certo modo todos tem algo em comum, encontram na música o grande pilar da sua existência e razão de vida.
Somos apresentados a grandes músicos e arquivos de valor inestimável para todos que apreciam a boa cultura, suas histórias são inspiradoras. Muito legal também o projeto que eles tem com jovens estudantes de música, é um encontro de geração importante para a construção de novos talentos e também para que os veteranos tenham uma companhia para dividir vivências e conhecimento. A trilha sonora é irretocável, como eu disse, um prato cheio para quem gosta de ópera de qualidade enquanto aprende coisas novas sobre o gênero.
A única coisa que eu gostaria de ter visto mais é o funcionamento estrutural da "Casa Verdi", nós acompanhamos um pouco da rotina dos residentes mas gostaria de ver mais sobre os horários, funcionários, etc. Nada que prejudique a qualidade da obra, é apenas algo que eu senti falta.
"Viva Verdi!" é um documentário muito gostoso e leve de assistir, sobre um projeto que mantém vivo o sonho de tantos artistas que por vários motivos não tiveram o sucesso que um dia almejaram e mereceram. O final é belíssimo, apesar de ser um choque de realidade muito grande em contraste com o que vemos ao longo do doc.
"The Lost Bus" traz o gênero de catástrofe voltando suas atenções a um universo muito pequeno de pessoas, se desvencilhando um pouco do que normalmente vemos em filmes assim, que envolvem grandes nações ou até o mundo inteiro. É sempre bom ver filmes com essa proposta, pois a gente se apega mais aos envolvidos e às suas histórias individuais.
Paul Greengrass é extremamente competente na direção. Ele retrata com detalhes diferentes cenários em uma situação de incêndio em larga escala, as falhas de comunicação entre os serviços e principalmente a maneira como o fogo se espalha, de forma muito verossímil e imersiva. É um filme preocupado em retratar não apenas o fato central, mas também o que acontece ao redor, ainda que de forma superficial.
O roteiro é o clássico “herói improvável”. Por ser uma história meramente baseada em um evento real, existem muitas dramatizações, principalmente no começo. Você se pergunta como é possível alguém ter uma vida tão desgraçada quanto a do nosso protagonista. Conforme o longa se desenvolve, vamos nos afeiçoando a ele, mas ainda assim é uma história carregada de clichês, exposição e previsibilidade. É competente em nos deixar tensos em alguns momentos, mas no geral não apresenta nada de diferente do que outros filmes desse estilo já apresentaram.
Matthew McConaughey entrega mais uma de suas atuações brilhantes, contrastando sua personalidade introspectiva com momentos emotivos e emergenciais que o ator tira de letra. Ele é sensacional. America Ferrera também está excelente, e o roteiro dá bastante espaço para sua personagem brilhar. Ela não está ali apenas como suporte ao protagonista, mas também para ajudá-lo ativamente, e isso foi muito legal de ver.
"The Lost Bus" é uma história real muito bem dirigida com o bom e velho drama hollywoodiano. Apesar de não inovar em nada, é gostoso de assistir e nos emociona no final, além de ter me deixado fascinado com a história real que foi contada.
"It Was Just an Accident" é uma obra realizada como um grito de protesto contra um regime autoritário e opressor e tem uma história muito parecida com a de "A Semente do Fruto Sagrado", filme indicado na mesma categoria no ano anterior, que carrega uma mensagem política similar, ambos sobre o Irã.
A direção de Jafar Panahi conduz a história a partir de um conflito inicial que vai se desenrolando como se fossem fios a serem organizados. A estrutura narrativa episódica permite ao diretor explorar o caos de maneira controlada e trabalhar suas consequências imediatas. O controle do tempo aqui é um artifício que ajuda na imersão e também na fluidez. O longa se passa em um dia inteiro e você sente o senso de urgência e tensão a cada momento em que o céu fica mais escuro e os personagens parecem ficar sem tempo. Os planos longos e abertos entregam dinamismo aos conflitos e não são sequências fáceis de se realizar, mas fazem os atores crescerem em cena.
Vale destacar o trabalho sonoro, em especial na cena final, que é um daqueles encerramentos de filme que a gente não esquece. O diretor não mostra nada em cena, mas apenas com o som ambiente a gente compreende o que aconteceu e se sente extremamente tenso até o último segundo.
O roteiro é coeso e possui impacto político, mas parece que, em certo momento, fica meio redundante. As interações essencialmente se repetem e uma decisão narrativa lá pra metade final não me convenceu muito bem. Fora esses tropeços, a história é contada de modo que cada conflito apresentado nos fisga para descobrir o que virá em seguida. O trabalho em cima do núcleo de atuação é muito bem realizado, cada um tem sua motivação, seu trauma, sua personalidade, e a gente se sente compadecido com esses personagens.
Por falar nos atores, todos estão muito bem e conduzem seu papel com brilhantismo. O que eu mais gostei foi o Mohamad Ali Elyasmehr interpretando um cara impulsivo, perigoso e instável, porém, quando chega seu momento de nos contar o porquê de ser assim, a gente compreende seus motivos. Além de ser a figura mais combativa, o que dá a sensação de sempre ter uma faísca no grupo que irá explodir a qualquer momento.
"It Was Just an Accident" é protesto em sua forma mais bela de arte. Seus desdobramentos refletem a tirania absoluta de um regime assassino e tornam o filme inesquecível. Eu diria que é questão de tempo até o vermos como um clássico.
"Blue Moon" conta uma história nichada, com uma linguagem cinematográfica ainda mais nichada. É um filme que exige bastante comprometimento do espectador, e aqueles mais impacientes com diálogos abstratos não vão dar conta.
Richard Linklater assume mais uma vez sua marca registrada de contar e contemplar a vida e a mera existência de seus personagens, enquanto a história se desenvolve como se fosse alguém nos contando um segredo, com parcimônia e cautela. Toda a obra se passa em um bar, e eu não imagino cenário melhor para este tipo de filme, onde cada conversa pode ter o tempo e a atenção necessários para soar natural.
O roteiro é inteligente ao nos contar praticamente toda a história de Lorenz Hart sem precisar de flashbacks nem de exposição narrativa barata. Os diálogos são a base aqui e cumprem sua função com muito carisma, deboche, sarcasmo e uma frustração controlada inerente ao protagonista.
Há apenas dois pontos negativos que destaco: é um filme extremamente específico, e quem não conhece algumas das referências pode ter a atenção prejudicada em certo ponto; o protagonista é excessivamente performático em suas respostas. Eu não conheço como Lorenz se portava no dia a dia, mas aqui faltou certo nível de convicção. Até determinado momento, as tiradas dele são interessantes e até satíricas, mas depois se tornam redundantes, como se o filme não quisesse contar nada além de sua própria história de forma pouco ortodoxa, sem se preocupar em apresentar algo novo. Isso fica ainda mais claro em seus conflitos internos referentes à sua "protegida", Elizabeth Weiland, nos quais dá a impressão de que os diálogos não tomam rumo algum.
Todas as atenções estão voltadas a Ethan Hawke. Sua atuação é realmente brilhante, e o filme foi construído para que ele brilhe. Grande parte do que vemos são longos monólogos com pequenas participações de personagens secundários que estão ali para reagir ou levantar momentos que o façam brilhar ainda mais. É um ótimo trabalho de um ator que eu admiro demais. Margaret Qualley é a única personagem que não tem essa passividade narrativa; muito pelo contrário, é a única que Lorenz escuta com atenção. Ela tem grande destaque mais próximo do final e nos ajuda a entender mais o protagonista por meio das reações dele do que pelo que ele próprio nos conta em seus diálogos. Andrew Scott tem um papel parecido, porém mais voltado ao lado profissional do protagonista, e é nesse eixo que compreendemos o tamanho artístico de Lorenz. Entre os personagens secundários, o que mais gostei foi Bobby Cannavale como o bartender, que possui sacadas interessantíssimas e tira o protagonista da zona de conforto em alguns momentos.
"Blue Moon" é uma poesia cinematográfica de difícil digestão, porém com execução refinada. Uma vez investido na obra, é possível apreciar um refino narrativo que não vemos com frequência. Peca um pouco no excesso de brilhantismo nos diálogos, mas sabe contar a história de maneira inteligente e orgânica.
"Train Dreams" aborda, de forma contemplativa, a passagem do tempo, sem se apegar a qualquer estrutura narrativa tradicional nem se apressar em seus acontecimentos.
A direção de Clint Bentley conta com um olhar sensível aos detalhes e às perspectivas dos personagens. Cada cena foi enquadrada com carinho. Há também alguns planos um pouco mais longos, em que a câmera repousa em um ponto fixo e algo acontece. É lindo de se ver. A fotografia é fria e densa na maior parte do filme e se torna mais colorida nos poucos momentos de alegria do protagonista. Gostei muito da passagem do tempo. Apesar de ser abrupta, é possível notar cada momento nos detalhes do cenário, do personagem e das pessoas ao redor. Em momento algum temos em tela o tempo que passou, mas visualmente é nítido quando isso acontece. Em contrapartida, a narração não me agradou. Além de ser muito expositiva, ela também atrapalha um pouco a imersão no filme.
O roteiro dispensa convenções narrativas ao não apresentar um conflito central. Aqui nós apenas vemos como o tempo passa, e somos apenas "mais um" em todo esse universo. O protagonista tem alguns conflitos internos que o perseguem durante o filme, mas alguns não me convenceram, como uma situação em que ele não agiu e isso o permeia até o final, mas, para mim, não funcionou. No mais, a maneira como o personagem reage a essa inevitável passagem do tempo é emocionante e nos faz refletir sobre nossa breve existência e suas consequências para os que estão ao nosso redor e para o mundo. A maneira como o roteiro aborda as relações pessoais do protagonista também é muito orgânica e mostra como somos necessitados de algum grupo, seja pequeno ou grande, de pessoas para sobreviver.
A atuação de Joel Edgerton reflete a emoção de um cara que não está acostumado com isso. É uma performance minimalista, mas bastante sentimental. Felicity Jones não tem tanto espaço, mas sua presença é sempre marcante e importante para o protagonista, então a dinâmica dos dois funciona bem. Os companheiros de trabalho de Robert Grainier são carismáticos, alguns com mais destaque que outros, e a gente acaba se apegando a eles.
"Train Dreams" é contemplativo, melancólico e enxerga beleza em uma história triste sem ficar exageradamente dramático. Não é um filme que te força a chorar em momento algum, porém te faz pensar durante toda a sua duração.
Se tratando de um filme infantil, "Elio" entrega o que promete ao apresentar uma história tradicional sobre amizade, família e pertencimento, sem grandes surpresas narrativas nem estruturais.
O charme aqui é na maneira com que essa mensagem é passada, para quem gosta de ficção científica com certeza este filme será um deleite. O universo criado é divertido de acompanhar e os personagens são cativantes, em especial a dupla principal Elio e Glordon.
Este é um filme que se reconhece como infantil e não faz questão alguma de disfarçar com excessos tentando atrair outros públicos, o que acaba causando alguns problemas no tom para quem não é exatamente seu público alvo: por vezes, o longa cai em momentos mais bobinhos além de contar com exposição narrativa durante toda sua duração.
"Elio" pode não entregar nada de diferente ou surpreendente, mas dentro do que se propõe é uma ótima viagem a um universo criativo e uma jornada muito satisfatória de acompanhar. É aquele filme para se sentir bem após terminar de assistir.
"The Voice of Hind Rajab" retrata uma angustiante realidade em um drama envolvente e desolador.
A direção de Kaouther Ben Hania aproveita muito bem o espaço fechado do único cenário para criar um ambiente claustrofóbico e sufocante a cada minuto que passa. A câmera na mão, além de gerar desconforto proposital, transporta o espectador para dentro da história de forma imersiva, funcionando quase como uma observadora silenciosa.
O roteiro é construído inteiramente em torno dos áudios originais e consegue transmitir a dimensão da tragédia sem cair no caminho fácil do drama apelativo, há um respeito enorme pelas vítimas e pela situação retratada. A edição tenta integrar registros reais com as filmagens dos atores: em alguns momentos o resultado é poderoso, mas em outros a transição quebra a imersão e soa um pouco artificial.
As atuações estão ótimas e os protagonistas funcionam como espelhos do próprio espectador. Motaz Malhees interpreta um personagem impulsivo, ansioso por soluções práticas; Amer Hlehel é o contraponto racional, insistindo em seguir cada etapa do protocolo; já Saja Kilani representa o equilíbrio emocional, tentando acalmar a situação mesmo estando em pedaços por dentro. Esse conflito interno permeia todo o filme e aumenta a tensão constantemente.
"The Voice of Hind Rajab" é intragável e frustrante na história que conta, mas como obra é inegavelmente refinada. Sua principal função é eternizar a existência de Hind Rajab e, por extensão, dar voz a todas as vítimas deste conflito que não representavam risco algum e não tinham como se defender.
Diane Warren: Relentless
3.3 19Documentário essencial para qualquer fã de cinema, ainda mais se for uma pessoa que acompanha temporada de premiação. Gostei de saber mais sobre a Diane e também sobre algumas de suas principais composições. Acompanhamos também um pouco da sua relação quase obsessiva com o Oscar até finalmente receber um reconhecimento honorário da academia.
A música concorrente deste ano, apesar de ser um projeto muito pessoal, realmente não é tão boa. Porém é sempre bom ver a artista concorrendo, e apesar de ela já ter um prêmio por suas contribuições, espero que algum dia ela vença diretamente por algum trabalho.
Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
4.2 405 Assista Agora"Hamnet" traz a catarse artística que sucede o luto da maior dor que um ser humano pode enfrentar, a perda de um filho.
Chloé Zhao conduz o filme com uma direção a princípio contida para construir a beleza de um lar vivo quase perfeito, com planos amplos realçando belezas naturais e a dinâmica familiar. Aos poucos, conforme a alegria dá lugar à angústia, a diretora invade o ambiente com planos mais fechados, sufocando seus personagens em uma sensação de impotência que contagia até quem está assistindo. Em determinados momentos o tom do filme se torna um pouco manipulativo ao dramatizar demais a história, e no final a diretora pesa a mão; o encerramento estava lindo com a encenação de Hamlet, mas alguns excessos tornaram o trecho meio pretensioso, especialmente envolvendo uma ação coletiva que, para mim, não funcionou. E a trilha sonora utilizada me tirou um pouco da cena por ser algo já batido, talvez o silêncio tivesse valorizado mais o momento retratado.
O roteiro subverte o senso comum de representar Shakespeare como gênio, deixando-o na sombra enquanto sua esposa Agnes assume o protagonismo. É simbólico que o nome do escritor seja pronunciado uma única vez em todo o filme; o “gênio” aqui está contido, mais humano e frágil. Há apenas um monólogo que parece ter sido escrito para funcionar como um lapso de genialidade de William, mas acaba destoando. Em contrapartida, a atenção que o texto dedica à esposa é o que sustenta o tom emotivo do longa: trata-se de uma protagonista cheia de camadas, que assume o difícil papel de cuidar da casa enquanto lida com o luto praticamente sozinha.
Jessie Buckley entrega uma performance inspiradora e emocionante; a direção lhe dá bastante espaço para reagir ao que é dito e ao que acontece, e a atriz extrai o máximo disso com intensidade e vibração. Paul Mescal demora um pouco para convencer, em parte porque o roteiro não lhe oferece tanto espaço. Ainda assim, sua atuação cresce junto do personagem quando ele é mais exigido em momentos de maior carga emocional. Também gostei muito do elenco mirim, em especial Jacobi Jupe, que interpreta Hamnet com grande carisma.
"Hamnet" desconstrói um gênio enquanto ilumina uma protagonista silenciosa da qual o mundo muitas vezes esquece que existiu. É uma história sobre distintas abordagens do luto e sobre como a arte pode transformar esse sentimento em algo suportável.
Kokuho: O Preço da Perfeição
3.6 28Interessante como "Kokuho" traz uma história sobre uma arte pouco conhecida no resto do mundo, neste caso, o kabuki.
Sang-il Lee conduz o filme com muito carinho e explora os detalhes minuciosos que tornam o treinamento para o kabuki tão intenso. Os momentos teatrais são quando a direção mais brilha; é recompensador acompanhar o resultado final de tanto trabalho duro. Lee tem um olhar sensível à arte dentro de sua obra, colocando o espectador em uma visão privilegiada ao mesclar bastidores com o espetáculo teatral sem perder o ritmo.
Sobre a duração, fiquei com um sentimento dúbio. Sim, é um filme excessivamente longo, mas ele aborda muita coisa de uma vez. No final, fiquei imaginando como seria uma trilogia de "Kokuho". Alguns lapsos temporais contam pequenos fragmentos de uma história com lacunas; compreendemos o que aconteceu, mas faltaram camadas. Para um único filme, é realmente longo e um pouco cansativo. Caso fosse dividido em três partes e desenvolvessem melhor cada etapa, poderia se tornar uma história mais coesa e encorpada.
O roteiro acaba pecando justamente por isso que citei: há muita coisa acontecendo ao mesmo tempo e sem o respiro necessário para digerirmos os acontecimentos. Ainda assim, o longa brilha quando se trata de estudo de personagem e em relação às consequências de uma vida inteira dedicada a uma arte. O protagonista se vê completamente imerso naquele universo e cego de qualquer discernimento que possa humanizá-lo, pois foi criado para ser o maior. Um ponto que senti faltar foi a exploração mais aprofundada da relação do personagem com a Yakuza. No início, acreditamos que isso terá importância ao longo da narrativa, mas, na maior parte do tempo, torna-se apenas um detalhe facilmente esquecido.
Kikuo é interpretado por Sōya Kurokawa na adolescência e por Ryo Yoshizawa na maior parte de sua vida. Ambos os atores dão vida ao protagonista de forma muito honesta: o primeiro apresenta um garoto mais inseguro, buscando seu lugar, enquanto o segundo entrega um Kikuo mais confiante, conforme o texto exige, sem deixar de evidenciar suas fragilidades pontuais. A entrega corporal de ambos também merece destaque e realça ainda mais a beleza do kabuki.
"Kokuho" é um estudo cultural de grande valor artístico que, apesar de pecar em sua estrutura narrativa, entrega um universo interessantíssimo de conhecer e acompanhar em todo o seu desenrolar.
Marty Supreme
3.7 314 Assista Agora"Marty Supreme" é uma "ficção biográfica" que distorce pessoas reais para ter liberdade de contar a história à sua própria maneira.
Josh Safdie conduz o filme com um tom bastante assertivo e, mesmo sendo longo, em momento algum dá espaço para o tédio. Somos constantemente bombardeados por situações que desencadeiam novas consequências, criando um efeito dominó contínuo. O diretor transita entre tensão, drama e comédia sem perder o controle ou tornar o longa pretensioso. Há também muitos enquadramentos fechados e claustrofóbicos que, somados à câmera na mão, mantêm constante o senso de urgência que a narrativa quer transmitir.
O roteiro não faz questão de transformar o protagonista em um típico "herói" que filmes sobre esporte costumam retratar. Aqui, Marty é falho e, mesmo tomando decisões equivocadas o tempo inteiro, nos pegamos torcendo por ele. É interessante notar como ele encara problemas sérios e sensíveis. Uma sequência que ilustra bem isso é quando ele pede para um personagem contar uma história envolvendo mel em tom jocoso, quando, na verdade, a situação é profundamente triste e surpreende pela forma como é conduzida.
Apesar de seu caráter duvidoso e de escolhas questionáveis, vemos lapsos de humanidade nos poucos momentos em que Marty parece realmente se importar com quem está ao seu lado, o que nos aproxima dele. O final reforça essa dimensão e encerra a trajetória de maneira satisfatória.
Para algumas pessoas, a experiência pode soar cansativa pela quantidade de informação em um filme de longa duração. Para mim, porém, isso não pesou em nenhum momento. Os diálogos são muito bem escritos e servem diretamente ao desenvolvimento da narrativa, fazendo a tensão crescer a cada cena. Não há espaço para trivialidades, cada linha carrega uma motivação e uma consequência.
Timothée Chalamet está impecável e este é, até agora, seu melhor papel. Ele incorpora com precisão a figura do homem obstinado, capaz de tudo para vencer. Seu trabalho corporal entrega a intensidade necessária ao personagem, e seu carisma é o que nos faz simpatizar com ele até nos momentos mais difíceis. Odessa A'zion tem um desenvolvimento maior do que eu imaginei. Sua personagem possui motivações próprias e também toma decisões questionáveis, o que me fez criar por ela o mesmo apego que senti por Marty. Tyler, the Creator, mesmo com pouco tempo de tela, entrega uma atuação carismática e marcante, apoiando o protagonista sem perder sua própria individualidade e conflitos.
"Marty Supreme" entrega uma história sobre obsessão pelo sucesso com a intensidade que essa premissa exige. É um filme sufocante, mas que encontra leveza e sarcasmo nos momentos certos. Mesmo extenso, é satisfatório do início ao fim e é o tipo de obra que permanece na memória.
Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria
3.6 182 Assista Agora"If I Had Legs I'd Kick You" traz uma performance feminina marcante e uma história impactante sobre pressão social e suas consequências.
A diretora Mary Bronstein conduz o longa de forma propositalmente claustrofóbica e angustiante, com enquadramentos fechados que enfatizam o desconforto constante da protagonista. O estilo frenético da montagem dita um ritmo acelerado, e a sucessão de acontecimentos nos mantém em alerta, atentos ao que virá em seguida. Ainda assim, acredito que alguns momentos foram interrompidos cedo demais, especialmente certas situações que não se resolvem em cena, o que acaba gerando uma frustração pontual.
O roteiro não tem qualquer complacência com a protagonista, e nós tampouco conseguimos deixar de sentir por ela. É interessante perceber como a obra subverte a visão tradicional da dona de casa: aqui, a maternidade se torna a principal engrenagem para que sua vida se transforme em uma bola de neve caótica. Senti falta, porém, de um momento mais claro de respiro ou catarse. A personagem é constantemente bombardeada por situações tensas até o fim, e esse acúmulo torna a experiência por vezes cansativa e pouco recompensadora. Há algo próximo disso no desfecho, mas não foi suficiente para me convencer.
Rose Byrne encarna sua personagem de corpo e alma; sentimos em seu rosto e em suas expressões o quanto aquela realidade é exaustiva. Suas compulsões e tiques dão identidade e veracidade à figura que constrói. Conan O'Brien surpreende ao interpretar um terapeuta apático e, em certos momentos, irritante, afastando-se completamente da imagem divertida que temos dele. Já A$AP Rocky está muito bem e é o único que oferece alguma atenção genuína à protagonista, evidenciando como ela lida com alguém que tenta ajudá-la, algo a que claramente não está acostumada.
"If I Had Legs I'd Kick You" peca um pouco em seus próprios excessos, mas ainda assim apresenta reflexões pertinentes sobre maternidade e as cobranças impostas às figuras femininas, especialmente quando lhes falta o apoio necessário.
Arco
3.8 47"Arco" traz um estilo de animação único e uma história que apesar de parecer simples, é tocante e aborda temas como amizade, pertencimento e meio ambiente sem perder a fluidez narrativa. Apesar de ser um filme leve, ele sabe te emocionar nos momentos necessários.
O desenvolvimento dos personagens é competente e nos faz ter empatia por todos. A dupla de protagonistas tem uma boa química e o roteiro desenvolve a relação deles de um jeito muito natural e gostoso de acompanhar, a amizade deles é verdadeira e emocionante. Até os antagonistas, dos quais eu não estava gostando por causa do jeito "atrapalhado" digno de vilão de desenho animado, após descobrir sua motivação passei a compreendê-los melhor, além de terem um impacto narrativo importante.
"Arco" é o tipo de animação que comove tanto adulto quanto criança, uma experiência original, divertida e tocante. Seu desfecho poderia ter sido melhor explorado, porém o final foi satisfatório.
Zootopia 2
3.7 162 Assista AgoraA animação em si é divertida, tem piadas engraçadas e é gostoso de acompanhar a relação entre o raposo e a coelha, as diferentes personalidades são bem exploradas.
Porém a história além de não ser muito atrativa, apresenta personagens que não funcionaram para mim (me perdoem, aquela cobra é chatinha...) além de muitas vezes se perder em um excesso de informação e/ou acontecimento que não permite que a gente absorva os sentimentos que o filme quer passar. Tem pelo menos uns dois momentos que deveriam ser emocionante, mas que não há o tempo necessário para que este sentimento se estabeleça antes de acontecer algo frenético novamente.
É leve de assistir, mas totalmente esquecível.
Valor Sentimental
3.9 365 Assista Agora“Sentimental Value” constrói seus personagens por meio de camadas e subtextos, contando uma história através do detalhe e do silêncio.
A direção de Joachim Trier demonstra enorme sensibilidade ao observar conflitos íntimos. A câmera repousa, paciente, aguardando as reações dos atores para que compreendamos seus sentimentos pela expressividade. Trata-se de uma experiência sensorial, pouco verbalizada, e narrar dessa forma exige uma complexidade que o diretor domina com segurança. Por ser um longa denso e de ritmo cadenciado, é natural que parte do público não se conecte e o considere arrastado; ainda assim, essa escolha faz parte da própria identidade da obra.
O roteiro caminha em harmonia com a direção e desenvolve a trama com cautela. O texto carrega um realismo palpável, e a maneira como tudo se concentra naquele microcosmo familiar (especialmente dentro da casa) nos insere na dinâmica daquelas relações. Somos espectadores, mas a proximidade é tamanha que quase compartilhamos o peso emocional vivido pelos personagens. Os conflitos emergem e evoluem com sutileza, sem recorrer a artifícios rasos ou explosões dramáticas exageradas. O foco está na forma como cada personagem absorve e reage aos diálogos, e é nisso que reside a força da narrativa.
Stellan Skarsgård e Renate Reinsve conduzem o eixo central de maneira envolvente. Ele transmite um afeto torto, cheio de falhas, mas ainda assim genuíno; ela tenta compreender seus próprios traumas enquanto enfrenta batalhas internas constantes. Inga Ibsdotter Lilleaas representa a tentativa de equilíbrio entre as partes, e a atriz traduz bem essa postura conciliadora em meio ao colapso emocional ao redor. Já Elle Fanning confirma sua habilidade em se conectar emocionalmente com uma história da qual sua personagem não participa de forma direta, um papel difícil, que exige delicadeza e precisão.
Embora não seja acessível a todos os gostos, a obra se consolida como um estudo de personagem envolvente e seguro de si. A narrativa se desenrola sem concessões fáceis, mantém um tom consistente e alcança um desfecho emocionalmente poderoso.
Guerreiras do K-Pop
3.7 210 Assista Agora"KPop Demon Hunters" tem uma direção de arte muito bem executada, com animações caprichadas e traços visualmente atraentes. Os momentos de ação são dinâmicos e lembram até um jogo de videogame, o que me cativou bastante. O humor provavelmente funciona melhor para quem tem pré-disposição a gostar desse tipo de filme; há momentos mais bobinhos, com aquele excesso de expressões caricatas típicos desse tipo de animação, mas ainda assim existem passagens que divertem mesmo sendo adulto. É importante dizer que não sou o público-alvo, então acredito que, dentro da proposta, funciona bem.
O roteiro não traz grandes inovações e a mensagem pode soar um pouco batida. Senti que o principal antagonista e seu desfecho poderiam ter sido melhor explorados. Ainda assim, gosto da forma como a história é segmentada e conduzida sem enrolação: é um filme leve, direto e com duração enxuta.
Não sou muito ligado em K-pop, então as músicas claramente não foram pensadas para mim. Ainda assim, é impossível negar que são bem produzidas e extremamente grudentas. Sem dúvida, são o ponto alto do filme, e suas inserções acontecem nos momentos certos, sem transformar a animação em algo excessivamente musical ou forçado.
Apesar de ter um público-alvo relativamente nichado, "KPop Demon Hunters" consegue entreter quem está disposto a assistir de mente aberta. É uma animação agradável, que não reinventa a roda, mas entrega uma história simpática e bem executada.
Sirāt
3.4 170 Assista Agora"Sirāt" é contemplação em meio ao caos e conduz o espectador a uma jornada onde o senso de perigo paira no ar, porém seu impacto poderia ser melhor aproveitado.
A direção de Oliver Laxe consegue transmitir a beleza árida em um contexto extremamente sensível para todos os envolvidos no filme, nós compreendemos como esse senso de liberdade é importante para estes jovens, e mesmo sem nunca sabermos explicitamente qual o conflito ocorrendo, a iminência do perigo acompanha toda a história. O som sempre grave e sufocante em harmonia com a fotografia e suas paisagens abertas apresentam uma dicotomia muito palpável, é uma experiência sensorial e bem executada.
No entanto, o roteiro peca no seu desenvolvimento. Ele começa apresentando um mistério interessante no começo, mas depois se perde nos percalços dignos de um "road movie" pouco envolventes em termos de narrativa. Não temos tanto espaço para conhecer e nos apegar aos personagens, a ideia de unir um cidadão "comum" como o protagonista com essas pessoas mais alternativas poderia render excelentes interações, mas o filme está mais preocupado com a contemplação do que em contar uma história linear, e isso prejudica nossa simpatia por eles a medida em que os problemas começam a surgir na estrada. Demora até algo realmente impactante acontecer, e quando acontece a história já se perde completamente. Não irei me alongar para não entregar spoilers, mas o final não é nada satisfatório.
Não há muito o que falar de atuações, pois o único ator de ofício aqui é o protagonista Sergi López, é interessante ver a maneira com que ele enxerga o mundo que está conhecendo, mas, como eu citei, o roteiro poderia explorar mais. O elenco de apoio sofre com a inexperiência profissional, mas quando o filme dá chance de eles performarem (por exemplo quando começam a dançar) entregam um bom carisma.
"Sirāt" é uma experiência cinematográfica diferente e merece ser apreciado com carinho, porém, no capricho de ser uma obra reflexiva e sensorial faltou pensar mais na coesão narrativa.
Song Sung Blue: Um Sonho a Dois
3.3 64 Assista Agora"Song Sung Blue" tem uma premissa interessante ao recusar histórias consagradas e nos contar sobre uma figura que, apesar de emblemática em seu segmento, viveu de poucas glórias profissionais.
A direção é de Craig Brewer, que conduz o filme de forma protocolar, mas eficiente. A fotografia é limpa e se mistura a pequenas sequências que emulam filmagens reais de arquivo. O trabalho de figurino e maquiagem acerta em cheio no estilo e na imersão da obra. O diretor também trabalha bem as cenas musicais: são sempre enérgicas, ajudam a manter um ritmo dinâmico e fortalecem a química do casal protagonista. Além disso, a trilha sonora dispensa qualquer tipo de apresentação.
O roteiro apresenta um aspecto que pode ser visto como qualidade ou defeito, dependendo da perspectiva. O filme opta por condensar muitos acontecimentos, mas raramente se aprofunda em algum deles. Conflitos surgem com frequência e são resolvidos com a mesma rapidez. A sensação é de que a intenção seja sensibilizar o público por meio de uma sucessão de momentos dramáticos. Sob o olhar emocional, funciona: é bonito de se ver e reforça como o amor permeia toda a narrativa, ajudando os personagens a superarem seus obstáculos. Já sob uma análise mais racional, percebe-se a falta de uma história mais encorpada, com excesso de acontecimentos para pouco desenvolvimento.
Isso fica evidente em um momento próximo ao final, quando um conflito aparentemente importante é estabelecido. No instante em que os personagens precisam enfrentá-lo, ocorre um lapso temporal e, de repente, tudo está resolvido. É legal e satisfatório ver a resolução, mas ela acontece de forma abrupta, sem que entendamos exatamente como. As soluções parecem fáceis demais.
As atuações dos protagonistas estão ótimas. Hugh Jackman e Kate Hudson demonstram bastante química e sustentam a narrativa com segurança. Jackman se destaca pelo trabalho corporal e por momentos mais performáticos, enquanto Hudson encontra espaço para explorar os dramas pessoais de sua personagem, um dos poucos trechos em que o roteiro permite um desenvolvimento mais consistente. O núcleo familiar também é interessante, embora apenas Ella Anderson receba maior aprofundamento. Ainda assim, teria sido interessante vê-la mais em cena, especialmente por trazer conflitos que vão além do casal protagonista e que acabam pouco explorados.
"Song Sung Blue" é um filme que na ânsia de emocionar o público e fazê-lo se apegar aos personagens, acaba apressando situações que pedem um pouco mais de calma. Em um primeiro momento é bonito e inspirador, porém ao ser racionalizado vemos o subaproveitamento de ideias que poderiam torná-lo inesquecível.
Coração de Lutador: The Smashing Machine
3.0 132 Assista Agora"The Smashing Machine" busca sair do senso comum ao apresentar uma cinebiografia de um lutador sem focar diretamente em sua carreira e cartel, mas sim em seus conflitos internos e interpessoais.
Benny Safdie já consolidou uma cinematografia muito autoral desde Joias Brutas, dirigido ao lado do irmão. Aqui, no entanto, isso não funciona. Falta o dinamismo do trabalho anterior. Os longos planos com câmera na mão, que deveriam dar um aspecto documental à trama, são pouco aproveitados, e as tomadas excessivamente contemplativas soam vazias, como as cenas de personagens caminhando acompanhados por uma câmera aérea que busca apenas um pseudo refinamento visual.
As sequências de luta não inspiram: são curtas e conduzidas de forma irregular. Ou a câmera está próxima demais, prejudicando o entendimento, ou distante demais, comprometendo o impacto.
A trilha sonora, embora apareça em poucos momentos, é repetitiva e cansativa.
O roteiro tenta abordar os dramas de Mark em um recorte específico de sua vida, mas é irregular. Os desentendimentos com sua esposa não soam naturais, e os diálogos são, em sua maioria, expositivos e rasos. Logo no início, há uma cena em que Mark explica como o MMA funciona; além de artificial, ela falha tanto em caracterizá-lo como alguém simpático quanto em explicar o esporte de maneira orgânica.
Além disso, o longa falha em ser informativo. Entendo que a carreira não seja o foco, mas o filme insiste em reforçar que ele é uma “máquina”, enquanto o que vemos é apenas um lutador medíocre. É uma pena, pois Mark Kerr na vida real é muito maior e mais relevante do que o retrato apresentado.
Quanto às atuações, ambos os atores parecem desperdiçados. Dwayne Johnson está esforçado e mantém seu carisma magnético, enquanto Emily Blunt é sempre uma presença satisfatória em tela. Ainda assim, os dois sofrem com um roteiro fraco que limita suas possibilidades emocionais.
"The Smashing Machine" tem uma maquiagem muito bem executada e uma premissa interessante, mas sua execução resulta em um filme decepcionante e entediante na maior parte do tempo.
Uma Batalha Após a Outra
3.7 648 Assista Agora"One Battle After Another" faz jus ao próprio título ao entregar exatamente o que promete: uma sucessão de acontecimentos que capturam a atenção do início ao fim.
Paul Thomas Anderson conduz o tom do filme como um maestro à frente de sua orquestra. O prólogo apresenta todo o background da história de maneira dinâmica e eficiente, permitindo que acompanhemos seus desdobramentos 16 anos depois já familiarizados com o que aconteceu. A partir daí, não há espaço para desperdício. Mesmo com quase três horas de duração, cada cena tem propósito, cada sequência prepara algo relevante, tudo é conduzido com precisão. PTA também subverte certos conceitos associados a filmes de resgate, especialmente nas cenas de perseguição, que adotam uma perspectiva mais contemplativa e menos frenética. A tensão surge de tomadas abertas em estradas longas e retas, sem o uso exagerado de cortes rápidos, o que torna tudo ainda mais impactante.
O roteiro demonstra maturidade ao abordar o tema da revolução sem romantizar nem demonizar seus envolvidos. Compreendemos as motivações dos revolucionários ao mesmo tempo em que somos confrontados com as consequências de seus atos. Paralelamente, o desenvolvimento do núcleo de personagens é inspirador. Cada elemento não apenas cumpre uma função narrativa essencial, como também possui personalidade própria e identidade marcante. Desde os revolucionários até a misteriosa “sociedade secreta” fictícia, que mesmo com pouco tempo de tela deixa um forte impacto narrativo e carrega um subtexto riquíssimo. Há também o cuidado em não deixar pontas soltas; o espectador termina o filme com a sensação de que tudo o que precisava ser contado foi devidamente encerrado, sem excessos. Assim como a direção, o roteiro mantém controle absoluto do tom, transitando entre diferentes gêneros de forma orgânica, tornando o longa envolvente e divertido, sem jamais perder a tensão e o senso de urgência que atravessam toda a narrativa.
As atuações elevam ainda mais o material. Leonardo DiCaprio entrega um protagonista diferente do esperado, e isso funciona muito bem. Seu personagem desmonta a imagem clássica do herói de guerra ao se apresentar como um ex-revolucionário atrapalhado, ao mesmo tempo em que deixa transparecer vestígios do homem que um dia foi através de suas interações com antigos companheiros. Benicio Del Toro, apesar de surgir mais tarde e ter menos tempo de tela, desperta curiosidade imediata. Sua postura serena transmite a sensação de que ele está sempre no controle, oferecendo ao protagonista (e ao público) uma calma quase reconfortante em meio ao caos. Chase Infiniti cresce ao longo do filme de maneira surpreendente; inicialmente parece ser o elo mais frágil, mas ganha força justamente nos momentos mais decisivos. Teyana Taylor imprime intensidade e paixão no prólogo, sendo fundamental para que sintamos empatia pelo grupo revolucionário, ao mesmo tempo em que revela fragilidade e decisões questionáveis. No entanto, a grande atuação é a de Sean Penn. Seu personagem é detestável, suas ações são desprezíveis, mas seu carisma adiciona camadas que o afastam do clichê do coronel vilanesco. Seus trejeitos, sua maneira de caminhar e sua presença imponente constroem um antagonista vivo, cuja motivação expõe um ego frágil diante das próprias consequências. É uma performance praticamente irretocável.
"One Battle After Another" marca o retorno de PTA em grande estilo, mais uma obra de um diretor que, com enorme probabilidade, verá este filme se consolidar como mais um clássico nos próximos anos.
Jurassic World: Recomeço
2.7 452 Assista Agora"Jurassic World Rebirth" é mais uma tentativa de revigorar uma franquia que deveria estar tendo um descanso merecido.
A direção de Gareth Edwards entrega sequências interessantes de ação e tensão, porém peca em fazer esses momentos serem raros a ponto de não sustentar completamente o que estamos assistindo. Os efeitos são legais de assistir, mas faltou inspiração artística, principalmente em alguns momentos contemplativos que o diretor tenta trazer sem qualquer impacto. Sem contar todo o segmento da família que é completamente dispensável, trazendo uma ideia até de domesticar um dinossauro... completamente sem sentido.
O roteiro é paupérrimo, é o velho clichê da empresa malvadona buscando lucro a todo custo, e seu representante nesta trama tem um arco tão mal desenvolvido quanto sua resolução simples e apressada. Os personagens não possuem desenvolvimento e tudo o que sabemos sobre eles é contado em diálogos rasos e que não traz absolutamente nada de relevante.
As atuações pagam o preço por um roteiro superficial, é um desperdício ver atores como Mahershala Ali e Scarlett Johansson conduzindo personagens tão pouco carismáticos.
No fim, "Jurassic World Rebirth" não consegue transformar seu potencial visual em sequências realmente inspiradas. Resta um produto excessivamente protocolar que, em grande parte do tempo, parece mais uma obrigação do que um espetáculo capaz de envolver até os créditos finais.
Frankenstein
3.7 595 Assista AgoraAdmito que estava receoso em assistir a esta adaptação por se tratar de uma história amplamente conhecida e já bastante revisitadas pelo cinema. Ainda assim, fui positivamente surpreendido pelo resultado apresentado.
Guillermo del Toro consegue renovar a narrativa de "Frankenstein" ao conduzi-la por uma perspectiva mais próxima do drama existencial do que do tradicional terror de monstro, tantas vezes explorado a ponto de se tornar caricato. O refinamento estético empregado pelo diretor revela novas camadas a uma criatura menos grotesca e mais sofisticada. É o monstro de Frankenstein mais humano que já vimos, sem que isso descambe para um sentimentalismo exagerado ou um melodrama excessivo.
O roteiro reconstrói a história como uma verdadeira fábula gótica, dividindo o olhar entre o já conhecido cientista obcecado e sua criação, que descobre o mundo enquanto enfrenta as consequências de uma existência marginalizada. No entanto, acredito que o filme tropeça em parte de suas reflexões filosóficas e críticas. Esse aspecto, que deveria ser seu maior diferencial, por vezes se torna redundante, permitindo que você antecipe com facilidade como determinadas sequências irão se desenrolar.
Gosto muito de Oscar Isaac, e aqui ele incorpora com precisão o cientista consumido pelo próprio senso de grandeza. Inicialmente, nutrimos certa empatia por ele, mas rapidamente ele faz questão de revelar o quão desprezível pode se tornar. Jacob Elordi está irretocável ao entregar corpo e alma a uma criatura singular e conceitualmente fascinante; seu trabalho vocal é especialmente impressionante. Menção honrosa para Christoph Waltz sendo... Christoph Waltz, o que por si só já é um atrativo.
"Frankenstein" ressignifica a trajetória de um dos monstros mais icônicos da cultura pop ao colocá-lo no centro de sua própria narrativa e enfatizar sua humanidade. Ainda assim, sua certa autocomplacência compromete o impacto do terror que deveria compor sua essência. Faltou um pouco mais de equilíbrio nesse aspecto.
Rompendo Rochas
3.7 17O choque cultural com este documentário é absurdo, a realidade aqui é retratada com tanta crueza que parece um universo paralelo. Sara é uma mulher forte e é satisfatório ver que apesar dos pesares, ela não está completamente sozinha em sua luta.
Ela pode não ser capaz de mudar a realidade cultural que a cerca, mas com certeza mudará a vida de pelo menos algumas das meninas que a admiram e se inspiram por ela. E com certeza isso já é recompensador.
Bugonia
3.6 427 Assista Agora"Bugonia" é mais uma obra-prima de Yorgos Lanthimos, que sabe utilizar absurdos situacionais para gerar entretenimento ao mesmo tempo em que nos faz viajar na psique de seus personagens peculiares.
Lanthimos já é um diretor bastante consolidado por sua autoralidade, e aqui sua identidade está presente na maneira como ele conduz a trama e os absurdos causados por ela. A tensão entre os conflitos é criada a partir do contraste entre as duas partes, uma sendo mais fria e outra mais impulsiva, e isso resulta em uma série de acontecimentos no final que deixam o espectador curioso para descobrir como irá terminar. Há também um tom ácido nos diálogos, muito presente na filmografia do diretor; em certos momentos, a gente até acha graça de algumas sacadas, mesmo o filme não se apegando a esse propósito.
O roteiro é muito bem escrito, desenvolve a narrativa com passagens afiadas e apresenta críticas a ambos os lados: de um lado, a corporação que trata pessoas como cobaias; do outro, a euforia coletiva causada por teorias conspiratórias e a maneira como se espalham. O final é bem construído, mas a sensação que me deu foi de que faltou "algo". Foi como se o longa quisesse surpreender, porém estivesse com medo de ousar um pouco mais.
Emma Stone entrega mais uma de suas irretocáveis performances ao lado de Lanthimos. Sua personagem transita entre a calma e a explosão em momentos específicos; é um trabalho de muita intensidade e carisma. Jesse Plemons e Aidan Delbis trabalham muito bem como a tradicional "dupla de vilões", em que um é o cérebro e o outro apenas segue ordens. Plemons, no entanto, puxa a atenção para si: ele sempre tem uma resposta ou uma teoria mirabolante para algo apresentado, e o trabalho estético é muito bem realizado. Ele parece perfeitamente um conspiracionista que vive para provar seu ponto.
"Bugonia" apresenta uma guerra narrativa conduzida de forma brilhante, consolidando mais uma história marcante desse excelente (e maluco) diretor.
Viva Verdi!
3.5 17"Viva Verdi!" é de encher os olhos de qualquer fã de ópera, como é meu caso. As personalidades aqui apresentadas são riquíssimas em conteúdo e carisma, cada um tem sua história e de certo modo todos tem algo em comum, encontram na música o grande pilar da sua existência e razão de vida.
Somos apresentados a grandes músicos e arquivos de valor inestimável para todos que apreciam a boa cultura, suas histórias são inspiradoras. Muito legal também o projeto que eles tem com jovens estudantes de música, é um encontro de geração importante para a construção de novos talentos e também para que os veteranos tenham uma companhia para dividir vivências e conhecimento. A trilha sonora é irretocável, como eu disse, um prato cheio para quem gosta de ópera de qualidade enquanto aprende coisas novas sobre o gênero.
A única coisa que eu gostaria de ter visto mais é o funcionamento estrutural da "Casa Verdi", nós acompanhamos um pouco da rotina dos residentes mas gostaria de ver mais sobre os horários, funcionários, etc. Nada que prejudique a qualidade da obra, é apenas algo que eu senti falta.
"Viva Verdi!" é um documentário muito gostoso e leve de assistir, sobre um projeto que mantém vivo o sonho de tantos artistas que por vários motivos não tiveram o sucesso que um dia almejaram e mereceram. O final é belíssimo, apesar de ser um choque de realidade muito grande em contraste com o que vemos ao longo do doc.
O Ônibus Perdido
3.4 105 Assista Agora"The Lost Bus" traz o gênero de catástrofe voltando suas atenções a um universo muito pequeno de pessoas, se desvencilhando um pouco do que normalmente vemos em filmes assim, que envolvem grandes nações ou até o mundo inteiro. É sempre bom ver filmes com essa proposta, pois a gente se apega mais aos envolvidos e às suas histórias individuais.
Paul Greengrass é extremamente competente na direção. Ele retrata com detalhes diferentes cenários em uma situação de incêndio em larga escala, as falhas de comunicação entre os serviços e principalmente a maneira como o fogo se espalha, de forma muito verossímil e imersiva. É um filme preocupado em retratar não apenas o fato central, mas também o que acontece ao redor, ainda que de forma superficial.
O roteiro é o clássico “herói improvável”. Por ser uma história meramente baseada em um evento real, existem muitas dramatizações, principalmente no começo. Você se pergunta como é possível alguém ter uma vida tão desgraçada quanto a do nosso protagonista. Conforme o longa se desenvolve, vamos nos afeiçoando a ele, mas ainda assim é uma história carregada de clichês, exposição e previsibilidade. É competente em nos deixar tensos em alguns momentos, mas no geral não apresenta nada de diferente do que outros filmes desse estilo já apresentaram.
Matthew McConaughey entrega mais uma de suas atuações brilhantes, contrastando sua personalidade introspectiva com momentos emotivos e emergenciais que o ator tira de letra. Ele é sensacional. America Ferrera também está excelente, e o roteiro dá bastante espaço para sua personagem brilhar. Ela não está ali apenas como suporte ao protagonista, mas também para ajudá-lo ativamente, e isso foi muito legal de ver.
"The Lost Bus" é uma história real muito bem dirigida com o bom e velho drama hollywoodiano. Apesar de não inovar em nada, é gostoso de assistir e nos emociona no final, além de ter me deixado fascinado com a história real que foi contada.
Foi Apenas um Acidente
3.8 187 Assista Agora"It Was Just an Accident" é uma obra realizada como um grito de protesto contra um regime autoritário e opressor e tem uma história muito parecida com a de "A Semente do Fruto Sagrado", filme indicado na mesma categoria no ano anterior, que carrega uma mensagem política similar, ambos sobre o Irã.
A direção de Jafar Panahi conduz a história a partir de um conflito inicial que vai se desenrolando como se fossem fios a serem organizados. A estrutura narrativa episódica permite ao diretor explorar o caos de maneira controlada e trabalhar suas consequências imediatas. O controle do tempo aqui é um artifício que ajuda na imersão e também na fluidez. O longa se passa em um dia inteiro e você sente o senso de urgência e tensão a cada momento em que o céu fica mais escuro e os personagens parecem ficar sem tempo. Os planos longos e abertos entregam dinamismo aos conflitos e não são sequências fáceis de se realizar, mas fazem os atores crescerem em cena.
Vale destacar o trabalho sonoro, em especial na cena final, que é um daqueles encerramentos de filme que a gente não esquece. O diretor não mostra nada em cena, mas apenas com o som ambiente a gente compreende o que aconteceu e se sente extremamente tenso até o último segundo.
O roteiro é coeso e possui impacto político, mas parece que, em certo momento, fica meio redundante. As interações essencialmente se repetem e uma decisão narrativa lá pra metade final não me convenceu muito bem. Fora esses tropeços, a história é contada de modo que cada conflito apresentado nos fisga para descobrir o que virá em seguida. O trabalho em cima do núcleo de atuação é muito bem realizado, cada um tem sua motivação, seu trauma, sua personalidade, e a gente se sente compadecido com esses personagens.
Por falar nos atores, todos estão muito bem e conduzem seu papel com brilhantismo. O que eu mais gostei foi o Mohamad Ali Elyasmehr interpretando um cara impulsivo, perigoso e instável, porém, quando chega seu momento de nos contar o porquê de ser assim, a gente compreende seus motivos. Além de ser a figura mais combativa, o que dá a sensação de sempre ter uma faísca no grupo que irá explodir a qualquer momento.
"It Was Just an Accident" é protesto em sua forma mais bela de arte. Seus desdobramentos refletem a tirania absoluta de um regime assassino e tornam o filme inesquecível. Eu diria que é questão de tempo até o vermos como um clássico.
Blue Moon: Música e Solidão
3.0 80 Assista Agora"Blue Moon" conta uma história nichada, com uma linguagem cinematográfica ainda mais nichada. É um filme que exige bastante comprometimento do espectador, e aqueles mais impacientes com diálogos abstratos não vão dar conta.
Richard Linklater assume mais uma vez sua marca registrada de contar e contemplar a vida e a mera existência de seus personagens, enquanto a história se desenvolve como se fosse alguém nos contando um segredo, com parcimônia e cautela. Toda a obra se passa em um bar, e eu não imagino cenário melhor para este tipo de filme, onde cada conversa pode ter o tempo e a atenção necessários para soar natural.
O roteiro é inteligente ao nos contar praticamente toda a história de Lorenz Hart sem precisar de flashbacks nem de exposição narrativa barata. Os diálogos são a base aqui e cumprem sua função com muito carisma, deboche, sarcasmo e uma frustração controlada inerente ao protagonista.
Há apenas dois pontos negativos que destaco: é um filme extremamente específico, e quem não conhece algumas das referências pode ter a atenção prejudicada em certo ponto; o protagonista é excessivamente performático em suas respostas. Eu não conheço como Lorenz se portava no dia a dia, mas aqui faltou certo nível de convicção. Até determinado momento, as tiradas dele são interessantes e até satíricas, mas depois se tornam redundantes, como se o filme não quisesse contar nada além de sua própria história de forma pouco ortodoxa, sem se preocupar em apresentar algo novo. Isso fica ainda mais claro em seus conflitos internos referentes à sua "protegida", Elizabeth Weiland, nos quais dá a impressão de que os diálogos não tomam rumo algum.
Todas as atenções estão voltadas a Ethan Hawke. Sua atuação é realmente brilhante, e o filme foi construído para que ele brilhe. Grande parte do que vemos são longos monólogos com pequenas participações de personagens secundários que estão ali para reagir ou levantar momentos que o façam brilhar ainda mais. É um ótimo trabalho de um ator que eu admiro demais. Margaret Qualley é a única personagem que não tem essa passividade narrativa; muito pelo contrário, é a única que Lorenz escuta com atenção. Ela tem grande destaque mais próximo do final e nos ajuda a entender mais o protagonista por meio das reações dele do que pelo que ele próprio nos conta em seus diálogos. Andrew Scott tem um papel parecido, porém mais voltado ao lado profissional do protagonista, e é nesse eixo que compreendemos o tamanho artístico de Lorenz. Entre os personagens secundários, o que mais gostei foi Bobby Cannavale como o bartender, que possui sacadas interessantíssimas e tira o protagonista da zona de conforto em alguns momentos.
"Blue Moon" é uma poesia cinematográfica de difícil digestão, porém com execução refinada. Uma vez investido na obra, é possível apreciar um refino narrativo que não vemos com frequência. Peca um pouco no excesso de brilhantismo nos diálogos, mas sabe contar a história de maneira inteligente e orgânica.
Sonhos de Trem
3.7 338 Assista Agora"Train Dreams" aborda, de forma contemplativa, a passagem do tempo, sem se apegar a qualquer estrutura narrativa tradicional nem se apressar em seus acontecimentos.
A direção de Clint Bentley conta com um olhar sensível aos detalhes e às perspectivas dos personagens. Cada cena foi enquadrada com carinho. Há também alguns planos um pouco mais longos, em que a câmera repousa em um ponto fixo e algo acontece. É lindo de se ver. A fotografia é fria e densa na maior parte do filme e se torna mais colorida nos poucos momentos de alegria do protagonista. Gostei muito da passagem do tempo. Apesar de ser abrupta, é possível notar cada momento nos detalhes do cenário, do personagem e das pessoas ao redor. Em momento algum temos em tela o tempo que passou, mas visualmente é nítido quando isso acontece. Em contrapartida, a narração não me agradou. Além de ser muito expositiva, ela também atrapalha um pouco a imersão no filme.
O roteiro dispensa convenções narrativas ao não apresentar um conflito central. Aqui nós apenas vemos como o tempo passa, e somos apenas "mais um" em todo esse universo. O protagonista tem alguns conflitos internos que o perseguem durante o filme, mas alguns não me convenceram, como uma situação em que ele não agiu e isso o permeia até o final, mas, para mim, não funcionou. No mais, a maneira como o personagem reage a essa inevitável passagem do tempo é emocionante e nos faz refletir sobre nossa breve existência e suas consequências para os que estão ao nosso redor e para o mundo. A maneira como o roteiro aborda as relações pessoais do protagonista também é muito orgânica e mostra como somos necessitados de algum grupo, seja pequeno ou grande, de pessoas para sobreviver.
A atuação de Joel Edgerton reflete a emoção de um cara que não está acostumado com isso. É uma performance minimalista, mas bastante sentimental. Felicity Jones não tem tanto espaço, mas sua presença é sempre marcante e importante para o protagonista, então a dinâmica dos dois funciona bem. Os companheiros de trabalho de Robert Grainier são carismáticos, alguns com mais destaque que outros, e a gente acaba se apegando a eles.
"Train Dreams" é contemplativo, melancólico e enxerga beleza em uma história triste sem ficar exageradamente dramático. Não é um filme que te força a chorar em momento algum, porém te faz pensar durante toda a sua duração.
Elio
3.3 129Se tratando de um filme infantil, "Elio" entrega o que promete ao apresentar uma história tradicional sobre amizade, família e pertencimento, sem grandes surpresas narrativas nem estruturais.
O charme aqui é na maneira com que essa mensagem é passada, para quem gosta de ficção científica com certeza este filme será um deleite. O universo criado é divertido de acompanhar e os personagens são cativantes, em especial a dupla principal Elio e Glordon.
Este é um filme que se reconhece como infantil e não faz questão alguma de disfarçar com excessos tentando atrair outros públicos, o que acaba causando alguns problemas no tom para quem não é exatamente seu público alvo: por vezes, o longa cai em momentos mais bobinhos além de contar com exposição narrativa durante toda sua duração.
"Elio" pode não entregar nada de diferente ou surpreendente, mas dentro do que se propõe é uma ótima viagem a um universo criativo e uma jornada muito satisfatória de acompanhar. É aquele filme para se sentir bem após terminar de assistir.
A Voz de Hind Rajab
4.2 123 Assista Agora"The Voice of Hind Rajab" retrata uma angustiante realidade em um drama envolvente e desolador.
A direção de Kaouther Ben Hania aproveita muito bem o espaço fechado do único cenário para criar um ambiente claustrofóbico e sufocante a cada minuto que passa. A câmera na mão, além de gerar desconforto proposital, transporta o espectador para dentro da história de forma imersiva, funcionando quase como uma observadora silenciosa.
O roteiro é construído inteiramente em torno dos áudios originais e consegue transmitir a dimensão da tragédia sem cair no caminho fácil do drama apelativo, há um respeito enorme pelas vítimas e pela situação retratada. A edição tenta integrar registros reais com as filmagens dos atores: em alguns momentos o resultado é poderoso, mas em outros a transição quebra a imersão e soa um pouco artificial.
As atuações estão ótimas e os protagonistas funcionam como espelhos do próprio espectador. Motaz Malhees interpreta um personagem impulsivo, ansioso por soluções práticas; Amer Hlehel é o contraponto racional, insistindo em seguir cada etapa do protocolo; já Saja Kilani representa o equilíbrio emocional, tentando acalmar a situação mesmo estando em pedaços por dentro. Esse conflito interno permeia todo o filme e aumenta a tensão constantemente.
"The Voice of Hind Rajab" é intragável e frustrante na história que conta, mas como obra é inegavelmente refinada. Sua principal função é eternizar a existência de Hind Rajab e, por extensão, dar voz a todas as vítimas deste conflito que não representavam risco algum e não tinham como se defender.