A série entrega o que se propõe, diante de apenas cinco episódios, ela tenta o seu melhor e não entrega uma série ruim, mas tá longe de ser uma obra prima brasileira. O caso do Césio-137 foi algo que o Brasil não pode esquecer, não só pelo perigo, mas pelo complexidade de tudo. Foi um acontecimento de radiação que envolveu política, saúde pública e sociedade, pontos esses que jamais conseguiriam traduzir em apenas cinco capítulos com maestria. Principalmente quando acabamos perdendo tempo com as questões da vida pessoal do físico que não me animou. A cena onde
o físico segurando o aparelho e a filha do irmão do homem do ferro velho chegando pra falar com a mãe e o aparelho começa a BERRAR,
conseguiu me deixar bastante angustiado. É um tema que causa curiosidade, pouca gente conhece e pode servir para um primeiro contato, mas programas como o Linha Direta e alguns Youtubers (Lorelay Fox), conseguiram aprofundar bem mais.
"Vale o Escrito" é uma daquelas séries que te prendem do início ao fim! Ela mostra o mundo do jogo do bicho com tanta riqueza de detalhes que parece até ficção, mas tudo aquilo realmente aconteceu! É impressionante ouvir os relatos dos próprios bicheiros e das pessoas envolvidas, falando de poder, traições, e até crimes pesados, como se fosse algo normal.
A produção é muito bem feita, mas confesso que em alguns momentos parece que eles dão uma romantizada nos chefões do bicho, o que pode incomodar. Ainda assim, é uma aula sobre um lado do Brasil que muita gente prefere ignorar. Vale assistir, mas com aquele olhar crítico ligado!
Acabei o filme questionando: qual o sentido do trabalho? Sob o capitalismo, parece ser apenas para existir. A gente trabalha para sobreviver, e a sobrevivência consome tanto que não sobra tempo para desejar, sonhar ou sequer imaginar outras formas de existir. Assim como em O Último Azul, essa lógica aparece de maneira dura: a vida passa inteira dedicada ao mínimo, e o que resta na velhice são pequenas migalhas de consumo, alegrias rápidas, quase constrangedoras, que não compensam o esgotamento de uma vida inteira de trabalho.
O filme provoca quando mostra o envelhecimento como algo incômodo, um peso social financeiro, emocional e simbólico. O idoso vira excesso num sistema que só valoriza quem ainda produz. E aí a pergunta que ecoa é inevitável: o que nos espera no fim? Teremos escolha ou apenas continuidade? Sabemos mesmo o que queremos fazer até o último dia?
Nem tudo me convenceu. O formato 4:3, por exemplo, não funciona muito bem comigo. Por outro lado, a atriz principal sustenta o filme com uma força impressionante: há verdade, cansaço, delicadeza e dignidade no olhar dela, mesmo quando tudo ao redor parece falhar. O Último Azul é um espelho incômodo sobre trabalho, velhice e o pouco espaço que sobra para viver de verdade.
Pasolini pega a história clássica do Sófoles e conta do jeito dele colocando muitos silêncios, imagens fortes e um clima que me hipnotizou. Para mim serviu mais como uma experiência, pois me fez perceber em coisas bem freudianas: destino, culpa, desejo... dá pra sentir que os personagens são guiados por algo maior, quase inconsciente. Pasolini não facilita, pesa em muitos pontos, masé exatamente por isso que ele permanece.
“Rio, 40 Graus” é aquele retrato perfeito do início do Cinema Novo: câmera na rua, gente comum em primeiro plano e a cidade como personagem principal. O filme pega um dia absurdamente quente no Rio e mostra como todo mundo se cruza, se esbarra, tenta viver apesar do calor e da dureza da vida. O que mais me pega é perceber como os cinco meninos negros começam como protagonistas e, do nada, viram coadjuvantes. Porque, no fim, é assim que a sociedade sempre age com eles: empurra pra margem, pro quase invisível... Fica esse sentimento de um Rio que pulsa entre alegria e tensão, onde tem samba, tem Maracanã, tem confusão. É direto, é natural e é bem o espírito do Cinema Novo: mostrar a vida como ela é, sem maquiagem.
"O Sanatório da Clepsidra" é como entrar num sonho que não quer ser explicado, apenas vivido. O filme se organiza como o próprio inconsciente: vida e morte se atravessam, passado e presente caminham lado a lado, realidade e fantasia deixam de ser opostos. Tudo ali pulsa como Freud descreveu no livro A Interpretação dos Sonhos, quando mostrava que o inconsciente funciona por associações livres, imagens deslocadas e com sentidos que nunca aparecem de forma direta. Também é possível ver a ambivalência afetiva que Freud desenvolve em Totem e Tabu, esse amor e ódio misturados, sobretudo em relação às figuras parentais, aparece no filme como uma corrente subterrânea, movendo Józef em direção a uma culpa que ele tenta compreender. É como se todo o sanatório fosse o espaço simbólico dessa luta interna. E quando Lacan entra na conversa o filme ganha outra camada: o pai que vemos não é um homem, é uma função, um significante que organiza ou desorganiza o desejo. O sanatório nunca foi sobre recuperar alguém perdido no tempo, mas sobre enfrentar essa função paterna que retorna como enigma, fragmento, falta. No fundo, a obra mostra o inconsciente trabalhando à sua maneira: sem linearidade, sem explicação histórica, sem necessidade de coerência externa. O sanatório e suas velharias são o próprio Józef tentando se decifrar, costurando culpa, desejo e memória num tecido que, como todo sonho, continua vivo muito depois do filme terminar.
O Show de Truman é uma das obras mais brilhantes e psicologicamente profundas do cinema moderno. O que parece, à primeira vista, uma sátira televisiva, revela-se uma reflexão densa sobre identidade, controle e o olhar do outro. Do ponto de vista psicanalítico, Truman é o sujeito moldado pela vigilância e pelo desejo alheio, o homem que existe apenas enquanto é observado. Freud veria nele o retrato do indivíduo submetido ao controle social e ao recalque da própria vontade; Lacan, por sua vez, o entenderia como alguém preso no campo do Outro, tentando escapar daquilo que o define sem que ele perceba. A obra também dialoga com A Sociedade do Espetáculo, de Guy Debord: vivemos uma era em que o real é substituído pela imagem. Truman, nesse sentido, foi o primeiro influenciador involuntário e hoje, todos nós, com nossas câmeras e redes, participamos do mesmo teatro da aparência. A genialidade do filme está em sua atualidade desconcertante e na forma como transforma a própria psicologia humana em um ato de espetáculo. O final é uma das coisas mais inteligentes já feitas no cinema, fecha o ciclo com perfeição e reforça a ideia de que o show realmente acabou. Você não vai mais vê-lo.
Fiquei pensando no quanto o trauma é, paradoxalmente, necessário. À primeira vista, o filme é uma comédia romântica com ficção científica, mas o que pulsa ali é algo muito mais humano: a tentativa desesperada de corrigir o passado e eliminar a dor. O que mais me fascina é perceber que a narrativa mostra exatamente o contrário, pois o trauma é o que estrutura. Sem ele, não há aprendizado, não há sujeito, não há amadurecimento. O personagem acredita que pode “curar” sua história, mas ao fazer isso, perde o sentido do próprio caminho. É Psicanálise na prática: o sintoma que tentamos apagar é o mesmo que nos sustenta. Filosoficamente, O Homem do Futuro fala sobre a impossibilidade de apagar o que nos feriu, porque é na ferida que se inscreve o desejo. A viagem no tempo é só um pretexto para revelar o que todos nós, em algum nível, fazemos: voltar mentalmente ao que doeu, tentando entender onde nos perdemos. (Recordar, repetir e elaborar). No fim, o filme me lembrou que não há evolução sem dor, e que o passado, mesmo o que nos assombra é parte do que nos torna inteiros. O futuro só existe porque um dia fomos quebrados.
Achei um delírio visual e simbólico, Mãe! é um daqueles filmes que mais se sente do que se entende. A fotografia é deslumbrante, o roteiro é poético e perturbador, mas, sem uma mínima noção de quem se trata de passagens bíblicas, o espectador corre o risco de se perder completamente na alegoria. Por trás de toda metáfora religiosa (Deus, a criação, o caos, o sacrifício) existe uma pergunta mais profunda, quase psicanalítica: qual é a estrutura do desejo divino? Se Ele cria, é porque algo lhe falta. E onde há falta, há desejo... exatamente como em nós. O longa parece explorar essa inquietação freudiana/lacaniana: um Deus neurótico, movido pela necessidade de ser amado, de ser visto, de preencher o vazio com devoção e destruição. O filme não é fácil, nem tenta ser. É uma experiência que incomoda, que beira o insuportável, mas que também fascina pela beleza das imagens e pela coragem de transformar o sagrado em metáfora da própria condição humana. Em Mãe!, a criação divina e o trauma humano se encontram e o resultado é um espelho inquietante, onde o Criador e a criatura parecem sofrer do mesmo mal: o desejo infinito de completude.
A Substância é aquele tipo de filme que promete ser profundo, mas escorrega no próprio sangue. Eu até curto um bom gore, mas aqui ele vem coberto de uma camada de “freshness” que tenta disfarçar um roteiro fraco com estética e gritinhos.
A suposta crítica ao etarismo e ao sexismo até poderia render algo potente se o filme não se levasse tão a sério enquanto se perde em incoerências. A ideia de criar uma nova versão de si mesma até instiga, mas... qual o sentido de hibernar e sofrer horrores pra ver uma outra pessoa vivendo a vida que você queria? Se uma não sente o que a outra vive, não é evolução, é substituição.
Nem o marketing escapou da confusão: prometeram uma “versão mais bonita de você”, mas entregaram um clone de roteiro mal resolvido. Pra piorar, a ambientação parece um mix de décadas: o programa oitentista, o celular super atual... tudo junto e misturado, sem intenção aparente.
No fim, A Substância tenta ser ácido, mas parece diluído. É body horror pra quem quer se sentir cult, mas sem coragem de encarar o verdadeiro desconforto que o gênero exige.
Hilda Furacão é uma dessas séries que, mesmo nascida nos anos 90 e ambientada nos 50, se torna dolorosamente atual. O enredo é atravessado por uma invasão moralista. Aquela turma proibicionista, religiosa e hipócrita que veste a fé como armadura para avançar sobre corpos, prazeres e liberdades alheias. Assistindo hoje, é impossível não lembrar de Podres Poderes, de Caetano Veloso, com seu verso cortante que diz '"será que nunca faremos senão confirmar a incompetência da américa católica, que senhor precisará de ridículos tiranos". É o retrato de um Brasil que insiste em voltar ao passado, embalado por discursos falsamente santos.
A série não apenas denuncia essa sanha de controle, como também expõe a forma sem graça, cinzenta e sem poesia da religião quando reduzida a regra e castigo. Aqui, a fé vira instrumento de opressão, e não ponte para o sagrado. Essa crítica é tão incisiva quanto necessária, pois desvela o que muitos preferem não ver: por trás da pureza pregada, há sede de poder e medo do prazer.
E como contraponto a esse moralismo sufocante, Hilda é furacão mesmo, e não apenas pelo corpo, mas pelo gesto de existir com intensidade, de desafiar as amarras e deixar o próprio desejo ser bússola. E isso 'nos salvan, nos salvarão dessas trevas e nada mais'.
É simbólico e poderoso quando a narrativa nos leva ao ponto em que todos acreditam que o mundo vai acabar e, diante da morte certa, decidem abandonar as proibições cristãs e finalmente viver. Comer, beber, amar, gozar. Não como pecado, mas como celebração.
Da vontade de participar, de 'aproximar o meu cantar vagabundo daqueles que velam pela alegria do mundo'.
No fim, 'Hilda Furacão' é mais que uma trama sobre uma mulher à frente do seu tempo. É um lembrete de que, quando o fim parece inevitável, a única escolha sensata é ser feliz. VIVA HILDA FURACÃO!"
Guerreiros do Sol é sertão em carne viva: quente, vasto, implacável. É justiça feita com bala e palavra, amor e traição, coragem e pó. A escrita é como o próprio chão rachado: dura, mas fértil para quem sabe plantar. Entre o zunir do vento e o som distante de um aboio, o filme nos lembra que a vida por essas bandas é feita de códigos antigos, daqueles que se cumprem mais com o peito do que com a lei.
E no coração desse faroeste nordestino, Irandir Santos entrega um daqueles trabalhos que não se esquecem. Ele não interpreta: ele habita o personagem. Sua voz carrega a aspereza da caatinga e o peso de cada escolha, seu olhar é faca afiada e rio profundo ao mesmo tempo. Há uma verdade bruta na sua presença que atravessa a tela, como se ele próprio fosse filho do sertão e conhecesse cada rachadura da terra e da alma. Única coisa maior que a maldade de arduíno, é a atuação para fazê-lo e de uma forma que não grita para ser notada, ela se impõe de forma silenciosa e inevitável.
Há olhares que queimam mais que o calor, paixões que nascem sob ameaça de morte, e batalhas que parecem dançar entre a honra e a vingança. E, no meio dessa terra marcada de sangue e desejo, surge Jânia. Uma mulher que não se curva. Feita de fibra e palavra afiada, é a guerreira que nem a mira certeira do destino consegue derrubar. Sua presença é como mandacaru florindo na seca: rara, desafiadora, impossível de ignorar.
No fim, 'Guerreiros do Sol' não é apenas sobre cangaço. É sobre resistir à força da história e ainda assim deixar que o coração mande. É sobre saber que, no sertão, o tempo sempre chega e, quando vem, muda tudo. E é também sobre reconhecer que existem atuações ali que são tão grandes que parecem escritas pelo próprio chão.
É raro, quase impossível, ver uma obra biográfica que não apenas narra a vida de seu personagem, mas que parece ser habitada por ele. A série sobre Raul Seixas não me pareceu um retrato, foi uma invocação. Não consigo imaginar nenhuma forma de ser melhor do que foi. A Globo acertou em cheio ao escolher ousar: entregou uma narrativa que não se acovarda diante do delírio, da contradição, do feio ou do gênio. A fidelidade biográfica, sempre inalcançável por completo, aqui foi honesta, sensível, cheia de nuances. Mas foi na ousadia artística, nas cenas que tocavam o realismo mágico, que eu vi Raul pulsar de verdade. Era como se David Lynch tivesse nascido no subúrbio de Salvador e escrevesse um roteiro sobre um Elvis místico e anarquista. A série entende que Raul não cabia em ordem cronológica ou roteiro convencional, ele precisava de sonho, sombra, signo, risada e caos. E o modo como trataram o alcoolismo… Que lição! Nada de moralismos fáceis ou glamour tóxico. Apenas a crueza de uma doença que era ao mesmo tempo fuga, prisão, vício e impulso criativo. Falaram do álcool como quem fala de um velho conhecido: com dor, com carinho, com verdade. Isso me fez refletir sobre a vida, a minha, a dos que admiro, a de todos nós que às vezes misturamos genialidade e autodestruição como se fossem uma coisa só. A série é marcante. Essencial. Não apenas para fãs de Raul, mas para quem ama a arte quando ela se atreve a ser espelho e abismo. Os números musicais foram uma aula de como usar a canção não como trilha, mas como discurso. Até as músicas mais obscuras, aquelas que só os "iniciados" conhecem, surgiram como chaves emocionais, abrindo portas na narrativa e em mim. Saí do episódio final com a sensação de ter vivido uma espécie de ritual: a série não terminou, ela ecoou em mim como um último acorde que demora a se calar.
Impossível não pensar em Freud e no que ele fala sobre um inconsciente que é como um porão cheio de desejos reprimidos, traumas esquecidos, pulsões que a consciência não dá conta. Em Uzumaki, as espirais surgem como forças que ninguém entende racionalmente, mas que atraem, enlouquecem e deformam os moradores da cidade. A espiral, nesse contexto, pode simbolizar o retorno do recalcado — aquilo que foi escondido volta de forma distorcida, insistente, incontrolável.
A espiral também lembra o compulsivo retorno ao mesmo — um conceito próximo da pulsão de morte que Freud descreve. Em vez de buscar o prazer e a vida (Eros), o sujeito é arrastado para uma repetição destrutiva, uma espécie de fascínio mórbido. Em Uzumaki, isso se manifesta na obsessão das pessoas pela forma, na repetição de padrões insanos e na perda progressiva da razão.
E se a gente puxar um pouco mais, dá pra pensar que a cidade de Kurôzu serve de uma metáfora para a mente humana: aparentemente normal na superfície, mas cheia de camadas subterrâneas onde o inconsciente se manifesta em formas grotescas e simbólicas.
Beleza Fatal é uma novela que começa arrebatadora, com um roteiro inteligente e uma trama envolvente que segura o público do início ao fim. Com um enredo que transita entre o suspense e o drama familiar, a obra escrita por Raphael Montes, um dos grandes nomes da literatura e dramaturgia brasileira, entrega uma narrativa fora da curva.
O ponto alto da novela, sem dúvida, é a vilã Lola, uma antagonista à altura das melhores figuras do gênero. Sua construção remete a grandes personagens da ficção, sendo implacável, cruel, manipuladora e completamente instável. Sua presença em cena é hipnotizante, tornando-se um dos pilares da história.
A protagonista Sofia, por outro lado, se torna uma das figuras mais controversas da trama. No fim das contas, seu destino pareceu até brando demais para tudo o que fez.
Outro grande mérito da novela está no elenco, que entrega atuações dignas de prêmios. As Camilas foram o grande destaque, dominando a tela com performances que poderiam muito bem concorrer ao Oscar. Lino e Elvira são outro grande acerto, construindo uma dinâmica familiar emocionante que toca o público. Lino, em especial, entrega momentos poderosos com seus discursos motivacionais, o que fez muitos torcerem para que ele sobrevivesse até o final.
No entanto, Beleza Fatal não é perfeita. Os furos de roteiro são evidentes e, em alguns momentos, chegam a ser frustrantes. O personagem Gabriel, por exemplo, é um policial que não resolve nada, tornando-se completamente irrelevante na narrativa. Alec se torna um peso morto na trama, com uma personalidade cansativa. Já a mãe dos Argento parece existir só pra desmascarar o Átila sem uma função real, sendo totalmente desnecessária. Já Andréia, que poderia ser uma personagem forte e estrategista, acabou sendo sonsa e sem grande impacto na trama.
O maior problema, no entanto, foi a quantidade reduzida de episódios, o que fez com que o desfecho fosse apressado e previsível. A novela segurou um ritmo excelente até o episódio 38, mas daí em diante perdeu fôlego, entregando um final que, apesar de coerente, careceu de impacto.
Mesmo com essas falhas, Beleza Fatal continua sendo uma produção memorável e que prova o talento de Raphael Montes. A Max demonstrou seu potencial e já deixou o público ansioso por suas próximas produções. Diante desse resultado, fica a pergunta: como esse autor ainda não foi contratado pela Globo?
Ainda Estou Aqui é mais do que um filme – é um soco no estômago que nos lembra de um dos períodos mais sombrios da história do Brasil. A ditadura militar deixou cicatrizes profundas, e o filme de Walter Salles captura essa dor com uma contenção emocional que é, ao mesmo tempo, dolorosa e poderosa. Sem exageros, a obra se comunica através de silêncios, vazios e olhares inocentes, especialmente das crianças, que carregam o peso de uma realidade que não entendem completamente. Fernanda Torres brilha em uma atuação que traduz a resistência silenciosa de tantas famílias, incluindo a minha, que viveram sob o medo e a repressão.
O filme é um testemunho necessário, não apenas para honrar quem resistiu, mas para nos lembrar do que significa viver sob o autoritarismo. Além disso, é um exemplo do talento único do cinema latino-americano, que consegue transformar dor e luta em arte com sensibilidade e força. Ainda Estou Aqui é um orgulho para o cinema brasileiro e um alerta para que nunca esqueçamos o passado, nem permitamos que ele se repita.
A terceira temporada de Banshee mantém um roteiro que, embora não seja revolucionário, consegue prender a atenção do espectador de forma intensa. A direção, por sua vez, é simplesmente impressionante, elevando a série a um patamar visual e narrativo que dificulta até respirar durante certas cenas. Confesso que fiquei dividido entre a emoção e a falta de ar ao acompanhar os episódios. Não é o tipo de série que costumo assistir, mas certamente seria algo que me deixaria viciado na adolescência, com sua mistura de ação, drama e momentos de pura adrenalina.
A temporada abusa de alguns clichês, mas isso não chega a ser um problema, já que a execução é tão bem-feita que mantém o ritmo acelerado e de tirar o fôlego. O desenvolvimento de personagens como Brock e Burton é um dos pontos altos, com este último protagonizando uma das melhores cenas de ação da série e se tornando um dos personagens mais interessantes.
No entanto, há um aspecto que poderia ser mais ágil: a trama envolvendo os indígenas, que demora a se desenrolar e acaba perdendo um pouco do impacto que poderia ter. Ainda assim, é uma temporada que entrega muita ação, tensão e momentos memoráveis, consolidando Banshee como uma série que, mesmo com suas imperfeições, sabe como manter o público grudado na tela.
"Vale o Escrito" é uma daquelas séries que te prendem do início ao fim! Ela mostra o mundo do jogo do bicho com tanta riqueza de detalhes que parece até ficção, mas tudo aquilo realmente aconteceu! É impressionante ouvir os relatos dos próprios bicheiros e das pessoas envolvidas, falando de poder, traições, e até crimes pesados, como se fosse algo normal.
A produção é muito bem feita, mas confesso que em alguns momentos parece que eles dão uma romantizada nos chefões do bicho, o que pode incomodar. Ainda assim, é uma aula sobre um lado do Brasil que muita gente prefere ignorar. Vale assistir, mas com aquele olhar crítico ligado!
A proposta dessa série é tão incrível, ela é boa, mas só fica nisso. Achei fantástico a sacada da reencarnação e tudo mais, mas são tantas brechas, tantas coisas soltas que perde a graça.
Quando Dimas descobre que o Otto é seu pai é patética pois desde que foi descoberto que a mãe dele tinha um caso com Otto, o filho obviamente seria o Dimas.
Eu adorei! Para uma primeira temporada muita coisa me anima. É gritante a referência a Priscilla a Rainha do Deserto e poderiam explorar ainda mais dentro dos jargôes ricos no meio LGBTQIA+ aqui no Brasil. A ideia de deixar a Ikaro como host foi maravilhosa, a Xuxa apesar do grande nome serve mais como uma colaboradora. Achei alguns convidados a jurados muito sem noção. (Nicole Bahls julgando o bate cabelo não fez sentido nenhum, deveriam trazer a Marcia Pantera).
Uma coisa a ser melhorada é a edição, toda hora que parece que vai acontecer alguma coisa corta pro próximo take e deixa a gente perdidinho, principalmente no desafio principal que perde todo o climax. A apresentação das drags vai se dando no decorrer da temporada e achei isso bem ruim, já que rola uma expectativa para descobrir quem são as drags. A eliminação é mais simbólica que técnica e isso me frustrou um pouco, não sei se por costume do RPDR, mas senti falta de uma terceira prova para as drags mostrarem ainda mais seus talentos. Às vezes a impressão era que os mini desafios eram os principais e roubavam muito tempo do episódio comparado ao principal.
No mais, eu amei e espero que o programa tome outros rumos para não cair numa mesmice, pois tem muito potencial para ser gigante.
Essa temporada se chama Sasha Colby, sem dúvidas a gata entregou excelência em toda temporada. É um fenômeno drag! As queens todas muito boas, o top 4 foi merecido e rico demais, realmente foi uma temporada que valeu a pena acompanhar. Anetra e Mistress também são gigantes e entregaram tanta coisa que nos enche os olhos. Dessa vez a velha acertou em tudo!
Única coisa mais interessante no filme são as implicações psicológicas, mas nem é pra tanto. O terror todinho foi definitivamente o filme não acabar nunca.
Emergência Radioativa
4.0 153 Assista AgoraA série entrega o que se propõe, diante de apenas cinco episódios, ela tenta o seu melhor e não entrega uma série ruim, mas tá longe de ser uma obra prima brasileira. O caso do Césio-137 foi algo que o Brasil não pode esquecer, não só pelo perigo, mas pelo complexidade de tudo. Foi um acontecimento de radiação que envolveu política, saúde pública e sociedade, pontos esses que jamais conseguiriam traduzir em apenas cinco capítulos com maestria. Principalmente quando acabamos perdendo tempo com as questões da vida pessoal do físico que não me animou.
A cena onde
o físico segurando o aparelho e a filha do irmão do homem do ferro velho chegando pra falar com a mãe e o aparelho começa a BERRAR,
É um tema que causa curiosidade, pouca gente conhece e pode servir para um primeiro contato, mas programas como o Linha Direta e alguns Youtubers (Lorelay Fox), conseguiram aprofundar bem mais.
Vale O Escrito - A Guerra do Jogo do Bicho
4.5 143"Vale o Escrito" é uma daquelas séries que te prendem do início ao fim! Ela mostra o mundo do jogo do bicho com tanta riqueza de detalhes que parece até ficção, mas tudo aquilo realmente aconteceu! É impressionante ouvir os relatos dos próprios bicheiros e das pessoas envolvidas, falando de poder, traições, e até crimes pesados, como se fosse algo normal.
A produção é muito bem feita, mas confesso que em alguns momentos parece que eles dão uma romantizada nos chefões do bicho, o que pode incomodar. Ainda assim, é uma aula sobre um lado do Brasil que muita gente prefere ignorar. Vale assistir, mas com aquele olhar crítico ligado!
Tô ansioso pra segunda temporada!
O Último Azul
3.7 209 Assista AgoraAcabei o filme questionando: qual o sentido do trabalho? Sob o capitalismo, parece ser apenas para existir. A gente trabalha para sobreviver, e a sobrevivência consome tanto que não sobra tempo para desejar, sonhar ou sequer imaginar outras formas de existir. Assim como em O Último Azul, essa lógica aparece de maneira dura: a vida passa inteira dedicada ao mínimo, e o que resta na velhice são pequenas migalhas de consumo, alegrias rápidas, quase constrangedoras, que não compensam o esgotamento de uma vida inteira de trabalho.
O filme provoca quando mostra o envelhecimento como algo incômodo, um peso social financeiro, emocional e simbólico. O idoso vira excesso num sistema que só valoriza quem ainda produz. E aí a pergunta que ecoa é inevitável: o que nos espera no fim? Teremos escolha ou apenas continuidade? Sabemos mesmo o que queremos fazer até o último dia?
Nem tudo me convenceu. O formato 4:3, por exemplo, não funciona muito bem comigo. Por outro lado, a atriz principal sustenta o filme com uma força impressionante: há verdade, cansaço, delicadeza e dignidade no olhar dela, mesmo quando tudo ao redor parece falhar. O Último Azul é um espelho incômodo sobre trabalho, velhice e o pouco espaço que sobra para viver de verdade.
A Rua da Vergonha
4.2 29 Assista AgoraEstou sem palavras. E não paro de pensar.
Édipo Rei
3.8 55Pasolini pega a história clássica do Sófoles e conta do jeito dele colocando muitos silêncios, imagens fortes e um clima que me hipnotizou. Para mim serviu mais como uma experiência, pois me fez perceber em coisas bem freudianas: destino, culpa, desejo... dá pra sentir que os personagens são guiados por algo maior, quase inconsciente. Pasolini não facilita, pesa em muitos pontos, masé exatamente por isso que ele permanece.
Rio, 40 Graus
3.9 103 Assista Agora“Rio, 40 Graus” é aquele retrato perfeito do início do Cinema Novo: câmera na rua, gente comum em primeiro plano e a cidade como personagem principal. O filme pega um dia absurdamente quente no Rio e mostra como todo mundo se cruza, se esbarra, tenta viver apesar do calor e da dureza da vida. O que mais me pega é perceber como os cinco meninos negros começam como protagonistas e, do nada, viram coadjuvantes. Porque, no fim, é assim que a sociedade sempre age com eles: empurra pra margem, pro quase invisível... Fica esse sentimento de um Rio que pulsa entre alegria e tensão, onde tem samba, tem Maracanã, tem confusão. É direto, é natural e é bem o espírito do Cinema Novo: mostrar a vida como ela é, sem maquiagem.
O Sanatório da Clepsidra
4.0 29"O Sanatório da Clepsidra" é como entrar num sonho que não quer ser explicado, apenas vivido. O filme se organiza como o próprio inconsciente: vida e morte se atravessam, passado e presente caminham lado a lado, realidade e fantasia deixam de ser opostos. Tudo ali pulsa como Freud descreveu no livro A Interpretação dos Sonhos, quando mostrava que o inconsciente funciona por associações livres, imagens deslocadas e com sentidos que nunca aparecem de forma direta. Também é possível ver a ambivalência afetiva que Freud desenvolve em Totem e Tabu, esse amor e ódio misturados, sobretudo em relação às figuras parentais, aparece no filme como uma corrente subterrânea, movendo Józef em direção a uma culpa que ele tenta compreender. É como se todo o sanatório fosse o espaço simbólico dessa luta interna. E quando Lacan entra na conversa o filme ganha outra camada: o pai que vemos não é um homem, é uma função, um significante que organiza ou desorganiza o desejo. O sanatório nunca foi sobre recuperar alguém perdido no tempo, mas sobre enfrentar essa função paterna que retorna como enigma, fragmento, falta. No fundo, a obra mostra o inconsciente trabalhando à sua maneira: sem linearidade, sem explicação histórica, sem necessidade de coerência externa. O sanatório e suas velharias são o próprio Józef tentando se decifrar, costurando culpa, desejo e memória num tecido que, como todo sonho, continua vivo muito depois do filme terminar.
O Show de Truman
4.2 2,7K Assista AgoraO Show de Truman é uma das obras mais brilhantes e psicologicamente profundas do cinema moderno. O que parece, à primeira vista, uma sátira televisiva, revela-se uma reflexão densa sobre identidade, controle e o olhar do outro. Do ponto de vista psicanalítico, Truman é o sujeito moldado pela vigilância e pelo desejo alheio, o homem que existe apenas enquanto é observado. Freud veria nele o retrato do indivíduo submetido ao controle social e ao recalque da própria vontade; Lacan, por sua vez, o entenderia como alguém preso no campo do Outro, tentando escapar daquilo que o define sem que ele perceba. A obra também dialoga com A Sociedade do Espetáculo, de Guy Debord: vivemos uma era em que o real é substituído pela imagem. Truman, nesse sentido, foi o primeiro influenciador involuntário e hoje, todos nós, com nossas câmeras e redes, participamos do mesmo teatro da aparência. A genialidade do filme está em sua atualidade desconcertante e na forma como transforma a própria psicologia humana em um ato de espetáculo. O final é uma das coisas mais inteligentes já feitas no cinema, fecha o ciclo com perfeição e reforça a ideia de que o show realmente acabou. Você não vai mais vê-lo.
O Homem do Futuro
3.7 2,5K Assista AgoraFiquei pensando no quanto o trauma é, paradoxalmente, necessário. À primeira vista, o filme é uma comédia romântica com ficção científica, mas o que pulsa ali é algo muito mais humano: a tentativa desesperada de corrigir o passado e eliminar a dor. O que mais me fascina é perceber que a narrativa mostra exatamente o contrário, pois o trauma é o que estrutura. Sem ele, não há aprendizado, não há sujeito, não há amadurecimento. O personagem acredita que pode “curar” sua história, mas ao fazer isso, perde o sentido do próprio caminho. É Psicanálise na prática: o sintoma que tentamos apagar é o mesmo que nos sustenta. Filosoficamente, O Homem do Futuro fala sobre a impossibilidade de apagar o que nos feriu, porque é na ferida que se inscreve o desejo. A viagem no tempo é só um pretexto para revelar o que todos nós, em algum nível, fazemos: voltar mentalmente ao que doeu, tentando entender onde nos perdemos. (Recordar, repetir e elaborar). No fim, o filme me lembrou que não há evolução sem dor, e que o passado, mesmo o que nos assombra é parte do que nos torna inteiros. O futuro só existe porque um dia fomos quebrados.
Mãe!
4.0 3,9K Assista AgoraAchei um delírio visual e simbólico, Mãe! é um daqueles filmes que mais se sente do que se entende. A fotografia é deslumbrante, o roteiro é poético e perturbador, mas, sem uma mínima noção de quem se trata de passagens bíblicas, o espectador corre o risco de se perder completamente na alegoria. Por trás de toda metáfora religiosa (Deus, a criação, o caos, o sacrifício) existe uma pergunta mais profunda, quase psicanalítica: qual é a estrutura do desejo divino? Se Ele cria, é porque algo lhe falta. E onde há falta, há desejo... exatamente como em nós. O longa parece explorar essa inquietação freudiana/lacaniana: um Deus neurótico, movido pela necessidade de ser amado, de ser visto, de preencher o vazio com devoção e destruição. O filme não é fácil, nem tenta ser. É uma experiência que incomoda, que beira o insuportável, mas que também fascina pela beleza das imagens e pela coragem de transformar o sagrado em metáfora da própria condição humana. Em Mãe!, a criação divina e o trauma humano se encontram e o resultado é um espelho inquietante, onde o Criador e a criatura parecem sofrer do mesmo mal: o desejo infinito de completude.
A Substância
3.9 1,9K Assista AgoraA Substância é aquele tipo de filme que promete ser profundo, mas escorrega no próprio sangue. Eu até curto um bom gore, mas aqui ele vem coberto de uma camada de “freshness” que tenta disfarçar um roteiro fraco com estética e gritinhos.
A suposta crítica ao etarismo e ao sexismo até poderia render algo potente se o filme não se levasse tão a sério enquanto se perde em incoerências. A ideia de criar uma nova versão de si mesma até instiga, mas... qual o sentido de hibernar e sofrer horrores pra ver uma outra pessoa vivendo a vida que você queria? Se uma não sente o que a outra vive, não é evolução, é substituição.
Nem o marketing escapou da confusão: prometeram uma “versão mais bonita de você”, mas entregaram um clone de roteiro mal resolvido. Pra piorar, a ambientação parece um mix de décadas: o programa oitentista, o celular super atual... tudo junto e misturado, sem intenção aparente.
No fim, A Substância tenta ser ácido, mas parece diluído. É body horror pra quem quer se sentir cult, mas sem coragem de encarar o verdadeiro desconforto que o gênero exige.
Hilda Furacão
4.0 99Hilda Furacão é uma dessas séries que, mesmo nascida nos anos 90 e ambientada nos 50, se torna dolorosamente atual. O enredo é atravessado por uma invasão moralista. Aquela turma proibicionista, religiosa e hipócrita que veste a fé como armadura para avançar sobre corpos, prazeres e liberdades alheias. Assistindo hoje, é impossível não lembrar de Podres Poderes, de Caetano Veloso, com seu verso cortante que diz '"será que nunca faremos senão confirmar a incompetência da américa católica, que senhor precisará de ridículos tiranos". É o retrato de um Brasil que insiste em voltar ao passado, embalado por discursos falsamente santos.
A série não apenas denuncia essa sanha de controle, como também expõe a forma sem graça, cinzenta e sem poesia da religião quando reduzida a regra e castigo. Aqui, a fé vira instrumento de opressão, e não ponte para o sagrado. Essa crítica é tão incisiva quanto necessária, pois desvela o que muitos preferem não ver: por trás da pureza pregada, há sede de poder e medo do prazer.
E como contraponto a esse moralismo sufocante, Hilda é furacão mesmo, e não apenas pelo corpo, mas pelo gesto de existir com intensidade, de desafiar as amarras e deixar o próprio desejo ser bússola. E isso 'nos salvan, nos salvarão dessas trevas e nada mais'.
É simbólico e poderoso quando a narrativa nos leva ao ponto em que todos acreditam que o mundo vai acabar e, diante da morte certa, decidem abandonar as proibições cristãs e finalmente viver. Comer, beber, amar, gozar. Não como pecado, mas como celebração.
Da vontade de participar, de 'aproximar o meu cantar vagabundo daqueles que velam pela alegria do mundo'.
No fim, 'Hilda Furacão' é mais que uma trama sobre uma mulher à frente do seu tempo. É um lembrete de que, quando o fim parece inevitável, a única escolha sensata é ser feliz. VIVA HILDA FURACÃO!"
Guerreiros do Sol
4.4 24Guerreiros do Sol é sertão em carne viva: quente, vasto, implacável. É justiça feita com bala e palavra, amor e traição, coragem e pó. A escrita é como o próprio chão rachado: dura, mas fértil para quem sabe plantar. Entre o zunir do vento e o som distante de um aboio, o filme nos lembra que a vida por essas bandas é feita de códigos antigos, daqueles que se cumprem mais com o peito do que com a lei.
E no coração desse faroeste nordestino, Irandir Santos entrega um daqueles trabalhos que não se esquecem. Ele não interpreta: ele habita o personagem. Sua voz carrega a aspereza da caatinga e o peso de cada escolha, seu olhar é faca afiada e rio profundo ao mesmo tempo. Há uma verdade bruta na sua presença que atravessa a tela, como se ele próprio fosse filho do sertão e conhecesse cada rachadura da terra e da alma. Única coisa maior que a maldade de arduíno, é a atuação para fazê-lo e de uma forma que não grita para ser notada, ela se impõe de forma silenciosa e inevitável.
Há olhares que queimam mais que o calor, paixões que nascem sob ameaça de morte, e batalhas que parecem dançar entre a honra e a vingança. E, no meio dessa terra marcada de sangue e desejo, surge Jânia. Uma mulher que não se curva. Feita de fibra e palavra afiada, é a guerreira que nem a mira certeira do destino consegue derrubar. Sua presença é como mandacaru florindo na seca: rara, desafiadora, impossível de ignorar.
No fim, 'Guerreiros do Sol' não é apenas sobre cangaço. É sobre resistir à força da história e ainda assim deixar que o coração mande. É sobre saber que, no sertão, o tempo sempre chega e, quando vem, muda tudo. E é também sobre reconhecer que existem atuações ali que são tão grandes que parecem escritas pelo próprio chão.
Raul Seixas: Eu Sou
4.2 77É raro, quase impossível, ver uma obra biográfica que não apenas narra a vida de seu personagem, mas que parece ser habitada por ele. A série sobre Raul Seixas não me pareceu um retrato, foi uma invocação. Não consigo imaginar nenhuma forma de ser melhor do que foi. A Globo acertou em cheio ao escolher ousar: entregou uma narrativa que não se acovarda diante do delírio, da contradição, do feio ou do gênio.
A fidelidade biográfica, sempre inalcançável por completo, aqui foi honesta, sensível, cheia de nuances. Mas foi na ousadia artística, nas cenas que tocavam o realismo mágico, que eu vi Raul pulsar de verdade. Era como se David Lynch tivesse nascido no subúrbio de Salvador e escrevesse um roteiro sobre um Elvis místico e anarquista. A série entende que Raul não cabia em ordem cronológica ou roteiro convencional, ele precisava de sonho, sombra, signo, risada e caos. E o modo como trataram o alcoolismo… Que lição! Nada de moralismos fáceis ou glamour tóxico. Apenas a crueza de uma doença que era ao mesmo tempo fuga, prisão, vício e impulso criativo. Falaram do álcool como quem fala de um velho conhecido: com dor, com carinho, com verdade. Isso me fez refletir sobre a vida, a minha, a dos que admiro, a de todos nós que às vezes misturamos genialidade e autodestruição como se fossem uma coisa só. A série é marcante. Essencial. Não apenas para fãs de Raul, mas para quem ama a arte quando ela se atreve a ser espelho e abismo. Os números musicais foram uma aula de como usar a canção não como trilha, mas como discurso. Até as músicas mais obscuras, aquelas que só os "iniciados" conhecem, surgiram como chaves emocionais, abrindo portas na narrativa e em mim. Saí do episódio final com a sensação de ter vivido uma espécie de ritual: a série não terminou, ela ecoou em mim como um último acorde que demora a se calar.
Uzumaki
3.1 77 Assista AgoraImpossível não pensar em Freud e no que ele fala sobre um inconsciente que é como um porão cheio de desejos reprimidos, traumas esquecidos, pulsões que a consciência não dá conta. Em Uzumaki, as espirais surgem como forças que ninguém entende racionalmente, mas que atraem, enlouquecem e deformam os moradores da cidade. A espiral, nesse contexto, pode simbolizar o retorno do recalcado — aquilo que foi escondido volta de forma distorcida, insistente, incontrolável.
A espiral também lembra o compulsivo retorno ao mesmo — um conceito próximo da pulsão de morte que Freud descreve. Em vez de buscar o prazer e a vida (Eros), o sujeito é arrastado para uma repetição destrutiva, uma espécie de fascínio mórbido. Em Uzumaki, isso se manifesta na obsessão das pessoas pela forma, na repetição de padrões insanos e na perda progressiva da razão.
E se a gente puxar um pouco mais, dá pra pensar que a cidade de Kurôzu serve de uma metáfora para a mente humana: aparentemente normal na superfície, mas cheia de camadas subterrâneas onde o inconsciente se manifesta em formas grotescas e simbólicas.
Beleza Fatal (1ª Temporada)
4.0 138Beleza Fatal é uma novela que começa arrebatadora, com um roteiro inteligente e uma trama envolvente que segura o público do início ao fim. Com um enredo que transita entre o suspense e o drama familiar, a obra escrita por Raphael Montes, um dos grandes nomes da literatura e dramaturgia brasileira, entrega uma narrativa fora da curva.
O ponto alto da novela, sem dúvida, é a vilã Lola, uma antagonista à altura das melhores figuras do gênero. Sua construção remete a grandes personagens da ficção, sendo implacável, cruel, manipuladora e completamente instável. Sua presença em cena é hipnotizante, tornando-se um dos pilares da história.
A protagonista Sofia, por outro lado, se torna uma das figuras mais controversas da trama. No fim das contas, seu destino pareceu até brando demais para tudo o que fez.
Outro grande mérito da novela está no elenco, que entrega atuações dignas de prêmios. As Camilas foram o grande destaque, dominando a tela com performances que poderiam muito bem concorrer ao Oscar. Lino e Elvira são outro grande acerto, construindo uma dinâmica familiar emocionante que toca o público. Lino, em especial, entrega momentos poderosos com seus discursos motivacionais, o que fez muitos torcerem para que ele sobrevivesse até o final.
No entanto, Beleza Fatal não é perfeita. Os furos de roteiro são evidentes e, em alguns momentos, chegam a ser frustrantes. O personagem Gabriel, por exemplo, é um policial que não resolve nada, tornando-se completamente irrelevante na narrativa. Alec se torna um peso morto na trama, com uma personalidade cansativa. Já a mãe dos Argento parece existir só pra desmascarar o Átila sem uma função real, sendo totalmente desnecessária. Já Andréia, que poderia ser uma personagem forte e estrategista, acabou sendo sonsa e sem grande impacto na trama.
O maior problema, no entanto, foi a quantidade reduzida de episódios, o que fez com que o desfecho fosse apressado e previsível. A novela segurou um ritmo excelente até o episódio 38, mas daí em diante perdeu fôlego, entregando um final que, apesar de coerente, careceu de impacto.
Mesmo com essas falhas, Beleza Fatal continua sendo uma produção memorável e que prova o talento de Raphael Montes. A Max demonstrou seu potencial e já deixou o público ansioso por suas próximas produções. Diante desse resultado, fica a pergunta: como esse autor ainda não foi contratado pela Globo?
Ainda Estou Aqui
4.5 1,5K Assista AgoraAinda Estou Aqui é mais do que um filme – é um soco no estômago que nos lembra de um dos períodos mais sombrios da história do Brasil. A ditadura militar deixou cicatrizes profundas, e o filme de Walter Salles captura essa dor com uma contenção emocional que é, ao mesmo tempo, dolorosa e poderosa. Sem exageros, a obra se comunica através de silêncios, vazios e olhares inocentes, especialmente das crianças, que carregam o peso de uma realidade que não entendem completamente. Fernanda Torres brilha em uma atuação que traduz a resistência silenciosa de tantas famílias, incluindo a minha, que viveram sob o medo e a repressão.
O filme é um testemunho necessário, não apenas para honrar quem resistiu, mas para nos lembrar do que significa viver sob o autoritarismo. Além disso, é um exemplo do talento único do cinema latino-americano, que consegue transformar dor e luta em arte com sensibilidade e força. Ainda Estou Aqui é um orgulho para o cinema brasileiro e um alerta para que nunca esqueçamos o passado, nem permitamos que ele se repita.
Banshee (3ª Temporada)
4.4 106A terceira temporada de Banshee mantém um roteiro que, embora não seja revolucionário, consegue prender a atenção do espectador de forma intensa. A direção, por sua vez, é simplesmente impressionante, elevando a série a um patamar visual e narrativo que dificulta até respirar durante certas cenas. Confesso que fiquei dividido entre a emoção e a falta de ar ao acompanhar os episódios. Não é o tipo de série que costumo assistir, mas certamente seria algo que me deixaria viciado na adolescência, com sua mistura de ação, drama e momentos de pura adrenalina.
A temporada abusa de alguns clichês, mas isso não chega a ser um problema, já que a execução é tão bem-feita que mantém o ritmo acelerado e de tirar o fôlego. O desenvolvimento de personagens como Brock e Burton é um dos pontos altos, com este último protagonizando uma das melhores cenas de ação da série e se tornando um dos personagens mais interessantes.
No entanto, há um aspecto que poderia ser mais ágil: a trama envolvendo os indígenas, que demora a se desenrolar e acaba perdendo um pouco do impacto que poderia ter. Ainda assim, é uma temporada que entrega muita ação, tensão e momentos memoráveis, consolidando Banshee como uma série que, mesmo com suas imperfeições, sabe como manter o público grudado na tela.
Vale O Escrito - A Guerra do Jogo do Bicho
4.5 143"Vale o Escrito" é uma daquelas séries que te prendem do início ao fim! Ela mostra o mundo do jogo do bicho com tanta riqueza de detalhes que parece até ficção, mas tudo aquilo realmente aconteceu! É impressionante ouvir os relatos dos próprios bicheiros e das pessoas envolvidas, falando de poder, traições, e até crimes pesados, como se fosse algo normal.
A produção é muito bem feita, mas confesso que em alguns momentos parece que eles dão uma romantizada nos chefões do bicho, o que pode incomodar. Ainda assim, é uma aula sobre um lado do Brasil que muita gente prefere ignorar. Vale assistir, mas com aquele olhar crítico ligado!
Tô ansioso pra segunda temporada!
A Cura
3.9 168A proposta dessa série é tão incrível, ela é boa, mas só fica nisso. Achei fantástico a sacada da reencarnação e tudo mais, mas são tantas brechas, tantas coisas soltas que perde a graça.
Quando Dimas descobre que o Otto é seu pai é patética pois desde que foi descoberto que a mãe dele tinha um caso com Otto, o filho obviamente seria o Dimas.
Ó Paí, Ó 2
2.5 84fico tão ruim que dá pra dizer que nunca existiu perto da obra prima que é o primeiro.
Caravana das Drags (1ª Temporada)
3.7 40Eu adorei! Para uma primeira temporada muita coisa me anima. É gritante a referência a Priscilla a Rainha do Deserto e poderiam explorar ainda mais dentro dos jargôes ricos no meio LGBTQIA+ aqui no Brasil. A ideia de deixar a Ikaro como host foi maravilhosa, a Xuxa apesar do grande nome serve mais como uma colaboradora. Achei alguns convidados a jurados muito sem noção. (Nicole Bahls julgando o bate cabelo não fez sentido nenhum, deveriam trazer a Marcia Pantera).
Uma coisa a ser melhorada é a edição, toda hora que parece que vai acontecer alguma coisa corta pro próximo take e deixa a gente perdidinho, principalmente no desafio principal que perde todo o climax. A apresentação das drags vai se dando no decorrer da temporada e achei isso bem ruim, já que rola uma expectativa para descobrir quem são as drags. A eliminação é mais simbólica que técnica e isso me frustrou um pouco, não sei se por costume do RPDR, mas senti falta de uma terceira prova para as drags mostrarem ainda mais seus talentos. Às vezes a impressão era que os mini desafios eram os principais e roubavam muito tempo do episódio comparado ao principal.
No mais, eu amei e espero que o programa tome outros rumos para não cair numa mesmice, pois tem muito potencial para ser gigante.
RuPaul's Drag Race (15ª Temporada)
4.1 34Essa temporada se chama Sasha Colby, sem dúvidas a gata entregou excelência em toda temporada. É um fenômeno drag!
As queens todas muito boas, o top 4 foi merecido e rico demais, realmente foi uma temporada que valeu a pena acompanhar. Anetra e Mistress também são gigantes e entregaram tanta coisa que nos enche os olhos.
Dessa vez a velha acertou em tudo!
M3GAN
3.0 889 Assista AgoraÚnica coisa mais interessante no filme são as implicações psicológicas, mas nem é pra tanto. O terror todinho foi definitivamente o filme não acabar nunca.