Dava tudo para ser uma mera divulgação turística dos Lençóis Maranhenses, se não fosse a poética documental explorada com atores e população local, que sugere uma imersão etnográfica da equipe de produção e do diretor que já realizou um curta sobre a parteira que inspira a personagem principal. Em alguns momentos, lembrou-me o maravilhoso Girimunho (2012), de Helvécio Marins Jr., Clarissa Campolina. O filme retrata vários dramas do povoado e região (a falta de energia elétrica, que força a conservação dos alimentos com sal, o aliciamento de menores pela facção criminosa 10T, o avanço neopentecostal, o aquecimento global que afeta as dunas, o lixo oceânico que reduz o pescado), embalados pela musicalidade maranhense nas radiolas, nos cantos ancestrais, no tambor de crioula ou nos sons de matraca, pandeirão, tambor-onça, zabumba e maracá típicos do bumba-meu-boi do Maranhão. Não é romantização da precariedade resiliente da cultura popular e nem só exaltação da riqueza cultural do Estado: é sensibilização, como pode ser depreendido da fala do diretor, em entrevista para o Portal Exibidor:
"A duna que desvia o rio que destrói casas em um povoado isolado é o prenúncio de uma tragédia climática que está batendo na porta de todo mundo. O sal que matou o marido de Betânia é, de certa forma, a representação da má gestão da pandemia que matou tantos brasileiros. A revolta de Dona Betânia é a nossa revolta. Mas, assim como as flores que surgem nos Lençóis na época da seca, Betânia e sua família renascem"
Uma fotografia e sequências fabulosas, como a de ''roda viva'' tocada no pátio superior ao redor da balaustrada, além de toda essa evocação fiel à estética da época, à fotografia de Mário Carneiro ou a atmosfera de filmes como a presente em Manhã Cinzenta (Olney São Paulo) e em O Desafio (Saraceni).
Mais verborragia e menos body horror. Parece que Cronenberg investiu num longa-metragem que funciona mais como ensaio para uma seriado cujo foco são diálogos inteligentes sobre teorias da conspiração (episódio de black mirror?), tipo aquelas paranoias qanon que tem chip chinês na vacina de covid. Uma pena que o potencial da pesquisa do autor sobre tecnologia, medicina e os corpos das mortalhas tecnológicas foi desperdiçado com avatares de nerd incel e diálogos repetitivos.
Remake deTeorema de Pasolini com a mesma estética tosca publicitária/panfletária revenge porn de Raspberry Reich (obra de Bruce La Bruce de 2004) e de Gaspar Noé e que ainda aproveita referências de Salò e Pink Flamingos (Uma mistura da Silvana Mangano em Teorema com a sequência de Divine desfilando ''Girl can't Help it...'', o banquete de Saló). Nada original e com a mesma estética batida cuja intenção é chocar ou ser revolucionário, mas é totalmente previsível e pastiche. O cinema extremo aí é um dildo ungido e murcho sem tadalafila, cujo tema da imigração é mero pretexto pra dizerem ''olha que conceitual, que político''.
OBRA-PRIMA das pornochanchadas! Agildo Ribeiro simplesmente genial, cada comentário um melhor que o outro, como ''NOSSA SENHORA DOS ENTENDIDOS! Clóvis Bornay vai ter uma síncope/ Mulher com Mulher dá couve flor''. A caricatura da cultura gay não é jamais depreciativa, antes funcionou como denúncia: das pressões da mãe por um neto e casamento do filho e da crítica do modelo heteronormativo de educação familiar (o pai querendo ensinar o filho a ser machão), quando não há remédio para o que não precisa de cura. Rogéria MAGNÍFICA como sempre, DIVA ABSOLUTA e muito representativa como dizem hoje (vejam e comprovem). Certamente é um filme de triunfo LGBT mesmo com as limitações da época e caricaturas, por isso, muito a frente do seu tempo.
Não consegue chegar no padrão cult da trasheira ''tão ruim que é bom", cuja ingenuidade gera originalidade e humor involuntário, mas é um desperdício de esquetes sobre homoafetividade, sexualidade marginal, michês para embalar uma pornochanchada explícita com várias subtramas mal desenvolvidas que gravitam em torno de Lady Francisco/Luis e seu romance com o adolescente Marcos, depois de tanto cruising mal sucedido...
Assistido com 15 min. de atraso, domingo dia 27/04 no Cinema da Fundação Porto, mas deu para concatenar direitinho a narrativa fragmentada e sem apego ao tempo cronológico (o que obviamente não desfavorece o filme, nem minha leitura). É mais um exemplar típico do cinema da retomada tardio que não supera a década de 90, com muitas referências ao manguebeat (aquele uso da linguagem telejornalística interativa presente nos filmes da Telephone Colorido, por exemplo) e todo o universo da brodagem audiovisual da geração de Kleber Mendonça, Camilo Cavalcante, Paulo Caldas e Claudio Assis. Traz o mesmo contraponto rural/urbano de Árido Movie, com marginalidade e política oligárquica envolvidas até o talo, muitas piadas manjadas para arrancar risadas locais sob encomenda (''preá'', ''o verdadeiro rei'', ''São Paulo-Curitiba") e mais cenas de ação e perseguição policial do que o padrão. Outra coisa que diferencia este filme: soa como retratação de esquerdomacho para o público feminista de classe média, tendo em vista a fama que os cineastas egressos do coletivo Van-Retrô têm no Recife (risos). É o tal negócio, legalzinho, mas nada original, um teor 80% tradição e 20% modernidade de uma estética estagnada do manguebeat quando abandona todos potenciais da linguagem para ficar na ruminação e autocelebração das referências locais.
O filme é metade chinfrim, metade promissor. As cenas do pai mafioso são terrivelmente toscas (especialmente a do encontro na limousine) o filme tenta se mostrar todo radical com cenas de ação, como a perseguição de carro e a ponte, mas o forte mesmo é ambiência sonora e do show (Sérgio Dias incrível)
É um bom exemplar da linguagem alegórica do cinema novo, em meio ao contexto da ditadura militar, que ainda explora o recurso rouchiano do roteiro compartilhado e com atuações da população local, desfazendo os limites entre ficção e documentário, pois agrega à narrativa as lendas e costumes locais. Aproveita a fotografia belíssima de Aloysio Raulino e a ambiência de Mucugê, a seu favor, para um enredo que se desenvolve de forma ensaística, performativa.
Não é tão ruim, como estão dizendo. Atende aos clichês do gênero (rigorosamente, arrisco a dizer) do terror, como o roteiro negligenciado para focar em cenas de impacto, efeitos visuais, direção de arte. Por exemplo, o início com um andamento bastante abrupto e até tosco, quando fala dos problemas do visto de Thomas na Alemanha e a revelação da morte da mãe.
Mas isso é praxe na imensa maioria dos filmes de terror, uma certa forçação dos absurdos da trama, como se pegasse carona numa lógica precipitada e fragmentada dos pesadelos, para por foco na atmosfera, na imagem, nas situações oníricas, que o filme explora razoavelmente bem. Não adianta disfarçar desconforto com o casal gay por sentir de falta do papel estereotipado da mulher histérica gritando dos casais heteros tradicionais (outro 'requinte' do gênero, bastante batido, por sinal), pois os gays aqui capricham na DR misturada ao delírio da situação (sem virar um folhetim) o que de fato demarca que é um casal e um casal que se passa por 'amigo' pra não ofender as tias tradicionais (uma situação que os gays enfrentam, quando existe um interesse pragmático, como é o caso ali) o que não adianta muito, no fim das contas...
Acaba sendo um terror, de fato, sem resvalar para um melodrama de casal e ainda explora especificidades gays, mas sem aprisionar o terror nisso. É um terror bem clichezão. Ah, Cristina Pereira sempre ótima, e foi uma boa sacada aproveitar essa saudosa excentricidade da atriz (dos filmes de Ana Carolina, especialmente), como bruxa, o que vale ressaltar.
PS.: na vida real tem muitos mais bruxas da 'cura' gay do que nas ficções como essa e Pedágio, de Carolina Markowicz.
É uma obra divertida em sua mescla de trama de suspense, comédia teen e musical roqueiro que de fato cria uma identidade própria de transição para os anos 90, antecede tendências e sobressai os clichês oitentistas, por conter um reflexo do momento de passagem da atmosfera da época. Adianta todo esse clichê da linguagem escolar do jovem radical carioca/seriado Malhação, que é sofrível de ver, mas é universal o ranço adolescentóide que apenas manifesta-se de outra forma hoje. O cringe de hoje é o cringe de amanhã e todo adolescente é a imagem do aborrecimento. E que vozeirão da Danielle Daumerie, é a atmosfera do filme toda condensada, assim como o visual radical chic da Beth Goulart, como irmã da protagonista. Destaque para sequência genial de Deborah Evelyn pagando peitinho e provocando perseguição policial e para a maravilhosa faixa da trilha "Ninguém é uma ilha".
Nada que não seja mais cruel que a rotina industrial dos animais antes do abate para consumo, só que com todo o glamour das roupas, dos movimentos, como uma dança de afirmação da virilidade do toureiro. ¡tiene cojones! é afirmado o tempo inteiro, não que isso já não seja dito constantemente na cultura espanhola, mas no contexto das touradas, certamente, é associado à valentia, a ''cumbre'' (o tempo todo repetido, também), à ereção, ao fálico. De fato, podem chamar de doentio, mas é totalmente compreensível o erotismo dessas roupas coladas e extravagantes nesses homens, assim como a magia ritual, os cavalos vendados em armadura e os que retiram o animal sacrificado, as expressões faciais de domar o medo e também da loucura viril do desbravamento, do correr riscos que pode levar ao óbito. Uma ritualização da cultura vencendo a morte ou a natureza, que muitos vão chamar de machista, patriarcal, cruel, sem nenhuma bioética, mas não deixa de ter o seu fascínio, especialmente na forma como Serra filmou.
Não espere um filme focado no romance entre Viet e Nam, mas uma narrativa fragmentada que procura unir as metades, ou mais pedaços, de um filme que visa montar as memórias de um país, desde sua unificação sob a república socialista. Busca contar a herança pós-guerra e seus efeitos sobre as famílias dos veteranos, na procura pelos seus restos mortais, sobre a pobreza de uma juventude rural, o imaginário da emigração (boat people). O núcleo é o casal, a mãe de Nam e um veterano que foi amigo do seu pai na guerra, mas é o país a metáfora encardida e fóssil da história. Quem espera um romance escatológico, elogiado pela lista de melhores do ano passado, feita por John Waters, vai se surpreender.
É uma tentativa de ser uma proposta avassaladora e visceral, mas acerta na caricatura perdida entre nuances da delicadeza e nuances do clichê. Não tem como alguém conceber um roteiro baseado no mundo da arte da contemporaneidade ou mesmo no mundo das artes cênicas e propor um diálogo sofrível que simule o desconhecimento de um ator que diga que a Mona Lisa é de Picasso e a Vênus de Botticelli é de Romero Britto, ou uma direção de arte que passe despercebido uma marchand tenha quadros pintados na esquina por um amador com estilo caricato de IA na sua mansão. E a trilha parece toda amadora por músicos improvisados de rua, e o pior é quando Florence canta. Aliás, o filme tem uma alma brega de alguém pedante que tem um olhar muito distante sobre a arte contemporânea e só encara a parte do mercado alienado das "bananas com fita adesiva na parede'' e só fala de obra-prima dos grandes mestres da pintura, mas cuja concepção de arte é punheta com ruiva e aqueles quadros super reproduzidos nos anos80 de anjinhos,loirinhas,criancinhas chorando e dinossauros invadindo estradas.
É uma chanchada tardia, produzida pela Atlântida, que incorpora referências de várias épocas, além da inspiração na comédia de costumes carioca do século XIX, a partir da peça As Desgraças de uma Criança ou O Soldado e o Sacristão (1846), de Martins Pena. O próprio filme autotitula-se nos letreiros ''O Grande Desbum - um filme de muitas épocas! ou pecaram pelo exagero ou alegro rebolatto ou qualquer coisa", o que indica a convergência entre o caráter hilariante da chanchada, da comédia de costumes e o contexto da contracultura marginal da época (década de 1970, ano 1978), manifesto no desbunde ou desbum. Outra referência que pode ser levantada é a do penúltimo texto de Oduvaldo Vianna Filho, Allegro desbundaccio, ou Se o Martins Pena fosse vivo (1973), que também usa a ideia de casamento burguês por conveniência para encenar a crítica de costumes. Ou seja, uma mistura do melhor que havia no cinema e na dramaturgia brasileira, da época, pensada por um diretor acostumado a adaptar Nelson Rodrigues e Plínio Marcos para o cinema (Braz Chediak).
Uma obra consistente a respeito do imperialismo oitocentista europeu e as pseudoteorias do racismo científico, aplicados no continente africano. O filme alerta para a permanência desse acervo de crânios profanados de túmulos nos museus alemãos e, longe de acenar para um ''politicamente correto'' ou ''wokismo para não ferir as sensibilidades empoderadas na atualidade'', retrata situações que aconteceram ou poderiam ter acontecido de fato, como um príncipe da etnia Herero querer se relacionar de igual para igual com o imperador Guilherme, o incômodo com as medições de crânio ou de ser cobaia, a coexistência da crença espiritual cristã ao culto dos ancestrais, pois não é possível pressupor que etnias que resistiram ao jugo colonial, seriam uma espécie de tábula rasa e absorveriam a ideia de superioridade ou as hierarquias sociais dos europeus como algo dado e natural (e pressupor isso, significa ter a mentalidade racista da época, pressupor que outras culturas não tenham dignidade e agência). Destaco também uma sequência do filme, na qual há um embate entre personagens, respectivamente, da missão católica e do evolucionismo na ciência antropológica da época, e o fato de ambos aproveitarem-se do empreendimento colonial para realizar suas ''boas intenções''.
Este clássico tem 3 coisas geniais: os diálogos extremamente inteligentes de sujeitos provenientes de uma geração yuppie em ascensão que tá ingressando nos anos 80, com muita ironia, arrivismo, oportunismo e falso moralismo; a trilha sonora fantástica; e a ambiência badalada da danceteria que justifica a defesa terminal do momento histórico pelo personagem de Josh Neff (Matt Kesslar). O filme rende muitas pérolas como "tio patinhas é tão sensual'', a discussão sobre a A Dama e o Vagabundo, a montagem pós-sequência do hino gospel entoado no hospital e a interpretação genial da 'amiga' falsiane invejosa e empatafoda personificada em Charlotte Pingress (Kate Beckingsale), que é um poço espirituoso de narcisismo e insegurança diante da beleza e inteligência de Alice Kinnon (Chloë Sevigny)
É tipo a novela Chiquititas zumbi que se encontrou com uma Opera Rock e depois não se decidiu sobre que gênero cinematográfico ser. Exatamente, após o início do romance, na interpretação de A Lenda de Sandy & Jr. começa a degringolar na mescla de linguagens, não sabendo distribuir romance com musical e terror, com muito melodrama adolescente e fotografia vaporwave (o clichê neon que infesta algumas produções nacionais na contemporaneidade) e não contextualiza a relação dos pais com Martin e a história da clínica, que sabemos pela trama ser um inferno e ele quer fugir e reencontrar o amigo zumbi. O filme age como se quisesse apenas entreter com cores bafônicas e musical e exibir um cenário instagramável pra atores com gogó para cantar, no final das contas, não engata em romance, nem em terror e só é um musicalzinho barato pra encantar um público com alma teen. Promete entregar muita coisa até o lipsync da Sandy (cuja interpretação é genial, de fato), mas perde a trama na puberdade meramente cenográfica com tanta informação visual e musical e um roteiro perdido.
Uma caralhada de peça publicitária, letreiros, performances aleatórias e um pretexto experimental sobre o famigerado tema do estrangeiro que adentra uma cidade pequena. Sem qualquer concatenação narrativa entre os anúncios e o anunciador, como se quisesse reproduzir o estranhamento da população em relação ao anunciador na própria construção fílmica dessa poluição visual em relação ao espectador.
Dessa vez, este diretor acertou bastante e conseguiu transcender aos clichês da revenge porn que tanto caracterizam sua obra e trouxe um conteúdo mais humanista, sem aquele excesso de militância forçada com questões do gueto, como se precisasse demarcar com redundância num gênero de filmes LGBT+, o reforço de um conteúdo só para quem é ''do meio'', para ''entendidos''.
Conseguiu criar um caldeirão de referências do cinema queer, de Shortbus à Gerontofilia, e ainda fez interagir gerações. Juntou ''a velha guarda'' - com a cena cultural da vanguarda paulistana (Cida Moreira) e nacional (Everaldo Pontes), com a evocação do cinema marginal (reconstituição de uma cena de ''A Margem'', Ozualdo Candeias) - ao contexto do besteirol da internet (Inês Brasil) e das vivências atuais da novíssima geração queer criada na internet (ghosting, inserção trans no mercado de trabalho e na educação superior, camming). Além de toda a construção de uma narrativa baseada em dramas atemporais (a pandemia, tratamento de AIDS numa cidade pequena, depressão), que permitem uma conexão maior com o público em geral.
Outra coisa a ser salientada, é que a ''militância'' continua lá, mas sem a gratuidade e o panfletarismo exacerbado e de modo que casa bem com a trama, nas evasões psicodélicas do filme (a esquete da criança viada, o especismo no petshop) e com as situações exibidas que problematizam a questão da memória e esquecimento (o beco dos aflitos, a história dos objetos de antiquário, a amnésia da covid).
É como um episódio daquela série da Tv Cultura dos contos de fadas, com toda a fidelidade empolada à aristocracia fantástica do gênero, mas melhorada pela brasilidade de Jofre Soares bruxo, Zezé Motta coruja encantada, Toni Tornado guarda do rei, a presença suntuosa de Zé do Caixão e da locação do castelo na Oficina Cerâmica de Francisco Brennand, oferecendo um dos momentos mais fodásticos da cinematografia brasileira: as unhas retorcidas de Zé do Caixão acariciando um gato cosplay de Lion Man. O elemento da ficção científica referente à origem extraterrestre do gato é puramente gratuito, o que não desmerece a trama; acaba sendo um extra exótico do filme.
A intenção lúdica da trama infantil dispensa todo bom senso de roteiro e o trash compensa toda a prodigalidade criativa sem rumo como a nave: a aparição de humanóides malvados querendo a ampliação do cravo do nariz de fofão para dominar as galáxias (?), numa nave prestes a colidir com um asteroide e com uma bomba (?) relógio de polos luminosos. No entanto, a sem vergonhice de ser ridículamente infantil, recheada por clichês sci-fi, deixa genial o filme em sua tosquice maravilhosa, sem o excesso de correção pudica atual pela disponibilidade de recursos e o conhecimento científico,característica aquela que só os filmes oitentistas possuíam.
Não tem nada a ver com nostalgia em si, mas é perceptível esse elemento datado, do Jaspion às Pornochanchadas e aos Trapalhões, essa liberdade nonsense criativa e ridícula associada a uma ingenuidade de imaginação tecnológica, num momento que só se pressentia todas as possibilidades tecnológicas e se vomitava literatura ciberpunk pelos poros. Compensavam soluções imaginativas para carência de efeitos especiais e para a distância distópica da presença tecnológica no cotidiano da contemporaneidade. É mais um filme-sintoma da época, do que um exemplar único ligado ao personagem.
Betânia
3.5 11 Assista AgoraDava tudo para ser uma mera divulgação turística dos Lençóis Maranhenses, se não fosse a poética documental explorada com atores e população local, que sugere uma imersão etnográfica da equipe de produção e do diretor que já realizou um curta sobre a parteira que inspira a personagem principal. Em alguns momentos, lembrou-me o maravilhoso Girimunho (2012), de Helvécio Marins Jr., Clarissa Campolina. O filme retrata vários dramas do povoado e região (a falta de energia elétrica, que força a conservação dos alimentos com sal, o aliciamento de menores pela facção criminosa 10T, o avanço neopentecostal, o aquecimento global que afeta as dunas, o lixo oceânico que reduz o pescado), embalados pela musicalidade maranhense nas radiolas, nos cantos ancestrais, no tambor de crioula ou nos sons de matraca, pandeirão, tambor-onça, zabumba e maracá típicos do bumba-meu-boi do Maranhão. Não é romantização da precariedade resiliente da cultura popular e nem só exaltação da riqueza cultural do Estado: é sensibilização, como pode ser depreendido da fala do diretor, em entrevista para o Portal Exibidor:
"A duna que desvia o rio que destrói casas em um povoado isolado é o prenúncio de uma tragédia climática que está batendo na porta de todo mundo. O sal que matou o marido de Betânia é, de certa forma, a representação da má gestão da pandemia que matou tantos brasileiros. A revolta de Dona Betânia é a nossa revolta. Mas, assim como as flores que surgem nos Lençóis na época da seca, Betânia e sua família renascem"
A Batalha da Rua Maria Antônia
3.4 11Uma fotografia e sequências fabulosas, como a de ''roda viva'' tocada no pátio superior ao redor da balaustrada, além de toda essa evocação fiel à estética da época, à fotografia de Mário Carneiro ou a atmosfera de filmes como a presente em Manhã Cinzenta (Olney São Paulo) e em O Desafio (Saraceni).
Parque de Diversões
1.7 11Tentou um cruising Tsai Ming-Liang e acabou no pornô Bruce LaBroxa do 'moitel' inclusivo. Risível de tosco no péssimo sentido.
O Senhor dos Mortos
2.9 23Mais verborragia e menos body horror. Parece que Cronenberg investiu num longa-metragem que funciona mais como ensaio para uma seriado cujo foco são diálogos inteligentes sobre teorias da conspiração (episódio de black mirror?), tipo aquelas paranoias qanon que tem chip chinês na vacina de covid. Uma pena que o potencial da pesquisa do autor sobre tecnologia, medicina e os corpos das mortalhas tecnológicas foi desperdiçado com avatares de nerd incel e diálogos repetitivos.
O Intruso
2.6 10 Assista AgoraRemake deTeorema de Pasolini com a mesma estética tosca publicitária/panfletária revenge porn de Raspberry Reich (obra de Bruce La Bruce de 2004) e de Gaspar Noé e que ainda aproveita referências de Salò e Pink Flamingos (Uma mistura da Silvana Mangano em Teorema com a sequência de Divine desfilando ''Girl can't Help it...'', o banquete de Saló). Nada original e com a mesma estética batida cuja intenção é chocar ou ser revolucionário, mas é totalmente previsível e pastiche. O cinema extremo aí é um dildo ungido e murcho sem tadalafila, cujo tema da imigração é mero pretexto pra dizerem ''olha que conceitual, que político''.
Gugu, O Bom de Cama
2.8 13OBRA-PRIMA das pornochanchadas! Agildo Ribeiro simplesmente genial, cada comentário um melhor que o outro, como ''NOSSA SENHORA DOS ENTENDIDOS! Clóvis Bornay vai ter uma síncope/ Mulher com Mulher dá couve flor''. A caricatura da cultura gay não é jamais depreciativa, antes funcionou como denúncia: das pressões da mãe por um neto e casamento do filho e da crítica do modelo heteronormativo de educação familiar (o pai querendo ensinar o filho a ser machão), quando não há remédio para o que não precisa de cura. Rogéria MAGNÍFICA como sempre, DIVA ABSOLUTA e muito representativa como dizem hoje (vejam e comprovem). Certamente é um filme de triunfo LGBT mesmo com as limitações da época e caricaturas, por isso, muito a frente do seu tempo.
Os Rapazes das Calçadas
2.3 7Não consegue chegar no padrão cult da trasheira ''tão ruim que é bom", cuja ingenuidade gera originalidade e humor involuntário, mas é um desperdício de esquetes sobre homoafetividade, sexualidade marginal, michês para embalar uma pornochanchada explícita com várias subtramas mal desenvolvidas que gravitam em torno de Lady Francisco/Luis e seu romance com o adolescente Marcos, depois de tanto cruising mal sucedido...
Serra das Almas
3.1 5 Assista AgoraAssistido com 15 min. de atraso, domingo dia 27/04 no Cinema da Fundação Porto, mas deu para concatenar direitinho a narrativa fragmentada e sem apego ao tempo cronológico (o que obviamente não desfavorece o filme, nem minha leitura). É mais um exemplar típico do cinema da retomada tardio que não supera a década de 90, com muitas referências ao manguebeat (aquele uso da linguagem telejornalística interativa presente nos filmes da Telephone Colorido, por exemplo) e todo o universo da brodagem audiovisual da geração de Kleber Mendonça, Camilo Cavalcante, Paulo Caldas e Claudio Assis. Traz o mesmo contraponto rural/urbano de Árido Movie, com marginalidade e política oligárquica envolvidas até o talo, muitas piadas manjadas para arrancar risadas locais sob encomenda (''preá'', ''o verdadeiro rei'', ''São Paulo-Curitiba") e mais cenas de ação e perseguição policial do que o padrão. Outra coisa que diferencia este filme: soa como retratação de esquerdomacho para o público feminista de classe média, tendo em vista a fama que os cineastas egressos do coletivo Van-Retrô têm no Recife (risos). É o tal negócio, legalzinho, mas nada original, um teor 80% tradição e 20% modernidade de uma estética estagnada do manguebeat quando abandona todos potenciais da linguagem para ficar na ruminação e autocelebração das referências locais.
Johnny Love
2.7 4O filme é metade chinfrim, metade promissor. As cenas do pai mafioso são terrivelmente toscas (especialmente a do encontro na limousine) o filme tenta se mostrar todo radical com cenas de ação, como a perseguição de carro e a ponte, mas o forte mesmo é ambiência sonora e do show (Sérgio Dias incrível)
Cristais de Sangue
3.4 2É um bom exemplar da linguagem alegórica do cinema novo, em meio ao contexto da ditadura militar, que ainda explora o recurso rouchiano do roteiro compartilhado e com atuações da população local, desfazendo os limites entre ficção e documentário, pois agrega à narrativa as lendas e costumes locais. Aproveita a fotografia belíssima de Aloysio Raulino e a ambiência de Mucugê, a seu favor, para um enredo que se desenvolve de forma ensaística, performativa.
A Herança
2.4 39 Assista AgoraNão é tão ruim, como estão dizendo. Atende aos clichês do gênero (rigorosamente, arrisco a dizer) do terror, como o roteiro negligenciado para focar em cenas de impacto, efeitos visuais, direção de arte. Por exemplo, o início com um andamento bastante abrupto e até tosco, quando fala dos problemas do visto de Thomas na Alemanha e a revelação da morte da mãe.
Mas isso é praxe na imensa maioria dos filmes de terror, uma certa forçação dos absurdos da trama, como se pegasse carona numa lógica precipitada e fragmentada dos pesadelos, para por foco na atmosfera, na imagem, nas situações oníricas, que o filme explora razoavelmente bem. Não adianta disfarçar desconforto com o casal gay por sentir de falta do papel estereotipado da mulher histérica gritando dos casais heteros tradicionais (outro 'requinte' do gênero, bastante batido, por sinal), pois os gays aqui capricham na DR misturada ao delírio da situação (sem virar um folhetim) o que de fato demarca que é um casal e um casal que se passa por 'amigo' pra não ofender as tias tradicionais (uma situação que os gays enfrentam, quando existe um interesse pragmático, como é o caso ali) o que não adianta muito, no fim das contas...
Acaba sendo um terror, de fato, sem resvalar para um melodrama de casal e ainda explora especificidades gays, mas sem aprisionar o terror nisso. É um terror bem clichezão.
Ah, Cristina Pereira sempre ótima, e foi uma boa sacada aproveitar essa saudosa excentricidade da atriz (dos filmes de Ana Carolina,
especialmente), como bruxa, o que vale ressaltar.
PS.: na vida real tem muitos mais bruxas da 'cura' gay do que nas ficções como essa e Pedágio, de Carolina Markowicz.
Mistério no Colégio Brasil
3.0 6É uma obra divertida em sua mescla de trama de suspense, comédia teen e musical roqueiro que de fato cria uma identidade própria de transição para os anos 90, antecede tendências e sobressai os clichês oitentistas, por conter um reflexo do momento de passagem da atmosfera da época. Adianta todo esse clichê da linguagem escolar do jovem radical carioca/seriado Malhação, que é sofrível de ver, mas é universal o ranço adolescentóide que apenas manifesta-se de outra forma hoje. O cringe de hoje é o cringe de amanhã e todo adolescente é a imagem do aborrecimento. E que vozeirão da Danielle Daumerie, é a atmosfera do filme toda condensada, assim como o visual radical chic da Beth Goulart, como irmã da protagonista. Destaque para sequência genial de Deborah Evelyn pagando peitinho e provocando perseguição policial e para a maravilhosa faixa da trilha "Ninguém é uma ilha".
Tardes de solitude
3.2 3Nada que não seja mais cruel que a rotina industrial dos animais antes do abate para consumo, só que com todo o glamour das roupas, dos movimentos, como uma dança de afirmação da virilidade do toureiro. ¡tiene cojones! é afirmado o tempo inteiro, não que isso já não seja dito constantemente na cultura espanhola, mas no contexto das touradas, certamente, é associado à valentia, a ''cumbre'' (o tempo todo repetido, também), à ereção, ao fálico. De fato, podem chamar de doentio, mas é totalmente compreensível o erotismo dessas roupas coladas e extravagantes nesses homens, assim como a magia ritual, os cavalos vendados em armadura e os que retiram o animal sacrificado, as expressões faciais de domar o medo e também da loucura viril do desbravamento, do correr riscos que pode levar ao óbito. Uma ritualização da cultura vencendo a morte ou a natureza, que muitos vão chamar de machista, patriarcal, cruel, sem nenhuma bioética, mas não deixa de ter o seu fascínio, especialmente na forma como Serra filmou.
Viet e Nam
3.3 4Não espere um filme focado no romance entre Viet e Nam, mas uma narrativa fragmentada que procura unir as metades, ou mais pedaços, de um filme que visa montar as memórias de um país, desde sua unificação sob a república socialista. Busca contar a herança pós-guerra e seus efeitos sobre as famílias dos veteranos, na procura pelos seus restos mortais, sobre a pobreza de uma juventude rural, o imaginário da emigração (boat people). O núcleo é o casal, a mãe de Nam e um veterano que foi amigo do seu pai na guerra, mas é o país a metáfora encardida e fóssil da história. Quem espera um romance escatológico, elogiado pela lista de melhores do ano passado, feita por John Waters, vai se surpreender.
Caindo em Tentação
3.0 5''já brincou de carnaval?''
Vermelho Monet
3.2 13 Assista AgoraÉ uma tentativa de ser uma proposta avassaladora e visceral, mas acerta na caricatura perdida entre nuances da delicadeza e nuances do clichê. Não tem como alguém conceber um roteiro baseado no mundo da arte da contemporaneidade ou mesmo no mundo das artes cênicas e propor um diálogo sofrível que simule o desconhecimento de um ator que diga que a Mona Lisa é de Picasso e a Vênus de Botticelli é de Romero Britto, ou uma direção de arte que passe despercebido uma marchand tenha quadros pintados na esquina por um amador com estilo caricato de IA na sua mansão. E a trilha parece toda amadora por músicos improvisados de rua, e o pior é quando Florence canta. Aliás, o filme tem uma alma brega de alguém pedante que tem um olhar muito distante sobre a arte contemporânea e só encara a parte do mercado alienado das "bananas com fita adesiva na parede'' e só fala de obra-prima dos grandes mestres da pintura, mas cuja concepção de arte é punheta com ruiva e aqueles quadros super reproduzidos nos anos80 de anjinhos,loirinhas,criancinhas chorando e dinossauros invadindo estradas.
O Grande Desbum
3.6 2É uma chanchada tardia, produzida pela Atlântida, que incorpora referências de várias épocas, além da inspiração na comédia de costumes carioca do século XIX, a partir da peça As Desgraças de uma Criança ou O Soldado e o Sacristão (1846), de Martins Pena. O próprio filme autotitula-se nos letreiros ''O Grande Desbum - um filme de muitas épocas! ou pecaram pelo exagero ou alegro rebolatto ou qualquer coisa", o que indica a convergência entre o caráter hilariante da chanchada, da comédia de costumes e o contexto da contracultura marginal da época (década de 1970, ano 1978), manifesto no desbunde ou desbum. Outra referência que pode ser levantada é a do penúltimo texto de Oduvaldo Vianna Filho, Allegro desbundaccio, ou Se o Martins Pena fosse vivo (1973), que também usa a ideia de casamento burguês por conveniência para encenar a crítica de costumes. Ou seja, uma mistura do melhor que havia no cinema e na dramaturgia brasileira, da época, pensada por um diretor acostumado a adaptar Nelson Rodrigues e Plínio Marcos para o cinema (Braz Chediak).
Der vermessene Mensch
3.5 2 Assista AgoraUma obra consistente a respeito do imperialismo oitocentista europeu e as pseudoteorias do racismo científico, aplicados no continente africano. O filme alerta para a permanência desse acervo de crânios profanados de túmulos nos museus alemãos e, longe de acenar para um ''politicamente correto'' ou ''wokismo para não ferir as sensibilidades empoderadas na atualidade'', retrata situações que aconteceram ou poderiam ter acontecido de fato, como um príncipe da etnia Herero querer se relacionar de igual para igual com o imperador Guilherme, o incômodo com as medições de crânio ou de ser cobaia, a coexistência da crença espiritual cristã ao culto dos ancestrais, pois não é possível pressupor que etnias que resistiram ao jugo colonial, seriam uma espécie de tábula rasa e absorveriam a ideia de superioridade ou as hierarquias sociais dos europeus como algo dado e natural (e pressupor isso, significa ter a mentalidade racista da época, pressupor que outras culturas não tenham dignidade e agência). Destaco também uma sequência do filme, na qual há um embate entre personagens, respectivamente, da missão católica e do evolucionismo na ciência antropológica da época, e o fato de ambos aproveitarem-se do empreendimento colonial para realizar suas ''boas intenções''.
Os Últimos Embalos da Disco
3.5 39Este clássico tem 3 coisas geniais: os diálogos extremamente inteligentes de sujeitos provenientes de uma geração yuppie em ascensão que tá ingressando nos anos 80, com muita ironia, arrivismo, oportunismo e falso moralismo; a trilha sonora fantástica; e a ambiência badalada da danceteria que justifica a defesa terminal do momento histórico pelo personagem de Josh Neff (Matt Kesslar). O filme rende muitas pérolas como "tio patinhas é tão sensual'', a discussão sobre a A Dama e o Vagabundo, a montagem pós-sequência do hino gospel entoado no hospital e a interpretação genial da 'amiga' falsiane invejosa e empatafoda personificada em Charlotte Pingress (Kate Beckingsale), que é um poço espirituoso de narcisismo e insegurança diante da beleza e inteligência de Alice Kinnon (Chloë Sevigny)
Verão Fantasma
3.0 24É tipo a novela Chiquititas zumbi que se encontrou com uma Opera Rock e depois não se decidiu sobre que gênero cinematográfico ser. Exatamente, após o início do romance, na interpretação de A Lenda de Sandy & Jr. começa a degringolar na mescla de linguagens, não sabendo distribuir romance com musical e terror, com muito melodrama adolescente e fotografia vaporwave (o clichê neon que infesta algumas produções nacionais na contemporaneidade) e não contextualiza a relação dos pais com Martin e a história da clínica, que sabemos pela trama ser um inferno e ele quer fugir e reencontrar o amigo zumbi. O filme age como se quisesse apenas entreter com cores bafônicas e musical e exibir um cenário instagramável pra atores com gogó para cantar, no final das contas, não engata em romance, nem em terror e só é um musicalzinho barato pra encantar um público com alma teen. Promete entregar muita coisa até o lipsync da Sandy (cuja interpretação é genial, de fato), mas perde a trama na puberdade meramente cenográfica com tanta informação visual e musical e um roteiro perdido.
O Anunciador - O Homem das Tormentas
3.2 2Uma caralhada de peça publicitária, letreiros, performances aleatórias e um pretexto experimental sobre o famigerado tema do estrangeiro que adentra uma cidade pequena. Sem qualquer concatenação narrativa entre os anúncios e o anunciador, como se quisesse reproduzir o estranhamento da população em relação ao anunciador na própria construção fílmica dessa poluição visual em relação ao espectador.
Três Tigres Tristes
3.2 5 Assista AgoraDessa vez, este diretor acertou bastante e conseguiu transcender aos clichês da revenge porn que tanto caracterizam sua obra e trouxe um conteúdo mais humanista, sem aquele excesso de militância forçada com questões do gueto, como se precisasse demarcar com redundância num gênero de filmes LGBT+, o reforço de um conteúdo só para quem é ''do meio'', para ''entendidos''.
Conseguiu criar um caldeirão de referências do cinema queer, de Shortbus à Gerontofilia, e ainda fez interagir gerações. Juntou ''a velha guarda'' - com a cena cultural da vanguarda paulistana (Cida Moreira) e nacional (Everaldo Pontes), com a evocação do cinema marginal (reconstituição de uma cena de ''A Margem'', Ozualdo Candeias) - ao contexto do besteirol da internet (Inês Brasil) e das vivências atuais da novíssima geração queer criada na internet (ghosting, inserção trans no mercado de trabalho e na educação superior, camming). Além de toda a construção de uma narrativa baseada em dramas atemporais (a pandemia, tratamento de AIDS numa cidade pequena, depressão), que permitem uma conexão maior com o público em geral.
Outra coisa a ser salientada, é que a ''militância'' continua lá, mas sem a gratuidade e o panfletarismo exacerbado e de modo que casa bem com a trama, nas evasões psicodélicas do filme (a esquete da criança viada, o especismo no petshop) e com as situações exibidas que problematizam a questão da memória e esquecimento (o beco dos aflitos, a história dos objetos de antiquário, a amnésia da covid).
O Gato de Botas Extraterrestre
2.3 18É como um episódio daquela série da Tv Cultura dos contos de fadas, com toda a fidelidade empolada à aristocracia fantástica do gênero, mas melhorada pela brasilidade de Jofre Soares bruxo, Zezé Motta coruja encantada, Toni Tornado guarda do rei, a presença suntuosa de Zé do Caixão e da locação do castelo na Oficina Cerâmica de Francisco Brennand, oferecendo um dos momentos mais fodásticos da cinematografia brasileira: as unhas retorcidas de Zé do Caixão acariciando um gato cosplay de Lion Man. O elemento da ficção científica referente à origem extraterrestre do gato é puramente gratuito, o que não desmerece a trama; acaba sendo um extra exótico do filme.
Fofão - A Nave Sem Rumo
2.9 38A intenção lúdica da trama infantil dispensa todo bom senso de roteiro e o trash compensa toda a prodigalidade criativa sem rumo como a nave: a aparição de humanóides malvados querendo a ampliação do cravo do nariz de fofão para dominar as galáxias (?), numa nave prestes a colidir com um asteroide e com uma bomba (?) relógio de polos luminosos. No entanto, a sem vergonhice de ser ridículamente infantil, recheada por clichês sci-fi, deixa genial o filme em sua tosquice maravilhosa, sem o excesso de correção pudica atual pela disponibilidade de recursos e o conhecimento científico,característica aquela que só os filmes oitentistas possuíam.
Não tem nada a ver com nostalgia em si, mas é perceptível esse elemento datado, do Jaspion às Pornochanchadas e aos Trapalhões, essa liberdade nonsense criativa e ridícula associada a uma ingenuidade de imaginação tecnológica, num momento que só se pressentia todas as possibilidades tecnológicas e se vomitava literatura ciberpunk pelos poros. Compensavam soluções imaginativas para carência de efeitos especiais e para a distância distópica da presença tecnológica no cotidiano da contemporaneidade. É mais um filme-sintoma da época, do que um exemplar único ligado ao personagem.