O título original era perfeito: The Man I Killed. Não “o alemão que matei”, não “o inimigo que matei”. O homem que matei. Por trás do inimigo havia um homem que estudava música, tinha uma noiva, pais, amigos. A diferença parece mínima, mas contém o filme inteiro. E talvez seja ainda mais curioso que essa tenha sido a única grande obra dramática de Lubitsch. O filme fracassou comercialmente e ele acabou voltando às comédias. Uma exceção tão rara na filmografia sonora de um dos maiores diretores da história e, talvez justamente por isso, um de seus filmes mais fascinantes.
Richard Talbot é um médico respeitável que, ao se apaixonar por Nora Prentiss, em vez de simplesmente pedir o divórcio da esposa fria, se desespera e cria um plano mirabolante para forjar a própria morte. É extremamente improvável que alguém na posição dele (um médico inteligente e bem-sucedido) enxergasse como melhor alternativa destruir a própria identidade, abandonar a carreira e viver em constante paranoia como um fugitivo, apenas para não enfrentar o julgamento social de um divórcio. E o plano ainda depende de uma enorme conveniência: um paciente morrer justamente de ataque cardíaco no consultório, permitindo que Talbot use o cadáver para encenar sua própria morte. É uma decisão tão extrema e pouco convincente que acaba comprometendo boa parte do filme.
A história até rende um interessante estudo sobre as consequências de uma escolha impulsiva, mas o filme é longo demais para o que pretende contar. Ainda assim, é difícil ignorar que todo o conflito depende de uma escolha inicial bastante forçada.
Passei o filme inteiro esperando o momento em que ele realmente começaria. Nunca começou. Não me leve a mal, a premissa é brilhante, mas uma grande ideia, por si só, não basta. É preciso transformá-la em cinema.
Vidas Passadas me lembrou que existe uma saudade específica, não de algo que perdemos, mas de algo que nunca chegamos a viver. Talvez seja isso o in-yeon: o fio invisível entre nós e as vidas que não vivemos.
Filme lento, pouco envolvente, sem tensão e sem atmosfera, com um elenco de peso como Ingrid Bergman, Lauren Bacall, Richard Widmark, Sean Connery e Anthony Perkins, mas que pouco acrescenta além dos nomes. O desfecho é interessante, mas muito fraco na execução.
Revendo o filme 10 anos depois, tudo parece ainda mais seco e implacável do que eu lembrava, com diálogos afiados, relações doentias e nenhum traço de inocência. Minha frase favorita continua sendo “Talvez eu tenha deixado meu senso de humor no meu outro terno” que mostra um pouco do cinismo elegante (e venenoso) do filme.
[Duas matilhas de cães selvagens rosnando um para o outro sobre um saco de lixo potencialmente contendo comida] Rex: Espere um segundo. Antes de atacarmos uns aos outros e nos despedaçarmos como um bando de maníacos, vamos abrir o saco primeiro e ver o que realmente está nele. Talvez nem valha a pena. Igor: Tudo bem. Rex: Um caroço de maçã rançoso, duas cascas de banana comidas por minhocas, um bolo de arroz mofado, um picles seco, uma lata de ossos de sardinha, uma pilha de cascas de ovo quebradas, uma moela velha e podre com vermes por toda parte... Chefe: Ok, vale a pena. [Todos os cães continuam a lutar]
Um dos diálogos que resumem perfeitamente o humor do Wes Anderson.
Esse é um dos filmes mais fracos do ciclo clássico de Bond. O filme aposta numa escala enorme, com base secreta gigante, conspiração espacial e cenários extravagantes, mas quase nada tem peso dramático de verdade. Sean Connery parece meio cansado do papel, repetindo os gestos do personagem quase no automático. A passagem pelo Japão vira mais um exotismo superficial do que um olhar real para o lugar, e a sequência em que Bond “vira japonês” soa não só constrangedora, mas também completamente desnecessária. O tratamento das personagens femininas segue um padrão já conhecido da série, mas aqui soa ainda mais frio e indiferente, bem distante da abordagem mais física e emocional que o personagem teria décadas depois com Daniel Craig. Enfim, tudo parece exagerado e meio artificial.
''Andando'' reflete muito do cinema de Ozu (especialmente ''Era uma vez em Tóquio''), tanto na linguagem visual quanto na forma de olhar para a família, o tempo e o silêncio. O filme gira em torno de uma reunião aparentemente comum, mas cada cena carrega camadas de ressentimento, frustração, memória e afeto contido. A câmera, quase sempre fixa, faz a gente se sentir como um hóspede silencioso naquela casa, alguém que observa, mas não interfere. Sem trilha sonora dramática, Kore-eda dá lugar à música dos sons cotidianos: o óleo fervendo, os passos no tatame, o vento nas folhas. É impressionante como ele consegue transformar o banal em algo cheio de verdade e sentimento. É um filme que pede escuta e leitura atenta, porque tudo o que importa acontece no espaço entre as palavras.
Camisa branca sobre um bronzeado impecável, paletó de linho jogado casualmente sobre o ombro, cigarro na boca. Alain Delon passeia pelo labirinto do mercado de peixes de Mongibello, ao ritmo de uma melodia composta por Nino Rota. A câmera e os olhares de quem passa se voltam para o ator, que parece se divertir com o fascínio que seu charme e magnetismo provocam. A palavra "fotogênico" parece ter sido inventada para ele. Neste cena, nasce um ícone eterno.
Tenho uma preferência pelos filmes (raros) do Studio Ghibli que caminham menos pelo fantástico e mais pela vida em sua forma mais pura. Nesse sentido, Sussurros do Coração é, sem dúvida, um dos meus favoritos, ao lado de Vidas ao Vento e O Túmulo dos Vagalumes. Ambientado em Tóquio dos anos 90, o filme apresenta uma abordagem intimista e realista, com um design visual que emana um calor impossível de ser encontrado em qualquer animação digital atual, por mais tecnicamente impecável que seja. Cada cena extrai imagens e sensações de nossas memórias com tamanha precisão que podemos nos ver revivendo partes de nossa própria infância enquanto assistimos ao desenrolar da história. Pequenos detalhes como primeiras paixões, a corrida para a escola em um dia de chuva e a busca pelo ''verdadeiro talento" são retratados de maneira espontânea e sincera. A relação entre Shizuku e Seiji é construída com sutileza e a química entre eles transmite de maneira autêntica o que realmente significa se apaixonar. Assim, Sussurros do Coração é a prova de que, mesmo nas histórias mais simples e corriqueiras, o Studio Ghibli tem a capacidade única de transformá-las em uma experiência profundamente poética e inesquecível.
A cena em que Seiji toca o violino enquanto Shizuku canta a música ''Take me Home, Country Roads'' é uma das mais encantadoras e singelas que já vi em qualquer filme de animação. A naturalidade com que ocorre torna esse cena simplesmente inesquecível.
Curiosidade: Sussurros do Coração foi o primeiro longa do Studio Ghibli a não ser dirigido por nenhum dos cofundadores, Hayao Miyazaki ou Isao Takahata. O diretor do filme, Yoshifumi Kondo, havia sido escolhido por Miyazaki como possível sucessor. Ele trabalhou ao lado do mestre de animação em muitos dos primeiros projetos deste. Foi diretor de animação de Túmulo dos Vagalumes, O Serviço de Entregas da Kiki, Apenas Ontem e Princesa Mononoke. Seu único crédito como diretor foi Sussurro do Coração. Ele morreu de aneurisma em 1998, aos 48 anos, interrompendo uma carreira promissora e levando Miyazaki a anunciar sua primeira tentativa de aposentadoria.
Talvez seja por eu ser homem, mas senti uma conexão profunda com a narrativa, com o sofrimento e a beleza do amor que o filme apresenta. O impacto emocional vem do fato de que o espectador se projeta nos personagens: suas expectativas, suas frustrações, suas dores. Isso faz com que você não apenas compreenda, mas sinta junto com eles. E não é apenas tristeza por eles, mas por todas as experiências que nos lembram de amores não concretizados, distâncias inevitáveis e o peso silenciosos das escolhas da vida. Ao longo dos capítulos, vemos que Takaki e Akari seguem caminhos separados não por falta de sentimento, mas porque a vida impõe mudanças inevitáveis. Essas mudanças refletem a inevitabilidade da vida, onde as escolhas e circunstâncias podem afastar até mesmo os sentimentos mais profundos e genuínos. À medida que envelhecem, Takaki permanece preso ao amor do passado e às memórias da infância e da adolescência, enquanto Akari segue adiante de forma sutil, mostrando que a vida continua apesar das separações. A melancolia do filme não é apenas tristeza, mas uma reflexão, sobretudo para Takaki, sobre a beleza e a dor de carregar lembranças que nunca poderão ser vividas plenamente. Cinco Centímetros por Segundo é, assim, uma obra que mistura poesia e realismo para nos lembrar, de forma precisa e dolorosa, que alguns amores foram feitos para viver apenas na memória.
O conceito do filme era promissor, mas a introspecção exagerada do personagem e a escassez de eventos tornam a experiência emocionalmente pouco envolvente. A luz e a trilha sonora criam atmosfera, mas não sustentam a narrativa. A fotografia é limpa e organizada, mas falta aquele deslumbre visual que torna outros filmes de Sorrentino inesquecíveis.
Sorrentino constrói La Grande Bellezza como um espelho tardio de La Dolce Vita. Enquanto Fellini captura a promessa e o fascínio da ''vida doce'' na Roma dos anos 60, Sorretino revisita esse universo com um olhar mais distante e melancólico, analisando o preço do tempo, da fama e da ostentação. Sorrentino, assim, não copia Fellini: ele parte de onde Fellini parou. E o resultado é cinema em estado puro.
Vidas ao Vento é uma obra de rara delicadeza visual. Cada quadro do filme é cuidadosamente imerso em detalhes e sentimento. Essa beleza se reflete também no verso de Paul Valéry “Le vent se lève, il faut tenter de vivre” (O vento se levanta, é preciso tentar viver) que, mais do que dar título à obra, funciona como o núcleo poético e existencial do filme, um lembrete da importância de seguir vivendo mesmo diante da instabilidade e da perda. E a relação de Jiro com Naoko traduz essa essência com uma precisão comovente: amá-la, assim como projetar aviões, é construir algo belo, mesmo sabendo que o tempo, inevitavelmente, o levará embora. Ainda assim, o filme insiste: é preciso tentar.
Não há salvação, reviravolta ou milagre em “Túmulo dos Vagalumes”. Só luto. A cada novo dia, algo é arrancado dos personagens: primeiro o lar, depois a família, depois a comida, depois a saúde e, por fim, a esperança. O tempo, que em outras histórias costuma curar e reconstruir, aqui, é carrasco — um inimigo invisível, arrastando os protagonistas para o fim.
A cena final, com os dois irmãos enfim reunidos no além, observando a cidade reconstruída, não é reconfortante. É um denúncia brutal: a única forma de paz que tiveram foi após a morte. Um último gesto de uma história que jamais teve a intenção de consolar.
A Gaia Ciência
3.8 31Uma conversa estática e tediosa de 95 minutos num estúdio escuro.
Não Matarás
4.2 8O título original era perfeito: The Man I Killed. Não “o alemão que matei”, não “o inimigo que matei”. O homem que matei. Por trás do inimigo havia um homem que estudava música, tinha uma noiva, pais, amigos. A diferença parece mínima, mas contém o filme inteiro.
E talvez seja ainda mais curioso que essa tenha sido a única grande obra dramática de Lubitsch. O filme fracassou comercialmente e ele acabou voltando às comédias. Uma exceção tão rara na filmografia sonora de um dos maiores diretores da história e, talvez justamente por isso, um de seus filmes mais fascinantes.
A Sentença
4.1 5Um noir com boa atmosfera e uma interessante espiral de culpa e paranoia, mas que depende de uma premissa difícil de engolir:
Richard Talbot é um médico respeitável que, ao se apaixonar por Nora Prentiss, em vez de simplesmente pedir o divórcio da esposa fria, se desespera e cria um plano mirabolante para forjar a própria morte. É extremamente improvável que alguém na posição dele (um médico inteligente e bem-sucedido) enxergasse como melhor alternativa destruir a própria identidade, abandonar a carreira e viver em constante paranoia como um fugitivo, apenas para não enfrentar o julgamento social de um divórcio. E o plano ainda depende de uma enorme conveniência: um paciente morrer justamente de ataque cardíaco no consultório, permitindo que Talbot use o cadáver para encenar sua própria morte. É uma decisão tão extrema e pouco convincente que acaba comprometendo boa parte do filme.
A história até rende um interessante estudo sobre as consequências de uma escolha impulsiva, mas o filme é longo demais para o que pretende contar. Ainda assim, é difícil ignorar que todo o conflito depende de uma escolha inicial bastante forçada.
Malena
3.9 420 Assista AgoraBuona fortuna, signora Malèna!
O Posto
4.2 19A tão desejada promessa de um emprego para a vida toda é, na realidade, uma lenta e silenciosa condenação à vida adulta.
O Leopardo
4.2 115 Assista Agora“Se queremos que tudo continue como está, é preciso que tudo mude”.
Depois da Vida
3.9 79 Assista AgoraPassei o filme inteiro esperando o momento em que ele realmente começaria. Nunca começou. Não me leve a mal, a premissa é brilhante, mas uma grande ideia, por si só, não basta. É preciso transformá-la em cinema.
Vidas Passadas
4.1 962 Assista AgoraVidas Passadas me lembrou que existe uma saudade específica, não de algo que perdemos, mas de algo que nunca chegamos a viver. Talvez seja isso o in-yeon: o fio invisível entre nós e as vidas que não vivemos.
Zorba, o Grego
3.9 72 Assista Agora“Esposa, filhos, casa, tudo. A catástrofe completa."
Ran
4.5 294 Assista AgoraRan é um daqueles raríssimos filmes que justificam a própria existência do cinema. Uma obra-prima absoluta.
Assassinato no Expresso Oriente
3.7 198Filme lento, pouco envolvente, sem tensão e sem atmosfera, com um elenco de peso como Ingrid Bergman, Lauren Bacall, Richard Widmark, Sean Connery e Anthony Perkins, mas que pouco acrescenta além dos nomes. O desfecho é interessante, mas muito fraco na execução.
A Embriaguez do Sucesso
4.0 71Revendo o filme 10 anos depois, tudo parece ainda mais seco e implacável do que eu lembrava, com diálogos afiados, relações doentias e nenhum traço de inocência. Minha frase favorita continua sendo “Talvez eu tenha deixado meu senso de humor no meu outro terno” que mostra um pouco do cinismo elegante (e venenoso) do filme.
Verdade Oculta
3.5 8O primeiro segredo é o que não contamos aos outros, o segundo é o que não contamos a nós mesmos, e o terceiro... é a verdade.
Ilha dos Cachorros
4.2 679 Assista Agora[Duas matilhas de cães selvagens rosnando um para o outro sobre um saco de lixo potencialmente contendo comida]
Rex: Espere um segundo. Antes de atacarmos uns aos outros e nos despedaçarmos como um bando de maníacos, vamos abrir o saco primeiro e ver o que realmente está nele. Talvez nem valha a pena.
Igor: Tudo bem.
Rex: Um caroço de maçã rançoso, duas cascas de banana comidas por minhocas, um bolo de arroz mofado, um picles seco, uma lata de ossos de sardinha, uma pilha de cascas de ovo quebradas, uma moela velha e podre com vermes por toda parte...
Chefe: Ok, vale a pena.
[Todos os cães continuam a lutar]
Um dos diálogos que resumem perfeitamente o humor do Wes Anderson.
Com 007 Só Se Vive Duas Vezes
3.5 164Esse é um dos filmes mais fracos do ciclo clássico de Bond. O filme aposta numa escala enorme, com base secreta gigante, conspiração espacial e cenários extravagantes, mas quase nada tem peso dramático de verdade. Sean Connery parece meio cansado do papel, repetindo os gestos do personagem quase no automático. A passagem pelo Japão vira mais um exotismo superficial do que um olhar real para o lugar, e a sequência em que Bond “vira japonês” soa não só constrangedora, mas também completamente desnecessária. O tratamento das personagens femininas segue um padrão já conhecido da série, mas aqui soa ainda mais frio e indiferente, bem distante da abordagem mais física e emocional que o personagem teria décadas depois com Daniel Craig. Enfim, tudo parece exagerado e meio artificial.
Andando
4.2 63''Andando'' reflete muito do cinema de Ozu (especialmente ''Era uma vez em Tóquio''), tanto na linguagem visual quanto na forma de olhar para a família, o tempo e o silêncio. O filme gira em torno de uma reunião aparentemente comum, mas cada cena carrega camadas de ressentimento, frustração, memória e afeto contido. A câmera, quase sempre fixa, faz a gente se sentir como um hóspede silencioso naquela casa, alguém que observa, mas não interfere. Sem trilha sonora dramática, Kore-eda dá lugar à música dos sons cotidianos: o óleo fervendo, os passos no tatame, o vento nas folhas. É impressionante como ele consegue transformar o banal em algo cheio de verdade e sentimento. É um filme que pede escuta e leitura atenta, porque tudo o que importa acontece no espaço entre as palavras.
O Sol Por Testemunha
4.2 109Camisa branca sobre um bronzeado impecável, paletó de linho jogado casualmente sobre o ombro, cigarro na boca. Alain Delon passeia pelo labirinto do mercado de peixes de Mongibello, ao ritmo de uma melodia composta por Nino Rota. A câmera e os olhares de quem passa se voltam para o ator, que parece se divertir com o fascínio que seu charme e magnetismo provocam. A palavra "fotogênico" parece ter sido inventada para ele. Neste cena, nasce um ícone eterno.
O Carteiro e o Poeta
4.2 303 Assista Agora"Uma coisa bonita na ilha? Beatrice Russo."
Sussurros do Coração
4.3 502 Assista AgoraTenho uma preferência pelos filmes (raros) do Studio Ghibli que caminham menos pelo fantástico e mais pela vida em sua forma mais pura. Nesse sentido, Sussurros do Coração é, sem dúvida, um dos meus favoritos, ao lado de Vidas ao Vento e O Túmulo dos Vagalumes. Ambientado em Tóquio dos anos 90, o filme apresenta uma abordagem intimista e realista, com um design visual que emana um calor impossível de ser encontrado em qualquer animação digital atual, por mais tecnicamente impecável que seja. Cada cena extrai imagens e sensações de nossas memórias com tamanha precisão que podemos nos ver revivendo partes de nossa própria infância enquanto assistimos ao desenrolar da história. Pequenos detalhes como primeiras paixões, a corrida para a escola em um dia de chuva e a busca pelo ''verdadeiro talento" são retratados de maneira espontânea e sincera. A relação entre Shizuku e Seiji é construída com sutileza e a química entre eles transmite de maneira autêntica o que realmente significa se apaixonar.
Assim, Sussurros do Coração é a prova de que, mesmo nas histórias mais simples e corriqueiras, o Studio Ghibli tem a capacidade única de transformá-las em uma experiência profundamente poética e inesquecível.
A cena em que Seiji toca o violino enquanto Shizuku canta a música ''Take me Home, Country Roads'' é uma das mais encantadoras e singelas que já vi em qualquer filme de animação. A naturalidade com que ocorre torna esse cena simplesmente inesquecível.
Curiosidade: Sussurros do Coração foi o primeiro longa do Studio Ghibli a não ser dirigido por nenhum dos cofundadores, Hayao Miyazaki ou Isao Takahata. O diretor do filme, Yoshifumi Kondo, havia sido escolhido por Miyazaki como possível sucessor. Ele trabalhou ao lado do mestre de animação em muitos dos primeiros projetos deste. Foi diretor de animação de Túmulo dos Vagalumes, O Serviço de Entregas da Kiki, Apenas Ontem e Princesa Mononoke. Seu único crédito como diretor foi Sussurro do Coração. Ele morreu de aneurisma em 1998, aos 48 anos, interrompendo uma carreira promissora e levando Miyazaki a anunciar sua primeira tentativa de aposentadoria.
5 Centímetros por Segundo
3.9 386Talvez seja por eu ser homem, mas senti uma conexão profunda com a narrativa, com o sofrimento e a beleza do amor que o filme apresenta.
O impacto emocional vem do fato de que o espectador se projeta nos personagens: suas expectativas, suas frustrações, suas dores. Isso faz com que você não apenas compreenda, mas sinta junto com eles. E não é apenas tristeza por eles, mas por todas as experiências que nos lembram de amores não concretizados, distâncias inevitáveis e o peso silenciosos das escolhas da vida.
Ao longo dos capítulos, vemos que Takaki e Akari seguem caminhos separados não por falta de sentimento, mas porque a vida impõe mudanças inevitáveis. Essas mudanças refletem a inevitabilidade da vida, onde as escolhas e circunstâncias podem afastar até mesmo os sentimentos mais profundos e genuínos. À medida que envelhecem, Takaki permanece preso ao amor do passado e às memórias da infância e da adolescência, enquanto Akari segue adiante de forma sutil, mostrando que a vida continua apesar das separações.
A melancolia do filme não é apenas tristeza, mas uma reflexão, sobretudo para Takaki, sobre a beleza e a dor de carregar lembranças que nunca poderão ser vividas plenamente.
Cinco Centímetros por Segundo é, assim, uma obra que mistura poesia e realismo para nos lembrar, de forma precisa e dolorosa, que alguns amores foram feitos para viver apenas na memória.
As Consequências do Amor
3.6 36O conceito do filme era promissor, mas a introspecção exagerada do personagem e a escassez de eventos tornam a experiência emocionalmente pouco envolvente. A luz e a trilha sonora criam atmosfera, mas não sustentam a narrativa. A fotografia é limpa e organizada, mas falta aquele deslumbre visual que torna outros filmes de Sorrentino inesquecíveis.
A Grande Beleza
3.9 466Sorrentino constrói La Grande Bellezza como um espelho tardio de La Dolce Vita. Enquanto Fellini captura a promessa e o fascínio da ''vida doce'' na Roma dos anos 60, Sorretino revisita esse universo com um olhar mais distante e melancólico, analisando o preço do tempo, da fama e da ostentação. Sorrentino, assim, não copia Fellini: ele parte de onde Fellini parou. E o resultado é cinema em estado puro.
Vidas ao Vento
4.1 614 Assista AgoraVidas ao Vento é uma obra de rara delicadeza visual. Cada quadro do filme é cuidadosamente imerso em detalhes e sentimento. Essa beleza se reflete também no verso de Paul Valéry “Le vent se lève, il faut tenter de vivre” (O vento se levanta, é preciso tentar viver) que, mais do que dar título à obra, funciona como o núcleo poético e existencial do filme, um lembrete da importância de seguir vivendo mesmo diante da instabilidade e da perda. E a relação de Jiro com Naoko traduz essa essência com uma precisão comovente: amá-la, assim como projetar aviões, é construir algo belo, mesmo sabendo que o tempo, inevitavelmente, o levará embora. Ainda assim, o filme insiste: é preciso tentar.
Túmulo dos Vagalumes
4.6 2,3K Assista AgoraNão há salvação, reviravolta ou milagre em “Túmulo dos Vagalumes”. Só luto. A cada novo dia, algo é arrancado dos personagens: primeiro o lar, depois a família, depois a comida, depois a saúde e, por fim, a esperança. O tempo, que em outras histórias costuma curar e reconstruir, aqui, é carrasco — um inimigo invisível, arrastando os protagonistas para o fim.
A cena final, com os dois irmãos enfim reunidos no além, observando a cidade reconstruída, não é reconfortante. É um denúncia brutal: a única forma de paz que tiveram foi após a morte. Um último gesto de uma história que jamais teve a intenção de consolar.