Antes mesmo de conhecer o filme, me chamou muito a atenção a trilha sonora. Apareceu aleatoriamente no YouTube a música “Lost but won” do Hans Zimmer. Após ouvir várias vezes a música, o interesse pelo filme aumentou. Rush está longe de ser perfeito. Acho um pouco incômodo aqueles cenários fake, que parecem muito telas verdes. É um CGI bem característico do período de 2008 a 2015. A atuação do Chris Hemsworth também está bem triste. Já Daniel Brühl foi muito bem. Insistiu num sotaque bizarro ao meu ver, pois Lauda era austríaco que falava inglês com um sotaque italiano. Aparentemente muitos dos trejeitos e caracterização correspondem ao piloto na vida real. A história em si foi muito bem desenvolvida. O começo foi meio fraco, mas o meio e o final são muito bons. Tudo gira em torno da rivalidade entre Hunt e Lauda. A torcida acaba sendo para que ambos vencessem, pois ambos os personagens possuem pontos fracos e fortes, com nuances. Involuntariamente eles também atuam num padrão que pode até gerar humor, pois é a dupla entre uma pessoa extremamente metódica, aplicada e séria versus uma pessoa brincalhona, descontraída e leve. Deadpool 2 usou esse artifício no seu segundo filme com o sério Cable. O roteiro fez vários pulos na linha temporal, em um longo calendário de provas da F1. Mas, no conjunto, a trama parece ser totalmente ficcional. Conta com reviravoltas e corridas determinantes, com acidentes constantes mudando o rumo do campeonato. O filme confirma o excelente uso da trilha sonora. Hans Zimmer costuma usar um tema musical e o repete com variações nas mesmas faixas. Vemos o tema de “lost but won” aqui e acolá no filme, inclusive ajudando a potencializar uma cena épica de corrida. O filme dá uma camada adicional para o título da música. Pois é ambígua no sentido de quem exatamente “perdeu, mas ganhou”. Poderia ser do Lauda desistindo da última corrida, mas ganhando uma carreira inteira pela frente com tudo o que mais lhe importa. Poderia ser do Hunt se aposentando logo depois de se tornar campeão. Perdeu uma carreira, mas viveu a vida nos seus termos, sem tentar igualar uma conquista que já obteve. E, por fim, pode refletir também o tema principal do filme, que é a rivalidade que eleva a ambos para níveis jamais sonhados. Ao perder temporariamente para seu adversário digno, você ganhará incentivo e impulso para vencer mais adiante.
o fim de uma civilização, a morte da bondade do passado, e a humanidade colapsando. A repetição constante da “Zeus’s Law” seria uma regra essencial e que nos manteria distante de um cenário aterrorizante Hobbesiano. O diretor fez uma referência direta ao Colapso da Era de Bronze. Seria como, se no terceiro filme de Senhor dos Anéis, Peter Jackson fizesse referências às eras posteriores criadas pelo Tolkien, cheias de cenários aterradores. Nolan me pareceu estar tomado por uma “Black Pill”, um niilismo que pode vir depois de algum tempo de vivência. Ter descoberto depois que o diretor supostamente é ateísta faria sentido nesse contexto. Esse filme também não tenta supor nada: mastiga todas as informações, e as repete para que praticamente qualquer ser vivo que respira consiga acompanhar tudo o que está ocorrendo. Um exemplo marcante disso são as cenas que envolvem o cachorro velho. Logo no começo, fazem um flashback para mostrar o motivo do cachorro ser importante. Aí, bem depois no filme, tem a tão aguardada cena de Odisseu se encontrando com Argus. Aí o filme vê a necessidade de relembrar algumas das cenas (“ei, é aquele cachorro que um dia foi um filhote. Lembra?”). Particularmente eu considero que a cena do cachorro foi mal executada. Bem apressada, onde mostrou basicamente o rabinho de Argus se movendo. Uma tecnologia que deve ter custado dezenas de milhares de dólares para ser feita. Filmes anteriores conseguiram fazer a mesma cena ter um significado mais profundo com um orçamento mais limitado. Ainda mantendo o foco nas comparações, isso é inevitável. A Odisseia de Nolan acabou se tornando uma obra distante da original. Reinterpreta conceitos antigos com a lente moralista dele. O protagonista se torna alguém atormentado por seu passado, vivendo com remorso do que suas ações inteligentes causaram no passado. Nesse sentido, eu também saí da sala com a impressão de que Nolan refez Oppenheimer, só que em um cenário de fantasia. O terror da era nuclear foi trocado pela ameaça dos povos do mar. A cena da explosão atômica e do auditório foram trocados pelas cenas da queda de Tróia e do barco na tempestade. A obra de Nolan tem um componente irônico que parece ter vindo de uma profecia do tempo dos Micênicos. Ela me fez querer pesquisar mais sobre a obra original, pois alguns símbolos e alegorias eram muito poderosos. Mas, nesse processo, me fez gostar cada vez mais da adaptação, ao notar como a obra original é coesa e totalmente coerente na sua mensagem. Muitos personagens, muitas viagens, muitas situações. E, incrivelmente, já solta spoilers logo no começo e tem narrativa não linear. Nolan usou pedaços da obra original e a embalou na sua visão de mundo niilista que envolve traumas de guerra, arrependimento e crítica à guerra. Já Homero vai em outra direção. A minha intuição de que Nolan está velho na sua imaginação se reflete em uma observação feita pela internet: há toda uma parte da obra original que retrata jovens, e esse material foi limado. Os principais personagens são velhos. As coadjuvantes são velhas. Um dos poucos personagens jovens é o príncipe de Ítaca, e é um inútil irritante. Hoje em dia sequer cogitaram personagens jovens como Nausicaa. Uma parte que gerou certa controvérsia é a obsessão de Nolan pelo realismo. Mas agora fez isso em uma obra que lida com literais deuses interagindo diretamente com os personagens. Felizmente ele não foi na direção ainda mais radical do filme Tróia, onde tudo era explicado como fama exagerada ou fatos reais que foram mal interpretados. A Atena de Nolan poderia ser explicada como um tipo de psicóloga que o ajuda a lidar com seu estresse pós-traumático da guerra. Mas, apesar de citar termos como “Era de Bronze” e “Povos do Mar”, Nolan não teve essa preocupação em ter figurinos que, se não fossem historicamente acurados, ao menos fosse decentes. O Agamenon parece o Batman, com aquele capacete feito em uma impressora 3D. O elmo dos soldados de Tróia parece algo que uma pessoa usaria numa festa de Halloween. Tudo genérico para parecer antigo na visão de um leigo. Nada que pudesse ser característico da “Odisseia do Nolan” para um público que não conhece tanto essa era histórica. Falando sobre o Cavaleiro de Esparta, Agamenon, ele deveria representar tudo o que Nolan abomina. É mostrado de maneira desumanizada, vaga, quase como se fosse um manequim. Isso parece indicar que o diretor não conseguiu definir bem os seus receios. Não conseguiu humanizar o lado que ele mais discorda, que está ligado com uso irrestrito de poder, beligerância e insensibilidade pelo que seria o “bem maior” na visão do diretor. É um espantalho vazio, sem essência, e, portanto, pouco memorável. Com tantos filmes já feitos, dá para notar que Nolan tem um problema ao criar personagens secundários que sejam de algumas maneiras determinadas. Ele consegue resultados melhores ao adaptar o que alguém já fez.
Por sinal, pelo que me lembro, esse filme não teve o roteiro do irmão dele. Parece ter sido tudo feito pelo próprio diretor. A parte visual ficou ótima, e conta com grandes cenas. Nem parece que foram mais de 3 horas de filme. Mas, ainda assim, lamento que não se tornou aquele filme 10/10, se mais do material original pudesse ser liberto da obscuridade numa tela ampla do IMAX.
Esse filme conseguiu ser uma rara unanimidade em tempos tão polarizados. Bilheteria péssima, crítica morna ou abaixo da média, e opiniões nas redes sociais comentando como essa produção tem poucos aspectos positivos. Enquanto eu via esse filme no cinema, eu cheguei a olhar até para o teto do cinema, observando o novo estilo após a reforma. Não liguei nem um pouco para o destino da protagonista. Eu particularmente já não gostava da HQ original, e dá para ver que usaram pouca coisa do material original. O Lobo foi colocado para agradar os fãs, e também para falar que gosta da Supergirl. A cena final foi pessimamente dirigida. Explosões e bonecos CGI voando. O filme inteiro está com um estilo escuro e de cor de chão de terra. Um slop que lembra alguns momentos do filme do Flash. Boa parte dos filmes atuais têm o mesmo estilo de visual. O vilão do filme é bem esquecível. Na verdade, todo o filme é apagado rapidamente da memória em menos de uma hora depois que ele foi visto.
A Pixar realmente está mudada. Esse filme tem um roteiro embaralhado, caótico, e parece uma versão não finalizada. Há um problema de tom nos acontecimentos. Os acontecimentos que deveriam ser surpreendentes estão telegrafados há muito tempo. Mesmo sem pesquisar, é possível determinar que o roteiro tem a essência do “millenial writing”, e que tem forte influência da Longhouse. A trilha sonora tenta indicar os momentos em que uma cena emocionante deveria acontecer. Mas, enquanto espectador, não senti nada.
Assim que Lilly e Jesse discutiram no começo do filme, já percebi que a tablet não seria vilã, e que seria retratada como “multifacetada”. Isso tirou qualquer surpresa que a mudança dela de lado pudesse ter. Aliás, a trama não tem um vilão personificado em um brinquedo ou humano: Toy Story 1 tinha o Syd, o 2 tinha o brinquedo do idoso, o 3 tinha o ursinho com cheiro de morango, e o 4 tinha a boneca antiga. Todos os vilões tinham uma conexão direta com o tema do filme. Já o quinto filme tem como adversário “a sociedade”, “a desconexão”, “a tecnologia” ou qualquer outra abstração. Já os personagens se dividem em dois grupos: as mulheres, os animais e os demais figurantes. A mãe da Bonnie conversa em tom respeitoso que parece ter saído de um vídeo educacional da ONU. O pai da Bonnie é tratado como um paspalho, pois guardou os brinquedos na garagem. A nova amiga da Bonnie é praticamente uma Milena da Turma da Mônica. A mãe dela faz compras, a leva de carro e atende a porta. O pai dela fica em reuniões no Zoom e pode ser visto como um pateta por não reparar em toda a ação dos brinquedos. O Woody e o Buzz disputam para ver quem é o melhor ajudante da Jesse. Um exército de Buzz modernos seguem a estrela da Jesse, e a rodeiam montados em cavalos em um morro. E mais algumas características que são recorrentes em produções atuais. Os roteiros atuais quase proíbem a mera possibilidade de que uma personagem feminina seja uma total e completa vilã. Esse é um dos motivos que deixam a trama completamente plana e previsível. Jessy, a protagonista, segue aquele padrão de personagem “modernoso”: ela não passa por um arco narrativo completo. Apenas descobre que sempre foi especial o tempo todo, e só precisava de descobrir esse fato. A trama paralela dos “Buzzes” foi bizarra. Um enxerto na trama para facilitar algumas partes da trama. Fora que são claramente o aspecto jungiano do Animus no roteiro.
Esse filme possui boa produção de animação, música razoável e neutra, e um bom elenco de apoio. A pena é que a força motriz de tudo isso é um roteiro insosso e abaixo do antigo (e finado) padrão de qualidade que a PIxar tinha nos seus tempos áureos. Está bem claro que sou excessão, pois o filme está rendendo bilheteria. E isso indica que teremos mais uns 5 “Toy Storys” no mínimo.
O filme não tem muita coisa da série “Alien”. Enquanto filme solo, tem um roteiro muito mal conduzido. A noção de propor um tema amplo e filosófico para o filme foi interessante, mas pecou na execução. As cenas que se destacaram negativamente foram justamente as mais famosas. O integrante responsável pelos mapas ficou perdido na nave. O engenheiro acordou e se comportou feito um urso neurótico. Os cenários poderiam ter sido menos cinzentos e a iluminação poderia ficar mais clara. A parte mais negativa, contudo, é a “moral da história” apresentada no filme. Um niilismo dos mais rasteiros. Havia potencial para uma subtrama envolvendo a crença da protagonista do filme, mas optaram por remover algumas cenas valiosas. Outra cena removida dava um contexto importante para a motivação do Engenheiro ao notar o que aconteceu com a humanidade.
Em algumas ocasiões parece até um episódio do “How It Should Have Ended”. Imagens que por um acaso se movem. O roteiro toma muitas liberdades históricas. É uma versão invertida e “politicamente correta” da trama de Cowboys vs ìndios no Velho Oeste antigo. Com mocinhos e bandidos claramente distintos, naipe John Wayne. Batman pertence a um império que pratica sacrifícios humanos de maneira habitual. Então tá. Cortez foi retratado como um Dick Vigarista versão Conquistador. O jovem vigilante fez um “curso expresso” e rapidamente deixou de ser um jovem e se tornou um Batman. Tudo pareceu corrido demais nessa parte. O que eu esperava era um tipo de salto temporal, onde um garoto treinaria e se tornaria algo diferente.
A minha expectativa para esse filme estava baixa. Felizmente não foi o absurdo cinematográfico que eu imaginava. A ambientação estilo anos 1960 foi agradável. Esse mundo jetsons é retrofuturista e dá uma certa ambientação para a trama. Está bem distante daquele cenário cinzento e genérico do habitual do MCU.
Além disso, o filme inteiro se passa na tal Terra-828. Achei ótimo que esse número é uma referência direta à data de aniversário do Jack Kirby, criador dessa equipe. Então essa dimensão pode refletir a era de criação desses personagens. E, acredito eu, poderia também abrigar as outras criações do rei dos quadrinhos.
estava avulso em quase todo o filme. O enfoque na vida pessoal dele ficou fiel aos quadrinhos. Foi bem corrido, mas mostraram a fé judia do Ben. Esse personagem, contudo, fez pouco na hora da briga. Queriam definir a personalidade dele como "gosta de cozinhar".
foi utilizada com dois propósitos. Um deles era para justificar o papel que o Tocha Humana teve na quase miraculosa pesquisa linguística. E, nas HQs, é bem comum Johnny Storm se apaixonar por alienígenas, inumanas e meta-humanas. O segundo objetivo dela é usar um pouco de relatividade moral de salvar o próprio planeta, matando outros em troca. Isso ecoa com o conflito do filme, da vida de uma criança valer mais do que bilhões de vidas no planeta.
até agora são minoritários em seu impacto no filme como um todo. O ponto nevrálgico desse filme é o suposto líder da equipe. Sendo breve: o Sr. Fantástico deveria ser inteligente. A versão mais detalhada será longa.
Reed Richards é considerado a pessoa mais inteligente de todo o universo Marvel. Não é apenas seu corpo que é elástico, A sua mente possui uma capacidade ímpar de "se esticar" em diversos cenários e hipóteses. Logo no começo, o filme mostra a reação dele ao saber que será pai. A primeira ação é basicamente colocar protetores de tomada na casa. Isso é comum, ordinário, e sem imaginação. Fora que um recém nascido provavelmente ficará longe de tomadas por pelo menos alguns meses. Algo que faria mais sentido para o personagem seriam planos de proteção de todo o edifício Baxter. Talvez até mesmo criar uma base de segurança, acessível por meio do teleporte. Ou, quem sabe, um bunker protegido contra radiação, explosões e com alguns suprimentos. Talvez memorizar quase todas as informações sobre pré-natal e pediatria em questão de horas. Mas não. Mandou o Herbie colocar protetores na casa. Outra coisa bizarra é o Reed responder que não sabia se o povo da Terra estava a salvo. Ele deveria ter uns 5 planos de contingência, e bastaria escolher o mais apropriado. O Sr. Fantástico teve uma infância complicada. Sempre tentou resolver tudo por conta própria. Entender tudo o que está ao seu redor. A mera possibilidade de desconhecer algo é o seu pior pesadelo. É um dos motivos dele acumular conhecimento tão facilmente. Mesmo se ele estivesse em um cenário muito complexo, ele não teria aquela reação "blasé". E, como ele geralmente não considera as emoções dignas de objeto de estudos, ele entraria em um estado de fuga, optando por não dizer nada para um grupo de repórteres. O plano principal tinha certo potencial. Mas, considerando que tiveram semanas para trabalhar nisso, o Reed poderia ter feito mais. Por exemplo, pesquisar mais a fundo o "suco alimentício" do Galactus, a misteriosa energia cósmica. Para tentar sintetizar ou obter algum pouco disso. De modo a criar algum chamariz ou distração que pudesse evitar o uso de um bebê. Mas não. Eles apenas imaginaram que Galactus iria apenas confiar na sua visão, e pegaria um carrinho de bebê vazio. Outra opção mais viável seria o que foi feito nas próprias HQs: ele conseguiu alterar o mecanismo que o devorador de mundos usa para devorar planetas, e inverteu o fluxo. Então, ao invés de consumir, ele começou a perder energia. Isso poderia ser feito em uma missão "stealth" antes que o gigante viesse para a Terra. E acho que poderiam ter pensado em um "plano B" que envolvesse também os teleportadores. Como a quantidade de massa a ser transportada determina o custo energético da máquina, então deve ser fácil teleportar apenas o Herbie e o Franklin para o outro lado do mundo. Tipo numa base especial no meio do deserto do Saara. Ou até mesmo em 4 bases especiais distribuídas por locais desocupados ou desabitados. Quem sabe até mesmo energizados por meio dos próprios poderes de um ou mais integrantes. Com isso, a equipe teria muito mais tempo para encontrar uma maneira de vencer Galactus. Mas o filme optou por mostrar o Sr. Fantástico escrevendo a equação da alavanca, para simplificar tudo.
O filme, contudo, optou por ir em outra direção. Sue usa seus poderes numa escala que supera os demais integrantes somados. Apenas por que sim. A Surfista aparece do literal nada, pois pensou um pouco, e agora sim está disposta a trair Galactus. Antes a resposta dela era apenas "Complicado isso aí".
A primeira cena pós-créditos foi meio vazia. Pois tem a terrível perspectiva que o ótimo personagem Dr. Destino seja desperdiçado pelo Robert Downey Jr. Faria mais sentido se fosse o avô do Franklin que tivesse aparecido. O Doom tem uma ligação maior nas HQs com a Valéria, filha mais nova de Sue e Reed. Já a segunda cena pós-créditos foi um aceno para o desenho animado da década de 1960. Nada de mais.
A ordem dos acontecimentos foi embaralhada. Os primeiros minutos na verdade mostram metade dos acontecimentos. Existem coisas bem executadas e outras que ficaram (e muito) a dever. Os Kent foram o símbolo perfeito da criação rural do Kansas, essencial para a mensagem central do filme. Que, por sinal, teria todo o sentido de ser chamado "Superman: Legacy", pois o legado do protagonista é amplamente discutido nesse filme. Antes de ver o filme, imaginei que o Kripto teria algum tipo de arco de desenvolvimento. Seria insuportável e indisciplinado, mas teria um grande momento para si. Isso é feito de certa maneira, mas não foi um ponto central da trama. Todo o roteiro tinha potencial para ser uma trama focada na era de prata dos quadrinhos e com alto apelo infantil. Mas, ao mesmo tempo, foi inserido uma trama política e também as cenas "quentes" envolvendo Lois e Clark, claramente focadas para o público adulto. Essas duas facetas não geraram algo totalmente harmônico.
A grande especialidade do James Gunn é um grupo obscuro de personagens rejeitados.
A tal "Gangue da Justiça" se encaixa totalmente nisso, e foi outro ponto positivo. Um filme da "Liguinha" tem potencial para ser um novo tipo de "Guardiões da Galáxia".
O baby kaiju atendeu a três objetivos: cena de combate, mostrou Superman se preocupando com os civis, e fez um contraste entre as estratégias da Gangue da Justiça e do Homem de Aço. Essas amarrações fortalecem a trama, por serem complementares. O Senhor Incrível mostrou um grande potencial, e certamente pode render um projeto solo. Ainda mais se considerarmos o material originário das HQs. Olsen teve uma participação inesperada na trama, e não teve muita profundidade até agora. Foi um tipo de objeto para a piada, e uma peça para a "surpresa" da trama.
Após um grande salvamento, o público imediatamente se volta contra o Superman, e tudo isso por conta de umas hashtags de rede social. É risível o artifício de associar macacos treinados para serem trolls em redes sociais. Isso demonstra uma completa falta de imaginação do roteirista. A pior ameaça que ele pode pensar foi um tipo infantil de cancelamento. Se assemelha muito ao Lex Luthor dos filmes antigos, obcecado sempre em usar artifícios complexos para lucrar com especulação imobiliária. Sem imaginação, podemos escrever apenas sobre o que vivenciamos. E o Gunn aparentemente é um utilizador frequente de redes sociais. Falando em identificação, é bem provável que o roteirista se veja como Punk Rock. Mas, na prática, é visto como aquele meme do Jorge: "quiere ser hardcore y su mamá no lo deja". Essa mensagem deveria ser emotiva e reflexiva. Mas não me causou tanto impacto. A parte da "imagem dos pais" foi melhor desenvolvida.
A cena da Supergirl ficou com um tom alienígena (para usar um leve trocadilho). Isso se explica pela HQ tenebrosa do Tom King, que provavelmente será usada como base para o vindouro filme. Ao menos isso explica como o Kripto é tão indisciplinado.
Eu estava com uma expectativa muito baixa para esse filme. Achei que seria uma cópia mal feita do Esquadrão Suicida. Não o achei tão ruim, e também não é excelente.
Já saber quem era o tal Bob estraga um pouco da surpresa do filme. Dá para notar também que a trama é bem focada na Viúva Negra, que percorre um tipo de jornada.
Enquanto leitor dos Thunderbolts originais das HQs, achei um desperdício usar o nome apenas como um tipo de trocadilho (todo o lance do asterisco).
Na verdade, eles são realmente os Vingadores da Shopee (Temu Avengers, no original). A bem da verdade, um título mais adequado poderia ser Viúva Negra 2. Ou até mesmo “Viúva Negra e os Novos Vingadores”.
O Bucky foi bem nos poucos momentos que teve disponível. O Guardião Vermelho é um alívio cômico ambulante, e que virou sério apenas quando o roteiro exigiu. Já o Capitão América Genérico foi interessante, embora não tenha sido muito bem aprofundado. Já a tal Fantasma não é nem sequer definível, sendo tão monotemática em termos de papel no roteiro quanto o Guardião Vermelho. Ela apenas dizia umas coisas atravessadas e explicava o motivo do grande poder dela não poder ser usado justamente quando seria muito útil. Já a Treinadora não fez falta. Tchau.
A segunda cena pós-crédito já entrega bastante. Dá a entender que os roteiros vazados tem algum fundo de verdade. Galactus vai destruir a realidade “retrô” do Quarteto, e eles irão saltar para a Terra 616.
O tema do "protagonista em estado alterado" lembra um pouco o que seria feito depois com o Cooper na terceira temporada de Twin Peaks. Um aparente puro acaso guia a trama, mesmo existindo algum tipo grande de limitação.
lembra o começo de Suspiria (a versão dos anos 1970), só que ensolarado. O casal de idosos tem um dos sorrisos mais aterrorizantes de toda a história. Posteriormente, ficaria comprovado que, na visão dela, tudo poderia ser um filme de terror. A Sra. Bonner foi um tipo de "Log Lady" (de Twin Peaks), de soltar uma informação profética. E, tal como a profetisa de Delfos, a mensagem tem mais de uma interpretação. A tal Coco também deu um aviso bem relevante, que pode ser entendido de maneira diferente depois que chegamos no final do filme. A Betty tinha duas opções: ou seguia ajudando a sua amiga até o final, ou a deixaria de lado. E foi exatamente o que ocorreria. A ambientação do filme certamente mostra a opinião do diretor sobre como são os bastidores de Hollywood. E tenho para mim que isso se conecta com "Silencio" e com a performance "no hay banda". A indústria do espetáculo seria desumanizada, uma ilusão. Uma cena que mostra um pouco dessa dualidade é quando o diretor está observando uma das atrizes que foram fazer o teste. Dentro do cenário, tudo é colorido, no estilo anos 60. A câmera se afasta, e mostra os tons cinzas e mortos do estúdio. A "caixa colorida" está apenas dentro do cenário que é gravado.
é o teste das atrizes. O diretor Adam tem uma bifurcação, conforme conversa com o bizarro Cowboy: ou ele aceita a moça indicada, ou não aceita. Já a atriz Betty também se viu em um tipo particular de encruzilhada: ou ela fazia o teste, ou ela ajudava a amiga Rita, conforme combinado. As duas escolhas estão entrelaçadas, e parecem dar uma dica sobre como a realidade desse filme atua. Pode ser um tipo de realidade determinística, que impede alterações temporais drásticas. Do tipo "apenas uma atriz". Pensei também também que pode ser um tipo de circuito fechado, como um tipo de purgatório. Onde o trio estaria preso por suas escolhas feitas há muito tempo atrás, sem opção para escapar. Ou há a terceira opção de serem dois "mundos" que conversam entre si. Um tem Betty/Rita e outro tem Diane/Camilla. Esse último cenário lembra mais o que pode ter ocorrido no final de Twin Peaks.
David Lynch fez uma coisa incrível nesse filme. O título é um trocadilho com o sobrenome do protagonista, e pode significar também que é uma história direta. E é o que ocorre, pois tem uma duração relativamente curta, e segue a estrutura de "road movie". Em poucos minutos, já conhecemos o básico do protagonista. O suficiente para ligarmos para esse tal trajeto longo de um velho teimoso. A composição das cenas rurais do interior dos EUA são espetaculares. Em cada ponto da parada conhecemos os locais, e também vemos o Alvin se abrir mais para o público. Nesse aspecto, o trabalho de seleção dos pontos ficou superior ao que fizeram em "Na Natureza Selvagem", onde cada tipo de figurante representava um aspecto da família do protagonista. Já em "Straight Story", as peças não são tão simplificadas. Aparenta ser alguém que poderia ter existido. Foi só na hora que eu vi os créditos que eu notei que tratava-se de uma história real. O mérito então foi de adaptar algo real de uma maneira quase fabulosa. A premissa, por si só, parece ter saído de um sonho profundo do Lynch. Esse filme é um tipo de versão invertida do filme "Elephant Man", ao menos na característica do protagonista reagir e interpretar o mundo em que ele vive. Curioso notar também como Lynch, aos 53 anos, fez um dos melhores filmes que abordam a reta final da vida. Angelo Badalamenti fez uma trilha sonora soberba, um complemento perfeito para as imagens do filme.
Há uma distinção clara entre os roteiros que o David Lynch adaptou e aqueles que ele criou do zero. Esse filme é um claro exemplo do segundo item. O começo com
Fred e Renee me lembrou Dom Casmurro, pois temos um tipo de narrador não confiável, e claramente muitas informações estão ausentes. Imagino que Machado de Assis faria um tipo de filme igual esse começo, se tivesse nascido em outra época e em outro local. A trama é contada de maneira hábil pelo meio visual.
Já tendo visto Twin Peaks, a tentação de imaginar um "lore extendido" para esse filme é grande. Vendo sob esse prisma,
Aí o filme inteiro muda. Parece que emendaram um filme completamente diferente. Esqueça Fred. Agora a história é com o Pete. Esse personagem poderia ser visto como um tipo de James da segunda temporada de Twin Peaks. Parece que todo aquele "filler" do seriado, totalmente desconectado com o resto da trama, ressoa de alguma maneira na trama desse jovem mecânico. Que se envolve numa trama de talaricagem com a esposa de um cara muito perigoso. Nos dois casos, o pretexto foi arrumar um carro defeituoso. O desfecho também tem uma diferença substancial.
Pouco a pouco, vemos os paralelos entre a trama inicial do Fred e a trama atual do Pete. Ambos são bons de ouvido, só que com aplicações distintas. Um era músico e o outro é mecânico, que consegue diagnosticar um carro apenas ouvindo-o rodando na estrada. Dá para notar também que agora estamos com o ponto de vista do "Ricardão", aquele que ri da cara do perigo. Para complicar mais ainda as coisas, o Pete atua na melhor linha "vou te tirar dessa vida".
As duas "realidades" vão se entrelaçando, e vemos uma simetria das duas tramas. O personagem que eu julguei inicialmente ser um tipo de "Bob" tem realmente um aspecto diabólico. Um tipo moderno de Mefistófeles. A figura do chefe criminoso implacável é uma ampliação do que já vimos em "Blue Velvet".
O aspecto cronológico me pareceu embaralhado. Segue a mesma "lógica" do mundo das cortinas vermelhas de Twin Peaks. Baseado na cena final, compreendi que os personagens estão presos em um "looping temporal", com Pete originando Fred e vice-versa.
A trilha sonora é fantástica. Misturam o rock industrial do Hammstein com cantos aterrorizantes cantados em alemão. E tem também bandas cuja atmosfera geral combina com esses mundos apresentados. Marilyn Manson, Smashing Pumpkins, Nine Inch Nails e mais alguns outros. E, para completar, tem ainda o Angelo Badalamenti completando as lacunas com trilhas diversas.
Está longe de ser um documentário hiper realista de algum conclave específico. Mas mostra algumas características tradicionais desse processo de reunião de cardeais do mundo inteiro. Encarando como uma trama ficcional, é possível se divertir bastante na maior parte do filme. Há o fator “ticking clock”, da urgência temporal do isolamento durante as votações. Há também as reviravoltas nas eleições, com diversas informações que podem recontextualizar toda uma trajetória da pessoa.
O lado do italiano estereotipado é retratado de maneira a gerar a antipatia da maioria dos espectadores do filme. Ao menos essa é a intenção do roteirista.
papa morto tem uma aparência que é um misto do papa João XXIII com o Bento XVI. Na trama, se comporta como um tipo de Hari Sheldon da saga Fundação, com uma capacidade sobre-humana para prever quase todas as possibilidades do futuro.
personagem misterioso, o tal outsider, tem algumas características relevantes para a trama. Aí, por meio do discurso mágico, ele vira a eleição, e se torna um papa. A reta final mostra a versão que o roteiro considera correta e apropriada: abandonar o poder; Esqueça o passado, mate-o se for necessário; Reimaginar uma religião para as “audiências modernas”.
Incrivelmente, esse é um dos melhores filmes do Homem-Morcego. Ele tem foco óbvio no público infantil, mas possui uma trama bem amarrada e desenvolvida. Tem base na mitologia essencial do Cavaleiro das Trevas. Bruce tem o seu trauma ligado com a família, e acabou compensando isso nas HQs criando uma família adotiva. Fala que gosta de trabalhar sozinho, mas atuou com os Renegados, com a Corporação Batman, com a Liga da Justiça e mais alguns outros grupos. Bruce Wayne começa a trama como um adulto que não teve infância, e acabou confrontando o seu pior adversário: o seu maior medo. Algo que nem mesmo o Espantalho foi capaz de despertar. Lembrou a trama de Brave and the Bold #197, que envolvia o Batman da Terra-2 e Selina Kyle. Só que na animação Lego envolve a sua família inteira. A motivação do Coringa lembra um pouco o arco "Morte da Família", onde o vilão agiu baseado no ciúme que ele sentia pelo Batman. Há um uso de elementos da cultura pop do universo do Batman. Felizmente a trama principal não depende disso para ter a sua utilidade.
Troca a cor esmeralda original pela cor rubra, e pelo fogo. Tem um aspecto violento, sombrio e ligeiramente pessimista. Parte da ambientação ressoa com a terceira temporada de Twin Peaks.
O símbolo da estrada de tijolos amarelos foi trocado pelo amarelo das faixas nas estradas interestaduais. A bruxa má ganhou características de “rainha/madrasta má”, e a bruxa boa é uma variação da Woman in the Radiator, interpretada pela futura Laura Palmer. Como uma boa parte dos filmes do diretor, a sequência crua, agressiva e áspera termina com um final que tem certo tom positivo. Como é adaptado a partir de um livro, é também um dos filmes mais estruturados, tendo a criatividade de fazer algumas cenas oníricas, mas mantendo uma estrutura de “road movie”.
Essa temporada funciona quase como uma produção à parte. É uma lição prática de como continuar uma obra sem apelar constantemente para os "memberberrys" e nostalgia barata. O caminho mais fácil seria imaginar que cada personagem se manteve exatamente igual em décadas: mesma profissão, mesmo dilema e até mesmo traje. Nessa continuação,
Audrey Horne, por exemplo, teve uma espiral descendente, e está quase na exata situação oposta do seu sonho de adolescência. Bobby Briggs também passou por uma mudança moral, deixando de ser um traficante de baixa hierarquia para ser um xerife. Mostrou de que maneira a visão do Major Briggs se realizou. As cenas da personagem Margaret Lanterman são muito significativas quando descobrimos como a atriz estava durante as gravações.
Para cada coisa explicada sobre o "lore" de Twin Peaks, diversas outras dúvidas aparecem. O objetivo dos criadores da série não é finalizar completamente a experiência, pois a vida sempre tem possibilidades. Há uma necessidade de rever tudo, pois assim algumas informações se tornam mais claras. O Cooper seguiu uma versão reimaginada de "Um Morto Muito Louco", só que com um protagonista altamente Zen, só que ainda não totalmente "desperto". O que começa como uma comédia surreal termina de maneira tenra e "wholesome". A cena do "Cooper maligno" recusando café é um dos "payoff" mais longos de todos os tempos. Cooper nunca recusa café. O penúltimo episódio parece ser uma conclusão. Contrasta com o último episódio da segunda temporada, que parece um penúltimo episódio. A conclusão do seriado vai para um caminho completamente inesperado. Tem muitos símbolos, e dá a impressão de ser solucionável, caso se preste mais atenção numa segunda visualização.
O filme é muito mais sombrio que o seriado. Como é uma prequela, já sabemos o horror que está à frente. Mas ver isso realizado na tela é agoniante. Ver o seriado antes do filme ajuda a dar um contexto maior para a história, pois deixa claro algumas situações que são apenas subentendidas ou ambíguas. A noção
da Laura atuando voluntariamente nesse mundo sombrio, pois assim a cidade será salva, é bem relevante ao se ver esse filme. Se ela apenas fugisse, o mal na forma do “Bob” a pegaria eventualmente, e a cidade se tornaria asquerosa e detestável. Um tema profundo explorado é o da violência contínua, sob a vista de todos. Uma existência contaminada por anos e anos a fio, mesmo no lar, ambiente que deveria ser inseguro.
Mesmo sendo uma prequela, o filme é uma continuação do seriado.
Pois, no mundo da “sala vermelha”, o tempo não é linear. É dito que o agente Cooper bom ainda está preso na “black lodge”, e o agente Cooper maligno está solto no mundo ordinário. O final também segue o estilo David Lynch: a trama é sufocante, aterrorizante e agoniante. Mas o tom final sempre é otimista e catártico. Ela sorrindo em um plano azul passa a mensagem claramente. A moça de branco lembra a “Woman in the Radiator” do filme Eraserhead. Os finais ressoam nesse sentido.
Deram uma “esticada” na trama. Era possível chegar nesse mesmo “status quo” com meia temporada. Me passa a impressão que estão soltando o mistério à conta-gotas, para que renda mais temporadas no total. Estava meio claro que a trama se
encaminhou para um triângulo amoroso envolvendo “innies” e “outies”. E, mais pra frente, aponta para um caminho de unificação e conciliação. Eu até imaginava que iria ter mais mistérios “mind blowing”, como por exemplo os gerentes terem um tipo especial de ruptura.
Espero que a série não se torne um “Lost moderno”, focado apenas nas infinitas “mystery boxes”. A parte interessante é o dilema dos “dois mundos”, aparentemente irreconciliável, e também o reflexo disso para quem tem um emprego ordinário, de segunda à sexta, das 8 às 17.
O seriado tem uma casca de novela clássica, com dramalhões românticos e triângulos amorosos. Tem referências claras na novela fictícia que passa na TV, sendo uma versão caricata e esdrúxula do que é feito habitualmente. Mas tem também um esmero na maneira como cada personagem foi criado. Já no primeiro episódio temos uma noção geral de cada um deles, mesmo que tenham aparecido por pouco tempo. A trama avança um tanto, e notamos que existem muitos segredos na pacata cidade. Aí, quando imaginamos já saber mais ou menos o cenário completo, descobrimos outros segredos mais profundos. O mais curioso é notar que o mistério sobre a morte da Lara Palmer é o menos relevante. O mais divertido é ver os personagens apenas existindo. Os detalhes são memoráveis.
Como por exemplo ver a Lucy Moran muito irritada exigindo que alguém saia da delegacia. Mas tomando o cuidado de avisar que a segunda porta pode emperrar um pouco. O próprio protagonista é repleto de pequenas características. É um detetive zen, que tem um juramento quase religioso de seguir o FBI. Aí, vez ou outra, uma trama altamente etérea aparece, e tem relação direta com o mistério do assassinato. Muitas cenas partem para o irreal e o onírico. Até mesmo o fluxo temporal parece perder o sentido, pois Laura Palmer viaja para o futuro (na visão dela) para conversar com o policial na sala vermelha. Já para Dale, é tanto o passado quanto o futuro, pois ele recebe informações para a resolução do caso. Solucione o sonho, solucione o caso.
Dá para notar muitas características do próprio David Lynch em alguns personagens. Todos, por exemplo, amam café. É bem provável que o agente Cooper pratique a meditação transcendental e por aí vai.
Até agora, Twin Peaks foi uma das melhores coisas que o diretor fez. Não é à toa que é uma das mais referenciadas nos vídeos de homenagem ao artista, falecido recentemente.
Os Gerentes agem como seres robóticos, como se fossem figurantes no Show de Truman. Já os funcionários do nível mais baixo atuam como crianças ou pré-adolescentes. Isso ajuda no clima de ver o ambiente de trabalho contemporâneo como sendo uma "creche para adultos imaturos". As "crianças" chegam em horários parecidos, fazem atividades com os "tios", e depois de algumas horas se vão. Só falta a "hora da soneca".
manual corporativo atua como uma religião vazia e falsa. Soa vagamente místico, mas não há uma grande profundidade. O mito do fundador é uma versão moderna do culto ao Ford, com operários em escritórios. Algo na linha "Admirável Mundo Novo", só que mais exagerado. A impressão é que a maior parte das frases são oriundas de discussões de um comitê corporativo, no melhor estilo de planejamento centralizado soviético.
livro é uma auto-ajuda barata, vazia e com frases batidas. Cujo autor é bem egoísta. É uma referência nada discreta ao movimento de auto-ajuda e de livros com palavrão no nome. E também dos "coaches" que brotam nas redes sociais. Faz muito sentido que ele tenha se tornado um sucesso ao ser lido pelas mentes iniciantes dos internos. A gerente passa a impressão de jogar um jogo dentro de um jogo. Tem uma agenda divergente do tal "conselho". Ela parece também querer se libertar, usando seus subordinados. O altar que ela possui indica que ela foi algum tipo de pioneira da ruptura. A impressão dada é que a tal empresa no passado era um culto religioso maluco. A minha teoria (feita no meio da primeira temporada) é que os gerentes também têm outro nível de ruptura.
Um filme bem mais aberto a distintas interpretações do que Eraserhead e Elephant Man. É sobre um jovem idealista que tem um pequeno contato sobre o que é a vida real. Tem um tipo de jornada espiritual muito surreal com base em um início que, por si só, é intrigante:
uma orelha foi encontrada. Que é um órgão ligado com a audição. Que tem conexão com a música que foi cantada pela moça, a tal Blue Velvet. A cor usada no tal pedaço de pano, um azul forte, tem certa relação com a melancolia, com algo sombrio.
dualidade também é bem trabalhada de diversas maneiras. Tem duas moças que atraem a atenção do protagonista, de maneiras distintas. Há a oposição entre o que está em sigilo e o que é de conhecimento de todos. Entre estar vestido e estar desnudo. Cada uma das mulheres tinha também um outro interesse amoroso anterior. Um dos policiais tinha um papel duplo: ora era o delegado conhecido, e ora era o agente dos mafiosos perigosos. O jardim, tão belo e aparentemente inocente, foi o cenário do acidente bizarro do pai do protagonista. A cidade interiorana, tão calma e pacífica, ocultava um submundo sombrio, violento e impiedoso.
A grande ironia desse filme é que tanto o lado defensor quanto o lado crítico do Sam Wilson não compreenderam os motivos dele ter sido escolhido como sucessor. Achei um pouco estranha a abordagem escolhida para o filme. Há um foco excessivo no soro, no escudo, nas asas, no capacete, no cargo, na hierarquia e nos poderes em geral. E o debate polarizado tem se focado nisso. Eu li algumas HQs e vi os filmes do Capitão América Steve Rogers. A cena que o define para mim é quando ele se joga na frente da granada. E isso independe do soro mágico. A grande característica dele é ser abnegado, e nunca desistir de lutar pelo certo. Tanto é que vez ou outra ele perde o direito de usar o escudo e o traje. Ou também perde os seus poderes. Mas ele continua prosseguindo e atuando. Steve, ao notar o fim de seu ciclo, pensou profundamente no seu sucessor. Sam Wilson, mesmo sem ter poderes, atuou lado a lado em combates épicos. E também nunca desiste de fazer o que é o certo. Mesmo sendo, teoricamente, apenas o "cara que voa". Mesmo não tendo sido explicitada, a escolha é deduzível com base nesse contexto. Eu imaginei que esse filme do Capitão América começaria com Sam se sentindo inadequado. E, por conta dos desafios do filme, notaria que, mesmo sem poderes, ele é um herói. E também notaria os pontos em comum que ele tem com Rogers. Os adversários refletiriam esses aspectos de "foco em mantos", e possivelmente haveria um terceiro ato onde Sam Wilson teria de sair de uma situação difícil sem o uso do escudo, sem o uso das asas e tudo mais. Um momento definidor de personalidade. O filme não é horrível, mas está muito abaixo do padrão MCU da década anterior. É algo que infelizmente não será memorável por sua neutralidade.
David Lynch, em seu segundo filme, faz um trabalho espetacular. Dessa vez é mais fincado na realidade. Tem, contudo, um tom constante de desajuste do indivíduo perante a sociedade. Toca em questões como aceitação dos outros, aceitação de si mesmo, e a clássica distinção entre como nos vemos interiormente e como a sociedade nos vê. A Inglaterra Vitoriana é a sociedade do caso real, e serve como moldura dessa trama. Pode ser vista como uma crítica direta aos modos daquela sociedade, sempre tida como recatada, contida e aderente às normas. Mas tendo a ver o contexto mais amplo. Sobre uma formação psicológica de um ego recente, e sua reação emocionada ante o que ele nota como "os outros", ou seja, tudo aquilo que não é ele. O tema central também é sobre apego, sobre vulnerabilidade, conexões entre as pessoas e aceitação de si mesmo. Há uma contextualização das diferentes maneiras de exploração de Merrick. E as camadas sociais da sociedade foram usadas para isso.
O nível mais cru é o antigo "freak show", de cobrar umas moedas para vê-lo. O nível mais "civilizado" seria a validação social, de validá-lo para obter validação dentre seus superiores na hierarquia social da época. No começo, o próprio Dr. Treves pensou se as motivações dele eram meramente para obter validação social entre seus colegas acadêmicos.
quadro da criança dormindo foi uma excelente Arma de Chekhov. Na hora, pensei "o Homem Elefante nunca deve ter tido um sonho. Quando ele ter, será o mais belo e celestial sonho já existente". A parte final do filme faz uma escalada, e é quase um sonho desperto. A magia do teatro, os aplausos, e uma noite que nunca seria esquecida. Para coroar tudo isso, a "arma" é disparada. Assim como em "Eraserhead", o filme aparenta ser apenas tragédia, e o final é etéreo e otimista.
David Lynch foi uma voz autoral bem forte no cinema. Estreou com um filme bem fora do padrão. Nem todos os pedaços dele possuem explicação clara e determinística. Cada pessoa tem o direito de projetar alguma interpretação particular sobre o que viu. Para mim,
um paralelo entre o frango sendo cortado na cena do “jantar constrangedor” com a cena final do bebê sem as bandagens. Nos dois casos, o Henry foi o responsável pelo ato.
é a que provavelmente dá nome ao filme. Henry, em um provável cenário onírico, “perde a cabeça”, e ela acaba sendo a fonte para a borracha "apagadora" que fica na ponta dos lápis. A borracha acaba vindo no sentido de apagar os rabiscos de um papel, podendo representar o potencial (negativo e positivo) do bebê.
“perder a cabeça” quanto ao encontrar a “moça bonita do corredor” Henry aparece com a cabeça do bebê. Isso pode ser um tipo de obsessão mental. Ela, ao olhá-lo, o rejeita, pois vê apenas o bebê. E ele, por sua vez, não consegue pensar em mais nada. A sua mente é dominada pela condição retratada em boa parte do filme. O filme mostra um estado quase perpétuo de ansiedade, e da sensação de enclausuramento que ocorre em decorrência disso.
Rush: No Limite da Emoção
4.2 1,3K Assista AgoraAntes mesmo de conhecer o filme, me chamou muito a atenção a trilha sonora. Apareceu aleatoriamente no YouTube a música “Lost but won” do Hans Zimmer. Após ouvir várias vezes a música, o interesse pelo filme aumentou.
Rush está longe de ser perfeito. Acho um pouco incômodo aqueles cenários fake, que parecem muito telas verdes. É um CGI bem característico do período de 2008 a 2015. A atuação do Chris Hemsworth também está bem triste. Já Daniel Brühl foi muito bem. Insistiu num sotaque bizarro ao meu ver, pois Lauda era austríaco que falava inglês com um sotaque italiano. Aparentemente muitos dos trejeitos e caracterização correspondem ao piloto na vida real.
A história em si foi muito bem desenvolvida. O começo foi meio fraco, mas o meio e o final são muito bons. Tudo gira em torno da rivalidade entre Hunt e Lauda. A torcida acaba sendo para que ambos vencessem, pois ambos os personagens possuem pontos fracos e fortes, com nuances. Involuntariamente eles também atuam num padrão que pode até gerar humor, pois é a dupla entre uma pessoa extremamente metódica, aplicada e séria versus uma pessoa brincalhona, descontraída e leve. Deadpool 2 usou esse artifício no seu segundo filme com o sério Cable.
O roteiro fez vários pulos na linha temporal, em um longo calendário de provas da F1. Mas, no conjunto, a trama parece ser totalmente ficcional. Conta com reviravoltas e corridas determinantes, com acidentes constantes mudando o rumo do campeonato.
O filme confirma o excelente uso da trilha sonora. Hans Zimmer costuma usar um tema musical e o repete com variações nas mesmas faixas. Vemos o tema de “lost but won” aqui e acolá no filme, inclusive ajudando a potencializar uma cena épica de corrida.
O filme dá uma camada adicional para o título da música. Pois é ambígua no sentido de quem exatamente “perdeu, mas ganhou”. Poderia ser do Lauda desistindo da última corrida, mas ganhando uma carreira inteira pela frente com tudo o que mais lhe importa. Poderia ser do Hunt se aposentando logo depois de se tornar campeão. Perdeu uma carreira, mas viveu a vida nos seus termos, sem tentar igualar uma conquista que já obteve. E, por fim, pode refletir também o tema principal do filme, que é a rivalidade que eleva a ambos para níveis jamais sonhados. Ao perder temporariamente para seu adversário digno, você ganhará incentivo e impulso para vencer mais adiante.
A Odisseia
4.2 586Nolan está certamente ficando velho. O tema narrativo que ele enfatizou muito nesse filme foi
o fim de uma civilização, a morte da bondade do passado, e a humanidade colapsando. A repetição constante da “Zeus’s Law” seria uma regra essencial e que nos manteria distante de um cenário aterrorizante Hobbesiano. O diretor fez uma referência direta ao Colapso da Era de Bronze. Seria como, se no terceiro filme de Senhor dos Anéis, Peter Jackson fizesse referências às eras posteriores criadas pelo Tolkien, cheias de cenários aterradores. Nolan me pareceu estar tomado por uma “Black Pill”, um niilismo que pode vir depois de algum tempo de vivência. Ter descoberto depois que o diretor supostamente é ateísta faria sentido nesse contexto.
Esse filme também não tenta supor nada: mastiga todas as informações, e as repete para que praticamente qualquer ser vivo que respira consiga acompanhar tudo o que está ocorrendo. Um exemplo marcante disso são as cenas que envolvem o cachorro velho. Logo no começo, fazem um flashback para mostrar o motivo do cachorro ser importante. Aí, bem depois no filme, tem a tão aguardada cena de Odisseu se encontrando com Argus. Aí o filme vê a necessidade de relembrar algumas das cenas (“ei, é aquele cachorro que um dia foi um filhote. Lembra?”). Particularmente eu considero que a cena do cachorro foi mal executada. Bem apressada, onde mostrou basicamente o rabinho de Argus se movendo. Uma tecnologia que deve ter custado dezenas de milhares de dólares para ser feita. Filmes anteriores conseguiram fazer a mesma cena ter um significado mais profundo com um orçamento mais limitado.
Ainda mantendo o foco nas comparações, isso é inevitável. A Odisseia de Nolan acabou se tornando uma obra distante da original. Reinterpreta conceitos antigos com a lente moralista dele. O protagonista se torna alguém atormentado por seu passado, vivendo com remorso do que suas ações inteligentes causaram no passado. Nesse sentido, eu também saí da sala com a impressão de que Nolan refez Oppenheimer, só que em um cenário de fantasia. O terror da era nuclear foi trocado pela ameaça dos povos do mar. A cena da explosão atômica e do auditório foram trocados pelas cenas da queda de Tróia e do barco na tempestade.
A obra de Nolan tem um componente irônico que parece ter vindo de uma profecia do tempo dos Micênicos. Ela me fez querer pesquisar mais sobre a obra original, pois alguns símbolos e alegorias eram muito poderosos. Mas, nesse processo, me fez gostar cada vez mais da adaptação, ao notar como a obra original é coesa e totalmente coerente na sua mensagem. Muitos personagens, muitas viagens, muitas situações. E, incrivelmente, já solta spoilers logo no começo e tem narrativa não linear. Nolan usou pedaços da obra original e a embalou na sua visão de mundo niilista que envolve traumas de guerra, arrependimento e crítica à guerra. Já Homero vai em outra direção. A minha intuição de que Nolan está velho na sua imaginação se reflete em uma observação feita pela internet: há toda uma parte da obra original que retrata jovens, e esse material foi limado. Os principais personagens são velhos. As coadjuvantes são velhas. Um dos poucos personagens jovens é o príncipe de Ítaca, e é um inútil irritante. Hoje em dia sequer cogitaram personagens jovens como Nausicaa.
Uma parte que gerou certa controvérsia é a obsessão de Nolan pelo realismo. Mas agora fez isso em uma obra que lida com literais deuses interagindo diretamente com os personagens. Felizmente ele não foi na direção ainda mais radical do filme Tróia, onde tudo era explicado como fama exagerada ou fatos reais que foram mal interpretados. A Atena de Nolan poderia ser explicada como um tipo de psicóloga que o ajuda a lidar com seu estresse pós-traumático da guerra. Mas, apesar de citar termos como “Era de Bronze” e “Povos do Mar”, Nolan não teve essa preocupação em ter figurinos que, se não fossem historicamente acurados, ao menos fosse decentes. O Agamenon parece o Batman, com aquele capacete feito em uma impressora 3D. O elmo dos soldados de Tróia parece algo que uma pessoa usaria numa festa de Halloween. Tudo genérico para parecer antigo na visão de um leigo. Nada que pudesse ser característico da “Odisseia do Nolan” para um público que não conhece tanto essa era histórica.
Falando sobre o Cavaleiro de Esparta, Agamenon, ele deveria representar tudo o que Nolan abomina. É mostrado de maneira desumanizada, vaga, quase como se fosse um manequim. Isso parece indicar que o diretor não conseguiu definir bem os seus receios. Não conseguiu humanizar o lado que ele mais discorda, que está ligado com uso irrestrito de poder, beligerância e insensibilidade pelo que seria o “bem maior” na visão do diretor. É um espantalho vazio, sem essência, e, portanto, pouco memorável. Com tantos filmes já feitos, dá para notar que Nolan tem um problema ao criar personagens secundários que sejam de algumas maneiras determinadas. Ele consegue resultados melhores ao adaptar o que alguém já fez.
Por sinal, pelo que me lembro, esse filme não teve o roteiro do irmão dele. Parece ter sido tudo feito pelo próprio diretor. A parte visual ficou ótima, e conta com grandes cenas. Nem parece que foram mais de 3 horas de filme. Mas, ainda assim, lamento que não se tornou aquele filme 10/10, se mais do material original pudesse ser liberto da obscuridade numa tela ampla do IMAX.
Supergirl
2.8 266 Assista AgoraEsse filme conseguiu ser uma rara unanimidade em tempos tão polarizados. Bilheteria péssima, crítica morna ou abaixo da média, e opiniões nas redes sociais comentando como essa produção tem poucos aspectos positivos.
Enquanto eu via esse filme no cinema, eu cheguei a olhar até para o teto do cinema, observando o novo estilo após a reforma. Não liguei nem um pouco para o destino da protagonista. Eu particularmente já não gostava da HQ original, e dá para ver que usaram pouca coisa do material original.
O Lobo foi colocado para agradar os fãs, e também para falar que gosta da Supergirl.
A cena final foi pessimamente dirigida. Explosões e bonecos CGI voando.
O filme inteiro está com um estilo escuro e de cor de chão de terra. Um slop que lembra alguns momentos do filme do Flash. Boa parte dos filmes atuais têm o mesmo estilo de visual.
O vilão do filme é bem esquecível. Na verdade, todo o filme é apagado rapidamente da memória em menos de uma hora depois que ele foi visto.
Toy Story 5
3.9 194 Assista AgoraA Pixar realmente está mudada. Esse filme tem um roteiro embaralhado, caótico, e parece uma versão não finalizada. Há um problema de tom nos acontecimentos. Os acontecimentos que deveriam ser surpreendentes estão telegrafados há muito tempo. Mesmo sem pesquisar, é possível determinar que o roteiro tem a essência do “millenial writing”, e que tem forte influência da Longhouse. A trilha sonora tenta indicar os momentos em que uma cena emocionante deveria acontecer. Mas, enquanto espectador, não senti nada.
Assim que Lilly e Jesse discutiram no começo do filme, já percebi que a tablet não seria vilã, e que seria retratada como “multifacetada”. Isso tirou qualquer surpresa que a mudança dela de lado pudesse ter. Aliás, a trama não tem um vilão personificado em um brinquedo ou humano: Toy Story 1 tinha o Syd, o 2 tinha o brinquedo do idoso, o 3 tinha o ursinho com cheiro de morango, e o 4 tinha a boneca antiga. Todos os vilões tinham uma conexão direta com o tema do filme. Já o quinto filme tem como adversário “a sociedade”, “a desconexão”, “a tecnologia” ou qualquer outra abstração. Já os personagens se dividem em dois grupos: as mulheres, os animais e os demais figurantes. A mãe da Bonnie conversa em tom respeitoso que parece ter saído de um vídeo educacional da ONU. O pai da Bonnie é tratado como um paspalho, pois guardou os brinquedos na garagem. A nova amiga da Bonnie é praticamente uma Milena da Turma da Mônica. A mãe dela faz compras, a leva de carro e atende a porta. O pai dela fica em reuniões no Zoom e pode ser visto como um pateta por não reparar em toda a ação dos brinquedos. O Woody e o Buzz disputam para ver quem é o melhor ajudante da Jesse. Um exército de Buzz modernos seguem a estrela da Jesse, e a rodeiam montados em cavalos em um morro. E mais algumas características que são recorrentes em produções atuais.
Os roteiros atuais quase proíbem a mera possibilidade de que uma personagem feminina seja uma total e completa vilã. Esse é um dos motivos que deixam a trama completamente plana e previsível.
Jessy, a protagonista, segue aquele padrão de personagem “modernoso”: ela não passa por um arco narrativo completo. Apenas descobre que sempre foi especial o tempo todo, e só precisava de descobrir esse fato.
A trama paralela dos “Buzzes” foi bizarra. Um enxerto na trama para facilitar algumas partes da trama. Fora que são claramente o aspecto jungiano do Animus no roteiro.
Esse filme possui boa produção de animação, música razoável e neutra, e um bom elenco de apoio. A pena é que a força motriz de tudo isso é um roteiro insosso e abaixo do antigo (e finado) padrão de qualidade que a PIxar tinha nos seus tempos áureos. Está bem claro que sou excessão, pois o filme está rendendo bilheteria. E isso indica que teremos mais uns 5 “Toy Storys” no mínimo.
Prometheus
3.1 3,5K Assista AgoraO filme não tem muita coisa da série “Alien”. Enquanto filme solo, tem um roteiro muito mal conduzido. A noção de propor um tema amplo e filosófico para o filme foi interessante, mas pecou na execução. As cenas que se destacaram negativamente foram justamente as mais famosas. O integrante responsável pelos mapas ficou perdido na nave. O engenheiro acordou e se comportou feito um urso neurótico. Os cenários poderiam ter sido menos cinzentos e a iluminação poderia ficar mais clara.
A parte mais negativa, contudo, é a “moral da história” apresentada no filme. Um niilismo dos mais rasteiros. Havia potencial para uma subtrama envolvendo a crença da protagonista do filme, mas optaram por remover algumas cenas valiosas. Outra cena removida dava um contexto importante para a motivação do Engenheiro ao notar o que aconteceu com a humanidade.
Batman Azteca: Choque de Impérios
2.7 23 Assista AgoraAnimação péssima no aspecto técnico.
Em algumas ocasiões parece até um episódio do “How It Should Have Ended”. Imagens que por um acaso se movem.
O roteiro toma muitas liberdades históricas. É uma versão invertida e “politicamente correta” da trama de Cowboys vs ìndios no Velho Oeste antigo. Com mocinhos e bandidos claramente distintos, naipe John Wayne.
Batman pertence a um império que pratica sacrifícios humanos de maneira habitual. Então tá. Cortez foi retratado como um Dick Vigarista versão Conquistador. O jovem vigilante fez um “curso expresso” e rapidamente deixou de ser um jovem e se tornou um Batman. Tudo pareceu corrido demais nessa parte. O que eu esperava era um tipo de salto temporal, onde um garoto treinaria e se tornaria algo diferente.
Quarteto Fantástico: Primeiros Passos
3.4 566 Assista AgoraA minha expectativa para esse filme estava baixa. Felizmente não foi o absurdo cinematográfico que eu imaginava.
A ambientação estilo anos 1960 foi agradável. Esse mundo jetsons é retrofuturista e dá uma certa ambientação para a trama. Está bem distante daquele cenário cinzento e genérico do habitual do MCU.
Além disso, o filme inteiro se passa na tal Terra-828. Achei ótimo que esse número é uma referência direta à data de aniversário do Jack Kirby, criador dessa equipe. Então essa dimensão pode refletir a era de criação desses personagens. E, acredito eu, poderia também abrigar as outras criações do rei dos quadrinhos.
O Coisa
estava avulso em quase todo o filme. O enfoque na vida pessoal dele ficou fiel aos quadrinhos. Foi bem corrido, mas mostraram a fé judia do Ben. Esse personagem, contudo, fez pouco na hora da briga. Queriam definir a personalidade dele como "gosta de cozinhar".
A Surfista Prateada
foi utilizada com dois propósitos. Um deles era para justificar o papel que o Tocha Humana teve na quase miraculosa pesquisa linguística. E, nas HQs, é bem comum Johnny Storm se apaixonar por alienígenas, inumanas e meta-humanas. O segundo objetivo dela é usar um pouco de relatividade moral de salvar o próprio planeta, matando outros em troca. Isso ecoa com o conflito do filme, da vida de uma criança valer mais do que bilhões de vidas no planeta.
Todos esses pontos
até agora são minoritários em seu impacto no filme como um todo. O ponto nevrálgico desse filme é o suposto líder da equipe. Sendo breve: o Sr. Fantástico deveria ser inteligente. A versão mais detalhada será longa.
Reed Richards é considerado a pessoa mais inteligente de todo o universo Marvel. Não é apenas seu corpo que é elástico, A sua mente possui uma capacidade ímpar de "se esticar" em diversos cenários e hipóteses. Logo no começo, o filme mostra a reação dele ao saber que será pai. A primeira ação é basicamente colocar protetores de tomada na casa. Isso é comum, ordinário, e sem imaginação. Fora que um recém nascido provavelmente ficará longe de tomadas por pelo menos alguns meses. Algo que faria mais sentido para o personagem seriam planos de proteção de todo o edifício Baxter. Talvez até mesmo criar uma base de segurança, acessível por meio do teleporte. Ou, quem sabe, um bunker protegido contra radiação, explosões e com alguns suprimentos. Talvez memorizar quase todas as informações sobre pré-natal e pediatria em questão de horas. Mas não. Mandou o Herbie colocar protetores na casa.
Outra coisa bizarra é o Reed responder que não sabia se o povo da Terra estava a salvo. Ele deveria ter uns 5 planos de contingência, e bastaria escolher o mais apropriado. O Sr. Fantástico teve uma infância complicada. Sempre tentou resolver tudo por conta própria. Entender tudo o que está ao seu redor. A mera possibilidade de desconhecer algo é o seu pior pesadelo. É um dos motivos dele acumular conhecimento tão facilmente. Mesmo se ele estivesse em um cenário muito complexo, ele não teria aquela reação "blasé". E, como ele geralmente não considera as emoções dignas de objeto de estudos, ele entraria em um estado de fuga, optando por não dizer nada para um grupo de repórteres.
O plano principal tinha certo potencial. Mas, considerando que tiveram semanas para trabalhar nisso, o Reed poderia ter feito mais. Por exemplo, pesquisar mais a fundo o "suco alimentício" do Galactus, a misteriosa energia cósmica. Para tentar sintetizar ou obter algum pouco disso. De modo a criar algum chamariz ou distração que pudesse evitar o uso de um bebê. Mas não. Eles apenas imaginaram que Galactus iria apenas confiar na sua visão, e pegaria um carrinho de bebê vazio. Outra opção mais viável seria o que foi feito nas próprias HQs: ele conseguiu alterar o mecanismo que o devorador de mundos usa para devorar planetas, e inverteu o fluxo. Então, ao invés de consumir, ele começou a perder energia. Isso poderia ser feito em uma missão "stealth" antes que o gigante viesse para a Terra. E acho que poderiam ter pensado em um "plano B" que envolvesse também os teleportadores. Como a quantidade de massa a ser transportada determina o custo energético da máquina, então deve ser fácil teleportar apenas o Herbie e o Franklin para o outro lado do mundo. Tipo numa base especial no meio do deserto do Saara. Ou até mesmo em 4 bases especiais distribuídas por locais desocupados ou desabitados. Quem sabe até mesmo energizados por meio dos próprios poderes de um ou mais integrantes. Com isso, a equipe teria muito mais tempo para encontrar uma maneira de vencer Galactus. Mas o filme optou por mostrar o Sr. Fantástico escrevendo a equação da alavanca, para simplificar tudo.
O filme, contudo, optou por ir em outra direção. Sue usa seus poderes numa escala que supera os demais integrantes somados. Apenas por que sim. A Surfista aparece do literal nada, pois pensou um pouco, e agora sim está disposta a trair Galactus. Antes a resposta dela era apenas "Complicado isso aí".
A primeira cena pós-créditos foi meio vazia. Pois tem a terrível perspectiva que o ótimo personagem Dr. Destino seja desperdiçado pelo Robert Downey Jr. Faria mais sentido se fosse o avô do Franklin que tivesse aparecido. O Doom tem uma ligação maior nas HQs com a Valéria, filha mais nova de Sue e Reed. Já a segunda cena pós-créditos foi um aceno para o desenho animado da década de 1960. Nada de mais.
Superman
3.6 933 Assista AgoraA ordem dos acontecimentos foi embaralhada. Os primeiros minutos na verdade mostram metade dos acontecimentos. Existem coisas bem executadas e outras que ficaram (e muito) a dever. Os Kent foram o símbolo perfeito da criação rural do Kansas, essencial para a mensagem central do filme. Que, por sinal, teria todo o sentido de ser chamado "Superman: Legacy", pois o legado do protagonista é amplamente discutido nesse filme. Antes de ver o filme, imaginei que o Kripto teria algum tipo de arco de desenvolvimento. Seria insuportável e indisciplinado, mas teria um grande momento para si. Isso é feito de certa maneira, mas não foi um ponto central da trama. Todo o roteiro tinha potencial para ser uma trama focada na era de prata dos quadrinhos e com alto apelo infantil. Mas, ao mesmo tempo, foi inserido uma trama política e também as cenas "quentes" envolvendo Lois e Clark, claramente focadas para o público adulto. Essas duas facetas não geraram algo totalmente harmônico.
A grande especialidade do James Gunn é um grupo obscuro de personagens rejeitados.
A tal "Gangue da Justiça" se encaixa totalmente nisso, e foi outro ponto positivo. Um filme da "Liguinha" tem potencial para ser um novo tipo de "Guardiões da Galáxia".
As cenas de luta foram bem desenvolvidas.
O baby kaiju atendeu a três objetivos: cena de combate, mostrou Superman se preocupando com os civis, e fez um contraste entre as estratégias da Gangue da Justiça e do Homem de Aço. Essas amarrações fortalecem a trama, por serem complementares.
O Senhor Incrível mostrou um grande potencial, e certamente pode render um projeto solo. Ainda mais se considerarmos o material originário das HQs. Olsen teve uma participação inesperada na trama, e não teve muita profundidade até agora. Foi um tipo de objeto para a piada, e uma peça para a "surpresa" da trama.
O roteiro conta com muitas conveniências.
Após um grande salvamento, o público imediatamente se volta contra o Superman, e tudo isso por conta de umas hashtags de rede social. É risível o artifício de associar macacos treinados para serem trolls em redes sociais. Isso demonstra uma completa falta de imaginação do roteirista. A pior ameaça que ele pode pensar foi um tipo infantil de cancelamento. Se assemelha muito ao Lex Luthor dos filmes antigos, obcecado sempre em usar artifícios complexos para lucrar com especulação imobiliária. Sem imaginação, podemos escrever apenas sobre o que vivenciamos. E o Gunn aparentemente é um utilizador frequente de redes sociais.
Falando em identificação, é bem provável que o roteirista se veja como Punk Rock. Mas, na prática, é visto como aquele meme do Jorge: "quiere ser hardcore y su mamá no lo deja". Essa mensagem deveria ser emotiva e reflexiva. Mas não me causou tanto impacto. A parte da "imagem dos pais" foi melhor desenvolvida.
A cena da Supergirl ficou com um tom alienígena (para usar um leve trocadilho). Isso se explica pela HQ tenebrosa do Tom King, que provavelmente será usada como base para o vindouro filme. Ao menos isso explica como o Kripto é tão indisciplinado.
Thunderbolts*
3.4 482 Assista AgoraEu estava com uma expectativa muito baixa para esse filme. Achei que seria uma cópia mal feita do Esquadrão Suicida. Não o achei tão ruim, e também não é excelente.
Já saber quem era o tal Bob estraga um pouco da surpresa do filme. Dá para notar também que a trama é bem focada na Viúva Negra, que percorre um tipo de jornada.
Enquanto leitor dos Thunderbolts originais das HQs, achei um desperdício usar o nome apenas como um tipo de trocadilho (todo o lance do asterisco).
Na verdade, eles são realmente os Vingadores da Shopee (Temu Avengers, no original). A bem da verdade, um título mais adequado poderia ser Viúva Negra 2. Ou até mesmo “Viúva Negra e os Novos Vingadores”.
O Bucky foi bem nos poucos momentos que teve disponível. O Guardião Vermelho é um alívio cômico ambulante, e que virou sério apenas quando o roteiro exigiu. Já o Capitão América Genérico foi interessante, embora não tenha sido muito bem aprofundado. Já a tal Fantasma não é nem sequer definível, sendo tão monotemática em termos de papel no roteiro quanto o Guardião Vermelho. Ela apenas dizia umas coisas atravessadas e explicava o motivo do grande poder dela não poder ser usado justamente quando seria muito útil. Já a Treinadora não fez falta. Tchau.
A segunda cena pós-crédito já entrega bastante. Dá a entender que os roteiros vazados tem algum fundo de verdade. Galactus vai destruir a realidade “retrô” do Quarteto, e eles irão saltar para a Terra 616.
Cidade dos Sonhos
4.1 1,8KLogo no começo temos três tramas que parecem ser histórias à parte: a desmemoriada Rita, o diretor Adam e a atriz iniciante Betty.
O tema do "protagonista em estado alterado" lembra um pouco o que seria feito depois com o Cooper na terceira temporada de Twin Peaks. Um aparente puro acaso guia a trama, mesmo existindo algum tipo grande de limitação.
A cena inicial da Betty
lembra o começo de Suspiria (a versão dos anos 1970), só que ensolarado. O casal de idosos tem um dos sorrisos mais aterrorizantes de toda a história. Posteriormente, ficaria comprovado que, na visão dela, tudo poderia ser um filme de terror. A Sra. Bonner foi um tipo de "Log Lady" (de Twin Peaks), de soltar uma informação profética. E, tal como a profetisa de Delfos, a mensagem tem mais de uma interpretação. A tal Coco também deu um aviso bem relevante, que pode ser entendido de maneira diferente depois que chegamos no final do filme. A Betty tinha duas opções: ou seguia ajudando a sua amiga até o final, ou a deixaria de lado. E foi exatamente o que ocorreria.
A ambientação do filme certamente mostra a opinião do diretor sobre como são os bastidores de Hollywood. E tenho para mim que isso se conecta com "Silencio" e com a performance "no hay banda". A indústria do espetáculo seria desumanizada, uma ilusão. Uma cena que mostra um pouco dessa dualidade é quando o diretor está observando uma das atrizes que foram fazer o teste. Dentro do cenário, tudo é colorido, no estilo anos 60. A câmera se afasta, e mostra os tons cinzas e mortos do estúdio. A "caixa colorida" está apenas dentro do cenário que é gravado.
O momento nevrálgico do filme
é o teste das atrizes. O diretor Adam tem uma bifurcação, conforme conversa com o bizarro Cowboy: ou ele aceita a moça indicada, ou não aceita. Já a atriz Betty também se viu em um tipo particular de encruzilhada: ou ela fazia o teste, ou ela ajudava a amiga Rita, conforme combinado. As duas escolhas estão entrelaçadas, e parecem dar uma dica sobre como a realidade desse filme atua. Pode ser um tipo de realidade determinística, que impede alterações temporais drásticas. Do tipo "apenas uma atriz". Pensei também também que pode ser um tipo de circuito fechado, como um tipo de purgatório. Onde o trio estaria preso por suas escolhas feitas há muito tempo atrás, sem opção para escapar. Ou há a terceira opção de serem dois "mundos" que conversam entre si. Um tem Betty/Rita e outro tem Diane/Camilla. Esse último cenário lembra mais o que pode ter ocorrido no final de Twin Peaks.
Assim
como "Lost Highway", esse filme tem também um momento "WTF". Só que antes foi logo no começo, e agora foi mais para o final.
Esse é um dos filmes do Lynch mais “Lynchianos”, por assim dizer.
Uma História Real
4.2 310David Lynch fez uma coisa incrível nesse filme. O título é um trocadilho com o sobrenome do protagonista, e pode significar também que é uma história direta. E é o que ocorre, pois tem uma duração relativamente curta, e segue a estrutura de "road movie".
Em poucos minutos, já conhecemos o básico do protagonista. O suficiente para ligarmos para esse tal trajeto longo de um velho teimoso. A composição das cenas rurais do interior dos EUA são espetaculares. Em cada ponto da parada conhecemos os locais, e também vemos o Alvin se abrir mais para o público. Nesse aspecto, o trabalho de seleção dos pontos ficou superior ao que fizeram em "Na Natureza Selvagem", onde cada tipo de figurante representava um aspecto da família do protagonista. Já em "Straight Story", as peças não são tão simplificadas. Aparenta ser alguém que poderia ter existido. Foi só na hora que eu vi os créditos que eu notei que tratava-se de uma história real. O mérito então foi de adaptar algo real de uma maneira quase fabulosa. A premissa, por si só, parece ter saído de um sonho profundo do Lynch.
Esse filme é um tipo de versão invertida do filme "Elephant Man", ao menos na característica do protagonista reagir e interpretar o mundo em que ele vive. Curioso notar também como Lynch, aos 53 anos, fez um dos melhores filmes que abordam a reta final da vida.
Angelo Badalamenti fez uma trilha sonora soberba, um complemento perfeito para as imagens do filme.
Estrada Perdida
4.0 508 Assista AgoraHá uma distinção clara entre os roteiros que o David Lynch adaptou e aqueles que ele criou do zero. Esse filme é um claro exemplo do segundo item.
O começo com
Fred e Renee me lembrou Dom Casmurro, pois temos um tipo de narrador não confiável, e claramente muitas informações estão ausentes. Imagino que Machado de Assis faria um tipo de filme igual esse começo, se tivesse nascido em outra época e em outro local. A trama é contada de maneira hábil pelo meio visual.
Já tendo visto Twin Peaks, a tentação de imaginar um "lore extendido" para esse filme é grande. Vendo sob esse prisma,
o Fred seria um tipo de pessoa possuída por um "Bob", vindo diretamente de um "black lodge".
Aí o filme inteiro muda. Parece que emendaram um filme completamente diferente. Esqueça Fred. Agora a história é com o Pete. Esse personagem poderia ser visto como um tipo de James da segunda temporada de Twin Peaks. Parece que todo aquele "filler" do seriado, totalmente desconectado com o resto da trama, ressoa de alguma maneira na trama desse jovem mecânico. Que se envolve numa trama de talaricagem com a esposa de um cara muito perigoso. Nos dois casos, o pretexto foi arrumar um carro defeituoso. O desfecho também tem uma diferença substancial.
Pouco a pouco, vemos os paralelos entre a trama inicial do Fred e a trama atual do Pete. Ambos são bons de ouvido, só que com aplicações distintas. Um era músico e o outro é mecânico, que consegue diagnosticar um carro apenas ouvindo-o rodando na estrada. Dá para notar também que agora estamos com o ponto de vista do "Ricardão", aquele que ri da cara do perigo. Para complicar mais ainda as coisas, o Pete atua na melhor linha "vou te tirar dessa vida".
As duas "realidades" vão se entrelaçando, e vemos uma simetria das duas tramas. O personagem que eu julguei inicialmente ser um tipo de "Bob" tem realmente um aspecto diabólico. Um tipo moderno de Mefistófeles. A figura do chefe criminoso implacável é uma ampliação do que já vimos em "Blue Velvet".
O aspecto cronológico me pareceu embaralhado. Segue a mesma "lógica" do mundo das cortinas vermelhas de Twin Peaks. Baseado na cena final, compreendi que os personagens estão presos em um "looping temporal", com Pete originando Fred e vice-versa.
A trilha sonora é fantástica. Misturam o rock industrial do Hammstein com cantos aterrorizantes cantados em alemão. E tem também bandas cuja atmosfera geral combina com esses mundos apresentados. Marilyn Manson, Smashing Pumpkins, Nine Inch Nails e mais alguns outros. E, para completar, tem ainda o Angelo Badalamenti completando as lacunas com trilhas diversas.
Conclave
3.9 831 Assista AgoraEstá longe de ser um documentário hiper realista de algum conclave específico. Mas mostra algumas características tradicionais desse processo de reunião de cardeais do mundo inteiro. Encarando como uma trama ficcional, é possível se divertir bastante na maior parte do filme. Há o fator “ticking clock”, da urgência temporal do isolamento durante as votações. Há também as reviravoltas nas eleições, com diversas informações que podem recontextualizar toda uma trajetória da pessoa.
O lado do italiano estereotipado é retratado de maneira a gerar a antipatia da maioria dos espectadores do filme. Ao menos essa é a intenção do roteirista.
O
papa morto tem uma aparência que é um misto do papa João XXIII com o Bento XVI. Na trama, se comporta como um tipo de Hari Sheldon da saga Fundação, com uma capacidade sobre-humana para prever quase todas as possibilidades do futuro.
O
personagem misterioso, o tal outsider, tem algumas características relevantes para a trama. Aí, por meio do discurso mágico, ele vira a eleição, e se torna um papa. A reta final mostra a versão que o roteiro considera correta e apropriada: abandonar o poder; Esqueça o passado, mate-o se for necessário; Reimaginar uma religião para as “audiências modernas”.
LEGO Batman: O Filme
3.9 390 Assista AgoraIncrivelmente, esse é um dos melhores filmes do Homem-Morcego. Ele tem foco óbvio no público infantil, mas possui uma trama bem amarrada e desenvolvida. Tem base na mitologia essencial do Cavaleiro das Trevas. Bruce tem o seu trauma ligado com a família, e acabou compensando isso nas HQs criando uma família adotiva. Fala que gosta de trabalhar sozinho, mas atuou com os Renegados, com a Corporação Batman, com a Liga da Justiça e mais alguns outros grupos. Bruce Wayne começa a trama como um adulto que não teve infância, e acabou confrontando o seu pior adversário: o seu maior medo. Algo que nem mesmo o Espantalho foi capaz de despertar. Lembrou a trama de Brave and the Bold #197, que envolvia o Batman da Terra-2 e Selina Kyle. Só que na animação Lego envolve a sua família inteira.
A motivação do Coringa lembra um pouco o arco "Morte da Família", onde o vilão agiu baseado no ciúme que ele sentia pelo Batman.
Há um uso de elementos da cultura pop do universo do Batman. Felizmente a trama principal não depende disso para ter a sua utilidade.
Coração Selvagem
3.7 355O filme lembra uma versão muito alternativa de “O Mágico de Oz”, só que com o filtro do Lynch.
Troca a cor esmeralda original pela cor rubra, e pelo fogo. Tem um aspecto violento, sombrio e ligeiramente pessimista. Parte da ambientação ressoa com a terceira temporada de Twin Peaks.
O símbolo da estrada de tijolos amarelos foi trocado pelo amarelo das faixas nas estradas interestaduais. A bruxa má ganhou características de “rainha/madrasta má”, e a bruxa boa é uma variação da Woman in the Radiator, interpretada pela futura Laura Palmer.
Como uma boa parte dos filmes do diretor, a sequência crua, agressiva e áspera termina com um final que tem certo tom positivo. Como é adaptado a partir de um livro, é também um dos filmes mais estruturados, tendo a criatividade de fazer algumas cenas oníricas, mas mantendo uma estrutura de “road movie”.
Twin Peaks (3ª Temporada)
4.4 623 Assista AgoraEssa temporada funciona quase como uma produção à parte. É uma lição prática de como continuar uma obra sem apelar constantemente para os "memberberrys" e nostalgia barata. O caminho mais fácil seria imaginar que cada personagem se manteve exatamente igual em décadas: mesma profissão, mesmo dilema e até mesmo traje. Nessa continuação,
vemos que diversos personagens seguiram com suas vidas fictícias e estão em uma situação anterior.
Audrey Horne, por exemplo, teve uma espiral descendente, e está quase na exata situação oposta do seu sonho de adolescência. Bobby Briggs também passou por uma mudança moral, deixando de ser um traficante de baixa hierarquia para ser um xerife. Mostrou de que maneira a visão do Major Briggs se realizou. As cenas da personagem Margaret Lanterman são muito significativas quando descobrimos como a atriz estava durante as gravações.
Para cada coisa explicada sobre o "lore" de Twin Peaks, diversas outras dúvidas aparecem. O objetivo dos criadores da série não é finalizar completamente a experiência, pois a vida sempre tem possibilidades. Há uma necessidade de rever tudo, pois assim algumas informações se tornam mais claras.
O Cooper seguiu uma versão reimaginada de "Um Morto Muito Louco", só que com um protagonista altamente Zen, só que ainda não totalmente "desperto". O que começa como uma comédia surreal termina de maneira tenra e "wholesome".
A cena do "Cooper maligno" recusando café é um dos "payoff" mais longos de todos os tempos. Cooper nunca recusa café.
O penúltimo episódio parece ser uma conclusão. Contrasta com o último episódio da segunda temporada, que parece um penúltimo episódio. A conclusão do seriado vai para um caminho completamente inesperado. Tem muitos símbolos, e dá a impressão de ser solucionável, caso se preste mais atenção numa segunda visualização.
Twin Peaks: Os Últimos Dias de Laura Palmer
3.9 299 Assista AgoraO filme é muito mais sombrio que o seriado. Como é uma prequela, já sabemos o horror que está à frente. Mas ver isso realizado na tela é agoniante. Ver o seriado antes do filme ajuda a dar um contexto maior para a história, pois deixa claro algumas situações que são apenas subentendidas ou ambíguas.
A noção
da Laura atuando voluntariamente nesse mundo sombrio, pois assim a cidade será salva, é bem relevante ao se ver esse filme. Se ela apenas fugisse, o mal na forma do “Bob” a pegaria eventualmente, e a cidade se tornaria asquerosa e detestável.
Um tema profundo explorado é o da violência contínua, sob a vista de todos. Uma existência contaminada por anos e anos a fio, mesmo no lar, ambiente que deveria ser inseguro.
Mesmo sendo uma prequela, o filme é uma continuação do seriado.
Pois, no mundo da “sala vermelha”, o tempo não é linear. É dito que o agente Cooper bom ainda está preso na “black lodge”, e o agente Cooper maligno está solto no mundo ordinário.
O final também segue o estilo David Lynch: a trama é sufocante, aterrorizante e agoniante. Mas o tom final sempre é otimista e catártico. Ela sorrindo em um plano azul passa a mensagem claramente. A moça de branco lembra a “Woman in the Radiator” do filme Eraserhead. Os finais ressoam nesse sentido.
Ruptura (2ª Temporada)
4.1 350 Assista AgoraDeram uma “esticada” na trama. Era possível chegar nesse mesmo “status quo” com meia temporada. Me passa a impressão que estão soltando o mistério à conta-gotas, para que renda mais temporadas no total.
Estava meio claro que a trama se
encaminhou para um triângulo amoroso envolvendo “innies” e “outies”. E, mais pra frente, aponta para um caminho de unificação e conciliação. Eu até imaginava que iria ter mais mistérios “mind blowing”, como por exemplo os gerentes terem um tipo especial de ruptura.
Espero que a série não se torne um “Lost moderno”, focado apenas nas infinitas “mystery boxes”. A parte interessante é o dilema dos “dois mundos”, aparentemente irreconciliável, e também o reflexo disso para quem tem um emprego ordinário, de segunda à sexta, das 8 às 17.
Twin Peaks (1ª Temporada)
4.5 549 Assista AgoraO seriado tem uma casca de novela clássica, com dramalhões românticos e triângulos amorosos. Tem referências claras na novela fictícia que passa na TV, sendo uma versão caricata e esdrúxula do que é feito habitualmente. Mas tem também um esmero na maneira como cada personagem foi criado. Já no primeiro episódio temos uma noção geral de cada um deles, mesmo que tenham aparecido por pouco tempo. A trama avança um tanto, e notamos que existem muitos segredos na pacata cidade. Aí, quando imaginamos já saber mais ou menos o cenário completo, descobrimos outros segredos mais profundos. O mais curioso é notar que o mistério sobre a morte da Lara Palmer é o menos relevante. O mais divertido é ver os personagens apenas existindo.
Os detalhes são memoráveis.
Como por exemplo ver a Lucy Moran muito irritada exigindo que alguém saia da delegacia. Mas tomando o cuidado de avisar que a segunda porta pode emperrar um pouco. O próprio protagonista é repleto de pequenas características. É um detetive zen, que tem um juramento quase religioso de seguir o FBI.
Aí, vez ou outra, uma trama altamente etérea aparece, e tem relação direta com o mistério do assassinato. Muitas cenas partem para o irreal e o onírico. Até mesmo o fluxo temporal parece perder o sentido, pois Laura Palmer viaja para o futuro (na visão dela) para conversar com o policial na sala vermelha. Já para Dale, é tanto o passado quanto o futuro, pois ele recebe informações para a resolução do caso. Solucione o sonho, solucione o caso.
Dá para notar muitas características do próprio David Lynch em alguns personagens. Todos, por exemplo, amam café. É bem provável que o agente Cooper pratique a meditação transcendental e por aí vai.
Até agora, Twin Peaks foi uma das melhores coisas que o diretor fez. Não é à toa que é uma das mais referenciadas nos vídeos de homenagem ao artista, falecido recentemente.
Ruptura (1ª Temporada)
4.5 876 Assista AgoraO tema da série parece ser a busca humana pela conexão. Uma alegoria não tão sutil da década atual.
Os Gerentes agem como seres robóticos, como se fossem figurantes no Show de Truman. Já os funcionários do nível mais baixo atuam como crianças ou pré-adolescentes. Isso ajuda no clima de ver o ambiente de trabalho contemporâneo como sendo uma "creche para adultos imaturos". As "crianças" chegam em horários parecidos, fazem atividades com os "tios", e depois de algumas horas se vão. Só falta a "hora da soneca".
O tal
manual corporativo atua como uma religião vazia e falsa. Soa vagamente místico, mas não há uma grande profundidade. O mito do fundador é uma versão moderna do culto ao Ford, com operários em escritórios. Algo na linha "Admirável Mundo Novo", só que mais exagerado. A impressão é que a maior parte das frases são oriundas de discussões de um comitê corporativo, no melhor estilo de planejamento centralizado soviético.
O
livro é uma auto-ajuda barata, vazia e com frases batidas. Cujo autor é bem egoísta. É uma referência nada discreta ao movimento de auto-ajuda e de livros com palavrão no nome. E também dos "coaches" que brotam nas redes sociais. Faz muito sentido que ele tenha se tornado um sucesso ao ser lido pelas mentes iniciantes dos internos.
A gerente passa a impressão de jogar um jogo dentro de um jogo. Tem uma agenda divergente do tal "conselho". Ela parece também querer se libertar, usando seus subordinados. O altar que ela possui indica que ela foi algum tipo de pioneira da ruptura. A impressão dada é que a tal empresa no passado era um culto religioso maluco. A minha teoria (feita no meio da primeira temporada) é que os gerentes também têm outro nível de ruptura.
Veludo Azul
3.9 819 Assista AgoraUm filme bem mais aberto a distintas interpretações do que Eraserhead e Elephant Man. É sobre um jovem idealista que tem um pequeno contato sobre o que é a vida real. Tem um tipo de jornada espiritual muito surreal com base em um início que, por si só, é intrigante:
uma orelha foi encontrada. Que é um órgão ligado com a audição. Que tem conexão com a música que foi cantada pela moça, a tal Blue Velvet. A cor usada no tal pedaço de pano, um azul forte, tem certa relação com a melancolia, com algo sombrio.
A
dualidade também é bem trabalhada de diversas maneiras. Tem duas moças que atraem a atenção do protagonista, de maneiras distintas. Há a oposição entre o que está em sigilo e o que é de conhecimento de todos. Entre estar vestido e estar desnudo. Cada uma das mulheres tinha também um outro interesse amoroso anterior. Um dos policiais tinha um papel duplo: ora era o delegado conhecido, e ora era o agente dos mafiosos perigosos. O jardim, tão belo e aparentemente inocente, foi o cenário do acidente bizarro do pai do protagonista. A cidade interiorana, tão calma e pacífica, ocultava um submundo sombrio, violento e impiedoso.
Simbolicamente,
é como uma jornada em seu início. A figura "ingênua" do ego perambula, encontra Anima, se depara com a própria Sombra, e sai vitorioso
Capitão América: Admirável Mundo Novo
2.7 386 Assista AgoraA grande ironia desse filme é que tanto o lado defensor quanto o lado crítico do Sam Wilson não compreenderam os motivos dele ter sido escolhido como sucessor.
Achei um pouco estranha a abordagem escolhida para o filme. Há um foco excessivo no soro, no escudo, nas asas, no capacete, no cargo, na hierarquia e nos poderes em geral. E o debate polarizado tem se focado nisso.
Eu li algumas HQs e vi os filmes do Capitão América Steve Rogers. A cena que o define para mim é quando ele se joga na frente da granada. E isso independe do soro mágico. A grande característica dele é ser abnegado, e nunca desistir de lutar pelo certo. Tanto é que vez ou outra ele perde o direito de usar o escudo e o traje. Ou também perde os seus poderes. Mas ele continua prosseguindo e atuando.
Steve, ao notar o fim de seu ciclo, pensou profundamente no seu sucessor. Sam Wilson, mesmo sem ter poderes, atuou lado a lado em combates épicos. E também nunca desiste de fazer o que é o certo. Mesmo sendo, teoricamente, apenas o "cara que voa". Mesmo não tendo sido explicitada, a escolha é deduzível com base nesse contexto.
Eu imaginei que esse filme do Capitão América começaria com Sam se sentindo inadequado. E, por conta dos desafios do filme, notaria que, mesmo sem poderes, ele é um herói. E também notaria os pontos em comum que ele tem com Rogers. Os adversários refletiriam esses aspectos de "foco em mantos", e possivelmente haveria um terceiro ato onde Sam Wilson teria de sair de uma situação difícil sem o uso do escudo, sem o uso das asas e tudo mais. Um momento definidor de personalidade.
O filme não é horrível, mas está muito abaixo do padrão MCU da década anterior. É algo que infelizmente não será memorável por sua neutralidade.
O Homem Elefante
4.4 1,0KDavid Lynch, em seu segundo filme, faz um trabalho espetacular. Dessa vez é mais fincado na realidade. Tem, contudo, um tom constante de desajuste do indivíduo perante a sociedade. Toca em questões como aceitação dos outros, aceitação de si mesmo, e a clássica distinção entre como nos vemos interiormente e como a sociedade nos vê.
A Inglaterra Vitoriana é a sociedade do caso real, e serve como moldura dessa trama. Pode ser vista como uma crítica direta aos modos daquela sociedade, sempre tida como recatada, contida e aderente às normas. Mas tendo a ver o contexto mais amplo. Sobre uma formação psicológica de um ego recente, e sua reação emocionada ante o que ele nota como "os outros", ou seja, tudo aquilo que não é ele.
O tema central também é sobre apego, sobre vulnerabilidade, conexões entre as pessoas e aceitação de si mesmo.
Há uma contextualização das diferentes maneiras de exploração de Merrick. E as camadas sociais da sociedade foram usadas para isso.
O nível mais cru é o antigo "freak show", de cobrar umas moedas para vê-lo. O nível mais "civilizado" seria a validação social, de validá-lo para obter validação dentre seus superiores na hierarquia social da época. No começo, o próprio Dr. Treves pensou se as motivações dele eram meramente para obter validação social entre seus colegas acadêmicos.
O
quadro da criança dormindo foi uma excelente Arma de Chekhov. Na hora, pensei "o Homem Elefante nunca deve ter tido um sonho. Quando ele ter, será o mais belo e celestial sonho já existente". A parte final do filme faz uma escalada, e é quase um sonho desperto. A magia do teatro, os aplausos, e uma noite que nunca seria esquecida. Para coroar tudo isso, a "arma" é disparada. Assim como em "Eraserhead", o filme aparenta ser apenas tragédia, e o final é etéreo e otimista.
Eraserhead
3.8 955 Assista AgoraDavid Lynch foi uma voz autoral bem forte no cinema. Estreou com um filme bem fora do padrão. Nem todos os pedaços dele possuem explicação clara e determinística. Cada pessoa tem o direito de projetar alguma interpretação particular sobre o que viu.
Para mim,
a “garota do radiador” parece um aspecto de sua própria criança que ansiava pela liberação. Como se, ao crescer, o bebê se tornaria ela.
Eu também vi
um paralelo entre o frango sendo cortado na cena do “jantar constrangedor” com a cena final do bebê sem as bandagens. Nos dois casos, o Henry foi o responsável pelo ato.
Uma cena misteriosa
é a que provavelmente dá nome ao filme. Henry, em um provável cenário onírico, “perde a cabeça”, e ela acaba sendo a fonte para a borracha "apagadora" que fica na ponta dos lápis. A borracha acaba vindo no sentido de apagar os rabiscos de um papel, podendo representar o potencial (negativo e positivo) do bebê.
Tanto na cena de
“perder a cabeça” quanto ao encontrar a “moça bonita do corredor” Henry aparece com a cabeça do bebê. Isso pode ser um tipo de obsessão mental. Ela, ao olhá-lo, o rejeita, pois vê apenas o bebê. E ele, por sua vez, não consegue pensar em mais nada. A sua mente é dominada pela condição retratada em boa parte do filme.
O filme mostra um estado quase perpétuo de ansiedade, e da sensação de enclausuramento que ocorre em decorrência disso.