Tantas camadas e tantos temas. Um filme rico demais. Conseguiu uma proeza meio paradoxal de dialogar tanto com a ficção científica quanto com o cinema-verdade. É um filme de realismo intenso , de personagens muito verossímeis, mas ao mesmo tempo de extra-ordinário (embora possível) que invade a tela (do nada uma pegadinha, ida pra Marte sem volta...).
O bom equilíbrio entre os diversos personagens, todos bem desenvolvidos ao longo do filme, permite essa abordagem habilidosa dos vários temas. E é interessante que o personagem mais calado, o Deivinho, é o que dá o mote que funciona como fio condutor das várias histórias. A busca desse pequeno Galileu moderno periférico, em que se confunde a realização de um sonho, a perseguição de uma paixão e a saída/mudança da sua realidade, funciona como uma metáfora poética para a busca de todos os personagens pela superação da distância entre mundos (que em todos os outros casos, são mundos socialmente separados). É essa busca, e os caminhos que o Deivinho adota nela, que o coloca em conflito com seu pai, que tinha outros caminhos planejados. É um filme sobre caminhos possíveis para uma família negra periférica, e a importância da união pra conseguir trilhá-los.
Os dois primeiros terços são realmente bons, bons diálogos, uma montagem com uma cortes e repetições doidas que dizem muito. Daí no último terço fica bobo, perde o foco nos dilemas interessantes que tinha construído e vira um pastelão meio "um casamento muito louco", com um final fraco.
Meio uma Medeia, desconstruída, história real, muito carioca. Só que nesse caso a tragédia é contada em tom de comédia. Bem construído e envolvente até, com uma guinada surpreendente. Sei lá, uma Medeia meio Nelson Rodrigues.
Roteiro bem complexo, me passou uma rasteira algumas vezes, conseguiu me enganar. Interessante pra isso o recurso de reiterado de mostrar flashes/cenas, e depois voltar a contar a história delas. Câmera muito habilidosa, se mexendo rápido, fazendo enquadramentos próximos e pouco usuais. Nessa opção de roteiro complexo se perdeu umas 2 vezes, com elementos que não faziam sentido (como assim tirar o cara escondido da prisão? Ele ia ficar foragido o resto da vida? Pq a senhora foi com o filho até o presídio? Não faz sentido). Mas ainda assim, não deixa de ser um bom filme. E muito legal ver no cinema lugares que não costumam ser retratados na telona.
Faz bem a coisa de deixar ambíguo se está ou não falando do sobrenatural. Mas no fundo é só um filme de gênero que não trata de temas muito interessantes (ou não aproxima neles). As atuações fracas e o final mal construído também não contribuem.
Bom trabalho de humanização de homens muito poderosos. Acho que muitos filmes que se passam nesse universo não conseguem fazer isso. Pelo menos não tanto, não desse jeito. E uma vibe muito a Grande Beleza, parece que o Paolo Sorrentino tá muito nisso mesmo de reflexão sobre grandes questões mais para o final da vida. Um certo de excesso de narrativa heroica, acho que seria mais interessante se o protagonista fosse menos virtuoso. Mas a gente perdoa por rodos os outros méritos do filme.
Carai, que pedrada Fassbinder. É muito cativante como a gente não sabe até onde vai a ingenuidade e onde começa a coragem na protagonista. A estrutura em duas partes da narrativa também funciona muito bem: primeiro, apresenta o problema de forma bem caricata, quase boa. Depois, faz uma guinada no andamento, com uma dose de surrealismo, e complexifica bastante o argumento, levantando várias questões novas.
Uma câmera bem criativa. Tem uma estética meio filme exaltação, com um monte de takes dos prédios altos vistos de baixo, dando sensação de imponência, e planos abertos nas fábricas, dando noção da dimensão delas. Mas essa estética é usada com ironia, o que dá uma sensação bem ambígua. Como é ambíguo também o protagonista, que até podia gerar compaixão pelo qual desiludido que ele tá, mas é uma pessoa tão insuportável que não rola.
Uma coisa meio Aki Kaurismäki. O amor no proletariado. O amor nos tempos do tédio. O amor impossível nesses países frios. Um Kaurismäki com mais palavras e colocando uma personagem forte no lugar daqueles personagens apáticos.
Foi a representação no cinema de mania/ surto mais impressionante que já vi. Pra quem já conviveu com alguém passando por isso, chega a ser tocante. Claro que incomoda um filme que a única mulher com papel relevante é a doida, pelo estereótipo de gênero. Claro que incomoda ver o grau de naturalidade/ aceitação social nas agressões contra a mulher (que é certamente muito presente hoje, mas que nesse filme me parece ter a cara de outro momento). Há coisas a se pensar no filme, mas há também momentos de muita humanidade (a castarse no jantar, em que o trabalhador surpreende com canto lírico por exemplo), e uma construção bem feita de personagens que de certa forma coletiviza/ socializa a loucura.
O toppy é fazer um antagonismo não óbvio. Não é herói X bandido. É dois escrotos se degladiando. Uma pseudoprogressista capitalista milionária e um pobre reaça extremista. É uma composição interessante.
O paia foi sequências muito longas de papo chato. Tipo, já entendi quem são os personagens, não precisa me submeter a tão longos minutos ouvindo papo reacionário alucinado de um lado e papo coach do outro.
A criança é provavelmente o personagem mais interessante e bem construído. Alguns esteriótipos batidos nos outros enfraquecem (a mulher da frágil da voz fina, o homem misterioso). Olhando pro conjunto da obra do Wim Wenders, mostra como ele tem uma capacidade impressionante de retratar outros países/culturas.
O Gabriel Mascaro tem uma criatividade muito grande pra enredos/ideias originais, e uma versatilidade muito grande pra explorar universos estéticos muito diversos (vaqueiros, neopetencostais, Amazônia, etc).
É um bom filme, mas apesar disso fiquei com a impressão que não conseguiu explorar tudo que dava pra explorar com essa boa ideia aqui...
Forte e interessante. Constrói personagens complexos, gerando simpatia e antipatia ao mesmo tempo. Com isso consegue retratar o conflito de classe complexo como de fato é nas relações domésticas. A câmera na mão se movendo pela casa ajuda a transmitir a sensação de espaço privado, e até alguma claustrofobia.
Me pareceu retratar com a devida complexidade um período crítico da história do Chile, ser crítico, e ainda assim didático o suficiente pra quem não conhece muito da história do país. A desconstrução do genocida é deliciosa, retratado como um louco.
Linguagens e ritmos muito originais. Mostra coisas da China que não são comuns de serem retratadas, como favelas, protestos, rock pesado... Agoniante a mudez da protagonista. Estrutura poética interessante.
Que doideira. Inventou vários filmes e teatros e personagens, bons e ruins, meio bons e meio ruins, tudo dentro de um filme só. Vários graus de metalinguagem. Tanto vai e vem que a gente fica perdido que nem a cabeça dessa mulher
Uns plano-sequências bons demais. Que foi aquela cena da entrevista...
Pelo pouco que vi do Raul Ruiz, ele parece ser aficionado por policial/crime e coloca umas notas disso misturadas com os mais diversos gêneros e pra falar dos mais diversos temas.
Tem algo tipo uma inocência no cinema cubano, mas uma inocência que não é boba. Algo como uma inocência politizada. Talvez seja algum tipo de idealismo, sei que é bonito.
Marte Um
4.1 339 Assista AgoraTantas camadas e tantos temas. Um filme rico demais. Conseguiu uma proeza meio paradoxal de dialogar tanto com a ficção científica quanto com o cinema-verdade. É um filme de realismo intenso , de personagens muito verossímeis, mas ao mesmo tempo de extra-ordinário (embora possível) que invade a tela (do nada uma pegadinha, ida pra Marte sem volta...).
O bom equilíbrio entre os diversos personagens, todos bem desenvolvidos ao longo do filme, permite essa abordagem habilidosa dos vários temas. E é interessante que o personagem mais calado, o Deivinho, é o que dá o mote que funciona como fio condutor das várias histórias. A busca desse pequeno Galileu moderno periférico, em que se confunde a realização de um sonho, a perseguição de uma paixão e a saída/mudança da sua realidade, funciona como uma metáfora poética para a busca de todos os personagens pela superação da distância entre mundos (que em todos os outros casos, são mundos socialmente separados). É essa busca, e os caminhos que o Deivinho adota nela, que o coloca em conflito com seu pai, que tinha outros caminhos planejados. É um filme sobre caminhos possíveis para uma família negra periférica, e a importância da união pra conseguir trilhá-los.
A Noite do Espantalho
4.0 29Visualmente surpreendente e criativo, mas não me agrada tanto essa linha de excesso de folclorização do nordeste. E um tanto pedante talvez
O Drama
3.8 176Os dois primeiros terços são realmente bons, bons diálogos, uma montagem com uma cortes e repetições doidas que dizem muito. Daí no último terço fica bobo, perde o foco nos dilemas interessantes que tinha construído e vira um pastelão meio "um casamento muito louco", com um final fraco.
O Lobo Atrás da Porta
4.0 1,3K Assista AgoraMeio uma Medeia, desconstruída, história real, muito carioca. Só que nesse caso a tragédia é contada em tom de comédia. Bem construído e envolvente até, com uma guinada surpreendente. Sei lá, uma Medeia meio Nelson Rodrigues.
Cinco Tipos de Medo
3.8 12Roteiro bem complexo, me passou uma rasteira algumas vezes, conseguiu me enganar. Interessante pra isso o recurso de reiterado de mostrar flashes/cenas, e depois voltar a contar a história delas. Câmera muito habilidosa, se mexendo rápido, fazendo enquadramentos próximos e pouco usuais. Nessa opção de roteiro complexo se perdeu umas 2 vezes, com elementos que não faziam sentido (como assim tirar o cara escondido da prisão? Ele ia ficar foragido o resto da vida? Pq a senhora foi com o filho até o presídio? Não faz sentido). Mas ainda assim, não deixa de ser um bom filme. E muito legal ver no cinema lugares que não costumam ser retratados na telona.
Barba Ensopada de Sangue
3.1 12Faz bem a coisa de deixar ambíguo se está ou não falando do sobrenatural. Mas no fundo é só um filme de gênero que não trata de temas muito interessantes (ou não aproxima neles). As atuações fracas e o final mal construído também não contribuem.
A Graça
4.0 16 Assista AgoraBom trabalho de humanização de homens muito poderosos. Acho que muitos filmes que se passam nesse universo não conseguem fazer isso. Pelo menos não tanto, não desse jeito. E uma vibe muito a Grande Beleza, parece que o Paolo Sorrentino tá muito nisso mesmo de reflexão sobre grandes questões mais para o final da vida.
Um certo de excesso de narrativa heroica, acho que seria mais interessante se o protagonista fosse menos virtuoso. Mas a gente perdoa por rodos os outros méritos do filme.
O Medo Devora a Alma
4.3 114 Assista AgoraCarai, que pedrada Fassbinder.
É muito cativante como a gente não sabe até onde vai a ingenuidade e onde começa a coragem na protagonista. A estrutura em duas partes da narrativa também funciona muito bem: primeiro, apresenta o problema de forma bem caricata, quase boa. Depois, faz uma guinada no andamento, com uma dose de surrealismo, e complexifica bastante o argumento, levantando várias questões novas.
São Paulo Sociedade Anônima
4.2 209Uma câmera bem criativa. Tem uma estética meio filme exaltação, com um monte de takes dos prédios altos vistos de baixo, dando sensação de imponência, e planos abertos nas fábricas, dando noção da dimensão delas. Mas essa estética é usada com ironia, o que dá uma sensação bem ambígua. Como é ambíguo também o protagonista, que até podia gerar compaixão pelo qual desiludido que ele tá, mas é uma pessoa tão insuportável que não rola.
O espírito da TV
4.1 1Mais sincero que a maioria dos filmes de branco. E mais sofisticado também, em toda sua metalinguagem.
Blackbird Blackbird Blackberry
3.9 9 Assista AgoraUma coisa meio Aki Kaurismäki. O amor no proletariado. O amor nos tempos do tédio. O amor impossível nesses países frios. Um Kaurismäki com mais palavras e colocando uma personagem forte no lugar daqueles personagens apáticos.
Os Incompreendidos
4.4 658 Assista AgoraTem uma coisa meio teatro do Tchekov, de banhar de temas bem universais com um enredo muito simples.
Uma Mulher Sob Influência
4.3 167 Assista AgoraFoi a representação no cinema de mania/ surto mais impressionante que já vi. Pra quem já conviveu com alguém passando por isso, chega a ser tocante. Claro que incomoda um filme que a única mulher com papel relevante é a doida, pelo estereótipo de gênero. Claro que incomoda ver o grau de naturalidade/ aceitação social nas agressões contra a mulher (que é certamente muito presente hoje, mas que nesse filme me parece ter a cara de outro momento). Há coisas a se pensar no filme, mas há também momentos de muita humanidade (a castarse no jantar, em que o trabalhador surpreende com canto lírico por exemplo), e uma construção bem feita de personagens que de certa forma coletiviza/ socializa a loucura.
Bugonia
3.6 437 Assista AgoraO toppy é fazer um antagonismo não óbvio. Não é herói X bandido. É dois escrotos se degladiando. Uma pseudoprogressista capitalista milionária e um pobre reaça extremista. É uma composição interessante.
O paia foi sequências muito longas de papo chato. Tipo, já entendi quem são os personagens, não precisa me submeter a tão longos minutos ouvindo papo reacionário alucinado de um lado e papo coach do outro.
Ainda assim, belíssima sequência final.
Paris, Texas
4.3 757 Assista AgoraA criança é provavelmente o personagem mais interessante e bem construído. Alguns esteriótipos batidos nos outros enfraquecem (a mulher da frágil da voz fina, o homem misterioso).
Olhando pro conjunto da obra do Wim Wenders, mostra como ele tem uma capacidade impressionante de retratar outros países/culturas.
O Último Azul
3.7 218 Assista AgoraO Gabriel Mascaro tem uma criatividade muito grande pra enredos/ideias originais, e uma versatilidade muito grande pra explorar universos estéticos muito diversos (vaqueiros, neopetencostais, Amazônia, etc).
É um bom filme, mas apesar disso fiquei com a impressão que não conseguiu explorar tudo que dava pra explorar com essa boa ideia aqui...
A Criada
3.8 110 Assista AgoraForte e interessante. Constrói personagens complexos, gerando simpatia e antipatia ao mesmo tempo. Com isso consegue retratar o conflito de classe complexo como de fato é nas relações domésticas. A câmera na mão se movendo pela casa ajuda a transmitir a sensação de espaço privado, e até alguma claustrofobia.
Alma Corsária
4.0 38Às vezes bem despretensioso, às vezes bem pretensioso, mas muito inspirado. Combinação rara de filme doidão, divertido e manifesto ao mesmo tempo.
Os Colonos
3.8 50 Assista AgoraMe pareceu retratar com a devida complexidade um período crítico da história do Chile, ser crítico, e ainda assim didático o suficiente pra quem não conhece muito da história do país.
A desconstrução do genocida é deliciosa, retratado como um louco.
Levados Pelas Marés
3.6 15Linguagens e ritmos muito originais. Mostra coisas da China que não são comuns de serem retratadas, como favelas, protestos, rock pesado... Agoniante a mudez da protagonista. Estrutura poética interessante.
Historia y Geografía
3.8 2Que doideira. Inventou vários filmes e teatros e personagens, bons e ruins, meio bons e meio ruins, tudo dentro de um filme só. Vários graus de metalinguagem. Tanto vai e vem que a gente fica perdido que nem a cabeça dessa mulher
El realismo socialista
3.8 4Uns plano-sequências bons demais. Que foi aquela cena da entrevista...
Pelo pouco que vi do Raul Ruiz, ele parece ser aficionado por policial/crime e coloca umas notas disso misturadas com os mais diversos gêneros e pra falar dos mais diversos temas.
O Tango do Viúvo e seu Espelho Deformador
3.0 2Exercício de linguagem muito original.
E só.
Hello, Hemingway
3.9 3Tem algo tipo uma inocência no cinema cubano, mas uma inocência que não é boba. Algo como uma inocência politizada. Talvez seja algum tipo de idealismo, sei que é bonito.