(ÓBVIO que tem spoiler nessa resenha. Vá assistir ao filme antes de ficar lendo os comentários.)
Nós fãs de filmes de viagem no tempo estamos sempre carentes de boas produções do gênero. Seja do tipo clássico, seja de loop ou buracos intertemporais, parece nunca haver uma boa quantidade de produções com essa temática, e as poucas que são lançadas nem sempre valem à pena. Por isso, é uma grata surpresa receber o mais recente filme com essa temática: Caddo Lake.
Veja, se você gostou de Caddo Lake e é fã desse tipo de filme, pare AGORA MESMO de ler e vá assistir à série Dark, no netflix. (SÉRIO, só prossiga se vc já assistiu.) Não há dúvidas de que Dark é um marco na produção do gênero, com certeza em pé de igualdade com os grandes clássicos de viagem temporal (tão bom que transcende o próprio gênero e se torna mesmo uma das melhores séries já feitas, ficção científica ou não). Por isso, jamais poderia surpreender alguém que ela influenciasse outros filmes e séries. Na verdade, pelo contrário, o surpreendente é que não haja MAIS filmes e séries copiando a fórmula de Dark (eu mesmo, antes de Caddo Lake, só vi mais um, embora não diga o nome pra evitar spoilers, ¯\_(ツ)_/¯ ).
Caddo Lake, como mencionado e como é óbvio pra quem tenha assistido ambos, é maciçamente inspirado em Dark. Com efeito, num certo sentido, "inspirado" apenas é até eufemismo: pode-se dizer que Caddo Lake é basicamente uma cópia descarada de Dark, sem tirar nem pôr. Claro, nem de longe com a mesma complexidade, profundidade e qualidade do último, mas, ainda assim, e surpreendentemente, não deixa de ser um bom entretenimento. Dark é tão bom que seu fim nos deixou a todos órfãos, com um gostinho de quero-mais; por isso, em vez de detrair, a indiscutível semelhança da trama funciona a favor de Caddo Lake.
Na verdade, se copiasse Dark um pouquinho melhor e apostasse em se complexificar e aprofundar um pouco mais, o filme teria lucrado bastante. Óbvio que não precisava esticar por 3 temporadas inteiras como uma série, mas com uns 20 minutos ou meia hora a mais, explorando melhor e com mais tempo algumas relações e o impacto das mudanças temporais na vida dos personagens, Caddo Lake poderia ter se tornado mais que apenas um bom entretenimento, mas um verdadeiro clássico do gênero. Por exemplo, não deixa de ser decepcionante que não acompanhemos um pouco mais a vida de Anna, seja na sua adaptação ao passado, seja já crescida, na sua convivência com o filho, Paris. O próprio Paris também é sub-explorado e, a meu ver, o filme ganharia muito se o mostrasse reencontrando a mãe, mesmo que não conseguisse salvá-la. O final dele, na verdade, embora não seja ilógico, foi uma das coisas que mais me desapontaram, e eu preferia que ele, em vez de morrer daquela maneira triste, tivesse ficado preso numa outra época, seja num futuro bem além de 2022, seja mesmo no próprio ano de 1952, junto de sua mãe quando criança. Já imaginou o plot twist se a Ellie investigasse um pouco mais e descobrisse que o próprio Paris ajudou a terminar de construir a represa, enquanto acompanhava o crescimento de sua mãe? Seria uma boa forma de ele passar mais tempo com ela, após perdê-la daquela maneira tão trágica.
Enfim. Caddo Lake não traz nada de novo para o gênero e peca por sua falta de ambição e certa previsibilidade da trama, mas nem por isso deixa de ser um filme bacana. Ainda que tenha seus escorregões aqui e acolá, a boa edição, o roteiro amarradinho e o carisma e boa atuação dos protagonistas nos deixam vidrados do começo ao fim, torcendo por eles. Dylan O'Brien e Eliza Scanlen estão muito bem e carregam satisfatoriamente a trama. Mas eu gostei principalmente da pequena Caroline Falk, que faz a Anna criança, uma pena que ela não tenha tido mais tempo de tela. De toda forma, um filme que vale a pena ser visto, especialmente pra nós que estamos sempre carente de um bom filminho de viagem no tempo.
O design gráfico da animação é bem legal e o enredo mais geral, desde a prisão de Hades até sua fuga para tentar criar caos infinito no mundo também são bem interessantes. Por isso, dá até raiva constatar que esse filme poderia ter sido muito bom se não tivesse sido escrito por um monte de INCELS. Sim, um bando de incels machistas que não compreender o feminismo de fato e ficam aproveitando qualquer oportunidade pra enfiar uma mensagem de passamento de pano pro patriarcado. Por que a Perséfone traiu as Amazonas pra ficar com o Ares? "Ai, porque as mulheres preferem os bad boys, enquanto põem os 'nice guys' na 'friendzone'..." E aquele discurso patético dela após ser derrotada por Hipólita? "Não, porque nos foi negada uma vida de família e filhos..." Primeiro, que é muita canalhice colocar uma ideia estúpida dessa em destaque, fazendo crer que há algum "desejo inato" nas mulheres por família e filhos (o ideal pra elas na visão do patriarcado) tão forte que é maior que irmandade entre elas. Em segundo lugar, se for for uma tentativa de fazer uma crítica ao feminismo real, é uma crítica imbecil, porque o feminismo NUNCA pregou que as mulheres não devem ter família nem filhos, o que ele prega é que isso seja uma ESCOLHA, que esse destino não seja IMPOSTO às mulheres, como sempre foi na história da humanidade. Daí se tira o quanto de espantalho esse filme cria pra jogar seu veneno contra a luta das mulheres.
Mas é óbvio que essa ladainha incel masculinista não para por aí. O Steve é um mulherengo que trata as mulheres como meros objetos do seu prazer (e inclusive tenta EMBEBEDAR A MULHER-MARAVILHA PRA TRANSAR COM ELA), mas, claro, ele só faz isso porque alguma mulher malvada machucou seu pobre coração no passado... E aquele discurso dele no hospital, sobre como ele estava de "saco cheio" desse "papo sexista". Bicho, não tem uma só frase que sai da boca dele que não seja uma estupidez masculinista, a maioria passando pano pra todo crime do patriarcado contra as mulheres, ao mesmo tempo que tenta passar parte da culpa pras mulheres (no caso, as Amazonas). É simplesmente patético, e dificulta muito a apreciação do filme pra quem consegue facilmente enxergar essas táticas canalhas. Mas o pior, pra mim, foi eles terem colocado a MULHER-MARAVILHA pra ser salva pelo Steve, e daquela maneira tão absurda. Desde quando a Mulher-Maravilha precisa ser salva por alguém? Você pode vasculhar qualquer história de origem de qualquer super-herói masculino, você JAMAIS verá um deles ser salvo por alguma mulher, seja ela par romântico ou não. Mas os caras quiseram tanto diminuir a imagem da Mulher-Maravilha e das mulheres em geral que até esse absurdo eles meteram no filme.
E veja, antes que algum incel maluco venha me atribuir maluquices, não, eu não também não gosto desse ideal de "girlboss" que Hollywood tem nos empurrado goela abaixo. Eu detesto o que fizeram com a Rey nos SWs novos, a personificação da Mary Sue, e detesto boa parte do que a disney tem feito com as personagens femininas da Marvel, como She-Hulk, capitã Marvel, Lady Thor, etc. Mas não é por isso que devo fechar os olhos pra quando A MENSAGEM passada, embora oposta, é tão perigosa e nociva quanto estas últimas.
'O Banho do Diabo' não é um filme propriamente de terror, é um drama histórico contado com elementos cinematográficos de terror. Mas óbvio que isso não o torna menos aterrorizante; pelo contrário, é justamente por esse seu caráter chocantemente real (inclusive fielmente baseado na pesquisa histórica da professora Kathy Stuart) que o filme nos aterroriza, nos perturba e nos toca ainda mais. Aqui não é um alienígena ou demônio imaginários atormentando pessoas numa narrativa puramente ficcional; é a própria realidade de pessoas que de fato existiram que as leva ao limite da loucura e do desespero.
A mencionada pesquisa na qual o filme se baseia desnuda a prática do 'suicídio por procuração' [suicide by proxy]: uma tendência na Europa dos séc XVII e XVIII no qual a pessoa que queria se matar, para evitar a condenação eterna do suicídio, cometia um assassinato, pra que assim fosse condenada à morte. Incrivelmente, segundo o dogma cristão, o mais brutal assassino ainda tem chance de absolvição; mas o suicida, não.
Quem mais recorria a essa prática, compreensivelmente, eram as mulheres e, ao ver a história de Agnes, nossa trágica protagonista, fica fácil entender por quê. Vivendo sob os horrores de uma sociedade ultrapatriarcal e ultra-religiosa como aquela, onde a autonomia era praticamente nula e o mais ínfimo dos desvios já fazia de você um pária, as almas mais sensíveis e menos propensas à submissão total não tinham outro destino a não ser o do brutal sofrimento – e um sofrimento calado, silencioso, sem ter ninguém a quem recorrer ou pedir ajuda. E olha que Agnes nem tinha tantos "desvios" assim: além de colecionar insetos e ter uma relação um pouco mais lúdica e afetiva com a natureza, ela pactuava de todos os dogmas de sua comunidade. Inclusive, foi sua imensa vontade de ser mãe (quando não realizada), que precipitou sua depressão; e foi sua desmedida religiosidade que a lançou ao hediondo caminho do infanticídio.
A depressão, por sinal, é sem dúvida um dos mais importantes temas do filme. Boa parte do que há nele de mais assustador e mais propriamente de terror emana de testemunharmos a assustadora e pungente situação de um quadro de depressão numa sociedade como aquela, que não faz a menor ideia do que seja essa doença e no máximo a considera como "coisa do demônio". Agnes, e todas as pessoa na mesma circunstância, precisam lidar não apenas com a depressão, que já é terrível mesmo com toda ajuda possível, mas também com o desprezo, a repulsa, o preconceito e execração da sociedade, o que torna tudo infinitamente pior. Mesmo o tipo de "ajuda médica" proposta a princípio, antes do abandono, não passa de um método semidisfarçado de tortura, que funciona mais como punição do que cura.
Há quem reclame de que o filme seja muito lento, e é uma reclamação até válida para nossa época, tão viciada em estímulos ininterruptos. 'O Banho do Diabo', de fato, segue uma lógica mais contemplativa, e se demora longamente na construção e descrição do comportamento e da psiquê de sua protagonista, bem como do contexto social medieval do qual faz parte. No entanto, aqueles que sabiamente se entregam ao filme são presenteados com uma meia hora final simplesmente arrebatadora, onde a fenomenal atuação de Anja Plaschg – até aquele momento, mais sutil e minimalista – se revela em toda sua grandiosidade. Sério, pô, aquela cena da confissão na prisão, na minha opinião, sem dúvida já faz parte da história do cinema.
O filme termina com a cena do festejo pós-execução, que parece brilhantemente inverter o significado do título. Se, num primeiro momento, o 'banho do diabo' parece remeter ao nome que os aldeões dão à condição de Agnes, ao vislumbrarmos aquela grotesca celebração, praticamente um literal e genuíno banho de sangue (que, pasmem, é também totalmente baseado em fatos reais), entendemos que o verdadeiro banho do diabo, quem sofre, é aquela sociedade. Se há alguma patologia realmente diabólica no filme, é a ideologia e modo de vida daquelas pessoas. Nesse sentido, 'O Banho do Diabo', além das críticas infelizmente ainda bastante atuais que faz aos abusos do patriarcado e ao descaso com as pessoas depressivas, traz também uma mensagem bastante gnóstica, como que realmente legitimando que a decisão de Agnes de escapar daquele mundo essencialmente doente, incrivelmente, parece ser a mais sensata.
Depois que a história em si do filme já havia terminado e na tela se desenrolava apenas o epílogo com os destinos finais dos personagens, fiquei ali, com lágrimas escorrendo pelo rosto, enquanto remoía e repassava a beleza e a pungência do que acabara de assistir. Lágrimas de ódio, revolta e tristeza por ter acompanhado a forma como tantas vidas — em especial, a dos protagonistas — foram esmagadas e destruídas pelos crimes inenarráveis cometidos por um governo monstruoso e covarde. Crimes cometidos não apenas contra Fred Hampton ou Bill O’Neal, mas contra todos os panteras negras, contra toda uma raça, contra toda uma geração e um país.
Embora a trama do filme gire em torno da relação que lhe dá título, entre o "Judas" O’Neal e o "Messias Negro" Hampton, brilhantemente vividos por Kaluuya e LaKeith, me parece que aquilo que o longa busca retratar de fato não é exatamente essa relação, nem mesmo a tragédia bíblica em que ela desemboca, mas a forma obsessiva e perversa como o governo dos eua e a "América branca" se esforçaram por aniquilar não apenas os panteras negras, mas toda e qualquer forma legítima de organização e de luta - seja contra o racismo, a violência policial ou as brutais injustiças do sistema capitalista. É nesse sentido que digo que os crimes foram cometidos também contra Bill O’Neal: porque, apesar de sua atitude terrível e repugnante, no fim das contas, como Hampton, também ele foi apenas mais uma vítima do governo estadunidense. Assim como uns morrem asfixiados por um joelho no pescoço e outros são covardemente executados em sua própria casa, outros ainda têm as vidas destruídas para sempre ao serem usados como delatores de seus próprios irmãos.
Como já mencionado, LaKeith Stanfield brilha explorando a tragédia da situação de O’Neal, numa atuação tocante, e é cortante ver como seu personagem, aos poucos, vai se tornando consciente do horror de sua posição e de suas ações. Daniel Kaluuya, por sua vez, também não brilha menos, e na verdade o seu Hampton é o próprio coração do filme. Sua presença é magnética sempre que está em cena, em especial durante os vigorosos e apaixonados discursos, mas também nas cenas mais intimistas com sua companheira Deborah Johnson, vivida por Dominique Fishback. Aliás, os dois juntos protagonizam talvez a cena mais bonita do filme, em que Deborah lê a Hampton um poema que compôs sobre a situação de estar grávida no auge da luta (e mesmo agora ainda me emociono com o verso: "Talvez estejamos aqui para mais do que apenas guerra com estes corpos"). Fishback, que eu não conhecia, foi uma das surpresas mais agradáveis do filme, e sem dúvida merece no mínimo uma indicação à melhor atriz coadjuvante. Sua atuação sensível consegue ser uma contrapartida interessante ao "fogo" de Hampton.
Esse é um filme poderoso, sem medo de ser político e revolucionário, sem medo de desmascarar um establishment hipócrita e enganador, que esconde seus crimes e mentiras por trás de uma ideologia que inverte a realidade. Como mostra o filme, os verdadeiros terroristas não são os panteras negras ou aqueles que lutam por uma sociedade mais justa e igualitária; os verdadeiros terroristas são os governos racistas e canalhas, que cometem os crimes mais abjetos e desprezíveis pra manter a injustiça e a desigualdade em nossas sociedades.
Se você já assistiu a 'Cidadão Kane', me parece quase impossível não ver 'Mank' como o filme incrível e grandioso que é. A começar pelo mais óbvio: as atuações são fenomenais, de todo o elenco, e é fácil ver por que Gary Oldman e Amanda Seyfried estão colecionando indicações a prêmios. Além disso, o roteiro, meu amigo, é coisa de gênio, com diálogos nada menos que sensacionais, e é difícil crer que esse foi o primeiro e único roteiro escrito pelo pai do Fincher. De toda forma, nada mais justo que um roteiro genial pra contar a história de um roteirista genial. Por fim, mas não menos importante, a direção é brilhante, e não só pela belíssima filmagem em preto e branco, mas pela própria estrutura do filme, espelhando a narrativa não-linear de 'Kane', cheia de flashbacks que vão se sobrepondo a fim de esboçar uma ideia sobre quem foi a peculiar figura de Herman J. Mankiewicz. Aliás, pra mim, essa é uma das sacadas mais bacanas do filme: a maneira como ele foi conduzido e montado faz de 'Mank' uma espécie de 'Cidadão Kane' sobre o cara que ESCREVEU 'Cidadão Kane'. Que phoda.
Agora, o ponto mais alto do longa pra mim, sem dúvida, é sua riqueza temática. O filme toca em tantas questões, e de maneira tão significativa, que é até difícil enumerá-las, que dirá comentá-las todas. A partir das relações afetivas, empregatícias e aristocráticas de Mankiewicz, Fincher traça um retrato não só do espírito de seu protagonista, mas de sua própria época, passando pela situação política, o universo de esbanjamento e futilidade da alta sociedade e pelos bastidores mais podres de Hollywood. Em particular, esse aspecto foi o que mais me impressionou no longa, o da desconstrução do mito hollywoodiano. As pessoas dizendo que esse filme é uma homenagem a Hollywood, a meu ver, não entenderam nada. Pelo contrário, 'Mank' ataca em cheio essa visão idílica de Hollywood, repleta de mesquinharias e jogos políticos, mostrando como cinema e poder estiveram intrinsecamente entrelaçados desde o início - invariavelmente, como sempre, a favor dos interesses das elites. Fincher nos mostra quão facilmente a "fábrica de sonhos" se transforma em fábrica de mentiras, a serviço dos poderosos - não muito diferente do que fazem as fake news nos dias de hoje. É nesse cenário de desconstrução hollywoodiana que passeia Mankiewicz, apresentado como uma alma torturada, mas nunca vendida, um brilhante e mordaz escritor incapaz de se adequar a esse ambiente injusto, elitista e tóxico de Hollywood, e que vê na escrita do roteiro de 'Cidadão Kane' uma maneira de lidar com todos os demônios da sua vida frutos dessa inadequação. Em especial, uma maneira de lidar com sua relação assimétrica e contraditória com o poderoso William Randolph Hearst, o verdadeiro cidadão Kane - e que, embora tenha beneficiado Mank por algum tempo, tratava-o como um reles bobo-da-corte.
'Mank' é vários filmes em um. É tanto uma biografia quanto um drama de época, como também é um filme que usa o passado pra discutir questões atualíssimas do presente. No entanto, no fundo, talvez o âmago do filme seja esse duelo de davi e golias entre um cidadão comum e imperfeito, embora genial, esmagado pela realidade e pela estrutura de classes, e um dos homens mais poderosos de seu tempo. De certo modo, até pela fama e impacto de 'Cidadão Kane', parece que, nesse caso, Davi venceu Golias mais uma vez. Mas a que preço? Essa é a pergunta que 'Mank', com maestria e grandiosidade, nos provoca a responder.
Palm Springs é um filme perfeito naquilo que se propõe: uma comédia divertida e descompromissada, sem nenhuma pretensão além de fazer rir e proporcionar um saudável momento de descontração e desligamento da caótica realidade. Se você está procurando um filme cabeça ou com alguma crítica profunda da realidade, passe longe daqui; mas se você busca apenas uma pipoca honesta e 2h de diversão, então Palm Springs é a pedida certa.
Mesmo que a fórmula do loop temporal (que adoro desde que vi O Feitiço do Tempo pela primeira vez) já esteja ficando um pouco batida, esse filme conseguiu se sobressair e ser bastante interessante. Um dos fatores, claro, é a química entre o casal de protagonistas, absolutamente deliciosa, ambos tendo um carisma e simpatia incríveis, e que funciona ainda melhor quando estão juntos em cena (sem contar que foi bacana me dar conta, lá pelo meio do filme, de que "nossa, mas a Sarah é a Mãe de HIMYM!"). No entanto, a meu ver, o fator principal foi que esse filme conseguiu trazer um elemento novo em histórias desse tipo: em vez de apenas um personagem revivendo o mesmo dia, que é a praxe nesses filmes, dessa vez temos mais de um personagem preso no loop, e que interagem se lembrando dos acontecimentos passados. Essa pra mim foi uma sacada muito boa e muito original, definitivamente pondo Palm Springs como um dos melhores do gênero.
No mais, embora piegas e nem muito profunda ou elaborada, também achei bem bonitinha a mensagem final do filme, de que o amor ainda pode ser uma resposta ao niilismo. De fato, nesse mundo que não raro parece tão sem sentido, e que muitas vezes, presos que estamos na rotina e em empregos mecânicos e enfadonhos, parece tão repetitivo quanto num loop temporal, não é tão difícil assim cair num niilismo semelhante ao do Nyles. Pra ele, ao menos no começo do filme, absolutamente nada tem valor e somente a busca desenfreada por prazer pode trazer um pouco de paz enquanto aguardamos o fim. Contudo, ao longo do filme, tanto ele quanto a Sarah vão percebendo que, sim, talvez nada faça sentido mesmo - mas compartilhar o vazio de sentido do mundo com outra pessoa, que sente esse vazio tão opressivamente quanto nós, paradoxalmente, pode preencher os corações com algum significado. E essa ideia, mesmo pra nossa geração tão cínica, ainda tem um apelo bastante tocante.
Esse filme tinha um potencial gigantesco pra ser fantástico, mas infelizmente acabou se tornando apenas um esquecível e fraquíssimo passatempo.
Apenas duas coisas se salvam nele. Em primeiro lugar, óbvio, a Elisabeth Moss. Como sempre, gigante na atuação e construção de sua personagem. A maneira como ela consegue passar a fragilidade, o isolamento e o desespero da mulher que viveu e tenta se recuperar de um relacionamento abusivo é nada menos que brilhante. Em segundo lugar, também foi realmente muito boa a sacada de usar a história do homem-invisível como metáfora para relacionamentos abusivos, uma vez que ser a vítima de um perseguidor e abusador INVISÍVEL realça didaticamente todo o aspecto "invisível" desse tipo de abuso na vida real, onde tudo o que uma mulher tem é sua palavra, sempre posta em dúvida, pra tentar expor uma violência "invisibilizada" para os outros, posto que geralmente ocorre apenas na intimidade do casal, não sendo VISTA pelas outras pessoas.
É uma pena que, mesmo com esses dois trunfos na manga, o filme tenha fracassado monumentalmente em ser a boa história de suspense que poderia ter sido. O principal responsável por isso foi o roteiro absolutamente PREGUIÇOSO em que ele se baseia, cheio de furos ou de escolhas inverossímeis dos personagens. Claro que há uma boa dose de subjetividade nisso que vou dizer - pois outros espectadores podem simplesmente não se importar -, mas considero inaceitável, em plena década de 20 do séc. XXI, que o cinema mainstream ainda tente sustentar um filme inteiramente na completa ESTUPIDEZ de seus personagens. O tempo todo cada um dos personagens, da protagonista ao vilão, toma uma decisão mais imbecil que a outra. Isso é um problema terrível, pois, a cada vez que isso ocorre, você se afasta mais e mais da história e fica cada vez mais difícil manter a suspensão da descrença. Por exemplo, a primeira delas, e das que mais me incomodou no filme inteiro, foi a cena em que a Cecilia descobre o celular do ex no sótão da casa. Pelo amor de todos os deuses, POR QUE ESTA MULHER NÃO GUARDOU ESSE CELULAR CONSIGO??? Que coisa melhor pra provar que VOCÊ NÃO ESTÁ LOUCA ao afirmar que está sendo atacada por UM HOMEM INVISÍVEL QUE ESTÁ MORTO do que encontrar o celular do morto no sótão da sua casa, ainda mais CHEIO DE FOTOS COMPROMETEDORAS??? Não faz o menor sentido ela não ter posto aquele celular no bolso na mesma hora; com ele, seria impossível que o James, o amigo dela, não passasse a dar muito mais crédito pra história dela, no mínimo, e isso teria mudado a história toda. Mas não, eles tinham que fazer ela ser burra o suficiente pra deixar passar essa chance inacreditável. Se o enredo precisava que ela de fato não tivesse o celular com ela, poderiam ao menos ter mostrado ela guardando o celular e depois o perdendo de alguma maneira, seja deixando cair, seja com o Adrian conseguindo recuperá-lo; mas o fato de ela sequer ter tido essa ideia naquele momento é um desrespeito a todos os espectadores.
A partir daí, é um festival de burrices ou inverossimilhanças atrás da outra. Por que o vilão não matou todos os policiais no hospital psiquiátrico, se ele precisava que ninguém acreditasse na história da Cecilia? Será que os policiais saberem que há um homem invisível andando por aí não cria problemas pra ele? E como é que o Adrian, supostamente um cientista sociopata brilhante, deixa a Cecilia vagar pela casa sozinha, ainda mais sabendo que ela deu sumiço no segundo traje de invisibilidade? E como é a que a Cecilia aprendeu como o traje funcionava, vestiu, tirou, ajeitou o cabelo e a maquiagem de novo, tudo isso em menos de um minuto?
Enfim. Poderia ficar aqui citando um problema atrás do outro, mas o texto já está grande demais e acho que já fiz meu ponto. Esse filme é a prova de não basta um elenco competente e metáforas interessantes para fazer um bom filme; sem um roteiro que respeite o espectador, você estará arruinando qualquer ponto positivo que pudesse fazer dessa uma grande obra de suspense.
O filme do Al Gore devia se chamar: Uma Verdade CONVENIENTE. Porque a verdade realmente inconveniente é essa aqui: a agropecuária é a atividade não-militar mais perigosa pro mundo e pra sobrevivência dos seres humanos e dos outros animais. E o mais incrível é que NINGUÉM fala disso. Especialmente aqui no Brasil, onde o poder dessa indústria é gigantesco, uma vez que somos os maiores exportadores de carne DO MUNDO; não por acaso, tantos ativistas morreram aqui lutando por esta causa, sem falar no genocídio indígena, ainda em curso, cuja causa principal, bem como da devastação da Amazônia, é justamente a expansão de pasto pra criação de gado. Quer dizer, por tudo isso apresentado no doc, e por toda a situação do Brasil diante desse tema, nós, brasileiros, temos uma responsabilidade e tanto nesse processo.
É incrível como a natureza é sábia e fez com que, naturalmente, o meio de maior compaixão pelos animais pra se alimentar, o vegetarianismo, seja, ao mesmo tempo, o modelo mais econômico e sustentável de alimentação para o planeta. Continuando a comer carne, seja de aves, mamíferos ou peixes, pouco importa se você gasta pouca água no banho, vai ao trabalho de bicicleta ou usa sacolas reutilizáveis. Dessa perspectiva, talvez a verdade mais inconveniente do doc seja justamente esta: se você come carne, você não pode ser um ambientalista; é como ser contra a indústria do tabaco e continuar fumando.
"Às vezes, à noite, esta escuridão, este silêncio, me oprimem... É a paz que me amedronta. Temo a paz acima de tudo. Parece apenas uma aparência que oculta o inferno.
Penso no que os meus filhos verão, amanhã. 'O mundo será maravilhoso', dizem. Mas como, se basta um telefonema anunciando o fim de tudo?
Deveríamos nos libertar de paixões e de outros sentimentos na harmonia da obra de arte realizada; naquela ordem encantada. Deveríamos aprender a nos amar intensamente e vivermos além do tempo, soltos... Soltos!"
Que lindo, cara, absolutamente maravilhoso. Impossível não marejar os olhos.
Alguns filmes não são o resultado da mera narração de uma história, mas da combinação de metáforas e símbolos em movimento, que se fundem e se misturam para formar uma totalidade ainda mais significativa; que não são mero passatempo ou entretenimento, mas uma poderosa ferramenta de compartilhamento e defesa de ideias, fincadas nas necessidade e sofrimentos reais de um povo ou sociedade; que não se apegam ou seguem religiosamente alguma fórmula cinematográfica, mas que buscam subverter e reinventar as formas estéticas dominantes, a fim de tornarem o cinema um verdadeiro veículo de expressão artística, não apenas uma forma de fazer dinheiro. Se há um filme que opera em todas essas possibilidades segundas, esse filme é 'Deus e o Diabo na Terra do Sol'.
Esse título, aliás, além de belo, poético e evocativo, ajuda muito na compreensão do mesmo, de uma forma inclusive bastante dialética. Num primeiro momento, podemos associar o 'Deus' do título ao beato Sebastião e a seu messianismo, e, o 'Diabo', à figura de Corisco e ao cangaço como um todo. Contudo, como o filme vai mostrando, nem um "santo" capaz de assassinar uma criança a pretexto de um ritual é assim tão divino, e nem um "bandido" dedicado a antagonizar as forças da opressão e da miséria é assim tão diabólico; pelo contrário, suas ações demonstram que 'deus' e 'diabo' não são representações que cada um assumiria respectiva e isoladamente, mas aspectos constituintes de ambas as identidades, ambas marcadas por atitudes e intenções, por vezes, boas, por vezes, más. Uma constatação que, óbvio, não se restringe apenas a estes dois personagens: a partir dela, percebemos que essa dualidade deus/diabo pode ser estendida a todos os principais personagens, pois todos eles passeiam por ações e/ou motivações ora boas, ora ruins.
Tendo em vista essa análise e o bonito canto final - aquele que diz "Que a Terra é do homem, não é de Deus nem do Diabo” -, a mensagem final que o Glauber Rocha parece querer passar é a seguinte: que a saída para aqueles vitimizados pela miséria e pela exploração não passa nem por messianismos alienantes, que funcionam apenas como fugas da situação ou modos de torná-la suportável, nem por uma rendição ao cangaço e ao banditismo, que tem seu motivo maior não na justiça, mas na vingança, que é tanto maior e mais desumana quanto maiores forem os sofrimentos de quem a engendra. Não, ambos apenas intensificam o problema. É preciso que os homens e mulheres nessa situação, representados por Manoel e Rosa, tomem as rédeas de seu destino nas mãos, de forma organizada e planejada, e lutem contra todos esses que intentam barrar o caminho para a realização de suas aspirações mais legítimas. Uma saída que, a julgar pela rejeição da dualidade deus/diabo também no campo moral, não seria por uma questão ética, não por ser algo bom ou ruim, mas porque é necessário, tanto por ser o único meio quanto por ser o único propósito almejável. Quer dizer, o mar TEM QUE virar sertão, e somente DESSA FORMA isso pode acontecer.
Engraçado que assisti esse filme a primeira vez há uns 7 anos, e não só não achei grande coisa como também foi uma experiência bastante maçante. Todo esse tempo depois e foi tudo ao contrário: das atuações teatralizadas às tomadas de câmera, dos diálogos aos simbolismos, tudo fantástico. Sem dúvida, um dos grandes momentos do cinema brasileiro. Merece toda a importância que tem, tanto a obra quanto o diretor.
Prova Final = Os Invasores de Corpos + O Enigma de Outro Mundo (The Thing) + Pânico + A Experiência
Uma boa mistura, não?
Certamente não é um filme perfeito, mas é um excelente entretenimento, especialmente pra quem curte filmes do gênero. O clima tenso é bem efetivo e o filme funciona bastante bem, pelo menos até o terceiro ato, onde cai um pouco, mas sem estragá-lo. O elenco está muito bem e é interessante ver quantos atores e atrizes bons e reconhecidos o estrelaram, em especial os mais novinhos. Ajuda também pescar aqui e ali referências a alguns clássicos da ficção científica e do terror. A nostalgia anos 90 também.
Vou analisar esse filme como a obra de ficão que é, não como um retrato fiel da realidade, até porque não é mesmo. Apesar de o filme ter muitos episódios fidedignos ao que realmente aconteceu - conforme narrado na autobiografia em que o filme se baseia -, também possui outros que estão longe de estarem lá. No geral, nem o Hawking é tão legal sim, nem a Jane é tão compreensiva e nem o término deles foi aquela coisa água com açúcar. Então, deixemos as comparações com a realidade pra lá.
Enquanto pura obra ficcional, o filme é interessante, embora nada memorável. Ele segue uma fórmula bem batida, sempre presente nas contendas do oscar: aquele que pega a história dramática de uma personalidade real bem conhecida e reconhecida em sua área e que a mostra em algum tipo de superação. É quase um filme autoajuda. Não que esses filmes sejam ruins por conta disso; ano passado, quem cumpriu esse papel foi 'Clube de Compras Dallas', que eu particularmente achei um filme magnífico. Mas sempre há o risco de a história da pessoa em questão já ser tão emocionante em si mesma que torne a realização do filme-biografia em algo relativamente preguiçoso, que não ousa muito, apenas dá aquilo que o publico quer ver: uma bela história de superação.
Dentro dessa fórmula preguiçosa, 'A Teoria de Tudo' consegue ser um filme bacana - embora, como disse, nada memorável. A história de vida do Hawking é realmente impressionante, mesmo o filme não sendo tão fiel, e realmente rende algumas cenas bem impressionantes. Particularmente, me senti tocado por duas delas: aquela em que ele está na banheira, logo após descobrir sua doença, e aquela em que ele se encontra com sua mulher, logo após perder a voz - ambas, mais por me imaginar na situação que por mérito da direção ou do roteiro. A única em que os realizadores do filme conseguiram fazer o mesmo por mim, foi naquela cena do discurso, em que, por um momento, o Hawking se imagina levantando e pegando o lápis da garota do chão - algo tão prosaico pras qualquer um, mas não pra ele, mesmo ele sendo tão mais capaz que muitos de nós questões cosmológicas, o que o leva a sua boa reflexão sobre os limites e nossa necessidade de superá-los.
'A Teoria de Tudo' é um filme nada original e nada ousado, mas entrega aquilo a que se propõe: uma reflexão açucarada sobre a natureza humana e uma boa dose de emoções fruto das complicadas atribulações superadas por seus protagonistas. Um 'Uma Mente Brilhante' com bem menos brilho. Não fosse a grandiosidade natural da vida dos protagonistas e as boas atuações dos atores que os representaram (em especial, o Redmayne, que está brilhante), não seria grande coisa. Mesmo assim, por conta desses dois fatores, ainda assim, dou um 8. Um exagero, eu sei, mas tudo bem. O Stephen e a Jane verdadeiros merecem.
Esse é um dos animes mais emocionantes que já vi. Tocante até dizer chega. Cada episódio possui uma carga sentimental, no mínimo, em potencial, e cada um deles vai formando em nós uma certa expectativa melancólica, de que alguma coisa não vai acabar muito bem no final. E que final, né? Muito triste, mas o mesmo tempo tão belo - sim, belo, porque a tristeza está intrinsecamente associada à vida como o néctar está para as flores, e é também por conta dessa tristeza que a vida pode, à vezes, ser tão bonita.
Os realizadores estão de parabéns. Poucas vezes chorei assim vendo um anime desses. Sem contar que motivo das lágrimas é construído de maneira tão inteligente que é impossível vermos chegando isso até que a revelação já está bem próxima. E ela só surte esse poderoso efeito em nós devido à meticulosa construção dos personagens e suas relações desde o primeiro episódio, fazendo com que nos encantemos e nos apaixonemos por todos eles, em especial, os três principais, Mirai, Yuuki e Mari. Através deles, os autores nos mostram que a jornada tem, sim, seus percalços, mas que, com perseverança e ajuda mútua, é possível produzir algum mel a partir desse néctar. Lindo.
ps: apenas a título de informação, já tinha me emocionado quando a Mari reencontra sua filha, mas o meu gatilho mesmo foi quando o Yuuki diz "Mirai, eu te amo" pra sua irmã, pouco antes de seguir seu destino. Cena muito linda, : ) :
A melhor palavra pra descrever esse filme é: encantador. Sem dúvida, ao menos pra mim, finalmente o Wes Anderson realizou sua obra-prima. Apesar de gostar bastante de seus filmes anteriores (especialmente 'Os Excêntricos Tenenbaums' e 'Vida Marinha'), foi só aqui que, na minha visão, ele encontrou o balanço perfeito entre os elementos que compõem o seu estilo. A edição e a movimentação de câmera, sempre cartunescas, foram eficazmente executadas, aliando-se a uma cinematografia impecável que deixa o filme visualmente belíssimo. O típico tom leve e comicamente teatralizado ao contar histórias, no fundo, dramáticas está lá, harmonizado de tal maneira que, não raro, fica difícil saber onde acaba a comédia e começa o drama e vice-versa. Além disso, a "estranheza" característica de sua filmografia e o jeito caricato dos personagens casaram maravilhosamente com o clima onírico e nostálgico de uma obra contatada alá Sherazade (a lendária, não a otária), com uma história dentro da outra, propícia para borrar a, às vezes, tênue linha que separa ficção e realidade (esta, aliás, uma das principais temáticas discutidas no filme).
Contudo, embora o WA tenha sido realmente brilhante nos aspectos acima, seu maior acerto, no meu entender, foi na composição do elenco do filme. Cara, que elenco maravilhoso. Mesmo os atores que fazem apenas rápidas aparições (e são muitos) estão muito bem, realmente acrescentam à trama, em vez de serem meras surpresas vazias. Adrian Brody, William Dafoe, Bill Murray, F. Murray Abraham, Saoirse Roman, Tony Revolori, todos estão muitíssimo bem e contribuem positivamente para o resultado final do filme. Mas quem rouba a cena, sem dúvida nenhuma, é o Ralph Fiennes. A maneira como ele combina uma certa elegância aristocrata do M. Gustave com seu lado mais vulgar e mundano é incrível e invariavelmente rende as cenas mais engraçadas, quando irrompe inesperadamente. Seu timing para o humor está perfeito. Eu, que estava acostumado a vê-lo apenas em papéis mais dramáticos, fui agradavelmente surpreendido por essa sua veia cômica. Entretanto, na hora em que o drama se apresenta, ele consegue nos entregar todo o peso necessário da situação. Sensacional.
O filme todo é leve e nos faz rir muito - pra quem curte o estilo de humor wes-andersoniano - e, ao final, saímos com uma sensação mais alegre que melancólica. Mas isso, segundo vejo, se dá mais pelo modo como o WA conduz o filme. No geral, pra mim, é uma história bem triste, eufemizada e amenizada pelas doses de humor e cartunicidade. No fundo, é uma alegoria sobre a perda, sobre a efemeridade do mundo e de suas transformações inescapáveis - e, muitas vezes, para pior. Enquanto o velho mundo a sua volta pouco a pouco desmoronava, M. Gustave se dedicava a tentar fazer com que, pelo menos no seu grande hotel, a realidade exterior não adentrasse, não o transformasse, mantendo um alto padrão e uma elegância que, lá fora, há muito já tinham virado comida para os ratos do fascismo e da guerra. Um esforço corajoso e muito respeitável, mas totalmente vão - visto como tudo o que acabáramos de vê-lo passar na sua aventura não representou nada para os soldados que covardemente, e num piscar de olhos, mataram-no. Sim, a humanidade já era então, como ainda o é, apenas este açougue bárbaro. Porém, como nos diz o velho Mustafa em determinado momento do filme: "Para ser franco, acho que o mundo dele sumiu antes de ele nascer. Mas devo dizer que ele sustentou a ilusão com tremenda graça." E que graça.
Que filme é esse, cara... Tô até agora embasbacado. Também eu fazia parte daqueles que não sabiam por que nunca o tinham visto. Resolvi sair desse grupo e tive uma das surpresas mais agradáveis do ano. Sim, surpresa sim, porque já imaginava que esse filme seria bom, mas não que seria TÃO bom. Sério, pô, virou favorito instantâneo. Do aspecto técnico geral do filme, tem nem o que dizer: atuações maravilhosas, personagens super carismáticos e adoráveis e um ritmo que não cansa em nenhum momento. A história, desde o começo, te cativa de uma maneira indescritível e tem um momento mais marcante que o outro, enquanto vamos vendo o protagonista - James Stewart, formidável - se sacrificando por todos sem, aparentemente, receber nenhum crédito por isso - seja das pessoas ao redor, seja da vida mesmo, que só vai colocando uma situação pior que a outra pra ele. Tanto que, num certo ponto, cheguei a pensar que seria o filme mais triste do mundo, que o título dele tava mais pra uma ironia que pra uma defesa séria da maravilha da vida. Mas essa foi a grande sacada do Capra, de deixar a virada do filme apenas pros seus 20 minutos finais, proporcionando-nos um combo de emoção como poucas vezes senti. O final lindo e perfeito pra um filme lindo e perfeito. Só de imaginar, os olhos já marejam de novo. O típico filme pra reassistirmos sempre que as forças começarem a vacilar, pois ele tem o poder de nos erguer de novo. Majestoso.
Quanto ao combo do final, comecei a chorar já quando chega o irmão do George e, em meio a todos, propõe o clássico brinde: "Ao meu irmão George, o homem mais rico da cidade!" A emoção já não tava pouca, e aí me vem o livro que o Clarence deu de presente pra ele, com aquela frase tão simples, mas ao mesmo tempo tão verdadeira e bela: "Lembre-se que nenhum homem é um fracasso se tem amigos" - complementada, na sequência, pelo som do sino, revelando que nosso querido anjo acabara de receber suas asas. Phoda, : )
Sou fã dos Watchowski. Vi todos os seus filmes desde o primeiro 'Matrix' e gosto bastante de todos eles (curto bastante as sequências desse último, acho 'Speed Racer' muito divertido e considero 'Cloud Atlas' fantástico). Também sou muito fã de ficções científicas, especialmente as espaciais. Por fim, também me agrada muito as temáticas "conspiracionistas" - isto é, de alguma verdade escondida que escapa à grande maioria das pessoas e que, no entanto, rege suas vidas sem que elas saibam. Então, não sou um mero hater. Estava aguardando ansiosamente por esse filme. Ele tinha todos os ingredientes pra, pelo menos pra mim, ser grandioso, excitante, belo e deslumbrante. No entanto, infelizmente, ele falhou quase miseravelmente em realizar minhas expectativas.
Não sei se, justamente por essa expectativa bem alta é que o filme não tenha funcionado pra mim como esperava, mas o fato é que não funcionou. Bom, claro que há aspectos positivos. Visualmente, 'O Destino de Júpiter' é mesmo admirável. O uso dos efeitos e a construção dos ambientes do filme são mais do que eficientes, são realmente interessantes. Além disso, o enredo geral "conspiracionista" - apesar de, como outros apontaram, ser bastante semelhante ao do próprio 'Matrix' - também me agradou muito. Contudo, em todos os outros aspectos, é decepção atrás de decepção. O roteiro é fraquíssimo, os diálogos são horríveis, a edição é amadora, as atuações são, no máximo, burocráticas, o carisma dos personagens é zero, os vilões não passam um perigo real e a química entre os protagonistas é muito forçada. Não houve sequer um momento em que me importei com qualquer um deles, pareciam todos deslocados naquele universo que tinha tudo pra ser maravilhoso, mas que era revelado como inverossímil e tolo na inexpressividade dos mesmos. Em pleno séc. XXI, temos uma das protagonistas mais fracas dessa década, ladeada por um parceiro exageradamente "Deus Ex Machina". Quer dizer, não é exatamente uma combinação muito feliz.
Como mero entretenimento, despretensioso, o filme até passa. Isso, somado ao fato de que realmente gostei da trama principal - que tinha um potencial enorme e foi tristemente mal aproveitada -, fizeram com que, ainda assim, tenha dado 7 pra esse filme. Mas está há anos-luz da qualidade, energia e profundidade daquilo que esperávamos de uma obra dos Watchowski. Uma pena.
"O que te faz pensar que elfos são mais mágicos que uma baleia? Entende? E se eu contasse uma história de que dentro do oceano há um gigantesco mamífero marinho que usa um sonar, que canta canções,e é tão grande que seu coração tem o tamanho de um carro, e você poderia engatinhar pelas suas artérias. Pareceria mágico, não?"
Segundo penso, é nesse trecho de diálogo entre pai e filho que reside a chave para compreendermos a intenção do Richard Linklater ao realizar sua obra-prima. Muitos reclamam que no filme não acontece "nada"; que ele é apenas a sucessão de fatos comuns e relativamente banais na vida de uma garoto comum: realização de tarefas domésticas, conversas com a mãe, brincadeiras com a irmã, fins-de-semana com o pai, uma reflexão ao acaso enquanto viaja com a namorada... Coisas que acontecem na vida de todos nós e que, por conta disso, parecem desprovidas de qualquer importância. Mas é justamente essa percepção desencantada que o Linklater quer questionar: por que momentos grandiosos e/ou marcantes - ainda mais aqueles típicos de filmes hollywoodianos - são mais mágicos do que os pequenos acontecimentos que compõem nossa vida? Por que um dia de acampamento sem nenhum fator muito memorável, por exemplo, significa menos que o dia cheio de brilhos artificiais da nossa formatura? A vida real não acontece apenas nas situações grandiosas, mas principalmente entre elas, no dia-a-dia de nossas ações mais prosaicas - e, no fim das contas, são estas últimas que constituem nosso ser e nosso caráter, que confeccionam nosso destino, e onde reside, de fato, nossa vida, com todas suas maravilhas e não-maravilhas.
Quem não conseguiu captar esse aspecto do filme acabou achando que a única coisa digna de nota é ver os personagens todos crescendo "de verdade", pelo fato do filme ter aproveitado o envelhecimento natural dos atores nesses 12 anos em que foi produzido. Claro que isso é digno de nota - eu, que assisti ao filme sem saber disso previamente, achei essa uma decisão particularmente genial. Mas é claro também que essa sacada acaba tornando-se indubitavelmente secundária diante da proposta descrita acima - e, na verdade, me parece inclusive funcionar apenas pela ótica dela. Isto é, estamos tão acostumados a ver as pessoas envelhecerem que isso tirou o caráter absolutamente fabuloso desse fato. Mas eis que o filme nos relembra do quão fantástico é envelhecer, como é incrível saber que as pessoas, sim, vão crescendo, vão ficando mais velhas, que o tempo realmente passa e, de repente, 12, 15, 20 anos se foram num piscar de olhos. Como num passe de mágica.
'Boyhood' já é grandioso e precioso em si por ser praticamente o documento de uma época, às vezes mais "verdadeiro" que um documentário (e é delicioso ir captando a passagem do tempo pelas dicas que o diretor vai deixando nas cenas). Mas é claro que ele cresce muito pelo fato de nos identificarmos quase que de imediato com o Mason (mas os homens que as mulheres, talvez - o que é uma pena -, embora ache que haja muito com o que se identificar independentemente de gêneros). E, por conta disso, aproveito pra fazer uma observação, que deveria ser óbvia pra todos, mas acho importante fazê-la de qualquer jeito. É bom deixar claro que essa infanto-juventude mostrada, apesar de muitos de nós nos identificarmos, é bastante específica: ela é branca, ela é classe média, ela é privilegiada. Mesmo para os EUA ela não é uma representação universal da infância e da juventude, que dirá aqui no Brasil, com essa desigualdade social pondo-nos cabisbaixos a cada esquina. Isso não borra a beleza intrínseca ao filme, mas vale a pena ser destacado, especialmente pra produzir certas reflexões em nós, menos egoístas.
Por fim, depois dessa longa resenha, queria dizer apenas o óbvio: que achei o filme belo e maravilhoso, verdadeiramente emocionante. Atuações muito boas, bem de acordo com a proposta do filme, direção firme e consciente e personagens adoráveis, além da brilhante proposta de recuperar o aspecto maravilhoso escondido na aparante mundanidade comum da vida. "Parece mágica?", pergunta-nos Linklater. E responde: "Não, não parece: É."
Fazia tempo que tinha ouvido falar desse filme, o nome me era muito familiar, e inclusive achava que provavelmente já o tinha visto nalguma sessão da tarde da vida. Eis que finalmente decido parar pra pôr esse sentimento à prova e não poderia ter me surpreendido mais: que filme maravilhoso! Há anos que já deveria tê-lo assistido. Não sei bem se se encaixa na categoria de filme de terror, mas é um suspense maravilhoso, com um mistério muito bem urdido e uma sacada final, senão inteiramente imprevisível, pelo menos sempre muito impactante.
Se formos pensar nele como um filme de terror, ele é, no mínimo, muito peculiar. A começar pela trilha sonora, que está muito longe do padrão deste tipo de filme, tornando-o quase um musical. Vi algumas pessoas que reclamaram dela, mas, pra mim, ela só somou ao filme, trazendo-lhe o clima ideal para o desenrolar da história. Além disso, o terror, em geral, se caracteriza por tomadas escuras, tenebrosas, à noite, privilegiando cenas de espanto e gore, o sobrenatural... E não vemos nada disso em 'The Wicker Man'. Pelo contrário, o filme, em si, superficialmente, apresenta-se num tom mais leve, suas cenas são sempre claras, não fica nada no pano de fundo ameaçando aparecer a qualquer instante. E acho que, no filme inteiro, praticamente nem vemos sangue.
E, apesar disso, o filme é sinistro ao extremo. Em cada cena, temos a certeza de que algo tenebroso paira no ar ,algo escondido na aparente beleza e simplicidade da vida no campo (apesar das estranhezas, para muitos, da religiosidade pagã muito liberal em relação ao sexo e à nudez). Aliás, nem é nada disso sobre a religiosidade que, ao menos pra mim, evoca a suspeita de algo tenebroso, mas sim, o modo como se comunicam e agem os habitantes da ilha, sempre parecendo esconder algo, nunca sendo inteiramente claros e diretos.
E nossa suspeita se revela ainda maior do que o que esperávamos no ato final. Não darei spoiler específico sobre a mesma, mas posso dizer que é uma cena poderosíssima. Temos que ver o filme todo com outros olhos depois dela. E ela traz uma gama de possíveis reflexões e debates pra esse filme bastante extensa, a maioria delas calcadas na oposição entre paganismo X cristianismo, mas que pode se tornar também uma forte crítica às religiões ou, mesmo, num manual de advertência para teóricos da conspiração.
As atuações, sem dúvida, contribuem fortemente pra que o filme atinja o nível que alcança, e estranhamente traz um par de protagonista/antagonista também o contrário de se esperar em filmes desses; quer dizer, o segundo é mais simpático que o primeiro, embora isso não diga muito sobre a ética das intenções de cada um, o que traz ainda mais tempero pra essa obra.
Enfim, um filme clássico imperdível e que faz jus à alcunha de cult. Pra mim, apesar de não ser melhor, facilmente entra no hall de filmes como 'O bebê de Rosemary' e 'A profecia'. Recomendo.
Não vi o trailer do filme, como muitos, mas vi que ele tinha sido consideravelmente elogiado depois de ter sido lançado no festival de Sundance, logo, como aqueles, também tinha muitas expectativas. Que, bem, igualmente não foram alcançadas. Apesar de não ter achado o filme ruim, me decepcionou bastante. Até por conta dos pontos positivos, que não são poucos: a ideia inicial e os primeiros 20 e poucos minutos do filme, até um pouco depois da primeira reviravolta, são muito bons; aliás, no geral, o clima dele não deixa a desejar, tem uma aura de suspense e inquietação bem legal o tempo todo; as atuações são bem convincentes, especialmente em se tratando de um filme com 3 novatos praticamente desconhecidos - embora o destaque mesmo vá pro Lawrence Fishburne que, se não está brilhante, ao menos sempre nos prende com sua forte presença em cena.
Contudo, apesar disso, como disse, o filme é uma decepção (e quem não quiser saber nada sobre o filme, deixe de ler aqui, porque darei SPOILERS IMENSOS!!). Apesar de ter tido uma boa ideia inicial e algumas outras aqui e acolá, o diretor claramente não soube o que fazer com elas e nunca teve um roteiro muito bem acabado; há furos imensos, o tempo inteiro (por exemplo, como pode ser verossímil que, em nenhum momento, o Nick tenha percebido que haviam posto pernas biônicas nele? E o que foi aquela cena da vaca, sem sentido nenhum?). Além disso, as atitudes dos personagens também não são muito verossímeis; quer dizer, em nenhum momento questionam apropriadamente o Damon sobre quem era ele, qual o motivo de tudo aquilo, o que eles pretendiam, o que havia acontecido de verdade, etc., etc. E nem mesmo as atitudes do Damon são compreensíveis, fazendo com que nós tenhamos que construir teorias mirabolantes pra poder dar conta de por que ele sai com uma mala matando as outras pessoas na simulação (e eu construí essa teoria, mas é uma pena que ela foi elaborada com quase nenhuma ajuda do diretor, apenas com sugestões mínimas).
O final - que, pra muitos, é o que salva o filme -, pra mim, terminou por destruir a possibilidade de ser um grande filme. A reviravolta final não só não é exatamente imprevisível como também não é lá muito original (quem já assistiu a 'Cidades das Sombras' entenderá). Sem contar que a suposta diferença deste final pro do filme recém-citado gera muito mais problemas
(afinal, se aquela nave é extraterrestre, por que tem aqueles números 2.3.5.41 nela? Por que aliens usariam uma representação humana? E, se a própria nave é humana, como e quando se desenvolveu toda aquela tecnologia? E, mais complicado, como lançaram aquela nave no espaço, sem que ninguém nunca ficasse sabendo? Afinal, ela não é exatamente pequena.
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Enfim. Dei três estrelas pro filme, o que quer dizer que ele é assistível, é um bom entretenimento e tem seus bons momentos. Mas está muitíssimo longe de ser um grande filme.
Que me desculpem os supostos novos fãs e mesmo os fãs antigos que talvez tenham gostado desta animação, mas só posso dizer que esta é uma das piores que já vi. De longe, o filme mais decepcionante de 2014 - talvez da década - e que trata os fãs antigos com um desrespeito que poucas vezes vi nesse tipo de adaptação. Absolutamente NADA justifica todos os abusos cometidos, desde o fraquíssimo desenvolvimento dos personagens até os ABISMOS no roteiro. Isso pra um filme que começou até bem e cuja qualidade da animação, se não é perfeita, não deixa a desejar - e certamente não é um problema no filme. E foi só por conta dela, e de algumas poucas cenas, que cheguei a dar 2 estrelas (embora ainda haja a possibilidade de diminuir ainda mais essa nota).
É claro que, como outros já salientaram, querer contar em uma hora e meia uma trama que se desenrola originalmente em mais de setenta episódios, seria algo muito complicado de se fazer. Já se imaginava que o filme provavelmente seria corrido e que poderia haver furos no roteiro. Contudo, imaginei que quem quer que estivesse fazendo isso tivesse, também, consciência dessas dificuldades e se precavesse contra as mesmas, ou as amenizasse - afinal de contas, se decidiram fazer o filme sabendo disso, pensei que sabiam o que estavam fazendo. Além do mais, como fã, esperava mais ver batalhas épicas no santuário, como no anime, sem me importar muito pra justificação dada no começo. O filme, porém, não só não conseguiu resolver minimamente esses problemas - uma vez que os furos são abissais e o ritmo do filme é ininteligível pra quem não conhece a história previamente - como piorou tudo ainda mais com alterações, no mínimo, tolas e sem propósito e, em ultima instância, desrespeitosas e ridículas. Entre estas, podemos citar:
a destruição do personagem do Máscara da Morte, que virou um palhaço de circo alá Jack Sparrow; o descaso com Ikki e Shaka, muitíssimo mal aproveitados (Shaka não faz nada e, Ikki, todo orgulhoso, acaba só apanhando); Afrodite não serve pra nada; lutas sem emoção e contextualização adequada; Seiya com braço de megazord e, depois, "transformado" em centauro (??); Saga se virando monstro de pedra (???)
; ausência de trilha sonora relevante, sem nem mesmo as músicas antigas... Poderia continuar listando aqui indefinidamente, mas paro por aqui, até pro texto não ficar ainda maior.
Enfim. O filme é um grande lixo. Me fez sentir raiva e vergonha alheia quase o tempo inteiro. Contudo, fui com um grupo de amigos e, após a decepção maior haver passado, consegui me divertir com o ridículo que se desenrolava diante de meus olhos, algo similar ao que ocorreu quando o Brasil perdeu de 7 a 1 na copa e fui pro twitter rir de tudo aquilo com a galera. Como alguém disse noutro comentário, filme tão ruim, mas TÃO ruim, que deu a volta e virou uma comédia de primeira, estilo Sharknado. Mas foi rir pra não chorar MESMO, porque só posso lamentar muito ver um dos desenhos/animes que mais me marcaram, e que mais gosto, ter se transformado nessa palhaçada.
Começando pela obrigatória referência a Star Wars, fica muito claro, desde o início, os elementos nos quais Jorginho Lucas se inspirou para elaborar sua famosa saga: em primeiro lugar, os dois personagens alívio-cômico que aparecem logo na primeira cena, por cujo olhar a épica história é narrada (a propósito, senti um quê beckettiano de Vladimir e Estragon nos dois, algo que engrandeceu o filme pra mim, num certo sentido); fica bem claro que Lucas não apenas se inspirou neles pra criar C-3PO e R2-D2, mas também a própria forma de narrar o filme pelos olhos de dois personagens não tão importantes. Em segundo lugar, claro, a própria história da princesa em fuga cuja terra natal foi arrasada por um "império do mal". Além disso, aqui-e-acolá pipocam outras relevantes contribuições, como a própria edição do filme e outros detalhes menores.
Dito isto, entretanto, apesar das claras inspirações, é importante de dizer que, no geral, são dois filmes bastante diferentes. Inclusive, penso que não é muito interessante para 'The Hidden Fortress' essa comparação com Star Wars, pois, se ficarmos esperando semelhanças no roteiro além das que apontei, poderá haver desapontamentos - o que seria uma tremenda injustiça com este filme, visto que ele vale a pena ser visto pelo que ele próprio tem a oferecer, e não é pouco.
Cabe aqui destacar que este é um Kurosawa diferente. Não é exatamente um filme reflexivo e profundo como boa parte daqueles de sua filmografia. É um filme mais leve, de ação e aventura, mas bem acima da média. Quando compreendemos esta intenção do diretor e fugimos da expectativa de assistirmos a um novo 'Rashomon' ou 'Sete Samurais', só então podemos ver o quão bom esse filme é, com uma história épica e personagens bastante carismáticos. Afora a já mencionada dupla, engraçadíssima, temos Toshiro Mifune sempre muito bem, dominando as cenas com sua imponente presença; a Misa Uehara, no papel da princesa, com uma personalidade forte que esbanja nobreza, além de termos um excelente General "do mal" interpretado muito bem pelo Susumu Fujita.
Não fosse tudo isso, o filme ainda tem pelo menos duas sequências fantásticas, a saber, a do duelo entre o Rokurota e o Tadokoro (que começa com aquela sensacional perseguição a cavalo que deixa muito western no chinelo) e, claro, a cena do festival do fogo, como o povo todo dançando e aquela canção popular de significado tão pungente que teve o poder de causar aquela reviravolta no final.
Não se tornou o meu Kurosawa favorito, mas certamente não é um Kurosawa menor, como dizem alguns. É apenas um filme diferente, com outra proposta - e, nesse sentido, foi muito bem sucedido. Recomendo.
Os Horrores do Caddo Lake
3.5 326(ÓBVIO que tem spoiler nessa resenha. Vá assistir ao filme antes de ficar lendo os comentários.)
Nós fãs de filmes de viagem no tempo estamos sempre carentes de boas produções do gênero. Seja do tipo clássico, seja de loop ou buracos intertemporais, parece nunca haver uma boa quantidade de produções com essa temática, e as poucas que são lançadas nem sempre valem à pena. Por isso, é uma grata surpresa receber o mais recente filme com essa temática: Caddo Lake.
Veja, se você gostou de Caddo Lake e é fã desse tipo de filme, pare AGORA MESMO de ler e vá assistir à série Dark, no netflix. (SÉRIO, só prossiga se vc já assistiu.) Não há dúvidas de que Dark é um marco na produção do gênero, com certeza em pé de igualdade com os grandes clássicos de viagem temporal (tão bom que transcende o próprio gênero e se torna mesmo uma das melhores séries já feitas, ficção científica ou não). Por isso, jamais poderia surpreender alguém que ela influenciasse outros filmes e séries. Na verdade, pelo contrário, o surpreendente é que não haja MAIS filmes e séries copiando a fórmula de Dark (eu mesmo, antes de Caddo Lake, só vi mais um, embora não diga o nome pra evitar spoilers, ¯\_(ツ)_/¯ ).
Caddo Lake, como mencionado e como é óbvio pra quem tenha assistido ambos, é maciçamente inspirado em Dark. Com efeito, num certo sentido, "inspirado" apenas é até eufemismo: pode-se dizer que Caddo Lake é basicamente uma cópia descarada de Dark, sem tirar nem pôr. Claro, nem de longe com a mesma complexidade, profundidade e qualidade do último, mas, ainda assim, e surpreendentemente, não deixa de ser um bom entretenimento. Dark é tão bom que seu fim nos deixou a todos órfãos, com um gostinho de quero-mais; por isso, em vez de detrair, a indiscutível semelhança da trama funciona a favor de Caddo Lake.
Na verdade, se copiasse Dark um pouquinho melhor e apostasse em se complexificar e aprofundar um pouco mais, o filme teria lucrado bastante. Óbvio que não precisava esticar por 3 temporadas inteiras como uma série, mas com uns 20 minutos ou meia hora a mais, explorando melhor e com mais tempo algumas relações e o impacto das mudanças temporais na vida dos personagens, Caddo Lake poderia ter se tornado mais que apenas um bom entretenimento, mas um verdadeiro clássico do gênero. Por exemplo, não deixa de ser decepcionante que não acompanhemos um pouco mais a vida de Anna, seja na sua adaptação ao passado, seja já crescida, na sua convivência com o filho, Paris. O próprio Paris também é sub-explorado e, a meu ver, o filme ganharia muito se o mostrasse reencontrando a mãe, mesmo que não conseguisse salvá-la. O final dele, na verdade, embora não seja ilógico, foi uma das coisas que mais me desapontaram, e eu preferia que ele, em vez de morrer daquela maneira triste, tivesse ficado preso numa outra época, seja num futuro bem além de 2022, seja mesmo no próprio ano de 1952, junto de sua mãe quando criança. Já imaginou o plot twist se a Ellie investigasse um pouco mais e descobrisse que o próprio Paris ajudou a terminar de construir a represa, enquanto acompanhava o crescimento de sua mãe? Seria uma boa forma de ele passar mais tempo com ela, após perdê-la daquela maneira tão trágica.
Enfim. Caddo Lake não traz nada de novo para o gênero e peca por sua falta de ambição e certa previsibilidade da trama, mas nem por isso deixa de ser um filme bacana. Ainda que tenha seus escorregões aqui e acolá, a boa edição, o roteiro amarradinho e o carisma e boa atuação dos protagonistas nos deixam vidrados do começo ao fim, torcendo por eles. Dylan O'Brien e Eliza Scanlen estão muito bem e carregam satisfatoriamente a trama. Mas eu gostei principalmente da pequena Caroline Falk, que faz a Anna criança, uma pena que ela não tenha tido mais tempo de tela. De toda forma, um filme que vale a pena ser visto, especialmente pra nós que estamos sempre carente de um bom filminho de viagem no tempo.
Mulher-Maravilha
3.9 115 Assista AgoraO design gráfico da animação é bem legal e o enredo mais geral, desde a prisão de Hades até sua fuga para tentar criar caos infinito no mundo também são bem interessantes. Por isso, dá até raiva constatar que esse filme poderia ter sido muito bom se não tivesse sido escrito por um monte de INCELS. Sim, um bando de incels machistas que não compreender o feminismo de fato e ficam aproveitando qualquer oportunidade pra enfiar uma mensagem de passamento de pano pro patriarcado. Por que a Perséfone traiu as Amazonas pra ficar com o Ares? "Ai, porque as mulheres preferem os bad boys, enquanto põem os 'nice guys' na 'friendzone'..." E aquele discurso patético dela após ser derrotada por Hipólita? "Não, porque nos foi negada uma vida de família e filhos..." Primeiro, que é muita canalhice colocar uma ideia estúpida dessa em destaque, fazendo crer que há algum "desejo inato" nas mulheres por família e filhos (o ideal pra elas na visão do patriarcado) tão forte que é maior que irmandade entre elas. Em segundo lugar, se for for uma tentativa de fazer uma crítica ao feminismo real, é uma crítica imbecil, porque o feminismo NUNCA pregou que as mulheres não devem ter família nem filhos, o que ele prega é que isso seja uma ESCOLHA, que esse destino não seja IMPOSTO às mulheres, como sempre foi na história da humanidade. Daí se tira o quanto de espantalho esse filme cria pra jogar seu veneno contra a luta das mulheres.
Mas é óbvio que essa ladainha incel masculinista não para por aí. O Steve é um mulherengo que trata as mulheres como meros objetos do seu prazer (e inclusive tenta EMBEBEDAR A MULHER-MARAVILHA PRA TRANSAR COM ELA), mas, claro, ele só faz isso porque alguma mulher malvada machucou seu pobre coração no passado... E aquele discurso dele no hospital, sobre como ele estava de "saco cheio" desse "papo sexista". Bicho, não tem uma só frase que sai da boca dele que não seja uma estupidez masculinista, a maioria passando pano pra todo crime do patriarcado contra as mulheres, ao mesmo tempo que tenta passar parte da culpa pras mulheres (no caso, as Amazonas). É simplesmente patético, e dificulta muito a apreciação do filme pra quem consegue facilmente enxergar essas táticas canalhas. Mas o pior, pra mim, foi eles terem colocado a MULHER-MARAVILHA pra ser salva pelo Steve, e daquela maneira tão absurda. Desde quando a Mulher-Maravilha precisa ser salva por alguém? Você pode vasculhar qualquer história de origem de qualquer super-herói masculino, você JAMAIS verá um deles ser salvo por alguma mulher, seja ela par romântico ou não. Mas os caras quiseram tanto diminuir a imagem da Mulher-Maravilha e das mulheres em geral que até esse absurdo eles meteram no filme.
E veja, antes que algum incel maluco venha me atribuir maluquices, não, eu não também não gosto desse ideal de "girlboss" que Hollywood tem nos empurrado goela abaixo. Eu detesto o que fizeram com a Rey nos SWs novos, a personificação da Mary Sue, e detesto boa parte do que a disney tem feito com as personagens femininas da Marvel, como She-Hulk, capitã Marvel, Lady Thor, etc. Mas não é por isso que devo fechar os olhos pra quando A MENSAGEM passada, embora oposta, é tão perigosa e nociva quanto estas últimas.
O Banho do Diabo
3.6 65'O Banho do Diabo' = 'A Bruxa' + 'Midsommar'
'O Banho do Diabo' não é um filme propriamente de terror, é um drama histórico contado com elementos cinematográficos de terror. Mas óbvio que isso não o torna menos aterrorizante; pelo contrário, é justamente por esse seu caráter chocantemente real (inclusive fielmente baseado na pesquisa histórica da professora Kathy Stuart) que o filme nos aterroriza, nos perturba e nos toca ainda mais. Aqui não é um alienígena ou demônio imaginários atormentando pessoas numa narrativa puramente ficcional; é a própria realidade de pessoas que de fato existiram que as leva ao limite da loucura e do desespero.
A mencionada pesquisa na qual o filme se baseia desnuda a prática do 'suicídio por procuração' [suicide by proxy]: uma tendência na Europa dos séc XVII e XVIII no qual a pessoa que queria se matar, para evitar a condenação eterna do suicídio, cometia um assassinato, pra que assim fosse condenada à morte. Incrivelmente, segundo o dogma cristão, o mais brutal assassino ainda tem chance de absolvição; mas o suicida, não.
Quem mais recorria a essa prática, compreensivelmente, eram as mulheres e, ao ver a história de Agnes, nossa trágica protagonista, fica fácil entender por quê. Vivendo sob os horrores de uma sociedade ultrapatriarcal e ultra-religiosa como aquela, onde a autonomia era praticamente nula e o mais ínfimo dos desvios já fazia de você um pária, as almas mais sensíveis e menos propensas à submissão total não tinham outro destino a não ser o do brutal sofrimento – e um sofrimento calado, silencioso, sem ter ninguém a quem recorrer ou pedir ajuda. E olha que Agnes nem tinha tantos "desvios" assim: além de colecionar insetos e ter uma relação um pouco mais lúdica e afetiva com a natureza, ela pactuava de todos os dogmas de sua comunidade. Inclusive, foi sua imensa vontade de ser mãe (quando não realizada), que precipitou sua depressão; e foi sua desmedida religiosidade que a lançou ao hediondo caminho do infanticídio.
A depressão, por sinal, é sem dúvida um dos mais importantes temas do filme. Boa parte do que há nele de mais assustador e mais propriamente de terror emana de testemunharmos a assustadora e pungente situação de um quadro de depressão numa sociedade como aquela, que não faz a menor ideia do que seja essa doença e no máximo a considera como "coisa do demônio". Agnes, e todas as pessoa na mesma circunstância, precisam lidar não apenas com a depressão, que já é terrível mesmo com toda ajuda possível, mas também com o desprezo, a repulsa, o preconceito e execração da sociedade, o que torna tudo infinitamente pior. Mesmo o tipo de "ajuda médica" proposta a princípio, antes do abandono, não passa de um método semidisfarçado de tortura, que funciona mais como punição do que cura.
Há quem reclame de que o filme seja muito lento, e é uma reclamação até válida para nossa época, tão viciada em estímulos ininterruptos. 'O Banho do Diabo', de fato, segue uma lógica mais contemplativa, e se demora longamente na construção e descrição do comportamento e da psiquê de sua protagonista, bem como do contexto social medieval do qual faz parte. No entanto, aqueles que sabiamente se entregam ao filme são presenteados com uma meia hora final simplesmente arrebatadora, onde a fenomenal atuação de Anja Plaschg – até aquele momento, mais sutil e minimalista – se revela em toda sua grandiosidade. Sério, pô, aquela cena da confissão na prisão, na minha opinião, sem dúvida já faz parte da história do cinema.
O filme termina com a cena do festejo pós-execução, que parece brilhantemente inverter o significado do título. Se, num primeiro momento, o 'banho do diabo' parece remeter ao nome que os aldeões dão à condição de Agnes, ao vislumbrarmos aquela grotesca celebração, praticamente um literal e genuíno banho de sangue (que, pasmem, é também totalmente baseado em fatos reais), entendemos que o verdadeiro banho do diabo, quem sofre, é aquela sociedade. Se há alguma patologia realmente diabólica no filme, é a ideologia e modo de vida daquelas pessoas. Nesse sentido, 'O Banho do Diabo', além das críticas infelizmente ainda bastante atuais que faz aos abusos do patriarcado e ao descaso com as pessoas depressivas, traz também uma mensagem bastante gnóstica, como que realmente legitimando que a decisão de Agnes de escapar daquele mundo essencialmente doente, incrivelmente, parece ser a mais sensata.
Judas e o Messias Negro
4.1 524 Assista AgoraDepois que a história em si do filme já havia terminado e na tela se desenrolava apenas o epílogo com os destinos finais dos personagens, fiquei ali, com lágrimas escorrendo pelo rosto, enquanto remoía e repassava a beleza e a pungência do que acabara de assistir. Lágrimas de ódio, revolta e tristeza por ter acompanhado a forma como tantas vidas — em especial, a dos protagonistas — foram esmagadas e destruídas pelos crimes inenarráveis cometidos por um governo monstruoso e covarde. Crimes cometidos não apenas contra Fred Hampton ou Bill O’Neal, mas contra todos os panteras negras, contra toda uma raça, contra toda uma geração e um país.
Embora a trama do filme gire em torno da relação que lhe dá título, entre o "Judas" O’Neal e o "Messias Negro" Hampton, brilhantemente vividos por Kaluuya e LaKeith, me parece que aquilo que o longa busca retratar de fato não é exatamente essa relação, nem mesmo a tragédia bíblica em que ela desemboca, mas a forma obsessiva e perversa como o governo dos eua e a "América branca" se esforçaram por aniquilar não apenas os panteras negras, mas toda e qualquer forma legítima de organização e de luta - seja contra o racismo, a violência policial ou as brutais injustiças do sistema capitalista. É nesse sentido que digo que os crimes foram cometidos também contra Bill O’Neal: porque, apesar de sua atitude terrível e repugnante, no fim das contas, como Hampton, também ele foi apenas mais uma vítima do governo estadunidense. Assim como uns morrem asfixiados por um joelho no pescoço e outros são covardemente executados em sua própria casa, outros ainda têm as vidas destruídas para sempre ao serem usados como delatores de seus próprios irmãos.
Como já mencionado, LaKeith Stanfield brilha explorando a tragédia da situação de O’Neal, numa atuação tocante, e é cortante ver como seu personagem, aos poucos, vai se tornando consciente do horror de sua posição e de suas ações. Daniel Kaluuya, por sua vez, também não brilha menos, e na verdade o seu Hampton é o próprio coração do filme. Sua presença é magnética sempre que está em cena, em especial durante os vigorosos e apaixonados discursos, mas também nas cenas mais intimistas com sua companheira Deborah Johnson, vivida por Dominique Fishback. Aliás, os dois juntos protagonizam talvez a cena mais bonita do filme, em que Deborah lê a Hampton um poema que compôs sobre a situação de estar grávida no auge da luta (e mesmo agora ainda me emociono com o verso: "Talvez estejamos aqui para mais do que apenas guerra com estes corpos"). Fishback, que eu não conhecia, foi uma das surpresas mais agradáveis do filme, e sem dúvida merece no mínimo uma indicação à melhor atriz coadjuvante. Sua atuação sensível consegue ser uma contrapartida interessante ao "fogo" de Hampton.
Esse é um filme poderoso, sem medo de ser político e revolucionário, sem medo de desmascarar um establishment hipócrita e enganador, que esconde seus crimes e mentiras por trás de uma ideologia que inverte a realidade. Como mostra o filme, os verdadeiros terroristas não são os panteras negras ou aqueles que lutam por uma sociedade mais justa e igualitária; os verdadeiros terroristas são os governos racistas e canalhas, que cometem os crimes mais abjetos e desprezíveis pra manter a injustiça e a desigualdade em nossas sociedades.
Mank
3.2 461 Assista AgoraSe você já assistiu a 'Cidadão Kane', me parece quase impossível não ver 'Mank' como o filme incrível e grandioso que é. A começar pelo mais óbvio: as atuações são fenomenais, de todo o elenco, e é fácil ver por que Gary Oldman e Amanda Seyfried estão colecionando indicações a prêmios. Além disso, o roteiro, meu amigo, é coisa de gênio, com diálogos nada menos que sensacionais, e é difícil crer que esse foi o primeiro e único roteiro escrito pelo pai do Fincher. De toda forma, nada mais justo que um roteiro genial pra contar a história de um roteirista genial. Por fim, mas não menos importante, a direção é brilhante, e não só pela belíssima filmagem em preto e branco, mas pela própria estrutura do filme, espelhando a narrativa não-linear de 'Kane', cheia de flashbacks que vão se sobrepondo a fim de esboçar uma ideia sobre quem foi a peculiar figura de Herman J. Mankiewicz. Aliás, pra mim, essa é uma das sacadas mais bacanas do filme: a maneira como ele foi conduzido e montado faz de 'Mank' uma espécie de 'Cidadão Kane' sobre o cara que ESCREVEU 'Cidadão Kane'. Que phoda.
Agora, o ponto mais alto do longa pra mim, sem dúvida, é sua riqueza temática. O filme toca em tantas questões, e de maneira tão significativa, que é até difícil enumerá-las, que dirá comentá-las todas. A partir das relações afetivas, empregatícias e aristocráticas de Mankiewicz, Fincher traça um retrato não só do espírito de seu protagonista, mas de sua própria época, passando pela situação política, o universo de esbanjamento e futilidade da alta sociedade e pelos bastidores mais podres de Hollywood. Em particular, esse aspecto foi o que mais me impressionou no longa, o da desconstrução do mito hollywoodiano. As pessoas dizendo que esse filme é uma homenagem a Hollywood, a meu ver, não entenderam nada. Pelo contrário, 'Mank' ataca em cheio essa visão idílica de Hollywood, repleta de mesquinharias e jogos políticos, mostrando como cinema e poder estiveram intrinsecamente entrelaçados desde o início - invariavelmente, como sempre, a favor dos interesses das elites. Fincher nos mostra quão facilmente a "fábrica de sonhos" se transforma em fábrica de mentiras, a serviço dos poderosos - não muito diferente do que fazem as fake news nos dias de hoje. É nesse cenário de desconstrução hollywoodiana que passeia Mankiewicz, apresentado como uma alma torturada, mas nunca vendida, um brilhante e mordaz escritor incapaz de se adequar a esse ambiente injusto, elitista e tóxico de Hollywood, e que vê na escrita do roteiro de 'Cidadão Kane' uma maneira de lidar com todos os demônios da sua vida frutos dessa inadequação. Em especial, uma maneira de lidar com sua relação assimétrica e contraditória com o poderoso William Randolph Hearst, o verdadeiro cidadão Kane - e que, embora tenha beneficiado Mank por algum tempo, tratava-o como um reles bobo-da-corte.
'Mank' é vários filmes em um. É tanto uma biografia quanto um drama de época, como também é um filme que usa o passado pra discutir questões atualíssimas do presente. No entanto, no fundo, talvez o âmago do filme seja esse duelo de davi e golias entre um cidadão comum e imperfeito, embora genial, esmagado pela realidade e pela estrutura de classes, e um dos homens mais poderosos de seu tempo. De certo modo, até pela fama e impacto de 'Cidadão Kane', parece que, nesse caso, Davi venceu Golias mais uma vez. Mas a que preço? Essa é a pergunta que 'Mank', com maestria e grandiosidade, nos provoca a responder.
Palm Springs
3.7 495 Assista AgoraPalm Springs é um filme perfeito naquilo que se propõe: uma comédia divertida e descompromissada, sem nenhuma pretensão além de fazer rir e proporcionar um saudável momento de descontração e desligamento da caótica realidade. Se você está procurando um filme cabeça ou com alguma crítica profunda da realidade, passe longe daqui; mas se você busca apenas uma pipoca honesta e 2h de diversão, então Palm Springs é a pedida certa.
Mesmo que a fórmula do loop temporal (que adoro desde que vi O Feitiço do Tempo pela primeira vez) já esteja ficando um pouco batida, esse filme conseguiu se sobressair e ser bastante interessante. Um dos fatores, claro, é a química entre o casal de protagonistas, absolutamente deliciosa, ambos tendo um carisma e simpatia incríveis, e que funciona ainda melhor quando estão juntos em cena (sem contar que foi bacana me dar conta, lá pelo meio do filme, de que "nossa, mas a Sarah é a Mãe de HIMYM!"). No entanto, a meu ver, o fator principal foi que esse filme conseguiu trazer um elemento novo em histórias desse tipo: em vez de apenas um personagem revivendo o mesmo dia, que é a praxe nesses filmes, dessa vez temos mais de um personagem preso no loop, e que interagem se lembrando dos acontecimentos passados. Essa pra mim foi uma sacada muito boa e muito original, definitivamente pondo Palm Springs como um dos melhores do gênero.
No mais, embora piegas e nem muito profunda ou elaborada, também achei bem bonitinha a mensagem final do filme, de que o amor ainda pode ser uma resposta ao niilismo. De fato, nesse mundo que não raro parece tão sem sentido, e que muitas vezes, presos que estamos na rotina e em empregos mecânicos e enfadonhos, parece tão repetitivo quanto num loop temporal, não é tão difícil assim cair num niilismo semelhante ao do Nyles. Pra ele, ao menos no começo do filme, absolutamente nada tem valor e somente a busca desenfreada por prazer pode trazer um pouco de paz enquanto aguardamos o fim. Contudo, ao longo do filme, tanto ele quanto a Sarah vão percebendo que, sim, talvez nada faça sentido mesmo - mas compartilhar o vazio de sentido do mundo com outra pessoa, que sente esse vazio tão opressivamente quanto nós, paradoxalmente, pode preencher os corações com algum significado. E essa ideia, mesmo pra nossa geração tão cínica, ainda tem um apelo bastante tocante.
O Homem Invisível
3.8 2,0K Assista AgoraEsse filme tinha um potencial gigantesco pra ser fantástico, mas infelizmente acabou se tornando apenas um esquecível e fraquíssimo passatempo.
Apenas duas coisas se salvam nele. Em primeiro lugar, óbvio, a Elisabeth Moss. Como sempre, gigante na atuação e construção de sua personagem. A maneira como ela consegue passar a fragilidade, o isolamento e o desespero da mulher que viveu e tenta se recuperar de um relacionamento abusivo é nada menos que brilhante. Em segundo lugar, também foi realmente muito boa a sacada de usar a história do homem-invisível como metáfora para relacionamentos abusivos, uma vez que ser a vítima de um perseguidor e abusador INVISÍVEL realça didaticamente todo o aspecto "invisível" desse tipo de abuso na vida real, onde tudo o que uma mulher tem é sua palavra, sempre posta em dúvida, pra tentar expor uma violência "invisibilizada" para os outros, posto que geralmente ocorre apenas na intimidade do casal, não sendo VISTA pelas outras pessoas.
É uma pena que, mesmo com esses dois trunfos na manga, o filme tenha fracassado monumentalmente em ser a boa história de suspense que poderia ter sido. O principal responsável por isso foi o roteiro absolutamente PREGUIÇOSO em que ele se baseia, cheio de furos ou de escolhas inverossímeis dos personagens. Claro que há uma boa dose de subjetividade nisso que vou dizer - pois outros espectadores podem simplesmente não se importar -, mas considero inaceitável, em plena década de 20 do séc. XXI, que o cinema mainstream ainda tente sustentar um filme inteiramente na completa ESTUPIDEZ de seus personagens. O tempo todo cada um dos personagens, da protagonista ao vilão, toma uma decisão mais imbecil que a outra. Isso é um problema terrível, pois, a cada vez que isso ocorre, você se afasta mais e mais da história e fica cada vez mais difícil manter a suspensão da descrença. Por exemplo, a primeira delas, e das que mais me incomodou no filme inteiro, foi a cena em que a Cecilia descobre o celular do ex no sótão da casa. Pelo amor de todos os deuses, POR QUE ESTA MULHER NÃO GUARDOU ESSE CELULAR CONSIGO??? Que coisa melhor pra provar que VOCÊ NÃO ESTÁ LOUCA ao afirmar que está sendo atacada por UM HOMEM INVISÍVEL QUE ESTÁ MORTO do que encontrar o celular do morto no sótão da sua casa, ainda mais CHEIO DE FOTOS COMPROMETEDORAS??? Não faz o menor sentido ela não ter posto aquele celular no bolso na mesma hora; com ele, seria impossível que o James, o amigo dela, não passasse a dar muito mais crédito pra história dela, no mínimo, e isso teria mudado a história toda. Mas não, eles tinham que fazer ela ser burra o suficiente pra deixar passar essa chance inacreditável. Se o enredo precisava que ela de fato não tivesse o celular com ela, poderiam ao menos ter mostrado ela guardando o celular e depois o perdendo de alguma maneira, seja deixando cair, seja com o Adrian conseguindo recuperá-lo; mas o fato de ela sequer ter tido essa ideia naquele momento é um desrespeito a todos os espectadores.
A partir daí, é um festival de burrices ou inverossimilhanças atrás da outra. Por que o vilão não matou todos os policiais no hospital psiquiátrico, se ele precisava que ninguém acreditasse na história da Cecilia? Será que os policiais saberem que há um homem invisível andando por aí não cria problemas pra ele? E como é que o Adrian, supostamente um cientista sociopata brilhante, deixa a Cecilia vagar pela casa sozinha, ainda mais sabendo que ela deu sumiço no segundo traje de invisibilidade? E como é a que a Cecilia aprendeu como o traje funcionava, vestiu, tirou, ajeitou o cabelo e a maquiagem de novo, tudo isso em menos de um minuto?
Enfim. Poderia ficar aqui citando um problema atrás do outro, mas o texto já está grande demais e acho que já fiz meu ponto. Esse filme é a prova de não basta um elenco competente e metáforas interessantes para fazer um bom filme; sem um roteiro que respeite o espectador, você estará arruinando qualquer ponto positivo que pudesse fazer dessa uma grande obra de suspense.
A Conspiração da Vaca: O Segredo da Sustentabilidade
4.4 213 Assista AgoraO filme do Al Gore devia se chamar: Uma Verdade CONVENIENTE. Porque a verdade realmente inconveniente é essa aqui: a agropecuária é a atividade não-militar mais perigosa pro mundo e pra sobrevivência dos seres humanos e dos outros animais. E o mais incrível é que NINGUÉM fala disso. Especialmente aqui no Brasil, onde o poder dessa indústria é gigantesco, uma vez que somos os maiores exportadores de carne DO MUNDO; não por acaso, tantos ativistas morreram aqui lutando por esta causa, sem falar no genocídio indígena, ainda em curso, cuja causa principal, bem como da devastação da Amazônia, é justamente a expansão de pasto pra criação de gado. Quer dizer, por tudo isso apresentado no doc, e por toda a situação do Brasil diante desse tema, nós, brasileiros, temos uma responsabilidade e tanto nesse processo.
É incrível como a natureza é sábia e fez com que, naturalmente, o meio de maior compaixão pelos animais pra se alimentar, o vegetarianismo, seja, ao mesmo tempo, o modelo mais econômico e sustentável de alimentação para o planeta. Continuando a comer carne, seja de aves, mamíferos ou peixes, pouco importa se você gasta pouca água no banho, vai ao trabalho de bicicleta ou usa sacolas reutilizáveis. Dessa perspectiva, talvez a verdade mais inconveniente do doc seja justamente esta: se você come carne, você não pode ser um ambientalista; é como ser contra a indústria do tabaco e continuar fumando.
A Doce Vida
4.1 325 Assista Agora"Às vezes, à noite, esta escuridão, este silêncio, me oprimem... É a paz que me amedronta. Temo a paz acima de tudo. Parece apenas uma aparência que oculta o inferno.
Penso no que os meus filhos verão, amanhã. 'O mundo será maravilhoso', dizem. Mas como, se basta um telefonema anunciando o fim de tudo?
Deveríamos nos libertar de paixões e de outros sentimentos na harmonia da obra de arte realizada; naquela ordem encantada. Deveríamos aprender a nos amar intensamente e vivermos além do tempo, soltos... Soltos!"
Que lindo, cara, absolutamente maravilhoso. Impossível não marejar os olhos.
Deus e o Diabo na Terra do Sol
4.1 440Alguns filmes não são o resultado da mera narração de uma história, mas da combinação de metáforas e símbolos em movimento, que se fundem e se misturam para formar uma totalidade ainda mais significativa; que não são mero passatempo ou entretenimento, mas uma poderosa ferramenta de compartilhamento e defesa de ideias, fincadas nas necessidade e sofrimentos reais de um povo ou sociedade; que não se apegam ou seguem religiosamente alguma fórmula cinematográfica, mas que buscam subverter e reinventar as formas estéticas dominantes, a fim de tornarem o cinema um verdadeiro veículo de expressão artística, não apenas uma forma de fazer dinheiro. Se há um filme que opera em todas essas possibilidades segundas, esse filme é 'Deus e o Diabo na Terra do Sol'.
Esse título, aliás, além de belo, poético e evocativo, ajuda muito na compreensão do mesmo, de uma forma inclusive bastante dialética. Num primeiro momento, podemos associar o 'Deus' do título ao beato Sebastião e a seu messianismo, e, o 'Diabo', à figura de Corisco e ao cangaço como um todo. Contudo, como o filme vai mostrando, nem um "santo" capaz de assassinar uma criança a pretexto de um ritual é assim tão divino, e nem um "bandido" dedicado a antagonizar as forças da opressão e da miséria é assim tão diabólico; pelo contrário, suas ações demonstram que 'deus' e 'diabo' não são representações que cada um assumiria respectiva e isoladamente, mas aspectos constituintes de ambas as identidades, ambas marcadas por atitudes e intenções, por vezes, boas, por vezes, más. Uma constatação que, óbvio, não se restringe apenas a estes dois personagens: a partir dela, percebemos que essa dualidade deus/diabo pode ser estendida a todos os principais personagens, pois todos eles passeiam por ações e/ou motivações ora boas, ora ruins.
Tendo em vista essa análise e o bonito canto final - aquele que diz "Que a Terra é do homem, não é de Deus nem do Diabo” -, a mensagem final que o Glauber Rocha parece querer passar é a seguinte: que a saída para aqueles vitimizados pela miséria e pela exploração não passa nem por messianismos alienantes, que funcionam apenas como fugas da situação ou modos de torná-la suportável, nem por uma rendição ao cangaço e ao banditismo, que tem seu motivo maior não na justiça, mas na vingança, que é tanto maior e mais desumana quanto maiores forem os sofrimentos de quem a engendra. Não, ambos apenas intensificam o problema. É preciso que os homens e mulheres nessa situação, representados por Manoel e Rosa, tomem as rédeas de seu destino nas mãos, de forma organizada e planejada, e lutem contra todos esses que intentam barrar o caminho para a realização de suas aspirações mais legítimas. Uma saída que, a julgar pela rejeição da dualidade deus/diabo também no campo moral, não seria por uma questão ética, não por ser algo bom ou ruim, mas porque é necessário, tanto por ser o único meio quanto por ser o único propósito almejável. Quer dizer, o mar TEM QUE virar sertão, e somente DESSA FORMA isso pode acontecer.
Engraçado que assisti esse filme a primeira vez há uns 7 anos, e não só não achei grande coisa como também foi uma experiência bastante maçante. Todo esse tempo depois e foi tudo ao contrário: das atuações teatralizadas às tomadas de câmera, dos diálogos aos simbolismos, tudo fantástico. Sem dúvida, um dos grandes momentos do cinema brasileiro. Merece toda a importância que tem, tanto a obra quanto o diretor.
Prova Final
3.2 430 Assista AgoraProva Final = Os Invasores de Corpos + O Enigma de Outro Mundo (The Thing) + Pânico + A Experiência
Uma boa mistura, não?
Certamente não é um filme perfeito, mas é um excelente entretenimento, especialmente pra quem curte filmes do gênero. O clima tenso é bem efetivo e o filme funciona bastante bem, pelo menos até o terceiro ato, onde cai um pouco, mas sem estragá-lo. O elenco está muito bem e é interessante ver quantos atores e atrizes bons e reconhecidos o estrelaram, em especial os mais novinhos. Ajuda também pescar aqui e ali referências a alguns clássicos da ficção científica e do terror. A nostalgia anos 90 também.
A Teoria de Tudo
4.1 3,4K Assista AgoraVou analisar esse filme como a obra de ficão que é, não como um retrato fiel da realidade, até porque não é mesmo. Apesar de o filme ter muitos episódios fidedignos ao que realmente aconteceu - conforme narrado na autobiografia em que o filme se baseia -, também possui outros que estão longe de estarem lá. No geral, nem o Hawking é tão legal sim, nem a Jane é tão compreensiva e nem o término deles foi aquela coisa água com açúcar. Então, deixemos as comparações com a realidade pra lá.
Enquanto pura obra ficcional, o filme é interessante, embora nada memorável. Ele segue uma fórmula bem batida, sempre presente nas contendas do oscar: aquele que pega a história dramática de uma personalidade real bem conhecida e reconhecida em sua área e que a mostra em algum tipo de superação. É quase um filme autoajuda. Não que esses filmes sejam ruins por conta disso; ano passado, quem cumpriu esse papel foi 'Clube de Compras Dallas', que eu particularmente achei um filme magnífico. Mas sempre há o risco de a história da pessoa em questão já ser tão emocionante em si mesma que torne a realização do filme-biografia em algo relativamente preguiçoso, que não ousa muito, apenas dá aquilo que o publico quer ver: uma bela história de superação.
Dentro dessa fórmula preguiçosa, 'A Teoria de Tudo' consegue ser um filme bacana - embora, como disse, nada memorável. A história de vida do Hawking é realmente impressionante, mesmo o filme não sendo tão fiel, e realmente rende algumas cenas bem impressionantes. Particularmente, me senti tocado por duas delas: aquela em que ele está na banheira, logo após descobrir sua doença, e aquela em que ele se encontra com sua mulher, logo após perder a voz - ambas, mais por me imaginar na situação que por mérito da direção ou do roteiro. A única em que os realizadores do filme conseguiram fazer o mesmo por mim, foi naquela cena do discurso, em que, por um momento, o Hawking se imagina levantando e pegando o lápis da garota do chão - algo tão prosaico pras qualquer um, mas não pra ele, mesmo ele sendo tão mais capaz que muitos de nós questões cosmológicas, o que o leva a sua boa reflexão sobre os limites e nossa necessidade de superá-los.
'A Teoria de Tudo' é um filme nada original e nada ousado, mas entrega aquilo a que se propõe: uma reflexão açucarada sobre a natureza humana e uma boa dose de emoções fruto das complicadas atribulações superadas por seus protagonistas. Um 'Uma Mente Brilhante' com bem menos brilho. Não fosse a grandiosidade natural da vida dos protagonistas e as boas atuações dos atores que os representaram (em especial, o Redmayne, que está brilhante), não seria grande coisa. Mesmo assim, por conta desses dois fatores, ainda assim, dou um 8. Um exagero, eu sei, mas tudo bem. O Stephen e a Jane verdadeiros merecem.
Tokyo Magnitude 8.0
4.3 33Esse é um dos animes mais emocionantes que já vi. Tocante até dizer chega. Cada episódio possui uma carga sentimental, no mínimo, em potencial, e cada um deles vai formando em nós uma certa expectativa melancólica, de que alguma coisa não vai acabar muito bem no final. E que final, né? Muito triste, mas o mesmo tempo tão belo - sim, belo, porque a tristeza está intrinsecamente associada à vida como o néctar está para as flores, e é também por conta dessa tristeza que a vida pode, à vezes, ser tão bonita.
Os realizadores estão de parabéns. Poucas vezes chorei assim vendo um anime desses. Sem contar que motivo das lágrimas é construído de maneira tão inteligente que é impossível vermos chegando isso até que a revelação já está bem próxima. E ela só surte esse poderoso efeito em nós devido à meticulosa construção dos personagens e suas relações desde o primeiro episódio, fazendo com que nos encantemos e nos apaixonemos por todos eles, em especial, os três principais, Mirai, Yuuki e Mari. Através deles, os autores nos mostram que a jornada tem, sim, seus percalços, mas que, com perseverança e ajuda mútua, é possível produzir algum mel a partir desse néctar. Lindo.
ps: apenas a título de informação, já tinha me emocionado quando a Mari reencontra sua filha, mas o meu gatilho mesmo foi quando o Yuuki diz "Mirai, eu te amo" pra sua irmã, pouco antes de seguir seu destino. Cena muito linda, : ) :
O Grande Hotel Budapeste
4.2 3,0K(contém spoiler)
A melhor palavra pra descrever esse filme é: encantador. Sem dúvida, ao menos pra mim, finalmente o Wes Anderson realizou sua obra-prima. Apesar de gostar bastante de seus filmes anteriores (especialmente 'Os Excêntricos Tenenbaums' e 'Vida Marinha'), foi só aqui que, na minha visão, ele encontrou o balanço perfeito entre os elementos que compõem o seu estilo. A edição e a movimentação de câmera, sempre cartunescas, foram eficazmente executadas, aliando-se a uma cinematografia impecável que deixa o filme visualmente belíssimo. O típico tom leve e comicamente teatralizado ao contar histórias, no fundo, dramáticas está lá, harmonizado de tal maneira que, não raro, fica difícil saber onde acaba a comédia e começa o drama e vice-versa. Além disso, a "estranheza" característica de sua filmografia e o jeito caricato dos personagens casaram maravilhosamente com o clima onírico e nostálgico de uma obra contatada alá Sherazade (a lendária, não a otária), com uma história dentro da outra, propícia para borrar a, às vezes, tênue linha que separa ficção e realidade (esta, aliás, uma das principais temáticas discutidas no filme).
Contudo, embora o WA tenha sido realmente brilhante nos aspectos acima, seu maior acerto, no meu entender, foi na composição do elenco do filme. Cara, que elenco maravilhoso. Mesmo os atores que fazem apenas rápidas aparições (e são muitos) estão muito bem, realmente acrescentam à trama, em vez de serem meras surpresas vazias. Adrian Brody, William Dafoe, Bill Murray, F. Murray Abraham, Saoirse Roman, Tony Revolori, todos estão muitíssimo bem e contribuem positivamente para o resultado final do filme. Mas quem rouba a cena, sem dúvida nenhuma, é o Ralph Fiennes. A maneira como ele combina uma certa elegância aristocrata do M. Gustave com seu lado mais vulgar e mundano é incrível e invariavelmente rende as cenas mais engraçadas, quando irrompe inesperadamente. Seu timing para o humor está perfeito. Eu, que estava acostumado a vê-lo apenas em papéis mais dramáticos, fui agradavelmente surpreendido por essa sua veia cômica. Entretanto, na hora em que o drama se apresenta, ele consegue nos entregar todo o peso necessário da situação. Sensacional.
O filme todo é leve e nos faz rir muito - pra quem curte o estilo de humor wes-andersoniano - e, ao final, saímos com uma sensação mais alegre que melancólica. Mas isso, segundo vejo, se dá mais pelo modo como o WA conduz o filme. No geral, pra mim, é uma história bem triste, eufemizada e amenizada pelas doses de humor e cartunicidade. No fundo, é uma alegoria sobre a perda, sobre a efemeridade do mundo e de suas transformações inescapáveis - e, muitas vezes, para pior. Enquanto o velho mundo a sua volta pouco a pouco desmoronava, M. Gustave se dedicava a tentar fazer com que, pelo menos no seu grande hotel, a realidade exterior não adentrasse, não o transformasse, mantendo um alto padrão e uma elegância que, lá fora, há muito já tinham virado comida para os ratos do fascismo e da guerra. Um esforço corajoso e muito respeitável, mas totalmente vão - visto como tudo o que acabáramos de vê-lo passar na sua aventura não representou nada para os soldados que covardemente, e num piscar de olhos, mataram-no. Sim, a humanidade já era então, como ainda o é, apenas este açougue bárbaro. Porém, como nos diz o velho Mustafa em determinado momento do filme: "Para ser franco, acho que o mundo dele sumiu antes de ele nascer. Mas devo dizer que ele sustentou a ilusão com tremenda graça." E que graça.
A Felicidade Não Se Compra
4.5 1,2K Assista AgoraQue filme é esse, cara... Tô até agora embasbacado. Também eu fazia parte daqueles que não sabiam por que nunca o tinham visto. Resolvi sair desse grupo e tive uma das surpresas mais agradáveis do ano. Sim, surpresa sim, porque já imaginava que esse filme seria bom, mas não que seria TÃO bom. Sério, pô, virou favorito instantâneo. Do aspecto técnico geral do filme, tem nem o que dizer: atuações maravilhosas, personagens super carismáticos e adoráveis e um ritmo que não cansa em nenhum momento. A história, desde o começo, te cativa de uma maneira indescritível e tem um momento mais marcante que o outro, enquanto vamos vendo o protagonista - James Stewart, formidável - se sacrificando por todos sem, aparentemente, receber nenhum crédito por isso - seja das pessoas ao redor, seja da vida mesmo, que só vai colocando uma situação pior que a outra pra ele. Tanto que, num certo ponto, cheguei a pensar que seria o filme mais triste do mundo, que o título dele tava mais pra uma ironia que pra uma defesa séria da maravilha da vida. Mas essa foi a grande sacada do Capra, de deixar a virada do filme apenas pros seus 20 minutos finais, proporcionando-nos um combo de emoção como poucas vezes senti. O final lindo e perfeito pra um filme lindo e perfeito. Só de imaginar, os olhos já marejam de novo. O típico filme pra reassistirmos sempre que as forças começarem a vacilar, pois ele tem o poder de nos erguer de novo. Majestoso.
Quanto ao combo do final, comecei a chorar já quando chega o irmão do George e, em meio a todos, propõe o clássico brinde: "Ao meu irmão George, o homem mais rico da cidade!" A emoção já não tava pouca, e aí me vem o livro que o Clarence deu de presente pra ele, com aquela frase tão simples, mas ao mesmo tempo tão verdadeira e bela: "Lembre-se que nenhum homem é um fracasso se tem amigos" - complementada, na sequência, pelo som do sino, revelando que nosso querido anjo acabara de receber suas asas. Phoda, : )
O Destino de Júpiter
2.5 1,3K Assista AgoraSou fã dos Watchowski. Vi todos os seus filmes desde o primeiro 'Matrix' e gosto bastante de todos eles (curto bastante as sequências desse último, acho 'Speed Racer' muito divertido e considero 'Cloud Atlas' fantástico). Também sou muito fã de ficções científicas, especialmente as espaciais. Por fim, também me agrada muito as temáticas "conspiracionistas" - isto é, de alguma verdade escondida que escapa à grande maioria das pessoas e que, no entanto, rege suas vidas sem que elas saibam. Então, não sou um mero hater. Estava aguardando ansiosamente por esse filme. Ele tinha todos os ingredientes pra, pelo menos pra mim, ser grandioso, excitante, belo e deslumbrante. No entanto, infelizmente, ele falhou quase miseravelmente em realizar minhas expectativas.
Não sei se, justamente por essa expectativa bem alta é que o filme não tenha funcionado pra mim como esperava, mas o fato é que não funcionou. Bom, claro que há aspectos positivos. Visualmente, 'O Destino de Júpiter' é mesmo admirável. O uso dos efeitos e a construção dos ambientes do filme são mais do que eficientes, são realmente interessantes. Além disso, o enredo geral "conspiracionista" - apesar de, como outros apontaram, ser bastante semelhante ao do próprio 'Matrix' - também me agradou muito. Contudo, em todos os outros aspectos, é decepção atrás de decepção. O roteiro é fraquíssimo, os diálogos são horríveis, a edição é amadora, as atuações são, no máximo, burocráticas, o carisma dos personagens é zero, os vilões não passam um perigo real e a química entre os protagonistas é muito forçada. Não houve sequer um momento em que me importei com qualquer um deles, pareciam todos deslocados naquele universo que tinha tudo pra ser maravilhoso, mas que era revelado como inverossímil e tolo na inexpressividade dos mesmos. Em pleno séc. XXI, temos uma das protagonistas mais fracas dessa década, ladeada por um parceiro exageradamente "Deus Ex Machina". Quer dizer, não é exatamente uma combinação muito feliz.
Como mero entretenimento, despretensioso, o filme até passa. Isso, somado ao fato de que realmente gostei da trama principal - que tinha um potencial enorme e foi tristemente mal aproveitada -, fizeram com que, ainda assim, tenha dado 7 pra esse filme. Mas está há anos-luz da qualidade, energia e profundidade daquilo que esperávamos de uma obra dos Watchowski. Uma pena.
Boyhood: Da Infância à Juventude
4.0 3,7K Assista Agora"O que te faz pensar que elfos são mais mágicos que uma baleia? Entende? E se eu contasse uma história de que dentro do oceano há um gigantesco mamífero marinho que usa um sonar, que canta canções,e é tão grande que seu coração tem o tamanho de um carro, e você poderia engatinhar pelas suas artérias. Pareceria mágico, não?"
Segundo penso, é nesse trecho de diálogo entre pai e filho que reside a chave para compreendermos a intenção do Richard Linklater ao realizar sua obra-prima. Muitos reclamam que no filme não acontece "nada"; que ele é apenas a sucessão de fatos comuns e relativamente banais na vida de uma garoto comum: realização de tarefas domésticas, conversas com a mãe, brincadeiras com a irmã, fins-de-semana com o pai, uma reflexão ao acaso enquanto viaja com a namorada... Coisas que acontecem na vida de todos nós e que, por conta disso, parecem desprovidas de qualquer importância. Mas é justamente essa percepção desencantada que o Linklater quer questionar: por que momentos grandiosos e/ou marcantes - ainda mais aqueles típicos de filmes hollywoodianos - são mais mágicos do que os pequenos acontecimentos que compõem nossa vida? Por que um dia de acampamento sem nenhum fator muito memorável, por exemplo, significa menos que o dia cheio de brilhos artificiais da nossa formatura? A vida real não acontece apenas nas situações grandiosas, mas principalmente entre elas, no dia-a-dia de nossas ações mais prosaicas - e, no fim das contas, são estas últimas que constituem nosso ser e nosso caráter, que confeccionam nosso destino, e onde reside, de fato, nossa vida, com todas suas maravilhas e não-maravilhas.
Quem não conseguiu captar esse aspecto do filme acabou achando que a única coisa digna de nota é ver os personagens todos crescendo "de verdade", pelo fato do filme ter aproveitado o envelhecimento natural dos atores nesses 12 anos em que foi produzido. Claro que isso é digno de nota - eu, que assisti ao filme sem saber disso previamente, achei essa uma decisão particularmente genial. Mas é claro também que essa sacada acaba tornando-se indubitavelmente secundária diante da proposta descrita acima - e, na verdade, me parece inclusive funcionar apenas pela ótica dela. Isto é, estamos tão acostumados a ver as pessoas envelhecerem que isso tirou o caráter absolutamente fabuloso desse fato. Mas eis que o filme nos relembra do quão fantástico é envelhecer, como é incrível saber que as pessoas, sim, vão crescendo, vão ficando mais velhas, que o tempo realmente passa e, de repente, 12, 15, 20 anos se foram num piscar de olhos. Como num passe de mágica.
'Boyhood' já é grandioso e precioso em si por ser praticamente o documento de uma época, às vezes mais "verdadeiro" que um documentário (e é delicioso ir captando a passagem do tempo pelas dicas que o diretor vai deixando nas cenas). Mas é claro que ele cresce muito pelo fato de nos identificarmos quase que de imediato com o Mason (mas os homens que as mulheres, talvez - o que é uma pena -, embora ache que haja muito com o que se identificar independentemente de gêneros). E, por conta disso, aproveito pra fazer uma observação, que deveria ser óbvia pra todos, mas acho importante fazê-la de qualquer jeito. É bom deixar claro que essa infanto-juventude mostrada, apesar de muitos de nós nos identificarmos, é bastante específica: ela é branca, ela é classe média, ela é privilegiada. Mesmo para os EUA ela não é uma representação universal da infância e da juventude, que dirá aqui no Brasil, com essa desigualdade social pondo-nos cabisbaixos a cada esquina. Isso não borra a beleza intrínseca ao filme, mas vale a pena ser destacado, especialmente pra produzir certas reflexões em nós, menos egoístas.
Por fim, depois dessa longa resenha, queria dizer apenas o óbvio: que achei o filme belo e maravilhoso, verdadeiramente emocionante. Atuações muito boas, bem de acordo com a proposta do filme, direção firme e consciente e personagens adoráveis, além da brilhante proposta de recuperar o aspecto maravilhoso escondido na aparante mundanidade comum da vida. "Parece mágica?", pergunta-nos Linklater. E responde: "Não, não parece: É."
Star Wars, Episódio VII: O Despertar da Força
4.3 3,1K Assista AgoraI have a bad feeling about this.
O Homem de Palha
4.0 537 Assista AgoraFazia tempo que tinha ouvido falar desse filme, o nome me era muito familiar, e inclusive achava que provavelmente já o tinha visto nalguma sessão da tarde da vida. Eis que finalmente decido parar pra pôr esse sentimento à prova e não poderia ter me surpreendido mais: que filme maravilhoso! Há anos que já deveria tê-lo assistido. Não sei bem se se encaixa na categoria de filme de terror, mas é um suspense maravilhoso, com um mistério muito bem urdido e uma sacada final, senão inteiramente imprevisível, pelo menos sempre muito impactante.
Se formos pensar nele como um filme de terror, ele é, no mínimo, muito peculiar. A começar pela trilha sonora, que está muito longe do padrão deste tipo de filme, tornando-o quase um musical. Vi algumas pessoas que reclamaram dela, mas, pra mim, ela só somou ao filme, trazendo-lhe o clima ideal para o desenrolar da história. Além disso, o terror, em geral, se caracteriza por tomadas escuras, tenebrosas, à noite, privilegiando cenas de espanto e gore, o sobrenatural... E não vemos nada disso em 'The Wicker Man'. Pelo contrário, o filme, em si, superficialmente, apresenta-se num tom mais leve, suas cenas são sempre claras, não fica nada no pano de fundo ameaçando aparecer a qualquer instante. E acho que, no filme inteiro, praticamente nem vemos sangue.
E, apesar disso, o filme é sinistro ao extremo. Em cada cena, temos a certeza de que algo tenebroso paira no ar ,algo escondido na aparente beleza e simplicidade da vida no campo (apesar das estranhezas, para muitos, da religiosidade pagã muito liberal em relação ao sexo e à nudez). Aliás, nem é nada disso sobre a religiosidade que, ao menos pra mim, evoca a suspeita de algo tenebroso, mas sim, o modo como se comunicam e agem os habitantes da ilha, sempre parecendo esconder algo, nunca sendo inteiramente claros e diretos.
E nossa suspeita se revela ainda maior do que o que esperávamos no ato final. Não darei spoiler específico sobre a mesma, mas posso dizer que é uma cena poderosíssima. Temos que ver o filme todo com outros olhos depois dela. E ela traz uma gama de possíveis reflexões e debates pra esse filme bastante extensa, a maioria delas calcadas na oposição entre paganismo X cristianismo, mas que pode se tornar também uma forte crítica às religiões ou, mesmo, num manual de advertência para teóricos da conspiração.
As atuações, sem dúvida, contribuem fortemente pra que o filme atinja o nível que alcança, e estranhamente traz um par de protagonista/antagonista também o contrário de se esperar em filmes desses; quer dizer, o segundo é mais simpático que o primeiro, embora isso não diga muito sobre a ética das intenções de cada um, o que traz ainda mais tempero pra essa obra.
Enfim, um filme clássico imperdível e que faz jus à alcunha de cult. Pra mim, apesar de não ser melhor, facilmente entra no hall de filmes como 'O bebê de Rosemary' e 'A profecia'. Recomendo.
A Entrevista
3.1 1,0K Assista AgoraNão consigo parar de cantar 'Firework'.
O Sinal: Frequência do Medo
2.9 373 Assista AgoraNão vi o trailer do filme, como muitos, mas vi que ele tinha sido consideravelmente elogiado depois de ter sido lançado no festival de Sundance, logo, como aqueles, também tinha muitas expectativas. Que, bem, igualmente não foram alcançadas. Apesar de não ter achado o filme ruim, me decepcionou bastante. Até por conta dos pontos positivos, que não são poucos: a ideia inicial e os primeiros 20 e poucos minutos do filme, até um pouco depois da primeira reviravolta, são muito bons; aliás, no geral, o clima dele não deixa a desejar, tem uma aura de suspense e inquietação bem legal o tempo todo; as atuações são bem convincentes, especialmente em se tratando de um filme com 3 novatos praticamente desconhecidos - embora o destaque mesmo vá pro Lawrence Fishburne que, se não está brilhante, ao menos sempre nos prende com sua forte presença em cena.
Contudo, apesar disso, como disse, o filme é uma decepção (e quem não quiser saber nada sobre o filme, deixe de ler aqui, porque darei SPOILERS IMENSOS!!). Apesar de ter tido uma boa ideia inicial e algumas outras aqui e acolá, o diretor claramente não soube o que fazer com elas e nunca teve um roteiro muito bem acabado; há furos imensos, o tempo inteiro (por exemplo, como pode ser verossímil que, em nenhum momento, o Nick tenha percebido que haviam posto pernas biônicas nele? E o que foi aquela cena da vaca, sem sentido nenhum?). Além disso, as atitudes dos personagens também não são muito verossímeis; quer dizer, em nenhum momento questionam apropriadamente o Damon sobre quem era ele, qual o motivo de tudo aquilo, o que eles pretendiam, o que havia acontecido de verdade, etc., etc. E nem mesmo as atitudes do Damon são compreensíveis, fazendo com que nós tenhamos que construir teorias mirabolantes pra poder dar conta de por que ele sai com uma mala matando as outras pessoas na simulação (e eu construí essa teoria, mas é uma pena que ela foi elaborada com quase nenhuma ajuda do diretor, apenas com sugestões mínimas).
O final - que, pra muitos, é o que salva o filme -, pra mim, terminou por destruir a possibilidade de ser um grande filme. A reviravolta final não só não é exatamente imprevisível como também não é lá muito original (quem já assistiu a 'Cidades das Sombras' entenderá). Sem contar que a suposta diferença deste final pro do filme recém-citado gera muito mais problemas
(afinal, se aquela nave é extraterrestre, por que tem aqueles números 2.3.5.41 nela? Por que aliens usariam uma representação humana? E, se a própria nave é humana, como e quando se desenvolveu toda aquela tecnologia? E, mais complicado, como lançaram aquela nave no espaço, sem que ninguém nunca ficasse sabendo? Afinal, ela não é exatamente pequena.
Enfim. Dei três estrelas pro filme, o que quer dizer que ele é assistível, é um bom entretenimento e tem seus bons momentos. Mas está muitíssimo longe de ser um grande filme.
True Detective (1ª Temporada)
4.7 1,6K Assista Agora"Antigamente, só existia escuridão. Na minha opinião, a luz está vencendo."
(lágrimas escorrendo)
Os Cavaleiros do Zodíaco: A Lenda do Santuário
2.5 808Que me desculpem os supostos novos fãs e mesmo os fãs antigos que talvez tenham gostado desta animação, mas só posso dizer que esta é uma das piores que já vi. De longe, o filme mais decepcionante de 2014 - talvez da década - e que trata os fãs antigos com um desrespeito que poucas vezes vi nesse tipo de adaptação. Absolutamente NADA justifica todos os abusos cometidos, desde o fraquíssimo desenvolvimento dos personagens até os ABISMOS no roteiro. Isso pra um filme que começou até bem e cuja qualidade da animação, se não é perfeita, não deixa a desejar - e certamente não é um problema no filme. E foi só por conta dela, e de algumas poucas cenas, que cheguei a dar 2 estrelas (embora ainda haja a possibilidade de diminuir ainda mais essa nota).
É claro que, como outros já salientaram, querer contar em uma hora e meia uma trama que se desenrola originalmente em mais de setenta episódios, seria algo muito complicado de se fazer. Já se imaginava que o filme provavelmente seria corrido e que poderia haver furos no roteiro. Contudo, imaginei que quem quer que estivesse fazendo isso tivesse, também, consciência dessas dificuldades e se precavesse contra as mesmas, ou as amenizasse - afinal de contas, se decidiram fazer o filme sabendo disso, pensei que sabiam o que estavam fazendo. Além do mais, como fã, esperava mais ver batalhas épicas no santuário, como no anime, sem me importar muito pra justificação dada no começo. O filme, porém, não só não conseguiu resolver minimamente esses problemas - uma vez que os furos são abissais e o ritmo do filme é ininteligível pra quem não conhece a história previamente - como piorou tudo ainda mais com alterações, no mínimo, tolas e sem propósito e, em ultima instância, desrespeitosas e ridículas. Entre estas, podemos citar:
a destruição do personagem do Máscara da Morte, que virou um palhaço de circo alá Jack Sparrow; o descaso com Ikki e Shaka, muitíssimo mal aproveitados (Shaka não faz nada e, Ikki, todo orgulhoso, acaba só apanhando); Afrodite não serve pra nada; lutas sem emoção e contextualização adequada; Seiya com braço de megazord e, depois, "transformado" em centauro (??); Saga se virando monstro de pedra (???)
Enfim. O filme é um grande lixo. Me fez sentir raiva e vergonha alheia quase o tempo inteiro. Contudo, fui com um grupo de amigos e, após a decepção maior haver passado, consegui me divertir com o ridículo que se desenrolava diante de meus olhos, algo similar ao que ocorreu quando o Brasil perdeu de 7 a 1 na copa e fui pro twitter rir de tudo aquilo com a galera. Como alguém disse noutro comentário, filme tão ruim, mas TÃO ruim, que deu a volta e virou uma comédia de primeira, estilo Sharknado. Mas foi rir pra não chorar MESMO, porque só posso lamentar muito ver um dos desenhos/animes que mais me marcaram, e que mais gosto, ter se transformado nessa palhaçada.
A Fortaleza Escondida
4.2 59#SPOILERS#
Começando pela obrigatória referência a Star Wars, fica muito claro, desde o início, os elementos nos quais Jorginho Lucas se inspirou para elaborar sua famosa saga: em primeiro lugar, os dois personagens alívio-cômico que aparecem logo na primeira cena, por cujo olhar a épica história é narrada (a propósito, senti um quê beckettiano de Vladimir e Estragon nos dois, algo que engrandeceu o filme pra mim, num certo sentido); fica bem claro que Lucas não apenas se inspirou neles pra criar C-3PO e R2-D2, mas também a própria forma de narrar o filme pelos olhos de dois personagens não tão importantes. Em segundo lugar, claro, a própria história da princesa em fuga cuja terra natal foi arrasada por um "império do mal". Além disso, aqui-e-acolá pipocam outras relevantes contribuições, como a própria edição do filme e outros detalhes menores.
Dito isto, entretanto, apesar das claras inspirações, é importante de dizer que, no geral, são dois filmes bastante diferentes. Inclusive, penso que não é muito interessante para 'The Hidden Fortress' essa comparação com Star Wars, pois, se ficarmos esperando semelhanças no roteiro além das que apontei, poderá haver desapontamentos - o que seria uma tremenda injustiça com este filme, visto que ele vale a pena ser visto pelo que ele próprio tem a oferecer, e não é pouco.
Cabe aqui destacar que este é um Kurosawa diferente. Não é exatamente um filme reflexivo e profundo como boa parte daqueles de sua filmografia. É um filme mais leve, de ação e aventura, mas bem acima da média. Quando compreendemos esta intenção do diretor e fugimos da expectativa de assistirmos a um novo 'Rashomon' ou 'Sete Samurais', só então podemos ver o quão bom esse filme é, com uma história épica e personagens bastante carismáticos. Afora a já mencionada dupla, engraçadíssima, temos Toshiro Mifune sempre muito bem, dominando as cenas com sua imponente presença; a Misa Uehara, no papel da princesa, com uma personalidade forte que esbanja nobreza, além de termos um excelente General "do mal" interpretado muito bem pelo Susumu Fujita.
Não fosse tudo isso, o filme ainda tem pelo menos duas sequências fantásticas, a saber, a do duelo entre o Rokurota e o Tadokoro (que começa com aquela sensacional perseguição a cavalo que deixa muito western no chinelo) e, claro, a cena do festival do fogo, como o povo todo dançando e aquela canção popular de significado tão pungente que teve o poder de causar aquela reviravolta no final.
Não se tornou o meu Kurosawa favorito, mas certamente não é um Kurosawa menor, como dizem alguns. É apenas um filme diferente, com outra proposta - e, nesse sentido, foi muito bem sucedido. Recomendo.