Um dos maiores documentaristas da historia, Coutinho sempre mostrou compreender a potência da narrativa em seus trabalhos. Aqui, assim como em seus outros trabalhos notórios e geniais ele flerta com a noção da realidade ficcional e faz dela sua teste principal. Acho esse seu trabalho mais minimalista e lento. Mas a ideia de igualar o real e o controlado, o atuado (e não estamos todos atuando) e o espontaneo e refletir se a natureza falsa de uma gravação consegue ultrapassar o ilusório. O captado e refletido produz sentimentos que nos lembram tudo, menos fingimento.
Em um contexto capitalista onde existencia é atrelada a produtividade a sociedade ocidental moderna cada vez menos sabe lidar de forma honesta e bonita com o envelhecimento, ao contrário, o conceito é colocado no lugar do improdutivo, do que carece de cuidado e do que espera a morte...Nesse contexto Tereza é mensagem de resistencia por estar viva e querer viver, entender que ainda pode construir histórias, viver emoções e realizar sonhos. O filme por horas se deslumbra com uma jornada inocente de descoberta e faz mergulhos mais rasos do que poderia, ainda sim tem beleza poética para dar e vender. Que enquanto houver vida, vivamos!
O colapso cada vez menos silêncioso de não caber em si e não se ver percebido pelo outro. Minha primeira sensação ao terminar o filme foi de alguma decepção, minha expectativa era alta e os ciclos aqui são repetitivos, quase exaustivos, e esperamos por uma luz que nunca vem. Quanto mais eu penso nele mais, entretanto, passo a gostar do que é feito. O filme acerta em não patologizar sua protagonista (e esse talvez seja dos trabalhos mais interessantes da J. Lawrence) e nunca romantizar ou fetichizar sua condição, nunca cair no caricato, ao invés disso ele optar pela construção de um problema de linguagem, existir no mundo onde ela está é uma dor, e seu marido, que não é um vilão (mas é falho, humano), simplesmente não consegue acompanhar, enxergar ou compreender. Não é então, sobre o racional e sim sobre o existencial, e é nessa toada que o filme cresce em mim. Entendo então que a linguagem do filme não busca fluidez, busca atrito, desconforto (algo como o filme Meu Pai faz, ali com Alzheimer). E nesse sentido sua montagem inconstante (que gera sim problemas de ritmo) vem para fortalecer a linguagem em torno de sua proposta fugindo do que seriam locais faceis para essa narrativa, fugindo do confortável, nunca sendo um abraço e nos colocando sempre no local de observador da complexidade moral, emocional e existencial.
As vezes a vida não nos basta, não podemos impor a ela o controle, o ritmo, o sentir e até a comunicação que precisamos. Nessas horas buscamos o extravaso pela arte, ela cura, salva, alivia, pressiona, reflete e reconstrói. Ainda nesse contexto, é interessante percebemos o como sentimos e lidamos com as coisas de formas únicas, temos nossas próprias batalhas e nossos próprios caminhos, por mais duro que sejam. Poderia passar linhas e linhas falando sobre o como todos os elementos de Hamnet funcionam, a direção consciente e madura (auge de Zhao até o momento), as atuações intensas e profundas, a fotografia barroca, a trilha... Mas o fato é que todos esses elementos unem-se para que o filme seja, acima de tudo, sentir. E ele o é. A natureza é pertencimento de um Agnes hipnotizante, ela é liberdade, cura e sabedoria, é força. William por outro lado carece de Londres, urge por esvaziar sua mente em palavras. E não há vilões aqui se não o decorrer da vida, e o filme que poderia facilmente cair no lugar confortável de fetichizar o sofrer de suas personagens nunca o faz. O meio impacta seus indivíduos de forma que os leva a reagir, cada qual a sua maneira. A alma do filme aqui não habita na introspecção, que se faz presente, mas sim na nossa capacidade de externaliza-la, tendo seu apogeu no que é uma das cenas finais mais lindas que eu já vi no cinema. O lirismo se torna bruto ou a brutalidade se torna lírica, e o palco da arte se transcreve em palco do eu, da vida, do que comunico.
Direto e sem chantagens emocionais, o retrato de o como a arte fere e aproxima. Um pai ausente cujo a unica linguagem e conexão honesta com o mundo se dá pelo cinema, Gustav não vilão, não é um artista sofredor, ele é charmoso, carismático, narcisista...humano. Para sua filha, Nora, arte é grito, é expurgo e é terror (do tipo que dá frio na barriga). Em elegantes debates o filme se deixa levar por camadas a mais do que precisaria (há uma intenção de critica aos streamings pobremente explorada, hiperexposição de estrelas, etc). Mas em seu cerne a memória, o valor sentimental que damos as coisas, aos lugares, as pessoas. Às vezes continuamos morando na mesma casa em que vivemos nossa infância, mesmo quando já fomos embora
Em tempos de lideres politicos que se consideram messias e de uso da fé como dialogo para violencia e afastamento (e é históricamente assim) Rian Johnson mostra que é um cineasta para a gente seguir de olho e usa de um filme de investigação charmoso e caricato para colocar na pauta o espaço que a fé pode e deve ter na vida daqueles que ela procuram. O padre de Josh O Connor é sem dúvida ponto alto aqui, muitas facetas de um homem de fé são colocadas no tabuleiro de forma natural e ouso dizer quase aconchegante. E embora seja essencialmente um filme sobre fé, hipocrisia e seguidores alucinados o mistério que engloba tudo isso ainda é bem divertido de acompanhar. Sinto que os primeiros Facas e Segredos sofriam um pouco para confiar no peso da imagem para construção de sua mensagem, não que esse resolva totalmente isso mas abraça um pouco mais essa relevancia. Achei o melhor da franquia e um bom motivo para seguir acompanhando o trabalho de Rian Johnson.
Existem certas histórias que parecem dialogar com a obra de alguns diretores. Esse ano duas me bateram a porta e chamaram a atenção, primeiro "Nosferatu" na mão de Robert Eggers e como a expectativa é inimiga da experiência me vi bem decepcionado com esse primeiro. E agora, "Frankenstein" na mão de Del Toro, e para minha felicidade nem tudo é caos mas falta. Frankenstein é uma das minhas historias favoritas da vida, cheia de dilemas morais complexos, criador lidando com sua criação (e vice-versa), crueldade humana e muito mais. Uma das grandes tragédias narrativas da historia. (sim, Frankenstein é um drama existencial, e isso o faz uma historia de horror). Aqui, há um acerto principalmente na construção de mundo e atmosfera, como é de praxe na filmografia do diretor, também um acerto em não apelar a um horror tradicional e sim focar no drama, o visual entretanto é passivel de debate, acho a escolha estética da criatura como quase uma versão dos Aliens de Prometheus afasta o impacto que gera tamanha aversão ~~ou suposta ~~ naqueles que o veem, sem falar em um CGI estranho de animai (nada que tire do filme mas definitivamente não colabora para nos aprofundarmos nele). Há aqui um respeito muito grande pelo que é a obra prima de Shelley mas ao meu ver o filme carece essencialmente de duas coisas. A primeira é uma novidade que justifique sua existência (coisa que o anteriormente citado Nosferatu ao menos tenta) e a segunda é a profundidade emocional que tal tragédia pede, a falta de sutilezas e flerte com o unidimensional em suas personagens infelizmente faz o resultado final soar um melodrama bem intencionado que tropeça em não saber lidar com a profundidade poética que a narrativa pede.
Verdade seja dita: Ando um pouco cansado do cinema de Wes Anderson então fui ver esse filme sem grandes pretenções, mas para minha surpresa ao enunciar a plasticidade de seu universo planejado como uma peça, abraçando o perfeccionismo simétrico costumeiro e cores pastéis como fantasia teatral sinto que Wes consegue, ao menos um pouco, rir de si mesmo e brincar com seus maneirismos de forma poética. Há um abraço do no sense como metafóra aberta para que o espectador construa o filme junto (como já feito em algumas outras obras anteriores do diretor) mas as temáticas são claras e diretas e o lúdico dá lugar ao consciente, e o filme as trata com o habitual charme blase de suas obras, de modo geral gostei muito do filme e do como ele abraça uma sistemática narrativa neurótica e autoconsciente.
A história e os personagens são fascinantes mas a forma como ela é contada se prolonga em conflitos pedantes e óbvios. Modo geral me atraio por histórias onde o "civilizado" é forçado a se desconstruir, se questionar, e talvez por isso queria mais. Ana de Armas insuportável aqui e Ron Howard não o perdoarei por fazer da Sidney Sweeney a mais humana das personagens desse hospício.
Não faz nada de particularmente errado mas é bastante plastificado e esvaziado. As coisas são como elas são porque elas são ditas assim, o vilão é dito como invencivel, a familia é dita como querida, o dilema é dito como complexo... mas nada disso é de fato sentido. Não é um filme ruim mas segue uma leva Marvel de potencial desperdiçado. A trilha do Giacchino oferece um épico que o filme não acompanha (mas é ótima) e o elenco tem charme, só não tem muito pra onde ir... A versão de 2005 se assume como galhofas, a de 2015 ousa num terror independente (e falha, mas tem personalidade), essa aposta no seguro e não se sobressai.
Há, ao meu ver, um grande mérito no naturalismo magnético com que Kleber constrói sua historia e seus personagens aqui, seja nas atuações, seja na construção narrativa ou mesmo na construção de planos, o uso da trilha, o filme soa totalmente fluido e nos prende em carisma, tensão, afeto e, sim, memória (afinal, a boa ficção nos diz muito sobre a verdade). O protagonista (vivido por um BRILHANTE Wagner Moura, chega de relacionar o homi só a Capitão Nascimento, por favor) é, se nada além, uma “vitima” de seu contexto e se vê coagido as situações em que é colocado, mas nunca abraça totalmente esse papel, ao contrário, conforme ele vai compreendendo a intensidade da situação, a universalidade do especifico que o cerca ele a abraça como agente ativo, mesmo que secreto. Kleber, em sua carreira, assume um papel de memorialista, desenrola suas narrativas no costume que resiste ao moderno, no gentil que resiste ao violento (e na violência subentendida da resistência), no que se perdeu mas deixa marcas... mas se em seus trabalhos anteriores (Bacurau, Aquarius, Som ao Redor,etc) o diretor enfatiza o atrito que surge desse embate, talvez esse me cative mais por construir também a solidariedade que surge de momentos como esse (e que personagens deliciosos há nesse sentido, Sebastiana, meu coração é todinho seu mulher).
Um exercicio de cinema onirico onde a forma de expressão, de uso da linguagem, diz muito. O filme todo parece um grande sonho, seja na relação dos espaços (a casa aqui é narrativa, propósito e personagem) ou seja na relação entre personagens (todas parecem ser espectros de um mesmo eu, amplo, em busca de amadurecimento). Tal qual nos sonhos é dificil definir se estamos sonhando ou em um pesadelo, é um terror com comédia? Uma comédia com pitadas de horror? Os rótulos não importam... Se as personagens femininas enfrentam os horrores de amadurecer, de lidar com um pós guerra, com amor, com relação com os pais, etc. os personagens masculinos nunca conseguem se fazer presentes (é o marido que não volta da guerra, o pai que não vai buscar a própria filha, o professor que está atrasado...) e temos direito até a gatos ambiguamente mágicos. Sinto que por sua linguagem única o filme talvez não seja um prato pra todos mas é inegável sua criatividade e o uso do absurdo e do brega como linguagem pra comunicar algumas paradas de forma divertida
O filme se desenvolve por verborragia, os personagens estão o tempo todo verbalizando o perigo, dores e tensão. Pouco é deixado para a imagem. A casa, local onde habita o mal, é pobremente filmada e nunca nos é permitido ter dimensão daquele espaço e portanto de seus perigos (a claustrofobia dos close-ups até é legal mas limita a imersão espacial do perigo). O carisma do antagonista segura muito da tensão que falta nas imagens, entretanto. Há boas ideias aqui, gosto da proposta e da história mas falta a compreensão cinematografica de um José Mojica Marins ou de uma Juliana Rojas de dominar o terror como linguagem audiovisual
Me parece caracteristico que boas ficções cientificas quando passam por diretores com visões interessantes alcancem em mesma medida a grandiosidade e o intimismo profundo. E aqui o intimo é o que há de mais potente. O personagem de Roy é o centro magnético da narrativa, que ganha potencia com uma das melhores atuações que já vi de Brad Pitt. Nele vemos o dilema de um homem tão dedicado a seu trabalho que beira o robótico, que usa da sede de exploração do desconhecido como impulso de afastamento do conhecimento, de não-enfrentamento do real. A cada momento do filme, entretanto, o personagem é desconstruído, o heroi americano não existe e quanto mais distante da terra mais profundo vemos a psique quebrada do mesmo.
Um dos retratos mais belos de infancia, de irmandade, de familia e de relação com o mundo através da fantasia que eu já vi. Satsuki e Mei são carismaticas, adoraveis e magneticas e a liberdade narrativa permite que nós, espectadores possamos ver o mundo pelo olhar amoroso, temerário pela mãe e belo pela fantasia que encontram das irmãs. Não há rigidez narrativa, um vilão a ser superado e como sempre Miyazaki não subestima sua audiência e não contextualiza um pingo a mais do que necessário. Um abraço quente em forma de cinema... e quanto mais penso em Miyazaki como diretor mais me pego pensando no como talvez seja um dos meus diretores favoritos da vida!!!
Limita a sua crítica à inversão de corpos dentro da binariedade proposta num contexto machista e absurdo (criticando a naturalidade que esses contextos tem), seja no figurino, no enquadramento ou no tratamento narrativo. Não é esvaziado por total mas tudo é simplista, deverás mastigado e ao escolher abandonar as sutilezas em prol do sátirico perde-se também um pouco da profundidade e densidade que o tema pede. A ideia defendida é muito boa, o elenco é incrivel mas falta ao filme coesão: de abraçar em profundidade o absurdo e o trash ou de se manter na linha do discurso sério... E as onças, ah as onças...
Um desagradável e potente soco no estômago. Daqueles filmes que quando acabam sempre me colocam pra pensar no lugar do cinema como denuncia social, nas suas potencias e nas suas dores. Acho que um grande acerto aqui é nunca espetacularizar as violências sofridas, sinto que a diretora entende perfeitamente até onde pode ir e como retratar. Vemos somente até onde precisamos ver e o amargor fica, e fica com força. O choque não existe aqui somente pelo choque, sinto que a proximidade documental da ficção proposta faz com o choque venha como a potencia de denuncia do real e o filme entende que o silêncio comunica tudo que precisa. O filme é todo de Jamilli Correa, sua Marcielle entrega a morte da infancia, desespero, dor, violência, ódio... tudo no olhar, no postural e principalmente nos silêncios. Quero muito acompanhar novos trabalhos dela. Um trabalho inspirado e muito triste
Tem bons sustos, o drama familiar é legal mas falta molho e originalidade, falta, ao final, impacto. Fica a sensação de mais um capitulo esquecivel do que um fechamento (se é que essas sagas se encerram) memorável
Complexo, aterrorizante e potente. Na primeira cena do filme vemos dois homens brigando por um pedaço de carne, ao brigar por ela, eles a perdem. E eis aqui o manifesto: se no cinema novo a fome é estética aqui ela é também industria. É sintomática, é marketing, exótica e espaço de diferenciação, ela traça a linha, seja entre o humano e o sagrado, entre o desespero e o empático, entre a arte e o capital... E quando industrializada ao extremo o nacional se confronta com o global. A fome deixa de ser o exótico do terceiro-mundo e passa a ser a potencia do global de "evolução" humana. E no todo temos a dicotomia de pão e circo, a espetacularização do sofrer na batalha de sobrevivência ante o precário usado como metalinguagem.
Tobin Bell carrega e eu adoro o tom moralista do JigSaw dele. Mas a vibe anti herói humanizando ele e sendo amigo de criancinhas não me desceu... Covarde
Jogo de Cena
4.4 351 Assista AgoraUm dos maiores documentaristas da historia, Coutinho sempre mostrou compreender a potência da narrativa em seus trabalhos. Aqui, assim como em seus outros trabalhos notórios e geniais ele flerta com a noção da realidade ficcional e faz dela sua teste principal. Acho esse seu trabalho mais minimalista e lento. Mas a ideia de igualar o real e o controlado, o atuado (e não estamos todos atuando) e o espontaneo e refletir se a natureza falsa de uma gravação consegue ultrapassar o ilusório. O captado e refletido produz sentimentos que nos lembram tudo, menos fingimento.
O Último Azul
3.7 209 Assista AgoraEm um contexto capitalista onde existencia é atrelada a produtividade a sociedade ocidental moderna cada vez menos sabe lidar de forma honesta e bonita com o envelhecimento, ao contrário, o conceito é colocado no lugar do improdutivo, do que carece de cuidado e do que espera a morte...Nesse contexto Tereza é mensagem de resistencia por estar viva e querer viver, entender que ainda pode construir histórias, viver emoções e realizar sonhos. O filme por horas se deslumbra com uma jornada inocente de descoberta e faz mergulhos mais rasos do que poderia, ainda sim tem beleza poética para dar e vender. Que enquanto houver vida, vivamos!
Morra, Amor
3.1 163 Assista AgoraO colapso cada vez menos silêncioso de não caber em si e não se ver percebido pelo outro.
Minha primeira sensação ao terminar o filme foi de alguma decepção, minha expectativa era alta e os ciclos aqui são repetitivos, quase exaustivos, e esperamos por uma luz que nunca vem. Quanto mais eu penso nele mais, entretanto, passo a gostar do que é feito.
O filme acerta em não patologizar sua protagonista (e esse talvez seja dos trabalhos mais interessantes da J. Lawrence) e nunca romantizar ou fetichizar sua condição, nunca cair no caricato, ao invés disso ele optar pela construção de um problema de linguagem, existir no mundo onde ela está é uma dor, e seu marido, que não é um vilão (mas é falho, humano), simplesmente não consegue acompanhar, enxergar ou compreender. Não é então, sobre o racional e sim sobre o existencial, e é nessa toada que o filme cresce em mim. Entendo então que a linguagem do filme não busca fluidez, busca atrito, desconforto (algo como o filme Meu Pai faz, ali com Alzheimer). E nesse sentido sua montagem inconstante (que gera sim problemas de ritmo) vem para fortalecer a linguagem em torno de sua proposta fugindo do que seriam locais faceis para essa narrativa, fugindo do confortável, nunca sendo um abraço e nos colocando sempre no local de observador da complexidade moral, emocional e existencial.
Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
4.2 406 Assista AgoraAs vezes a vida não nos basta, não podemos impor a ela o controle, o ritmo, o sentir e até a comunicação que precisamos. Nessas horas buscamos o extravaso pela arte, ela cura, salva, alivia, pressiona, reflete e reconstrói. Ainda nesse contexto, é interessante percebemos o como sentimos e lidamos com as coisas de formas únicas, temos nossas próprias batalhas e nossos próprios caminhos, por mais duro que sejam.
Poderia passar linhas e linhas falando sobre o como todos os elementos de Hamnet funcionam, a direção consciente e madura (auge de Zhao até o momento), as atuações intensas e profundas, a fotografia barroca, a trilha... Mas o fato é que todos esses elementos unem-se para que o filme seja, acima de tudo, sentir.
E ele o é. A natureza é pertencimento de um Agnes hipnotizante, ela é liberdade, cura e sabedoria, é força. William por outro lado carece de Londres, urge por esvaziar sua mente em palavras. E não há vilões aqui se não o decorrer da vida, e o filme que poderia facilmente cair no lugar confortável de fetichizar o sofrer de suas personagens nunca o faz. O meio impacta seus indivíduos de forma que os leva a reagir, cada qual a sua maneira. A alma do filme aqui não habita na introspecção, que se faz presente, mas sim na nossa capacidade de externaliza-la, tendo seu apogeu no que é uma das cenas finais mais lindas que eu já vi no cinema. O lirismo se torna bruto ou a brutalidade se torna lírica, e o palco da arte se transcreve em palco do eu, da vida, do que comunico.
Valor Sentimental
3.9 366 Assista AgoraDireto e sem chantagens emocionais, o retrato de o como a arte fere e aproxima.
Um pai ausente cujo a unica linguagem e conexão honesta com o mundo se dá pelo cinema, Gustav não vilão, não é um artista sofredor, ele é charmoso, carismático, narcisista...humano. Para sua filha, Nora, arte é grito, é expurgo e é terror (do tipo que dá frio na barriga).
Em elegantes debates o filme se deixa levar por camadas a mais do que precisaria (há uma intenção de critica aos streamings pobremente explorada, hiperexposição de estrelas, etc). Mas em seu cerne a memória, o valor sentimental que damos as coisas, aos lugares, as pessoas. Às vezes continuamos morando na mesma casa em que vivemos nossa infância, mesmo quando já fomos embora
Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out
3.6 240 Assista AgoraEm tempos de lideres politicos que se consideram messias e de uso da fé como dialogo para violencia e afastamento (e é históricamente assim) Rian Johnson mostra que é um cineasta para a gente seguir de olho e usa de um filme de investigação charmoso e caricato para colocar na pauta o espaço que a fé pode e deve ter na vida daqueles que ela procuram.
O padre de Josh O Connor é sem dúvida ponto alto aqui, muitas facetas de um homem de fé são colocadas no tabuleiro de forma natural e ouso dizer quase aconchegante. E embora seja essencialmente um filme sobre fé, hipocrisia e seguidores alucinados o mistério que engloba tudo isso ainda é bem divertido de acompanhar.
Sinto que os primeiros Facas e Segredos sofriam um pouco para confiar no peso da imagem para construção de sua mensagem, não que esse resolva totalmente isso mas abraça um pouco mais essa relevancia. Achei o melhor da franquia e um bom motivo para seguir acompanhando o trabalho de Rian Johnson.
Frankenstein
3.7 596 Assista AgoraExistem certas histórias que parecem dialogar com a obra de alguns diretores. Esse ano duas me bateram a porta e chamaram a atenção, primeiro "Nosferatu" na mão de Robert Eggers e como a expectativa é inimiga da experiência me vi bem decepcionado com esse primeiro. E agora, "Frankenstein" na mão de Del Toro, e para minha felicidade nem tudo é caos mas falta.
Frankenstein é uma das minhas historias favoritas da vida, cheia de dilemas morais complexos, criador lidando com sua criação (e vice-versa), crueldade humana e muito mais. Uma das grandes tragédias narrativas da historia. (sim, Frankenstein é um drama existencial, e isso o faz uma historia de horror).
Aqui, há um acerto principalmente na construção de mundo e atmosfera, como é de praxe na filmografia do diretor, também um acerto em não apelar a um horror tradicional e sim focar no drama, o visual entretanto é passivel de debate, acho a escolha estética da criatura como quase uma versão dos Aliens de Prometheus afasta o impacto que gera tamanha aversão ~~ou suposta ~~ naqueles que o veem, sem falar em um CGI estranho de animai (nada que tire do filme mas definitivamente não colabora para nos aprofundarmos nele). Há aqui um respeito muito grande pelo que é a obra prima de Shelley mas ao meu ver o filme carece essencialmente de duas coisas. A primeira é uma novidade que justifique sua existência (coisa que o anteriormente citado Nosferatu ao menos tenta) e a segunda é a profundidade emocional que tal tragédia pede, a falta de sutilezas e flerte com o unidimensional em suas personagens infelizmente faz o resultado final soar um melodrama bem intencionado que tropeça em não saber lidar com a profundidade poética que a narrativa pede.
Uma Sexta-Feira Mais Louca Ainda
3.5 225 Assista AgoraSimples e carismatico. Divertidissimo e bem água com açúcar anos 2000. Uma bela continuação
Asteroid City
3.1 235 Assista AgoraVerdade seja dita: Ando um pouco cansado do cinema de Wes Anderson então fui ver esse filme sem grandes pretenções, mas para minha surpresa ao enunciar a plasticidade de seu universo planejado como uma peça, abraçando o perfeccionismo simétrico costumeiro e cores pastéis como fantasia teatral sinto que Wes consegue, ao menos um pouco, rir de si mesmo e brincar com seus maneirismos de forma poética. Há um abraço do no sense como metafóra aberta para que o espectador construa o filme junto (como já feito em algumas outras obras anteriores do diretor) mas as temáticas são claras e diretas e o lúdico dá lugar ao consciente, e o filme as trata com o habitual charme blase de suas obras, de modo geral gostei muito do filme e do como ele abraça uma sistemática narrativa neurótica e autoconsciente.
Rashomon
4.4 313 Assista AgoraA narrativa é subjetividade, é verdade e mentira...e importa? Talvez não.
E o público é juri e juiz no espetáculo do absurdo humano.
Éden
3.3 132 Assista AgoraA história e os personagens são fascinantes mas a forma como ela é contada se prolonga em conflitos pedantes e óbvios. Modo geral me atraio por histórias onde o "civilizado" é forçado a se desconstruir, se questionar, e talvez por isso queria mais.
Ana de Armas insuportável aqui e Ron Howard não o perdoarei por fazer da Sidney Sweeney a mais humana das personagens desse hospício.
Quarteto Fantástico: Primeiros Passos
3.4 543 Assista AgoraNão faz nada de particularmente errado mas é bastante plastificado e esvaziado. As coisas são como elas são porque elas são ditas assim, o vilão é dito como invencivel, a familia é dita como querida, o dilema é dito como complexo... mas nada disso é de fato sentido.
Não é um filme ruim mas segue uma leva Marvel de potencial desperdiçado. A trilha do Giacchino oferece um épico que o filme não acompanha (mas é ótima) e o elenco tem charme, só não tem muito pra onde ir...
A versão de 2005 se assume como galhofas, a de 2015 ousa num terror independente (e falha, mas tem personalidade), essa aposta no seguro e não se sobressai.
O Agente Secreto
3.9 1,0K Assista AgoraHá, ao meu ver, um grande mérito no naturalismo magnético com que Kleber constrói sua historia e seus personagens aqui, seja nas atuações, seja na construção narrativa ou mesmo na construção de planos, o uso da trilha, o filme soa totalmente fluido e nos prende em carisma, tensão, afeto e, sim, memória (afinal, a boa ficção nos diz muito sobre a verdade).
O protagonista (vivido por um BRILHANTE Wagner Moura, chega de relacionar o homi só a Capitão Nascimento, por favor) é, se nada além, uma “vitima” de seu contexto e se vê coagido as situações em que é colocado, mas nunca abraça totalmente esse papel, ao contrário, conforme ele vai compreendendo a intensidade da situação, a universalidade do especifico que o cerca ele a abraça como agente ativo, mesmo que secreto. Kleber, em sua carreira, assume um papel de memorialista, desenrola suas narrativas no costume que resiste ao moderno, no gentil que resiste ao violento (e na violência subentendida da resistência), no que se perdeu mas deixa marcas... mas se em seus trabalhos anteriores (Bacurau, Aquarius, Som ao Redor,etc) o diretor enfatiza o atrito que surge desse embate, talvez esse me cative mais por construir também a solidariedade que surge de momentos como esse (e que personagens deliciosos há nesse sentido, Sebastiana, meu coração é todinho seu mulher).
Slender Man: Pesadelo Sem Rosto
1.5 476 Assista AgoraDizer que esse filme é genérico é uma ofensa aos filmes genéricos já feitos.
Que coisa feia...
Hausu
3.7 256Um exercicio de cinema onirico onde a forma de expressão, de uso da linguagem, diz muito.
O filme todo parece um grande sonho, seja na relação dos espaços (a casa aqui é narrativa, propósito e personagem) ou seja na relação entre personagens (todas parecem ser espectros de um mesmo eu, amplo, em busca de amadurecimento). Tal qual nos sonhos é dificil definir se estamos sonhando ou em um pesadelo, é um terror com comédia? Uma comédia com pitadas de horror? Os rótulos não importam... Se as personagens femininas enfrentam os horrores de amadurecer, de lidar com um pós guerra, com amor, com relação com os pais, etc. os personagens masculinos nunca conseguem se fazer presentes (é o marido que não volta da guerra, o pai que não vai buscar a própria filha, o professor que está atrasado...) e temos direito até a gatos ambiguamente mágicos.
Sinto que por sua linguagem única o filme talvez não seja um prato pra todos mas é inegável sua criatividade e o uso do absurdo e do brega como linguagem pra comunicar algumas paradas de forma divertida
O Predador: A Caçada
3.5 710 Assista AgoraUma aventura de ação simples, honesta e direto ao ponto. Tem a essência do Predador original sem precisar copiar formato
A Própria Carne
3.0 48 Assista AgoraO filme se desenvolve por verborragia, os personagens estão o tempo todo verbalizando o perigo, dores e tensão. Pouco é deixado para a imagem. A casa, local onde habita o mal, é pobremente filmada e nunca nos é permitido ter dimensão daquele espaço e portanto de seus perigos (a claustrofobia dos close-ups até é legal mas limita a imersão espacial do perigo). O carisma do antagonista segura muito da tensão que falta nas imagens, entretanto. Há boas ideias aqui, gosto da proposta e da história mas falta a compreensão cinematografica de um José Mojica Marins ou de uma Juliana Rojas de dominar o terror como linguagem audiovisual
Ad Astra: Rumo às Estrelas
3.3 869Me parece caracteristico que boas ficções cientificas quando passam por diretores com visões interessantes alcancem em mesma medida a grandiosidade e o intimismo profundo. E aqui o intimo é o que há de mais potente. O personagem de Roy é o centro magnético da narrativa, que ganha potencia com uma das melhores atuações que já vi de Brad Pitt. Nele vemos o dilema de um homem tão dedicado a seu trabalho que beira o robótico, que usa da sede de exploração do desconhecido como impulso de afastamento do conhecimento, de não-enfrentamento do real. A cada momento do filme, entretanto, o personagem é desconstruído, o heroi americano não existe e quanto mais distante da terra mais profundo vemos a psique quebrada do mesmo.
Meu Amigo Totoro
4.3 1,3K Assista AgoraUm dos retratos mais belos de infancia, de irmandade, de familia e de relação com o mundo através da fantasia que eu já vi. Satsuki e Mei são carismaticas, adoraveis e magneticas e a liberdade narrativa permite que nós, espectadores possamos ver o mundo pelo olhar amoroso, temerário pela mãe e belo pela fantasia que encontram das irmãs. Não há rigidez narrativa, um vilão a ser superado e como sempre Miyazaki não subestima sua audiência e não contextualiza um pingo a mais do que necessário.
Um abraço quente em forma de cinema...
e quanto mais penso em Miyazaki como diretor mais me pego pensando no como talvez seja um dos meus diretores favoritos da vida!!!
O Clube das Mulheres de Negócios
2.5 25Limita a sua crítica à inversão de corpos dentro da binariedade proposta num contexto machista e absurdo (criticando a naturalidade que esses contextos tem), seja no figurino, no enquadramento ou no tratamento narrativo. Não é esvaziado por total mas tudo é simplista, deverás mastigado e ao escolher abandonar as sutilezas em prol do sátirico perde-se também um pouco da profundidade e densidade que o tema pede.
A ideia defendida é muito boa, o elenco é incrivel mas falta ao filme coesão: de abraçar em profundidade o absurdo e o trash ou de se manter na linha do discurso sério...
E as onças, ah as onças...
Manas
4.2 136 Assista AgoraUm desagradável e potente soco no estômago. Daqueles filmes que quando acabam sempre me colocam pra pensar no lugar do cinema como denuncia social, nas suas potencias e nas suas dores.
Acho que um grande acerto aqui é nunca espetacularizar as violências sofridas, sinto que a diretora entende perfeitamente até onde pode ir e como retratar. Vemos somente até onde precisamos ver e o amargor fica, e fica com força. O choque não existe aqui somente pelo choque, sinto que a proximidade documental da ficção proposta faz com o choque venha como a potencia de denuncia do real e o filme entende que o silêncio comunica tudo que precisa.
O filme é todo de Jamilli Correa, sua Marcielle entrega a morte da infancia, desespero, dor, violência, ódio... tudo no olhar, no postural e principalmente nos silêncios. Quero muito acompanhar novos trabalhos dela.
Um trabalho inspirado e muito triste
Invocação do Mal 4: O Último Ritual
3.0 466 Assista AgoraTem bons sustos, o drama familiar é legal mas falta molho e originalidade, falta, ao final, impacto. Fica a sensação de mais um capitulo esquecivel do que um fechamento (se é que essas sagas se encerram) memorável
O Profeta da Fome
3.8 17Complexo, aterrorizante e potente.
Na primeira cena do filme vemos dois homens brigando por um pedaço de carne, ao brigar por ela, eles a perdem. E eis aqui o manifesto: se no cinema novo a fome é estética aqui ela é também industria. É sintomática, é marketing, exótica e espaço de diferenciação, ela traça a linha, seja entre o humano e o sagrado, entre o desespero e o empático, entre a arte e o capital... E quando industrializada ao extremo o nacional se confronta com o global. A fome deixa de ser o exótico do terceiro-mundo e passa a ser a potencia do global de "evolução" humana. E no todo temos a dicotomia de pão e circo, a espetacularização do sofrer na batalha de sobrevivência ante o precário usado como metalinguagem.
Jogos Mortais X
3.4 529 Assista AgoraTobin Bell carrega e eu adoro o tom moralista do JigSaw dele. Mas a vibe anti herói humanizando ele e sendo amigo de criancinhas não me desceu... Covarde