"Priest of Darkness" é mais um tesouro do cinema japonês. Um filme com uma história que hoje soa quase ingênua, mas guarda a força cultural da época. As atuações são bastante teatrais, como era comum nos filmes do início do século passado. Por tratar-se de um drama, achei que a inserção do humor ficou destoante e desnecessária, mas enfim, ele está presente.
O que mais me chamou atenção na trama foi o choque entre as duas faces do Japão: aquela marcada pela dignidade e lealdade, e a outra, onde se escondem crimes e contravenções. Quando essas duas realidades se encontraram, uma pequena família se desestruturou totalmente, mostrando como o peso da tradição e da sombra, se presentes no mesmo contexto, pode trazer consequências terríveis.
Sim, o filme parece nos contar uma fábula, mas por trás daquela inocente beleza havia uma sociedade que se impunha sacrifícios severos em nome dos costumes, chegando a níveis extremos. Esse cenário nos lembra o quanto um encontro entre honra e transgressão podia ser aterrador.
Em "The Scar" ("A Cicatriz"), Krzysztof Kieślowski se inspira no contexto político da Polônia da década de 60, mostrando como grandes decisões eram tomadas pelo governo sem ouvir a população. A construção de uma fábrica química na cidade de Olecko é apresentada como símbolo desse autoritarismo: um projeto que prometia progresso e empregos, mas que ignorava os impactos sociais e ambientais, desalojando famílias e devastando a floresta.
A metáfora da cicatriz serve tanto ao personagem central, Bednarz, que carrega uma questão pessoal de vinte anos atrás, como também à população de Olecko, marcada pela perda de identidade e pertencimento. As cenas em que moradores resistem em deixar suas casas são especialmente fortes, revelando o choque entre a promessa de modernização e a dor da ruptura comunitária.
Um dos diálogos mais importantes é a conversa entre Bednarz e um repórter. O repórter ressalta que, antes da fábrica, a cidade estava economicamente estagnada, mas havia um senso de pertencimento local. Com a industrialização, esse vínculo se dissolveu, restando apenas uma massa avulsa de trabalhadores. Mas Bednarz lhe diz que, na verdade, o povo deveria saber que tudo pertence a todos: as ruas, as casas, o trabalho. Assim, Kieślowski propõe uma reflexão sobre coletividade e consciência social, uma ideia que nos escapa até hoje.
Impressiona a profundidade com que Kieślowski aborda temas controversos sem cair em proselitismo, pregações ou imposição de dogmas. Em "Blind Chance", isso fica evidente. O enredo é complexo e, de início, me deixou confusa até compreender que a história detalharia três possibilidades de destino para o protagonista (Witek), desencadeadas por um mesmo ponto de interseção: a partida de um trem. Cada uma das alternativas apresentava rumos completamente diferentes, inclusive no campo da espiritualidade, dos ideais políticos e dos relacionamentos.
Kieślowski parece refutar a hipótese de que temos um destino previamente traçado. Ao contrário, o filme mostra como ficamos sujeitos ao acaso, a eventos fortuitos que, independentemente de nossas escolhas, podem mudar radicalmente nossas vidas. Esse entendimento restringe a ideia de livre-arbítrio, propondo em seu lugar uma liberdade relativa, onde é possível refazer a rota em cada contexto ou simplesmente seguir o fluxo natural dos acontecimentos.
O ponto de interseção entre os três destinos representa o acaso. Pegar ou não pegar o trem? O resultado não dependia da vontade do personagem, assim como ele também não escolheu as pessoas que encontrou pelo caminho. O que então o guiou e fez com que se tornasse permeável às influências externas e às situações que se apresentavam? Provavelmente suas convicções e sua abertura emocional e intelectual. Assim, Kieślowski sugere que o entrelaçamento de todos esses fatores traça nosso destino: o acaso oferece os caminhos, as pessoas nos atraem para um deles e nossa subjetividade decide se os aceita ou não.
Este longa é a versão expandida do episódio "VI de Dekalog" (“Não pecarás contra a castidade”). Apesar do título, não é uma história de amor, mas de paixão e obsessão. O amor verdadeiro é uma construção, uma escolha consistente e duradoura; já aqui vemos apenas o ímpeto de uma primeira paixão.
O jovem Tomek, com 19 anos, passa a observar sua vizinha Magda através de um telescópio. Ela é uma mulher mais velha, independente, sensual e rapidamente se torna objeto de sua fascinação. O voyeurismo inicial se transforma em obsessão e Tomek acredita estar apaixonado. Seu desejo intenso domina seus dias e noites, levando-o a buscar aproximações cada vez mais ousadas.
Magda, marcada por experiências que a fizeram desacreditar do amor, reage com zombaria. Para ela tudo se resume ao sexo, e por isso seduz o rapaz sem perceber o peso que essa experiência teria em sua vida. O impacto é devastador: Tomek, vivendo a intensidade de sua primeira paixão e sentindo-se humilhado, é levado a uma atitude drástica e dramática.
O filme deixa claro que Magda não compreendeu a responsabilidade de ser o primeiro amor de alguém. Esse papel exige tato, empatia e delicadeza, pois as marcas deixadas podem perdurar para sempre, influenciando todos os relacionamentos futuros. Kieślowski mostra, com sensibilidade, como a falta de cuidado com os sentimentos do outro pode transformar paixão em dor irreparável.
Este longa é uma versão expandida do episódio "V de Dekalog" (“Não matarás”). Nele, Kieślowski amplia o olhar sobre o jovem Jacek Lazar, permitindo-nos acompanhar seus passos antes do crime e compreender algumas de suas motivações. Também conhecemos um pouco mais sobre a vítima (o taxista Waldemar), o que reforça a ideia de que em todo ser humano há bondade e maldade, embora nada disso torne um assassinato justificável ou menos hediondo.
Em "Dekalog V", o foco maior foi dado ao defensor Piotr Balicki, tornando conhecidas sua forma coerente de pensar, agir e também suas emoções. Assim, algumas cenas do julgamento de Jacek foram suprimidas e isso acabou reduzindo parte do contexto emocional que envolve sua condenação. Já no longa, esse aspecto ganhou mais espaço, detalhando a execução da pena e deixando a experiência ainda mais intensa e dolorosa.
Neste filme, um dos elementos visuais marcantes é a fotografia: sombria, carregada de tons cinza e amarelados, pesada e dramática. O uso apropriado de luz e sombra funcionou como um recurso narrativo poderoso, transmitindo a atmosfera sufocante da história e a brutalidade dos acontecimentos.
Na época em que "Dekalog" foi lançado (1988-1989), a pena de morte ainda era aplicada na Polônia. A última execução oficial ocorreu em abril de 1988. Então, ela ainda está presente na narrativa e expõe a frieza e indiferença do Estado ao punir com ato idêntico ao que condena. Kieślowski nos leva a refletir se a morte autorizada pela lei não é tão errada e cruel quanto o crime que pretende punir.
"Dekalog" é uma série polonesa feita para a televisão no final dos anos 80, dirigida por Krzysztof Kieślowski. São dez episódios, cada um com pouco mais de 50 minutos, inspirados nos Dez Mandamentos bíblicos. Mas sua proposta não é a de transmitir sermões religiosos, e sim mensagens que nos levam a reflexões morais. Kieślowski usa os mandamentos como ponto de partida para reproduzir alguns dilemas humanos universais. Mesmo para quem não acredita, eles funcionam como guias de convivência e ética. Kieślowski traduz isso em histórias simples, cotidianas, mas carregadas de profundidade filosófica.
O núcleo da série, onde todas as histórias são ambientadas, é um grande condomínio em Varsóvia. Os moradores são os protagonistas e, por vezes, suas vidas se cruzam entre episódios. Essa escolha dá unidade ao projeto e mostra a sociedade polonesa comum da década de 80, com seus problemas, desejos e contradições. Cada episódio é independente, mas a série ganha força quando vista como um todo. É como se cada capítulo fosse uma peça de um mosaico maior, revelando a complexidade da vida moderna e a dificuldade de seguir princípios éticos em situações reais.
Resumindo, "Dekalog" é uma das obras mais marcantes e pessoais sob a perspectiva artística de Kieślowski, transportando os Dez Mandamentos para situações comuns, mostrando que eles não são apenas regras religiosas, mas reflexões sobre como viver em comunidade e lidar com escolhas difíceis. Seu conteúdo exige atenção, mas recompensa com uma visão profunda e sensível da condição humana.
No gênero suspense psicológico, acredito que os elementos decisivos para um bom filme sejam a trama verossímil e qualidade do elenco. "The Invisible Guest" (título original "Contratiempo") possui tais atributos. Com uma narrativa engenhosa e cheia de camadas, os personagens são movimentados ao longo da história como peças em um tabuleiro de xadrez.
O ponto de partida é um acidente de carro em uma estrada isolada, em circunstâncias que jamais poderiam vir à tona para os envolvidos. Porém, a situação foge ao controle e o caso acaba chegando aos tribunais. Uma advogada, especializada na construção de testemunhos, é chamada para auxiliar no processo. Dispondo de apenas 3 horas, tenta articular juntamente com o réu, uma tese de defesa impecável para livrá-lo da prisão.
São então construídas várias versões para explicar e reconfigurar o evento, alternando autores e vítimas conforme novos prismas se delineiam. Essa multiplicidade de perspectivas mantém o clima de dúvida e tensão em alta. E para quem pretende analisar cada tese apresentada, adianto que em algumas delas há falhas que colocam personagens em situações meio impossíveis. Apesar disso, o deslize não compromete a experiência, já que a atmosfera envolvente do filme direciona para um desfecho inesperado.
Aos fãs do gênero, e eu me incluo, trata-se de uma obra instigante, capaz de prender a atenção até o último minuto.
"Peppermint Candy" revela seu desfecho logo nos primeiros minutos. Embora os motivos ainda não sejam conhecidos, as cenas iniciais despertam sensação de constrangimento e estranheza que permanece durante quase todo o filme. Lee Chang-dong adota um estilo direto e realista de retratar a vida, porém seus personagens são introspectivos e silenciosos, sinalizando seus dilemas mais íntimos apenas por meio de atitudes.
No caso do personagem Yeong-ho (Sul Kyung-Gu), nada parece fazer sentido e, a cada nova informação que se tem sobre ele, qualquer empatia inicial se dissolve em meio à revolta e à raiva que seus atos são capazes de despertar. Sempre imprevisível e violento contra todos ao redor, ele sugere ser alguém que há muito perdeu a sanidade.
O filme constrói sua história lentamente, numa viagem de volta no tempo, como se estivéssemos em um trem rumo ao passado. A cada parada, uma peça se junta ao mosaico daquela vida transtornada. Somente após a última estação desse trem metafórico fica possível juntar todas as frações e compreender integralmente a loucura e o ódio que Yeong-ho preserva dentro de si. "Peppermint Candy" é um drama trágico, de sabor amargo, mas que também carrega uma inexplicável sensibilidade humana, algo que Lee Chang-dong consegue transmitir com maestria.
Este filme me despertou tantas questões que acabei pesquisando mais sobre ele. Primeiro, o estranho título em inglês: "The Cannibal Man". Além da ausência dessa prática na trama, há uma cena que contradiz completamente a ideia de canibalismo. Descobri que o título foi escolhido como estratégia de marketing para atrair o público internacional.
Também percebi que existem duas versões disponíveis: a espanhola e a internacional. Na segunda foram retiradas cenas que mencionam o ocorrido com a mãe do personagem Marcos (Vicente Parra) e explicações sobre a máquina trituradora da empresa alimentícia em que ele trabalha. Além disso, Eloy de La Iglesia precisou realizar diversos cortes e adaptações de roteiro para que o filme passasse pela censura do regime franquista. Essa Censura exigiu a retirada de cerca de 62 cenas para suavizar momentos de violência e sexualidade, além de estipular o final do filme, tornando-o anticlimático.
"La Semana del Asesino" (título original) é um filme memorável, um suspense psicológico em que assassinatos não são cometidos por maldade ou psicopatia, mas por desespero. No período de uma semana, acompanhamos a degradação física e emocional de um homem comum que, equivocadamente, acredita precisar ocultar um crime cometendo outros.
"El Diputado" é um filme que se diferencia um pouco de outras obras de Eloy de La Iglesia. Temos aqui um drama íntimo e, ao mesmo tempo político, vivido numa Espanha que enfrentava duras lutas e fervores sociais, face a transição de uma ditadura que durou mais de 30 anos e uma democracia nascente, mas que ainda convivia com os fantasmas da repressão.
Eloy expõe sem pudor as contradições de um político que tenta conciliar prestígio público e vida secreta. O resultado é um filme que denuncia a hipocrisia social e a violência contra aqueles que ousam viver fora das normas. Mais do que autobiográfico, o filme é um testemunho de uma época e uma reflexão sobre a liberdade que ainda hoje é negada a alguns.
Ainda não tinha assistido aos filmes de Eloy de La Iglesia, embora soubesse que hoje é considerado um cineasta polêmico e influente, documentarista da marginalidade urbana e dos problemas sociais da Espanha pós-Franco. Suas obras são realistas, de tom dramático e sombrio, mas ele soube usar o humor irônico como recurso pontual, capaz de amenizar situações graves ou absurdas e, ao mesmo tempo, intensificar sua crítica social.
"Miedo a Salir de Noche" reúne todos esses elementos. É uma comédia dramática, ambientada em Madri no final dos anos 70, período de transição democrática, quando a violência nas ruas crescia e afetava o cotidiano. A imprensa falada e escrita trazia diariamente manchetes alarmantes, instalando o terror na população, que passou a cercar-se de aparatos de segurança e enclausurar-se em casa com medo de sair à noite.
Toda essa tensão, entretanto, é quebrada por um personagem fascinante: o Sr. Cosme (Antonio Ferrandis), um viúvo idoso que insiste em viver normalmente, sem deixar o medo dominar sua rotina. Através dele, o diretor sugere que o excesso de medidas de proteção também pode gerar novos riscos, que manter a população assustada e isolada serve aos interesses de quem deseja manipular e conservar o poder, e que o perigo é parte inevitável da vida, dentro ou fora de casa. Como diria o Sr. Cosme:
- "Paco, não lhe parece mais perigoso o presidente do seu banco do que a maioria desses ladrõezinhos?"
"La estanquera de Vallecas", dirigido por Eloy de la Iglesia, é uma ótima comédia que não se resume ao humor tolo. Baseado na peça teatral de José Luis Alonso de Santos, o longa transforma um assalto frustrado a uma tabacaria em Vallecas, em um retrato crítico da sociedade espanhola dos anos 80. A ousadia do diretor está em misturar comicidade com denúncia social, expondo as fragilidades das instituições e a desesperança de uma população marcada pelo desemprego, pela violência urbana e pelo avanço das drogas.
A narrativa mostra como políticos se aproveitam de escândalos midiáticos para ganhar notoriedade em época de eleição, enquanto a polícia, ineficiente para resolver até um caso simples como o assalto a uma tabacaria, não hesita em recorrer à violência contra os moradores do bairro. Vallecas aparece como um distrito revoltado e descrente, onde a solidariedade popular surge como resposta à ausência de confiança nas autoridades. Nesse cenário, os bandidos não são retratados como vilões perversos, mas como ladrões inexperientes, vítimas da fome e da falta de oportunidades, roubando para sobreviver.
Os assaltantes fazem duas reféns: a dona da tabacaria e sua jovem sobrinha. Desse convívio forçado aflora a humanidade escondida por trás de cada personagem. Entre diálogos tensos e situações inesperadas, surgem vulnerabilidades, afetos e até momentos de ternura, mostrando que, em meio ao caos, há espaço para solidariedade e compreensão. Eloy de la Iglesia, com sua coragem artística, transforma uma comédia em um filme que denuncia desigualdades, critica a política e a repressão policial, e ao mesmo tempo celebra a capacidade humana de encontrar laços mesmo nas circunstâncias mais improváveis.
"Greenland 2: Migration" é um filme sequência, mas não é necessário ter visto "Greenland" para acompanhar a história. O enredo segue fielmente a fórmula típica dos filmes americanos sobre catástrofes globais: a Terra em colapso, famílias tentando sobreviver e dilemas morais em meio ao caos. Tudo bastante previsível, repetindo elementos já conhecidos do gênero, como jornadas perigosas, perdas emocionais e a busca por um lugar seguro. Sem grandes surpresas para quem já está acostumado com esse tipo de filme.
O filme "Paixão e Sombras", de Walter Hugo Khouri, foi rodado nos estúdios da antiga Vera Cruz, já em ruínas, o que por si só lhe dá uma atmosfera melancólica e simbólica. É um trabalho obscuro e autoral, marcado por introspecção e pela sensação de fim de ciclo, tanto do cinema brasileiro daquela época quanto do próprio percurso criativo do diretor. Nesta obra há o uso da metalinguagem, pois ela conta a história de um diretor de cinema que está em processo de realização de seu novo filme.
A casa vazia escolhida como cenário desse filme está sempre inacabada e escura, parecendo refletir o estado interior do personagem central Marcelo (Fernando Amaral), um diretor de cinema em crise, corroído por ausências e pela fragilidade de seus próprios alicerces. Ele questiona constantemente o valor de seu trabalho e vive imerso em sombras desde que sua musa e estrela principal, Lena (Lilian Lemmertz), o abandonou.
Em contraponto, sua assistente Ana (Monique Lafond) está sempre trazendo-o de volta à realidade, lembrando-o de que há outras razões para continuar e de que ele é capaz de realizar filmes de grande qualidade. É nesse embate interior entre sombra e luz, entre o vazio e a possibilidade, que "Paixão e Sombras" se revela não apenas como uma obra de ficção, mas como um retrato íntimo das inquietações de Khouri diante do cinema e da vida.
Fritz Lang, em minha opinião, ocupa um patamar de criatividade, ousadia e genialidade como raramente se vê no cinema. Em filmes como "Woman in the Moon" e "Metropolis", conseguiu antecipar o futuro como se o observasse por um telescópio. É certo que muitos dos aparatos científicos mostrados nessas obras hoje parecem fruto da imaginação inocente de uma criança, mas grande parte do que ali se apresenta ainda impressiona pela riqueza de detalhes e pela antecipação quase exata de uma realidade que só se concretizaria muitas décadas depois.
Quando "Woman in the Moon" foi lançado, a aviação já se consolidava em diferentes vertentes, mas as viagens espaciais permaneciam como especulações técnicas ou fantasias. Escritores como Jules Verne e H.G. Wells haviam popularizado a ideia de visitar a Lua em obras que até hoje habitam o imaginário coletivo. Lang, porém, foi mais longe. Retratou uma viagem espacial a bordo de um foguete de propulsão, simulou a ausência de gravidade dentro da nave, mostrou o planeta Terra visto do espaço e apresentou uma superfície lunar surpreendentemente próxima do que seria revelado no final da década de 1960.
É claro que há inúmeras situações inconcebíveis no filme, mas o essencial está presente: um pioneirismo fascinante. A obra é, na verdade, um misto de drama e ficção. Lang não poderia deixar de abordar o amor, o destino e a ambição humana, e também retratou de forma admirável a personagem feminina, digna, forte, inteligente e bem-sucedida. "Woman in the Moon" permanece como um testemunho de sua notável capacidade de unir imaginação e técnica, criando um cinema que não apenas entretém, mas projeta possibilidades que, à época, pareciam inalcançáveis.
O grande mestre do cinema, Fritz Lang, percorreu fases distintas ao longo de sua carreira. Nos anos 1920 e 1930, em sua fase expressionista, realizou filmes que marcaram para sempre a história do cinema, caracterizados por críticas sociais contundentes e ousadas experimentações visuais. Ainda na década de 1930, Lang passou a trabalhar em Hollywood, onde seu estilo se voltou para um realismo mais seco, explorando temas como justiça e moralidade. Seus protagonistas, geralmente íntegros, encontravam-se cercados por crimes e opressão. Os cenários, antes grandiosos e monumentais, tornaram-se urbanos, simétricos e sombrios, envoltos por uma atmosfera 'noir'.
O longa "The Big Heat" (Os Corruptos) corresponde a essa fase. Trata-se de um suspense policial estrelado por Glenn Ford, com um enredo envolvente que aborda mistério, corrupção policial e política, além de cenas inesperadas de violência capazes de causar forte impacto. Sempre me pergunto como teria sido a história do cinema sem a influência de Hollywood, tão evidente na trajetória de Fritz Lang. No entanto, seu talento e genialidade inegáveis conseguiram trazer para a indústria cinematográfica uma visão fatalista e um rigor visual únicos, deixando obras consagradas que inspiraram grandes nomes como Hitchcock, Orson Welles e Christopher Nolan.
Em "Apur Sansar (O Mundo de Apu)" a trilogia se completa. Vemos sua vida adulta marcada por perdas e pela decadência de seus sonhos. Este último longa é, sem dúvida, o mais dramático e o mais emocionante, pois revela a luta de Apu contra as imposições da vida e contra as dores que nunca conseguiu superar.
Após um casamento inesperado, Apu experimenta brevemente a felicidade conjugal, mas logo é atingido por uma tragédia que o mergulha em um abismo de solidão e desespero. A partir daí, sua trajetória se torna um doloroso retrato da fragilidade humana diante das adversidades. O jovem sonhador que antes buscava conhecimento e liberdade vê-se esmagado pelas circunstâncias, afastando-se de tudo e de todos, até mesmo de seu próprio filho.
Satyajit Ray finaliza a narrativa com uma intensidade rara, mostrando como os sonhos podem se desfazer diante da realidade implacável. A fotografia e as atuações reforçam o peso emocional em um desfecho arrebatador. É o filme que mais emociona, talvez porque expõe a dor da perda, a renúncia e a lenta reconstrução de um homem que, apesar de tudo, ainda busca sentido para sua existência.
O primeiro filme '(A Canção da Estrada)' nos apresentou a infância de Apu. No segundo, "Aparajito (O Invencível)" acompanhamos sua adolescência e o início da vida adulta. Neste longa, a história se divide entre o crescimento do protagonista e a presença marcante de Sarbajaya, sua mãe, numa atuação inesquecível de Karuna Banerjee que desde o primeiro filme representa o vértice emocional da família.
Após a morte do pai, mãe e filho mudam-se para Benarés e, mais tarde, Apu inicia seus estudos em Calcutá. Enquanto o jovem descobre novos horizontes e se abre para o mundo, sua mãe permanece presa à solidão que sempre a acompanhou. Essa solidão, agravada pela distância emocional e física do filho, transforma-a em uma figura muitas vezes amarga e ríspida, ainda que profundamente humana.
Satyajit Ray constrói com delicadeza esse contraste: de um lado, a juventude de Apu, cheia de possibilidades e sonhos, de outro, a dor silenciosa de sua mãe que vê a vida se esvaziar à medida que o filho se afasta. A fotografia e a direção reforçam essa dualidade, tornando "Aparajito" uma obra pungente sobre o amor materno, o peso da ausência e a inevitável passagem do tempo.
Se alguém tivesse dúvidas sobre o que é uma obra-prima do cinema, bastaria assistir à 'Trilogia de Apu' (1955–1959), em que cada filme representa a mais pura definição de arte. Os negativos originais dessa joia do cinema indiano foram destruídos em um incêndio, mas, graças à localização de fragmentos e cópias de segurança, a obra pôde ser restaurada. Ao longo dos três filmes, acompanhamos a infância, adolescência e maturidade do protagonista, Apu.
O primeiro deles, "Pather Panchali (A Canção da Estrada)", retrata sua infância pobre e cheia de dificuldades em um pequeno vilarejo rural de Bengala. Ali viviam, em condições precárias, seus pais, sua irmã e uma velha tia. Apesar da pobreza e dos muitos sonhos não realizados, Apu desfruta de uma infância tranquila, sem plena consciência das tragédias que acontecem ao seu redor.
O diretor Satyajit Ray se inspirou no romance de Bibhutibhushan Bandyopadhyay e conduziu esse drama com enorme sensibilidade. Cada elemento é perfeito e contribui para torná-lo uma obra espetacular: as atuações emocionantes, a fotografia magnífica e o enredo carregado de lirismo. Junto de Apu, respiramos a beleza daqueles primeiros anos de vida e suas descobertas.
Caso você tenha lido o livro, é importante saber que o filme "Wuthering Heights" (2026), dirigido por Emerald Fennell e inspirado no clássico de Emily Brontë, traz inúmeras alterações de conteúdo, especialmente no perfil psicológico dos personagens. A diretora utiliza a história original como pano de fundo para criar uma versão mais sensual e sombria do romance entre Catherine Earnshaw (Margot Robbie) e Heathcliff (Jacob Elordi). O longa enfatiza o apelo sexual, muitas vezes com exageros desnecessários, aproveitando-se da beleza dos protagonistas e de sua popularidade entre o público jovem. Apesar da sofisticação estética e do sucesso inicial de bilheteria, creio que tende a ser esquecido em breve, dada sua irrelevância frente à profundidade do romance original.
Esta versão de "Dr. Jekyll and Mr. Hyde" de 1920, inspirada no clássico de Robert Louis Stevenson, talvez seja a mais elegante e teatral do cinema, muito por conta da atuação intensa de John Barrymore e dos efeitos visuais inovadores para a época, que davam vida às transformações sem cortes perceptíveis. Mais do que um espetáculo de horror, a obra traz uma reflexão filosófica e psicológica sobre a dualidade humana: o bem e o mal coexistem em cada indivíduo, mas, uma vez que o lado sombrio é despertado e se instala, a alma jamais retorna à sua pureza original.
Assisti "Flow" com a minha pequena Milou no colo. Ela se parece tanto com o gato da animação que foi natural compartilharmos essa experiência juntas. À primeira vista, pensei que o filme fosse uma crítica direta à degradação ambiental, no entanto, ao longo da narrativa percebi que sua mensagem é mais ampla: trata-se de uma celebração da cooperação, da solidariedade e da resiliência necessárias para convivermos com aqueles que de alguma forma pensam, agem ou são diferentes de nós. Também fiquei com aquela sensação de que, em momentos difíceis, é preciso deixar a vida seguir seu fluxo. Às vezes não há muito o que se possa fazer, apenas tentar sobreviver da melhor forma.
"The Avenging Conscience" é uma obra relativamente modesta se comparada às grandes produções que D. W. Griffith realizaria posteriormente. Inspirado no conto de terror 'The Tell-Tale Heart' e no poema 'Annabel Lee', ambos de Edgar Allan Poe, o filme explora de forma intensa os efeitos da culpa, da obsessão e do tormento da consciência após a prática de um crime. O protagonista, consumido por seu ato, mergulha em um estado de sofrimento psicológico que revela como a mente pode se tornar o maior carrasco do culpado.
"Orphans Of The Storm", de D.W. Griffith, é um drama de época ambientado na Revolução Francesa. O filme tem como protagonistas as irmãs Lillian e Dorothy Gish, que aparecem delicadas e encantadoras, quase como duas bonecas, mas são submetidas a uma trajetória marcada por intenso sofrimento e provações. A história mostra a separação das duas jovens e os obstáculos cruéis que enfrentam, combinando emoção intensa com cenários grandiosos e uma atmosfera histórica.
O impacto visual está presente, assim como em outros filmes de Griffith, porém o enredo distorce eventos e personagens históricos. Figuras como Danton e Robespierre são retratados de forma desvirtuada, em circunstâncias que não correspondem às suas atuações na Revolução. Essa liberdade artística, embora eficaz para o cinema, distancia o filme da realidade histórica.
Priest of Darkness
3.5 2"Priest of Darkness" é mais um tesouro do cinema japonês. Um filme com uma história que hoje soa quase ingênua, mas guarda a força cultural da época. As atuações são bastante teatrais, como era comum nos filmes do início do século passado. Por tratar-se de um drama, achei que a inserção do humor ficou destoante e desnecessária, mas enfim, ele está presente.
O que mais me chamou atenção na trama foi o choque entre as duas faces do Japão: aquela marcada pela dignidade e lealdade, e a outra, onde se escondem crimes e contravenções. Quando essas duas realidades se encontraram, uma pequena família se desestruturou totalmente, mostrando como o peso da tradição e da sombra, se presentes no mesmo contexto, pode trazer consequências terríveis.
Sim, o filme parece nos contar uma fábula, mas por trás daquela inocente beleza havia uma sociedade que se impunha sacrifícios severos em nome dos costumes, chegando a níveis extremos. Esse cenário nos lembra o quanto um encontro entre honra e transgressão podia ser aterrador.
A Cicatriz
3.4 9 Assista AgoraEm "The Scar" ("A Cicatriz"), Krzysztof Kieślowski se inspira no contexto político da Polônia da década de 60, mostrando como grandes decisões eram tomadas pelo governo sem ouvir a população. A construção de uma fábrica química na cidade de Olecko é apresentada como símbolo desse autoritarismo: um projeto que prometia progresso e empregos, mas que ignorava os impactos sociais e ambientais, desalojando famílias e devastando a floresta.
A metáfora da cicatriz serve tanto ao personagem central, Bednarz, que carrega uma questão pessoal de vinte anos atrás, como também à população de Olecko, marcada pela perda de identidade e pertencimento. As cenas em que moradores resistem em deixar suas casas são especialmente fortes, revelando o choque entre a promessa de modernização e a dor da ruptura comunitária.
Um dos diálogos mais importantes é a conversa entre Bednarz e um repórter. O repórter ressalta que, antes da fábrica, a cidade estava economicamente estagnada, mas havia um senso de pertencimento local. Com a industrialização, esse vínculo se dissolveu, restando apenas uma massa avulsa de trabalhadores. Mas Bednarz lhe diz que, na verdade, o povo deveria saber que tudo pertence a todos: as ruas, as casas, o trabalho. Assim, Kieślowski propõe uma reflexão sobre coletividade e consciência social, uma ideia que nos escapa até hoje.
Sorte Cega
4.1 65 Assista AgoraImpressiona a profundidade com que Kieślowski aborda temas controversos sem cair em proselitismo, pregações ou imposição de dogmas. Em "Blind Chance", isso fica evidente. O enredo é complexo e, de início, me deixou confusa até compreender que a história detalharia três possibilidades de destino para o protagonista (Witek), desencadeadas por um mesmo ponto de interseção: a partida de um trem. Cada uma das alternativas apresentava rumos completamente diferentes, inclusive no campo da espiritualidade, dos ideais políticos e dos relacionamentos.
Kieślowski parece refutar a hipótese de que temos um destino previamente traçado. Ao contrário, o filme mostra como ficamos sujeitos ao acaso, a eventos fortuitos que, independentemente de nossas escolhas, podem mudar radicalmente nossas vidas. Esse entendimento restringe a ideia de livre-arbítrio, propondo em seu lugar uma liberdade relativa, onde é possível refazer a rota em cada contexto ou simplesmente seguir o fluxo natural dos acontecimentos.
O ponto de interseção entre os três destinos representa o acaso. Pegar ou não pegar o trem? O resultado não dependia da vontade do personagem, assim como ele também não escolheu as pessoas que encontrou pelo caminho. O que então o guiou e fez com que se tornasse permeável às influências externas e às situações que se apresentavam? Provavelmente suas convicções e sua abertura emocional e intelectual. Assim, Kieślowski sugere que o entrelaçamento de todos esses fatores traça nosso destino: o acaso oferece os caminhos, as pessoas nos atraem para um deles e nossa subjetividade decide se os aceita ou não.
Não Amarás
4.2 299 Assista AgoraEste longa é a versão expandida do episódio "VI de Dekalog" (“Não pecarás contra a castidade”). Apesar do título, não é uma história de amor, mas de paixão e obsessão. O amor verdadeiro é uma construção, uma escolha consistente e duradoura; já aqui vemos apenas o ímpeto de uma primeira paixão.
O jovem Tomek, com 19 anos, passa a observar sua vizinha Magda através de um telescópio. Ela é uma mulher mais velha, independente, sensual e rapidamente se torna objeto de sua fascinação. O voyeurismo inicial se transforma em obsessão e Tomek acredita estar apaixonado. Seu desejo intenso domina seus dias e noites, levando-o a buscar aproximações cada vez mais ousadas.
Magda, marcada por experiências que a fizeram desacreditar do amor, reage com zombaria. Para ela tudo se resume ao sexo, e por isso seduz o rapaz sem perceber o peso que essa experiência teria em sua vida. O impacto é devastador: Tomek, vivendo a intensidade de sua primeira paixão e sentindo-se humilhado, é levado a uma atitude drástica e dramática.
O filme deixa claro que Magda não compreendeu a responsabilidade de ser o primeiro amor de alguém. Esse papel exige tato, empatia e delicadeza, pois as marcas deixadas podem perdurar para sempre, influenciando todos os relacionamentos futuros. Kieślowski mostra, com sensibilidade, como a falta de cuidado com os sentimentos do outro pode transformar paixão em dor irreparável.
Não Matarás
4.1 135 Assista AgoraEste longa é uma versão expandida do episódio "V de Dekalog" (“Não matarás”). Nele, Kieślowski amplia o olhar sobre o jovem Jacek Lazar, permitindo-nos acompanhar seus passos antes do crime e compreender algumas de suas motivações. Também conhecemos um pouco mais sobre a vítima (o taxista Waldemar), o que reforça a ideia de que em todo ser humano há bondade e maldade, embora nada disso torne um assassinato justificável ou menos hediondo.
Em "Dekalog V", o foco maior foi dado ao defensor Piotr Balicki, tornando conhecidas sua forma coerente de pensar, agir e também suas emoções. Assim, algumas cenas do julgamento de Jacek foram suprimidas e isso acabou reduzindo parte do contexto emocional que envolve sua condenação. Já no longa, esse aspecto ganhou mais espaço, detalhando a execução da pena e deixando a experiência ainda mais intensa e dolorosa.
Neste filme, um dos elementos visuais marcantes é a fotografia: sombria, carregada de tons cinza e amarelados, pesada e dramática. O uso apropriado de luz e sombra funcionou como um recurso narrativo poderoso, transmitindo a atmosfera sufocante da história e a brutalidade dos acontecimentos.
Na época em que "Dekalog" foi lançado (1988-1989), a pena de morte ainda era aplicada na Polônia. A última execução oficial ocorreu em abril de 1988. Então, ela ainda está presente na narrativa e expõe a frieza e indiferença do Estado ao punir com ato idêntico ao que condena. Kieślowski nos leva a refletir se a morte autorizada pela lei não é tão errada e cruel quanto o crime que pretende punir.
O Decálogo
4.7 114"Dekalog" é uma série polonesa feita para a televisão no final dos anos 80, dirigida por Krzysztof Kieślowski. São dez episódios, cada um com pouco mais de 50 minutos, inspirados nos Dez Mandamentos bíblicos. Mas sua proposta não é a de transmitir sermões religiosos, e sim mensagens que nos levam a reflexões morais. Kieślowski usa os mandamentos como ponto de partida para reproduzir alguns dilemas humanos universais. Mesmo para quem não acredita, eles funcionam como guias de convivência e ética. Kieślowski traduz isso em histórias simples, cotidianas, mas carregadas de profundidade filosófica.
O núcleo da série, onde todas as histórias são ambientadas, é um grande condomínio em Varsóvia. Os moradores são os protagonistas e, por vezes, suas vidas se cruzam entre episódios. Essa escolha dá unidade ao projeto e mostra a sociedade polonesa comum da década de 80, com seus problemas, desejos e contradições. Cada episódio é independente, mas a série ganha força quando vista como um todo. É como se cada capítulo fosse uma peça de um mosaico maior, revelando a complexidade da vida moderna e a dificuldade de seguir princípios éticos em situações reais.
Resumindo, "Dekalog" é uma das obras mais marcantes e pessoais sob a perspectiva artística de Kieślowski, transportando os Dez Mandamentos para situações comuns, mostrando que eles não são apenas regras religiosas, mas reflexões sobre como viver em comunidade e lidar com escolhas difíceis. Seu conteúdo exige atenção, mas recompensa com uma visão profunda e sensível da condição humana.
Um Contratempo
4.2 2,0KNo gênero suspense psicológico, acredito que os elementos decisivos para um bom filme sejam a trama verossímil e qualidade do elenco. "The Invisible Guest" (título original "Contratiempo") possui tais atributos. Com uma narrativa engenhosa e cheia de camadas, os personagens são movimentados ao longo da história como peças em um tabuleiro de xadrez.
O ponto de partida é um acidente de carro em uma estrada isolada, em circunstâncias que jamais poderiam vir à tona para os envolvidos. Porém, a situação foge ao controle e o caso acaba chegando aos tribunais. Uma advogada, especializada na construção de testemunhos, é chamada para auxiliar no processo. Dispondo de apenas 3 horas, tenta articular juntamente com o réu, uma tese de defesa impecável para livrá-lo da prisão.
São então construídas várias versões para explicar e reconfigurar o evento, alternando autores e vítimas conforme novos prismas se delineiam. Essa multiplicidade de perspectivas mantém o clima de dúvida e tensão em alta. E para quem pretende analisar cada tese apresentada, adianto que em algumas delas há falhas que colocam personagens em situações meio impossíveis. Apesar disso, o deslize não compromete a experiência, já que a atmosfera envolvente do filme direciona para um desfecho inesperado.
Aos fãs do gênero, e eu me incluo, trata-se de uma obra instigante, capaz de prender a atenção até o último minuto.
Peppermint Candy
4.0 24"Peppermint Candy" revela seu desfecho logo nos primeiros minutos. Embora os motivos ainda não sejam conhecidos, as cenas iniciais despertam sensação de constrangimento e estranheza que permanece durante quase todo o filme. Lee Chang-dong adota um estilo direto e realista de retratar a vida, porém seus personagens são introspectivos e silenciosos, sinalizando seus dilemas mais íntimos apenas por meio de atitudes.
No caso do personagem Yeong-ho (Sul Kyung-Gu), nada parece fazer sentido e, a cada nova informação que se tem sobre ele, qualquer empatia inicial se dissolve em meio à revolta e à raiva que seus atos são capazes de despertar. Sempre imprevisível e violento contra todos ao redor, ele sugere ser alguém que há muito perdeu a sanidade.
O filme constrói sua história lentamente, numa viagem de volta no tempo, como se estivéssemos em um trem rumo ao passado. A cada parada, uma peça se junta ao mosaico daquela vida transtornada. Somente após a última estação desse trem metafórico fica possível juntar todas as frações e compreender integralmente a loucura e o ódio que Yeong-ho preserva dentro de si. "Peppermint Candy" é um drama trágico, de sabor amargo, mas que também carrega uma inexplicável sensibilidade humana, algo que Lee Chang-dong consegue transmitir com maestria.
A Semana do Assassino
3.4 9 Assista AgoraEste filme me despertou tantas questões que acabei pesquisando mais sobre ele. Primeiro, o estranho título em inglês: "The Cannibal Man". Além da ausência dessa prática na trama, há uma cena que contradiz completamente a ideia de canibalismo. Descobri que o título foi escolhido como estratégia de marketing para atrair o público internacional.
Também percebi que existem duas versões disponíveis: a espanhola e a internacional. Na segunda foram retiradas cenas que mencionam o ocorrido com a mãe do personagem Marcos (Vicente Parra) e explicações sobre a máquina trituradora da empresa alimentícia em que ele trabalha. Além disso, Eloy de La Iglesia precisou realizar diversos cortes e adaptações de roteiro para que o filme passasse pela censura do regime franquista. Essa Censura exigiu a retirada de cerca de 62 cenas para suavizar momentos de violência e sexualidade, além de estipular o final do filme, tornando-o anticlimático.
"La Semana del Asesino" (título original) é um filme memorável, um suspense psicológico em que assassinatos não são cometidos por maldade ou psicopatia, mas por desespero. No período de uma semana, acompanhamos a degradação física e emocional de um homem comum que, equivocadamente, acredita precisar ocultar um crime cometendo outros.
El Diputado
3.8 4"El Diputado" é um filme que se diferencia um pouco de outras obras de Eloy de La Iglesia. Temos aqui um drama íntimo e, ao mesmo tempo político, vivido numa Espanha que enfrentava duras lutas e fervores sociais, face a transição de uma ditadura que durou mais de 30 anos e uma democracia nascente, mas que ainda convivia com os fantasmas da repressão.
Eloy expõe sem pudor as contradições de um político que tenta conciliar prestígio público e vida secreta. O resultado é um filme que denuncia a hipocrisia social e a violência contra aqueles que ousam viver fora das normas. Mais do que autobiográfico, o filme é um testemunho de uma época e uma reflexão sobre a liberdade que ainda hoje é negada a alguns.
Miedo a Salir de Noche
3.8 1Ainda não tinha assistido aos filmes de Eloy de La Iglesia, embora soubesse que hoje é considerado um cineasta polêmico e influente, documentarista da marginalidade urbana e dos problemas sociais da Espanha pós-Franco. Suas obras são realistas, de tom dramático e sombrio, mas ele soube usar o humor irônico como recurso pontual, capaz de amenizar situações graves ou absurdas e, ao mesmo tempo, intensificar sua crítica social.
"Miedo a Salir de Noche" reúne todos esses elementos. É uma comédia dramática, ambientada em Madri no final dos anos 70, período de transição democrática, quando a violência nas ruas crescia e afetava o cotidiano. A imprensa falada e escrita trazia diariamente manchetes alarmantes, instalando o terror na população, que passou a cercar-se de aparatos de segurança e enclausurar-se em casa com medo de sair à noite.
Toda essa tensão, entretanto, é quebrada por um personagem fascinante: o Sr. Cosme (Antonio Ferrandis), um viúvo idoso que insiste em viver normalmente, sem deixar o medo dominar sua rotina. Através dele, o diretor sugere que o excesso de medidas de proteção também pode gerar novos riscos, que manter a população assustada e isolada serve aos interesses de quem deseja manipular e conservar o poder, e que o perigo é parte inevitável da vida, dentro ou fora de casa. Como diria o Sr. Cosme:
- "Paco, não lhe parece mais perigoso o presidente do seu banco do que a maioria desses ladrõezinhos?"
La Estanquera de Vallecas
3.4 2"La estanquera de Vallecas", dirigido por Eloy de la Iglesia, é uma ótima comédia que não se resume ao humor tolo. Baseado na peça teatral de José Luis Alonso de Santos, o longa transforma um assalto frustrado a uma tabacaria em Vallecas, em um retrato crítico da sociedade espanhola dos anos 80. A ousadia do diretor está em misturar comicidade com denúncia social, expondo as fragilidades das instituições e a desesperança de uma população marcada pelo desemprego, pela violência urbana e pelo avanço das drogas.
A narrativa mostra como políticos se aproveitam de escândalos midiáticos para ganhar notoriedade em época de eleição, enquanto a polícia, ineficiente para resolver até um caso simples como o assalto a uma tabacaria, não hesita em recorrer à violência contra os moradores do bairro. Vallecas aparece como um distrito revoltado e descrente, onde a solidariedade popular surge como resposta à ausência de confiança nas autoridades. Nesse cenário, os bandidos não são retratados como vilões perversos, mas como ladrões inexperientes, vítimas da fome e da falta de oportunidades, roubando para sobreviver.
Os assaltantes fazem duas reféns: a dona da tabacaria e sua jovem sobrinha. Desse convívio forçado aflora a humanidade escondida por trás de cada personagem. Entre diálogos tensos e situações inesperadas, surgem vulnerabilidades, afetos e até momentos de ternura, mostrando que, em meio ao caos, há espaço para solidariedade e compreensão. Eloy de la Iglesia, com sua coragem artística, transforma uma comédia em um filme que denuncia desigualdades, critica a política e a repressão policial, e ao mesmo tempo celebra a capacidade humana de encontrar laços mesmo nas circunstâncias mais improváveis.
Destruição Final 2
2.4 68 Assista Agora"Greenland 2: Migration" é um filme sequência, mas não é necessário ter visto "Greenland" para acompanhar a história. O enredo segue fielmente a fórmula típica dos filmes americanos sobre catástrofes globais: a Terra em colapso, famílias tentando sobreviver e dilemas morais em meio ao caos. Tudo bastante previsível, repetindo elementos já conhecidos do gênero, como jornadas perigosas, perdas emocionais e a busca por um lugar seguro. Sem grandes surpresas para quem já está acostumado com esse tipo de filme.
Paixão e Sombras
3.9 10O filme "Paixão e Sombras", de Walter Hugo Khouri, foi rodado nos estúdios da antiga Vera Cruz, já em ruínas, o que por si só lhe dá uma atmosfera melancólica e simbólica. É um trabalho obscuro e autoral, marcado por introspecção e pela sensação de fim de ciclo, tanto do cinema brasileiro daquela época quanto do próprio percurso criativo do diretor. Nesta obra há o uso da metalinguagem, pois ela conta a história de um diretor de cinema que está em processo de realização de seu novo filme.
A casa vazia escolhida como cenário desse filme está sempre inacabada e escura, parecendo refletir o estado interior do personagem central Marcelo (Fernando Amaral), um diretor de cinema em crise, corroído por ausências e pela fragilidade de seus próprios alicerces. Ele questiona constantemente o valor de seu trabalho e vive imerso em sombras desde que sua musa e estrela principal, Lena (Lilian Lemmertz), o abandonou.
Em contraponto, sua assistente Ana (Monique Lafond) está sempre trazendo-o de volta à realidade, lembrando-o de que há outras razões para continuar e de que ele é capaz de realizar filmes de grande qualidade. É nesse embate interior entre sombra e luz, entre o vazio e a possibilidade, que "Paixão e Sombras" se revela não apenas como uma obra de ficção, mas como um retrato íntimo das inquietações de Khouri diante do cinema e da vida.
A Mulher na Lua
4.2 21 Assista AgoraFritz Lang, em minha opinião, ocupa um patamar de criatividade, ousadia e genialidade como raramente se vê no cinema. Em filmes como "Woman in the Moon" e "Metropolis", conseguiu antecipar o futuro como se o observasse por um telescópio. É certo que muitos dos aparatos científicos mostrados nessas obras hoje parecem fruto da imaginação inocente de uma criança, mas grande parte do que ali se apresenta ainda impressiona pela riqueza de detalhes e pela antecipação quase exata de uma realidade que só se concretizaria muitas décadas depois.
Quando "Woman in the Moon" foi lançado, a aviação já se consolidava em diferentes vertentes, mas as viagens espaciais permaneciam como especulações técnicas ou fantasias. Escritores como Jules Verne e H.G. Wells haviam popularizado a ideia de visitar a Lua em obras que até hoje habitam o imaginário coletivo. Lang, porém, foi mais longe. Retratou uma viagem espacial a bordo de um foguete de propulsão, simulou a ausência de gravidade dentro da nave, mostrou o planeta Terra visto do espaço e apresentou uma superfície lunar surpreendentemente próxima do que seria revelado no final da década de 1960.
É claro que há inúmeras situações inconcebíveis no filme, mas o essencial está presente: um pioneirismo fascinante. A obra é, na verdade, um misto de drama e ficção. Lang não poderia deixar de abordar o amor, o destino e a ambição humana, e também retratou de forma admirável a personagem feminina, digna, forte, inteligente e bem-sucedida. "Woman in the Moon" permanece como um testemunho de sua notável capacidade de unir imaginação e técnica, criando um cinema que não apenas entretém, mas projeta possibilidades que, à época, pareciam inalcançáveis.
Os Corruptos
4.1 59 Assista AgoraO grande mestre do cinema, Fritz Lang, percorreu fases distintas ao longo de sua carreira. Nos anos 1920 e 1930, em sua fase expressionista, realizou filmes que marcaram para sempre a história do cinema, caracterizados por críticas sociais contundentes e ousadas experimentações visuais. Ainda na década de 1930, Lang passou a trabalhar em Hollywood, onde seu estilo se voltou para um realismo mais seco, explorando temas como justiça e moralidade. Seus protagonistas, geralmente íntegros, encontravam-se cercados por crimes e opressão. Os cenários, antes grandiosos e monumentais, tornaram-se urbanos, simétricos e sombrios, envoltos por uma atmosfera 'noir'.
O longa "The Big Heat" (Os Corruptos) corresponde a essa fase. Trata-se de um suspense policial estrelado por Glenn Ford, com um enredo envolvente que aborda mistério, corrupção policial e política, além de cenas inesperadas de violência capazes de causar forte impacto. Sempre me pergunto como teria sido a história do cinema sem a influência de Hollywood, tão evidente na trajetória de Fritz Lang. No entanto, seu talento e genialidade inegáveis conseguiram trazer para a indústria cinematográfica uma visão fatalista e um rigor visual únicos, deixando obras consagradas que inspiraram grandes nomes como Hitchcock, Orson Welles e Christopher Nolan.
O Mundo de Apu
4.3 35Em "Apur Sansar (O Mundo de Apu)" a trilogia se completa. Vemos sua vida adulta marcada por perdas e pela decadência de seus sonhos. Este último longa é, sem dúvida, o mais dramático e o mais emocionante, pois revela a luta de Apu contra as imposições da vida e contra as dores que nunca conseguiu superar.
Após um casamento inesperado, Apu experimenta brevemente a felicidade conjugal, mas logo é atingido por uma tragédia que o mergulha em um abismo de solidão e desespero. A partir daí, sua trajetória se torna um doloroso retrato da fragilidade humana diante das adversidades. O jovem sonhador que antes buscava conhecimento e liberdade vê-se esmagado pelas circunstâncias, afastando-se de tudo e de todos, até mesmo de seu próprio filho.
Satyajit Ray finaliza a narrativa com uma intensidade rara, mostrando como os sonhos podem se desfazer diante da realidade implacável. A fotografia e as atuações reforçam o peso emocional em um desfecho arrebatador. É o filme que mais emociona, talvez porque expõe a dor da perda, a renúncia e a lenta reconstrução de um homem que, apesar de tudo, ainda busca sentido para sua existência.
O Invencível
4.2 38 Assista AgoraO primeiro filme '(A Canção da Estrada)' nos apresentou a infância de Apu. No segundo, "Aparajito (O Invencível)" acompanhamos sua adolescência e o início da vida adulta. Neste longa, a história se divide entre o crescimento do protagonista e a presença marcante de Sarbajaya, sua mãe, numa atuação inesquecível de Karuna Banerjee que desde o primeiro filme representa o vértice emocional da família.
Após a morte do pai, mãe e filho mudam-se para Benarés e, mais tarde, Apu inicia seus estudos em Calcutá. Enquanto o jovem descobre novos horizontes e se abre para o mundo, sua mãe permanece presa à solidão que sempre a acompanhou. Essa solidão, agravada pela distância emocional e física do filho, transforma-a em uma figura muitas vezes amarga e ríspida, ainda que profundamente humana.
Satyajit Ray constrói com delicadeza esse contraste: de um lado, a juventude de Apu, cheia de possibilidades e sonhos, de outro, a dor silenciosa de sua mãe que vê a vida se esvaziar à medida que o filho se afasta. A fotografia e a direção reforçam essa dualidade, tornando "Aparajito" uma obra pungente sobre o amor materno, o peso da ausência e a inevitável passagem do tempo.
A Canção da Estrada
4.4 74 Assista AgoraSe alguém tivesse dúvidas sobre o que é uma obra-prima do cinema, bastaria assistir à 'Trilogia de Apu' (1955–1959), em que cada filme representa a mais pura definição de arte. Os negativos originais dessa joia do cinema indiano foram destruídos em um incêndio, mas, graças à localização de fragmentos e cópias de segurança, a obra pôde ser restaurada. Ao longo dos três filmes, acompanhamos a infância, adolescência e maturidade do protagonista, Apu.
O primeiro deles, "Pather Panchali (A Canção da Estrada)", retrata sua infância pobre e cheia de dificuldades em um pequeno vilarejo rural de Bengala. Ali viviam, em condições precárias, seus pais, sua irmã e uma velha tia. Apesar da pobreza e dos muitos sonhos não realizados, Apu desfruta de uma infância tranquila, sem plena consciência das tragédias que acontecem ao seu redor.
O diretor Satyajit Ray se inspirou no romance de Bibhutibhushan Bandyopadhyay e conduziu esse drama com enorme sensibilidade. Cada elemento é perfeito e contribui para torná-lo uma obra espetacular: as atuações emocionantes, a fotografia magnífica e o enredo carregado de lirismo. Junto de Apu, respiramos a beleza daqueles primeiros anos de vida e suas descobertas.
O Morro dos Ventos Uivantes
2.9 167 Assista AgoraCaso você tenha lido o livro, é importante saber que o filme "Wuthering Heights" (2026), dirigido por Emerald Fennell e inspirado no clássico de Emily Brontë, traz inúmeras alterações de conteúdo, especialmente no perfil psicológico dos personagens. A diretora utiliza a história original como pano de fundo para criar uma versão mais sensual e sombria do romance entre Catherine Earnshaw (Margot Robbie) e Heathcliff (Jacob Elordi). O longa enfatiza o apelo sexual, muitas vezes com exageros desnecessários, aproveitando-se da beleza dos protagonistas e de sua popularidade entre o público jovem. Apesar da sofisticação estética e do sucesso inicial de bilheteria, creio que tende a ser esquecido em breve, dada sua irrelevância frente à profundidade do romance original.
O Médico e o Monstro
3.8 32 Assista AgoraEsta versão de "Dr. Jekyll and Mr. Hyde" de 1920, inspirada no clássico de Robert Louis Stevenson, talvez seja a mais elegante e teatral do cinema, muito por conta da atuação intensa de John Barrymore e dos efeitos visuais inovadores para a época, que davam vida às transformações sem cortes perceptíveis. Mais do que um espetáculo de horror, a obra traz uma reflexão filosófica e psicológica sobre a dualidade humana: o bem e o mal coexistem em cada indivíduo, mas, uma vez que o lado sombrio é despertado e se instala, a alma jamais retorna à sua pureza original.
Flow
4.2 576Assisti "Flow" com a minha pequena Milou no colo. Ela se parece tanto com o gato da animação que foi natural compartilharmos essa experiência juntas. À primeira vista, pensei que o filme fosse uma crítica direta à degradação ambiental, no entanto, ao longo da narrativa percebi que sua mensagem é mais ampla: trata-se de uma celebração da cooperação, da solidariedade e da resiliência necessárias para convivermos com aqueles que de alguma forma pensam, agem ou são diferentes de nós. Também fiquei com aquela sensação de que, em momentos difíceis, é preciso deixar a vida seguir seu fluxo. Às vezes não há muito o que se possa fazer, apenas tentar sobreviver da melhor forma.
Consciência Vingadora
3.5 1"The Avenging Conscience" é uma obra relativamente modesta se comparada às grandes produções que D. W. Griffith realizaria posteriormente. Inspirado no conto de terror 'The Tell-Tale Heart' e no poema 'Annabel Lee', ambos de Edgar Allan Poe, o filme explora de forma intensa os efeitos da culpa, da obsessão e do tormento da consciência após a prática de um crime. O protagonista, consumido por seu ato, mergulha em um estado de sofrimento psicológico que revela como a mente pode se tornar o maior carrasco do culpado.
Órfãs da Tempestade
3.8 34"Orphans Of The Storm", de D.W. Griffith, é um drama de época ambientado na Revolução Francesa. O filme tem como protagonistas as irmãs Lillian e Dorothy Gish, que aparecem delicadas e encantadoras, quase como duas bonecas, mas são submetidas a uma trajetória marcada por intenso sofrimento e provações. A história mostra a separação das duas jovens e os obstáculos cruéis que enfrentam, combinando emoção intensa com cenários grandiosos e uma atmosfera histórica.
O impacto visual está presente, assim como em outros filmes de Griffith, porém o enredo distorce eventos e personagens históricos. Figuras como Danton e Robespierre são retratados de forma desvirtuada, em circunstâncias que não correspondem às suas atuações na Revolução. Essa liberdade artística, embora eficaz para o cinema, distancia o filme da realidade histórica.