Gosto muito quando uma obra consegue incendiar e reavivar o meu ódio de classe. Em O Homem que Virou Suco, Deraldo, um poeta rebelde vindo do Norte diretamente ao inferno sudestino, inicia sua via-crúcis na grande metrópole. De subemprego em subemprego, o homem atravessa o implacável espremedor da burguesia e dos patrões, num retrato transbordante de crueza e realismo sobre a jornada do povo migrante do Nordeste brasileiro. É a existência de um indigente, sem documentos de identificação e constantemente chamado de "Paraíba", inclusive por colegas operários e paupérrimos que partilham da mesma condição precária e degradante, mas que já assimilaram a ideologia dominante e a xenofobia. Apesar do ambiente desonroso e insalubre da classe trabalhadora, o personagem surge como uma espécie de figura mítica, cuja resistência verte do poeta louco que se recusa a ser esmagado pelas botas da burguesia paulistana
Essa obra do Bruno Barreto é uma adaptação de grandíssima excelência! São marcantes as atuações viscerais, a ambientação de toda hostilidade devoradora da cidade, o sensacionalismo mesquinho dos jornais e o beijo homossexual que se torna um escândalo e a própria manchete, chocando mais do que a morte do rapaz atropelado, que transforma-se num evento secundário e esvaziado. O diretor conseguiu capturar a acidez rodrigueana, já que uma das características mais marcantes das peças de Nelson Rodrigues é a tentativa de desvelar as verdades inconfessadas das personagens e as dinâmicas entre dito e não-dito na fachada da sociedade brasileira. O Beijo no Asfalto é um pouco sobre essa obsessão voyeurista pelo outro e a heteronormatividade, que aparecem no dia-a-dia como uma espécie de inquisição moral, que no fundo parece revelar mais sobre as frustrações, fantasias e taras de quem acusa do que daquele acusado. O tal "pecado" de Arandir apenas faz aparecer em seu tribunal público uma horda de fascinados reprimidos, mesmo que, em última análise, tenha sido apenas um beijo de compaixão e fraternidade diante da morte
Não é um longa recheado de melodrama e eloquência como em outras obras mais aclamadas do Fassbinder, mas novamente podemos ver o brilhantismo do diretor colocando em cena personagens em eterno conflito com seus próprios desejos, em seus cotidianos atravessados por dilemas burgueses e sofrimentos da vida moderna. Hanna busca estabilidade no casamento e na vida doméstica, enquanto os rapazes procuram um meio de se livrar da vida assalariada daquela Alemanha massacrante do pós-guerra. O drama dos personagens e suas opressões inevitavelmente passam pelo triturador das instituições burguesas, seja o matrimônio, a família ou o dinheiro. É um retrato da alienação da juventude alemã da época diante de suas utopias vazias: a vida matrimonial e o empreendimento colonizador europeu no sul global. Apesar da atitude dos rapazes parecer como uma espécie de fuga existencial ou salvação pra uma chaga individual, no final das contas é também símbolo da perpetuação do modelo extrativista... Ah, e bem que eu estranhei o fato de 'Rio das Mortes' não ser um local no Peru, mas sim no Brasil... Mais um indício do profundo alheamento dos dois jovens e da grande qualidade e inventividade do Fassbinder em produzir sátiras políticas
um vagabundo suicida talvez seja o arquétipo perfeito do herói fassbinderiano, um sujeito (que está de fato sujeitado, subjugado e subalternizado) em uma ordem social burguesa onde a vagabundagem e o suicídio são duas profanações graves; nesse curta, a câmera segue os passos incertos e erráticos do vagabundo desvalido em sua via crucis num mundo que o nega até mesmo a possibilidade de morrer; o único diálogo desse curta-metragem é tão cômico quanto aterrador, e o final é de uma ironia tão espirituosa que só mesmo um fassbinder poderia engendrar; os personagens fassbinderianos são representações muito certeiras dos sofrimentos encarniçados diante de um mundo marcado pela massificação e pelo embotamento dos afetos
medo do medo é puro desespero, um terrível desamparo do início ao fim; certamente uma experiência familiar a quem sofre de ansiedade generalizada ou síndrome do pânico; fassbinder emulou muito bem os sofrimentos psíquicos da vida moderna e sua incomunicabilidade; margot padece das aflições de uma vidinha burguesa, desses temores sem face e insondáveis de uma classe média profundamente insensível e entorpecida por seus papéis sociais e suas fachadas; a temática da medicalização da vida também parece ser central, justamente na medida em que existe uma cisão entre o normal e o patológico na interpretação geral, como se a loucura fosse uma variação de normalidade, uma desalinho, uma falta e não uma dimensão completamente inédita; enfim, uma baita obra! fassbinder sempre esbanjando muita profundidade psicológica enquanto diretor
"Please let me start again I want a face that's fair this time I want a spirit that is calm"
estou atualmente numa longa sessão pra maratonar a filmografia do grande rainer werner fassbinder, o amor é mais frio que a morte está longe de ser a obra magna do cineasta, mas certamente foi um belíssimo nascimento do jovem fassbinder para o cinema alemão, um diretor com a cabeça prenhe de marginalidade e teatralidade. nessa obra monocromática e repleta de cigarros, tensão sexual e niilismo se confundem, as personagens aparecem sempre embotadas, cruéis e letárgicas; é a nouvelle vague francesa influenciando um fassbinder muito moço, experimentando esse cinema psicologizante e relativamente minimalista, onde alienação urbana, a tirania do amor e os dramas interpessoais dão o tom narrativo; para ser justo, acredito que nessa homenagem à nouvelle vague, fassbinder tenha sido até mais visceral no trato com a vulcânica vida moderna, repleta de vazio, frieza e opressões amorosas
acho que isso tudo é um pouco sobre participar da natureza humana ao invés de apenas retrata-la, tal como thomas mann havia confessado e fassbinder executado enquanto personagem; quebrar alguns copos de vidro e berrar uns com os outros! precauções diante de uma prostituta santa tem um pouquinho daquela perícia rodrigueana pra trazer à tona alguns aspectos viscerais da natureza humana no processo de fazer (ou não fazer) cinema; desassossegos, ciúmes, construção da identidade, megalomania e conflitos de poder; vejam só, a própria arquitetura desse microcosmos do hotel/resort comunica simbolicamente as turbulências no relacionamento entre os atores e toda a equipe... escadas e espelhos em quase todas as cenas; é um filme sobre fazer filme, mas um filme que nunca começou
o transe do povo é perpétuo na república das bananas, dilacerados ora pelo populismo, ora pelo conservadorismo, o povo miserável é a corda que rasga, são os famintos de comida, política e professias; até mesmo o poeta idealista sucumbe diante da ardilosa politica. terra em transe é um retrato da politica latino-americana e do destino de um povo imolado pelas convulsões megalomaníacas de seus líderes... a palavra transe normalmente está ligada a um acontecimento transcendental, é abordada como um fenômeno religioso, mas aqui ela aparece apenas como estado de alienação, medo e inconsciência; corrupção, poder e messianismo são eixos temáticos frequentes nos ensaios poético-políticos de glauber rocha; o lirismo e as atuações são impecáveis, porém o desenvolvimento não linear da narrativa torna o enredo um pouco confuso
a prodigiosa trilogia do silêncio de ingmar bergman é dirigida por essa tirânica política do não-dito, pelos labirintos sinitros dessa mudez que não é de serenidade, mas de profunda e pesada aflição; através de um espelho, luz de inverno e silêncio estão conectados por uma perturbação mais ou menos pascaliana, seus personagens são cativos de um sentimento inefável diante do silêncio desses espaços infinitos; não exatamente um drama em relação ao vazio do cosmos, mas dessa condição de esvaziamento da linguagem e a ruína da comunicabilidade... tystnaden condensa brilhantemente todos esses elementos que tornam seus personagens tão miseráveis e incapazes de diálogo vivo; seus relacionamentos acontecem sempre por meio de simulacros; as duas irmãs e o garoto parecem que morrem pelas palavras que não pronunciam e pelas confissões eternamente guardadas
lavra dor é um curta-metragem sessentista com uma organização poética muito instigante acerca da reforma agrária; a montagem estética não é lá tão poderosa, mas é digno de um comentário o filme em negativo e os altos contrastes que estão lá para anunciar as agruras da vida campesina e a forte dicotomia camponês-fazendeiro. a sua linguagem é revolucionária, seu discurso permite revelar a tez abatida dos trabalhadores rurais e a dureza da realidade pastoril em uma época de trevas políticas; é uma fotografia do povo e ao mesmo tempo ferramenta para sua própria emancipação. o poema-praxis de chamie surge como um mantra que busca destruir o concreto dos concretistas, estabelecer novas semânticas com uma abordagem mais social e brincar com a "fisionomia" das palavras
the great satan é uma riquíssima coletânea de mídias em vhs, desde trasheiras perdidas até programas religiosos dos anos 90 recheados de muito pânico satânico; todos esses conteúdos foram arranjados em um fluxo diabólico-vertiginoso que perverte suas semânticas originais de modo a fazer surgir uma nova narratividade... uma história luciférica, uma apologética do obscuro; o fato de ser uma composição com recortes muito rápidos faz com que o filme se torne uma marcha insana de satanismo e ocultismo, uma sucessão demoníaca e frenética; aprender sobre o senhor das trevas me deu uma terrível dor de cabeça, não recomendo assistir caso tenha problemas com enxaqueca
tudo o que envolve o diabo e seus arquétipos luciferianos me agrada! nesse curta francês do início do século passado, o anjo banido aparece bem vestido e disposto a se divertir com tudo o que as ruas parisienses podem oferecer para um lúcifer enfadado; tenho a plena certeza de que satã visitou os últimos poetas simbolistas, ofereceu-lhes haxixe e apontou-lhes as direções com seu bom e velho jeito mefistofélico de ser e seduzir. acho muito elegante esse véu cor de vinho que cobre a tela, embeleza a fotografia e potencializa a graciosidade dessa peça infernal
o mestre švankmajer nos apresenta três breves contos sobre nós mesmos; a comida e a maneira como nos relacionamos com ela é uma temática muito espirituosa para manifestar o grotesco da condição antropofágica da qual somos vítimas; as personagens se revelam feras! quando apertei o play eu já esperava uma antologia de críticas agudas, muita lucidez e discernimento... a obra é inconfundível, são aquelas célebres alegorias surrealistas feitas em stop motion pelas quais o diretor tcheco é amplamente conhecido; o primeiro conto me pareceu uma expressão inteligente da mecanização, precarização e massificação ligadas ao ato de comer; o segundo ato aparenta ser mais astuto e direto, compreendi como classismo e reprodução de ideologia; o último conto flerta ainda mais com a antropofagia e nos ensina que um pouco de tempero já pode disfarçar o absurdo de devorar a si mesmo, é fácil aniquiliar-se a depender dos rumos políticos de uma nação
é tão único e brilhante quanto rock lee vs gaara ao som de linkin park rsrs... um baita anime! hoje conheci o senhor kurosaka e essa obra me pareceu ser um apropriado cartão de visitas para apresentar-me a um diretor que está visceralmente filiado aos costumes da arte contemporânea e do experimentalismo; mochibei tem a duração ideal para ser exatamente o que é, nem curto demais para não ter substância, nem muito longo para se perder e se desligar de sua própria ideia; vejo uma figura que amaldiçoa a si mesmo, maldizendo-se e castigando-se, vítima de seu maior carrasco, o eu-mesmo. esse traço sujo e impolido da animação é algo que acompanha muitíssimo bem um horror surreal e bizarro feito no japão; a única forma de se preparar para esse curta é assistindo-o! por fim eu preciso dizer uma coisa, lá vai... nossa, é literalmente eu, sério mesmo, muito eu depois de qualquer interação social
sublime e formidável! é uma belíssima animação aquarelada! julgando somente o zelo técnico e o capricho artístico esse curtinha já é um delicioso deleite aos olhos. tango, da forma como interpreto, parece ser uma manifestação das transgressões e vícios do humano, uma história sobre feras e seus pecados, um breve conto sobre poluição, miséria e morte... inexorável condição humana que explora, esgota e degrada; comunica também o destino trágico que sempre nos reserva o odioso mecanismo do messianismo e dos mitos; a jornada dos povos e a marcha da história estão repletas desse nefasto devir... são tantos fatalismos que nos condenam!
tudo nesse curta me lembrava foucault; todos os desenhos, os escritos e as cenas de profunda e inefável alienação... tudo parece comunicar uma sabedoria obscura e impenetrável, um caos ainda não decifrado
"A loucura fascina porque é um saber. É saber, de início, porque todas essas figuras absurdas são, na realidade, elementos de um saber difícil, fechado, esotérico. Este saber, tão inacessível e temível, o Louco o detêm em sua parvoíce inocente. Enquanto o homem racional e sábio percebe apenas algumas figuras fragmentárias, e por isso mesmo mais inquietantes, o Louco o carrega inteiro em uma esfera intacta: essa bola de cristal, que para todos está vazia, a seus olhos está cheia de um saber invisível"
den skyldige é uma obra descomplicada e acessível, é desses filmes onde tudo acontece numa paisagem fixa e numa só cadência narrativa; essa simplicidade não é sinônimo de pobreza, mas de clareza e despojamento... é tão singelo e rico como ouvir a uma partida de futebol pelo rádio, nos permite fantasiar os acontecimentos e nos envolver intimamente com os fatos assim como o personagem principal, que se vê atravessado pelos dilemas e destinos do caso; a trama é costurada pelas ligações e somos colocados na mesma posição do policial, reféns das chamadas telefônicas e desse "outro lado" que nunca é visto, mas sempre cogitado
levei muito muito tempo para puxar um fôlego e assistir a esse prestigiado longa-metragem do glauber rocha; eu estava me preparando para uma cerimônia de alegorias de difícil acesso e muitas abstrações, mas então lembrei da materialidade, solidez e crueza social do cinema novo... em deus e o diabo na terra do sol, glaubão reproduz com preto e branco, teatralidade e muito barroco a miserabilidade do povo enquanto massa desamparada e desesperançada a mercê dos duelos políticos dos poderosos e sofrendo das cicatrizes de seus embates; deus ou diabo... burgueses, religiosos fervorosos ou cangaceiros vingativos, personagens de um eterno conflito na terra do sol, promessas vazias para um povo esvaziado
um homem aprendendo a morrer! normalmente o problema da morte não é um fato devidamente refletido; digo mais, é por causa dela que a vida é tão repleta de distrações, passatempos e divertimentos; cronenberg resgata brilhantemente o tabu primordial, abre a ferida primeira e nos mostra que morrer é difícil... enfrentar a mortalidade, se deitar ao lado do próprio corpo pálido, vazio e esgotado e aceitá-lo em toda a dimensão de seu não-ser é uma dura tarefa
uma maravilha do cinema nacional! a atmosfera das obras do cinema novo é quase sempre barulhenta; os filmes berram e gemem como se doessem. em os fuzis esse frenesi sonoro acontece através dos cantos litúrgicos de fé de um povo massacrado pela fome e oprimido pelos fuzis de soldados que prometem aquele fetiche positivista da ordem. a cantoria religiosa é tema e prece diante dos desesperos da seca e das forças militares maliciosas
estava torcendo para que nunca chegassem em lugar nenhum! o retrato de um tédio geracional precisa de um motor, necessita da velocidade que deforma um presente esvaziado. o carro faz com que as paisagens artificiais passem e não se fixem pelos vidros do automóvel... a identidade e todos os desejos de uma juventude sessentista marginal são igualmente fugidias, tal como o chão que corre e fica para trás; há uma tensão permanente entre passado e presente, e a montagem sganzerliana parece imitar as ansiedades da adolescência brasileira dos anos sessenta. a câmera percorre a cidade sem saber onde chegar, mas conservando o movimento e a ânsia pela novidade, nem que seja uma tragédia, sei lá... uma peste bubônica (risos)
gostei bastante! um olhar muito jovial e uma investigação interessante dentro do campo da cultura mágica dos filmes adaptados de Harry Potter e dos mitos escritos; essa proposta de um casamento entre o mundo fantástico-mitológico que banha a cultura e o mundo natural é uma possibilidade de conciliação única e genuinamente orgânica; a história dos animais fantásticos e a história natural parece que sempre integraram o mesmo aspecto de uma única imanência cri-ativa... a suposta transcendência desvairada que essas figuras nos transmitem pode ser só um julgamento moderno e apressado de uma íntima relação com a natureza mediada por todas as suas belezas, terrores e espantos
e como transborda de lirismo essa singelíssima obra do wim wenders! muito mais do que cair na implacabilidade do tempo ou voluntariar-se aos terrores do devir, os anjos monocromáticos e inchados de eternidade buscam preencher seus afetos gelados e suas poesias celestes com calor humano, sentir a carne, as lágrimas, o frio, a chuva, o amor e as tristezas da materialidade. ah! e como há tristezas, especialmente numa berlim tétrica e arrasada... por isso essa incomunicabilidade entre anjos e gente revela também um abismo, que faz com que o anjo deseje a experiência lúgubre e humana da aflição, das noites e do amor. apesar de ser um pouquinho cansativo, o filme-poesia do wenders fornece algumas belíssimas visões poéticas acerca da condição humana
farnese é um poeta das sucatas! artista dos troços e destroços! suas obras são pedaços de um poema fatal sobre o descartável e sobre os restos medíocres que se transfiguram através das forças recicladoras do inutilizável! fazer arte a partir dos entulhos do ex-mundo. escandalizar a morbidez da matéria... um barato total essas colagens que erguem, ao final, um monumento aos escombros e ao lixo... metáfora ao caos pós-guerra inflada de pessimismo, desilusão e amargura. um carinha bastante idiossincrático, já está entre meus favoritos
O Homem que Virou Suco
4.1 191Gosto muito quando uma obra consegue incendiar e reavivar o meu ódio de classe. Em O Homem que Virou Suco, Deraldo, um poeta rebelde vindo do Norte diretamente ao inferno sudestino, inicia sua via-crúcis na grande metrópole. De subemprego em subemprego, o homem atravessa o implacável espremedor da burguesia e dos patrões, num retrato transbordante de crueza e realismo sobre a jornada do povo migrante do Nordeste brasileiro. É a existência de um indigente, sem documentos de identificação e constantemente chamado de "Paraíba", inclusive por colegas operários e paupérrimos que partilham da mesma condição precária e degradante, mas que já assimilaram a ideologia dominante e a xenofobia. Apesar do ambiente desonroso e insalubre da classe trabalhadora, o personagem surge como uma espécie de figura mítica, cuja resistência verte do poeta louco que se recusa a ser esmagado pelas botas da burguesia paulistana
O Beijo no Asfalto
3.8 155Essa obra do Bruno Barreto é uma adaptação de grandíssima excelência! São marcantes as atuações viscerais, a ambientação de toda hostilidade devoradora da cidade, o sensacionalismo mesquinho dos jornais e o beijo homossexual que se torna um escândalo e a própria manchete, chocando mais do que a morte do rapaz atropelado, que transforma-se num evento secundário e esvaziado. O diretor conseguiu capturar a acidez rodrigueana, já que uma das características mais marcantes das peças de Nelson Rodrigues é a tentativa de desvelar as verdades inconfessadas das personagens e as dinâmicas entre dito e não-dito na fachada da sociedade brasileira. O Beijo no Asfalto é um pouco sobre essa obsessão voyeurista pelo outro e a heteronormatividade, que aparecem no dia-a-dia como uma espécie de inquisição moral, que no fundo parece revelar mais sobre as frustrações, fantasias e taras de quem acusa do que daquele acusado. O tal "pecado" de Arandir apenas faz aparecer em seu tribunal público uma horda de fascinados reprimidos, mesmo que, em última análise, tenha sido apenas um beijo de compaixão e fraternidade diante da morte
Rio Das Mortes
3.1 5 Assista AgoraNão é um longa recheado de melodrama e eloquência como em outras obras mais aclamadas do Fassbinder, mas novamente podemos ver o brilhantismo do diretor colocando em cena personagens em eterno conflito com seus próprios desejos, em seus cotidianos atravessados por dilemas burgueses e sofrimentos da vida moderna. Hanna busca estabilidade no casamento e na vida doméstica, enquanto os rapazes procuram um meio de se livrar da vida assalariada daquela Alemanha massacrante do pós-guerra. O drama dos personagens e suas opressões inevitavelmente passam pelo triturador das instituições burguesas, seja o matrimônio, a família ou o dinheiro. É um retrato da alienação da juventude alemã da época diante de suas utopias vazias: a vida matrimonial e o empreendimento colonizador europeu no sul global. Apesar da atitude dos rapazes parecer como uma espécie de fuga existencial ou salvação pra uma chaga individual, no final das contas é também símbolo da perpetuação do modelo extrativista... Ah, e bem que eu estranhei o fato de 'Rio das Mortes' não ser um local no Peru, mas sim no Brasil... Mais um indício do profundo alheamento dos dois jovens e da grande qualidade e inventividade do Fassbinder em produzir sátiras políticas
O Vagabundo da Cidade
3.5 9um vagabundo suicida talvez seja o arquétipo perfeito do herói fassbinderiano, um sujeito (que está de fato sujeitado, subjugado e subalternizado) em uma ordem social burguesa onde a vagabundagem e o suicídio são duas profanações graves; nesse curta, a câmera segue os passos incertos e erráticos do vagabundo desvalido em sua via crucis num mundo que o nega até mesmo a possibilidade de morrer; o único diálogo desse curta-metragem é tão cômico quanto aterrador, e o final é de uma ironia tão espirituosa que só mesmo um fassbinder poderia engendrar; os personagens fassbinderianos são representações muito certeiras dos sofrimentos encarniçados diante de um mundo marcado pela massificação e pelo embotamento dos afetos
Medo do Medo
4.1 34medo do medo é puro desespero, um terrível desamparo do início ao fim; certamente uma experiência familiar a quem sofre de ansiedade generalizada ou síndrome do pânico; fassbinder emulou muito bem os sofrimentos psíquicos da vida moderna e sua incomunicabilidade; margot padece das aflições de uma vidinha burguesa, desses temores sem face e insondáveis de uma classe média profundamente insensível e entorpecida por seus papéis sociais e suas fachadas; a temática da medicalização da vida também parece ser central, justamente na medida em que existe uma cisão entre o normal e o patológico na interpretação geral, como se a loucura fosse uma variação de normalidade, uma desalinho, uma falta e não uma dimensão completamente inédita; enfim, uma baita obra! fassbinder sempre esbanjando muita profundidade psicológica enquanto diretor
"Please let me start again
I want a face that's fair this time
I want a spirit that is calm"
O Amor é Mais Frio que a Morte
3.5 18estou atualmente numa longa sessão pra maratonar a filmografia do grande rainer werner fassbinder, o amor é mais frio que a morte está longe de ser a obra magna do cineasta, mas certamente foi um belíssimo nascimento do jovem fassbinder para o cinema alemão, um diretor com a cabeça prenhe de marginalidade e teatralidade. nessa obra monocromática e repleta de cigarros, tensão sexual e niilismo se confundem, as personagens aparecem sempre embotadas, cruéis e letárgicas; é a nouvelle vague francesa influenciando um fassbinder muito moço, experimentando esse cinema psicologizante e relativamente minimalista, onde alienação urbana, a tirania do amor e os dramas interpessoais dão o tom narrativo; para ser justo, acredito que nessa homenagem à nouvelle vague, fassbinder tenha sido até mais visceral no trato com a vulcânica vida moderna, repleta de vazio, frieza e opressões amorosas
Precauções Diante de uma Prostituta Santa
3.7 9acho que isso tudo é um pouco sobre participar da natureza humana ao invés de apenas retrata-la, tal como thomas mann havia confessado e fassbinder executado enquanto personagem; quebrar alguns copos de vidro e berrar uns com os outros! precauções diante de uma prostituta santa tem um pouquinho daquela perícia rodrigueana pra trazer à tona alguns aspectos viscerais da natureza humana no processo de fazer (ou não fazer) cinema; desassossegos, ciúmes, construção da identidade, megalomania e conflitos de poder; vejam só, a própria arquitetura desse microcosmos do hotel/resort comunica simbolicamente as turbulências no relacionamento entre os atores e toda a equipe... escadas e espelhos em quase todas as cenas; é um filme sobre fazer filme, mas um filme que nunca começou
Terra em Transe
4.1 298o transe do povo é perpétuo na república das bananas, dilacerados ora pelo populismo, ora pelo conservadorismo, o povo miserável é a corda que rasga, são os famintos de comida, política e professias; até mesmo o poeta idealista sucumbe diante da ardilosa politica. terra em transe é um retrato da politica latino-americana e do destino de um povo imolado pelas convulsões megalomaníacas de seus líderes... a palavra transe normalmente está ligada a um acontecimento transcendental, é abordada como um fenômeno religioso, mas aqui ela aparece apenas como estado de alienação, medo e inconsciência; corrupção, poder e messianismo são eixos temáticos frequentes nos ensaios poético-políticos de glauber rocha; o lirismo e as atuações são impecáveis, porém o desenvolvimento não linear da narrativa torna o enredo um pouco confuso
O Silêncio
4.1 113a prodigiosa trilogia do silêncio de ingmar bergman é dirigida por essa tirânica política do não-dito, pelos labirintos sinitros dessa mudez que não é de serenidade, mas de profunda e pesada aflição; através de um espelho, luz de inverno e silêncio estão conectados por uma perturbação mais ou menos pascaliana, seus personagens são cativos de um sentimento inefável diante do silêncio desses espaços infinitos; não exatamente um drama em relação ao vazio do cosmos, mas dessa condição de esvaziamento da linguagem e a ruína da comunicabilidade... tystnaden condensa brilhantemente todos esses elementos que tornam seus personagens tão miseráveis e incapazes de diálogo vivo; seus relacionamentos acontecem sempre por meio de simulacros; as duas irmãs e o garoto parecem que morrem pelas palavras que não pronunciam e pelas confissões eternamente guardadas
Lavra Dor
3.8 6lavra dor é um curta-metragem sessentista com uma organização poética muito instigante acerca da reforma agrária; a montagem estética não é lá tão poderosa, mas é digno de um comentário o filme em negativo e os altos contrastes que estão lá para anunciar as agruras da vida campesina e a forte dicotomia camponês-fazendeiro. a sua linguagem é revolucionária, seu discurso permite revelar a tez abatida dos trabalhadores rurais e a dureza da realidade pastoril em uma época de trevas políticas; é uma fotografia do povo e ao mesmo tempo ferramenta para sua própria emancipação. o poema-praxis de chamie surge como um mantra que busca destruir o concreto dos concretistas, estabelecer novas semânticas com uma abordagem mais social e brincar com a "fisionomia" das palavras
The Great Satan
3.9 2the great satan é uma riquíssima coletânea de mídias em vhs, desde trasheiras perdidas até programas religiosos dos anos 90 recheados de muito pânico satânico; todos esses conteúdos foram arranjados em um fluxo diabólico-vertiginoso que perverte suas semânticas originais de modo a fazer surgir uma nova narratividade... uma história luciférica, uma apologética do obscuro; o fato de ser uma composição com recortes muito rápidos faz com que o filme se torne uma marcha insana de satanismo e ocultismo, uma sucessão demoníaca e frenética; aprender sobre o senhor das trevas me deu uma terrível dor de cabeça, não recomendo assistir caso tenha problemas com enxaqueca
Satan Fait la Noce
4.4 2tudo o que envolve o diabo e seus arquétipos luciferianos me agrada! nesse curta francês do início do século passado, o anjo banido aparece bem vestido e disposto a se divertir com tudo o que as ruas parisienses podem oferecer para um lúcifer enfadado; tenho a plena certeza de que satã visitou os últimos poetas simbolistas, ofereceu-lhes haxixe e apontou-lhes as direções com seu bom e velho jeito mefistofélico de ser e seduzir. acho muito elegante esse véu cor de vinho que cobre a tela, embeleza a fotografia e potencializa a graciosidade dessa peça infernal
Comida
4.5 79o mestre švankmajer nos apresenta três breves contos sobre nós mesmos; a comida e a maneira como nos relacionamos com ela é uma temática muito espirituosa para manifestar o grotesco da condição antropofágica da qual somos vítimas; as personagens se revelam feras! quando apertei o play eu já esperava uma antologia de críticas agudas, muita lucidez e discernimento... a obra é inconfundível, são aquelas célebres alegorias surrealistas feitas em stop motion pelas quais o diretor tcheco é amplamente conhecido; o primeiro conto me pareceu uma expressão inteligente da mecanização, precarização e massificação ligadas ao ato de comer; o segundo ato aparenta ser mais astuto e direto, compreendi como classismo e reprodução de ideologia; o último conto flerta ainda mais com a antropofagia e nos ensina que um pouco de tempero já pode disfarçar o absurdo de devorar a si mesmo, é fácil aniquiliar-se a depender dos rumos políticos de uma nação
Mochibei
3.0 1é tão único e brilhante quanto rock lee vs gaara ao som de linkin park rsrs... um baita anime! hoje conheci o senhor kurosaka e essa obra me pareceu ser um apropriado cartão de visitas para apresentar-me a um diretor que está visceralmente filiado aos costumes da arte contemporânea e do experimentalismo; mochibei tem a duração ideal para ser exatamente o que é, nem curto demais para não ter substância, nem muito longo para se perder e se desligar de sua própria ideia; vejo uma figura que amaldiçoa a si mesmo, maldizendo-se e castigando-se, vítima de seu maior carrasco, o eu-mesmo. esse traço sujo e impolido da animação é algo que acompanha muitíssimo bem um horror surreal e bizarro feito no japão; a única forma de se preparar para esse curta é assistindo-o! por fim eu preciso dizer uma coisa, lá vai... nossa, é literalmente eu, sério mesmo, muito eu depois de qualquer interação social
Tango
4.2 2sublime e formidável! é uma belíssima animação aquarelada! julgando somente o zelo técnico e o capricho artístico esse curtinha já é um delicioso deleite aos olhos. tango, da forma como interpreto, parece ser uma manifestação das transgressões e vícios do humano, uma história sobre feras e seus pecados, um breve conto sobre poluição, miséria e morte... inexorável condição humana que explora, esgota e degrada; comunica também o destino trágico que sempre nos reserva o odioso mecanismo do messianismo e dos mitos; a jornada dos povos e a marcha da história estão repletas desse nefasto devir... são tantos fatalismos que nos condenam!
Jaime
4.1 1tudo nesse curta me lembrava foucault; todos os desenhos, os escritos e as cenas de profunda e inefável alienação... tudo parece comunicar uma sabedoria obscura e impenetrável, um caos ainda não decifrado
"A loucura fascina porque é um saber. É saber, de início, porque todas essas figuras absurdas são, na realidade, elementos de um saber difícil, fechado, esotérico. Este saber, tão inacessível e temível, o Louco o detêm em sua parvoíce inocente. Enquanto o homem racional e sábio percebe apenas algumas figuras fragmentárias, e por isso mesmo mais inquietantes, o Louco o carrega inteiro em uma esfera intacta: essa bola de cristal, que para todos está vazia, a seus olhos está cheia de um saber invisível"
Culpa
3.9 361 Assista Agoraden skyldige é uma obra descomplicada e acessível, é desses filmes onde tudo acontece numa paisagem fixa e numa só cadência narrativa; essa simplicidade não é sinônimo de pobreza, mas de clareza e despojamento... é tão singelo e rico como ouvir a uma partida de futebol pelo rádio, nos permite fantasiar os acontecimentos e nos envolver intimamente com os fatos assim como o personagem principal, que se vê atravessado pelos dilemas e destinos do caso; a trama é costurada pelas ligações e somos colocados na mesma posição do policial, reféns das chamadas telefônicas e desse "outro lado" que nunca é visto, mas sempre cogitado
Deus e o Diabo na Terra do Sol
4.1 444levei muito muito tempo para puxar um fôlego e assistir a esse prestigiado longa-metragem do glauber rocha; eu estava me preparando para uma cerimônia de alegorias de difícil acesso e muitas abstrações, mas então lembrei da materialidade, solidez e crueza social do cinema novo... em deus e o diabo na terra do sol, glaubão reproduz com preto e branco, teatralidade e muito barroco a miserabilidade do povo enquanto massa desamparada e desesperançada a mercê dos duelos políticos dos poderosos e sofrendo das cicatrizes de seus embates; deus ou diabo... burgueses, religiosos fervorosos ou cangaceiros vingativos, personagens de um eterno conflito na terra do sol, promessas vazias para um povo esvaziado
The Death of David Cronenberg
3.9 6um homem aprendendo a morrer! normalmente o problema da morte não é um fato devidamente refletido; digo mais, é por causa dela que a vida é tão repleta de distrações, passatempos e divertimentos; cronenberg resgata brilhantemente o tabu primordial, abre a ferida primeira e nos mostra que morrer é difícil... enfrentar a mortalidade, se deitar ao lado do próprio corpo pálido, vazio e esgotado e aceitá-lo em toda a dimensão de seu não-ser é uma dura tarefa
Os Fuzis
4.1 79uma maravilha do cinema nacional! a atmosfera das obras do cinema novo é quase sempre barulhenta; os filmes berram e gemem como se doessem. em os fuzis esse frenesi sonoro acontece através dos cantos litúrgicos de fé de um povo massacrado pela fome e oprimido pelos fuzis de soldados que prometem aquele fetiche positivista da ordem. a cantoria religiosa é tema e prece diante dos desesperos da seca e das forças militares maliciosas
Olho por Olho
3.7 11estava torcendo para que nunca chegassem em lugar nenhum! o retrato de um tédio geracional precisa de um motor, necessita da velocidade que deforma um presente esvaziado. o carro faz com que as paisagens artificiais passem e não se fixem pelos vidros do automóvel... a identidade e todos os desejos de uma juventude sessentista marginal são igualmente fugidias, tal como o chão que corre e fica para trás; há uma tensão permanente entre passado e presente, e a montagem sganzerliana parece imitar as ansiedades da adolescência brasileira dos anos sessenta. a câmera percorre a cidade sem saber onde chegar, mas conservando o movimento e a ânsia pela novidade, nem que seja uma tragédia, sei lá... uma peste bubônica (risos)
Animais Fantásticos: Uma História Natural
3.5 5 Assista Agoragostei bastante! um olhar muito jovial e uma investigação interessante dentro do campo da cultura mágica dos filmes adaptados de Harry Potter e dos mitos escritos; essa proposta de um casamento entre o mundo fantástico-mitológico que banha a cultura e o mundo natural é uma possibilidade de conciliação única e genuinamente orgânica; a história dos animais fantásticos e a história natural parece que sempre integraram o mesmo aspecto de uma única imanência cri-ativa... a suposta transcendência desvairada que essas figuras nos transmitem pode ser só um julgamento moderno e apressado de uma íntima relação com a natureza mediada por todas as suas belezas, terrores e espantos
Asas do Desejo
4.3 501 Assista Agorae como transborda de lirismo essa singelíssima obra do wim wenders! muito mais do que cair na implacabilidade do tempo ou voluntariar-se aos terrores do devir, os anjos monocromáticos e inchados de eternidade buscam preencher seus afetos gelados e suas poesias celestes com calor humano, sentir a carne, as lágrimas, o frio, a chuva, o amor e as tristezas da materialidade. ah! e como há tristezas, especialmente numa berlim tétrica e arrasada... por isso essa incomunicabilidade entre anjos e gente revela também um abismo, que faz com que o anjo deseje a experiência lúgubre e humana da aflição, das noites e do amor. apesar de ser um pouquinho cansativo, o filme-poesia do wenders fornece algumas belíssimas visões poéticas acerca da condição humana
Farnese
4.2 7farnese é um poeta das sucatas! artista dos troços e destroços! suas obras são pedaços de um poema fatal sobre o descartável e sobre os restos medíocres que se transfiguram através das forças recicladoras do inutilizável! fazer arte a partir dos entulhos do ex-mundo. escandalizar a morbidez da matéria... um barato total essas colagens que erguem, ao final, um monumento aos escombros e ao lixo... metáfora ao caos pós-guerra inflada de pessimismo, desilusão e amargura. um carinha bastante idiossincrático, já está entre meus favoritos