Eu estava até relevando a frieza de pais que perdem o filho dessa forma e não derramam uma lágrima. Afinal, cada um lida com o luto a seu modo, como a trajetória do Jean mostra. Porém, a meu ver,a história confunde "deixar lacunas para o público preencher" com "excluir informações para dar a sensação de lacunas". Por exemplo, a questão da casa. Onde Maxime morava? Onde o pai dele morava? Para qual casa Jean leva Fabien? Fabien entra em qual casa e por que Jean está ali?
Essas questões destruíram minha imersão no filme.
A questão do pai que descobre outra face do filho (um tropo clássico) é até uma boa premissa, mas a condução é dúbia, sem muita emoção e sem evolução do protagonista.
No final de tudo, Jean apenas usou emocionalmente o pessoal da Bisou para ter um salto de superação do luto, trancou o armário desse capítulo da vida dele, escondeu com um lençol branco de "pureza" e seguiu a vida.
— "Slashr" ⭐⭐⭐: Acho que o principal trunfo é dar a entender que, em determinado momento, o curta tem vários caminhos disponíveis e me fazer acreditar nisso, deixando-me na dúvida sobre o que eu encontraria na cena seguinte. Gostei disso. Essa experiência é complementada pela mensagem de alerta para homens gays e os famosos aplicativos de pegação.
— "Father of The Bride" ⭐️⭐️⭐️⅓: Acho que foi uma das cenas mais constrangedoras que já vi reproduzidas em um filme. E foi intereporque levanta vários questionamentos sobre hipocrisia dentro do mundo masculino.
— "Bros Before" ⭐️⭐️½: A reflexão é importante, especialmente se considerarmos que até hoje tem muitas pessoas (inclusive, pessoas LGBTQIA+) que não entendem que o fato de a pessoa ser trans não tem nada a ver com a sexualidade dela. Porém, a execução está bem meia boca. As atuações até que passam sem problemas, mas a condução...
"Dominant Chord" ⭐⭐⭐ — Complicada situação. Muitos podem dizer que "é só agir por amor" ou que "as pessoas acabam aceitando", mas, no mundo real, fora das bolhas de redes sociais, nã é assim que funciona. Principalmente, em um meio tão machista e homofóbico como o country. Por isso que parei de julgar jogares de futebol, atores, cantores, etc. que permanecem sem se declararem LGBTQIA+. A sociedade que afaga nas redes sociais, é a mesma que joga pedras em nós.
"Petit Ami" ⭐⭐⭐½ — Triste, real e bem conduzido.
"Skin on Skin" ⭐⭐⭐⭐ — Reflito muito sobre como nós, homens gays, temos um repertório sexual vasto, mas um repertório emocional reduzido. Muito disso, acredito, vem do fato de crescermos presos, impedidos do toque, sem "namoradinhos", aprendendo primeiro a se esconder, depois a mentir, então, sobreviver, e só no final a amar. E isso é dilacerante. Não à toa, os índices de suicídio entre nós são elevados. Creio que "Skin to Skin" é um breve retrato disso, dessa fome emocional, vontade de, nem que seja em um encontro furtivo, ter uma prova de que existimos e de que temos alguém para nos abraçar.
"Follow Me" ⭐⭐⭐½ — Quando a esperança se dobra à realidade das máscaras. Quantos grandes amores não foram impedidos pela hipocrisia?
O que achei mais bonito é que o filme é muito consistente: os personagens funcionam, os conflitos são apresentados e resolvidos, a condução é serena. Algo diferenciado é que a mensagem é óbvia, sim, mas não veio de forma piegas, boba. Há uma serenidade aqui que conforta e vai acalentando ao longo do filme — e muito disso vem graças à química natural entre Lilia Cabral e Giulia Bertolli. Claro que tem o fato de serem mãe e filha, mas vai além dessa questão familiar. Ambas têm um brilho no olhar que passou para mim. E Lília Cabral... Uau. Dá vontade de ficar escutando, escutando, escutando... Belo filme. Aconchegante.
No começo, confesso que eu estava até com sono. Mas aí começaram a acontecer várias coisas, a vida foi se desenrolando, fatos surgiram, eu comecei a ser tragado para as intimidades dessa família. De repente, lá estava eu naquele tribunal tecendo minhas próprias teorias e, assim como o Daniel, fazendo uma escolha. "Anatomía de uma queda" me pegou nesse ponto: ela não é conclusivo. Pelo contrário, mostra exatamente o que é a vida: escolhas. É um filme incômodo por deixar no ar uma pergunta tola, mas dilacerante: e se?
"Spiral" ⭐️⭐️⭐️½: Bizarro, macabro e estranhamente plausível se pensarmos de forma metafórica sobre o que foi apresentado.
"Floating Melon" ⭐️⭐️½: Interessante por termos a oportunidade de ver um lado mais sujo da China, sem aquela "máscara de perfeição". Porém, a meu ver, acaba de forma muito estranha...
"Poof" ⭐️⭐️⭐️½: Creio que o adjetivo "desolador" se encaixa aqui. Primeiro, pelo sentido do curta-metragem, que se torna sereno ao se afastar do lúdico e mostrar uma realidade ainda presente (mesmo em um país considerado avançado). Segundo, por ter conseguido ambientar essa desolação a cada cena. Há algo sereno em cada movimento deste filme.
"Passée l’aube" ⭐️⭐️⭐️⭐️½: A angústia de querer se entregar, mas sentir-se preso à essa entrega. Temos aqui o medo de um "e se" que nos corrói a ponto de pensarmos se não seria melhor nos livrarmos da pessoa que trouxe a possibilidade de mudança. O desespero final, filmado em um take de silêncio, é arrebatador.
"Night of Love" ⭐️⭐️⭐️⭐️: Levanta uma questão peculiar e que suscita muitos debates. Achei interessante como foi tratada e somada aos anseios do Yonatan. Aqui, uma jornada por autodescoberta, descoberta do mundo, sexualidade, entrega, gostos, prazeres, família, conflitos. É guerra externa, guerra interna. Crucifixo e gozo. Doença do corpo, doença social. Sorriso. Bonito curta. Intrigante.
"Naken" ⭐⭐⭐⭐: Impressionante como conseguiram imprimir a melancolia e o desconforto do Erik. Eu vi a angústia na tela. Triste e real.
"Pria" ⭐⭐⭐⭐½: Imersão na cultura indonésia que nos lembra como ser LGBTQIA+ é um desafio universal. Aqui, senti uma delicadeza que se mistura à conformidade de se ver sozinho em uma sociedade que sabe o que você é, mas exige que você se apague.
"Walk with me" ⭐⭐⭐½: Sem dar spoilers, acho que mostrar a possibilidade estragou o pouco o final. Na técnica da escrita criativa, Stephen King tem a máxima "Show, Don't Tell" (Mostre, Não Conte). Aqui, porém, eu preferiria que essa probabilidade tivesse sido contada.
"One Night Only" ⭐⭐⭐⭐½: Como Nina Simone dizia: "Aprenda a sair da mesa quando o amor parar de ser servido." A história deste curta-metragem é simples, sim, mas cheia de significado em um ambiente onde o "dar-se ao respeito" é sinônimo de "seja discreto" e muitas pessoas acham elogio dizer que alguém "não parece gay" — especialmente, muitos homens gays imersos em estereótipos de masculinidade. No final das contas, é sobre encontrar o lugar onde podemos existir.
"Tapette" ⭐⭐⭐⭐⭐: Eu AMO o cinema francês porque não há pudores como acontece por aqui. E "Tapette" foi refrescante. É o que posso dizer. Eu sorri, eu refleti, eu me deixei levar. Maravilhoso. E A metáfora ao final, de abraçar as coisas, abraçar o medo, parar de correr dele, é algo universal e louvável. Lindo curta-metragem.
Refleti que a maior questão que tive com este filme (estonteante filme, por sinal) é o ritmo frenético para uma história sem desenvolvimento.
Na série, foram necessários 61 capítulos e muita preparação até derrotar o Senhor do Fogo. E o bonito é que, ao longo da jornada, cada episódio contribuiu para a curva de amadurecimento do Aang e dos outros, sendo, acima de tudo, uma jornada emocional.
Aqui, temos um vilão em teoria muito mais poderoso e perigoso, mas incutido em uma trama de menos de duas horas de duração. Consequentemente, não houve tempo para existir uma curva de amadurecimento e tudo me pareceu muito abrupto. Sem contar que, olhando com olhos de escritor, percebi claramente que tem partes onde as "mãos dos roteiristas" forçaram coisas a acontecer. Ficou muito evidente.
Somado a isso, ainda fiquei com uma pergunta: uma avatar dessa, lendária, com tal poder... NINGUÉM durante a série teria mencionado alguém assim? Sério mesmo?
Claro, é um filme esteticamente lindo, trilha sonora maravilhosa e foi reconfortante reencontrar a turma toda. Mas, por mais impactante que seja a fotografia e a arte de um filme, ainda precisamos de uma boa história que sustente isso tudo, né? Senão, vira só uma caixa bonita para um perfume sem frescor.
Assisti de forma despretensiosa e fiquei em choque. 😅😅😅 Que filmaço! Minha referência de Mogli era o desenho clássico e também alguns quadrinhos que tive quando criança. De repente, encontrei um filme impressionante, muito bem feito, redondinho e, na época, com um dos atores mirins mais cativantes que já vi. O Neel Sethi é magnético. Quando terminei, eu estava com vontade de assistir novamente.
Assistir a este filme em meio a tudo que temos visto traz um sentimento peculiar. Por um lado, a revolta contra um regime autoritário que impede até mesmo um mero contato. Por outro, a revolta contra líderes que reduzem um país aos seus problemas e ignoram a pujança cultural de um lugar como o Irã.
Nesse sentido, creio que "Meu Bolo Favorito" passeia muito bem entre esses dois cenários.
E os silêncios... Nossa, os silêncios. Em uma era de tantos filmes cheios de explosões, gritos e efeitos mil, "Meu Bolo Favorito" nos lembra de um detalhe crucial: tenha o aparato tecnológico que for ou o orçamento milionário que tiver, o que sustenta um bom filme é uma trama que abrace o público.
Nesse sentido, este é um filme que se passa em uma noite, mas que vale por uma vida.
Não conhecia esse filme. Grata surpresa. É aquele tipo de obra que mostra um princípio básico (e muito esquecido) da escrita criativa: uma boa história supera uma estética "perfeita". Não, não é um glamour, não é um filme arrebatador e muito menos uma obra explosiva — mas é acolhedor. Quantos filmes não vemos que são lindos, milionários, cheios de firulas, mas não nos abraçam? "Pés de Peixe" é simples, direto e certeiro. Usando a linguagem dos animes, é um "slice of life", uma trama do cotidiano que funciona. Temos representatividade, brasilidade e o linguajar comum, para além do eixo sul-sudeste. Aqueceu a alma. Valeu a pena.
Algo que aprendi em mais de duas décadas imerso no ofício da escrita criativa é que os clichês existem porque são tramas básicas que funcionam. Ponto. Tentar fugir deles é pedir para ser um escritor, uma escritora frustrada. Agora, longe dessa busca desesperada por "ineditismo", o verdadeiro diferencial de uma história está no modo como o seu autor pega o clichê e trabalha para incutir nessa base criativa as vivências dele, memórias, pontos de vista únicos que só aquela pessoa tem. Nesse sentido, este filme me convenceu. Sim, a história é clichê (a descoberta de um irmão e o dilema financeiro que isso envolve), mas a contação desse drama me abraçou. As atuações são um diferencial, é claro, mas vi também uma serenidade que faz esse filme ser muito, muito superior a obras de fato sustentadas por dezenas de clichês. "Bem-Vindo à Vida" não é um blockbuster, mas tem uma qualidade que admiro: é dramático sem ser melodramático. Isso me conquistou. Bela história.
A premissa é maravilhosa, não exatamente pelo humor — que é bem nonsense —, mas especialmente pelas camadas de drama que sustentam o filme. Diante disso, eu comecei a assistir "Bem-vindos ao meu mundo" realmente imerso nessa história, torcendo por Alice e, principalmente, esperando que aquela sessão continuasse interessante até o final.
Para mim, não rolou.
Da metade em diante, o filme se torna "mais do mesmo", algo bem certinho, seguindo o que já é esperado. Basicamente, o filme passa a seguir uma estrutura convencional de redenção: os conflitos são resolvidos com facilidade e as excentricidades da protagonista são suavizadas. Claro que há filmes em que você também já sabe como a trama terminará. Porém, a questão é como esse percurso será construído, quais camadas trará e como a personagem principal amadurecerá nesse caminho.
Aqui, em "Bem-vindos ao meu mundo", a meu ver, as camadas que me encantaram no começo foram deixadas de lado em prol de uma resolução que me pareceu "protocolar".
Quando o filme começou, eu lembrei muito de "Florence — Quem é essa mulher?" (2016) porque ali encontrei um arco dramático que me fez torcer por Florence até o último segundo. Já aqui, diante de decisões genéricas, a ausência de refinamento e de cuidado me deixaram desgostoso.
Palmas para Kristen Wiig, que traz uma interpretação imersiva de Alice, mas, sinceramente, nem essa qualidade compensou minha decepção.
Não posso negar que foi divertido, mas, ao menos para mim, não saiu da primeira camada. Não que haja algo de errado numa mensagem óbvia — pelo contrário. Eu já entrei no filme ciente do tipo de história que encontraria. O problema é quando essa mensagem é tão óbvia que parece didática.
Some isso ao fato de eu, entediado, ter começado a brincar de "Vamos prever qual será a próxima cena" e ter passado quase uma hora acertando uma sequência atrás da outra. Foi um recorde!
Não que eu seja "fodão", longe disso: é o filme que não me trouxe nada além do esperado.
Sendo assim, "Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra" foi uma homenagem legal ao gênero de ficção científica, com cenas divertidas e um clima de "papo cabeça em busca de reflexão e despertar de consciência". E só.
Um filme sobre descobrir-se casa para o outro e descobrir que o outro, "o estranho", "o diferente", também pode ser uma casa para nós. Desde criança, sou fã do "pai da ficção científica", Isaac Asimov, e aqui eu encontrei uma adaptação respeitosa à obra do Andy Weir e também ao ensinamento primordial de Asimov:
A ficção científica não é sobre o futuro, mas sobre assuntos atuais revestidos por suposições acerca do futuro.
Nesse sentido, para mim, "Devoradores de Estrelas" é um abraço nestes tempo de ojeriza ao outro — podendo "o outro" ser entendido das mais variadas formas. Quando nos permitimos contato, imersão, abertura de mente, temos a chance de conectar nossas naves, encarar a escuridão de um túnel de diferenciação e descobrir que lá no fim desse túnel existe vida. O que vemos como "monstro" é apenas uma vida que sente igual a nós e quer a mesma coisa; a solução para o "monstro" que consome o sol é a vida banal que também traz consequências, mas nem por isso é mau. Ela é só vida.
E é a empatia, essa palavra tão usada, mas pouco praticada, que consegue transformar até mesmo um "muro" (um invólucro de vidro, por exemplo) em uma chance de abraço.
Em 1991, no álbum "Eletricidade", a banda Capital Inicial trouxe a música "Chuva". Enquanto eu assistia a "Devoradores de Estrelas", um trecho dessa canção ficou martelando a minha mente:
"Você tem vontade de olhar / Mas não abre os seus olhos / Você tem vontade de amar / Mas não abre os seus braços"
"Arco" é estranho. É estranho porque parece Ghibli, mas não é; parece infantil, mas não é; parece que te dará respostas, mas não dá. E foi exatamente por essa coragem de ser estranho que eu gostei do filme. Acima de tudo, pela coragem de investir em uma ambientação bucólica e em uma trama melancólica.
Isso é um diferencial.
Nesse sentido, das três questões que eu apontei no começo, o "fator Ghibli" é o que mais se deteriora, pois "Arco" tem sim algo do aclamado estúdio japonês: a lição de que nem sempre você precisa dar respostas a tudo. E conhecendo bem como funciona a escola de cinema francesa — que leva às últimas consequências essa questão da falta de respostas óbvias —, acredito que "Arco" conseguiu mesclar muito bem os ensinamentos trazidos pela animação japonesa com a base do cinema francês.
Posso até dizer que "não tem a magia do Hayao Miyazaki" (COMO teria???), mas tem ali uma singeleza, uma pureza, um grito contido, um choro velado que explode nas cores sóbrias deste filme. Esse é um ponto curioso: o arco-íris de "Arco" é pálido. Percebeu isso? O colorido é sereno como se a paleta de cores representasse a gravidade que envolve esse mundo de 2075 — e para onde claramente estamos indo.
Em uma realidade de 2026 onde as pessoas estão imersas de tal forma nas telas que se tornaram incapazes de tirar 30 segundos para apreciar o céu, "Arco" é um pedido de respiro; um clamor para olharmos para o céu e vermos uma magia que nenhuma tela consegue capturar. É sobre memórias, saudade e redescoberta do que é ser família. É sobre Isaac Asimov, Philip K. Dick e Arthur C. Clarke. É sobre a inspiração que vem da capacidade de parar e refletir.
Eu creio que o que assisti foi uma metáfora certeira sobre as pressões que nós colocamos nas mulheres quando elas se tornam mães. A condução da trama é genial — não consigo encontrar outra palavra —, ao provocar o público a encarar a filha apenas depois de quase duas horas de filme, lembrando que o nascimento não pressupõe a invisibilidade dos problemas dessa mulher. O estigma da mãe forte, "que aguenta tudo" e "carrega o mundo nas costas" ganha aqui um tom quase surrealista, mas muito palpável. Algumas pessoas chegaram a dizer que tem um "humor mórbido ". Pois bem: onde? Não há nada engraçado aqui. Pelo contrário, temos neste filme uma narrativa potetente, provocadora e dilacerante que exige silêncio, empatia e autoconsciência. Eu estou impactado.
Na escrita criativa, nós temos o chamado "este de Bechdel", uma forma de avaliar se aquela obra tem representatividade feminina de fato. O teste tem três regras básicas:
1) Ter duas ou mais mulheres — no mínimo duas personagens femininas que tenham nomes e relevância dentro da obra.
2) Conversar entre si — essas personagens precisam dialogar uma com a outra em algum momento da trama.
3) Não falar sobre homens — o assunto da conversa entre elas não pode ser sobre um homem (ou relacionamentos com homens).
E "Red" passa de forma linda! Que filmaço! Sério: acho que poucas vezes me diverti tanto com uma animação. Sabe quando você vai assistindo e de repente se flagra sorrindo? Não por algo engraçado, mas um riso bobo, sutil, instintivo; um riso de "Cara, estou feliz vendo isso". Uau!
Mei é cativante demais. Domee Shi é uma diretora que sabe traduzir emoções sem soar melodramática (vide o filme "Elio" e o encantador curta-metragem "Bao") e aqui em "Red" ela conseguiu falar sobre adolescência, menstruação, sororidade, vontade de ser quem se é, tudo de modo que nos abraça, conforta, afaga, silencia.
Como muitos abaixo perceberam, este filme deveria ter mais reconhecimento. Em meio a tantas obras bobas e rasas, em meio à um mundo tão violento e com seus homens brutalizados em performances de masculinidade, "Red" é uma ode à empatia. Maravilhoso filme!
Amei a metáfora sobre o modo como o capitalismo nos consome, seduz, mas, no fundo, só quer nos f*der. Narrativamente, isso chamou muito a minha atenção. Algo que sempre insisto nas aulas de escrita é que as pessoas precisam dar camadas, entrelinhas, subtextos para o que escrevem. Portanto, foi o que encontrei aqui. Agora, pensando pelo lado da dinâmica do filme, confesso que eu fiquei com eles até por uns 2/3 do longa. Depois, eu comecei a pensar:
"Hum, isso tá indo para um lado óbvio..."
Ouso dizer (querendo dar uma de editor de filme, veja só! KKKKKKKK) que parte disso foi por causa do final.
Eu preferia que tivesse acabado quando ela dá uma tacada de golfe na cabeça do Bradley. Seria massa! Aí, subiriam os créditos e, só depois, quase no final de tudo, antes de aparecer os nomes dos dubladores, aí sim entraria a cena dela recuperada.
Simbolicamente, creio que isso também seria uma mensagem de "essas corporações querem que você consuma tudo rápido, mas, para quem espera e silencia, há um bônus para a vida" — que seria, aí sim, aquela mensagem final.
Apesar desse detalhe, eu me diverti muito. Linda é uma personagem dúbia, cheia de mistérios, que vai se revelando a cada cena. Esquisita? Sim. Mas essa característica a torna, para mim, ainda mais incrível. Bradley me irritou como deveria e achei a atução do Dylan O'Brien encaixada. Eu olhava para os olhos dele e percebia o grande FDP que estava ali. A dinâmica entre eles funcionou. Os efeitos visuais foram outra grata surpresa. Somado a esse ponto, o gênero do filme foi mantido até o final, com todo aquele tempero bizarro do Sam Raimi.
Mas vou te dizer uma coisa: fiquei curioso para ver esse filme, essa mesma premissa, sob a ótica polêmica do Lars Von Trier.
Um grande filme que, para mim, foi se perdendo ao longo do percurso. Ouso dizer que eu editaria FÁCIL os 15 minutos finais para agilizar a entrada do que realmente importa: a cena final "de verdade". Algo que notei é como a trama funcionou para mim enquanto estava na parte da sedução vampírica, ancestralidade, misticismo, música, blues... F*DA! Mas aí, quando entra a ação... Logo pensei:
"Ah, não! Virou um filme qualquer..."
Entende o ponto? O longa te promete uma coisa com aquele começo, algo mais misterioso, uma penumbra, com todo o jogo musical — a cena do Pastorzinho tocando 🤯🤯🤯 Caraca! Só que descamba pro comum, mais do mesmo, zona de conforto.
Não é ruim. Particularmente, achei melhor do que o porre do "Uma Batalha Após a Outra". Contudo, a narrativa foi me perdendo a medida em que se aproximava do "fim" — ainda bem, teve um fôlego depois.
Agora, Michael B. Jordan. O que é isso, meu filho? Impressionante. E a trilha sonora (soundtrack) estupenda. Entre trancos e barrancos, valeu a pena. Terminei inspirado.
Eu gostei especialmente de dois pontos. Primeiro, a tensão. Nossa, como eu fiquei tenso! Desde a primeira cena, já existe um clima estranho. O escalonamento da situação, a sucessão de erros da diretoria, a noção de que aquilo virou um barril de pólvora... Em certo momento, percebi que eu estava na ponta da cadeira, com a testa franzida e segurando a respiração. Pela Carla, é claro, mas também por já ter testemunhado casos semelhantes ao meu redor.
Para mim, foi uma dor palpável.
Em segundo lugar, preciso destacar o silêncio do filme. Em muitas cenas, o diretor aposta no olhar, no suspiro, na completa mudez. Como sempre insisto no campo da escrita criativa, nunca devemos esquecer que os silêncios contam tantas — ou até mais — histórias que o texto ali presente. Aqui, em “A Sala dos Professores”, o que encontrei foi a personalidade desses personagens, alimentada pelas entrelinhas e pelo subtexto presente na trama.
Isso possui uma riqueza incomparável.
No final das contas, creio que, apesar do contexto alemão, este é o tipo de filme que conversa com muitos de nós — ouso até dizer com todos. Lembro-me de uma entrevista da icônica Elke Maravilha em que ela disse algo que ficou gravado em minha mente: “Escola é para instruir; educação se aprende em casa”. Eu vivenciei e vivencio isso na prática e, de certo modo, o filme toca exatamente nessa ferida.
Confesso que fiquei p*** de raiva ao pensar que gastei R$20 alugando esse filme. Sinceramente, não funcionou para mim. Algo que sempre falo em relação aos livros é que, se você pega uma obra, lê alguns capítulos, pulas uns 5 ou 6, e a história continua a fazer sentido, significa que aquela narrativa tem o que chamamos de "barriga": informações que só estão ali para fazer volume. Em um filme, quando você enche o saco depois de 1 hora assistindo, pula 40 minutos, e a história continua a fazer sentido como se você não tivesse perdido nada, é um grande indício de que há algo estranho nessa narrativa.
Foi o que vivenciei aqui.
Tudo bem, não posso ser hipócrita de não enaltecer a parte técnica. Nesse sentido, é um filme absurdo, sem dúvida. A cena da perseguição é diferenciada e gera tensão. Na minha opinião fecal, entra fácil para o rol de cenas icônicas do cinema. Agora, minha imersão ficou restrita a isso.
Beleza, as atuações são boas, mas Leonardo DiCaprio não me desce. Sério. Não consigo vê-lo em um papel que não seja... o Leonardo DiCaprio! Todos os personagens são as mesmas expressões, a mesma passada de mão no cabelo, o mesmo olho tremendo, a mesma suspirada... De fato, creio que boa parte do meu ranço com o filme veio dele. Por sorte, tive Sean Penn, Benicio Del Toro e Chase Infiniti para dar uma balanceada, senão, se o filme fosse só ele, só sendo um urso para aguentar — opa, já tivemos essa experiência, não?
Funciona como sátira? Funciona. Ainda mais em um país que está flertando com uma autocracia, "Uma Batalha Após a Outra" é uma provocação que mostra ao mundo — e aos próprios estadunidenses — a m*rda que está acontecendo nos Estados Unidos. Porém, a meu ver, mesmo esse ponto positivo meio que se perdeu devido ao problema narrativo que citei acima.
No fim das contas, na minha experiência, soou como um filme com uma proposta f*da que se perdeu ao tentar fazer algo épico.
Em 2017, quando Viola Davis ganhou o Oscar de Atriz Coadjuvante pelo filme “Um Limite entre Nós” (2016), a artista citou o escritor August Wilson, cuja peça teatral inspirou o filme. Durante seu discurso de agradecimento, Viola disse:
[...] existe um lugar onde estão reunidas todas as pessoas de grande potencial. Existe um lugar, e é o cemitério. As pessoas sempre me perguntam: Viola, que tipo de histórias você quer contar? E eu digo: exumem esses corpos. Exumem essas histórias, as histórias das pessoas que sonharam grande e nunca viram esses sonhos se tornarem realidade. Pessoas que se apaixonaram e perderam. Eu me tornei uma artista – e graças a Deus me tornei – porque somos a única profissão que celebra o que significa viver uma vida. [...]
Que bom que Marianna Brennand exumou esse corpo amazônico.
No final da sessão, eu estava engasgado, confesso. “Manas” é um filme-provocação porque nos coloca no costumeiro lugar de, do alto de nossos sofás e casas protegidas, julgar a mãe, por exemplo, apontar os dedos, sem entender a dor dessa mulher. É um filme sobre sororidade, realidade e brutalidade. Um longa-metragem sobre um lado de nós — nós, sociedade — que nos recusamos a ver. Quando vemos, fazemos posts, ficamos indignados, reclamamos. Então, após um “Ufa” ao pensar que “já fizemos nossa parte”, deslizamos a tela e sorrimos até nos acabar de mais um vídeo engraçado.
Acredito que eu nunca vi algo tão imersivo na dor humana. De verdade. Sim, é claro que vemos o choro, o desespero, o pranto todos os dias nos jornais — ou ficcionados em alguma mídia —, mas aqui é muito cru, muito palpável. A reação das pessoas, especialmente das crianças, foi o que mais me deixou angustiado.
Pode ter o talento de lendas da atuação como Fernanda Montenegro ou Isabelle Rupert, nada se compara a isso aqui. Muito, muito brutal.
Agora, dito isso, creio que o documentário perde força narrativa ao longo do percurso. Perceba: há sim a força simbólica de termos o registro sobre uma realidade de uma lei que privilegia cor de pele. Isso é inegável. Porém, falando narrativamente, com base no bom e velho storytelling, a segunda metade do documentário perdeu fôlego, a meu ver.
A primeira parte é interessante porque você vê o escalonamento da crise até o ponto de explosão. Por mais que saibamos o que acontecerá, as filmagens via câmeras corporais fornecem um registro íntimo que é difícil ser captado de outra maneira. Então, depois desse ponto, eu fiquei na expectativa de que algo mais iria acontecer (ainda mais porque as filmagens dão essa impressão), mas não.
A mensagem para mim foi de "Ok, é isso aí, a vida segue seu curso, justiça foi feita, ponto, próximo caso".
E aqui o ciclo se fecha com.uma ironia. O elogio que faço à humanidade de mostrar essa dor sem edições também serve como crítica. A sensação que tive foi que se apoiaram tanto nessa emoção que esqueceram de trazer humanidade, rosto, desfecho emocional no final do documentário. Quando os créditos subiram, notei que esses 90 minutos que fizeram ficar mais focados na assassina do que na história de Ajike. Quem é essa mulher? Quais sonhos tinha? Como chegou a essa casa? Quais lutas teve? Entende o que quero dizer? Faltou um "rosto" para essa dor, um rosto que fosse além das fotos carregadas pelas pessoas.
7 Minutos
2.2 8Eu estava até relevando a frieza de pais que perdem o filho dessa forma e não derramam uma lágrima. Afinal, cada um lida com o luto a seu modo, como a trajetória do Jean mostra. Porém, a meu ver,a história confunde "deixar lacunas para o público preencher" com "excluir informações para dar a sensação de lacunas". Por exemplo, a questão da casa. Onde Maxime morava? Onde o pai dele morava? Para qual casa Jean leva Fabien? Fabien entra em qual casa e por que Jean está ali?
Essas questões destruíram minha imersão no filme.
A questão do pai que descobre outra face do filho (um tropo clássico) é até uma boa premissa, mas a condução é dúbia, sem muita emoção e sem evolução do protagonista.
No final de tudo, Jean apenas usou emocionalmente o pessoal da Bisou para ter um salto de superação do luto, trancou o armário desse capítulo da vida dele, escondeu com um lençol branco de "pureza" e seguiu a vida.
A frieza imperou.
The Gay Agenda 38
3.0 1— "Slashr" ⭐⭐⭐: Acho que o principal trunfo é dar a entender que, em determinado momento, o curta tem vários caminhos disponíveis e me fazer acreditar nisso, deixando-me na dúvida sobre o que eu encontraria na cena seguinte. Gostei disso. Essa experiência é complementada pela mensagem de alerta para homens gays e os famosos aplicativos de pegação.
— "Father of The Bride" ⭐️⭐️⭐️⅓: Acho que foi uma das cenas mais constrangedoras que já vi reproduzidas em um filme. E foi intereporque levanta vários questionamentos sobre hipocrisia dentro do mundo masculino.
— "Bros Before" ⭐️⭐️½: A reflexão é importante, especialmente se considerarmos que até hoje tem muitas pessoas (inclusive, pessoas LGBTQIA+) que não entendem que o fato de a pessoa ser trans não tem nada a ver com a sexualidade dela. Porém, a execução está bem meia boca. As atuações até que passam sem problemas, mas a condução...
The Gay Agenda 29
3.5 1"Dominant Chord" ⭐⭐⭐ — Complicada situação. Muitos podem dizer que "é só agir por amor" ou que "as pessoas acabam aceitando", mas, no mundo real, fora das bolhas de redes sociais, nã é assim que funciona. Principalmente, em um meio tão machista e homofóbico como o country. Por isso que parei de julgar jogares de futebol, atores, cantores, etc. que permanecem sem se declararem LGBTQIA+. A sociedade que afaga nas redes sociais, é a mesma que joga pedras em nós.
"Petit Ami" ⭐⭐⭐½ — Triste, real e bem conduzido.
"Skin on Skin" ⭐⭐⭐⭐ — Reflito muito sobre como nós, homens gays, temos um repertório sexual vasto, mas um repertório emocional reduzido. Muito disso, acredito, vem do fato de crescermos presos, impedidos do toque, sem "namoradinhos", aprendendo primeiro a se esconder, depois a mentir, então, sobreviver, e só no final a amar. E isso é dilacerante. Não à toa, os índices de suicídio entre nós são elevados. Creio que "Skin to Skin" é um breve retrato disso, dessa fome emocional, vontade de, nem que seja em um encontro furtivo, ter uma prova de que existimos e de que temos alguém para nos abraçar.
"Follow Me" ⭐⭐⭐½ — Quando a esperança se dobra à realidade das máscaras. Quantos grandes amores não foram impedidos pela hipocrisia?
A Lista
3.5 6O que achei mais bonito é que o filme é muito consistente: os personagens funcionam, os conflitos são apresentados e resolvidos, a condução é serena. Algo diferenciado é que a mensagem é óbvia, sim, mas não veio de forma piegas, boba. Há uma serenidade aqui que conforta e vai acalentando ao longo do filme — e muito disso vem graças à química natural entre Lilia Cabral e Giulia Bertolli. Claro que tem o fato de serem mãe e filha, mas vai além dessa questão familiar. Ambas têm um brilho no olhar que passou para mim. E Lília Cabral... Uau. Dá vontade de ficar escutando, escutando, escutando... Belo filme. Aconchegante.
Anatomia de uma Queda
4.0 992 Assista AgoraNo começo, confesso que eu estava até com sono. Mas aí começaram a acontecer várias coisas, a vida foi se desenrolando, fatos surgiram, eu comecei a ser tragado para as intimidades dessa família. De repente, lá estava eu naquele tribunal tecendo minhas próprias teorias e, assim como o Daniel, fazendo uma escolha. "Anatomía de uma queda" me pegou nesse ponto: ela não é conclusivo. Pelo contrário, mostra exatamente o que é a vida: escolhas. É um filme incômodo por deixar no ar uma pergunta tola, mas dilacerante: e se?
The Male Gaze: Nocturnal Instincts
1.9 2"Spiral" ⭐️⭐️⭐️½: Bizarro, macabro e estranhamente plausível se pensarmos de forma metafórica sobre o que foi apresentado.
"Floating Melon" ⭐️⭐️½: Interessante por termos a oportunidade de ver um lado mais sujo da China, sem aquela "máscara de perfeição". Porém, a meu ver, acaba de forma muito estranha...
"Poof" ⭐️⭐️⭐️½: Creio que o adjetivo "desolador" se encaixa aqui. Primeiro, pelo sentido do curta-metragem, que se torna sereno ao se afastar do lúdico e mostrar uma realidade ainda presente (mesmo em um país considerado avançado). Segundo, por ter conseguido ambientar essa desolação a cada cena. Há algo sereno em cada movimento deste filme.
"Passée l’aube" ⭐️⭐️⭐️⭐️½: A angústia de querer se entregar, mas sentir-se preso à essa entrega. Temos aqui o medo de um "e se" que nos corrói a ponto de pensarmos se não seria melhor nos livrarmos da pessoa que trouxe a possibilidade de mudança. O desespero final, filmado em um take de silêncio, é arrebatador.
"Night of Love" ⭐️⭐️⭐️⭐️: Levanta uma questão peculiar e que suscita muitos debates. Achei interessante como foi tratada e somada aos anseios do Yonatan. Aqui, uma jornada por autodescoberta, descoberta do mundo, sexualidade, entrega, gostos, prazeres, família, conflitos. É guerra externa, guerra interna. Crucifixo e gozo. Doença do corpo, doença social. Sorriso. Bonito curta. Intrigante.
The Male Gaze: First Kiss
3.5 3"Naken" ⭐⭐⭐⭐: Impressionante como conseguiram imprimir a melancolia e o desconforto do Erik. Eu vi a angústia na tela. Triste e real.
"Pria" ⭐⭐⭐⭐½: Imersão na cultura indonésia que nos lembra como ser LGBTQIA+ é um desafio universal. Aqui, senti uma delicadeza que se mistura à conformidade de se ver sozinho em uma sociedade que sabe o que você é, mas exige que você se apague.
"Walk with me" ⭐⭐⭐½: Sem dar spoilers, acho que mostrar a possibilidade estragou o pouco o final. Na técnica da escrita criativa, Stephen King tem a máxima "Show, Don't Tell" (Mostre, Não Conte). Aqui, porém, eu preferiria que essa probabilidade tivesse sido contada.
"One Night Only" ⭐⭐⭐⭐½: Como Nina Simone dizia: "Aprenda a sair da mesa quando o amor parar de ser servido." A história deste curta-metragem é simples, sim, mas cheia de significado em um ambiente onde o "dar-se ao respeito" é sinônimo de "seja discreto" e muitas pessoas acham elogio dizer que alguém "não parece gay" — especialmente, muitos homens gays imersos em estereótipos de masculinidade. No final das contas, é sobre encontrar o lugar onde podemos existir.
"Tapette" ⭐⭐⭐⭐⭐: Eu AMO o cinema francês porque não há pudores como acontece por aqui. E "Tapette" foi refrescante. É o que posso dizer. Eu sorri, eu refleti, eu me deixei levar. Maravilhoso. E A metáfora ao final, de abraçar as coisas, abraçar o medo, parar de correr dele, é algo universal e louvável. Lindo curta-metragem.
Avatar Aang: O Último Mestre do Ar
4.1 66 Assista AgoraRefleti que a maior questão que tive com este filme (estonteante filme, por sinal) é o ritmo frenético para uma história sem desenvolvimento.
Na série, foram necessários 61 capítulos e muita preparação até derrotar o Senhor do Fogo. E o bonito é que, ao longo da jornada, cada episódio contribuiu para a curva de amadurecimento do Aang e dos outros, sendo, acima de tudo, uma jornada emocional.
Aqui, temos um vilão em teoria muito mais poderoso e perigoso, mas incutido em uma trama de menos de duas horas de duração. Consequentemente, não houve tempo para existir uma curva de amadurecimento e tudo me pareceu muito abrupto. Sem contar que, olhando com olhos de escritor, percebi claramente que tem partes onde as "mãos dos roteiristas" forçaram coisas a acontecer. Ficou muito evidente.
Somado a isso, ainda fiquei com uma pergunta: uma avatar dessa, lendária, com tal poder... NINGUÉM durante a série teria mencionado alguém assim? Sério mesmo?
Claro, é um filme esteticamente lindo, trilha sonora maravilhosa e foi reconfortante reencontrar a turma toda. Mas, por mais impactante que seja a fotografia e a arte de um filme, ainda precisamos de uma boa história que sustente isso tudo, né? Senão, vira só uma caixa bonita para um perfume sem frescor.
Mogli: O Menino Lobo
3.8 1,0K Assista AgoraAssisti de forma despretensiosa e fiquei em choque. 😅😅😅 Que filmaço! Minha referência de Mogli era o desenho clássico e também alguns quadrinhos que tive quando criança. De repente, encontrei um filme impressionante, muito bem feito, redondinho e, na época, com um dos atores mirins mais cativantes que já vi. O Neel Sethi é magnético. Quando terminei, eu estava com vontade de assistir novamente.
Meu Bolo Favorito
4.1 52 Assista AgoraAssistir a este filme em meio a tudo que temos visto traz um sentimento peculiar. Por um lado, a revolta contra um regime autoritário que impede até mesmo um mero contato. Por outro, a revolta contra líderes que reduzem um país aos seus problemas e ignoram a pujança cultural de um lugar como o Irã.
Nesse sentido, creio que "Meu Bolo Favorito" passeia muito bem entre esses dois cenários.
E os silêncios... Nossa, os silêncios. Em uma era de tantos filmes cheios de explosões, gritos e efeitos mil, "Meu Bolo Favorito" nos lembra de um detalhe crucial: tenha o aparato tecnológico que for ou o orçamento milionário que tiver, o que sustenta um bom filme é uma trama que abrace o público.
Nesse sentido, este é um filme que se passa em uma noite, mas que vale por uma vida.
Pés de Peixe
3.3 6Não conhecia esse filme. Grata surpresa. É aquele tipo de obra que mostra um princípio básico (e muito esquecido) da escrita criativa: uma boa história supera uma estética "perfeita". Não, não é um glamour, não é um filme arrebatador e muito menos uma obra explosiva — mas é acolhedor. Quantos filmes não vemos que são lindos, milionários, cheios de firulas, mas não nos abraçam? "Pés de Peixe" é simples, direto e certeiro. Usando a linguagem dos animes, é um "slice of life", uma trama do cotidiano que funciona. Temos representatividade, brasilidade e o linguajar comum, para além do eixo sul-sudeste. Aqueceu a alma. Valeu a pena.
Bem-Vindo à Vida
3.7 536 Assista AgoraAlgo que aprendi em mais de duas décadas imerso no ofício da escrita criativa é que os clichês existem porque são tramas básicas que funcionam. Ponto. Tentar fugir deles é pedir para ser um escritor, uma escritora frustrada. Agora, longe dessa busca desesperada por "ineditismo", o verdadeiro diferencial de uma história está no modo como o seu autor pega o clichê e trabalha para incutir nessa base criativa as vivências dele, memórias, pontos de vista únicos que só aquela pessoa tem. Nesse sentido, este filme me convenceu. Sim, a história é clichê (a descoberta de um irmão e o dilema financeiro que isso envolve), mas a contação desse drama me abraçou. As atuações são um diferencial, é claro, mas vi também uma serenidade que faz esse filme ser muito, muito superior a obras de fato sustentadas por dezenas de clichês. "Bem-Vindo à Vida" não é um blockbuster, mas tem uma qualidade que admiro: é dramático sem ser melodramático. Isso me conquistou. Bela história.
Bem-vindos ao Meu Mundo
3.0 105A premissa é maravilhosa, não exatamente pelo humor — que é bem nonsense —, mas especialmente pelas camadas de drama que sustentam o filme. Diante disso, eu comecei a assistir "Bem-vindos ao meu mundo" realmente imerso nessa história, torcendo por Alice e, principalmente, esperando que aquela sessão continuasse interessante até o final.
Para mim, não rolou.
Da metade em diante, o filme se torna "mais do mesmo", algo bem certinho, seguindo o que já é esperado. Basicamente, o filme passa a seguir uma estrutura convencional de redenção: os conflitos são resolvidos com facilidade e as excentricidades da protagonista são suavizadas. Claro que há filmes em que você também já sabe como a trama terminará. Porém, a questão é como esse percurso será construído, quais camadas trará e como a personagem principal amadurecerá nesse caminho.
Aqui, em "Bem-vindos ao meu mundo", a meu ver, as camadas que me encantaram no começo foram deixadas de lado em prol de uma resolução que me pareceu "protocolar".
Quando o filme começou, eu lembrei muito de "Florence — Quem é essa mulher?" (2016) porque ali encontrei um arco dramático que me fez torcer por Florence até o último segundo. Já aqui, diante de decisões genéricas, a ausência de refinamento e de cuidado me deixaram desgostoso.
Palmas para Kristen Wiig, que traz uma interpretação imersiva de Alice, mas, sinceramente, nem essa qualidade compensou minha decepção.
Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra
3.2 84Não posso negar que foi divertido, mas, ao menos para mim, não saiu da primeira camada. Não que haja algo de errado numa mensagem óbvia — pelo contrário. Eu já entrei no filme ciente do tipo de história que encontraria. O problema é quando essa mensagem é tão óbvia que parece didática.
Some isso ao fato de eu, entediado, ter começado a brincar de "Vamos prever qual será a próxima cena" e ter passado quase uma hora acertando uma sequência atrás da outra. Foi um recorde!
Não que eu seja "fodão", longe disso: é o filme que não me trouxe nada além do esperado.
Sendo assim, "Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra" foi uma homenagem legal ao gênero de ficção científica, com cenas divertidas e um clima de "papo cabeça em busca de reflexão e despertar de consciência". E só.
Devoradores de Estrelas
4.0 798 Assista AgoraUm filme sobre descobrir-se casa para o outro e descobrir que o outro, "o estranho", "o diferente", também pode ser uma casa para nós. Desde criança, sou fã do "pai da ficção científica", Isaac Asimov, e aqui eu encontrei uma adaptação respeitosa à obra do Andy Weir e também ao ensinamento primordial de Asimov:
A ficção científica não é sobre o futuro, mas sobre assuntos atuais revestidos por suposições acerca do futuro.
Nesse sentido, para mim, "Devoradores de Estrelas" é um abraço nestes tempo de ojeriza ao outro — podendo "o outro" ser entendido das mais variadas formas. Quando nos permitimos contato, imersão, abertura de mente, temos a chance de conectar nossas naves, encarar a escuridão de um túnel de diferenciação e descobrir que lá no fim desse túnel existe vida. O que vemos como "monstro" é apenas uma vida que sente igual a nós e quer a mesma coisa; a solução para o "monstro" que consome o sol é a vida banal que também traz consequências, mas nem por isso é mau. Ela é só vida.
E é a empatia, essa palavra tão usada, mas pouco praticada, que consegue transformar até mesmo um "muro" (um invólucro de vidro, por exemplo) em uma chance de abraço.
Em 1991, no álbum "Eletricidade", a banda Capital Inicial trouxe a música "Chuva". Enquanto eu assistia a "Devoradores de Estrelas", um trecho dessa canção ficou martelando a minha mente:
"Você tem vontade de olhar / Mas não abre os seus olhos / Você tem vontade de amar / Mas não abre os seus braços"
Grace abriu os braços. Simplesmente isso.
Arco
3.8 70 Assista Agora"Arco" é estranho. É estranho porque parece Ghibli, mas não é; parece infantil, mas não é; parece que te dará respostas, mas não dá. E foi exatamente por essa coragem de ser estranho que eu gostei do filme. Acima de tudo, pela coragem de investir em uma ambientação bucólica e em uma trama melancólica.
Isso é um diferencial.
Nesse sentido, das três questões que eu apontei no começo, o "fator Ghibli" é o que mais se deteriora, pois "Arco" tem sim algo do aclamado estúdio japonês: a lição de que nem sempre você precisa dar respostas a tudo. E conhecendo bem como funciona a escola de cinema francesa — que leva às últimas consequências essa questão da falta de respostas óbvias —, acredito que "Arco" conseguiu mesclar muito bem os ensinamentos trazidos pela animação japonesa com a base do cinema francês.
Posso até dizer que "não tem a magia do Hayao Miyazaki" (COMO teria???), mas tem ali uma singeleza, uma pureza, um grito contido, um choro velado que explode nas cores sóbrias deste filme. Esse é um ponto curioso: o arco-íris de "Arco" é pálido. Percebeu isso? O colorido é sereno como se a paleta de cores representasse a gravidade que envolve esse mundo de 2075 — e para onde claramente estamos indo.
Em uma realidade de 2026 onde as pessoas estão imersas de tal forma nas telas que se tornaram incapazes de tirar 30 segundos para apreciar o céu, "Arco" é um pedido de respiro; um clamor para olharmos para o céu e vermos uma magia que nenhuma tela consegue capturar. É sobre memórias, saudade e redescoberta do que é ser família. É sobre Isaac Asimov, Philip K. Dick e Arthur C. Clarke. É sobre a inspiração que vem da capacidade de parar e refletir.
Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria
3.6 205 Assista AgoraEu creio que o que assisti foi uma metáfora certeira sobre as pressões que nós colocamos nas mulheres quando elas se tornam mães. A condução da trama é genial — não consigo encontrar outra palavra —, ao provocar o público a encarar a filha apenas depois de quase duas horas de filme, lembrando que o nascimento não pressupõe a invisibilidade dos problemas dessa mulher. O estigma da mãe forte, "que aguenta tudo" e "carrega o mundo nas costas" ganha aqui um tom quase surrealista, mas muito palpável. Algumas pessoas chegaram a dizer que tem um "humor mórbido ". Pois bem: onde? Não há nada engraçado aqui. Pelo contrário, temos neste filme uma narrativa potetente, provocadora e dilacerante que exige silêncio, empatia e autoconsciência. Eu estou impactado.
Red: Crescer é uma Fera
3.9 572 Assista AgoraNa escrita criativa, nós temos o chamado "este de Bechdel", uma forma de avaliar se aquela obra tem representatividade feminina de fato. O teste tem três regras básicas:
1) Ter duas ou mais mulheres — no mínimo duas personagens femininas que tenham nomes e relevância dentro da obra.
2) Conversar entre si — essas personagens precisam dialogar uma com a outra em algum momento da trama.
3) Não falar sobre homens — o assunto da conversa entre elas não pode ser sobre um homem (ou relacionamentos com homens).
E "Red" passa de forma linda! Que filmaço! Sério: acho que poucas vezes me diverti tanto com uma animação. Sabe quando você vai assistindo e de repente se flagra sorrindo? Não por algo engraçado, mas um riso bobo, sutil, instintivo; um riso de "Cara, estou feliz vendo isso". Uau!
Mei é cativante demais. Domee Shi é uma diretora que sabe traduzir emoções sem soar melodramática (vide o filme "Elio" e o encantador curta-metragem "Bao") e aqui em "Red" ela conseguiu falar sobre adolescência, menstruação, sororidade, vontade de ser quem se é, tudo de modo que nos abraça, conforta, afaga, silencia.
Como muitos abaixo perceberam, este filme deveria ter mais reconhecimento. Em meio a tantas obras bobas e rasas, em meio à um mundo tão violento e com seus homens brutalizados em performances de masculinidade, "Red" é uma ode à empatia. Maravilhoso filme!
Socorro!
3.2 427 Assista AgoraAmei a metáfora sobre o modo como o capitalismo nos consome, seduz, mas, no fundo, só quer nos f*der. Narrativamente, isso chamou muito a minha atenção. Algo que sempre insisto nas aulas de escrita é que as pessoas precisam dar camadas, entrelinhas, subtextos para o que escrevem. Portanto, foi o que encontrei aqui. Agora, pensando pelo lado da dinâmica do filme, confesso que eu fiquei com eles até por uns 2/3 do longa. Depois, eu comecei a pensar:
"Hum, isso tá indo para um lado óbvio..."
Ouso dizer (querendo dar uma de editor de filme, veja só! KKKKKKKK) que parte disso foi por causa do final.
Eu preferia que tivesse acabado quando ela dá uma tacada de golfe na cabeça do Bradley. Seria massa! Aí, subiriam os créditos e, só depois, quase no final de tudo, antes de aparecer os nomes dos dubladores, aí sim entraria a cena dela recuperada.
Simbolicamente, creio que isso também seria uma mensagem de "essas corporações querem que você consuma tudo rápido, mas, para quem espera e silencia, há um bônus para a vida" — que seria, aí sim, aquela mensagem final.
Apesar desse detalhe, eu me diverti muito. Linda é uma personagem dúbia, cheia de mistérios, que vai se revelando a cada cena. Esquisita? Sim. Mas essa característica a torna, para mim, ainda mais incrível. Bradley me irritou como deveria e achei a atução do Dylan O'Brien encaixada. Eu olhava para os olhos dele e percebia o grande FDP que estava ali. A dinâmica entre eles funcionou. Os efeitos visuais foram outra grata surpresa. Somado a esse ponto, o gênero do filme foi mantido até o final, com todo aquele tempero bizarro do Sam Raimi.
Mas vou te dizer uma coisa: fiquei curioso para ver esse filme, essa mesma premissa, sob a ótica polêmica do Lars Von Trier.
Consegue imaginar? Espero que não. :-P
Pecadores
4.0 1,3K Assista AgoraUm grande filme que, para mim, foi se perdendo ao longo do percurso. Ouso dizer que eu editaria FÁCIL os 15 minutos finais para agilizar a entrada do que realmente importa: a cena final "de verdade". Algo que notei é como a trama funcionou para mim enquanto estava na parte da sedução vampírica, ancestralidade, misticismo, música, blues... F*DA! Mas aí, quando entra a ação... Logo pensei:
"Ah, não! Virou um filme qualquer..."
Entende o ponto? O longa te promete uma coisa com aquele começo, algo mais misterioso, uma penumbra, com todo o jogo musical — a cena do Pastorzinho tocando 🤯🤯🤯 Caraca! Só que descamba pro comum, mais do mesmo, zona de conforto.
Não é ruim. Particularmente, achei melhor do que o porre do "Uma Batalha Após a Outra". Contudo, a narrativa foi me perdendo a medida em que se aproximava do "fim" — ainda bem, teve um fôlego depois.
Agora, Michael B. Jordan. O que é isso, meu filho? Impressionante. E a trilha sonora (soundtrack) estupenda. Entre trancos e barrancos, valeu a pena. Terminei inspirado.
A Sala dos Professores
3.8 228 Assista AgoraEu gostei especialmente de dois pontos. Primeiro, a tensão. Nossa, como eu fiquei tenso! Desde a primeira cena, já existe um clima estranho. O escalonamento da situação, a sucessão de erros da diretoria, a noção de que aquilo virou um barril de pólvora... Em certo momento, percebi que eu estava na ponta da cadeira, com a testa franzida e segurando a respiração. Pela Carla, é claro, mas também por já ter testemunhado casos semelhantes ao meu redor.
Para mim, foi uma dor palpável.
Em segundo lugar, preciso destacar o silêncio do filme. Em muitas cenas, o diretor aposta no olhar, no suspiro, na completa mudez. Como sempre insisto no campo da escrita criativa, nunca devemos esquecer que os silêncios contam tantas — ou até mais — histórias que o texto ali presente. Aqui, em “A Sala dos Professores”, o que encontrei foi a personalidade desses personagens, alimentada pelas entrelinhas e pelo subtexto presente na trama.
Isso possui uma riqueza incomparável.
No final das contas, creio que, apesar do contexto alemão, este é o tipo de filme que conversa com muitos de nós — ouso até dizer com todos. Lembro-me de uma entrevista da icônica Elke Maravilha em que ela disse algo que ficou gravado em minha mente: “Escola é para instruir; educação se aprende em casa”. Eu vivenciei e vivencio isso na prática e, de certo modo, o filme toca exatamente nessa ferida.
Uma Batalha Após a Outra
3.7 687 Assista AgoraConfesso que fiquei p*** de raiva ao pensar que gastei R$20 alugando esse filme. Sinceramente, não funcionou para mim. Algo que sempre falo em relação aos livros é que, se você pega uma obra, lê alguns capítulos, pulas uns 5 ou 6, e a história continua a fazer sentido, significa que aquela narrativa tem o que chamamos de "barriga": informações que só estão ali para fazer volume. Em um filme, quando você enche o saco depois de 1 hora assistindo, pula 40 minutos, e a história continua a fazer sentido como se você não tivesse perdido nada, é um grande indício de que há algo estranho nessa narrativa.
Foi o que vivenciei aqui.
Tudo bem, não posso ser hipócrita de não enaltecer a parte técnica. Nesse sentido, é um filme absurdo, sem dúvida. A cena da perseguição é diferenciada e gera tensão. Na minha opinião fecal, entra fácil para o rol de cenas icônicas do cinema. Agora, minha imersão ficou restrita a isso.
Beleza, as atuações são boas, mas Leonardo DiCaprio não me desce. Sério. Não consigo vê-lo em um papel que não seja... o Leonardo DiCaprio! Todos os personagens são as mesmas expressões, a mesma passada de mão no cabelo, o mesmo olho tremendo, a mesma suspirada... De fato, creio que boa parte do meu ranço com o filme veio dele. Por sorte, tive Sean Penn, Benicio Del Toro e Chase Infiniti para dar uma balanceada, senão, se o filme fosse só ele, só sendo um urso para aguentar — opa, já tivemos essa experiência, não?
Funciona como sátira? Funciona. Ainda mais em um país que está flertando com uma autocracia, "Uma Batalha Após a Outra" é uma provocação que mostra ao mundo — e aos próprios estadunidenses — a m*rda que está acontecendo nos Estados Unidos. Porém, a meu ver, mesmo esse ponto positivo meio que se perdeu devido ao problema narrativo que citei acima.
No fim das contas, na minha experiência, soou como um filme com uma proposta f*da que se perdeu ao tentar fazer algo épico.
Manas
4.2 153 Assista AgoraEm 2017, quando Viola Davis ganhou o Oscar de Atriz Coadjuvante pelo filme “Um Limite entre Nós” (2016), a artista citou o escritor August Wilson, cuja peça teatral inspirou o filme. Durante seu discurso de agradecimento, Viola disse:
[...] existe um lugar onde estão reunidas todas as pessoas de grande potencial. Existe um lugar, e é o cemitério. As pessoas sempre me perguntam: Viola, que tipo de histórias você quer contar? E eu digo: exumem esses corpos. Exumem essas histórias, as histórias das pessoas que sonharam grande e nunca viram esses sonhos se tornarem realidade. Pessoas que se apaixonaram e perderam. Eu me tornei uma artista – e graças a Deus me tornei – porque somos a única profissão que celebra o que significa viver uma vida. [...]
Que bom que Marianna Brennand exumou esse corpo amazônico.
No final da sessão, eu estava engasgado, confesso. “Manas” é um filme-provocação porque nos coloca no costumeiro lugar de, do alto de nossos sofás e casas protegidas, julgar a mãe, por exemplo, apontar os dedos, sem entender a dor dessa mulher. É um filme sobre sororidade, realidade e brutalidade. Um longa-metragem sobre um lado de nós — nós, sociedade — que nos recusamos a ver. Quando vemos, fazemos posts, ficamos indignados, reclamamos. Então, após um “Ufa” ao pensar que “já fizemos nossa parte”, deslizamos a tela e sorrimos até nos acabar de mais um vídeo engraçado.
Enquanto isso, Marcielles estão nos rios da vida.
A Vizinha Perfeita
3.5 212 Assista AgoraAcredito que eu nunca vi algo tão imersivo na dor humana. De verdade. Sim, é claro que vemos o choro, o desespero, o pranto todos os dias nos jornais — ou ficcionados em alguma mídia —, mas aqui é muito cru, muito palpável. A reação das pessoas, especialmente das crianças, foi o que mais me deixou angustiado.
Pode ter o talento de lendas da atuação como Fernanda Montenegro ou Isabelle Rupert, nada se compara a isso aqui. Muito, muito brutal.
Agora, dito isso, creio que o documentário perde força narrativa ao longo do percurso. Perceba: há sim a força simbólica de termos o registro sobre uma realidade de uma lei que privilegia cor de pele. Isso é inegável. Porém, falando narrativamente, com base no bom e velho storytelling, a segunda metade do documentário perdeu fôlego, a meu ver.
A primeira parte é interessante porque você vê o escalonamento da crise até o ponto de explosão. Por mais que saibamos o que acontecerá, as filmagens via câmeras corporais fornecem um registro íntimo que é difícil ser captado de outra maneira. Então, depois desse ponto, eu fiquei na expectativa de que algo mais iria acontecer (ainda mais porque as filmagens dão essa impressão), mas não.
A mensagem para mim foi de "Ok, é isso aí, a vida segue seu curso, justiça foi feita, ponto, próximo caso".
E aqui o ciclo se fecha com.uma ironia. O elogio que faço à humanidade de mostrar essa dor sem edições também serve como crítica. A sensação que tive foi que se apoiaram tanto nessa emoção que esqueceram de trazer humanidade, rosto, desfecho emocional no final do documentário. Quando os créditos subiram, notei que esses 90 minutos que fizeram ficar mais focados na assassina do que na história de Ajike. Quem é essa mulher? Quais sonhos tinha? Como chegou a essa casa? Quais lutas teve? Entende o que quero dizer? Faltou um "rosto" para essa dor, um rosto que fosse além das fotos carregadas pelas pessoas.
Para mim, sobrou Susan e faltou Ajike.