A tentativa de revitalizar o "Estrelas da Casa" acabou ficando em segundo plano diante do impacto que Anitta conseguiu causar. Encerrando sua terceira temporada nesta quinta-feira (24/09/26), a produção, criada por Boninho antes de sua saída da Globo, mostrou que ainda busca seu lugar ao sol, mas sem grande sucesso. Em vários momentos, parecia que o formato ainda estava se ajustando, tentando se definir após dois anos de tentativas frustradas.
É importante lembrar que as duas primeiras edições, sob o nome apenas de "Estrela da Casa", não conquistaram o público como esperado. Os vencedores dessas temporadas, apesar de algum destaque inicial, não chegaram a alcançar a relevância desejada — um padrão que se repete com muitos campeões do "The Voice Brasil", hoje na SBT. Na terceira temporada, a mudança de nome para "Estrelas da Casa" trouxe uma esperança de renovação: a intenção era formar um grupo musical de sucesso. E, de fato, essa alteração tornou o programa mais interessante na teoria. Contudo, a convivência entre os participantes foi pouco explorada, assim como a transmissão 24 horas, que nunca se consolidou de fato.
Até as camas, instaladas nos camarins de forma pouco clara, reforçaram a sensação de que o reality ainda buscava sua identidade. A chegada de três novos jurados — Júnior, Belo e, principalmente, Anitta — trouxe uma nova dinâmica. E aqui reside o grande acerto da temporada: a presença da artista carioca.
Anitta entrou na competição sem papas na língua. Sua postura franca e direta contrastou com o que estamos acostumados a ver em outros realities musicais, onde a diplomacia muitas vezes prevalece. Ela não se limitou a elogios vazios ou comentários genéricos; apontou erros, desafinos e momentos constrangedores com uma sinceridade que mexeu com o programa. E, por vezes, esse impacto foi ainda maior por evidenciar as falhas ao vivo, deixando claro que nem tudo era perfeito.
O público, ao assistir, podia perceber as desafinações, as coreografias desajeitadas e as apresentações que deixaram a desejar. Alguns participantes, inclusive, demonstraram incômodo com as críticas duras de Anitta. Foi nesse contexto que ela protagonizou um dos momentos mais marcantes do final, ao alertar os concorrentes de que as críticas feitas na TV poderiam ser apenas a ponta do iceberg — e que, se desejassem seguir na carreira artística, precisariam estar preparados para as redes sociais e suas opiniões contundentes.
Por tudo isso, Anitta se tornou o grande destaque da terceira temporada. Sua presença gerou uma repercussão que o programa, por si só, não conseguiu alcançar. Quando ela falava, o episódio ganhava visibilidade; quando ela não estava, o programa quase desaparecia das conversas, ficando à sombra de sua figura.
Embora Ana Clara continue uma excelente apresentadora, experiente na condução do formato, foi Anitta quem roubou a cena neste ciclo. Os espectadores ficaram mais atentos às polêmicas, às falas cortadas e às declarações que viralizaram nas redes sociais, do que propriamente às performances ou ao desenvolvimento dos participantes.
Curiosamente, essa atenção toda acabou sendo uma vitória indireta para o programa. Afinal, gerar qualquer tipo de comentário — mesmo que focado nas controvérsias de Anitta — é um avanço em relação ao silêncio ou à falta de repercussão que o programa vinha sofrendo. Assim, pode-se dizer que a temporada foi marcada por sua maior estrela: a própria Anitta.
Ela foi, disparadamente, o maior acerto da formação do novo "Estrelas da Casa", sobretudo porque, ao contrário do que acontecia com a competição em si, ela conseguiu captar a atenção. Sua participação transformou o que poderia ser mais uma temporada esquecível em algo que, pelo menos, deixou sua marca na memória do público.
A produção tentou fazer ajustes, e em alguns aspectos conseguiu. A ideia de criar um grupo musical trouxe uma finalidade mais clara à disputa, enquanto a entrada de novos jurados dinamizou o programa. No entanto, o saldo geral permanece abaixo do esperado, refletindo as dificuldades enfrentadas nas temporadas anteriores.
A grande diferença nesta edição foi, sem dúvida, a presença de Anitta. Ela conseguiu algo que poucos conseguiram: fazer o programa ser visto, falado e comentado, mesmo que por motivos muitas vezes controversos. No fim das contas, "Estrelas da Casa" teve sua maior estrela fora do palco, na bancada. E essa estrela foi exatamente quem fez toda a diferença.
Algumas pessoas passam pela história. Outras deixam marcas tão profundas que, depois de partirem, continuam presentes no cotidiano de quem ficou.
Laura Cardoso pertence a essa segunda categoria.
Sua morte, aos 98 anos, encerra uma das carreiras mais extensas e respeitadas da cultura brasileira, mas não encerra a presença de uma artista que acompanhou o país durante quase oito décadas. Laura não apenas participou da evolução da dramaturgia nacional. Ela viveu suas diferentes fases, ajudou a construí-las e acabou se tornando parte delas.
Talvez por isso seja tão difícil falar de sua despedida usando apenas a palavra “atriz”.
Laura foi também memória.
Memória de uma televisão que ainda estava começando. Memória do rádio como grande veículo de entretenimento. Memória dos grandes teleteatros, das novelas que paravam o país, dos personagens que entravam nas casas brasileiras todos os dias.
Quando Laura começou, a televisão ainda nem existia no Brasil.
Aos 15 anos, a jovem Laurinda de Jesus Cardoso já havia decidido que queria viver da interpretação. Nascida no Bixiga, em São Paulo, filha de imigrantes portugueses de origem humilde, encontrou no radioteatro o primeiro caminho para realizar esse sonho.
Foi ali que começou uma jornada que parecia não ter fim.
No rádio, conheceu Fernando Balleroni, que seria seu marido e companheiro de vida. Depois, acompanhou a chegada da televisão e se tornou uma das pioneiras de um meio que mudaria para sempre a maneira como os brasileiros consumiam histórias.
Década após década, Laura continuou trabalhando.
Enquanto estilos mudavam, emissoras surgiam e desapareciam, novas gerações de artistas ocupavam o espaço da dramaturgia e a tecnologia transformava a televisão, ela permanecia.
Mais de cem trabalhos.
Mais de sessenta novelas.
Cinema, teatro, séries, teleteatro, dublagem.
Uma carreira tão extensa que seria impossível reduzi-la a uma única personagem.
E talvez essa seja justamente a característica mais fascinante de Laura Cardoso: ela nunca ficou presa a uma imagem.
Podia ser doce ou cruel. Poderosa ou vulnerável. Engraçada ou trágica. Sofrida ou extravagante.
Em *Mulheres de Areia*, foi Isaura. Em *A Viagem*, Dona Guiomar. Em *Irmãos Coragem*, Sinhana. Em *Chocolate com Pimenta*, Vó Carmem. Em *Caminho das Índias*, Lakshmi. Em *Rainha da Sucata*, Iolanda.
E havia ainda tantas outras.
Personagens que, em mãos menos experientes, poderiam simplesmente cumprir sua função dentro de uma história. Com Laura, ganhavam personalidade própria.
Era comum acontecer algo curioso quando ela aparecia.
A cena mudava.
Não necessariamente porque o roteiro exigisse, mas porque Laura tinha presença. Um olhar, uma pausa, uma maneira particular de pronunciar uma frase eram suficientes para transformar uma participação em um momento memorável.
Foi assim também em *Gabriela*, em 2012.
Dona Doroteia poderia ter sido apenas mais uma personagem dentro de uma novela repleta de figuras fortes. Laura, entretanto, encontrou nela uma combinação irresistível de severidade, amargura, preconceito e comicidade.
O público abraçou a personagem.
O famoso “Jesus, Maria, José” virou bordão, e Laura mostrou que experiência não significava acomodação. Aos 90 e poucos anos de idade, ainda era capaz de criar uma personagem que provocava conversa, risos e comentários por todo o país.
Depois veio Caetana, em *O Outro Lado do Paraíso*.
Criada para uma participação inicialmente menor, a personagem cresceu com a resposta do público e acabou permanecendo na trama. Laura transformou a cafetina em uma das figuras mais marcantes da novela.
Em *A Dona do Pedaço*, em 2019, fez sua última novela.
Mas não foi o fim.
Laura ainda apareceria na televisão, participaria de homenagens e continuaria sendo lembrada por uma emissora e por um público que acompanhavam sua história há gerações.
Em 2024, esteve no especial *Tributo*, da Globo. Em 2025, apareceu na vinheta de fim de ano da emissora e participou da inauguração de sua Calçada da Fama nos Estúdios Globo.
Aos 98 anos, Laura ainda era notícia.
Isso diz muito.
Porque longevidade, por si só, não explica uma carreira como a dela. O que explica é a capacidade de permanecer relevante sem deixar de ser autêntica.
Laura não precisava disputar espaço com ninguém.
Seu lugar já estava garantido.
E não apenas pelos prêmios.
Vieram três Prêmios Grande Otelo, cinco APCA, dois Prêmios Shell, dois Troféus Imprensa e a Ordem do Mérito Cultural, recebida em 2006.
Vieram também o cinema e o teatro.
Ela esteve em filmes como *Terra Estrangeira* e participou de montagens teatrais que mostraram que sua arte nunca pertenceu exclusivamente à televisão. No palco, encarou clássicos e textos de diferentes estilos. Na dublagem, sua voz também encontrou um espaço especial na memória popular, inclusive como Betty, de *Os Flintstones*, nos anos 1960.
Era uma artista completa.
Mas existe algo ainda maior do que uma lista de trabalhos.
Existe a afeição.
Laura Cardoso despertava uma espécie de carinho que ultrapassava a admiração profissional. Talvez porque seu rosto estivesse associado a personagens vistos durante décadas. Talvez porque transmitisse uma impressão de familiaridade. Talvez porque tivesse a capacidade rara de parecer, ao mesmo tempo, uma grande estrela e alguém que poderia estar sentada ao nosso lado conversando.
É difícil encontrar muitos artistas com esse tipo de vínculo.
Laura se tornou familiar para o Brasil.
E quando alguém familiar parte, a sensação é diferente.
Não parece apenas que uma celebridade morreu.
Parece que uma parte de uma época desapareceu.
Com Laura, vai embora uma testemunha privilegiada da própria transformação da cultura brasileira. Ela viu o rádio perder espaço para a televisão, viu a dramaturgia se reinventar, acompanhou mudanças sociais e artísticas e trabalhou ao lado de diferentes gerações de profissionais.
Sua carreira é quase uma linha do tempo do entretenimento nacional.
Mas sua maior obra talvez esteja justamente naquilo que não pode ser arquivado.
Nas lembranças.
Na cena que alguém nunca esqueceu.
Na novela que uma família assistia reunida.
Na personagem que virou assunto no dia seguinte.
Na voz reconhecida imediatamente.
Naquela sensação de encontrar Laura na televisão e pensar: “Ela está aqui.”
Agora ela não estará mais fisicamente.
Mas continuará aparecendo.
Toda vez que uma produção antiga for reprisada. Toda vez que alguém descobrir uma personagem que não conhecia. Toda vez que um ator jovem estudar os grandes nomes da dramaturgia brasileira. Toda vez que alguém falar sobre profissionalismo, longevidade e paixão pelo ofício.
Laura estará presente.
Porque algumas carreiras terminam.
Algumas obras permanecem.
E existem artistas que conseguem se transformar na própria memória de um país.
Laura Cardoso conseguiu.
A garota que começou no rádio aos 15 anos terminou a vida como uma das maiores referências da interpretação brasileira.
Não precisou de um único papel para ser lembrada.
Precisou de uma vida inteira.
Uma vida dedicada à arte, aos personagens e ao público.
Por quase 80 anos, Laura Cardoso entrou em nossas histórias.
Agora, entra definitivamente na história do Brasil.
E talvez a melhor despedida seja justamente aquela que resume tudo o que ela foi:
uma atriz que nunca deixou de acreditar no poder de interpretar.
Uma artista que nunca pareceu cansada de criar.
E uma mulher cujo trabalho fez milhões de brasileiros sentirem que, de alguma maneira, ela também fazia parte de suas próprias vidas.
Laura se foi.
A atriz, não.
A atriz continuará em cena enquanto houver memória.
E memória, quando é verdadeira, não morre.
OBS: Em entrevista à revista Quem, em 2019, a atriz falou sobre a finitude. “É uma besteira ter medo da morte! Ela é imprevisível, mas inevitável. A gente não sabe quando ela vem, mas que ela é certa para todo mundo, ela é. Só não diz a hora que vem”, afirmou.
E declarou: “Amo a vida, agradeço a Deus por ter chegado a essa idade, mas a gente um dia vai embora”.
DONA BEJA - A História Real que a Novela Escondeu de Você
Dona Beja foi sequestrada aos quinze anos por um homem do rei. O avô dela morreu tentando impedir. E essa nem é a parte que a novela escondeu.
A Ana Jacinta de São José que existiu de verdade — bem diferente da feiticeira de Araxá que virou romance e novela — foi uma das mulheres mais incomuns do Brasil Império. Uma figura que, segundo as evidências documentais, pode ter influenciado até o redesenho do mapa de Minas Gerais no início do século dezenove. Os arquivos contam uma história mais difícil — e infinitamente mais impressionante — do que a versão que o Brasil aprendeu na televisão.
Uma história de Minas Gerais que atravessa o Brasil joanino, o Primeiro Reinado e quase todo o Segundo Reinado.
Você cresceu vendo Dona Beja na novela A Feiticeira de Araxá. A cortesã que enfeitiçava homens com poções, banhos sagrados e olhares. Esquece tudo isso. Porque a Ana Jacinta de São José que existiu de verdade, no Brasil de 1800, é uma história muito mais incômoda. E muito mais impressionante. Uma menina sequestrada aos quinze anos por um homem do rei. Um avô morto a tiros tentando impedir. E uma mulher que, sozinha, num arraial de Minas Gerais, conseguiu uma coisa que praticamente nenhuma outra brasileira do século dezenove conseguiu: dinheiro próprio, casa própria, terras próprias, e o direito de cuspir na cara de uma sociedade que tentou destruí-la. E pra entender como isso aconteceu, a gente precisa começar bem longe da novela. A gente precisa começar num lugarzinho chamado Formiga, no sertão de Minas, no primeiro dia útil do ano de 1800.
Imagina o Brasil de 1800. A capital ainda é Salvador. O rei português ainda mora em Lisboa — vai mudar pro Rio só em oito anos. E o que hoje a gente chama de Triângulo Mineiro nem é mineiro: é Goiás. Mato fechado, com pequenos arraiais perdidos, igreja de taipa, lama nas ruas e tudo girando em torno de uma coisa: gado, e o que sobrou do ciclo do ouro. Guarda essa informação. O Triângulo, em 1800, ainda é Goiás. Ela vai voltar pra essa história. É nesse Brasil que nasce, no dia dois de janeiro de 1800, em Formiga, uma menina chamada Anna Jacintha de São José. Filha de Maria Bernarda dos Santos. Do pai, ninguém sabe. Nem nos registros aparece. Cinco anos depois, a família muda para o arraial de São Domingos do Araxá — que hoje é Araxá. Ela cresce ali, junto com a mãe e o avô. E aqui já tem uma coisa que a novela faz parecer detalhe e que na verdade é a chave da história: ela é loira. Cabelo claro, olhos claros, pele clara. Numa região onde a maioria da população é parda, mestiça, africana ou indígena, uma menina assim chama atenção. Muita atenção. Inclusive a atenção errada.
E o apelido pelo qual o Brasil inteiro conhece ela hoje, "Beja", vem de antes disso tudo. Vem da infância, em Araxá. Foi o avô dela, segundo a tradição registrada por Pedro Popó, que começou a chamar a menina de Beja — comparando ela à doçura e à beleza da flor que no sertão mineiro chamavam de "beijo", o hibisco silvestre. A Fundação Calmon Barreto, que cuida da memória dela em Araxá, registra outras possibilidades: Beja é também o nome de uma cidade em Portugal, e há quem associe o apelido ao beija-flor. Mas a versão que mais sobreviveu, transmitida pelas descendentes diretas, é a do avô. A flor de beijo. A neta linda do sertão. Guarda esse detalhe, porque ele vai pesar daqui a pouco.
E aqui é onde a história vira de vez. Em 1815 — algumas fontes dizem 1814 — ela tem quinze anos, ou está prestes a fazer. E aí entra na história dela um homem chamado Joaquim Inácio Silveira da Motta. Português. Ouvidor do rei Dom João VI — ou seja, o representante direto da Coroa pra resolver questões judiciais e fiscais na comarca de Paracatu. Um cara poderoso. Não era nobre, mas falava em nome do rei. E quando esse tipo de homem queria alguma coisa naquele Brasil, ele simplesmente pegava. E o que ele quis foi a menina.
Os relatos da época, recolhidos depois pelo pesquisador Pedro Divino Rosa em entrevistas com descendentes e em documentos preservados no Museu de Araxá, contam o que aconteceu. Os homens do ouvidor — os dragões, a tropa que andava com ele — chegaram pra levar Ana Jacinta. O avô dela tentou impedir. Foi morto ali, na frente da neta. Quinze anos. Sem pai. Avô assassinado. E ela foi levada à força para uma cidade que ela nunca tinha visto, a quase quatrocentos quilômetros de distância: Vila do Paracatu do Príncipe. Hoje, só Paracatu. E é aqui que a história começa a ficar diferente da novela. Porque o que aconteceu nesses dois anos em Paracatu não foi uma novela. Foi cativeiro. Ela vivia numa casa do ouvidor. Era apresentada como "a moça do ouvidor". Não era esposa, não era livre. Era, na linguagem da época, concubina forçada. E ela tinha quinze, dezesseis, dezessete anos. Mas — e aqui começa o que faz dela uma figura única — ela aprendeu. Ela tava na casa de um homem do rei. Recebia visitas de gente importante. Ouvia conversas sobre política, dinheiro, a Coroa, as articulações do Brasil colônia que estava prestes a virar reino unido. Tudo isso entrava nos ouvidos dela todo dia, durante dois anos. Ana Jacinta era analfabeta — e morreria analfabeta. Mas saiu de Paracatu sabendo como o poder funcionava no Brasil de Dom João VI. E isso, daqui a pouco, vai fazer toda a diferença.
E enquanto ela aprendia, alguém em Araxá não tava parada: a mãe dela, Maria Bernarda. Os relatos dizem que Maria Bernarda procurou os inimigos políticos do ouvidor — porque um homem com aquele poder sempre tem inimigos — e entregou a história. O sequestro, o assassinato do avô, os abusos. E essa denúncia foi subindo. Foi parar no Rio. Em 1817, Dom João VI chamou o ouvidor de volta. Por decreto, pra prestar contas. As fontes dizem, em poucas palavras, o que aconteceu: ele teve que ir embora. Não pôde levar Ana Jacinta com ele. Mas antes de partir, deixou pra ela uma coisa: dinheiro, joias, bens. Não era arrependimento. Era pra livrar-se do problema. A consequência, ele não previu. Aos dezessete, dezoito anos, Ana Jacinta voltou pra Araxá com mais dinheiro do que muitos homens do arraial inteiro.
E antes de continuar a história dela, a gente precisa parar um minuto. Porque tem uma coisa que aconteceu nesse mesmo período, e que praticamente nenhum livro de história menciona, mas que muda completamente o tamanho dessa figura. No dia quatro de abril de 1816, Dom João VI assinou um alvará que tirou uma região enorme da Província de Goiás, chamada Sertão da Farinha Podre, e anexou ela à Província de Minas Gerais. Essa região é o que a gente chama hoje de Triângulo Mineiro. Sessenta e seis cidades. Cinco milhões de brasileiros vivendo ali agora. Uberlândia, Uberaba, Araxá, Patos de Minas, Araguari. Tudo isso podia ser goiano.
Por que mudou? A versão oficial diz: por causa de fazendeiros e comerciantes de Araxá que alegaram que Ouro Preto, capital de Minas, ficava mais perto do que Goiânia. Verdade. Mas há uma camada que o pesquisador Pedro Popó passou anos tentando reconstruir nos arquivos. E ele chegou à conclusão: essa decisão também passou pelo ouvidor Joaquim Inácio Silveira da Motta. Ele tinha jurisdição sobre exatamente essa terra. E quem tinha influência sobre ele? Uma adolescente chamada Ana Jacinta de São José, que ele mantinha em cativeiro em Paracatu.
Não dá pra cravar com certeza, pois os documentos não dizem isso com todas as letras. Mas o conjunto de evidências aponta: políticos mineiros sabiam da influência dela sobre o ouvidor, e usaram essa influência. Pedro Popó, depois de anos resistindo, acabou aceitando essa hipótese. Em 1816, uma menina sequestrada de dezesseis anos pode ter sido uma das peças no tabuleiro que redesenhou o mapa de Minas Gerais. Guarda essa informação enquanto a gente continua.
Porque quando ela voltou pra Araxá em 1817, ainda jovem, com dinheiro próprio, veio o segundo pesadelo de sua vida. A mesma sociedade que assistiu calada ao sequestro decidiu, na volta, que o problema era ela. Não o ouvidor que matou o avô dela, nem o homem que a manteve presa por dois anos. Ela. As famílias respeitáveis fecharam as portas. As mulheres atravessaram a rua. Ela, que foi vítima, virou a vergonha.
Imagina só. Dezessete anos, o trauma do sequestro, o luto do avô, dois anos arrancada de tudo, e quando ela volta pra casa, todo mundo trata ela como se ela tivesse feito algo errado. Como se a culpa fosse dela. A maioria das mulheres na situação dela desapareceria: casada com qualquer um, virada costureira, indo pra um convento. Mas Ana Jacinta fez outra coisa. Por volta de 1830, quando ela já tinha trinta anos, ela usou o dinheiro acumulado pra construir, ali em Araxá, um sobrado. Não um sobrado qualquer. O maior, mais imponente da Praça da Matriz — bem ao lado da igreja, da Câmara, das casas das famílias mais ricas. Ela colocou a casa exatamente no centro daquela sociedade que tentava empurrá-la pra margem. E construiu também, fora do arraial, um sítio: a Chácara do Jatobá.
Aqui precisamos fazer uma pausa. Porque a versão que virou novela conta que a Chácara do Jatobá era um bordel onde Dona Beja fazia poções, recebia homens em rituais, banhava-se em águas milagrosas e, à noite, dançava sob o luar. Isso vem direto dos romances de Agripa Vasconcelos, "A Vida em Flor de Dona Beja", e de Thomas Leonardos, "A Feiticeira do Araxá" — dois livros publicados quase um século depois da morte dela, que misturam pesquisa com muita imaginação. A Chácara do Jatobá existiu, os documentos confirmam. E ela provavelmente foi, sim, um lugar onde havia prostituição. Mas o que os pesquisadores descobriram é mais interessante do que a novela. A Chácara funcionava como um centro de sociabilidade masculina. Homens importantes da região iam lá pra conversar, fazer negócios, articular política, beber, jantar. Dona Beja não era uma feiticeira. Ela era a anfitriã. E, mais do que isso: ela controlava quem entrava, quem saía, e que informação circulava.
Nos documentos da época, ela aparece como cabeça da operação. Não como esposa de alguém, não como filha de alguém. Como Ana Jacinta de São José, proprietária. Comprava, vendia, contratava, processava. Em todos os papéis registrados em Araxá, é o nome dela que assina — ou que manda assinar, pois ela mesma era analfabeta. Ela teve duas filhas. A primeira, Thereza Thomázia de Jesus, batizada em 1819. Por décadas, os romances disseram que o pai foi um tal de Antônio Sampaio, um amor de infância. Mas o registro de batismo encontrado nos arquivos paroquiais revela uma história diferente: a paternidade da menina foi reconhecida pelo padre Francisco José da Silva. Aqui vale uma nota importante: pode soar escandaloso ao ouvido contemporâneo, mas pais no sertão mineiro do início do século XIX eram, com frequência, fazendeiros, políticos locais, donos de escravos e pais de filhos reconhecidos. Era a regra, não a exceção. A reforma que viria a tornar o celibato uma prática rígida no Brasil só viria décadas depois. O padre Francisco José da Silva era um homem influente em Araxá, e o reconhecimento da filha em registro paroquial era comum naquele mundo.
A segunda filha, Joana de Deus, nasceu em 1838. Aqui, de novo, a documentação é mais reveladora do que o romance. O registro de batismo de Joana mostra como padrinho o coronel João Carneiro de Mendonça, da poderosa família Mendonça — uma das mais influentes de Minas Gerais imperial. A tradição local, que Pedro Popó também aceita, identifica o coronel como o pai biológico. Essa família tinha conexões diretas com Antônio Paulino Limpo de Abreu, deputado geral, ministro interino da Justiça do Império, que também foi ouvidor de Paracatu. Em outras palavras: a segunda filha de Dona Beja a vinculou a uma das redes políticas mais importantes do país.
Essa, talvez, seja a maior diferença entre a Dona Beja real e a Dona Beja da televisão. A da novela é movida pela paixão e pela vingança. A Ana Jacinta dos arquivos é uma mulher movida pela sobrevivência e pelo cálculo. Em 1842, estoura em Minas Gerais a Revolta Liberal — uma guerra civil contra as reformas centralizadoras do governo do Império, que reuniu o Partido Liberal mineiro sob a liderança de figuras como Teófilo Otoni. A região do Triângulo, incluindo Araxá, aderiu à revolta. A revolta foi sufocada pelo então general Caxias na batalha de Santa Luzia, mas durou meses e mobilizou recursos enormes. Pedro Popó identificou nos arquivos que Ana Jacinta colaborou financeiramente com os rebeldes liberais. Uma mulher solteira, filha de mãe solteira, financiando um levante político armado contra o governo central. Não é o tipo de coisa que entrou na novela porque não cabe na narrativa de feiticeira. Mas é o tipo de coisa que mostra quem ela era de verdade: uma figura política. Por anos, a Chácara dela foi um dos centros informais de poder do Triângulo. Por volta de 1850, com cinquenta anos, ela faz mais uma virada. Araxá estava em estagnação econômica. E a notícia que circulava no sertão era a descoberta de diamantes em Bagagem — cidade que hoje se chama Estrela do Sul.
O nome não foi à toa: em 1853, nesses garimpos, foi encontrado um diamante de mais de duzentos e cinquenta quilates, batizado de Estrela do Sul, um dos maiores diamantes brasileiros já encontrados. Ana Jacinta vende parte do que tinha em Araxá, fecha a Chácara, e parte numa viagem de cento e cinquenta quilômetros de mula até uma cidade de garimpo, mais bruta do que Araxá, atrás de uma nova chance de fazer dinheiro. Aos cinquenta anos, ela investe em terras, se associa a um garimpo de diamantes chamado Califórnia — que desviou o leito do rio Bagagem em busca das pedras — e entra numa briga jurídica que merece ser contada com calma. A neta mais velha de Beja, Theodora Jacinta Fortunata, em 1855, com vinte e poucos anos, casou-se com o próprio tio — o coronel Fortunato José da Silva Botelho, irmão do pai dela. Casamento entre tio e sobrinha, prática comum na época entre famílias que queriam concentrar patrimônio. Um ano depois, em 1856, Theodora morreu durante o parto. O bebê também não sobreviveu. E aí veio a questão da herança. Como Theodora não deixou descendentes diretos e os pais dela já tinham morrido, Dona Beja, a avó materna, processou o viúvo Fortunato — que era coronel e líder político de Araxá. Uma mulher idosa, analfabeta, em Bagagem, processando o homem mais poderoso de Araxá. E ela ganhou. A herança veio pra ela. A relação com a família Botelho ficou destruída pelo resto da vida.
Aqui, uma das curiosidades mais bonitas dos arquivos: em Bagagem, ela financiou, com dinheiro próprio, a construção de uma ponte sobre o rio Bagagem. E fez isso pra poder acompanhar, da janela de sua casa, a procissão de Nossa Senhora Mãe dos Homens, padroeira da cidade, sem precisar atravessar o rio. Em 1873, no ano em que morreu, ela ainda enviou um pedido formal à Câmara Municipal pedindo reembolso do dinheiro que tinha investido na obra. Idosa, doente, religiosa e ainda judicialmente combativa até o fim. Em 1864, vende o sobrado de Araxá, vende também uma escrava chamada Paulina — e a gente fala isso sem rodeios, pois os documentos mostram. Dona Beja foi vítima do sistema escravista que sequestrava meninas para homens poderosos, e também foi uma mulher que possuía pessoas escravizadas. Não dá pra contar essa história sem essa parte.
Em 1869, com sessenta e nove anos, ela faz o testamento. E quem lê esse documento descobre uma terceira Dona Beja. Não a feiticeira da novela, nem a mulher de negócios dos arquivos: uma mulher religiosa, católica, que deixa quase tudo pra obras de igreja. O testamento, segundo os pesquisadores, é o documento mais íntimo que sobrou dela, e mostra alguém preocupada em terminar a vida em paz com Deus. Ela morreu em vinte de dezembro de 1873, em Bagagem, de nefrite — um problema renal. Tinha setenta e três anos. Foi enterrada num caixão revestido de zinco, o que era luxo pra época. Em 2011, durante uma escavação no antigo cemitério de Estrela do Sul, encontraram um caixão de zinco que pode ser o dela.
Pra dar dimensão de quando ela morre: 1873 é dois anos depois da Lei do Ventre Livre, e quinze anos antes da Abolição. Ela morre num Brasil que ainda escravizava gente, mas onde o Império já sentia que o sistema ia desabar. Ela viu o Brasil colônia, o Brasil reino unido, o Primeiro Reinado, o Segundo Reinado, e morreu antes da República. E aí vem a parte mais interessante de toda a história, porque ela não termina em 1873. Termina em 1920.
Em 1920, quando o Barreiro de Araxá começou a ser explorado como estância hidromineral, um cidadão chamado Sebastião de Affonseca e Silva decidiu transformar a memória de Ana Jacinta numa atração turística. Pegou tudo que sabia, tudo que tinha de boato, tudo que era oralidade, e começou a divulgar uma versão ampliada da história — a Beja da fonte radioativa, a Beja sedutora, a feiticeira. O personagem do amante Antônio Sampaio, segundo Pedro Popó, foi criação dele. Existiu um Manoel Fernandes de Sampaio, histórico, sim, que morreu assassinado em Araxá em 1836, mas não há prova documental de que tenha sido amante de Beja, nem pai da filha dela, nem que ela tenha mandado matá-lo. Tudo isso é literatura.
Décadas depois, em 1957, Agripa Vasconcelos publicou "A Vida em Flor de Dona Beja". Em 1971, Thomas Leonardos lançou "A Feiticeira do Araxá". Em 1965, o jornalista Assis Chateaubriand transformou o sobrado da Praça da Matriz no Museu Dona Beja — o primeiro de uma série de museus regionais que ele criou pelo Brasil. E em 1986, a Rede Manchete pegou esses livros e criou a novela com Maitê Proença, que cristalizou de vez a Dona Beja que o Brasil inteiro conhece. A novela de 2026, com Grazi Massafera, segue a mesma linha.
E é por isso que, pra entender Ana Jacinta de São José, a gente precisa fazer um exercício difícil: tirar de cima dela mais de um século de romance, samba-enredo, novela, turismo e mito. E olhar pros documentos. Quando fazemos isso, o que vemos não é uma feiticeira. É uma menina sequestrada que se recusou a ser apagada. Uma mulher analfabeta que comprou o sobrado mais visível da praça mais importante de Araxá e colocou o nome dela em todos os papéis. Uma mãe que reconheceu as duas filhas e garantiu que elas tivessem casamento, herança, filhos, posição social. Uma figura que, segundo as evidências, pode ter influenciado o redesenho do mapa de Minas Gerais. Uma anfitriã política que financiou rebelião liberal. Uma dona religiosa que construiu uma ponte só pra ver a procissão da padroeira. A historiografia republicana, que trata o Brasil pré-1889 como um bloco escuro do qual só vale lembrar o que deu errado, deixou Ana Jacinta nas mãos dos romancistas. E eles, claro, fizeram o que romancistas fazem: simplificaram. Transformaram uma mulher complexa numa arquétipo simples. Cortiã. Feiticeira. Lenda. A Dona Beja real é mais difícil de digerir. Ela não cabe no papel de vítima total, porque também foi escravista. Ela viveu o tempo dela. Não cabe no papel de feiticeira, porque os documentos mostram uma mulher de cabeça fria, de cálculo, de fé religiosa no fim. Ela é, simplesmente, uma das mulheres mais incomuns do Brasil imperial. E quase ninguém conhece a versão dela que está nos arquivos. A próxima vez que você passar por Araxá e ver o Museu Dona Beja, ou ouvir uma referência a ela na televisão, lembre: a mulher que ganhou aquele apelido não era uma feiticeira. Era uma menina de quinze anos que viu o avô morrer tentando salvá-la, e que passou os cinquenta e oito anos seguintes construindo, tijolo por tijolo, um mundo onde ela mesma decidisse o que ia acontecer com ela.
A novela conta uma fantasia. Os arquivos contam uma história mais difícil — e infinitamente mais impressionante.
Comenta aqui: você conhecia essa versão da Dona Beja, ou só conhecia a da novela?
"Quem Ama Cuida": Uma Nova Perspectiva Sobre o Amor, Sacrifício e Resiliência na Novela das Nove
Quando a vida parece desabar, há sempre uma centelha de esperança capaz de iluminar novos caminhos. Essa mensagem de renovação e força é o coração de "Quem Ama Cuida", a mais recente produção do horário nobre da TV aberta. Situada em um cenário urbano de São Paulo abalada por uma devastadora enchente, a narrativa acompanha a trajetória de Adriana (Leticia Colin), uma mulher que, após perdas irreparáveis, encontra coragem para recomeçar, guiada por um instinto de justiça e amor incondicional.
A trama se desenrola em meio a uma cidade que, embora marcada pela destruição, também revela sua beleza e complexidade. Com uma abordagem contemporânea, a novela combina elementos do melodrama clássico com uma estética moderna e visualmente impactante, explorando emoções profundas, reviravoltas surpreendentes e personagens complexos que refletem as contradições do mundo urbano.
Escrita por Walcyr Carrasco e Claudia Souto, sob a direção de Amora Mautner, a história entrelaça conflitos familiares, amizades, paixões impossíveis, mistérios e vinganças. O encontro entre Adriana e Arthur é o ponto de partida para uma narrativa que explora os limites do amor e do dever, especialmente quando um casamento se torna palco de um crime que muda vidas para sempre.
A narrativa inicia com uma catástrofe natural que arrasta tudo ao seu redor: a enchente que destrói a rotina de Adriana e de sua família. Enquanto ela tenta retornar para casa após uma demissão, a força da água invade a periferia da cidade, levando embora tudo que eles construíram. Nesse momento de caos, Adriana presencia a perda do marido, Carlos, vítima da tragédia, e se vê diante de um mundo de dor, solidariedade e incerteza.
A partir daí, sua jornada de superação a leva a um abrigo improvisado, onde conhece novas pessoas, incluindo Pedro, um advogado idealista que desafia as convenções e busca justiça para aqueles que não podem pagar por ela. A relação deles se desenvolve em meio a conflitos familiares, diferenças de visão de mundo e a esperança de um futuro melhor, mesmo diante das adversidades.
Por outro lado, encontramos Arthur Brandão, um empresário poderoso e misterioso, cuja fortuna e status escondem conflitos internos e uma luta pela preservação de seu legado. Viúvo e marcado pela perda de seu filho, Heitor, Arthur vive sob a sombra de uma disputa familiar que envolve heranças, interesses e antigas mágoas. Seus irmãos, Pilar e Ulisses, representam a face mais ambiciosa e rival de uma família fragmentada, enquanto seus sobrinhos, cada um com suas próprias ambições, refletem as nuances de uma geração que busca seu espaço.
A relação de Arthur com sua família é de ressentimento e manipulação, e sua tentativa de manter a integridade de seu patrimônio é constantemente ameaçada por interesses externos e internos. Quando Pilar, insatisfeita com sua posição, solicita a interdição do tio, o conflito se intensifica, revelando as feridas não cicatrizadas de uma linhagem marcada por abandono emocional e disputas pelo poder.
Nesse cenário de tensões, surge a figura de Adriana, uma mulher simples, mas de uma força interior incomum. Seu encontro com Arthur ocorre de forma inesperada, após ela ajudá-lo em uma situação de perigo. Essa conexão se transforma em uma proposta surpreendente: Arthur, sem convicção de amor, oferece-se para um casamento de conveniência, visando proteger seu legado e garantir o futuro de Adriana e de sua própria estabilidade emocional.
O casamento, marcado por uma atmosfera de tensão e dúvidas, desencadeia uma série de eventos trágicos. No dia da celebração, uma tragédia inesperada leva à morte de Arthur, colocando Adriana como principal suspeita. Acusada injustamente, ela enfrenta anos de prisão, humilhações e um sistema que parece estar contra ela, e também encontra na amizade de Nancy uma fonte de força para lutar por sua liberdade e por justiça.
Seis anos depois, já em liberdade condicional, Adriana emerge com um novo propósito: descobrir a verdade por trás da morte de Arthur e vingar-se daqueles que a traíram. Sua jornada de resistência e esperança a conduz por caminhos perigosos, onde o amor, a vingança e a redenção se entrelaçam em uma narrativa carregada de emoções.
Visualmente, "Quem Ama Cuida" apresenta uma estética que dialoga entre o contemporâneo e o nostálgico. A cidade de São Paulo ganha vida através de cenários cuidadosamente elaborados, mesclando elementos modernos com referências aos anos 90, refletindo a complexidade e a diversidade da metrópole. A cenografia, assinada por Cris Bisaglia, revela uma cidade vibrante, com ambientes que transitam entre o luxo da casa de Arthur, a simplicidade da residência de Pilar e os espaços mais modestos do abrigo.
A produção técnica da novela foi um dos maiores desafios do horário: a cena da enchente de abertura, que exigiu tecnologia de ponta, efeitos especiais (FX), efeitos visuais digitais (VFX) e uma integração inovadora com painéis de LED de alta resolução. Essa operação inédita no Brasil proporcionou uma experiência visual realista, imersiva e visceral, capturando a força da natureza e o impacto emocional da tragédia.
O figurino e a caracterização reforçam as diferenças sociais e emocionais. Adriana, por exemplo, veste roupas funcionais, como jeans e botas, com cores que variam do vermelho ao vinho, simbolizando sua força e determinação. Pilar, por sua vez, expressa seu carácter exuberante e vaidoso com estampas animais, volumes e detalhes que remetem ao estilo mais kitsch e dramático, reforçando sua postura de antagonista.
A trilha sonora reforça o clima urbano e multicultural de São Paulo, mesclando sucessos internacionais de artistas como Bad Bunny, Sabrina Carpenter e Julio Iglesias, com ritmos brasileiros de piseiro, pagode e MPB. Essa diversidade musical cria uma atmosfera pulsante, conectando o público às emoções e aos conflitos dos personagens, sobretudo em momentos de grande impacto, como a enchente ou as reviravoltas dramáticas.
Por fim, "Quem Ama Cuida" revela uma narrativa que transcende o melodrama tradicional ao explorar temas universais de amor, sacrifício, justiça e esperança. Com uma estrutura visual inovadora, personagens multifacetados e uma trilha sonora que celebra a diversidade cultural, a novela convida o público a refletir sobre o verdadeiro significado de cuidar e amar, mesmo diante das adversidades mais extremas.
“Rainha da Sucata”: um retrato vibrante de uma época que virou história
Quando estreou em 1990, Rainha da Sucata marcou a chegada de Silvio de Abreu ao horário nobre da Globo — uma missão nada simples, já que vinha na sequência do enorme sucesso de Tieta. Para complicar, a novela enfrentou um início irregular e ainda dividiu atenções com o fenômeno Pantanal, de Benedito Ruy Barbosa, que dominava a conversa do público — mesmo sem concorrer diretamente.
A proposta inicial, carregada de humor ácido, não conquistou de imediato. Aos poucos, ajustes no tom — com maior carga dramática — fizeram a trama engrenar, até cair no gosto popular.
💰 Ascensão, queda e confronto
No centro da história está o embate entre dois mundos: de um lado, a nova riqueza; do outro, a aristocracia em ruínas. Essa tensão ganha forma na disputa entre Maria do Carmo, vivida por Regina Duarte, e a decadente socialite Laurinha Figueiroa, interpretada por Glória Menezes.
Maria do Carmo constrói sua fortuna a partir do ferro-velho herdado do pai, Onofre, mas nunca abandona suas origens — seja no jeito de falar, de se vestir ou no estilo espalhafatoso que a define.
Determinada a acertar contas com o passado, ela decide se vingar de Edu Figueiroa, que já a humilhou. A solução?
Um casamento por interesse, salvando a família falida dele — e mergulhando de vez no universo da elite decadente. É aí que nasce o confronto direto com Laurinha, madrasta de Edu e figura central desse jogo de poder.
Ao redor deles, o icônico Betinho eterniza o bordão: “Coisas de Laurinha”.
📺 Humor, crítica e personagens inesquecíveis
Fiel ao estilo de Silvio de Abreu, a novela equilibra comédia e tensão, além de dialogar com a realidade da época — inclusive incorporando o polêmico Plano Collor à narrativa.
Entre os núcleos paralelos, um dos mais memoráveis é o de Dona Armênia, vivida por Aracy Balabanian. Dona de um temperamento explosivo e um sotaque inconfundível, ela tratava os filhos adultos como crianças — suas “filhinhas da mamãe”.
Entre tantas cenas lembradas até hoje, poucas são tão impactantes quanto o desfecho de Laurinha. Em uma sequência intensa, a personagem protagoniza um ato extremo com o objetivo de incriminar Maria do Carmo — um momento que ficou gravado na memória do público, impulsionado pela atuação poderosa de Glória Menezes.
📡 Reprises e legado
A novela voltou ao ar diversas vezes: no Vale a Pena Ver de Novo em 1994, no canal Viva em 2013 e novamente na Globo em 2025. Essa última reprise, no entanto, não teve o mesmo impacto — prejudicada por edição acelerada, elementos datados e qualidade técnica inferior.
Ainda assim, nada disso diminui sua importância.
⭐ Um clássico definitivo
Com direção de Jorge Fernando e um elenco de peso que inclui nomes como Renata Sorrah, Raul Cortez e uma participação especial de Fernanda Montenegro, Rainha da Sucata consolidou-se como uma obra marcante.
Mais de três décadas após sua estreia, permanece como um retrato afiado das transformações sociais brasileiras — e, acima de tudo, como uma novela que atravessou o tempo sem perder sua força.
A reapresentação de Rainha da Sucata trouxe novamente aos holofotes uma personagem que atravessou décadas sem perder força: Laurinha Figueroa. Mais do que uma simples antagonista, ela se firmou como um retrato ácido de uma elite decadente, marcada por arrogância, preconceito e uma necessidade constante de manter aparências. Na pele de Glória Menezes, a personagem ganhou uma dimensão que ultrapassa o rótulo de “vilã” e se aproxima de um estudo profundo de caráter.
o comportamento de Laurinha revela uma personalidade guiada pelo controle e pela superioridade social. Ainda assim, existe um ponto de fragilidade: o vínculo com o enteado Edu, interpretado por Tony Ramos. Esse afeto, longe de suavizá-la, se transforma em um motor de obsessão, influenciando diretamente suas atitudes mais extremas.
Essa ambiguidade contribui para torná-la menos previsível e mais interessante dentro da narrativa concebida por Silvio de Abreu.
Mesmo inserida em uma estrutura clássica de confronto entre bem e mal, a personagem apresenta nuances que a afastam da caricatura. Pequenos gestos, silêncios e olhares revelam inseguranças e frustrações que coexistem com sua crueldade. É justamente essa complexidade que mantém Laurinha viva na memória do público, transformando-a em uma figura fascinante, capaz de provocar tanto rejeição quanto admiração.
A atuação de Glória Menezes é um dos principais pilares dessa construção. Com domínio de cena e sensibilidade, a atriz equilibra intensidade dramática e sutileza emocional, elevando cada aparição da personagem. O resultado é uma interpretação que não apenas sustenta a narrativa, e também redefine o impacto da vilania dentro da teledramaturgia brasileira.
Entre os momentos mais lembrados está a sequência em que
Laurinha se lança do alto de um prédio na Avenida Paulista, em um ato calculado de vingança contra
Maria do Carmo, vivida por Regina Duarte. A cena se consolidou como uma das mais marcantes da televisão, tanto pela carga dramática quanto pela ousadia narrativa, especialmente ao tratar
Por outro lado, a reprise também evidenciou limitações da obra. A condução inicial da história, considerada apressada e irregular desde sua exibição original, ainda compromete a introdução dos personagens. Além disso, certos elementos refletem claramente o contexto da época, soando datados para o público atual.
Mesmo com essas ressalvas, o retorno da novela reforça o principal legado da produção: a força de uma personagem bem construída e interpretada com excelência. Laurinha Figueroa permanece como prova de que vilões, quando dotados de profundidade e sustentados por grandes atuações, podem ultrapassar gerações.
Revisitar essa figura hoje vai além da nostalgia. Trata-se de reconhecer o impacto duradouro de uma interpretação marcante e de compreender como a combinação entre texto e atuação pode transformar uma personagem em referência permanente na história da televisão.
Curiosidade: impasse na abertura de Rainha Da Sucata (1990)
Um dos boatos de bastidores da novela Rainha da Sucata, que será reprisada em breve pela emissora, se tratou de um suposto impasse em relação a ordem dos créditos na abertura da obra. É que a atriz Glória Menezes teria o costume de exigir seu nome vindo primeiro nas aberturas, mesmo quando não era a protagonista da obra em questão.
Em 1990 a produção teria enfrentado um dilema do tipo. Regina Duarte era a protagonista e Glória Menezes a antagonista, então a saída encontrada teria sido inserir o nome de Regina primeiro por baixo e o de Glória bem em seguida, por cima, dando uma falsa sensação que saía antes.
Alguns artistas exigiam seu nome em destaque nesse tipo de arte, e talvez aconteça até hoje, era o caso de Marília Pêra, uma das exigências da atriz quando participava das produções, era que seu nome fosse creditado primeiro, ou na seção de atores convidados, em destaque.
Nas aberturas quando atores importantes não são destacados no início, são destacados no final, como "participação especial" ou "atores convidados", sendo que os que aparecem com o nome do personagem inserido junto, tem mais destaque ainda, é sinal de importância.
Segundo informações da mídia especializada no assunto, exigência de nome em destaque em abertura muitas vezes já vem especificada no contrato assinado entre o profissional e a emissora, não é do nada. Em alguns casos nomes se alternam em aberturas, trocam de posição.
A novela Rainha da Sucata marcou a entrada de Silvio de Abreu no horário nobre da televisão e acabou se consolidando como um dos trabalhos mais emblemáticos de sua carreira. Lançada em 1990, a produção enfrentou dificuldades logo no início, especialmente por vir na sequência do enorme sucesso de Tieta e por dividir a atenção do público com Pantanal, exibida em outra emissora. A forte carga humorística inicialmente causou estranhamento, mas ajustes no tom da narrativa, com maior equilíbrio entre comédia e drama, permitiram que a história encontrasse seu público e crescesse em popularidade.
A trama gira em torno do contraste entre ascensão social e decadência, representado pela disputa entre Maria do Carmo, interpretada por Regina Duarte, e Laurinha Figueiroa, vivida por Glória Menezes. De um lado, uma empresária que enriqueceu sem abandonar seus hábitos populares; do outro, uma socialite que tenta sustentar uma aparência de status mesmo diante da ruína financeira. Esse embate se torna o eixo central da narrativa.
A trajetória da protagonista começa no ferro-velho do pai, papel de Lima Duarte, e evolui até o topo do mundo dos negócios. Mesmo rica, ela mantém seu jeito extravagante, o que reforça o contraste com a elite tradicional paulistana.
um homem que a humilhou no passado e cuja família enfrenta dificuldades financeiras. Esse casamento por interesse desencadeia uma intensa rivalidade dentro da mansão da
família, especialmente com Laurinha.
Além da trama principal, a novela se destacou por seus núcleos paralelos marcantes. Um dos mais lembrados é o de Dona Armênia, interpretada por Aracy Balabanian, cuja performance se tornou icônica. A personagem, com seu jeito explosivo e sotaque peculiar, protagonizou momentos memoráveis ao lado de seus filhos, vividos por Marcello Novaes, Jandir Ferrari e Gerson Brenner. Sua famosa ameaça de colocar tudo “na chón” virou um dos bordões mais populares da novela.
Outro destaque foi o triângulo amoroso envolvendo Caio, Adriana e Nicinha. O personagem de Antônio Fagundes, em um raro papel cômico, dividia a cena com Cláudia Raia e Marisa Orth, criando situações cheias de humor e química.
Entre os momentos mais impactantes da novela, destaca-se a cena
, considerada uma das mais marcantes da teledramaturgia brasileira. A intensidade da atuação de Glória Menezes deu ainda mais força ao desfecho dramático da personagem, que tentou incriminar sua rival até o último instante.
O elenco contou ainda com nomes de peso como Renata Sorrah, Raul Cortez, Laura Cardoso e Fernanda Montenegro, entre muitos outros, reforçando a qualidade da produção dirigida por Jorge Fernando.
Com o tempo, “Rainha da Sucata” deixou de ser apenas uma aposta arriscada e passou a ocupar um lugar de destaque na história da televisão brasileira, sendo lembrada tanto pelo público quanto pela crítica como uma obra marcante de sua época.
Último capítulo de "Êta Mundo Melhor!" desrespeita elenco e público!
É normal que, em qualquer novela, algumas cenas gravadas acabem ficando de fora da edição final. A televisão trabalha com limites rígidos de tempo e, muitas vezes, pequenos ajustes são inevitáveis para que o capítulo caiba na duração prevista. No entanto, o que aconteceu no último capítulo de "Êta Mundo Melhor!" ultrapassa em muito esse tipo de ajuste comum. O episódio final foi marcado por cortes tão significativos que acabaram comprometendo a narrativa e demonstrando um profundo desrespeito tanto com o elenco quanto com o público.
Vários desfechos simplesmente desapareceram da tela. Personagens que acompanharam toda a trajetória da história tiveram seus destinos resumidos de forma abrupta ou sequer mostrados. Um dos casos envolve
Olga e Carmem. As duas personagens foram parar na cadeia, mas as cenas gravadas pelas atrizes dentro da cela --- que dariam contexto e encerramento à punição --- não foram exibidas.
O público só soube que elas existiam porque as próprias intérpretes publicaram fotos dos bastidores nas redes sociais. Ou seja, o material foi gravado, mas simplesmente não foi ao ar. O mesmo aconteceu com
o espírito de Zulma aparecia para outros personagens, momentos que poderiam acrescentar emoção e continuidade a um recurso narrativo que foi utilizado na cena mais bonita da foto das crianças já adultas.
do desfecho de Quitéria. A personagem, que havia trabalhado durante anos como empregada doméstica --- primeiro de Anastácia (Eliane Giardini) em "Êta Mundo Bom!" e depois de Candinho (Sérgio Guizé) em "Êta Mundo Melhor!" --- finalmente teria uma conclusão simbólica: tornar-se dona de uma confeitaria. Era um fechamento que representava crescimento e conquista pessoal.
No entanto, a cena também não foi exibida. A própria atriz compartilhou uma foto de bastidores e lamentou que o momento não tenha ido ao ar. Nesse caso, a situação se torna ainda mais problemática: trata-se de uma talentosa atriz negra interpretando um papel historicamente estereotipado na teledramaturgia brasileira e que, justamente quando teria um final de superação, acabou ficando sem desfecho na tela.
de Estela e Anabela na Amazônia. A personagem passou dez anos ali com a filha em uma viagem que, no fim das contas, se mostrou praticamente gratuita dentro da narrativa. Durante todo esse período, Túlio permaneceu sozinho e sofrendo, e o reencontro ou a resolução da história
foi mostrada rapidamente. Mais uma vez, foi a própria Larissa quem revelou nas redes sociais imagens de bastidores dessas gravações que não chegaram ao público.
Também chamou atenção o corte brusco no momento em que
Candinho algema Sandra (Flávia Alessandra) e a leva para a delegacia.
A cena simplesmente “salta” de um ponto para outro, como se algo importante tivesse sido arrancado da narrativa. Ninguém chega a ver claramente o momento da prisão acontecer. A edição final ficou tão truncada que o resultado transmitiu uma sensação constante de pressa e desorganização.
O mais curioso é que faltou justamente aquilo que a novela mais teve ao longo de sua exibição: tempo. "Êta Mundo Melhor!" contou com 220 capítulos, e durante muitos meses a trama avançou muito pouco, com acontecimentos se arrastando e conflitos sendo prolongados. Andou em círculos ao longo dos meses. Havia espaço de sobra para que os desfechos fossem distribuídos ao longo dos capítulos finais, permitindo que cada personagem tivesse um encerramento digno.
É claro que a emissora tem responsabilidade pelos inúmeros cortes que prejudicaram o último capítulo. Mas o autor Mauro Wilson também não pode ser poupado de críticas. Ao concentrar praticamente todas as resoluções no episódio final, ele criou uma situação em que qualquer edição mais agressiva inevitavelmente comprometeria a história.
No fim, o que deveria ser um capítulo de celebração acabou marcado por lacunas, cortes inexplicáveis e a sensação de que muitas histórias ficaram incompletas. Quem perde com isso são os atores, que viram cenas importantes de seu trabalho serem descartadas, e o público, que acompanhou a novela durante meses esperando um final que fizesse jus à trajetória dos personagens.
"Êta Mundo Melhor!" provou que "Êta Mundo Bom!" não precisava de continuação!
A continuação de "Êta Mundo Melhor!, que chegou ao fim nesta sexta-feira (13/03/2026), após 220 capítulos, acabou provocando um efeito inesperado: ao tentar prolongar o universo de "Êta Mundo Bom!", a nova novela terminou evidenciando que a história original já estava completa. A obra criada por Walcyr Carrasco tinha um arco narrativo fechado e um desfecho satisfatório. Ao retomar esse universo, primeiro com textos do próprio autor e depois sob o comando de Mauro Wilson, a trama acabou revelando o risco de revisitar uma história cujo conflito principal já havia sido resolvido.
Desde os primeiros meses, a novela apresentou uma estrutura narrativa que parecia andar em círculos. A sensação recorrente era a de que o telespectador podia ficar semanas ou até meses sem assistir e, ao voltar, perceber que quase nada havia avançado. Isso aconteceu porque várias tramas foram reiniciadas ou reconfiguradas de maneira muito semelhante às histórias da obra anterior, criando uma estranha sensação de repetição constante, como se a continuação estivesse refazendo caminhos já percorridos.
A saga de Estela (Larissa Manoela) é um exemplo evidente disso. A personagem teve uma trajetória muito semelhante à de Maria (Bianca Bin) na novela original, inclusive no romance inicial com Celso.
O problema é que Celso já havia passado por um processo de redenção anteriormente, e sua volta a atitudes moralmente duvidosas soou mais como um retrocesso narrativo do que como evolução dramática. Apenas na última semana surgiu a revelação de sua cumplicidade no sumiço do filho de Candinho, recurso que parecia ter sido guardado como uma tentativa tardia de criar impacto. Não criou.
Algo parecido aconteceu com Araújo. Na novela anterior, ele desviava dinheiro da fábrica de sabonetes para pagar o tratamento do filho e acabou sendo perdoado, encerrando sua história com redenção. Na continuação, o personagem simplesmente repete o mesmo erro, agora desviando dinheiro da fábrica de biscoitos. A situação se tornou ainda mais estranha pela mudança brusca na personalidade de Olga, cuja influência passou a incentivar esse comportamento, alterando completamente a construção da personagem. Foi a personagem que o redimiu em 2016 e agora ela quem o desviou novamente.
Não teve nexo algum.
Outras histórias também pareceram releituras diretas.
O romance entre Zé dos Porcos e Maria Divina tentou reproduzir a dinâmica que o personagem teve com Mafalda (Camila Queiroz), inclusive retomando o famoso debate sobre o “cegonho” e a expectativa em torno da primeira relação sexual. Já a trama central, envolvendo a busca de Candinho por seu filho perdido, era praticamente uma reedição do motor dramático de "Êta Mundo Bom!", quando o personagem procurava a própria mãe. O problema é que, quando finalmente descobriu que Samir era seu filho,
o enredo perdeu completamente o rumo. A partir desse momento, a novela se arrastou sem grandes acontecimentos, como se o conflito principal tivesse sido resolvido cedo demais ---- mas até que demorou bastante.
a vilanias forçadas de Sandra (Flávia Alessandra) e Ernesto. A situação se tornou ainda mais artificial quando foi exposto que ambos já estavam ricos graças a golpes aplicados fora de cena: Sandra ao enganar um barão e Ernesto ao herdar a fortuna de um tio milionário que havia enganado.
Ou seja, os vilões já não tinham objetivo claro na história, e suas ações pareciam existir apenas para manter o conflito em funcionamento.
a falsa morte de Sandra. Seu retorno disfarçada de baronesa, alterando sotaque e tom de voz para não ser reconhecida, acabou prejudicando justamente aquilo que tornava a personagem memorável. A vilã icônica da novela original se transformou em uma figura quase caricata, repetindo incessantemente o mesmo ódio por Candinho e traçando mil planos maquiavélicos.
Outro sinal de desgaste apareceu no tratamento dado aos núcleos paralelos.
O núcleo da fazenda de Cunegundes e Quinzinho, que era um dos mais divertidos da obra original, apareceu quase desconectado do restante da trama. Os personagens passaram boa parte da novela presos a esquetes repetitivas envolvendo a busca por esmeraldas no terreno e discussões cômicas com Medeia e depois com Jocasta,
o que acabou desperdiçando o talento do elenco. Os quatro veteranos de imenso talento não foram valorizados.
O mesmo aconteceu com o núcleo do Dancing, que teve papel importante em "Êta Mundo Bom!" e aqui praticamente não interferiu no enredo.
Tamires (Monique Alfradique), Tamiris, Vermelho e Francine não tiveram relevância. Já as histórias da pensão e da Rádio Paraizo
começam com potencial, mas perderam força ao longo da narrativa e acabaram se tornando apenas pano de fundo. Valeu pelo talento de Nivea Maria, Tony Tornado e Rosane Gofman,
Dita, que deixou de ser apenas uma empregada explorada na fazenda para se tornar a grande protagonista da história. Sua ascensão como cantora, passando por todo o processo de descoberta do talento e construção da carreira, foi um dos arcos mais interessantes da trama. O romance com Candinho também trouxe um frescor que a história principal já havia perdido.
Manuela, tia de Dita, que aprendeu a ler com a sobrinha e acabou se tornando atriz de radionovelas, chegando a protagonizar a história de "Xica da Silva" na rádio. Dhu Moraes foi fantástica e ainda teve química com Tony Tornado na reta final com o romance da sua personagem com Lúcio.
Mauro Wilson também inseriu pequenas homenagens a Walcyr Carrasco ao longo da narrativa, como a brincadeira em que
para escrever uma novela, referência ao pseudônimo usado pelo autor quando escreveu "Xica da Silva" na TV Manchete.
A trama da Casa dos Anjos também funcionou bem, em grande parte graças ao elenco infantil. As crianças demonstraram carisma e talento, ganhando cada vez mais espaço ao longo da história. Vale uma menção especial
a Davi Malizia, que brilhou como Samir; Arthur Yera, que fez de Simbá um 'mini vilão' cativante; Marina Cypriano, que conquistou com sua Felícia e Vicente Alvite, que esteve ótimo como Aladdin. A dupla formada por Zulma e Zenaide também rendeu bons momentos e valorizou o trabalho das atrizes. Heloísa Perissé e Evelyn Castro formaram uma deliciosa dupla.
passou a demonstrar um comportamento possessivo repentino apenas para provocar uma separação e criar suspense artificial sobre o destino amoroso de Estela.
Os problemas de coerência também apareceram nos desfechos. Personagens masculinos como
Ernesto, Araújo e Celso receberam novas chances e caminhos de redenção, enquanto várias vilãs tiveram destinos mais severos. Zulma forçou um casamento sem sentido com Candinho, graças ao plano ainda mais absurdo de provocar a prisão de Dita por conta do 'sequestro' de Samir, e terminou morta depois que foi atropelada por um bonde. Era a vilã mais humanizada do enredo e a que teve o final mais cruel. Já Sandra enlouqueceu e Olga acabou presa.
A diferença de tratamento entre homens e mulheres acabou soando antiquada, especialmente considerando que muitos desses personagens masculinos já haviam sido perdoados por erros graves anteriormente.
o casal gay formado por Lauro e Tobias também decepcionou. Os dois apareceram pouco juntos e a história voltou a recorrer ao recurso do romance de fachada do médico para esconder sua sexualidade,
algo que já havia sido explorado na novela original. Até mesmo a trama
da adoção do filho de Sônia perdeu força, muito por causa da postura irresponsável de Quincas, que passou praticamente toda a novela evitando assumir a paternidade, comportamento tratado sempre com comicidade. No penúltimo capítulo, os dois adotaram Felícia e pronto. Aliás, todas as crianças foram adotadas ao mesmo tempo,
algo que soou como mera conveniência de roteiro em meio a tantas situações reiterativas.
o professor Asdrúbal, claramente criado como uma tentativa de reproduzir o sucesso do professor Pancrácio da novela original. A diferença é que Pancrácio tinha motivações narrativas claras para seus disfarces, enquanto Asdrúbal
pareceu repetir o recurso de forma forçada, inclusive em romances relâmpagos que pouco acrescentaram à história. Diversos casais secundários também sofreram com idas e vindas sem sentido ao longo da trama.
O último capítulo foi muito corrido e com vários finais jogados. Dava tempo de sobra para apresentar as conclusões com mais calma diante da barriga que a novela teve.
Sandra explodiu a mansão, mas tudo foi rapidamente resolvido e ninguém se feriu. A vilã acabou presa e louca na cadeia, enquanto Ernesto teve o desfecho de virar pastor na prisão. Já Celso foi perdoado pela terceira vez por Candinho. Não deu para entender a razão da Estela ter viajado com Anabela para Amazônia e voltado dez anos depois para ficar com Túlio. Ele ficou dez anos sofrendo? Qual o objetivo? Aliás, a passagem de tempo só serviu para crescer as crianças porque os adultos não envelheceram um dia sequer. Ficou uma junção de futuro com presente difícil de engolir. Mas algumas cenas foram delicadas, como o casamento de Picolé (Isaac Amendoim/Igor Fernandez) com Maria Pureza. O momento da foto das crianças reunidas, mesclando a imagem delas na infância com todas crescidas, foi emocionante, assim como a mensagem final de Candinho ao lado de Dita
dizendo que tudo que acontece de ruim na vida da gente é pra 'meiorá'.
Em termos de audiência, a novela teve bons índices, impulsionada principalmente pelo carinho do público pelo fenômeno criado por Walcyr Carrasco em 2016. Ainda assim, esteve longe de se tornar o grande sucesso que a emissora esperava. A repercussão nas redes sociais foi discreta e o impacto cultural bastante limitado. E qual a necessidade de 220 capítulos? Não havia história nem para 100.
No saldo final, "Êta Mundo Melhor!" não chega a ser uma novela ruim. Trata-se de uma obra simpática, com bons momentos e um elenco talentoso. Mas dificilmente deixará marca duradoura na memória do público. Enquanto "Êta Mundo Bom!" continuará sendo lembrada como um grande sucesso da teledramaturgia brasileira recente, sua continuação tende a passar quase despercebida ao longo dos anos. Paradoxalmente, ao existir, ela acaba reforçando a ideia de que algumas histórias simplesmente não precisam de continuação.
têm um encontro de almas e suas vidas passadas são reveladas. Uma delas eles foram um casal yag de 3scr4vos e em outra foram um casal lésb1c0 de freiras.
Quando os fuzileiros navais americanos pisaram na areia negra de Iwo Jima, em fevereiro de 1945, muitos acreditaram que o bombardeio naval e aéreo prévio havia “amaciado” a ilha. Do ponto de vista americano, essa ilusão durou poucos minutos. O que poucos relatos populares destacam é como uma arma improvisada, quase experimental, acabou se tornando uma das chaves psicológicas e táticas da batalha: os tanques lança-chamas.
Os Marines logo perceberam que lutar contra um inimigo invisível — entrincheirado em mais de 20 km de túneis vulcânicos — tornava inúteis muitas das táticas tradicionais. Artilharia naval pulverizava uma posição… e horas depois ela voltava a disparar. Do ponto de vista dos soldados no chão, isso era enlouquecedor: conquistar o mesmo metro de terreno duas, três, quatro vezes.
Foi aí que entrou uma solução pouco glamourosa, mas brutalmente eficaz. Engenheiros navais (os Seabees) e unidades blindadas dos Marines adaptaram tanques Sherman para carregar lança-chamas de grande alcance. Oficialmente eram chamados de Sherman POA-CWS-H5, mas entre a infantaria ficaram conhecidos como “Zippos”, numa referência direta ao isqueiro. O detalhe curioso — e pouco citado — é que muitos oficiais inicialmente desconfiavam desses tanques. Eram lentos, chamativos e pareciam alvos perfeitos. Mas, para o fuzileiro avançando sob fogo constante, eles se tornaram quase míticos. Quando um Zippo entrava em ação, o efeito não era só físico, era psicológico: jatos de fogo líquido penetravam entradas de túneis, fissuras na rocha e casamatas invisíveis. Muitas posições japonesas eram neutralizadas sem que um único Marine precisasse se aproximar a poucos metros.
Relatos americanos da época mostram algo revelador: soldados pediam esses tanques pelo rádio com urgência quase desesperada. “Precisamos de um lança-chamas aqui, agora”, aparece repetidamente em comunicações. Em vários setores da ilha, o avanço simplesmente parava até que um Zippo chegasse.
Outro ponto pouco lembrado: o uso intenso desses tanques reduziu baixas americanas em áreas específicas. Não por tornar a batalha menos violenta — ela foi infernal — mas por substituir ataques frontais suicidas por uma arma capaz de “limpar” o subterrâneo, onde o verdadeiro inimigo estava.
Do ponto de vista americano, Iwo Jima não foi vencida apenas com coragem ou poder de fogo massivo, mas com adaptação brutal à realidade da guerra moderna. A ilha ensinou aos Marines que o inimigo não estava no horizonte, mas embaixo de seus pés — e que às vezes a vitória dependia menos de heroísmo individual e mais de soluções feias, improvisadas e eficientes. É uma curiosidade que raramente aparece em filmes ou livros mais populares, mas para quem lutou lá, o som de um Sherman lança-chamas se aproximando significava algo muito simples: talvez hoje a gente sobreviva.
PS: O mais arriscado trabalho no combate é com o lança chamas, de fato , além de ser o alvo principal dos atiradores , o aparelho volta e meia dava problema , às vezes o problema fazia ele se incendiar sozinho. O efeito do lança-chamas era brutal , coloca brutal nisso, os japoneses para tentar se vingarem dessa tática horripilante, executavam qualquer fuzileiro que fosse capturado , guerra é o inferno!
O filme... Cartas de Iwo Jima A conquista da honra São ótimos filmes que contam a história sobre essa triste batalha
Quando os fuzileiros navais americanos pisaram na areia negra de Iwo Jima, em fevereiro de 1945, muitos acreditaram que o bombardeio naval e aéreo prévio havia “amaciado” a ilha. Do ponto de vista americano, essa ilusão durou poucos minutos. O que poucos relatos populares destacam é como uma arma improvisada, quase experimental, acabou se tornando uma das chaves psicológicas e táticas da batalha: os tanques lança-chamas.
Os Marines logo perceberam que lutar contra um inimigo invisível — entrincheirado em mais de 20 km de túneis vulcânicos — tornava inúteis muitas das táticas tradicionais. Artilharia naval pulverizava uma posição… e horas depois ela voltava a disparar. Do ponto de vista dos soldados no chão, isso era enlouquecedor: conquistar o mesmo metro de terreno duas, três, quatro vezes.
Foi aí que entrou uma solução pouco glamourosa, mas brutalmente eficaz. Engenheiros navais (os Seabees) e unidades blindadas dos Marines adaptaram tanques Sherman para carregar lança-chamas de grande alcance. Oficialmente eram chamados de Sherman POA-CWS-H5, mas entre a infantaria ficaram conhecidos como “Zippos”, numa referência direta ao isqueiro. O detalhe curioso — e pouco citado — é que muitos oficiais inicialmente desconfiavam desses tanques. Eram lentos, chamativos e pareciam alvos perfeitos. Mas, para o fuzileiro avançando sob fogo constante, eles se tornaram quase míticos. Quando um Zippo entrava em ação, o efeito não era só físico, era psicológico: jatos de fogo líquido penetravam entradas de túneis, fissuras na rocha e casamatas invisíveis. Muitas posições japonesas eram neutralizadas sem que um único Marine precisasse se aproximar a poucos metros.
Relatos americanos da época mostram algo revelador: soldados pediam esses tanques pelo rádio com urgência quase desesperada. “Precisamos de um lança-chamas aqui, agora”, aparece repetidamente em comunicações. Em vários setores da ilha, o avanço simplesmente parava até que um Zippo chegasse.
Outro ponto pouco lembrado: o uso intenso desses tanques reduziu baixas americanas em áreas específicas. Não por tornar a batalha menos violenta — ela foi infernal — mas por substituir ataques frontais suicidas por uma arma capaz de “limpar” o subterrâneo, onde o verdadeiro inimigo estava.
Do ponto de vista americano, Iwo Jima não foi vencida apenas com coragem ou poder de fogo massivo, mas com adaptação brutal à realidade da guerra moderna. A ilha ensinou aos Marines que o inimigo não estava no horizonte, mas embaixo de seus pés — e que às vezes a vitória dependia menos de heroísmo individual e mais de soluções feias, improvisadas e eficientes. É uma curiosidade que raramente aparece em filmes ou livros mais populares, mas para quem lutou lá, o som de um Sherman lança-chamas se aproximando significava algo muito simples: talvez hoje a gente sobreviva.
PS: O mais arriscado trabalho no combate é com o lança chamas, de fato , além de ser o alvo principal dos atiradores , o aparelho volta e meia dava problema , às vezes o problema fazia ele se incendiar sozinho. O efeito do lança-chamas era brutal , coloca brutal nisso, os japoneses para tentar se vingarem dessa tática horripilante, executavam qualquer fuzileiro que fosse capturado , guerra é o inferno!
O filme... Cartas de Iwo Jima A conquista da honra São ótimos filmes que contam a história sobre essa triste batalha
Por que Mandela visitou Gaddafi em 1997: A viagem que chocou o mundo Em 1997, Mandela pousou na Líbia para visitar Gaddafi‼️ O Ocidente não conseguia acreditar no que via. "O que está acontecendo?". Mas aqui está o que eles não querem que você saiba... Quando os combatentes da liberdade de Mandela precisaram de armas, treinamento e refúgio na década de 1970, as nações ocidentais os chamavam de "terroristas". Grã-Bretanha, França e Estados Unidos estavam, literalmente, fazendo negócios com o apartheid. Mas Gaddafi abriu as portas da Líbia. Campos militares. Milhões em financiamento. Apoio diplomático. Enquanto Thatcher armava o regime que aprisionava Mandela, Gaddafi armava seus combatentes da liberdade. Quando os líderes ocidentais imploraram para que Mandela cancelasse a viagem, sua resposta foi lendária: “Este homem nos ajudou quando estávamos sozinhos. Aqueles que me criticam agora estavam ajudando o inimigo.” Os EUA listaram oficialmente Mandela como terroristas até 2008. Sim, 2008! Mesmo assim, tiveram a audácia de lhe dar lições sobre quem deveriam ser seus amigos. No jantar de Estado em Trípoli, Mandela ergueu sua taça: “Não deixaremos que outros escolham nossos amigos. Estamos na luta há tempo demais para isso.” É assim que a verdadeira independência se parece. Não trocar um mestre por outro. Não deixar que seus antigos opressores escrevam sua história ou escolham seus aliados.
Compartilhe e me siga se você acredita que lealdade significa algo. 👊🏿
A história da MiG se confunde com a própria história da aviação de caça soviética. Quando o escritório de projetos Mikoyan-Gurevich surgiu no fim dos anos 1930, a União Soviética buscava desesperadamente reduzir a distância tecnológica que a separava das potências aéreas ocidentais. O nome “MiG” não é uma sigla técnica nem um código militar: vem simplesmente da junção dos sobrenomes de seus fundadores, Artyom Mikoyan e Mikhail Gurevich, dois homens muito diferentes, mas complementares. Mikoyan era o articulador, o estrategista, alguém com trânsito político em um sistema onde isso podia significar sobrevivência ou extinção de um projeto. Gurevich, por sua vez, era o engenheiro silencioso, o responsável pelos cálculos, pela aerodinâmica e por fazer o avião realmente voar. Juntos, moldaram um bureau que teria uma filosofia muito clara: velocidade, interceptação rápida, simplicidade e produção em massa. Os primeiros aviões da MiG, como o MiG-1 e o MiG-3, ainda de hélice, surgiram às vésperas da Segunda Guerra Mundial. Eram máquinas pensadas para combate em grande altitude, algo que fazia sentido para a defesa aérea soviética, mas que se mostrou limitado no caos real da guerra no front oriental, onde os combates aconteciam mais baixo e mais próximos do solo. Esses modelos não se tornaram lendários, mas cumpriram um papel essencial: deram à equipe experiência, confiança e um entendimento profundo das limitações e necessidades reais do combate aéreo. A virada definitiva veio com a era do jato. Em 1947, o MiG-15 apareceu como um choque para o Ocidente. Com asas enflechadas, motor potente — derivado de tecnologia britânica adquirida de forma surpreendentemente ingênua pelos ingleses — e um armamento brutal de canhões, o MiG-15 mostrou na Guerra da Coreia (1950-1953) que a União Soviética não estava apenas acompanhando a corrida tecnológica, mas em alguns aspectos liderando. Ele não foi apenas um caça eficiente: foi um símbolo. O momento em que pilotos americanos passaram a respeitar — e temer — um avião com letras cirílicas pintadas na fuselagem. A partir daí, a MiG consolidou seu estilo. O MiG-17 refinou o conceito, o MiG-19 levou a aviação soviética ao supersônico, e o MiG-21 se tornaria um ícone global. Simples, rápido, barato e letal, o MiG-21 foi produzido aos milhares e voou sob dezenas de bandeiras diferentes, participando de guerras na Ásia, no Oriente Médio, na África e além. Ele representava perfeitamente a mentalidade soviética: não o caça mais confortável ou sofisticado, mas um avião capaz de ser mantido em condições precárias, pilotado por aviadores com treinamento limitado e ainda assim cumprir sua missão. Nos anos seguintes, a MiG apostou em caminhos mais ousados. O MiG-23, com asas de geometria variável, tentou unir velocidade, alcance e flexibilidade, ainda que tenha pago o preço da complexidade. Já o MiG-25 foi quase uma criatura de outro mundo: enorme, rápido, construído em aço e projetado para voar mais alto e mais rápido do que praticamente qualquer coisa de sua época. Quando um exemplar desertou para o Ocidente, ficou claro que ele não era um milagre eletrônico, mas uma máquina extrema, feita para uma função muito específica: subir como um foguete e interceptar ameaças antes que chegassem ao coração da União Soviética. Seu sucessor, o MiG-31, refinou essa ideia e se tornou um dos interceptadores mais capazes já construídos, permanecendo relevante até hoje em um país de dimensões continentais como a Rússia. Com o MiG-29, a empresa entrou na era dos caças altamente manobráveis, capazes de enfrentar os melhores aviões ocidentais em combates aproximados. Era um caça mais equilibrado, mais próximo do que se esperava de uma aeronave moderna, ainda que mantivesse traços da velha filosofia MiG: motores potentes, estrutura robusta e foco no combate direto. Já no período pós-soviético, a MiG tentou se reinventar com modernizações e projetos como o MiG-35, tecnicamente avançado, mas ofuscado pela ascensão da Sukhoi, que passou a dominar o mercado interno e externo russo. Ao longo de sua história, a MiG nunca foi sinônimo de luxo, conforto ou glamour. Seus aviões eram apertados, barulhentos, muitas vezes rudes de pilotar, mas quase sempre rápidos, resistentes e eficazes. Eram máquinas pensadas para uma guerra total, para decolar de pistas improvisadas, enfrentar climas extremos e cumprir ordens sem frescura. Mais do que uma fabricante de aviões, a MiG foi a expressão de uma visão estratégica: defender um vasto espaço aéreo com rapidez, força e números. Por isso, quando se fala em MiG, não se fala apenas de aviões, mas de uma escola inteira de pensamento militar, forjada na urgência, na rivalidade e na constante expectativa de um conflito que, felizmente, nunca chegou ao seu ápice.
Neste dia, 18 de janeiro de 1976 — há 50 anos — um dos episódios mais brutais da guerra civil libanesa chocava Beirute. Milícias cristãs atacaram o bairro de Karantina, então habitado majoritariamente por palestinos, muçulmanos libaneses e trabalhadores migrantes, matando entre 600- 1500 pessoas em poucas horas. O massacre ocorreu nos primeiros meses de um conflito que havia começado em abril de 1975 e que rapidamente transformou o Líbano em um campo de batalha fragmentado por linhas sectárias e ideológicas. Karantina, uma área pobre e densamente povoada no leste de Beirute, era vista por milícias cristãs como uma ameaça estratégica em meio à disputa pelo controle da capital. O ataque foi executado por grupos armados ligados a partidos cristãos maronitas, que cercaram o bairro e avançaram casa por casa. A violência não poupou civis. O massacre provocou horror dentro e fora do país e alimentou um ciclo imediato de represálias: poucos dias depois, milícias palestinas retaliariam com o massacre de Damour, aprofundando ainda mais a espiral de violência. Karantina tornou-se um símbolo da normalização da limpeza sectária e da erosão completa das fronteiras entre combatentes e civis. Ao longo dos quinze anos de conflito, o Líbano viveria sucessivos massacres e colapsos institucionais, com um saldo estimado de centenas de milhares de mortos e um país traumatizado. A guerra civil só chegaria oficialmente ao fim em 1990, após o Acordo de Taif, assinado em 1989, q redesenhou o sistema político do país. A reação internacional ao longo da guerra foi marcada por envolvimento direto de atores externos, entre eles Síria, Israel e Irã, q passou a apoiar grupos xiitas, contribuindo para o surgimento do Hezbollah. Os EUA e a França intervieram episodicamente, sobretudo na década de 1980. Em vez de conter a violência, isso frequentemente aprofundou a fragmentação do conflito e prolongou a guerra. 5 décadas depois, o massacre de Karantina permanece uma ferida aberta na memória libanesa. Ele lembra que guerras civis não começam com grandes batalhas entre exércitos, mas com a desintegração gradual da convivência social.
Por que os telejornais deveriam ser mais curtos? Coluna discute o episódio ocorrido com o apresentador Guilherme Rivaroli, que comemorou a audiência de uma tragédia, para analisar o que isso pode revelar sobre o telejornalismo que está sendo produzido no Brasil.
De tempos em tempos, somos impactados por um tipo específico de escândalo no jornalismo televisivo: o vazamento de alguma informação (geralmente um áudio) que circulou nos bastidores, e que não deveria ter chegado ao público. O caso da vez envolve o apresentador Guilherme Rivaroli, atualmente comandante do Balanço Geral na RIC TV, afiliada da Record no Paraná.
Um áudio do apresentador vazou no YouTube da emissora durante a transmissão do telejornal. Naquele dia, o Balanço Geral cobria um desaparecimento de um jovem de 19 anos enquanto fazia uma trilha. No vazamento, Rivaroli festejava os índices de audiência obtidos pela cobertura e ironizava: “podia ter um desaparecido por dia”. Na sequência do áudio, ele comemora ter passado a concorrência: “não vão nos alcançar. No final a gente passou de novo eles (a Rede Massa, afiliada do SBT) com a mesma história. Acho que deu 4,3 a 3,3 de média pra nós” (saiba mais aqui).
Rivaroli apresenta o jornal há pouco mais de um mês, e foi contratado com a perspectiva de aumentar os níveis de audiência. A situação (obviamente lamentável) expõe as entranhas do funcionamento de um telejornal, algo que costuma ser protegido da audiência. Eventualmente, situações semelhantes, com mais ou menos gravidade, acontecem – um dos episódios mais marcantes talvez seja quando William Waack, em 2017, teve um momento de bastidor vazado no qual fazia comentários racistas.
Ao longo da Escotilha, discutimos em vários momentos a questão dos impactos provocados por essas “sobras” de interação quando elas vêm a público, já que elas costumam reiterar aquele célebre ditado: “se as pessoas soubessem como são feitas as salsichas e as leis, não comeriam nem dormiriam tranquilas”. Adaptado aqui, poderíamos dizer que, se as pessoas soubessem como os jornais são feitos, provavelmente não acreditariam neles.
O argumento faz sentido, mas carrega uma falácia. Ele apaga o fato de que isso serve para todas as profissões, sem exceções. Se os alunos soubessem o que os professores deles falam quando não estão em sala, provavelmente os questionariam. Se os pacientes soubessem o que falam os médicos em sua ausência, cogitariam processá-los. Faz parte do funcionamento da vida social: temos performances diferentes quando estamos na frente de uma plateia e quando estamos apenas entre os nossos (esse processo foi explicado pelo sociólogo Erving Goffman no clássico A Representação do Eu na Vida Cotidiana).
A discussão que proponho neste texto é de outra natureza. É, na verdade, uma provocação. A fala infeliz de Rivaroli revela, no fundo, a pressão por números de audiência em um telejornal frente aos seus concorrentes. Vale lembrar que o apresentador foi contratado recentemente no intuito de elevar esses níveis, uma vez que o jornalístico enfrentava índices muito baixos. Dito de outra forma, foi levado para a Record justamente para jogar este jogo.
Mas há um detalhe importante. Com leves diferenças nas praças, o programa Balanço Geral costuma ficar ao ar diariamente por cerca de 4 horas. Sem dúvida, é muito tempo para preencher uma agenda diária de um telejornal – a cobertura do jovem desaparecido, por exemplo, ocupou nada menos que 70 minutos do noticiário.
Por isso, um questionamento possível seria: caso os telejornais fossem mais curtos, é provável que muitas coisas (como a enrolação, as longas transmissões ao vivo, as pautas sem relevância) ficassem de fora. Os telejornais seriam melhores?
Por que alguns telejornais são tão longos?
Em novembro de 2025, uma notícia foi repercutida por todos os telejornais de São Paulo, incluindo alguns de abrangência nacional. Um motorista de carreta ficou, por mais de quatro horas, parado no Rodoanel na capital paulista. O homem teria sido assaltado e amarrado com explosivos, e ficou lá até ser resgatado pelo Esquadrão Antibombas.
Todo o episódio foi transmitido ao vivo, em tempo real, pelos telejornais matutinos do estado. Praticamente todo o resto da pauta diária foi derrubada para que os apresentadores estendessem o assunto, com diversos comentários e, principalmente, com a transmissão de imagens tensas – afinal, tratava-se de um resgate emocionante em que uma bomba poderia explodir a qualquer momento.
Só que o caso teve um desfecho improvável: o homem, provavelmente passando por problemas psicológicos, havia inventado toda a história. Não havia bomba, não havia assalto, não havia nada além de um indivíduo em surto paralisando o trânsito de São Paulo – e, claro, monopolizando toda a agenda dos noticiários do dia. Na sede de acompanhar o tema em tempo real (que, com certeza, estava elevando os níveis de audiência), os telejornais deixaram de levar ao público assuntos mais úteis e optaram por envolvê-los na emoção de um assunto pouco relevante.
Crises como essa podem (e devem) ser usadas pelas emissoras para uma necessária reflexão sobre a pertinência do jornalismo que as emissoras estão fazendo.
Naquele dia, me veio o questionamento: se os telejornais matutinos e vespertinos fossem mais curtos, será que haveria espaço para tanta enrolação? Será que, se este tempo fosse mais enxuto, os jornais deixariam de veicular notícias descartáveis como essa – ou dedicariam menos tempo a elas?
A resposta parece óbvia: é claro que sim. Mas então por que isso não acontece? Certamente este é um tópico complexo. Mas é preciso atentar ao fato de que, nas emissoras privadas, todos os programas (incluindo os jornalísticos) estão atrelados a questões comerciais. Jornais mais longos, se adquirem boa audiência e repercussão, dão espaço a mais anunciantes, com contratos mais gordos, que, inclusive, irão custear outras atrações das emissoras. Em algumas das redes, aliás, a publicidade se insere dentro dos próprios noticiários.
Portanto, encurtar os jornais acarretaria em uma reconfiguração comercial nessas empresas – o que significaria impactos nos programas, nos profissionais e, em última instância, na qualidade do jornalismo. Tudo isso serve também para contextualizar melhor o episódio de um apresentador flagrado comemorando os níveis de audiências obtidos por uma tragédia, sendo ele mesmo apenas a roda de uma grande engrenagem que seguirá funcionando mesmo se ele não estiver lá.
Não obstante, crises como essa podem (e devem) ser usadas pelas emissoras para uma necessária reflexão sobre a pertinência do jornalismo que estão fazendo. É uma oportunidade que surge de vez em quando para sair do automático e analisar o modus operandi das redações, que, quase sempre, não têm tempo de parar e avaliar as consequências de seu trabalho.
Por que os telejornais deveriam ser mais sucintos?
Recentemente, uma situação provocou uma reflexão sobre os rumos do jornalismo televisivo no Brasil. Trata-se do episódio envolvendo Guilherme Rivaroli, apresentador do Balanço Geral na RIC TV, afiliada da Record no Paraná, que comemorou publicamente os índices de audiência de uma pauta trágica, ironizando a cobertura e a concorrência.
Tudo começou quando um áudio de Rivaroli vazou no canal oficial da emissora no YouTube. Nele, ele comemorava a alta audiência atingida por uma cobertura de um jovem desaparecido durante uma trilha, chegando a dizer que “podia ter um desaparecido por dia”. Ainda, ele celebrava ter superado a concorrência, sinalizando a preferência do público por aquele conteúdo sensacionalista. Este episódio revela uma faceta pouco comentada do jornalismo: o lado mais íntimo e muitas vezes pouco ético que opera nos bastidores, onde a busca por audiência pode se sobrepor à responsabilidade social.
Esse tipo de situação reforça uma questão antiga: até que ponto o formato de uma notícia deve ser extenso? Telejornais que duram várias horas, cobrindo temas de menor relevância, acabam por diluir o impacto das informações mais importantes. Um exemplo recente aconteceu em São Paulo, em novembro de 2025, quando uma transmissão ao vivo de um resgate envolvendo um suposto sequestrador com explosivos monopolizou a grade de notícias. Contudo, pouco tempo depois, descobriu-se que tudo não passava de uma farsa, uma história inventada por uma pessoa em crise psicológica. O episódio ilustra como o sensacionalismo pode levar a uma cobertura excessiva de assuntos irrelevantes, desviando o foco do jornalismo responsável.
Se os telejornais fossem mais enxutos, seria possível dedicar mais atenção ao que realmente importa, evitando a dispersão de recursos e tempo com pautas que pouco acrescentam ao público. A questão, no entanto, é por que a prática de programas longos ainda prevalece. A resposta está na lógica do mercado: quanto mais tempo de transmissão, maior a chance de atrair anunciantes e gerar receitas. A publicidade, muitas vezes, está integrada ao próprio conteúdo jornalístico, criando um ciclo que favorece a manutenção de programas extensos, mesmo que isso signifique perder a oportunidade de oferecer um jornalismo mais objetivo e relevante.
Outro ponto importante é refletir sobre o impacto dessas escolhas na qualidade do conteúdo. A busca incessante por audiência pode levar à banalização e à exploração de temas sensacionalistas, prejudicando a credibilidade do jornalismo. Nesse sentido, episódios como o de Guilherme Rivaroli ou a cobertura do falso sequestro servem de alerta para repensar o formato e o propósito das notícias na TV. Quanto mais curtos e precisos forem os telejornais, maior a chance de oferecer uma cobertura mais responsável, deixando espaço para uma análise mais aprofundada e menos sensacionalista.
Em suma, a duração dos telejornais não é apenas uma questão de formato, mas de ética e de responsabilidade social. Reduzir o tempo de transmissão pode ser um passo importante para melhorar a qualidade do jornalismo, afastando-o do sensacionalismo e promovendo uma comunicação mais consciente com a audiência. Afinal, um jornalismo mais objetivo e menos extenso pode ser exatamente o que o público precisa para compreender melhor o mundo ao seu redor.
Manoel Carlos, ícone das novelas brasileiras, por anos!
O roteirista e autor de novelas, um dos nomes mais influentes da teledramaturgia brasileira.
Manoel Carlos, conhecido carinhosamente no meio artístico como Maneco, construiu uma carreira que marcou gerações. Ele ficou famoso por novelas que figuram entre as mais lembradas da televisão brasileira, como Por Amor, Laços de Família, Mulheres Apaixonadas, História de Amor e outras obras que estiveram no coração do público ao longo de décadas.
Seu estilo era marcado pela profundidade emocional e pela atenção às relações familiares e humanas. Uma de suas marcas registradas foi a personagem chamada Helena, que virou símbolo da protagonista nos seus folhetins, refletindo mulheres complexas, cheias de conflitos e sentimentos intensos.
Além de sua vida profissional, a trajetória pessoal de Manoel Carlos também foi marcada por episódios dolorosos. Ao longo da vida, ele já havia sofrido com a perda de três dos seus filhos e da sua primeira esposa, fatos que ele mesmo comentou em entrevistas e que influenciaram sua visão sensível sobre temas humanos e familiares em suas obras.
A importância de Manoel Carlos para a história da televisão no Brasil é frequentemente destacada por sua capacidade de transformar relações cotidianas em dramas envolventes e memoráveis, influenciando toda uma geração de autores e telespectadores.
🕊 Maneco faleceu neste sábado, 10 de janeiro de 2026, aos 92 anos de idade, no Rio de Janeiro. Nos últimos anos, Manoel Carlos enfrentava um quadro de saúde delicado. Ele lutava contra a Doença de Parkinson, diagnosticada há alguns anos, que teria se agravado nos últimos meses, comprometendo aspectos motores e cognitivos e exigindo cuidados médicos e familiares próximos. A notícia de sua morte gerou homenagens imediatas de colegas de trabalho, atores e fãs nas redes sociais.
VOCÊ LEMBRA DA NOVELA QUE REI SOU EU? 👑🎭✨ Exibida entre 13 de fevereiro e 15 de setembro de 1989, Que Rei Sou Eu? foi uma das novelas mais inteligentes, ousadas e debochadas da teledramaturgia brasileira. Ambientada no fictício Reino de Avilan, a trama usava figurinos de época, espadas e castelos para fazer algo muito atual para aquele momento histórico: uma sátira afiada do Brasil do fim dos anos 1980 🇧🇷. O país vivia a transição democrática após o regime militar, enfrentava inflação descontrolada, planos econômicos fracassados, corrupção e instabilidade política, tudo isso às vésperas da primeira eleição presidencial direta em quase 30 anos. Avilan era, na prática, um espelho cômico — e nem tão distante assim — da realidade brasileira. Logo nos primeiros capítulos, o público já entendia o tom da crítica: a moeda do reino, o ducado, perde três zeros e é substituída pelo duca, que também fracassa rapidamente. Nada funcionava direito em Avilan — nem mesmo a guilhotina, que só funcionava nos testes. 😅 --- 👑 OS PERSONAGENS QUE MARCARAM AVILAN Grande parte do sucesso da novela veio de seus personagens exagerados, simbólicos e memoráveis — todos representando tipos políticos, sociais e humanos muito reconhecíveis.
🔹 Rainha Valentine (Tereza Rachel) Assumiu o trono após a morte do rei Petrus II. Autoritária, instável e marcada por ataques de loucura e gargalhadas histéricas, tornou-se uma das vilãs mais icônicas da TV brasileira. 🔹 Corcoran (Stênio Garcia) O “bobo da corte” que, de bobo, não tinha nada. Acrobático e esperto, era na verdade um espião infiltrado entre os camponeses, sempre transitando entre os dois mundos. 🔹 Ravengar (Antônio Abujamra) Uma mistura de bruxo, médico e astrólogo do reino. Figura temida, manipuladora e sombria, era o cérebro por trás de muitas decisões cruéis. 🔹 Pichot (Tato Gabus) Um mendigo retirado das ruas para ocupar o lugar do príncipe herdeiro. Hipnotizado por Ravengar, acaba se transformando no maior tirano da história de Avilan, mostrando como o poder pode corromper qualquer um. 🔹 Crespy (Carlos Augusto Strazzer) Conselheiro do trabalho e impiedoso coletor de impostos, representava o peso do Estado sobre o povo. 🔹 Gaston (Oswaldo Loureiro) Conselheiro das armas, mal-humorado e paranoico, via inimigos em todos os cantos do reino. 🔹 Bidet (John Herbert) Conselheiro dos mares — mesmo Avilan não tendo fronteiras marítimas. Vivendo às turras com Gaston, simbolizava a inutilidade de certos cargos políticos. 🔹 Vanoli (Jorge Dória) Secretário particular da rainha e agiota-mor do reino, sem qualquer escrúpulo. Chega a ganhar, numa mesa de jogo, a própria filha de um fazendeiro falido como pagamento de dívida. 🔹 Bergeron (Daniel Filho) O único conselheiro honesto do reino. Justamente por isso, sofria perseguições e o assédio da rainha Valentine. 🔹 Madeleine (Marieta Severo) Esposa de Bergeron, tinha ideias feministas e era a única mulher do reino que sabia escrever, algo revolucionário até dentro da própria história. 🔹 Jean Pierre (Edson Celulari) O mocinho da novela. Líder dos rebeldes, vivia um triângulo amoroso e, mais tarde, descobre ser o verdadeiro herdeiro bastardo do rei Petrus II — segredo que quase ninguém conhecia. 🔹 Loulou Lion (Ítala Nandi) Dona de uma taberna que recebia tanto nobres quanto pobres. Observadora, irônica e cheia de segredos, sabia a verdade sobre Jean Pierre.
--- 🔥 REVOLUÇÃO, SÁTIRA E BRASIL No capítulo final, acontece a revolução popular:
o povo invade o palácio, confisca os bens da nobreza e toma o poder. Em uma das cenas mais emblemáticas da novela, Jean Pierre ergue a espada e grita: > “Ninguém vai mais explorar o trabalho do pobre. Viva o Brasil!” 🇧🇷⚔️
Ali, a ficção se dissolve completamente na realidade. Avilan deixa de ser apenas um reino imaginário e se transforma em uma metáfora direta do Brasil e de seu desejo coletivo por justiça social e mudança. --- 🎬 Que Rei Sou Eu? foi tão marcante que, apenas um mês após o fim, ganhou uma reprise compacta com 70 capítulos, exibida na Sessão Aventura. Décadas depois, a novela continua atual — não só pelo humor afiado e pelo elenco brilhante, mas porque sua crítica política ainda ecoa. Afinal, às vezes, é no riso que a verdade aparece com mais clareza. 👑✨
O Fim Turbulento de Arquivo X: Uma Jornada de Mistério e Mudanças 📺
Desde sua estreia em 1993, Arquivo X (The X-Files) se consolidou como uma das séries mais emblemáticas e influentes do universo televisivo. Criada por Chris Carter, a trama conquistou milhões ao explorar o lado obscuro do desconhecido, sempre centrada na parceria entre os agentes Fox Mulder e Dana Scully. Essa dupla, marcada por uma química única, virou símbolo de uma era de suspense, conspirações e fenômenos inexplicáveis.
No entanto, o caminho da série começou a se transformar a partir da sétima temporada. Em 1999, David Duchovny decidiu deixar o elenco regular, motivado por questões contratuais e pelo sentimento de que sua personagem já tinha sido bastante explorada. Sua ausência foi justificada na narrativa com o abduzimento de Mulder por alienígenas, uma trama que abriu espaço para mudanças na dinâmica do show.
Para substituir a perda de seu protagonista principal, a produção apostou na introdução do agente John Doggett, interpretado por Robert Patrick, na oitava temporada. Essa mudança trouxe uma tonalidade mais sombria às investigações e, inicialmente, foi bem recebida pelo público. Entretanto, a ausência constante de Mulder, que só apareceu de forma pontual, acabou refletindo na queda de audiência ao longo dos episódios seguintes.
Durante essa fase de transição, Gillian Anderson também manifestou o desejo de diminuir sua participação na série. Como resultado, seu personagem, Dana Scully, passou a ter menos destaque em algumas temporadas, o que contribuiu para uma sensação de perda da essência original do programa. Para tentar revitalizar o enredo, a equipe criou a personagem Monica Reyes, interpretada por Annabeth Gish, formando uma nova dupla com Doggett. Ainda assim, muitos fãs sentiam que a conexão que unia Mulder e Scully era insubstituível.
A nona temporada, por sua vez, foi marcada por uma queda dramática na audiência, levando a Fox a decidir pelo encerramento da série. Para o desfecho, a produção conseguiu reunir os protagonistas originais nos episódios finais, proporcionando uma conclusão que, apesar das limitações de tempo e produção acelerada, foi considerada digna por uma grande parcela dos fãs. Assim, Arquivo X fechou seu ciclo de forma mais emocional do que definitiva.
Anos depois, em 2016, a série retornou com uma décima temporada, seguida por uma 11ª em 2018. Embora o revival tenha reavivado a nostalgia, ele não conseguiu repetir o impacto cultural e a audiência do auge da série original. Ainda assim, deixou claro que o legado de Arquivo X permanece vivo, especialmente na fase clássica, que consolidou a produção como um marco na história da televisão, com sua mistura única de mistério, paranoia e investigação investigativa.
AS POSSÍVEIS CAUSAS DA GUERRA DE TRÓIA,SEM O FATOR MITOLÓGICO. ⚔️📚
⏳ Para entender a Guerra de Troia fora do contexto mitológico, é necessário abordar os possíveis fatores históricos que possam ter causado o conflito,muitos historiadores e arqueólogos debatem a realidade do evento e o que poderia ter motivado tal guerra.
Uma das teorias mais aceitas entre historiadores é que a Guerra foi motivada por interesses econômicos. Troia estava situada em uma localização estratégica próxima ao estreito de Dardanelos, que ligava o Mar Egeu ao Mar Negro.
O controle dessa rota marítima era essencial para o comércio da região. Historiadores como Moses Finley sugerem que a guerra poderia ser resultado de disputas pelo controle comercial, onde os gregos micênicos desejavam dominar Tróia para controlar a rota de comércio e garantir acesso a recursos.
Durante a Idade do Bronze tardia, a civilização micênica estava em expansão e buscando consolidar seu poderio no Egeu,alguns historiadores, como Eric Cline, em seu livro "1177 a.C.: O Ano em que a Civilização Colapsou", argumentam que a Guerra de Troia poderia fazer parte de um processo mais amplo de instabilidade e colapso das civilizações no Mediterrâneo, onde diversas cidades-estado entravam em conflito por recursos, territórios e prestígio.
Além dos fatores econômicos, questões políticas e rivalidades entre os reinos micênicos poderiam ter contribuído para o conflito,as alianças e disputas entre os reis gregos teriam influenciado o ataque a Troia.
Segundo o historiador Barry Strauss, autor de "The Trojan War: A New History", a guerra foi provavelmente o resultado de uma série de conflitos menores que culminaram em um ataque em larga escala, ao invés de um evento único motivado apenas pelo "rapto" de Helena.
A busca por vingança e a manutenção do prestígio entre as monarquias micênicas podem ter sido catalisadores para o conflito,mesmo sem o rapto de Helena, a disputa entre Agamemnon e outros reis poderia ser uma tentativa de afirmar sua liderança e poder na região.
A ideia de soberania e o controle territorial sobre cidades-estado e rotas comerciais no Mediterrâneo podem ter desencadeado uma disputa, na qual Troia, como uma cidade independente e poderosa, representava um obstáculo para as ambições micênicas.
Durante esse período, muitas cidades e reinos do Mediterrâneo e Oriente Médio passaram por colapsos, possivelmente devido a mudanças climáticas, migrações em massa ou invasões.
O historiador Robert Drews, em "The End of the Bronze Age", sugere que a Guerra de Troia pode ter sido parte dessas turbulências, sendo um sintoma de um mundo em transição,portanto, embora a lenda de Helena e Paris tenha se tornado um símbolo romântico e trágico, é provável que os fatores econômicos, políticos e sociais tenham desempenhado um papel mais significativo na causa do conflito real.
A história foi então mitologizada ao longo dos séculos, tornando-se uma narrativa épica que reflete tanto as preocupações da Grécia antiga com a honra e o destino quanto as realidades mais terrenas dos conflitos humanos.
"Uma Nova Perspectiva de Vida": o que esperar da estreia da primeira novela em formato vertical da Globo?
Lucas Trajano possui tudo: juventude, uma fortuna significativa e um amor verdadeiro. Prestes a oficializar sua união com Paula Magalhães (Debora Ozório), sua primeira e única namorada, o jovem empreendedor vive um conto de fadas moderno, que impressiona e provoca inveja em muitos. Contudo, essa história encantadora desperta a faceta mais sombria de Soraia (Jade Picon), amiga de infância do casal e antagonista determinada. Ela guarda um amor secreto por Lucas e sua riqueza, e não poupará esforços para destruir o relacionamento e conquistar o que deseja. Essa é a premissa de ‘Uma Nova Perspectiva de Vida’, a primeira novela produzida especificamente para o formato vertical da TV Globo, que foi ao ar nesta terça-feira (25/11/2025) em todas as plataformas digitais da emissora.
Com episódios de duração reduzida, a narrativa foi criada especialmente para ser assistida pelo celular. Produzida pelos Estúdios Globo, com roteiro de Rodrigo Lassance e direção artística de Adriano Melo, a série conta com 50 capítulos, cada um com aproximadamente 2 a 3 minutos. Toda semana, às terças-feiras, um novo lote de 10 episódios é lançado em todas as redes sociais da Globo.
A estreia da novela digital aconteceu em sintonia com a novela ‘Dona de Mim’. Os personagens da trama principal estavam assistindo ao conteúdo, e uma das protagonistas, Kami (Giovanna Lancellotti), comentou sobre o formato e as plataformas onde podia assistir.
‘Uma Nova Perspectiva de Vida’ aborda temas como os limites entre paixão e obsessão, verdade e mentira, passado e presente. É uma história dramática que começa na despedida de solteiro de Lucas e Paula. Em um momento de orgulho, os pais do noivo, Glória e Jorge, assistem enquanto Lucas declara seu amor por Paula, recebendo aplausos do público, mas também a ira de Soraia.
Nesse cenário, Soraia decide colocar seu plano em ação para separar o casal e afastar Paula. Com a ajuda de Roberto, um jovem facilmente manipulado por ela devido à paixão, ela consegue um frasco de veneno e, na noite da festa, mistura-o ao espumante de Paula. No entanto, a armação dá errado quando Lucas bebe o espumante da noiva. Ele passa mal e entra em coma.
Depois, Soraia coloca provas falsas na bolsa de Paula, que acaba sendo presa por um crime que não cometeu. Quando Lucas desperta, sua memória está apagada, incluindo seu amor por Paula. A vilã aproveita-se da fragilidade do rapaz para apagar detalhes do passado e manipular a sua percepção da realidade, tentando preencher o vazio deixado por Paula. A mãe de Lucas, Glória, acredita nas mentiras de Soraia, colaborando com ela na tentativa de afastar Paula do filho, que ela acredita ser culpada pelo crime.
Enquanto Lucas tenta reconstruir sua identidade ao lado de Soraia, Paula enfrenta o maior desafio de sua vida: provar sua inocência, sair da prisão, recuperar sua dignidade e reconquistar o amor perdido. Sem apoio de seus pais, Beth (Vanessa Gerbelli) e Jarbas, ela tenta retomar sua trajetória. Beth a acolhe, mas Jarbas, ressentido por uma demissão na empresa dos Trajano, rejeita a filha, levando Paula a seguir seu caminho sozinha.
Com uma trama repleta de mentiras, traições e reviravoltas, e apoiada apenas pelo amigo Arthur, a protagonista embarca numa busca por justiça e renovação, tentando provar que o amor verdadeiro pode resistir até mesmo ao esquecimento. Tudo isso ocorre em episódios extremamente curtos, o que limita a profundidade narrativa e a construção de personagens. A falta de tempo impede uma elaboração mais detalhada, deixando os acontecimentos ao sabor do espectador que aceita o ritmo acelerado. Não é uma narrativa convencional, mas sim algo mais próximo do que jovens consumidores de produções amadoras e de baixo orçamento estão habituados a assistir, muitas vezes produzidas por influenciadores digitais em plataformas como TikTok e Kwai. Se os atores não fossem conhecidos, muitos poderiam confundir a produção com um produto de baixa qualidade, feito por amadores.
Por ser composta por episódios tão breves, a visualização é extremamente acessível, mesmo para quem não gosta do conteúdo ou duvida de sua qualidade. É possível perceber, por exemplo, que o cenário de hospital foi montado em camarins nos Estúdios Globo, evidenciando a simplicidade da produção. Apesar das limitações, o formato consegue captar a atenção do público, embora o resultado final ainda seja imprevisível. Nos primeiros dez capítulos, a novela digital já acumula mais de 15 milhões de visualizações no Instagram e mais de 9 milhões no TikTok. A curiosidade é um fator que impulsiona esse sucesso inicial, além da presença de atores jovens como Daniel Rangel, Debora Ozório e Jade Picon. A escalação de Jade, após sua participação em ‘Travessia’, também contribui para atrair a atenção do público. Além disso, participações de atores veteranos como Beth Goulart, Leonardo Brício, Vanessa Gerbelli e Marcos Winter reforçam o elenco com nomes experientes e conhecidos.
Com roteiro de Rodrigo Lassance, direção de Adriano Melo, produção de Juliana Castro e supervisão executiva de Lucas Zardo, ‘Uma Nova Perspectiva de Vida’ marca uma mudança na forma de consumo de histórias na Globo. Ainda é cedo para avaliar seu potencial completo, mas o formato inovador já demonstra que a emissora está explorando novos caminhos para atrair o público jovem, mesmo que, por ora, a profundidade narrativa seja limitada.
Três Graças não foi apenas a novela da década, foi a melhor novela desde A Força do Querer, tá ali no pódio dos últimos 15 anos com ela e Avenida Brasil, e isso diz muito.
Qual o verdadeiro valor de uma vida? Até onde alguém está disposto a ir para corrigir uma injustiça que afeta milhares de pessoas doentes?
Criada e escrita por Aguinaldo Silva, Virgílio Silva e Zé Dassilva, com direção artística de Luiz Henrique Rios, a novela apresenta uma trama carregada de humanidade, esperança e mistura de gêneros: drama, tragédia, romance, mistério e humor. Conhecido por criar personagens marcantes, como as vilãs Perpétua de 'Tieta' e Nazaré Tedesco de 'Senhora do Destino', e mulheres fortes como Tieta, além de personagens cômicos como Crô de 'Fina Estampa' e Zé Alfredo de 'Império', Aguinaldo retorna ao horário nobre da TV Globo após seis anos. Como vencedor de dois Emmy, ele traz nesta nova obra suas experiências, referências e assinatura única na teledramaturgia.
A inspiração para ‘Três Graças’ veio de uma experiência de quase 20 anos. Aguinaldo, enquanto escrevia ‘Duas Caras’ em 2007, visitou uma maternidade pública e ficou impactado com a quantidade de adolescentes grávidas, muitas sem apoio dos pais. Virgílio Silva e Zé Dassilva, parceiros de trabalho de Aguinaldo em outros projetos, assinam juntos a primeira obra. Os autores destacam que a novela evidencia a enorme desigualdade social do Brasil, mesmo dentro do universo ficcional da história.
Ambientada na maior metrópole da América Latina, a novela propõe reflexões sobre temas atuais, mas com uma abordagem tragicômica e não naturalista, de acordo com a proposta dos autores e do diretor Luiz Henrique Rios.
A história de 'Três Graças' se passa na grande São Paulo, com seus edifícios imponentes e diversidade cultural. Em julho, equipe e elenco partiram para a capital paulista para iniciar as filmagens das primeiras cenas, que duraram quase um mês.
Durante dias de clima frio e sol, as cenas foram gravadas principalmente na Brasilândia, região Norte da cidade, onde fica a comunidade fictícia da trama. As ruas, vielas e espaços urbanos da região serviram de cenário às sequências.
Locais como os bairros Aclimação, Bela Vista, Pinheiros, Pirituba e Freguesia do Ó também aparecem na narrativa. A fachada da Sala São Paulo, uma das mais modernas casas de concerto do mundo, no centro da cidade, foi palco de uma das cenas mais elaboradas durante as gravações.
'Três Graças' aposta em uma estética vibrante e não-realista para contar sua história, com o vigor e a intensidade característicos de uma tragicomédia. O conceito visual, desenvolvido pelo diretor artístico Luiz Henrique Rios em parceria com a diretora de arte May Martins, reflete a força dos personagens e dos ambientes que habitam.
Desde o início, a proposta foi criar uma novela que não escondesse sua natureza ficcional, mas que a assumisse com uma estética marcante. A cenografia busca equilibrar elementos reais e fictícios, com referências à estética do cineasta Pedro Almodóvar. A paleta de cores é fundamental em cada núcleo: tons de verde, além das cores primárias — vermelho, azul e amarelo — e seus subtons, presentes nos cenários, figurinos e objetos de cena. Nos ambientes mais privilegiados, como o apartamento de Ferette, predominam cores mais sóbrias e pigmentadas, enquanto na comunidade da Chacrinha, cores mais vivas e abertas predominam. A iluminação também dialoga com essa paleta, reforçando a atmosfera de cada espaço.
A casa onde Gerluce, sua mãe Lígia e a filha Joélly vivem, situada na fictícia Chacrinha, foi criada em estúdio para transmitir afeto e memórias. A construção é orgânica, feita aos poucos, com diferentes estilos em cada cômodo, pisos variados e detalhes que remetem à vida comunitária. A fachada é amarela, com portas azuis, refletindo a simplicidade e o aconchego do lugar.
A narrativa também inclui cenas externas pelas ruas de São Paulo, integradas ao cotidiano do transporte público. Para essas filmagens, foram utilizados três ônibus, incluindo um elétrico, preparados especialmente para as cenas com o motorista Gilmar (Amaury Lorenzo). Esses veículos receberam adesivos e elementos como estações de cobrador, validadores de cartão e câmeras de segurança, para dar veracidade às sequências.
Um destaque na cenografia é o quarto que abriga a escultura 'As Três Graças', uma peça de grande destaque na trama. Trata-se de uma antiga biblioteca desativada, repleta de livros e móveis de épocas passadas, criando uma atmosfera de mistério. A escultura, com 1,80m de altura, foi produzida em resina com pó de mármore nos Estúdios Globo. Além das três figuras que representam deusas gregas, a peça possui uma base vazada, onde os vilões Arminda e Ferette escondem dinheiro ilegal, reforçando sua importância simbólica na história.
A estreia apresentou um primeiro capítulo de alto nível, que introduziu todos os personagens dos núcleos principais e, ao final, apresentou de forma convincente os mundos da pobreza e da riqueza. Um começo promissor para a novela.
"Três Graças": o que dizer da novela das nove?
“Três Graças” conseguiu algo que parecia improvável no atual cenário da dramaturgia da Globo: fazer o público voltar a sentir prazer em acompanhar um novelão clássico no horário nobre. Depois do desgaste provocado pelo remake de Vale Tudo, a trama escrita por Aguinaldo Silva, em parceria com Virgilio Silva e Zé Dassilva, surgiu como uma resposta direta a quem decretava a morte do folhetim tradicional. E não poderia haver ironia maior: justamente o autor que viu sua obra mais famosa ser remodelada de forma controversa retornou para mostrar que ainda domina como poucos os mecanismos da televisão popular.
Após anos afastado da emissora por conta do fracasso turbulento de O Sétimo Guardião, Aguinaldo reapareceu disposto a provar que ainda sabia construir novelas de verdade. E conseguiu. “Três Graças” abraçou sem pudor tudo aquilo que muitos produtos recentes parecem evitar: melodrama intenso, personagens passionais, conflitos bem amarrados, reviravoltas planejadas e emoções conduzidas no tempo certo. Em vez de reproduzir a estética acelerada das séries de streaming, a novela apostou na maturação dos dramas e no envolvimento gradual do público.
O eixo emocional da história estava nas trajetórias de Gerluce, Lígia e Joélly — três mulheres de gerações diferentes conectadas pela maternidade precoce e pela ausência masculina. A identificação popular veio imediatamente porque a novela transformou dores extremamente brasileiras em combustível dramático poderoso. A partir desse núcleo, os autores costuraram romances, humor, suspense, vingança, ação e vilania em doses generosas, recuperando a essência do grande folhetim televisivo.
Entre os maiores trunfos da obra esteve a dupla de antagonistas formada por Arminda e Ferette. Ela carregava o exagero saboroso das vilãs clássicas de Aguinaldo Silva; ele funcionava como um empresário frio e calculista que escondia crimes brutais atrás de uma fachada filantrópica. O esquema envolvendo medicamentos falsificados deu peso social à narrativa sem transformar a novela em panfleto. Quando Lígia quase morreu por causa da fraude, a rivalidade entre mocinhos e vilões ganhou uma dimensão emocional definitiva.
A ousadia apareceu com força total quando Gerluce decidiu organizar o roubo da estátua das Três Graças. A sequência virou um dos momentos mais comentados da novela justamente porque rejeitou a ideia da protagonista perfeita. Gerluce errava, se vingava, tomava decisões impulsivas e agia movida pela raiva — e foi exatamente isso que aproximou o público dela. A referência à mitologia grega, refletida nas três “Marias das Graças”, acrescentou sofisticação simbólica sem comprometer a leveza popular da trama.
Outro ponto forte foi a maneira como os relacionamentos foram desenvolvidos. O romance entre Paulinho e Gerluce cresceu aos poucos, sustentado pelo conflito moral do policial apaixonado pela mulher que liderava o crime que ele investigava. Mas quem realmente ultrapassou a bolha da novela foi o casal formado por Juquinha e Lorena. O sucesso das duas personagens foi tão grande que virou fenômeno nas redes sociais e ajudou a consolidar um marco raro na TV aberta brasileira: um casal lésbico tratado com a mesma naturalidade dada aos casais heterossexuais, com afeto, desejo e intimidade apresentados sem medo.
A novela também acertou ao investir em personagens secundários carismáticos e em romances paralelos que ampliavam o universo da história. Houve espaço para humor popular, reencontros midiáticos pensados para viralizar e discussões sobre identidade de gênero conduzidas de forma mais humana do que discursiva.
A relação entre Leo e Viviane, por exemplo, emocionou justamente porque a personagem trans não existia apenas para cumprir função representativa:
ela era tratada como indivíduo, com conflitos afetivos reais.
Claro que “Três Graças” esteve longe de ser impecável. Alguns núcleos perderam força ao longo do caminho, determinadas tramas pareceram improvisadas e certos personagens masculinos receberam redenções excessivamente generosas. A novela prometia discutir o abandono paterno, mas frequentemente aliviava as consequências para homens que causaram enormes danos às protagonistas. Além disso, houve barrigas narrativas evidentes, especialmente na reta final, quando o ritmo desacelerou e parte da tensão dramática se dispersou.
Ainda assim, os problemas jamais apagaram a potência do conjunto. A direção de Luiz Henrique Rios compreendeu perfeitamente o espírito da obra e abraçou o exagero folhetinesco sem qualquer vergonha. Close dramático, trilha carregada, cenas explosivas e até momentos quase caricatos funcionavam porque a novela tinha plena consciência de sua identidade. Era um dramalhão assumido — e justamente por isso tão divertido.
O elenco também teve papel fundamental no êxito. Sophie Charlotte, Dira Paes, Grazi Massafera e Murilo Benício sustentaram o centro dramático com enorme presença, enquanto nomes como Andreia Horta, Kelzy Ecard e Arlete Salles roubaram cenas constantemente. Houve ainda participações especiais inteligentes, referências metalinguísticas e até crossover com personagens clássicos de outras novelas de Aguinaldo, usados de maneira divertida sem parecer mero fan service vazio.
Nos capítulos finais, “Três Graças” mergulhou completamente na extravagância típica das grandes novelas. Teve sequestro, vingança, perseguição, surtos, dinheiro voando pela favela, vilã enlouquecida, confrontos físicos e uma sequência final recheada de humor ácido e quebra da quarta parede. Em qualquer outra produção recente, isso talvez soasse exagerado demais. Aqui, funcionou porque a novela nunca teve vergonha de ser novela.
O desfecho deixou claro por que a repercussão da trama foi tão diferente da recebida pelo remake de “Vale Tudo”. Embora ambas tenham fechado com índices parecidos de audiência, “Três Graças” conseguiu mobilizar fandoms, movimentar redes sociais e recuperar um sentimento que parecia perdido: o prazer coletivo de acompanhar diariamente um folhetim popular, exagerado e emocionalmente envolvente.
Mais do que um sucesso isolado, a novela serviu como demonstração de que o formato tradicional ainda tem enorme força quando encontra autores capazes de compreender sua linguagem. “Três Graças” não reinventou a roda — e talvez esse tenha sido justamente seu maior mérito. Em tempos em que parte da dramaturgia tenta fugir de suas próprias origens, Aguinaldo Silva escolheu abraçar o melodrama clássico. E o público agradeceu.
PS: O quanto essa novela foi maravilhosa e necessária para o horário nobre.
Aguinaldo Silva voltou mais inspirado do que nunca e, além do roteiro maravilhoso, dos personagens maravilhosos e bem construídos em sua maioria, quase todas as referências inseridas na novela foram muito bem-vindas e deram muito mais valor para a novela, que realmente, não teve vergonha de ser novela como a gente conhece e resgatou o público que tanto ama esse gênero que é essencial na nossa cultura. Sem contar também a surra deliciosa com luva de pelica que ele deu na Manuela Dias, que destruiu Vale Tudo dele, de Gilberto e de Leonor, sem precisar dizer nada sobre aquela paródia (sim, paródia, pois aquilo não merece nem ser chamado de remake)
Pela primeira vez em muitos anos, uma trama no horário nobre está se encerrando e realmente vai fazer falta, não só ela, como também os vários personagens marcantes e emblemáticos como Gerluce, melhor mocinha dos últimos anos, Arminda, uma das melhores vilãs, Ferette, Viviane, Dona Josefa, Zenilda, o núcleo da delegacia, os bandivos (Vandilson, Alemão, Bagdá) e outros.
Espero de verdade que Quem Ama Cuida consiga, pelo menos manter o nível da qualidade que Três Graças deixou no horário nobre novamente, porque superar, eu acho extremamente difícil que consiga.
Fui muito feliz nesses 7 meses de Três Graças, foi muito bom poder acompanhar uma trama do início ao fim com empolgação novamente.
Vale a pena ser honesto no Brasil? Não. Vale a pena passar por cima de qualquer um por dinheiro? Sim.
"Vale Tudo" foi uma tentativa de remake que acabou sendo apolítica, descaracterizada, superficial, absurda e covarde.
Antes mesmo de sua estreia, o remake de "Vale Tudo" recebeu uma enxurrada de críticas negativas. A ideia de recomeçar uma das melhores novelas já produzidas na história da teledramaturgia gerou muitas desconfianças, e a rejeição nas redes sociais foi massiva. Isso tornou a missão de criar uma nova versão ainda mais difícil. A proposta era reproduzir o sucesso da obra original, manter sua qualidade, respeitar sua essência e mostrar que as críticas iniciais eram infundadas. No entanto, a produção de Manuela Dias, dirigida por Paulo Silvestrini, encerrou sua exibição nesta sexta-feira (17/10) sem atingir nem um terço das metas esperadas.
No começo, a autora conseguiu enganar o público e a imprensa, criando uma impressão de similaridade com a versão clássica de Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Brassères. Contudo, ao longo dos meses, ficou evidente que o texto era frágil, que os principais arcos dramáticos foram destruídos, que a direção cometeu muitos equívocos e que novos conflitos foram inseridos de forma rasa, empobrecendo ainda mais a narrativa. A essência do enredo se perdeu por completo. A questão central — "Vale a pena ser honesto no Brasil?" — deixou de ter sentido, pois a novela não abordou temas pertinentes, nem gerou discussões relevantes para a sociedade.
A covardia foi a marca principal do remake. A original de 1988 transbordava política e tratava de temas que estimulavam debates. Não se tratava de política partidária, mas da política do cotidiano, das ações que quase todos os brasileiros enfrentam, que oscilam entre a integridade e a corrupção. Assim, em "Vale Tudo", nenhum personagem era perfeito; todos tinham suas falhas, o que gerava conflitos éticos e debates sobre conduta. Essa abordagem honrava o título da obra. No remake, essa coragem foi substituída por uma narrativa apolítica desde o início. As poucas tentativas de inserir temas políticos foram superficiais e até constrangedoras, como a cena em que
Solange Duprat (Alice Wegmann) diz que Odete Roitman (Debora Bloch) é "resistência". Uma jovem de classe média alta, cercada de privilégios e namorando o herdeiro do país, sendo resistência a quê?
Essa cena virou motivo de chacota nas redes sociais.
Outro exemplo de falta de politização foi o início da história, quando
Raquel (Taís Araújo) é vítima de furto por um menor de idade. Na versão de 1988, ela se indignava e dizia que um emprego poderia mudar aquela realidade. Hoje, essa afirmação seria inaceitável, pois o trabalho infantil é crime. O remake, porém, preferiu silenciar o tema, enterrando qualquer discussão relevante. Isso se repetiu em várias situações, como a história de Ivan, que abandona Raquel e se casa com Heleninha (Paolla Oliveira) para crescer na carreira, e depois volta para ela, que vira amante do protagonista.
Tudo de forma rasa, sem espaço para debates. A superficialidade permeou toda a narrativa.
Diversos temas foram abordados de forma superficial ou mal desenvolvidos: assexualidade, tráfico de animais, adoção por casais homoafetivos, mudanças climáticas, vício em jogos, pensão alimentícia, preconceito etário, assédio moral, problemas conjugais, Burnout, adoção de bebês reborn, OnlyFans, racismo, maternidade solo, entre outros. Parecia que a autora lançava ideias pontuais, sem uma construção sólida, resolvendo tudo de forma mágica ou rápida demais, sem aprofundamento ou lógica.
Um dos poucos assuntos tratado com alguma propriedade foi o da
pensão alimentícia, envolvendo Lucimar (Ingrid Gaigher) e Vasco. A cena da ação na Justiça gerou um recorde de acessos ao aplicativo da Defensoria Pública do Rio de Janeiro, mas foi superficial e resolvida de forma rápida. Além disso, o núcleo de Vasco, que tinha vício em jogos, foi abandonado após uma única cena. Ele se recuperou magicamente sem maiores explicações, e sua reconciliação com Lucimar foi forçada, culminando na volta ao casamento. A mudança na trama trouxe situações inverossímeis, como César, que herdou metade da fortuna de Odete Roitman ao se casar com Fátima (Bella Campos), após uma série de manobras sem sentido, como abandonar o emprego e entregar a criança para adoção de forma precipitada.
Essas decisões pareceram forçadas e desconectadas da lógica original, além de desnecessárias, considerando o sucesso que estavam tendo na audiência.
Muitos conflitos foram mal desenvolvidos ou totalmente rasos. Como exemplo, o caso do Burnout de
Renato: a doença foi abordada de forma superficial, com uma cura milagrosa em menos de duas semanas. O mesmo aconteceu com a obsessão de Aldeíde (Karine Teles) por bebês reborn, que foi resolvida na mesma velocidade. A falência e posterior recuperação de Raquel também foi um absurdo, com a personagem indo de rica a pobre e voltando ao sucesso em questão de dias,
sem qualquer lógica, além de uma declaração pública dela criticando o enredo, o que demonstra a fragilidade da construção narrativa.
Outro ponto problemático foi a história envolvendo a
leucemia de Afonso. A doença foi tratada de forma apressada e sem sensibilidade. Em um único dia, o personagem apresentou sintomas, foi diagnosticado e passou por tratamento, cortou o cabelo, buscou doador, ficou careca e voltou ao normal, tudo de forma superficial e sem impacto dramático. As cenas relacionadas à saúde de Afonso pareceram mais uma tentativa de impactar do que uma abordagem realista. Além disso, cenas de atentados, assassinatos e conspirações — como Odete Roitman sendo alvo de tentativas de assassinato por Marco Aurélio e Odete matando Mário Sérgio —
foram mal planejadas, sem lógica ou ritmo adequados, com cenas ridículas e sem coerência.
A direção também foi um grande problema. Paulo Silvestrini, que tem um talento reconhecido por trabalhos anteriores, não conseguiu manter a qualidade nesta produção. Muitas cenas decepcionaram, a trilha sonora foi mal escolhida e o movimento dos atores deixou a desejar. Momentos importantes, como a
ela sobrevive ao tiro de forma inexplicável, acorda em uma van, é operada
rapidamente em circunstâncias absurdas e desaparece sem explicação plausível. Essa cena foi uma afronta ao bom senso, além de um desrespeito ao público que acompanhava a trama com expectativa.
Quanto aos atores, muitos foram subutilizados ou tiveram seus talentos desperdiçados. Apesar de alguns desempenharem bem seus papéis, a maioria não conseguiu salvar personagens mal escritos ou mal explorados. Debora Bloch brilhou como Odete, entregando uma atuação marcante, enquanto Alice Wegmann foi convincente como Solange e Paolla Oliveira como Heleninha. Outros, como Luis Melo e Maeve Jinkings, tiveram participações menores e pouco relevantes, reforçando a sensação de que o elenco foi mais um escudo para tentar dar alguma credibilidade ao que foi feito.
O último capítulo foi um dos piores da história da televisão, com cenas sem sentido, conflitos resolvidos de forma rápida e sem lógica, e um final previsível. A revelação do
assassino foi óbvia, e a cena final, com Odete aparentemente sobrevivendo,
foi um insulto à inteligência do público. Tudo isso foi agravado por cenas mal feitas, atuações forçadas e uma tentativa de fechar a novela de forma apressada e artificial.
No geral, "Vale Tudo" como remake foi uma decepção monumental. A trama saiu de cena com uma média de audiência que, embora acima de sua antecessora, ainda ficou longe de outros sucessos do horário. A repercussão negativa na imprensa e nas redes sociais foi imensa, e o saldo final para a Globo não foi tão ruim quanto poderia parecer, mas também não foi bom. A verdade é que Manuela Dias destruiu uma das produções mais consagradas da história da televisão brasileira, e o tempo certamente mostrará o quão desastrosa foi essa tentativa de reimaginar um clássico. A única certeza é que, de "Vale Tudo", nada sobrou além de uma má lembrança.
Estrelas da Casa (3ª Temporada)
3.4 1A tentativa de revitalizar o "Estrelas da Casa" acabou ficando em segundo plano diante do impacto que Anitta conseguiu causar. Encerrando sua terceira temporada nesta quinta-feira (24/09/26), a produção, criada por Boninho antes de sua saída da Globo, mostrou que ainda busca seu lugar ao sol, mas sem grande sucesso. Em vários momentos, parecia que o formato ainda estava se ajustando, tentando se definir após dois anos de tentativas frustradas.
É importante lembrar que as duas primeiras edições, sob o nome apenas de "Estrela da Casa", não conquistaram o público como esperado. Os vencedores dessas temporadas, apesar de algum destaque inicial, não chegaram a alcançar a relevância desejada — um padrão que se repete com muitos campeões do "The Voice Brasil", hoje na SBT. Na terceira temporada, a mudança de nome para "Estrelas da Casa" trouxe uma esperança de renovação: a intenção era formar um grupo musical de sucesso. E, de fato, essa alteração tornou o programa mais interessante na teoria. Contudo, a convivência entre os participantes foi pouco explorada, assim como a transmissão 24 horas, que nunca se consolidou de fato.
Até as camas, instaladas nos camarins de forma pouco clara, reforçaram a sensação de que o reality ainda buscava sua identidade. A chegada de três novos jurados — Júnior, Belo e, principalmente, Anitta — trouxe uma nova dinâmica. E aqui reside o grande acerto da temporada: a presença da artista carioca.
Anitta entrou na competição sem papas na língua. Sua postura franca e direta contrastou com o que estamos acostumados a ver em outros realities musicais, onde a diplomacia muitas vezes prevalece. Ela não se limitou a elogios vazios ou comentários genéricos; apontou erros, desafinos e momentos constrangedores com uma sinceridade que mexeu com o programa. E, por vezes, esse impacto foi ainda maior por evidenciar as falhas ao vivo, deixando claro que nem tudo era perfeito.
O público, ao assistir, podia perceber as desafinações, as coreografias desajeitadas e as apresentações que deixaram a desejar. Alguns participantes, inclusive, demonstraram incômodo com as críticas duras de Anitta. Foi nesse contexto que ela protagonizou um dos momentos mais marcantes do final, ao alertar os concorrentes de que as críticas feitas na TV poderiam ser apenas a ponta do iceberg — e que, se desejassem seguir na carreira artística, precisariam estar preparados para as redes sociais e suas opiniões contundentes.
Por tudo isso, Anitta se tornou o grande destaque da terceira temporada. Sua presença gerou uma repercussão que o programa, por si só, não conseguiu alcançar. Quando ela falava, o episódio ganhava visibilidade; quando ela não estava, o programa quase desaparecia das conversas, ficando à sombra de sua figura.
Embora Ana Clara continue uma excelente apresentadora, experiente na condução do formato, foi Anitta quem roubou a cena neste ciclo. Os espectadores ficaram mais atentos às polêmicas, às falas cortadas e às declarações que viralizaram nas redes sociais, do que propriamente às performances ou ao desenvolvimento dos participantes.
Curiosamente, essa atenção toda acabou sendo uma vitória indireta para o programa. Afinal, gerar qualquer tipo de comentário — mesmo que focado nas controvérsias de Anitta — é um avanço em relação ao silêncio ou à falta de repercussão que o programa vinha sofrendo. Assim, pode-se dizer que a temporada foi marcada por sua maior estrela: a própria Anitta.
Ela foi, disparadamente, o maior acerto da formação do novo "Estrelas da Casa", sobretudo porque, ao contrário do que acontecia com a competição em si, ela conseguiu captar a atenção. Sua participação transformou o que poderia ser mais uma temporada esquecível em algo que, pelo menos, deixou sua marca na memória do público.
A produção tentou fazer ajustes, e em alguns aspectos conseguiu. A ideia de criar um grupo musical trouxe uma finalidade mais clara à disputa, enquanto a entrada de novos jurados dinamizou o programa. No entanto, o saldo geral permanece abaixo do esperado, refletindo as dificuldades enfrentadas nas temporadas anteriores.
A grande diferença nesta edição foi, sem dúvida, a presença de Anitta. Ela conseguiu algo que poucos conseguiram: fazer o programa ser visto, falado e comentado, mesmo que por motivos muitas vezes controversos. No fim das contas, "Estrelas da Casa" teve sua maior estrela fora do palco, na bancada. E essa estrela foi exatamente quem fez toda a diferença.
Tributo - Laura Cardoso
4.4 3Algumas pessoas passam pela história. Outras deixam marcas tão profundas que, depois de partirem, continuam presentes no cotidiano de quem ficou.
Laura Cardoso pertence a essa segunda categoria.
Sua morte, aos 98 anos, encerra uma das carreiras mais extensas e respeitadas da cultura brasileira, mas não encerra a presença de uma artista que acompanhou o país durante quase oito décadas. Laura não apenas participou da evolução da dramaturgia nacional. Ela viveu suas diferentes fases, ajudou a construí-las e acabou se tornando parte delas.
Talvez por isso seja tão difícil falar de sua despedida usando apenas a palavra “atriz”.
Laura foi também memória.
Memória de uma televisão que ainda estava começando. Memória do rádio como grande veículo de entretenimento. Memória dos grandes teleteatros, das novelas que paravam o país, dos personagens que entravam nas casas brasileiras todos os dias.
Quando Laura começou, a televisão ainda nem existia no Brasil.
Aos 15 anos, a jovem Laurinda de Jesus Cardoso já havia decidido que queria viver da interpretação. Nascida no Bixiga, em São Paulo, filha de imigrantes portugueses de origem humilde, encontrou no radioteatro o primeiro caminho para realizar esse sonho.
Foi ali que começou uma jornada que parecia não ter fim.
No rádio, conheceu Fernando Balleroni, que seria seu marido e companheiro de vida. Depois, acompanhou a chegada da televisão e se tornou uma das pioneiras de um meio que mudaria para sempre a maneira como os brasileiros consumiam histórias.
Década após década, Laura continuou trabalhando.
Enquanto estilos mudavam, emissoras surgiam e desapareciam, novas gerações de artistas ocupavam o espaço da dramaturgia e a tecnologia transformava a televisão, ela permanecia.
Mais de cem trabalhos.
Mais de sessenta novelas.
Cinema, teatro, séries, teleteatro, dublagem.
Uma carreira tão extensa que seria impossível reduzi-la a uma única personagem.
E talvez essa seja justamente a característica mais fascinante de Laura Cardoso: ela nunca ficou presa a uma imagem.
Podia ser doce ou cruel. Poderosa ou vulnerável. Engraçada ou trágica. Sofrida ou extravagante.
Em *Mulheres de Areia*, foi Isaura. Em *A Viagem*, Dona Guiomar. Em *Irmãos Coragem*, Sinhana. Em *Chocolate com Pimenta*, Vó Carmem. Em *Caminho das Índias*, Lakshmi. Em *Rainha da Sucata*, Iolanda.
E havia ainda tantas outras.
Personagens que, em mãos menos experientes, poderiam simplesmente cumprir sua função dentro de uma história. Com Laura, ganhavam personalidade própria.
Era comum acontecer algo curioso quando ela aparecia.
A cena mudava.
Não necessariamente porque o roteiro exigisse, mas porque Laura tinha presença. Um olhar, uma pausa, uma maneira particular de pronunciar uma frase eram suficientes para transformar uma participação em um momento memorável.
Foi assim também em *Gabriela*, em 2012.
Dona Doroteia poderia ter sido apenas mais uma personagem dentro de uma novela repleta de figuras fortes. Laura, entretanto, encontrou nela uma combinação irresistível de severidade, amargura, preconceito e comicidade.
O público abraçou a personagem.
O famoso “Jesus, Maria, José” virou bordão, e Laura mostrou que experiência não significava acomodação. Aos 90 e poucos anos de idade, ainda era capaz de criar uma personagem que provocava conversa, risos e comentários por todo o país.
Depois veio Caetana, em *O Outro Lado do Paraíso*.
Criada para uma participação inicialmente menor, a personagem cresceu com a resposta do público e acabou permanecendo na trama. Laura transformou a cafetina em uma das figuras mais marcantes da novela.
Em *A Dona do Pedaço*, em 2019, fez sua última novela.
Mas não foi o fim.
Laura ainda apareceria na televisão, participaria de homenagens e continuaria sendo lembrada por uma emissora e por um público que acompanhavam sua história há gerações.
Em 2024, esteve no especial *Tributo*, da Globo. Em 2025, apareceu na vinheta de fim de ano da emissora e participou da inauguração de sua Calçada da Fama nos Estúdios Globo.
Aos 98 anos, Laura ainda era notícia.
Isso diz muito.
Porque longevidade, por si só, não explica uma carreira como a dela. O que explica é a capacidade de permanecer relevante sem deixar de ser autêntica.
Laura não precisava disputar espaço com ninguém.
Seu lugar já estava garantido.
E não apenas pelos prêmios.
Vieram três Prêmios Grande Otelo, cinco APCA, dois Prêmios Shell, dois Troféus Imprensa e a Ordem do Mérito Cultural, recebida em 2006.
Vieram também o cinema e o teatro.
Ela esteve em filmes como *Terra Estrangeira* e participou de montagens teatrais que mostraram que sua arte nunca pertenceu exclusivamente à televisão. No palco, encarou clássicos e textos de diferentes estilos. Na dublagem, sua voz também encontrou um espaço especial na memória popular, inclusive como Betty, de *Os Flintstones*, nos anos 1960.
Era uma artista completa.
Mas existe algo ainda maior do que uma lista de trabalhos.
Existe a afeição.
Laura Cardoso despertava uma espécie de carinho que ultrapassava a admiração profissional. Talvez porque seu rosto estivesse associado a personagens vistos durante décadas. Talvez porque transmitisse uma impressão de familiaridade. Talvez porque tivesse a capacidade rara de parecer, ao mesmo tempo, uma grande estrela e alguém que poderia estar sentada ao nosso lado conversando.
É difícil encontrar muitos artistas com esse tipo de vínculo.
Laura se tornou familiar para o Brasil.
E quando alguém familiar parte, a sensação é diferente.
Não parece apenas que uma celebridade morreu.
Parece que uma parte de uma época desapareceu.
Com Laura, vai embora uma testemunha privilegiada da própria transformação da cultura brasileira. Ela viu o rádio perder espaço para a televisão, viu a dramaturgia se reinventar, acompanhou mudanças sociais e artísticas e trabalhou ao lado de diferentes gerações de profissionais.
Sua carreira é quase uma linha do tempo do entretenimento nacional.
Mas sua maior obra talvez esteja justamente naquilo que não pode ser arquivado.
Nas lembranças.
Na cena que alguém nunca esqueceu.
Na novela que uma família assistia reunida.
Na personagem que virou assunto no dia seguinte.
Na voz reconhecida imediatamente.
Naquela sensação de encontrar Laura na televisão e pensar: “Ela está aqui.”
Agora ela não estará mais fisicamente.
Mas continuará aparecendo.
Toda vez que uma produção antiga for reprisada. Toda vez que alguém descobrir uma personagem que não conhecia. Toda vez que um ator jovem estudar os grandes nomes da dramaturgia brasileira. Toda vez que alguém falar sobre profissionalismo, longevidade e paixão pelo ofício.
Laura estará presente.
Porque algumas carreiras terminam.
Algumas obras permanecem.
E existem artistas que conseguem se transformar na própria memória de um país.
Laura Cardoso conseguiu.
A garota que começou no rádio aos 15 anos terminou a vida como uma das maiores referências da interpretação brasileira.
Não precisou de um único papel para ser lembrada.
Precisou de uma vida inteira.
Uma vida dedicada à arte, aos personagens e ao público.
Por quase 80 anos, Laura Cardoso entrou em nossas histórias.
Agora, entra definitivamente na história do Brasil.
E talvez a melhor despedida seja justamente aquela que resume tudo o que ela foi:
uma atriz que nunca deixou de acreditar no poder de interpretar.
Uma artista que nunca pareceu cansada de criar.
E uma mulher cujo trabalho fez milhões de brasileiros sentirem que, de alguma maneira, ela também fazia parte de suas próprias vidas.
Laura se foi.
A atriz, não.
A atriz continuará em cena enquanto houver memória.
E memória, quando é verdadeira, não morre.
OBS: Em entrevista à revista Quem, em 2019, a atriz falou sobre a finitude. “É uma besteira ter medo da morte! Ela é imprevisível, mas inevitável. A gente não sabe quando ela vem, mas que ela é certa para todo mundo, ela é. Só não diz a hora que vem”, afirmou.
E declarou: “Amo a vida, agradeço a Deus por ter chegado a essa idade, mas a gente um dia vai embora”.
Dona Beija
4.0 15DONA BEJA - A História Real que a Novela Escondeu de Você
Dona Beja foi sequestrada aos quinze anos por um homem do rei. O avô dela morreu tentando impedir. E essa nem é a parte que a novela escondeu.
A Ana Jacinta de São José que existiu de verdade — bem diferente da feiticeira de Araxá que virou romance e novela — foi uma das mulheres mais incomuns do Brasil Império. Uma figura que, segundo as evidências documentais, pode ter influenciado até o redesenho do mapa de Minas Gerais no início do século dezenove. Os arquivos contam uma história mais difícil — e infinitamente mais impressionante — do que a versão que o Brasil aprendeu na televisão.
Uma história de Minas Gerais que atravessa o Brasil joanino, o Primeiro Reinado e quase todo o Segundo Reinado.
Você cresceu vendo Dona Beja na novela A Feiticeira de Araxá. A cortesã que enfeitiçava homens com poções, banhos sagrados e olhares. Esquece tudo isso. Porque a Ana Jacinta de São José que existiu de verdade, no Brasil de 1800, é uma história muito mais incômoda. E muito mais impressionante. Uma menina sequestrada aos quinze anos por um homem do rei. Um avô morto a tiros tentando impedir. E uma mulher que, sozinha, num arraial de Minas Gerais, conseguiu uma coisa que praticamente nenhuma outra brasileira do século dezenove conseguiu: dinheiro próprio, casa própria, terras próprias, e o direito de cuspir na cara de uma sociedade que tentou destruí-la. E pra entender como isso aconteceu, a gente precisa começar bem longe da novela. A gente precisa começar num lugarzinho chamado Formiga, no sertão de Minas, no primeiro dia útil do ano de 1800.
Imagina o Brasil de 1800. A capital ainda é Salvador. O rei português ainda mora em Lisboa — vai mudar pro Rio só em oito anos. E o que hoje a gente chama de Triângulo Mineiro nem é mineiro: é Goiás. Mato fechado, com pequenos arraiais perdidos, igreja de taipa, lama nas ruas e tudo girando em torno de uma coisa: gado, e o que sobrou do ciclo do ouro. Guarda essa informação. O Triângulo, em 1800, ainda é Goiás. Ela vai voltar pra essa história. É nesse Brasil que nasce, no dia dois de janeiro de 1800, em Formiga, uma menina chamada Anna Jacintha de São José. Filha de Maria Bernarda dos Santos. Do pai, ninguém sabe. Nem nos registros aparece. Cinco anos depois, a família muda para o arraial de São Domingos do Araxá — que hoje é Araxá. Ela cresce ali, junto com a mãe e o avô. E aqui já tem uma coisa que a novela faz parecer detalhe e que na verdade é a chave da história: ela é loira. Cabelo claro, olhos claros, pele clara. Numa região onde a maioria da população é parda, mestiça, africana ou indígena, uma menina assim chama atenção. Muita atenção. Inclusive a atenção errada.
E o apelido pelo qual o Brasil inteiro conhece ela hoje, "Beja", vem de antes disso tudo. Vem da infância, em Araxá. Foi o avô dela, segundo a tradição registrada por Pedro Popó, que começou a chamar a menina de Beja — comparando ela à doçura e à beleza da flor que no sertão mineiro chamavam de "beijo", o hibisco silvestre. A Fundação Calmon Barreto, que cuida da memória dela em Araxá, registra outras possibilidades: Beja é também o nome de uma cidade em Portugal, e há quem associe o apelido ao beija-flor. Mas a versão que mais sobreviveu, transmitida pelas descendentes diretas, é a do avô. A flor de beijo. A neta linda do sertão. Guarda esse detalhe, porque ele vai pesar daqui a pouco.
E aqui é onde a história vira de vez. Em 1815 — algumas fontes dizem 1814 — ela tem quinze anos, ou está prestes a fazer. E aí entra na história dela um homem chamado Joaquim Inácio Silveira da Motta. Português. Ouvidor do rei Dom João VI — ou seja, o representante direto da Coroa pra resolver questões judiciais e fiscais na comarca de Paracatu. Um cara poderoso. Não era nobre, mas falava em nome do rei. E quando esse tipo de homem queria alguma coisa naquele Brasil, ele simplesmente pegava. E o que ele quis foi a menina.
Os relatos da época, recolhidos depois pelo pesquisador Pedro Divino Rosa em entrevistas com descendentes e em documentos preservados no Museu de Araxá, contam o que aconteceu. Os homens do ouvidor — os dragões, a tropa que andava com ele — chegaram pra levar Ana Jacinta. O avô dela tentou impedir. Foi morto ali, na frente da neta. Quinze anos. Sem pai. Avô assassinado. E ela foi levada à força para uma cidade que ela nunca tinha visto, a quase quatrocentos quilômetros de distância: Vila do Paracatu do Príncipe. Hoje, só Paracatu. E é aqui que a história começa a ficar diferente da novela. Porque o que aconteceu nesses dois anos em Paracatu não foi uma novela. Foi cativeiro. Ela vivia numa casa do ouvidor. Era apresentada como "a moça do ouvidor". Não era esposa, não era livre. Era, na linguagem da época, concubina forçada. E ela tinha quinze, dezesseis, dezessete anos. Mas — e aqui começa o que faz dela uma figura única — ela aprendeu. Ela tava na casa de um homem do rei. Recebia visitas de gente importante. Ouvia conversas sobre política, dinheiro, a Coroa, as articulações do Brasil colônia que estava prestes a virar reino unido. Tudo isso entrava nos ouvidos dela todo dia, durante dois anos. Ana Jacinta era analfabeta — e morreria analfabeta. Mas saiu de Paracatu sabendo como o poder funcionava no Brasil de Dom João VI. E isso, daqui a pouco, vai fazer toda a diferença.
E enquanto ela aprendia, alguém em Araxá não tava parada: a mãe dela, Maria Bernarda. Os relatos dizem que Maria Bernarda procurou os inimigos políticos do ouvidor — porque um homem com aquele poder sempre tem inimigos — e entregou a história. O sequestro, o assassinato do avô, os abusos. E essa denúncia foi subindo. Foi parar no Rio. Em 1817, Dom João VI chamou o ouvidor de volta. Por decreto, pra prestar contas. As fontes dizem, em poucas palavras, o que aconteceu: ele teve que ir embora. Não pôde levar Ana Jacinta com ele. Mas antes de partir, deixou pra ela uma coisa: dinheiro, joias, bens. Não era arrependimento. Era pra livrar-se do problema. A consequência, ele não previu. Aos dezessete, dezoito anos, Ana Jacinta voltou pra Araxá com mais dinheiro do que muitos homens do arraial inteiro.
E antes de continuar a história dela, a gente precisa parar um minuto. Porque tem uma coisa que aconteceu nesse mesmo período, e que praticamente nenhum livro de história menciona, mas que muda completamente o tamanho dessa figura. No dia quatro de abril de 1816, Dom João VI assinou um alvará que tirou uma região enorme da Província de Goiás, chamada Sertão da Farinha Podre, e anexou ela à Província de Minas Gerais. Essa região é o que a gente chama hoje de Triângulo Mineiro. Sessenta e seis cidades. Cinco milhões de brasileiros vivendo ali agora. Uberlândia, Uberaba, Araxá, Patos de Minas, Araguari. Tudo isso podia ser goiano.
Por que mudou? A versão oficial diz: por causa de fazendeiros e comerciantes de Araxá que alegaram que Ouro Preto, capital de Minas, ficava mais perto do que Goiânia. Verdade. Mas há uma camada que o pesquisador Pedro Popó passou anos tentando reconstruir nos arquivos. E ele chegou à conclusão: essa decisão também passou pelo ouvidor Joaquim Inácio Silveira da Motta. Ele tinha jurisdição sobre exatamente essa terra. E quem tinha influência sobre ele? Uma adolescente chamada Ana Jacinta de São José, que ele mantinha em cativeiro em Paracatu.
Não dá pra cravar com certeza, pois os documentos não dizem isso com todas as letras. Mas o conjunto de evidências aponta: políticos mineiros sabiam da influência dela sobre o ouvidor, e usaram essa influência. Pedro Popó, depois de anos resistindo, acabou aceitando essa hipótese. Em 1816, uma menina sequestrada de dezesseis anos pode ter sido uma das peças no tabuleiro que redesenhou o mapa de Minas Gerais. Guarda essa informação enquanto a gente continua.
Porque quando ela voltou pra Araxá em 1817, ainda jovem, com dinheiro próprio, veio o segundo pesadelo de sua vida. A mesma sociedade que assistiu calada ao sequestro decidiu, na volta, que o problema era ela. Não o ouvidor que matou o avô dela, nem o homem que a manteve presa por dois anos. Ela. As famílias respeitáveis fecharam as portas. As mulheres atravessaram a rua. Ela, que foi vítima, virou a vergonha.
Imagina só. Dezessete anos, o trauma do sequestro, o luto do avô, dois anos arrancada de tudo, e quando ela volta pra casa, todo mundo trata ela como se ela tivesse feito algo errado. Como se a culpa fosse dela. A maioria das mulheres na situação dela desapareceria: casada com qualquer um, virada costureira, indo pra um convento. Mas Ana Jacinta fez outra coisa. Por volta de 1830, quando ela já tinha trinta anos, ela usou o dinheiro acumulado pra construir, ali em Araxá, um sobrado. Não um sobrado qualquer. O maior, mais imponente da Praça da Matriz — bem ao lado da igreja, da Câmara, das casas das famílias mais ricas. Ela colocou a casa exatamente no centro daquela sociedade que tentava empurrá-la pra margem. E construiu também, fora do arraial, um sítio: a Chácara do Jatobá.
Aqui precisamos fazer uma pausa. Porque a versão que virou novela conta que a Chácara do Jatobá era um bordel onde Dona Beja fazia poções, recebia homens em rituais, banhava-se em águas milagrosas e, à noite, dançava sob o luar. Isso vem direto dos romances de Agripa Vasconcelos, "A Vida em Flor de Dona Beja", e de Thomas Leonardos, "A Feiticeira do Araxá" — dois livros publicados quase um século depois da morte dela, que misturam pesquisa com muita imaginação. A Chácara do Jatobá existiu, os documentos confirmam. E ela provavelmente foi, sim, um lugar onde havia prostituição. Mas o que os pesquisadores descobriram é mais interessante do que a novela. A Chácara funcionava como um centro de sociabilidade masculina. Homens importantes da região iam lá pra conversar, fazer negócios, articular política, beber, jantar. Dona Beja não era uma feiticeira. Ela era a anfitriã. E, mais do que isso: ela controlava quem entrava, quem saía, e que informação circulava.
Nos documentos da época, ela aparece como cabeça da operação. Não como esposa de alguém, não como filha de alguém. Como Ana Jacinta de São José, proprietária. Comprava, vendia, contratava, processava. Em todos os papéis registrados em Araxá, é o nome dela que assina — ou que manda assinar, pois ela mesma era analfabeta. Ela teve duas filhas. A primeira, Thereza Thomázia de Jesus, batizada em 1819. Por décadas, os romances disseram que o pai foi um tal de Antônio Sampaio, um amor de infância. Mas o registro de batismo encontrado nos arquivos paroquiais revela uma história diferente: a paternidade da menina foi reconhecida pelo padre Francisco José da Silva. Aqui vale uma nota importante: pode soar escandaloso ao ouvido contemporâneo, mas pais no sertão mineiro do início do século XIX eram, com frequência, fazendeiros, políticos locais, donos de escravos e pais de filhos reconhecidos. Era a regra, não a exceção. A reforma que viria a tornar o celibato uma prática rígida no Brasil só viria décadas depois. O padre Francisco José da Silva era um homem influente em Araxá, e o reconhecimento da filha em registro paroquial era comum naquele mundo.
A segunda filha, Joana de Deus, nasceu em 1838. Aqui, de novo, a documentação é mais reveladora do que o romance. O registro de batismo de Joana mostra como padrinho o coronel João Carneiro de Mendonça, da poderosa família Mendonça — uma das mais influentes de Minas Gerais imperial. A tradição local, que Pedro Popó também aceita, identifica o coronel como o pai biológico. Essa família tinha conexões diretas com Antônio Paulino Limpo de Abreu, deputado geral, ministro interino da Justiça do Império, que também foi ouvidor de Paracatu. Em outras palavras: a segunda filha de Dona Beja a vinculou a uma das redes políticas mais importantes do país.
Essa, talvez, seja a maior diferença entre a Dona Beja real e a Dona Beja da televisão. A da novela é movida pela paixão e pela vingança. A Ana Jacinta dos arquivos é uma mulher movida pela sobrevivência e pelo cálculo. Em 1842, estoura em Minas Gerais a Revolta Liberal — uma guerra civil contra as reformas centralizadoras do governo do Império, que reuniu o Partido Liberal mineiro sob a liderança de figuras como Teófilo Otoni. A região do Triângulo, incluindo Araxá, aderiu à revolta. A revolta foi sufocada pelo então general Caxias na batalha de Santa Luzia, mas durou meses e mobilizou recursos enormes. Pedro Popó identificou nos arquivos que Ana Jacinta colaborou financeiramente com os rebeldes liberais. Uma mulher solteira, filha de mãe solteira, financiando um levante político armado contra o governo central. Não é o tipo de coisa que entrou na novela porque não cabe na narrativa de feiticeira. Mas é o tipo de coisa que mostra quem ela era de verdade: uma figura política. Por anos, a Chácara dela foi um dos centros informais de poder do Triângulo. Por volta de 1850, com cinquenta anos, ela faz mais uma virada. Araxá estava em estagnação econômica. E a notícia que circulava no sertão era a descoberta de diamantes em Bagagem — cidade que hoje se chama Estrela do Sul.
O nome não foi à toa: em 1853, nesses garimpos, foi encontrado um diamante de mais de duzentos e cinquenta quilates, batizado de Estrela do Sul, um dos maiores diamantes brasileiros já encontrados. Ana Jacinta vende parte do que tinha em Araxá, fecha a Chácara, e parte numa viagem de cento e cinquenta quilômetros de mula até uma cidade de garimpo, mais bruta do que Araxá, atrás de uma nova chance de fazer dinheiro. Aos cinquenta anos, ela investe em terras, se associa a um garimpo de diamantes chamado Califórnia — que desviou o leito do rio Bagagem em busca das pedras — e entra numa briga jurídica que merece ser contada com calma. A neta mais velha de Beja, Theodora Jacinta Fortunata, em 1855, com vinte e poucos anos, casou-se com o próprio tio — o coronel Fortunato José da Silva Botelho, irmão do pai dela. Casamento entre tio e sobrinha, prática comum na época entre famílias que queriam concentrar patrimônio. Um ano depois, em 1856, Theodora morreu durante o parto. O bebê também não sobreviveu. E aí veio a questão da herança. Como Theodora não deixou descendentes diretos e os pais dela já tinham morrido, Dona Beja, a avó materna, processou o viúvo Fortunato — que era coronel e líder político de Araxá. Uma mulher idosa, analfabeta, em Bagagem, processando o homem mais poderoso de Araxá. E ela ganhou. A herança veio pra ela. A relação com a família Botelho ficou destruída pelo resto da vida.
Aqui, uma das curiosidades mais bonitas dos arquivos: em Bagagem, ela financiou, com dinheiro próprio, a construção de uma ponte sobre o rio Bagagem. E fez isso pra poder acompanhar, da janela de sua casa, a procissão de Nossa Senhora Mãe dos Homens, padroeira da cidade, sem precisar atravessar o rio. Em 1873, no ano em que morreu, ela ainda enviou um pedido formal à Câmara Municipal pedindo reembolso do dinheiro que tinha investido na obra. Idosa, doente, religiosa e ainda judicialmente combativa até o fim. Em 1864, vende o sobrado de Araxá, vende também uma escrava chamada Paulina — e a gente fala isso sem rodeios, pois os documentos mostram. Dona Beja foi vítima do sistema escravista que sequestrava meninas para homens poderosos, e também foi uma mulher que possuía pessoas escravizadas. Não dá pra contar essa história sem essa parte.
Em 1869, com sessenta e nove anos, ela faz o testamento. E quem lê esse documento descobre uma terceira Dona Beja. Não a feiticeira da novela, nem a mulher de negócios dos arquivos: uma mulher religiosa, católica, que deixa quase tudo pra obras de igreja. O testamento, segundo os pesquisadores, é o documento mais íntimo que sobrou dela, e mostra alguém preocupada em terminar a vida em paz com Deus. Ela morreu em vinte de dezembro de 1873, em Bagagem, de nefrite — um problema renal. Tinha setenta e três anos. Foi enterrada num caixão revestido de zinco, o que era luxo pra época. Em 2011, durante uma escavação no antigo cemitério de Estrela do Sul, encontraram um caixão de zinco que pode ser o dela.
Pra dar dimensão de quando ela morre: 1873 é dois anos depois da Lei do Ventre Livre, e quinze anos antes da Abolição. Ela morre num Brasil que ainda escravizava gente, mas onde o Império já sentia que o sistema ia desabar. Ela viu o Brasil colônia, o Brasil reino unido, o Primeiro Reinado, o Segundo Reinado, e morreu antes da República. E aí vem a parte mais interessante de toda a história, porque ela não termina em 1873. Termina em 1920.
Em 1920, quando o Barreiro de Araxá começou a ser explorado como estância hidromineral, um cidadão chamado Sebastião de Affonseca e Silva decidiu transformar a memória de Ana Jacinta numa atração turística. Pegou tudo que sabia, tudo que tinha de boato, tudo que era oralidade, e começou a divulgar uma versão ampliada da história — a Beja da fonte radioativa, a Beja sedutora, a feiticeira. O personagem do amante Antônio Sampaio, segundo Pedro Popó, foi criação dele. Existiu um Manoel Fernandes de Sampaio, histórico, sim, que morreu assassinado em Araxá em 1836, mas não há prova documental de que tenha sido amante de Beja, nem pai da filha dela, nem que ela tenha mandado matá-lo. Tudo isso é literatura.
Décadas depois, em 1957, Agripa Vasconcelos publicou "A Vida em Flor de Dona Beja". Em 1971, Thomas Leonardos lançou "A Feiticeira do Araxá". Em 1965, o jornalista Assis Chateaubriand transformou o sobrado da Praça da Matriz no Museu Dona Beja — o primeiro de uma série de museus regionais que ele criou pelo Brasil. E em 1986, a Rede Manchete pegou esses livros e criou a novela com Maitê Proença, que cristalizou de vez a Dona Beja que o Brasil inteiro conhece. A novela de 2026, com Grazi Massafera, segue a mesma linha.
E é por isso que, pra entender Ana Jacinta de São José, a gente precisa fazer um exercício difícil: tirar de cima dela mais de um século de romance, samba-enredo, novela, turismo e mito. E olhar pros documentos. Quando fazemos isso, o que vemos não é uma feiticeira. É uma menina sequestrada que se recusou a ser apagada. Uma mulher analfabeta que comprou o sobrado mais visível da praça mais importante de Araxá e colocou o nome dela em todos os papéis. Uma mãe que reconheceu as duas filhas e garantiu que elas tivessem casamento, herança, filhos, posição social. Uma figura que, segundo as evidências, pode ter influenciado o redesenho do mapa de Minas Gerais. Uma anfitriã política que financiou rebelião liberal. Uma dona religiosa que construiu uma ponte só pra ver a procissão da padroeira. A historiografia republicana, que trata o Brasil pré-1889 como um bloco escuro do qual só vale lembrar o que deu errado, deixou Ana Jacinta nas mãos dos romancistas. E eles, claro, fizeram o que romancistas fazem: simplificaram. Transformaram uma mulher complexa numa arquétipo simples. Cortiã. Feiticeira. Lenda. A Dona Beja real é mais difícil de digerir. Ela não cabe no papel de vítima total, porque também foi escravista. Ela viveu o tempo dela. Não cabe no papel de feiticeira, porque os documentos mostram uma mulher de cabeça fria, de cálculo, de fé religiosa no fim. Ela é, simplesmente, uma das mulheres mais incomuns do Brasil imperial. E quase ninguém conhece a versão dela que está nos arquivos. A próxima vez que você passar por Araxá e ver o Museu Dona Beja, ou ouvir uma referência a ela na televisão, lembre: a mulher que ganhou aquele apelido não era uma feiticeira. Era uma menina de quinze anos que viu o avô morrer tentando salvá-la, e que passou os cinquenta e oito anos seguintes construindo, tijolo por tijolo, um mundo onde ela mesma decidisse o que ia acontecer com ela.
A novela conta uma fantasia. Os arquivos contam uma história mais difícil — e infinitamente mais impressionante.
Comenta aqui: você conhecia essa versão da Dona Beja, ou só conhecia a da novela?
Quem Ama Cuida
3.4 2 Assista Agora"Quem Ama Cuida": Uma Nova Perspectiva Sobre o Amor, Sacrifício e Resiliência na Novela das Nove
Quando a vida parece desabar, há sempre uma centelha de esperança capaz de iluminar novos caminhos. Essa mensagem de renovação e força é o coração de "Quem Ama Cuida", a mais recente produção do horário nobre da TV aberta. Situada em um cenário urbano de São Paulo abalada por uma devastadora enchente, a narrativa acompanha a trajetória de Adriana (Leticia Colin), uma mulher que, após perdas irreparáveis, encontra coragem para recomeçar, guiada por um instinto de justiça e amor incondicional.
A trama se desenrola em meio a uma cidade que, embora marcada pela destruição, também revela sua beleza e complexidade. Com uma abordagem contemporânea, a novela combina elementos do melodrama clássico com uma estética moderna e visualmente impactante, explorando emoções profundas, reviravoltas surpreendentes e personagens complexos que refletem as contradições do mundo urbano.
Escrita por Walcyr Carrasco e Claudia Souto, sob a direção de Amora Mautner, a história entrelaça conflitos familiares, amizades, paixões impossíveis, mistérios e vinganças. O encontro entre Adriana e Arthur é o ponto de partida para uma narrativa que explora os limites do amor e do dever, especialmente quando um casamento se torna palco de um crime que muda vidas para sempre.
A narrativa inicia com uma catástrofe natural que arrasta tudo ao seu redor: a enchente que destrói a rotina de Adriana e de sua família. Enquanto ela tenta retornar para casa após uma demissão, a força da água invade a periferia da cidade, levando embora tudo que eles construíram. Nesse momento de caos, Adriana presencia a perda do marido, Carlos, vítima da tragédia, e se vê diante de um mundo de dor, solidariedade e incerteza.
A partir daí, sua jornada de superação a leva a um abrigo improvisado, onde conhece novas pessoas, incluindo Pedro, um advogado idealista que desafia as convenções e busca justiça para aqueles que não podem pagar por ela. A relação deles se desenvolve em meio a conflitos familiares, diferenças de visão de mundo e a esperança de um futuro melhor, mesmo diante das adversidades.
Por outro lado, encontramos Arthur Brandão, um empresário poderoso e misterioso, cuja fortuna e status escondem conflitos internos e uma luta pela preservação de seu legado. Viúvo e marcado pela perda de seu filho, Heitor, Arthur vive sob a sombra de uma disputa familiar que envolve heranças, interesses e antigas mágoas. Seus irmãos, Pilar e Ulisses, representam a face mais ambiciosa e rival de uma família fragmentada, enquanto seus sobrinhos, cada um com suas próprias ambições, refletem as nuances de uma geração que busca seu espaço.
A relação de Arthur com sua família é de ressentimento e manipulação, e sua tentativa de manter a integridade de seu patrimônio é constantemente ameaçada por interesses externos e internos. Quando Pilar, insatisfeita com sua posição, solicita a interdição do tio, o conflito se intensifica, revelando as feridas não cicatrizadas de uma linhagem marcada por abandono emocional e disputas pelo poder.
Nesse cenário de tensões, surge a figura de Adriana, uma mulher simples, mas de uma força interior incomum. Seu encontro com Arthur ocorre de forma inesperada, após ela ajudá-lo em uma situação de perigo. Essa conexão se transforma em uma proposta surpreendente: Arthur, sem convicção de amor, oferece-se para um casamento de conveniência, visando proteger seu legado e garantir o futuro de Adriana e de sua própria estabilidade emocional.
O casamento, marcado por uma atmosfera de tensão e dúvidas, desencadeia uma série de eventos trágicos. No dia da celebração, uma tragédia inesperada leva à morte de Arthur, colocando Adriana como principal suspeita. Acusada injustamente, ela enfrenta anos de prisão, humilhações e um sistema que parece estar contra ela, e também encontra na amizade de Nancy uma fonte de força para lutar por sua liberdade e por justiça.
Seis anos depois, já em liberdade condicional, Adriana emerge com um novo propósito: descobrir a verdade por trás da morte de Arthur e vingar-se daqueles que a traíram. Sua jornada de resistência e esperança a conduz por caminhos perigosos, onde o amor, a vingança e a redenção se entrelaçam em uma narrativa carregada de emoções.
Visualmente, "Quem Ama Cuida" apresenta uma estética que dialoga entre o contemporâneo e o nostálgico. A cidade de São Paulo ganha vida através de cenários cuidadosamente elaborados, mesclando elementos modernos com referências aos anos 90, refletindo a complexidade e a diversidade da metrópole. A cenografia, assinada por Cris Bisaglia, revela uma cidade vibrante, com ambientes que transitam entre o luxo da casa de Arthur, a simplicidade da residência de Pilar e os espaços mais modestos do abrigo.
A produção técnica da novela foi um dos maiores desafios do horário: a cena da enchente de abertura, que exigiu tecnologia de ponta, efeitos especiais (FX), efeitos visuais digitais (VFX) e uma integração inovadora com painéis de LED de alta resolução. Essa operação inédita no Brasil proporcionou uma experiência visual realista, imersiva e visceral, capturando a força da natureza e o impacto emocional da tragédia.
O figurino e a caracterização reforçam as diferenças sociais e emocionais. Adriana, por exemplo, veste roupas funcionais, como jeans e botas, com cores que variam do vermelho ao vinho, simbolizando sua força e determinação. Pilar, por sua vez, expressa seu carácter exuberante e vaidoso com estampas animais, volumes e detalhes que remetem ao estilo mais kitsch e dramático, reforçando sua postura de antagonista.
A trilha sonora reforça o clima urbano e multicultural de São Paulo, mesclando sucessos internacionais de artistas como Bad Bunny, Sabrina Carpenter e Julio Iglesias, com ritmos brasileiros de piseiro, pagode e MPB. Essa diversidade musical cria uma atmosfera pulsante, conectando o público às emoções e aos conflitos dos personagens, sobretudo em momentos de grande impacto, como a enchente ou as reviravoltas dramáticas.
Por fim, "Quem Ama Cuida" revela uma narrativa que transcende o melodrama tradicional ao explorar temas universais de amor, sacrifício, justiça e esperança. Com uma estrutura visual inovadora, personagens multifacetados e uma trilha sonora que celebra a diversidade cultural, a novela convida o público a refletir sobre o verdadeiro significado de cuidar e amar, mesmo diante das adversidades mais extremas.
Rainha da Sucata
3.8 58 Assista Agora“Rainha da Sucata”: um retrato vibrante de uma época que virou história
Quando estreou em 1990, Rainha da Sucata marcou a chegada de Silvio de Abreu ao horário nobre da Globo — uma missão nada simples, já que vinha na sequência do enorme sucesso de Tieta. Para complicar, a novela enfrentou um início irregular e ainda dividiu atenções com o fenômeno Pantanal, de Benedito Ruy Barbosa, que dominava a conversa do público — mesmo sem concorrer diretamente.
A proposta inicial, carregada de humor ácido, não conquistou de imediato. Aos poucos, ajustes no tom — com maior carga dramática — fizeram a trama engrenar, até cair no gosto popular.
💰 Ascensão, queda e confronto
No centro da história está o embate entre dois mundos: de um lado, a nova riqueza; do outro, a aristocracia em ruínas. Essa tensão ganha forma na disputa entre Maria do Carmo, vivida por Regina Duarte, e a decadente socialite Laurinha Figueiroa, interpretada por Glória Menezes.
Maria do Carmo constrói sua fortuna a partir do ferro-velho herdado do pai, Onofre, mas nunca abandona suas origens — seja no jeito de falar, de se vestir ou no estilo espalhafatoso que a define.
Determinada a acertar contas com o passado, ela decide se vingar de Edu Figueiroa, que já a humilhou. A solução?
Um casamento por interesse, salvando a família falida dele — e mergulhando de vez no universo da elite decadente. É aí que nasce o confronto direto com Laurinha, madrasta de Edu e figura central desse jogo de poder.
📺 Humor, crítica e personagens inesquecíveis
Fiel ao estilo de Silvio de Abreu, a novela equilibra comédia e tensão, além de dialogar com a realidade da época — inclusive incorporando o polêmico Plano Collor à narrativa.
Entre os núcleos paralelos, um dos mais memoráveis é o de Dona Armênia, vivida por Aracy Balabanian. Dona de um temperamento explosivo e um sotaque inconfundível, ela tratava os filhos adultos como crianças — suas “filhinhas da mamãe”.
Revoltada com a ocupação de seu terreno, vivia ameaçando destruir o prédio de Maria do Carmo, popularizando o bordão “na chón”.
Outro destaque é o triângulo entre
Caio, a noiva Nicinha e a sedutora Adriana (Cláudia Raia)
🎭 Momentos marcantes
Entre tantas cenas lembradas até hoje, poucas são tão impactantes quanto o desfecho de Laurinha. Em uma sequência intensa, a personagem protagoniza um ato extremo com o objetivo de incriminar Maria do Carmo — um momento que ficou gravado na memória do público, impulsionado pela atuação poderosa de Glória Menezes.
📡 Reprises e legado
A novela voltou ao ar diversas vezes: no Vale a Pena Ver de Novo em 1994, no canal Viva em 2013 e novamente na Globo em 2025. Essa última reprise, no entanto, não teve o mesmo impacto — prejudicada por edição acelerada, elementos datados e qualidade técnica inferior.
Ainda assim, nada disso diminui sua importância.
⭐ Um clássico definitivo
Com direção de Jorge Fernando e um elenco de peso que inclui nomes como Renata Sorrah, Raul Cortez e uma participação especial de Fernanda Montenegro, Rainha da Sucata consolidou-se como uma obra marcante.
Mais de três décadas após sua estreia, permanece como um retrato afiado das transformações sociais brasileiras — e, acima de tudo, como uma novela que atravessou o tempo sem perder sua força.
Rainha da Sucata
3.8 58 Assista AgoraA reapresentação de Rainha da Sucata trouxe novamente aos holofotes uma personagem que atravessou décadas sem perder força: Laurinha Figueroa. Mais do que uma simples antagonista, ela se firmou como um retrato ácido de uma elite decadente, marcada por arrogância, preconceito e uma necessidade constante de manter aparências. Na pele de Glória Menezes, a personagem ganhou uma dimensão que ultrapassa o rótulo de “vilã” e se aproxima de um estudo profundo de caráter.
Ao longo da trama,
o comportamento de Laurinha revela uma personalidade guiada pelo controle e pela superioridade social. Ainda assim, existe um ponto de fragilidade: o vínculo com o enteado Edu, interpretado por Tony Ramos. Esse afeto, longe de suavizá-la, se transforma em um motor de obsessão, influenciando diretamente suas atitudes mais extremas.
Mesmo inserida em uma estrutura clássica de confronto entre bem e mal, a personagem apresenta nuances que a afastam da caricatura. Pequenos gestos, silêncios e olhares revelam inseguranças e frustrações que coexistem com sua crueldade. É justamente essa complexidade que mantém Laurinha viva na memória do público, transformando-a em uma figura fascinante, capaz de provocar tanto rejeição quanto admiração.
A atuação de Glória Menezes é um dos principais pilares dessa construção. Com domínio de cena e sensibilidade, a atriz equilibra intensidade dramática e sutileza emocional, elevando cada aparição da personagem. O resultado é uma interpretação que não apenas sustenta a narrativa, e também redefine o impacto da vilania dentro da teledramaturgia brasileira.
Entre os momentos mais lembrados está a sequência em que
Laurinha se lança do alto de um prédio na Avenida Paulista, em um ato calculado de vingança contra
o suicídio como elemento central do desfecho.
Por outro lado, a reprise também evidenciou limitações da obra. A condução inicial da história, considerada apressada e irregular desde sua exibição original, ainda compromete a introdução dos personagens. Além disso, certos elementos refletem claramente o contexto da época, soando datados para o público atual.
Mesmo com essas ressalvas, o retorno da novela reforça o principal legado da produção: a força de uma personagem bem construída e interpretada com excelência. Laurinha Figueroa permanece como prova de que vilões, quando dotados de profundidade e sustentados por grandes atuações, podem ultrapassar gerações.
Revisitar essa figura hoje vai além da nostalgia. Trata-se de reconhecer o impacto duradouro de uma interpretação marcante e de compreender como a combinação entre texto e atuação pode transformar uma personagem em referência permanente na história da televisão.
Curiosidade: impasse na abertura de Rainha Da Sucata (1990)
Um dos boatos de bastidores da novela Rainha da Sucata, que será reprisada em breve pela emissora, se tratou de um suposto impasse em relação a ordem dos créditos na abertura da obra. É que a atriz Glória Menezes teria o costume de exigir seu nome vindo primeiro nas aberturas, mesmo quando não era a protagonista da obra em questão.
Em 1990 a produção teria enfrentado um dilema do tipo. Regina Duarte era a protagonista e Glória Menezes a antagonista, então a saída encontrada teria sido inserir o nome de Regina primeiro por baixo e o de Glória bem em seguida, por cima, dando uma falsa sensação que saía antes.
Alguns artistas exigiam seu nome em destaque nesse tipo de arte, e talvez aconteça até hoje, era o caso de Marília Pêra, uma das exigências da atriz quando participava das produções, era que seu nome fosse creditado primeiro, ou na seção de atores convidados, em destaque.
Nas aberturas quando atores importantes não são destacados no início, são destacados no final, como "participação especial" ou "atores convidados", sendo que os que aparecem com o nome do personagem inserido junto, tem mais destaque ainda, é sinal de importância.
Segundo informações da mídia especializada no assunto, exigência de nome em destaque em abertura muitas vezes já vem especificada no contrato assinado entre o profissional e a emissora, não é do nada. Em alguns casos nomes se alternam em aberturas, trocam de posição.
Rainha da Sucata
3.8 58 Assista AgoraA novela Rainha da Sucata marcou a entrada de Silvio de Abreu no horário nobre da televisão e acabou se consolidando como um dos trabalhos mais emblemáticos de sua carreira. Lançada em 1990, a produção enfrentou dificuldades logo no início, especialmente por vir na sequência do enorme sucesso de Tieta e por dividir a atenção do público com Pantanal, exibida em outra emissora. A forte carga humorística inicialmente causou estranhamento, mas ajustes no tom da narrativa, com maior equilíbrio entre comédia e drama, permitiram que a história encontrasse seu público e crescesse em popularidade.
A trama gira em torno do contraste entre ascensão social e decadência, representado pela disputa entre Maria do Carmo, interpretada por Regina Duarte, e Laurinha Figueiroa, vivida por Glória Menezes. De um lado, uma empresária que enriqueceu sem abandonar seus hábitos populares; do outro, uma socialite que tenta sustentar uma aparência de status mesmo diante da ruína financeira. Esse embate se torna o eixo central da narrativa.
A trajetória da protagonista começa no ferro-velho do pai, papel de Lima Duarte, e evolui até o topo do mundo dos negócios. Mesmo rica, ela mantém seu jeito extravagante, o que reforça o contraste com a elite tradicional paulistana.
Movida por um desejo de revanche, decide se casar com
um homem que a humilhou no passado e cuja família enfrenta dificuldades financeiras. Esse casamento por interesse desencadeia uma intensa rivalidade dentro da mansão da
Além da trama principal, a novela se destacou por seus núcleos paralelos marcantes. Um dos mais lembrados é o de Dona Armênia, interpretada por Aracy Balabanian, cuja performance se tornou icônica. A personagem, com seu jeito explosivo e sotaque peculiar, protagonizou momentos memoráveis ao lado de seus filhos, vividos por Marcello Novaes, Jandir Ferrari e Gerson Brenner. Sua famosa ameaça de colocar tudo “na chón” virou um dos bordões mais populares da novela.
Outro destaque foi o triângulo amoroso envolvendo Caio, Adriana e Nicinha. O personagem de Antônio Fagundes, em um raro papel cômico, dividia a cena com Cláudia Raia e Marisa Orth, criando situações cheias de humor e química.
Entre os momentos mais impactantes da novela, destaca-se a cena
do suicídio de Laurinha
O elenco contou ainda com nomes de peso como Renata Sorrah, Raul Cortez, Laura Cardoso e Fernanda Montenegro, entre muitos outros, reforçando a qualidade da produção dirigida por Jorge Fernando.
Com o tempo, “Rainha da Sucata” deixou de ser apenas uma aposta arriscada e passou a ocupar um lugar de destaque na história da televisão brasileira, sendo lembrada tanto pelo público quanto pela crítica como uma obra marcante de sua época.
Êta Mundo Melhor!
2.8 4 Assista AgoraÚltimo capítulo de "Êta Mundo Melhor!" desrespeita elenco e público!
É normal que, em qualquer novela, algumas cenas gravadas acabem ficando de fora da edição final. A televisão trabalha com limites rígidos de tempo e, muitas vezes, pequenos ajustes são inevitáveis para que o capítulo caiba na duração prevista. No entanto, o que aconteceu no último capítulo de "Êta Mundo Melhor!" ultrapassa em muito esse tipo de ajuste comum. O episódio final foi marcado por cortes tão significativos que acabaram comprometendo a narrativa e demonstrando um profundo desrespeito tanto com o elenco quanto com o público.
Vários desfechos simplesmente desapareceram da tela. Personagens que acompanharam toda a trajetória da história tiveram seus destinos resumidos de forma abrupta ou sequer mostrados. Um dos casos envolve
Olga e Carmem. As duas personagens foram parar na cadeia, mas as cenas gravadas pelas atrizes dentro da cela --- que dariam contexto e encerramento à punição --- não foram exibidas.
O mesmo aconteceu com
o casamento de Zenaide e do detetive Sabiá
Também foram descartadas cenas em que
o espírito de Zulma aparecia para outros personagens, momentos que poderiam acrescentar emoção e continuidade a um recurso narrativo que foi utilizado na cena mais bonita da foto das crianças já adultas.
Ainda mais grave foi o corte
do desfecho de Quitéria. A personagem, que havia trabalhado durante anos como empregada doméstica --- primeiro de Anastácia (Eliane Giardini) em "Êta Mundo Bom!" e depois de Candinho (Sérgio Guizé) em "Êta Mundo Melhor!" --- finalmente teria uma conclusão simbólica: tornar-se dona de uma confeitaria. Era um fechamento que representava crescimento e conquista pessoal.
Outro corte difícil de entender foi o das cenas
de Estela e Anabela na Amazônia. A personagem passou dez anos ali com a filha em uma viagem que, no fim das contas, se mostrou praticamente gratuita dentro da narrativa. Durante todo esse período, Túlio permaneceu sozinho e sofrendo, e o reencontro ou a resolução da história
Também chamou atenção o corte brusco no momento em que
Candinho algema Sandra (Flávia Alessandra) e a leva para a delegacia.
O mais curioso é que faltou justamente aquilo que a novela mais teve ao longo de sua exibição: tempo. "Êta Mundo Melhor!" contou com 220 capítulos, e durante muitos meses a trama avançou muito pouco, com acontecimentos se arrastando e conflitos sendo prolongados. Andou em círculos ao longo dos meses. Havia espaço de sobra para que os desfechos fossem distribuídos ao longo dos capítulos finais, permitindo que cada personagem tivesse um encerramento digno.
É claro que a emissora tem responsabilidade pelos inúmeros cortes que prejudicaram o último capítulo. Mas o autor Mauro Wilson também não pode ser poupado de críticas. Ao concentrar praticamente todas as resoluções no episódio final, ele criou uma situação em que qualquer edição mais agressiva inevitavelmente comprometeria a história.
No fim, o que deveria ser um capítulo de celebração acabou marcado por lacunas, cortes inexplicáveis e a sensação de que muitas histórias ficaram incompletas. Quem perde com isso são os atores, que viram cenas importantes de seu trabalho serem descartadas, e o público, que acompanhou a novela durante meses esperando um final que fizesse jus à trajetória dos personagens.
Êta Mundo Melhor!
2.8 4 Assista Agora"Êta Mundo Melhor!" provou que "Êta Mundo Bom!" não precisava de continuação!
A continuação de "Êta Mundo Melhor!, que chegou ao fim nesta sexta-feira (13/03/2026), após 220 capítulos, acabou provocando um efeito inesperado: ao tentar prolongar o universo de "Êta Mundo Bom!", a nova novela terminou evidenciando que a história original já estava completa. A obra criada por Walcyr Carrasco tinha um arco narrativo fechado e um desfecho satisfatório. Ao retomar esse universo, primeiro com textos do próprio autor e depois sob o comando de Mauro Wilson, a trama acabou revelando o risco de revisitar uma história cujo conflito principal já havia sido resolvido.
Desde os primeiros meses, a novela apresentou uma estrutura narrativa que parecia andar em círculos. A sensação recorrente era a de que o telespectador podia ficar semanas ou até meses sem assistir e, ao voltar, perceber que quase nada havia avançado. Isso aconteceu porque várias tramas foram reiniciadas ou reconfiguradas de maneira muito semelhante às histórias da obra anterior, criando uma estranha sensação de repetição constante, como se a continuação estivesse refazendo caminhos já percorridos.
A saga de Estela (Larissa Manoela) é um exemplo evidente disso. A personagem teve uma trajetória muito semelhante à de Maria (Bianca Bin) na novela original, inclusive no romance inicial com Celso.
O problema é que Celso já havia passado por um processo de redenção anteriormente, e sua volta a atitudes moralmente duvidosas soou mais como um retrocesso narrativo do que como evolução dramática. Apenas na última semana surgiu a revelação de sua cumplicidade no sumiço do filho de Candinho, recurso que parecia ter sido guardado como uma tentativa tardia de criar impacto. Não criou.
Algo parecido aconteceu com Araújo. Na novela anterior, ele desviava dinheiro da fábrica de sabonetes para pagar o tratamento do filho e acabou sendo perdoado, encerrando sua história com redenção. Na continuação, o personagem simplesmente repete o mesmo erro, agora desviando dinheiro da fábrica de biscoitos. A situação se tornou ainda mais estranha pela mudança brusca na personalidade de Olga, cuja influência passou a incentivar esse comportamento, alterando completamente a construção da personagem. Foi a personagem que o redimiu em 2016 e agora ela quem o desviou novamente.
Outras histórias também pareceram releituras diretas.
O romance entre Zé dos Porcos e Maria Divina tentou reproduzir a dinâmica que o personagem teve com Mafalda (Camila Queiroz), inclusive retomando o famoso debate sobre o “cegonho” e a expectativa em torno da primeira relação sexual. Já a trama central, envolvendo a busca de Candinho por seu filho perdido, era praticamente uma reedição do motor dramático de "Êta Mundo Bom!", quando o personagem procurava a própria mãe. O problema é que, quando finalmente descobriu que Samir era seu filho,
Para movimentar a narrativa, o autor recorreu
a vilanias forçadas de Sandra (Flávia Alessandra) e Ernesto. A situação se tornou ainda mais artificial quando foi exposto que ambos já estavam ricos graças a golpes aplicados fora de cena: Sandra ao enganar um barão e Ernesto ao herdar a fortuna de um tio milionário que havia enganado.
A tal vingança contra Candinho não colou.
O ponto mais controverso desse núcleo foi
a falsa morte de Sandra. Seu retorno disfarçada de baronesa, alterando sotaque e tom de voz para não ser reconhecida, acabou prejudicando justamente aquilo que tornava a personagem memorável. A vilã icônica da novela original se transformou em uma figura quase caricata, repetindo incessantemente o mesmo ódio por Candinho e traçando mil planos maquiavélicos.
Outro sinal de desgaste apareceu no tratamento dado aos núcleos paralelos.
O núcleo da fazenda de Cunegundes e Quinzinho, que era um dos mais divertidos da obra original, apareceu quase desconectado do restante da trama. Os personagens passaram boa parte da novela presos a esquetes repetitivas envolvendo a busca por esmeraldas no terreno e discussões cômicas com Medeia e depois com Jocasta,
O mesmo aconteceu com o núcleo do Dancing, que teve papel importante em "Êta Mundo Bom!" e aqui praticamente não interferiu no enredo.
Tamires (Monique Alfradique), Tamiris, Vermelho e Francine não tiveram relevância. Já as histórias da pensão e da Rádio Paraizo
que se destacou como Olímpia, personagem que era apenas metida no folhetim de 2016 e virou uma vilã preconceituosa e moralista na continuação.
Apesar dos problemas, a novela também apresentou acertos. O maior deles foi a trajetória de
Dita, que deixou de ser apenas uma empregada explorada na fazenda para se tornar a grande protagonista da história. Sua ascensão como cantora, passando por todo o processo de descoberta do talento e construção da carreira, foi um dos arcos mais interessantes da trama. O romance com Candinho também trouxe um frescor que a história principal já havia perdido.
Outro momento bonito foi a evolução de
Manuela, tia de Dita, que aprendeu a ler com a sobrinha e acabou se tornando atriz de radionovelas, chegando a protagonizar a história de "Xica da Silva" na rádio. Dhu Moraes foi fantástica e ainda teve química com Tony Tornado na reta final com o romance da sua personagem com Lúcio.
Margarida se disfarçou de Adamo Angel
A trama da Casa dos Anjos também funcionou bem, em grande parte graças ao elenco infantil. As crianças demonstraram carisma e talento, ganhando cada vez mais espaço ao longo da história. Vale uma menção especial
a Davi Malizia, que brilhou como Samir; Arthur Yera, que fez de Simbá um 'mini vilão' cativante; Marina Cypriano, que conquistou com sua Felícia e Vicente Alvite, que esteve ótimo como Aladdin. A dupla formada por Zulma e Zenaide também rendeu bons momentos e valorizou o trabalho das atrizes. Heloísa Perissé e Evelyn Castro formaram uma deliciosa dupla.
A saga de Estela melhorou bastante
depois de um início exaustivo focado no romance com Celso.
das irmãs que na verdade eram mãe e filha ganhou força dramática, especialmente após a entrada do médico Túlio.
passou a demonstrar um comportamento possessivo repentino apenas para provocar uma separação e criar suspense artificial sobre o destino amoroso de Estela.
Os problemas de coerência também apareceram nos desfechos. Personagens masculinos como
Ernesto, Araújo e Celso receberam novas chances e caminhos de redenção, enquanto várias vilãs tiveram destinos mais severos. Zulma forçou um casamento sem sentido com Candinho, graças ao plano ainda mais absurdo de provocar a prisão de Dita por conta do 'sequestro' de Samir, e terminou morta depois que foi atropelada por um bonde. Era a vilã mais humanizada do enredo e a que teve o final mais cruel. Já Sandra enlouqueceu e Olga acabou presa.
A trama envolvendo
o casal gay formado por Lauro e Tobias também decepcionou. Os dois apareceram pouco juntos e a história voltou a recorrer ao recurso do romance de fachada do médico para esconder sua sexualidade,
da adoção do filho de Sônia perdeu força, muito por causa da postura irresponsável de Quincas, que passou praticamente toda a novela evitando assumir a paternidade, comportamento tratado sempre com comicidade. No penúltimo capítulo, os dois adotaram Felícia e pronto. Aliás, todas as crianças foram adotadas ao mesmo tempo,
Outro exemplo de repetição pouco inspirada foi
o professor Asdrúbal, claramente criado como uma tentativa de reproduzir o sucesso do professor Pancrácio da novela original. A diferença é que Pancrácio tinha motivações narrativas claras para seus disfarces, enquanto Asdrúbal
O último capítulo foi muito corrido e com vários finais jogados. Dava tempo de sobra para apresentar as conclusões com mais calma diante da barriga que a novela teve.
Sandra explodiu a mansão, mas tudo foi rapidamente resolvido e ninguém se feriu. A vilã acabou presa e louca na cadeia, enquanto Ernesto teve o desfecho de virar pastor na prisão. Já Celso foi perdoado pela terceira vez por Candinho. Não deu para entender a razão da Estela ter viajado com Anabela para Amazônia e voltado dez anos depois para ficar com Túlio. Ele ficou dez anos sofrendo? Qual o objetivo? Aliás, a passagem de tempo só serviu para crescer as crianças porque os adultos não envelheceram um dia sequer. Ficou uma junção de futuro com presente difícil de engolir. Mas algumas cenas foram delicadas, como o casamento de Picolé (Isaac Amendoim/Igor Fernandez) com Maria Pureza. O momento da foto das crianças reunidas, mesclando a imagem delas na infância com todas crescidas, foi emocionante, assim como a mensagem final de Candinho ao lado de Dita
Em termos de audiência, a novela teve bons índices, impulsionada principalmente pelo carinho do público pelo fenômeno criado por Walcyr Carrasco em 2016. Ainda assim, esteve longe de se tornar o grande sucesso que a emissora esperava. A repercussão nas redes sociais foi discreta e o impacto cultural bastante limitado. E qual a necessidade de 220 capítulos? Não havia história nem para 100.
No saldo final, "Êta Mundo Melhor!" não chega a ser uma novela ruim. Trata-se de uma obra simpática, com bons momentos e um elenco talentoso. Mas dificilmente deixará marca duradoura na memória do público. Enquanto "Êta Mundo Bom!" continuará sendo lembrada como um grande sucesso da teledramaturgia brasileira recente, sua continuação tende a passar quase despercebida ao longo dos anos. Paradoxalmente, ao existir, ela acaba reforçando a ideia de que algumas histórias simplesmente não precisam de continuação.
Alma Gêmea
3.5 199 Assista AgoraPra uma novela de 2005, é um fato histórico
VOCÊ SABIA? No final da novela Alma Gêmea,
Serena e Rafael
Uma delas eles foram um casal yag de 3scr4vos e em outra foram um casal lésb1c0 de freiras.
O Herói Desconhecido de Iwo Jima
4.2 2Quando os fuzileiros navais americanos pisaram na areia negra de Iwo Jima, em fevereiro de 1945, muitos acreditaram que o bombardeio naval e aéreo prévio havia “amaciado” a ilha. Do ponto de vista americano, essa ilusão durou poucos minutos. O que poucos relatos populares destacam é como uma arma improvisada, quase experimental, acabou se tornando uma das chaves psicológicas e táticas da batalha: os tanques lança-chamas.
Os Marines logo perceberam que lutar contra um inimigo invisível — entrincheirado em mais de 20 km de túneis vulcânicos — tornava inúteis muitas das táticas tradicionais. Artilharia naval pulverizava uma posição… e horas depois ela voltava a disparar. Do ponto de vista dos soldados no chão, isso era enlouquecedor: conquistar o mesmo metro de terreno duas, três, quatro vezes.
Foi aí que entrou uma solução pouco glamourosa, mas brutalmente eficaz. Engenheiros navais (os Seabees) e unidades blindadas dos Marines adaptaram tanques Sherman para carregar lança-chamas de grande alcance. Oficialmente eram chamados de Sherman POA-CWS-H5, mas entre a infantaria ficaram conhecidos como “Zippos”, numa referência direta ao isqueiro.
O detalhe curioso — e pouco citado — é que muitos oficiais inicialmente desconfiavam desses tanques. Eram lentos, chamativos e pareciam alvos perfeitos. Mas, para o fuzileiro avançando sob fogo constante, eles se tornaram quase míticos. Quando um Zippo entrava em ação, o efeito não era só físico, era psicológico: jatos de fogo líquido penetravam entradas de túneis, fissuras na rocha e casamatas invisíveis. Muitas posições japonesas eram neutralizadas sem que um único Marine precisasse se aproximar a poucos metros.
Relatos americanos da época mostram algo revelador: soldados pediam esses tanques pelo rádio com urgência quase desesperada. “Precisamos de um lança-chamas aqui, agora”, aparece repetidamente em comunicações. Em vários setores da ilha, o avanço simplesmente parava até que um Zippo chegasse.
Outro ponto pouco lembrado: o uso intenso desses tanques reduziu baixas americanas em áreas específicas. Não por tornar a batalha menos violenta — ela foi infernal — mas por substituir ataques frontais suicidas por uma arma capaz de “limpar” o subterrâneo, onde o verdadeiro inimigo estava.
Do ponto de vista americano, Iwo Jima não foi vencida apenas com coragem ou poder de fogo massivo, mas com adaptação brutal à realidade da guerra moderna. A ilha ensinou aos Marines que o inimigo não estava no horizonte, mas embaixo de seus pés — e que às vezes a vitória dependia menos de heroísmo individual e mais de soluções feias, improvisadas e eficientes.
É uma curiosidade que raramente aparece em filmes ou livros mais populares, mas para quem lutou lá, o som de um Sherman lança-chamas se aproximando significava algo muito simples: talvez hoje a gente sobreviva.
PS: O mais arriscado trabalho no combate é com o lança chamas, de fato , além de ser o alvo principal dos atiradores , o aparelho volta e meia dava problema , às vezes o problema fazia ele se incendiar sozinho.
O efeito do lança-chamas era brutal , coloca brutal nisso, os japoneses para tentar se vingarem dessa tática horripilante, executavam qualquer fuzileiro que fosse capturado , guerra é o inferno!
O filme...
Cartas de Iwo Jima
A conquista da honra
São ótimos filmes que contam a história sobre essa triste batalha
O Herói Desconhecido de Iwo Jima
4.2 2Quando os fuzileiros navais americanos pisaram na areia negra de Iwo Jima, em fevereiro de 1945, muitos acreditaram que o bombardeio naval e aéreo prévio havia “amaciado” a ilha. Do ponto de vista americano, essa ilusão durou poucos minutos. O que poucos relatos populares destacam é como uma arma improvisada, quase experimental, acabou se tornando uma das chaves psicológicas e táticas da batalha: os tanques lança-chamas.
Os Marines logo perceberam que lutar contra um inimigo invisível — entrincheirado em mais de 20 km de túneis vulcânicos — tornava inúteis muitas das táticas tradicionais. Artilharia naval pulverizava uma posição… e horas depois ela voltava a disparar. Do ponto de vista dos soldados no chão, isso era enlouquecedor: conquistar o mesmo metro de terreno duas, três, quatro vezes.
Foi aí que entrou uma solução pouco glamourosa, mas brutalmente eficaz. Engenheiros navais (os Seabees) e unidades blindadas dos Marines adaptaram tanques Sherman para carregar lança-chamas de grande alcance. Oficialmente eram chamados de Sherman POA-CWS-H5, mas entre a infantaria ficaram conhecidos como “Zippos”, numa referência direta ao isqueiro.
O detalhe curioso — e pouco citado — é que muitos oficiais inicialmente desconfiavam desses tanques. Eram lentos, chamativos e pareciam alvos perfeitos. Mas, para o fuzileiro avançando sob fogo constante, eles se tornaram quase míticos. Quando um Zippo entrava em ação, o efeito não era só físico, era psicológico: jatos de fogo líquido penetravam entradas de túneis, fissuras na rocha e casamatas invisíveis. Muitas posições japonesas eram neutralizadas sem que um único Marine precisasse se aproximar a poucos metros.
Relatos americanos da época mostram algo revelador: soldados pediam esses tanques pelo rádio com urgência quase desesperada. “Precisamos de um lança-chamas aqui, agora”, aparece repetidamente em comunicações. Em vários setores da ilha, o avanço simplesmente parava até que um Zippo chegasse.
Outro ponto pouco lembrado: o uso intenso desses tanques reduziu baixas americanas em áreas específicas. Não por tornar a batalha menos violenta — ela foi infernal — mas por substituir ataques frontais suicidas por uma arma capaz de “limpar” o subterrâneo, onde o verdadeiro inimigo estava.
Do ponto de vista americano, Iwo Jima não foi vencida apenas com coragem ou poder de fogo massivo, mas com adaptação brutal à realidade da guerra moderna. A ilha ensinou aos Marines que o inimigo não estava no horizonte, mas embaixo de seus pés — e que às vezes a vitória dependia menos de heroísmo individual e mais de soluções feias, improvisadas e eficientes.
É uma curiosidade que raramente aparece em filmes ou livros mais populares, mas para quem lutou lá, o som de um Sherman lança-chamas se aproximando significava algo muito simples: talvez hoje a gente sobreviva.
PS: O mais arriscado trabalho no combate é com o lança chamas, de fato , além de ser o alvo principal dos atiradores , o aparelho volta e meia dava problema , às vezes o problema fazia ele se incendiar sozinho.
O efeito do lança-chamas era brutal , coloca brutal nisso, os japoneses para tentar se vingarem dessa tática horripilante, executavam qualquer fuzileiro que fosse capturado , guerra é o inferno!
O filme...
Cartas de Iwo Jima
A conquista da honra
São ótimos filmes que contam a história sobre essa triste batalha
Nelson Mandela: An International Tribute for a Free South Africa
4.0 2Por que Mandela visitou Gaddafi em 1997: A viagem que chocou o mundo
Em 1997, Mandela pousou na Líbia para visitar Gaddafi‼️
O Ocidente não conseguia acreditar no que via. "O que está acontecendo?". Mas aqui está o que eles não querem que você saiba...
Quando os combatentes da liberdade de Mandela precisaram de armas, treinamento e refúgio na década de 1970, as nações ocidentais os chamavam de "terroristas". Grã-Bretanha, França e Estados Unidos estavam, literalmente, fazendo negócios com o apartheid.
Mas Gaddafi abriu as portas da Líbia. Campos militares. Milhões em financiamento. Apoio diplomático. Enquanto Thatcher armava o regime que aprisionava Mandela, Gaddafi armava seus combatentes da liberdade.
Quando os líderes ocidentais imploraram para que Mandela cancelasse a viagem, sua resposta foi lendária: “Este homem nos ajudou quando estávamos sozinhos. Aqueles que me criticam agora estavam ajudando o inimigo.”
Os EUA listaram oficialmente Mandela como terroristas até 2008. Sim, 2008! Mesmo assim, tiveram a audácia de lhe dar lições sobre quem deveriam ser seus amigos.
No jantar de Estado em Trípoli, Mandela ergueu sua taça: “Não deixaremos que outros escolham nossos amigos. Estamos na luta há tempo demais para isso.”
É assim que a verdadeira independência se parece. Não trocar um mestre por outro. Não deixar que seus antigos opressores escrevam sua história ou escolham seus aliados.
Compartilhe e me siga se você acredita que lealdade significa algo. 👊🏿
Não há
5.0 1A história da MiG se confunde com a própria história da aviação de caça soviética. Quando o escritório de projetos Mikoyan-Gurevich surgiu no fim dos anos 1930, a União Soviética buscava desesperadamente reduzir a distância tecnológica que a separava das potências aéreas ocidentais.
O nome “MiG” não é uma sigla técnica nem um código militar: vem simplesmente da junção dos sobrenomes de seus fundadores, Artyom Mikoyan e Mikhail Gurevich, dois homens muito diferentes, mas complementares. Mikoyan era o articulador, o estrategista, alguém com trânsito político em um sistema onde isso podia significar sobrevivência ou extinção de um projeto. Gurevich, por sua vez, era o engenheiro silencioso, o responsável pelos cálculos, pela aerodinâmica e por fazer o avião realmente voar. Juntos, moldaram um bureau que teria uma filosofia muito clara: velocidade, interceptação rápida, simplicidade e produção em massa.
Os primeiros aviões da MiG, como o MiG-1 e o MiG-3, ainda de hélice, surgiram às vésperas da Segunda Guerra Mundial. Eram máquinas pensadas para combate em grande altitude, algo que fazia sentido para a defesa aérea soviética, mas que se mostrou limitado no caos real da guerra no front oriental, onde os combates aconteciam mais baixo e mais próximos do solo. Esses modelos não se tornaram lendários, mas cumpriram um papel essencial: deram à equipe experiência, confiança e um entendimento profundo das limitações e necessidades reais do combate aéreo.
A virada definitiva veio com a era do jato. Em 1947, o MiG-15 apareceu como um choque para o Ocidente. Com asas enflechadas, motor potente — derivado de tecnologia britânica adquirida de forma surpreendentemente ingênua pelos ingleses — e um armamento brutal de canhões, o MiG-15 mostrou na Guerra da Coreia (1950-1953) que a União Soviética não estava apenas acompanhando a corrida tecnológica, mas em alguns aspectos liderando. Ele não foi apenas um caça eficiente: foi um símbolo. O momento em que pilotos americanos passaram a respeitar — e temer — um avião com letras cirílicas pintadas na fuselagem.
A partir daí, a MiG consolidou seu estilo.
O MiG-17 refinou o conceito, o MiG-19 levou a aviação soviética ao supersônico, e o MiG-21 se tornaria um ícone global. Simples, rápido, barato e letal, o MiG-21 foi produzido aos milhares e voou sob dezenas de bandeiras diferentes, participando de guerras na Ásia, no Oriente Médio, na África e além. Ele representava perfeitamente a mentalidade soviética: não o caça mais confortável ou sofisticado, mas um avião capaz de ser mantido em condições precárias, pilotado por aviadores com treinamento limitado e ainda assim cumprir sua missão.
Nos anos seguintes, a MiG apostou em caminhos mais ousados. O MiG-23, com asas de geometria variável, tentou unir velocidade, alcance e flexibilidade, ainda que tenha pago o preço da complexidade. Já o MiG-25 foi quase uma criatura de outro mundo: enorme, rápido, construído em aço e projetado para voar mais alto e mais rápido do que praticamente qualquer coisa de sua época.
Quando um exemplar desertou para o Ocidente, ficou claro que ele não era um milagre eletrônico, mas uma máquina extrema, feita para uma função muito específica: subir como um foguete e interceptar ameaças antes que chegassem ao coração da União Soviética. Seu sucessor, o MiG-31, refinou essa ideia e se tornou um dos interceptadores mais capazes já construídos, permanecendo relevante até hoje em um país de dimensões continentais como a Rússia.
Com o MiG-29, a empresa entrou na era dos caças altamente manobráveis, capazes de enfrentar os melhores aviões ocidentais em combates aproximados. Era um caça mais equilibrado, mais próximo do que se esperava de uma aeronave moderna, ainda que mantivesse traços da velha filosofia MiG: motores potentes, estrutura robusta e foco no combate direto. Já no período pós-soviético, a MiG tentou se reinventar com modernizações e projetos como o MiG-35, tecnicamente avançado, mas ofuscado pela ascensão da Sukhoi, que passou a dominar o mercado interno e externo russo.
Ao longo de sua história, a MiG nunca foi sinônimo de luxo, conforto ou glamour. Seus aviões eram apertados, barulhentos, muitas vezes rudes de pilotar, mas quase sempre rápidos, resistentes e eficazes. Eram máquinas pensadas para uma guerra total, para decolar de pistas improvisadas, enfrentar climas extremos e cumprir ordens sem frescura. Mais do que uma fabricante de aviões, a MiG foi a expressão de uma visão estratégica: defender um vasto espaço aéreo com rapidez, força e números. Por isso, quando se fala em MiG, não se fala apenas de aviões, mas de uma escola inteira de pensamento militar, forjada na urgência, na rivalidade e na constante expectativa de um conflito que, felizmente, nunca chegou ao seu ápice.
Especial Líbano
1FATO HISTÓRICO
Neste dia, 18 de janeiro de 1976 — há 50 anos — um dos episódios mais brutais da guerra civil libanesa chocava Beirute. Milícias cristãs atacaram o bairro de Karantina, então habitado majoritariamente por palestinos, muçulmanos libaneses e trabalhadores migrantes, matando entre 600- 1500 pessoas em poucas horas.
O massacre ocorreu nos primeiros meses de um conflito que havia começado em abril de 1975 e que rapidamente transformou o Líbano em um campo de batalha fragmentado por linhas sectárias e ideológicas. Karantina, uma área pobre e densamente povoada no leste de Beirute, era vista por milícias cristãs como uma ameaça estratégica em meio à disputa pelo controle da capital.
O ataque foi executado por grupos armados ligados a partidos cristãos maronitas, que cercaram o bairro e avançaram casa por casa. A violência não poupou civis. O massacre provocou horror dentro e fora do país e alimentou um ciclo imediato de represálias: poucos dias depois, milícias palestinas retaliariam com o massacre de Damour, aprofundando ainda mais a espiral de violência.
Karantina tornou-se um símbolo da normalização da limpeza sectária e da erosão completa das fronteiras entre combatentes e civis. Ao longo dos quinze anos de conflito, o Líbano viveria sucessivos massacres e colapsos institucionais, com um saldo estimado de centenas de milhares de mortos e um país traumatizado.
A guerra civil só chegaria oficialmente ao fim em 1990, após o Acordo de Taif, assinado em 1989, q redesenhou o sistema político do país.
A reação internacional ao longo da guerra foi marcada por envolvimento direto de atores externos, entre eles Síria, Israel e Irã, q passou a apoiar grupos xiitas, contribuindo para o surgimento do Hezbollah. Os EUA e a França intervieram episodicamente, sobretudo na década de 1980. Em vez de conter a violência, isso frequentemente aprofundou a fragmentação do conflito e prolongou a guerra.
5 décadas depois, o massacre de Karantina permanece uma ferida aberta na memória libanesa. Ele lembra que guerras civis não começam com grandes batalhas entre exércitos, mas com a desintegração gradual da convivência social.
Jornal Hoje
3.5 2Por que os telejornais deveriam ser mais curtos? Coluna discute o episódio ocorrido com o apresentador Guilherme Rivaroli, que comemorou a audiência de uma tragédia, para analisar o que isso pode revelar sobre o telejornalismo que está sendo produzido no Brasil.
De tempos em tempos, somos impactados por um tipo específico de escândalo no jornalismo televisivo: o vazamento de alguma informação (geralmente um áudio) que circulou nos bastidores, e que não deveria ter chegado ao público. O caso da vez envolve o apresentador Guilherme Rivaroli, atualmente comandante do Balanço Geral na RIC TV, afiliada da Record no Paraná.
Um áudio do apresentador vazou no YouTube da emissora durante a transmissão do telejornal. Naquele dia, o Balanço Geral cobria um desaparecimento de um jovem de 19 anos enquanto fazia uma trilha. No vazamento, Rivaroli festejava os índices de audiência obtidos pela cobertura e ironizava: “podia ter um desaparecido por dia”. Na sequência do áudio, ele comemora ter passado a concorrência: “não vão nos alcançar. No final a gente passou de novo eles (a Rede Massa, afiliada do SBT) com a mesma história. Acho que deu 4,3 a 3,3 de média pra nós” (saiba mais aqui).
Rivaroli apresenta o jornal há pouco mais de um mês, e foi contratado com a perspectiva de aumentar os níveis de audiência. A situação (obviamente lamentável) expõe as entranhas do funcionamento de um telejornal, algo que costuma ser protegido da audiência. Eventualmente, situações semelhantes, com mais ou menos gravidade, acontecem – um dos episódios mais marcantes talvez seja quando William Waack, em 2017, teve um momento de bastidor vazado no qual fazia comentários racistas.
Ao longo da Escotilha, discutimos em vários momentos a questão dos impactos provocados por essas “sobras” de interação quando elas vêm a público, já que elas costumam reiterar aquele célebre ditado: “se as pessoas soubessem como são feitas as salsichas e as leis, não comeriam nem dormiriam tranquilas”. Adaptado aqui, poderíamos dizer que, se as pessoas soubessem como os jornais são feitos, provavelmente não acreditariam neles.
O argumento faz sentido, mas carrega uma falácia. Ele apaga o fato de que isso serve para todas as profissões, sem exceções. Se os alunos soubessem o que os professores deles falam quando não estão em sala, provavelmente os questionariam. Se os pacientes soubessem o que falam os médicos em sua ausência, cogitariam processá-los. Faz parte do funcionamento da vida social: temos performances diferentes quando estamos na frente de uma plateia e quando estamos apenas entre os nossos (esse processo foi explicado pelo sociólogo Erving Goffman no clássico A Representação do Eu na Vida Cotidiana).
A discussão que proponho neste texto é de outra natureza. É, na verdade, uma provocação. A fala infeliz de Rivaroli revela, no fundo, a pressão por números de audiência em um telejornal frente aos seus concorrentes. Vale lembrar que o apresentador foi contratado recentemente no intuito de elevar esses níveis, uma vez que o jornalístico enfrentava índices muito baixos. Dito de outra forma, foi levado para a Record justamente para jogar este jogo.
Mas há um detalhe importante. Com leves diferenças nas praças, o programa Balanço Geral costuma ficar ao ar diariamente por cerca de 4 horas. Sem dúvida, é muito tempo para preencher uma agenda diária de um telejornal – a cobertura do jovem desaparecido, por exemplo, ocupou nada menos que 70 minutos do noticiário.
Por isso, um questionamento possível seria: caso os telejornais fossem mais curtos, é provável que muitas coisas (como a enrolação, as longas transmissões ao vivo, as pautas sem relevância) ficassem de fora. Os telejornais seriam melhores?
Por que alguns telejornais são tão longos?
Em novembro de 2025, uma notícia foi repercutida por todos os telejornais de São Paulo, incluindo alguns de abrangência nacional. Um motorista de carreta ficou, por mais de quatro horas, parado no Rodoanel na capital paulista. O homem teria sido assaltado e amarrado com explosivos, e ficou lá até ser resgatado pelo Esquadrão Antibombas.
Todo o episódio foi transmitido ao vivo, em tempo real, pelos telejornais matutinos do estado. Praticamente todo o resto da pauta diária foi derrubada para que os apresentadores estendessem o assunto, com diversos comentários e, principalmente, com a transmissão de imagens tensas – afinal, tratava-se de um resgate emocionante em que uma bomba poderia explodir a qualquer momento.
Só que o caso teve um desfecho improvável: o homem, provavelmente passando por problemas psicológicos, havia inventado toda a história. Não havia bomba, não havia assalto, não havia nada além de um indivíduo em surto paralisando o trânsito de São Paulo – e, claro, monopolizando toda a agenda dos noticiários do dia. Na sede de acompanhar o tema em tempo real (que, com certeza, estava elevando os níveis de audiência), os telejornais deixaram de levar ao público assuntos mais úteis e optaram por envolvê-los na emoção de um assunto pouco relevante.
Crises como essa podem (e devem) ser usadas pelas emissoras para uma necessária reflexão sobre a pertinência do jornalismo que as emissoras estão fazendo.
Naquele dia, me veio o questionamento: se os telejornais matutinos e vespertinos fossem mais curtos, será que haveria espaço para tanta enrolação? Será que, se este tempo fosse mais enxuto, os jornais deixariam de veicular notícias descartáveis como essa – ou dedicariam menos tempo a elas?
A resposta parece óbvia: é claro que sim. Mas então por que isso não acontece? Certamente este é um tópico complexo. Mas é preciso atentar ao fato de que, nas emissoras privadas, todos os programas (incluindo os jornalísticos) estão atrelados a questões comerciais. Jornais mais longos, se adquirem boa audiência e repercussão, dão espaço a mais anunciantes, com contratos mais gordos, que, inclusive, irão custear outras atrações das emissoras. Em algumas das redes, aliás, a publicidade se insere dentro dos próprios noticiários.
Portanto, encurtar os jornais acarretaria em uma reconfiguração comercial nessas empresas – o que significaria impactos nos programas, nos profissionais e, em última instância, na qualidade do jornalismo. Tudo isso serve também para contextualizar melhor o episódio de um apresentador flagrado comemorando os níveis de audiências obtidos por uma tragédia, sendo ele mesmo apenas a roda de uma grande engrenagem que seguirá funcionando mesmo se ele não estiver lá.
Não obstante, crises como essa podem (e devem) ser usadas pelas emissoras para uma necessária reflexão sobre a pertinência do jornalismo que estão fazendo. É uma oportunidade que surge de vez em quando para sair do automático e analisar o modus operandi das redações, que, quase sempre, não têm tempo de parar e avaliar as consequências de seu trabalho.
Jornal da Manchete
4.4 1Por que os telejornais deveriam ser mais sucintos?
Recentemente, uma situação provocou uma reflexão sobre os rumos do jornalismo televisivo no Brasil. Trata-se do episódio envolvendo Guilherme Rivaroli, apresentador do Balanço Geral na RIC TV, afiliada da Record no Paraná, que comemorou publicamente os índices de audiência de uma pauta trágica, ironizando a cobertura e a concorrência.
Tudo começou quando um áudio de Rivaroli vazou no canal oficial da emissora no YouTube. Nele, ele comemorava a alta audiência atingida por uma cobertura de um jovem desaparecido durante uma trilha, chegando a dizer que “podia ter um desaparecido por dia”. Ainda, ele celebrava ter superado a concorrência, sinalizando a preferência do público por aquele conteúdo sensacionalista. Este episódio revela uma faceta pouco comentada do jornalismo: o lado mais íntimo e muitas vezes pouco ético que opera nos bastidores, onde a busca por audiência pode se sobrepor à responsabilidade social.
Esse tipo de situação reforça uma questão antiga: até que ponto o formato de uma notícia deve ser extenso? Telejornais que duram várias horas, cobrindo temas de menor relevância, acabam por diluir o impacto das informações mais importantes. Um exemplo recente aconteceu em São Paulo, em novembro de 2025, quando uma transmissão ao vivo de um resgate envolvendo um suposto sequestrador com explosivos monopolizou a grade de notícias. Contudo, pouco tempo depois, descobriu-se que tudo não passava de uma farsa, uma história inventada por uma pessoa em crise psicológica. O episódio ilustra como o sensacionalismo pode levar a uma cobertura excessiva de assuntos irrelevantes, desviando o foco do jornalismo responsável.
Se os telejornais fossem mais enxutos, seria possível dedicar mais atenção ao que realmente importa, evitando a dispersão de recursos e tempo com pautas que pouco acrescentam ao público. A questão, no entanto, é por que a prática de programas longos ainda prevalece. A resposta está na lógica do mercado: quanto mais tempo de transmissão, maior a chance de atrair anunciantes e gerar receitas. A publicidade, muitas vezes, está integrada ao próprio conteúdo jornalístico, criando um ciclo que favorece a manutenção de programas extensos, mesmo que isso signifique perder a oportunidade de oferecer um jornalismo mais objetivo e relevante.
Outro ponto importante é refletir sobre o impacto dessas escolhas na qualidade do conteúdo. A busca incessante por audiência pode levar à banalização e à exploração de temas sensacionalistas, prejudicando a credibilidade do jornalismo. Nesse sentido, episódios como o de Guilherme Rivaroli ou a cobertura do falso sequestro servem de alerta para repensar o formato e o propósito das notícias na TV. Quanto mais curtos e precisos forem os telejornais, maior a chance de oferecer uma cobertura mais responsável, deixando espaço para uma análise mais aprofundada e menos sensacionalista.
Em suma, a duração dos telejornais não é apenas uma questão de formato, mas de ética e de responsabilidade social. Reduzir o tempo de transmissão pode ser um passo importante para melhorar a qualidade do jornalismo, afastando-o do sensacionalismo e promovendo uma comunicação mais consciente com a audiência. Afinal, um jornalismo mais objetivo e menos extenso pode ser exatamente o que o público precisa para compreender melhor o mundo ao seu redor.
Tributo - Manoel Carlos
4.1 11Manoel Carlos, ícone das novelas brasileiras, por anos!
O roteirista e autor de novelas, um dos nomes mais influentes da teledramaturgia brasileira.
Manoel Carlos, conhecido carinhosamente no meio artístico como Maneco, construiu uma carreira que marcou gerações. Ele ficou famoso por novelas que figuram entre as mais lembradas da televisão brasileira, como Por Amor, Laços de Família, Mulheres Apaixonadas, História de Amor e outras obras que estiveram no coração do público ao longo de décadas.
Seu estilo era marcado pela profundidade emocional e pela atenção às relações familiares e humanas. Uma de suas marcas registradas foi a personagem chamada Helena, que virou símbolo da protagonista nos seus folhetins, refletindo mulheres complexas, cheias de conflitos e sentimentos intensos.
Além de sua vida profissional, a trajetória pessoal de Manoel Carlos também foi marcada por episódios dolorosos. Ao longo da vida, ele já havia sofrido com a perda de três dos seus filhos e da sua primeira esposa, fatos que ele mesmo comentou em entrevistas e que influenciaram sua visão sensível sobre temas humanos e familiares em suas obras.
A importância de Manoel Carlos para a história da televisão no Brasil é frequentemente destacada por sua capacidade de transformar relações cotidianas em dramas envolventes e memoráveis, influenciando toda uma geração de autores e telespectadores.
🕊 Maneco faleceu neste sábado, 10 de janeiro de 2026, aos 92 anos de idade, no Rio de Janeiro.
Nos últimos anos, Manoel Carlos enfrentava um quadro de saúde delicado. Ele lutava contra a Doença de Parkinson, diagnosticada há alguns anos, que teria se agravado nos últimos meses, comprometendo aspectos motores e cognitivos e exigindo cuidados médicos e familiares próximos.
A notícia de sua morte gerou homenagens imediatas de colegas de trabalho, atores e fãs nas redes sociais.
Que Rei Sou Eu?
4.1 46 Assista AgoraVOCÊ LEMBRA DA NOVELA QUE REI SOU EU? 👑🎭✨
Exibida entre 13 de fevereiro e 15 de setembro de 1989, Que Rei Sou Eu? foi uma das novelas mais inteligentes, ousadas e debochadas da teledramaturgia brasileira. Ambientada no fictício Reino de Avilan, a trama usava figurinos de época, espadas e castelos para fazer algo muito atual para aquele momento histórico: uma sátira afiada do Brasil do fim dos anos 1980 🇧🇷.
O país vivia a transição democrática após o regime militar, enfrentava inflação descontrolada, planos econômicos fracassados, corrupção e instabilidade política, tudo isso às vésperas da primeira eleição presidencial direta em quase 30 anos. Avilan era, na prática, um espelho cômico — e nem tão distante assim — da realidade brasileira.
Logo nos primeiros capítulos, o público já entendia o tom da crítica: a moeda do reino, o ducado, perde três zeros e é substituída pelo duca, que também fracassa rapidamente. Nada funcionava direito em Avilan — nem mesmo a guilhotina, que só funcionava nos testes. 😅
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👑 OS PERSONAGENS QUE MARCARAM AVILAN
Grande parte do sucesso da novela veio de seus personagens exagerados, simbólicos e memoráveis — todos representando tipos políticos, sociais e humanos muito reconhecíveis.
🔹 Rainha Valentine (Tereza Rachel)
Assumiu o trono após a morte do rei Petrus II. Autoritária, instável e marcada por ataques de loucura e gargalhadas histéricas, tornou-se uma das vilãs mais icônicas da TV brasileira.
🔹 Corcoran (Stênio Garcia)
O “bobo da corte” que, de bobo, não tinha nada. Acrobático e esperto, era na verdade um espião infiltrado entre os camponeses, sempre transitando entre os dois mundos.
🔹 Ravengar (Antônio Abujamra)
Uma mistura de bruxo, médico e astrólogo do reino. Figura temida, manipuladora e sombria, era o cérebro por trás de muitas decisões cruéis.
🔹 Pichot (Tato Gabus)
Um mendigo retirado das ruas para ocupar o lugar do príncipe herdeiro. Hipnotizado por Ravengar, acaba se transformando no maior tirano da história de Avilan, mostrando como o poder pode corromper qualquer um.
🔹 Crespy (Carlos Augusto Strazzer)
Conselheiro do trabalho e impiedoso coletor de impostos, representava o peso do Estado sobre o povo.
🔹 Gaston (Oswaldo Loureiro)
Conselheiro das armas, mal-humorado e paranoico, via inimigos em todos os cantos do reino.
🔹 Bidet (John Herbert)
Conselheiro dos mares — mesmo Avilan não tendo fronteiras marítimas. Vivendo às turras com Gaston, simbolizava a inutilidade de certos cargos políticos.
🔹 Vanoli (Jorge Dória)
Secretário particular da rainha e agiota-mor do reino, sem qualquer escrúpulo. Chega a ganhar, numa mesa de jogo, a própria filha de um fazendeiro falido como pagamento de dívida.
🔹 Bergeron (Daniel Filho)
O único conselheiro honesto do reino. Justamente por isso, sofria perseguições e o assédio da rainha Valentine.
🔹 Madeleine (Marieta Severo)
Esposa de Bergeron, tinha ideias feministas e era a única mulher do reino que sabia escrever, algo revolucionário até dentro da própria história.
🔹 Jean Pierre (Edson Celulari)
O mocinho da novela. Líder dos rebeldes, vivia um triângulo amoroso e, mais tarde, descobre ser o verdadeiro herdeiro bastardo do rei Petrus II — segredo que quase ninguém conhecia.
🔹 Loulou Lion (Ítala Nandi)
Dona de uma taberna que recebia tanto nobres quanto pobres. Observadora, irônica e cheia de segredos, sabia a verdade sobre Jean Pierre.
🔥 REVOLUÇÃO, SÁTIRA E BRASIL
No capítulo final, acontece a revolução popular:
o povo invade o palácio, confisca os bens da nobreza e toma o poder. Em uma das cenas mais emblemáticas da novela, Jean Pierre ergue a espada e grita:
> “Ninguém vai mais explorar o trabalho do pobre. Viva o Brasil!” 🇧🇷⚔️
Ali, a ficção se dissolve completamente na realidade. Avilan deixa de ser apenas um reino imaginário e se transforma em uma metáfora direta do Brasil e de seu desejo coletivo por justiça social e mudança.
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🎬 Que Rei Sou Eu? foi tão marcante que, apenas um mês após o fim, ganhou uma reprise compacta com 70 capítulos, exibida na Sessão Aventura.
Décadas depois, a novela continua atual — não só pelo humor afiado e pelo elenco brilhante, mas porque sua crítica política ainda ecoa. Afinal, às vezes, é no riso que a verdade aparece com mais clareza. 👑✨
Por Dentro do Arquivo X
4.2 5O Fim Turbulento de Arquivo X: Uma Jornada de Mistério e Mudanças 📺
Desde sua estreia em 1993, Arquivo X (The X-Files) se consolidou como uma das séries mais emblemáticas e influentes do universo televisivo. Criada por Chris Carter, a trama conquistou milhões ao explorar o lado obscuro do desconhecido, sempre centrada na parceria entre os agentes Fox Mulder e Dana Scully. Essa dupla, marcada por uma química única, virou símbolo de uma era de suspense, conspirações e fenômenos inexplicáveis.
No entanto, o caminho da série começou a se transformar a partir da sétima temporada. Em 1999, David Duchovny decidiu deixar o elenco regular, motivado por questões contratuais e pelo sentimento de que sua personagem já tinha sido bastante explorada. Sua ausência foi justificada na narrativa com o abduzimento de Mulder por alienígenas, uma trama que abriu espaço para mudanças na dinâmica do show.
Para substituir a perda de seu protagonista principal, a produção apostou na introdução do agente John Doggett, interpretado por Robert Patrick, na oitava temporada. Essa mudança trouxe uma tonalidade mais sombria às investigações e, inicialmente, foi bem recebida pelo público. Entretanto, a ausência constante de Mulder, que só apareceu de forma pontual, acabou refletindo na queda de audiência ao longo dos episódios seguintes.
Durante essa fase de transição, Gillian Anderson também manifestou o desejo de diminuir sua participação na série. Como resultado, seu personagem, Dana Scully, passou a ter menos destaque em algumas temporadas, o que contribuiu para uma sensação de perda da essência original do programa. Para tentar revitalizar o enredo, a equipe criou a personagem Monica Reyes, interpretada por Annabeth Gish, formando uma nova dupla com Doggett. Ainda assim, muitos fãs sentiam que a conexão que unia Mulder e Scully era insubstituível.
A nona temporada, por sua vez, foi marcada por uma queda dramática na audiência, levando a Fox a decidir pelo encerramento da série. Para o desfecho, a produção conseguiu reunir os protagonistas originais nos episódios finais, proporcionando uma conclusão que, apesar das limitações de tempo e produção acelerada, foi considerada digna por uma grande parcela dos fãs. Assim, Arquivo X fechou seu ciclo de forma mais emocional do que definitiva.
Anos depois, em 2016, a série retornou com uma décima temporada, seguida por uma 11ª em 2018. Embora o revival tenha reavivado a nostalgia, ele não conseguiu repetir o impacto cultural e a audiência do auge da série original. Ainda assim, deixou claro que o legado de Arquivo X permanece vivo, especialmente na fase clássica, que consolidou a produção como um marco na história da televisão, com sua mistura única de mistério, paranoia e investigação investigativa.
O Mistério do Cavalo de Troia
1AS POSSÍVEIS CAUSAS DA GUERRA DE TRÓIA,SEM O FATOR MITOLÓGICO. ⚔️📚
⏳ Para entender a Guerra de Troia fora do contexto mitológico, é necessário abordar os possíveis fatores históricos que possam ter causado o conflito,muitos historiadores e arqueólogos debatem a realidade do evento e o que poderia ter motivado tal guerra.
Uma das teorias mais aceitas entre historiadores é que a Guerra foi motivada por interesses econômicos. Troia estava situada em uma localização estratégica próxima ao estreito de Dardanelos, que ligava o Mar Egeu ao Mar Negro.
O controle dessa rota marítima era essencial para o comércio da região. Historiadores como Moses Finley sugerem que a guerra poderia ser resultado de disputas pelo controle comercial, onde os gregos micênicos desejavam dominar Tróia para controlar a rota de comércio e garantir acesso a recursos.
Durante a Idade do Bronze tardia, a civilização micênica estava em expansão e buscando consolidar seu poderio no Egeu,alguns historiadores, como Eric Cline, em seu livro "1177 a.C.: O Ano em que a Civilização Colapsou", argumentam que a Guerra de Troia poderia fazer parte de um processo mais amplo de instabilidade e colapso das civilizações no Mediterrâneo, onde diversas cidades-estado entravam em conflito por recursos, territórios e prestígio.
Além dos fatores econômicos, questões políticas e rivalidades entre os reinos micênicos poderiam ter contribuído para o conflito,as alianças e disputas entre os reis gregos teriam influenciado o ataque a Troia.
Segundo o historiador Barry Strauss, autor de "The Trojan War: A New History", a guerra foi provavelmente o resultado de uma série de conflitos menores que culminaram em um ataque em larga escala, ao invés de um evento único motivado apenas pelo "rapto" de Helena.
A busca por vingança e a manutenção do prestígio entre as monarquias micênicas podem ter sido catalisadores para o conflito,mesmo sem o rapto de Helena, a disputa entre Agamemnon e outros reis poderia ser uma tentativa de afirmar sua liderança e poder na região.
A ideia de soberania e o controle territorial sobre cidades-estado e rotas comerciais no Mediterrâneo podem ter desencadeado uma disputa, na qual Troia, como uma cidade independente e poderosa, representava um obstáculo para as ambições micênicas.
Durante esse período, muitas cidades e reinos do Mediterrâneo e Oriente Médio passaram por colapsos, possivelmente devido a mudanças climáticas, migrações em massa ou invasões.
O historiador Robert Drews, em "The End of the Bronze Age", sugere que a Guerra de Troia pode ter sido parte dessas turbulências, sendo um sintoma de um mundo em transição,portanto, embora a lenda de Helena e Paris tenha se tornado um símbolo romântico e trágico, é provável que os fatores econômicos, políticos e sociais tenham desempenhado um papel mais significativo na causa do conflito real.
A história foi então mitologizada ao longo dos séculos, tornando-se uma narrativa épica que reflete tanto as preocupações da Grécia antiga com a honra e o destino quanto as realidades mais terrenas dos conflitos humanos.
Tudo Por Uma Segunda Chance
2.0 3"Uma Nova Perspectiva de Vida": o que esperar da estreia da primeira novela em formato vertical da Globo?
Lucas Trajano possui tudo: juventude, uma fortuna significativa e um amor verdadeiro. Prestes a oficializar sua união com Paula Magalhães (Debora Ozório), sua primeira e única namorada, o jovem empreendedor vive um conto de fadas moderno, que impressiona e provoca inveja em muitos. Contudo, essa história encantadora desperta a faceta mais sombria de Soraia (Jade Picon), amiga de infância do casal e antagonista determinada. Ela guarda um amor secreto por Lucas e sua riqueza, e não poupará esforços para destruir o relacionamento e conquistar o que deseja. Essa é a premissa de ‘Uma Nova Perspectiva de Vida’, a primeira novela produzida especificamente para o formato vertical da TV Globo, que foi ao ar nesta terça-feira (25/11/2025) em todas as plataformas digitais da emissora.
Com episódios de duração reduzida, a narrativa foi criada especialmente para ser assistida pelo celular. Produzida pelos Estúdios Globo, com roteiro de Rodrigo Lassance e direção artística de Adriano Melo, a série conta com 50 capítulos, cada um com aproximadamente 2 a 3 minutos. Toda semana, às terças-feiras, um novo lote de 10 episódios é lançado em todas as redes sociais da Globo.
A estreia da novela digital aconteceu em sintonia com a novela ‘Dona de Mim’. Os personagens da trama principal estavam assistindo ao conteúdo, e uma das protagonistas, Kami (Giovanna Lancellotti), comentou sobre o formato e as plataformas onde podia assistir.
‘Uma Nova Perspectiva de Vida’ aborda temas como os limites entre paixão e obsessão, verdade e mentira, passado e presente. É uma história dramática que começa na despedida de solteiro de Lucas e Paula. Em um momento de orgulho, os pais do noivo, Glória e Jorge, assistem enquanto Lucas declara seu amor por Paula, recebendo aplausos do público, mas também a ira de Soraia.
Nesse cenário, Soraia decide colocar seu plano em ação para separar o casal e afastar Paula. Com a ajuda de Roberto, um jovem facilmente manipulado por ela devido à paixão, ela consegue um frasco de veneno e, na noite da festa, mistura-o ao espumante de Paula. No entanto, a armação dá errado quando Lucas bebe o espumante da noiva. Ele passa mal e entra em coma.
Depois, Soraia coloca provas falsas na bolsa de Paula, que acaba sendo presa por um crime que não cometeu. Quando Lucas desperta, sua memória está apagada, incluindo seu amor por Paula. A vilã aproveita-se da fragilidade do rapaz para apagar detalhes do passado e manipular a sua percepção da realidade, tentando preencher o vazio deixado por Paula. A mãe de Lucas, Glória, acredita nas mentiras de Soraia, colaborando com ela na tentativa de afastar Paula do filho, que ela acredita ser culpada pelo crime.
Enquanto Lucas tenta reconstruir sua identidade ao lado de Soraia, Paula enfrenta o maior desafio de sua vida: provar sua inocência, sair da prisão, recuperar sua dignidade e reconquistar o amor perdido. Sem apoio de seus pais, Beth (Vanessa Gerbelli) e Jarbas, ela tenta retomar sua trajetória. Beth a acolhe, mas Jarbas, ressentido por uma demissão na empresa dos Trajano, rejeita a filha, levando Paula a seguir seu caminho sozinha.
Com uma trama repleta de mentiras, traições e reviravoltas, e apoiada apenas pelo amigo Arthur, a protagonista embarca numa busca por justiça e renovação, tentando provar que o amor verdadeiro pode resistir até mesmo ao esquecimento. Tudo isso ocorre em episódios extremamente curtos, o que limita a profundidade narrativa e a construção de personagens. A falta de tempo impede uma elaboração mais detalhada, deixando os acontecimentos ao sabor do espectador que aceita o ritmo acelerado. Não é uma narrativa convencional, mas sim algo mais próximo do que jovens consumidores de produções amadoras e de baixo orçamento estão habituados a assistir, muitas vezes produzidas por influenciadores digitais em plataformas como TikTok e Kwai. Se os atores não fossem conhecidos, muitos poderiam confundir a produção com um produto de baixa qualidade, feito por amadores.
Por ser composta por episódios tão breves, a visualização é extremamente acessível, mesmo para quem não gosta do conteúdo ou duvida de sua qualidade. É possível perceber, por exemplo, que o cenário de hospital foi montado em camarins nos Estúdios Globo, evidenciando a simplicidade da produção. Apesar das limitações, o formato consegue captar a atenção do público, embora o resultado final ainda seja imprevisível. Nos primeiros dez capítulos, a novela digital já acumula mais de 15 milhões de visualizações no Instagram e mais de 9 milhões no TikTok. A curiosidade é um fator que impulsiona esse sucesso inicial, além da presença de atores jovens como Daniel Rangel, Debora Ozório e Jade Picon. A escalação de Jade, após sua participação em ‘Travessia’, também contribui para atrair a atenção do público. Além disso, participações de atores veteranos como Beth Goulart, Leonardo Brício, Vanessa Gerbelli e Marcos Winter reforçam o elenco com nomes experientes e conhecidos.
Com roteiro de Rodrigo Lassance, direção de Adriano Melo, produção de Juliana Castro e supervisão executiva de Lucas Zardo, ‘Uma Nova Perspectiva de Vida’ marca uma mudança na forma de consumo de histórias na Globo. Ainda é cedo para avaliar seu potencial completo, mas o formato inovador já demonstra que a emissora está explorando novos caminhos para atrair o público jovem, mesmo que, por ora, a profundidade narrativa seja limitada.
Três Graças
4.0 10 Assista AgoraTrês Graças não foi apenas a novela da década, foi a melhor novela desde A Força do Querer, tá ali no pódio dos últimos 15 anos com ela e Avenida Brasil, e isso diz muito.
Qual o verdadeiro valor de uma vida? Até onde alguém está disposto a ir para corrigir uma injustiça que afeta milhares de pessoas doentes?
Criada e escrita por Aguinaldo Silva, Virgílio Silva e Zé Dassilva, com direção artística de Luiz Henrique Rios, a novela apresenta uma trama carregada de humanidade, esperança e mistura de gêneros: drama, tragédia, romance, mistério e humor. Conhecido por criar personagens marcantes, como as vilãs Perpétua de 'Tieta' e Nazaré Tedesco de 'Senhora do Destino', e mulheres fortes como Tieta, além de personagens cômicos como Crô de 'Fina Estampa' e Zé Alfredo de 'Império', Aguinaldo retorna ao horário nobre da TV Globo após seis anos. Como vencedor de dois Emmy, ele traz nesta nova obra suas experiências, referências e assinatura única na teledramaturgia.
A inspiração para ‘Três Graças’ veio de uma experiência de quase 20 anos. Aguinaldo, enquanto escrevia ‘Duas Caras’ em 2007, visitou uma maternidade pública e ficou impactado com a quantidade de adolescentes grávidas, muitas sem apoio dos pais. Virgílio Silva e Zé Dassilva, parceiros de trabalho de Aguinaldo em outros projetos, assinam juntos a primeira obra. Os autores destacam que a novela evidencia a enorme desigualdade social do Brasil, mesmo dentro do universo ficcional da história.
Ambientada na maior metrópole da América Latina, a novela propõe reflexões sobre temas atuais, mas com uma abordagem tragicômica e não naturalista, de acordo com a proposta dos autores e do diretor Luiz Henrique Rios.
A história de 'Três Graças' se passa na grande São Paulo, com seus edifícios imponentes e diversidade cultural. Em julho, equipe e elenco partiram para a capital paulista para iniciar as filmagens das primeiras cenas, que duraram quase um mês.
Durante dias de clima frio e sol, as cenas foram gravadas principalmente na Brasilândia, região Norte da cidade, onde fica a comunidade fictícia da trama. As ruas, vielas e espaços urbanos da região serviram de cenário às sequências.
Locais como os bairros Aclimação, Bela Vista, Pinheiros, Pirituba e Freguesia do Ó também aparecem na narrativa. A fachada da Sala São Paulo, uma das mais modernas casas de concerto do mundo, no centro da cidade, foi palco de uma das cenas mais elaboradas durante as gravações.
'Três Graças' aposta em uma estética vibrante e não-realista para contar sua história, com o vigor e a intensidade característicos de uma tragicomédia. O conceito visual, desenvolvido pelo diretor artístico Luiz Henrique Rios em parceria com a diretora de arte May Martins, reflete a força dos personagens e dos ambientes que habitam.
Desde o início, a proposta foi criar uma novela que não escondesse sua natureza ficcional, mas que a assumisse com uma estética marcante. A cenografia busca equilibrar elementos reais e fictícios, com referências à estética do cineasta Pedro Almodóvar. A paleta de cores é fundamental em cada núcleo: tons de verde, além das cores primárias — vermelho, azul e amarelo — e seus subtons, presentes nos cenários, figurinos e objetos de cena. Nos ambientes mais privilegiados, como o apartamento de Ferette, predominam cores mais sóbrias e pigmentadas, enquanto na comunidade da Chacrinha, cores mais vivas e abertas predominam. A iluminação também dialoga com essa paleta, reforçando a atmosfera de cada espaço.
A casa onde Gerluce, sua mãe Lígia e a filha Joélly vivem, situada na fictícia Chacrinha, foi criada em estúdio para transmitir afeto e memórias. A construção é orgânica, feita aos poucos, com diferentes estilos em cada cômodo, pisos variados e detalhes que remetem à vida comunitária. A fachada é amarela, com portas azuis, refletindo a simplicidade e o aconchego do lugar.
A narrativa também inclui cenas externas pelas ruas de São Paulo, integradas ao cotidiano do transporte público. Para essas filmagens, foram utilizados três ônibus, incluindo um elétrico, preparados especialmente para as cenas com o motorista Gilmar (Amaury Lorenzo). Esses veículos receberam adesivos e elementos como estações de cobrador, validadores de cartão e câmeras de segurança, para dar veracidade às sequências.
Um destaque na cenografia é o quarto que abriga a escultura 'As Três Graças', uma peça de grande destaque na trama. Trata-se de uma antiga biblioteca desativada, repleta de livros e móveis de épocas passadas, criando uma atmosfera de mistério. A escultura, com 1,80m de altura, foi produzida em resina com pó de mármore nos Estúdios Globo. Além das três figuras que representam deusas gregas, a peça possui uma base vazada, onde os vilões Arminda e Ferette escondem dinheiro ilegal, reforçando sua importância simbólica na história.
A estreia apresentou um primeiro capítulo de alto nível, que introduziu todos os personagens dos núcleos principais e, ao final, apresentou de forma convincente os mundos da pobreza e da riqueza. Um começo promissor para a novela.
"Três Graças": o que dizer da novela das nove?
“Três Graças” conseguiu algo que parecia improvável no atual cenário da dramaturgia da Globo: fazer o público voltar a sentir prazer em acompanhar um novelão clássico no horário nobre. Depois do desgaste provocado pelo remake de Vale Tudo, a trama escrita por Aguinaldo Silva, em parceria com Virgilio Silva e Zé Dassilva, surgiu como uma resposta direta a quem decretava a morte do folhetim tradicional. E não poderia haver ironia maior: justamente o autor que viu sua obra mais famosa ser remodelada de forma controversa retornou para mostrar que ainda domina como poucos os mecanismos da televisão popular.
Após anos afastado da emissora por conta do fracasso turbulento de O Sétimo Guardião, Aguinaldo reapareceu disposto a provar que ainda sabia construir novelas de verdade. E conseguiu. “Três Graças” abraçou sem pudor tudo aquilo que muitos produtos recentes parecem evitar: melodrama intenso, personagens passionais, conflitos bem amarrados, reviravoltas planejadas e emoções conduzidas no tempo certo. Em vez de reproduzir a estética acelerada das séries de streaming, a novela apostou na maturação dos dramas e no envolvimento gradual do público.
O eixo emocional da história estava nas trajetórias de Gerluce, Lígia e Joélly — três mulheres de gerações diferentes conectadas pela maternidade precoce e pela ausência masculina. A identificação popular veio imediatamente porque a novela transformou dores extremamente brasileiras em combustível dramático poderoso. A partir desse núcleo, os autores costuraram romances, humor, suspense, vingança, ação e vilania em doses generosas, recuperando a essência do grande folhetim televisivo.
Entre os maiores trunfos da obra esteve a dupla de antagonistas formada por Arminda e Ferette. Ela carregava o exagero saboroso das vilãs clássicas de Aguinaldo Silva; ele funcionava como um empresário frio e calculista que escondia crimes brutais atrás de uma fachada filantrópica. O esquema envolvendo medicamentos falsificados deu peso social à narrativa sem transformar a novela em panfleto. Quando Lígia quase morreu por causa da fraude, a rivalidade entre mocinhos e vilões ganhou uma dimensão emocional definitiva.
A ousadia apareceu com força total quando Gerluce decidiu organizar o roubo da estátua das Três Graças. A sequência virou um dos momentos mais comentados da novela justamente porque rejeitou a ideia da protagonista perfeita. Gerluce errava, se vingava, tomava decisões impulsivas e agia movida pela raiva — e foi exatamente isso que aproximou o público dela. A referência à mitologia grega, refletida nas três “Marias das Graças”, acrescentou sofisticação simbólica sem comprometer a leveza popular da trama.
Outro ponto forte foi a maneira como os relacionamentos foram desenvolvidos. O romance entre Paulinho e Gerluce cresceu aos poucos, sustentado pelo conflito moral do policial apaixonado pela mulher que liderava o crime que ele investigava. Mas quem realmente ultrapassou a bolha da novela foi o casal formado por Juquinha e Lorena. O sucesso das duas personagens foi tão grande que virou fenômeno nas redes sociais e ajudou a consolidar um marco raro na TV aberta brasileira: um casal lésbico tratado com a mesma naturalidade dada aos casais heterossexuais, com afeto, desejo e intimidade apresentados sem medo.
A novela também acertou ao investir em personagens secundários carismáticos e em romances paralelos que ampliavam o universo da história. Houve espaço para humor popular, reencontros midiáticos pensados para viralizar e discussões sobre identidade de gênero conduzidas de forma mais humana do que discursiva.
A relação entre Leo e Viviane, por exemplo, emocionou justamente porque a personagem trans não existia apenas para cumprir função representativa:
Claro que “Três Graças” esteve longe de ser impecável. Alguns núcleos perderam força ao longo do caminho, determinadas tramas pareceram improvisadas e certos personagens masculinos receberam redenções excessivamente generosas. A novela prometia discutir o abandono paterno, mas frequentemente aliviava as consequências para homens que causaram enormes danos às protagonistas. Além disso, houve barrigas narrativas evidentes, especialmente na reta final, quando o ritmo desacelerou e parte da tensão dramática se dispersou.
Ainda assim, os problemas jamais apagaram a potência do conjunto. A direção de Luiz Henrique Rios compreendeu perfeitamente o espírito da obra e abraçou o exagero folhetinesco sem qualquer vergonha. Close dramático, trilha carregada, cenas explosivas e até momentos quase caricatos funcionavam porque a novela tinha plena consciência de sua identidade. Era um dramalhão assumido — e justamente por isso tão divertido.
O elenco também teve papel fundamental no êxito. Sophie Charlotte, Dira Paes, Grazi Massafera e Murilo Benício sustentaram o centro dramático com enorme presença, enquanto nomes como Andreia Horta, Kelzy Ecard e Arlete Salles roubaram cenas constantemente. Houve ainda participações especiais inteligentes, referências metalinguísticas e até crossover com personagens clássicos de outras novelas de Aguinaldo, usados de maneira divertida sem parecer mero fan service vazio.
Nos capítulos finais, “Três Graças” mergulhou completamente na extravagância típica das grandes novelas. Teve sequestro, vingança, perseguição, surtos, dinheiro voando pela favela, vilã enlouquecida, confrontos físicos e uma sequência final recheada de humor ácido e quebra da quarta parede. Em qualquer outra produção recente, isso talvez soasse exagerado demais. Aqui, funcionou porque a novela nunca teve vergonha de ser novela.
O desfecho deixou claro por que a repercussão da trama foi tão diferente da recebida pelo remake de “Vale Tudo”. Embora ambas tenham fechado com índices parecidos de audiência, “Três Graças” conseguiu mobilizar fandoms, movimentar redes sociais e recuperar um sentimento que parecia perdido: o prazer coletivo de acompanhar diariamente um folhetim popular, exagerado e emocionalmente envolvente.
Mais do que um sucesso isolado, a novela serviu como demonstração de que o formato tradicional ainda tem enorme força quando encontra autores capazes de compreender sua linguagem. “Três Graças” não reinventou a roda — e talvez esse tenha sido justamente seu maior mérito. Em tempos em que parte da dramaturgia tenta fugir de suas próprias origens, Aguinaldo Silva escolheu abraçar o melodrama clássico. E o público agradeceu.
PS: O quanto essa novela foi maravilhosa e necessária para o horário nobre.
Aguinaldo Silva voltou mais inspirado do que nunca e, além do roteiro maravilhoso, dos personagens maravilhosos e bem construídos em sua maioria, quase todas as referências inseridas na novela foram muito bem-vindas e deram muito mais valor para a novela, que realmente, não teve vergonha de ser novela como a gente conhece e resgatou o público que tanto ama esse gênero que é essencial na nossa cultura. Sem contar também a surra deliciosa com luva de pelica que ele deu na Manuela Dias, que destruiu Vale Tudo dele, de Gilberto e de Leonor, sem precisar dizer nada sobre aquela paródia (sim, paródia, pois aquilo não merece nem ser chamado de remake)
Pela primeira vez em muitos anos, uma trama no horário nobre está se encerrando e realmente vai fazer falta, não só ela, como também os vários personagens marcantes e emblemáticos como Gerluce, melhor mocinha dos últimos anos, Arminda, uma das melhores vilãs, Ferette, Viviane, Dona Josefa, Zenilda, o núcleo da delegacia, os bandivos (Vandilson, Alemão, Bagdá) e outros.
Espero de verdade que Quem Ama Cuida consiga, pelo menos manter o nível da qualidade que Três Graças deixou no horário nobre novamente, porque superar, eu acho extremamente difícil que consiga.
Fui muito feliz nesses 7 meses de Três Graças, foi muito bom poder acompanhar uma trama do início ao fim com empolgação novamente.
Vale Tudo
2.4 35 Assista AgoraA lição do remake:
Vale a pena ser honesto no Brasil? Não.
Vale a pena passar por cima de qualquer um por dinheiro? Sim.
"Vale Tudo" foi uma tentativa de remake que acabou sendo apolítica, descaracterizada, superficial, absurda e covarde.
Antes mesmo de sua estreia, o remake de "Vale Tudo" recebeu uma enxurrada de críticas negativas. A ideia de recomeçar uma das melhores novelas já produzidas na história da teledramaturgia gerou muitas desconfianças, e a rejeição nas redes sociais foi massiva. Isso tornou a missão de criar uma nova versão ainda mais difícil. A proposta era reproduzir o sucesso da obra original, manter sua qualidade, respeitar sua essência e mostrar que as críticas iniciais eram infundadas. No entanto, a produção de Manuela Dias, dirigida por Paulo Silvestrini, encerrou sua exibição nesta sexta-feira (17/10) sem atingir nem um terço das metas esperadas.
No começo, a autora conseguiu enganar o público e a imprensa, criando uma impressão de similaridade com a versão clássica de Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Brassères. Contudo, ao longo dos meses, ficou evidente que o texto era frágil, que os principais arcos dramáticos foram destruídos, que a direção cometeu muitos equívocos e que novos conflitos foram inseridos de forma rasa, empobrecendo ainda mais a narrativa. A essência do enredo se perdeu por completo. A questão central — "Vale a pena ser honesto no Brasil?" — deixou de ter sentido, pois a novela não abordou temas pertinentes, nem gerou discussões relevantes para a sociedade.
A covardia foi a marca principal do remake. A original de 1988 transbordava política e tratava de temas que estimulavam debates. Não se tratava de política partidária, mas da política do cotidiano, das ações que quase todos os brasileiros enfrentam, que oscilam entre a integridade e a corrupção. Assim, em "Vale Tudo", nenhum personagem era perfeito; todos tinham suas falhas, o que gerava conflitos éticos e debates sobre conduta. Essa abordagem honrava o título da obra. No remake, essa coragem foi substituída por uma narrativa apolítica desde o início. As poucas tentativas de inserir temas políticos foram superficiais e até constrangedoras, como a cena em que
Solange Duprat (Alice Wegmann) diz que Odete Roitman (Debora Bloch) é "resistência". Uma jovem de classe média alta, cercada de privilégios e namorando o herdeiro do país, sendo resistência a quê?
Outro exemplo de falta de politização foi o início da história, quando
Raquel (Taís Araújo) é vítima de furto por um menor de idade. Na versão de 1988, ela se indignava e dizia que um emprego poderia mudar aquela realidade. Hoje, essa afirmação seria inaceitável, pois o trabalho infantil é crime. O remake, porém, preferiu silenciar o tema, enterrando qualquer discussão relevante. Isso se repetiu em várias situações, como a história de Ivan, que abandona Raquel e se casa com Heleninha (Paolla Oliveira) para crescer na carreira, e depois volta para ela, que vira amante do protagonista.
Diversos temas foram abordados de forma superficial ou mal desenvolvidos: assexualidade, tráfico de animais, adoção por casais homoafetivos, mudanças climáticas, vício em jogos, pensão alimentícia, preconceito etário, assédio moral, problemas conjugais, Burnout, adoção de bebês reborn, OnlyFans, racismo, maternidade solo, entre outros. Parecia que a autora lançava ideias pontuais, sem uma construção sólida, resolvendo tudo de forma mágica ou rápida demais, sem aprofundamento ou lógica.
Um dos poucos assuntos tratado com alguma propriedade foi o da
pensão alimentícia, envolvendo Lucimar (Ingrid Gaigher) e Vasco. A cena da ação na Justiça gerou um recorde de acessos ao aplicativo da Defensoria Pública do Rio de Janeiro, mas foi superficial e resolvida de forma rápida. Além disso, o núcleo de Vasco, que tinha vício em jogos, foi abandonado após uma única cena. Ele se recuperou magicamente sem maiores explicações, e sua reconciliação com Lucimar foi forçada, culminando na volta ao casamento. A mudança na trama trouxe situações inverossímeis, como César, que herdou metade da fortuna de Odete Roitman ao se casar com Fátima (Bella Campos), após uma série de manobras sem sentido, como abandonar o emprego e entregar a criança para adoção de forma precipitada.
Muitos conflitos foram mal desenvolvidos ou totalmente rasos. Como exemplo, o caso do Burnout de
Renato: a doença foi abordada de forma superficial, com uma cura milagrosa em menos de duas semanas. O mesmo aconteceu com a obsessão de Aldeíde (Karine Teles) por bebês reborn, que foi resolvida na mesma velocidade. A falência e posterior recuperação de Raquel também foi um absurdo, com a personagem indo de rica a pobre e voltando ao sucesso em questão de dias,
Outro ponto problemático foi a história envolvendo a
leucemia de Afonso. A doença foi tratada de forma apressada e sem sensibilidade. Em um único dia, o personagem apresentou sintomas, foi diagnosticado e passou por tratamento, cortou o cabelo, buscou doador, ficou careca e voltou ao normal, tudo de forma superficial e sem impacto dramático. As cenas relacionadas à saúde de Afonso pareceram mais uma tentativa de impactar do que uma abordagem realista. Além disso, cenas de atentados, assassinatos e conspirações — como Odete Roitman sendo alvo de tentativas de assassinato por Marco Aurélio e Odete matando Mário Sérgio —
A direção também foi um grande problema. Paulo Silvestrini, que tem um talento reconhecido por trabalhos anteriores, não conseguiu manter a qualidade nesta produção. Muitas cenas decepcionaram, a trilha sonora foi mal escolhida e o movimento dos atores deixou a desejar. Momentos importantes, como a
revelação do acidente de Leonardo ou o assassinato de Odete,
como a revelação final do assassino
A montagem de cenas e o uso de efeitos também deixaram a desejar. O clímax final,
com a suposta morte de Odete
ela sobrevive ao tiro de forma inexplicável, acorda em uma van, é operada
Quanto aos atores, muitos foram subutilizados ou tiveram seus talentos desperdiçados. Apesar de alguns desempenharem bem seus papéis, a maioria não conseguiu salvar personagens mal escritos ou mal explorados. Debora Bloch brilhou como Odete, entregando uma atuação marcante, enquanto Alice Wegmann foi convincente como Solange e Paolla Oliveira como Heleninha. Outros, como Luis Melo e Maeve Jinkings, tiveram participações menores e pouco relevantes, reforçando a sensação de que o elenco foi mais um escudo para tentar dar alguma credibilidade ao que foi feito.
O último capítulo foi um dos piores da história da televisão, com cenas sem sentido, conflitos resolvidos de forma rápida e sem lógica, e um final previsível. A revelação do
assassino foi óbvia, e a cena final, com Odete aparentemente sobrevivendo,
No geral, "Vale Tudo" como remake foi uma decepção monumental. A trama saiu de cena com uma média de audiência que, embora acima de sua antecessora, ainda ficou longe de outros sucessos do horário. A repercussão negativa na imprensa e nas redes sociais foi imensa, e o saldo final para a Globo não foi tão ruim quanto poderia parecer, mas também não foi bom. A verdade é que Manuela Dias destruiu uma das produções mais consagradas da história da televisão brasileira, e o tempo certamente mostrará o quão desastrosa foi essa tentativa de reimaginar um clássico. A única certeza é que, de "Vale Tudo", nada sobrou além de uma má lembrança.