"Até que se conscientizem, não se rebelarão; e até que se rebelem, não poderão se conscientizar." "Nada era seu, exceto os poucos centímetros cúbicos dentro do seu crânio" George Orwell sempre vai ter meu coração. Um século depois e esse livro escancara nossa realidade social tão perfeitamente. Nada mudou, as pessoas continuam sendo oprimidas e desinformadas, mas com ferramentas diferentes e modernas. Esse excesso de telas, mutação de informações acontecendo o tempo todo, a privacidade se tornou um artigo de luxo. Esse monitoramento era imposto, era forçado, hoje em dia é quase sempre voluntário. As bolhas sociais fortaleceram o extremismo, para reforçar algo que a pessoa pense, um pensamento em formação logo toma um caminho de radicalismo, ou para combater, o entorno daquele cidadão vai atropelar o pensamento que está se formando de todas as formas possíveis, até que ele pense de acordo com o conformismo social, impossibilitando a conclusão de um raciocínio autoral. Surge tanta coisa tão rápido que as pessoas não conseguem amadurecer ideias e pensamentos sobre nenhum fato, as pessoas não pensam profundamente. Outro ponto é que o autoritarismo está mais vivo do que nunca, mas em 1984 era caótico, barulhento, estrondoso. Hoje em dia é silencioso, sutil, o algoritmo define o que você vai ver, o que vai ler, o que vai fazer parte do seu dia a dia. É um controle muito eficaz, as pessoas sequer percebem. Quantas vezes as plataformas silenciaram pessoas e suas opiniões? Isso é poder autoritário. Quando alguém deixa de postar o que pensa por medo da repressão também está sendo vítima do sistema, mesmo que indiretamente. Cada acesso nosso online e localização recolhidos são formas de abusos autoritários, até porque, se não aceitarmos essas diretrizes não conseguimos acessar aplicativo algum em nossos aparelhos. Os dados são coletados a todo segundo, e me pergunto quem de nós sabe para onde vão? Ninguém sabe. É muito mais fácil controlar as massas sabendo que querem, o que fazem e onde estão. Cada opção que temos já foi decidida por alguém que conhece nossos gostos e fraquezas. É assustador! O objetivo principal hoje em dia é o mesmo de 100 anos atrás. Tornar-nos pessoas não pensantes, conformistas e cegas. Eu sempre digo: o terror dos autoritários é lidar com a revolução dos que pensam. Quem pensa, não consegue prosseguir conformado! Nasce um sentimento de revolta, uma inquietude, vontade de lutar. Admito que surge, junto a isso, um sentimento de incapacidade. É que é tão difícil conversar com pessoas conformadas. Mesmo sabendo que a nossa verdade é a verdade no meio de 1 milhão de mentiras, é difícil ser ouvido, ter voz. A gente faz o que pode. Sinto falta da liberdade de discordar sem ser punido socialmente. Na nossa sociedade é quase um crime duvidar das coisas. Outra coisa que notei de semelhança com os dias atuais é que há sempre embates, os governos estão sempre providenciando conflitos para distrair o povo do que realmente está sendo feito por trás dos panos. As pessoas também gostavam de gritar com o Goldstein, e hoje em dia parece que as redes sociais sempre nos apresentam ódios em comum, é como se isso engajasse muito mais do que a paz. O algoritmo lota o feed de conteúdo onde as pessoas possam se juntar para tacar hate em algo ou alguém. O Winston de hoje em dia é todo cidadão que vive esgotado e já não aguenta mais o cansaço mental diário. Ele tentava esconder seu diário e hoje as pessoas tentam apagar seus históricos, suas vidas online, mas é impossível. Mesmo se alguém deletasse todos os arquivos e redes referentes à vida, ainda assim estaria tudo salvo em algum servidor e por último "deletou todas as redes e histórico no dia xx/xx". É creepy, você pode criptografar, trocar de e-mail regularmente, usar VPN, mas isso não muda nada, no fundo a gente sabe que tudo é armazenado. A gente vive a mesma coisa que ele. O Winston de hoje é o cara que tenta viver uma vida garimpando coisas físicas e reais, tentando algum contato com o mundo de verdade, conexões verdadeiras, algo que a inteligência artificial ainda não tenha moldado. O 2+2=5 de hoje em dia aparece de forma mais sutil, o Winston foi torturado fisicamente e psicologicamente, como as pessoas não passam por isso hoje em dia (a maioria), algumas nem percebem que estão condicionadas. Aparece quando uma pessoa aceita uma ideia porque todo mundo aceitou, porque essa mentira se tornou conveniente, o grupo decidiu que é assim e pronto. Essa falta de contraponto é o medo mais comum dos dias de hoje. Até em lugares básicos como grupo de família, amigos ou colegas de trabalho as pessoas têm medo de se posicionar. Outro ponto é que se alguma mentira é dita por uma figura política ou famosa, ela se prolifera rapidamente como uma verdade através dos impulsionamentos midiáticos. Se o pensamento pode ser moldado por sistemas políticos, a raiz desse mesmo pensamento se enfraquece rapidamente e o emburrecimento da população se torna mais fácil de ser gerenciado. E uma das partes mais tristes do livro e do filme que reflete nos tempos atuais, a destruição total dos laços entre as pessoas. Eles queriam criar pessoas que amassem apenas o Grande Irmão, elas não podiam cultivar amizades e nem amores, assim como em Admirável Mundo Novo do Aldous Huxley, é algo que fugiria do controle deles. Hoje em dia não é diferente, o Bauman fala muito sobre essa modernidade líquida, amores líquidos, onde nada é feito para durar. As conexões são artificiais e se dissolvem rápido. As pessoas são solitárias, e isso é ótimo para quem está no controle, é mais fácil manipular essas pessoas isoladamente. "A pior coisa do mundo" que o livro cita no quarto 101 pode ser qualquer coisa pra qualquer um, mas quem coleta nossos dados conhece melhor que nós mesmos quais são nossos medos, erros e inseguranças. E já é usado contra a gente de forma indireta, para manter-nos conformados. A pergunta é: Onde a tecnologia e o monitoramento ainda não chegou? Sobrou algum lugar seguro? Fica aí o questionamento. Não é à toa que Black Mirror é minha série favorita. Aquilo tudo já é real. A gente já vive na sociedade Black Mirror. Ainda prefiro o livro, mas amo muito esse filme. Pena que não fizeram uma adaptação boa de Admirável Mundo Novo ainda. Quem sabe um dia...
É um filme pesado, o ambiente é caótico, quase sufocante. Boa direção do belga Tim Mielants. A carga emocional desse filme me lembrou de "Preciosa". [Spoilers] Ótima direção de fotografia do Robrecht Heyvaert. Os ângulos abordando diferentes perspectivas, ora por trás das câmeras, ora através delas, ora pela tela, em alguns momentos estamos espiando, em outros nos sentimos na própria situação. A câmera não ser estável é um acerto enorme, tudo em constante movimento. "Tá no topo da lista, eu prometo", e no final não sobra tempo pra nada, é uma correria. Gosto muito do horário passando na tela, é um lugar tão atípico que acontece tanta coisa em um único dia, chega a ser desconfortável, comparando com a nossa vida, sem eventos. A sequência silenciosa deles na mesa, cortando para ele na entrevista lacrimejando, voltando para a mesa e a cena do "Cala a boca" é muito boa. A atuação do Cillian brilhou muito ali. Essa cena e a do Shy no final são as duas melhores pra mim. Não li Shy, do Max Porter, vi apenas o filme. Acho muito amoroso da parte do Steve estar sempre tentando proteger os meninos do julgamento da sociedade, impedindo os câmeras de filmarem momentos ruins. A jornalista, inclusive, em alguns momentos representa essa voz social mais preconceituosa. A cena dos meninos na janela parecendo animais selvagens é tão forte, é lamentável. Detalhes como o Shy rabiscando o caderno, uma alegoria à mente dele. Anotações na mão do Steve, representando a correria do dia dele. O Tyrone esvaziando pauta racial dizendo que estava sendo tratado injustamente por ser preto, quando na verdade, a psicóloga confirma que ele estava ali sim por importunação sexual. O filme foi corajoso de colocar essa cena. Quando ele começa a falar isso, a gente já cria uma empatia pela situação social dele, achando super injusto julgarem ele pela cor, aí quando ela confirma que ele realmente fez, que não é injustiça, fica um gosto amargo, ele engana a gente. Injusto mesmo é ele usar um problema estrutural real pra se esconder dos crimes. Em seguida a briga dele com o Jamie, que é uma sequência muito boa, sem muitos cortes. A entrevista do Steve é muito comovente, ele dizendo que eles são extraordinariamente complexos, a da Amanda também é sincera, apesar de gostar deles, tenho certeza que muitos professores se sentiram representados por ela. Ela cita o trabalho que eles dão, a falta de recursos do sistema, salários baixos, tudo isso é tão real no mundo. A entrevista dos meninos traz um lado mais humano de alguns deles, uma fala do Jamie que me marcou foi "não confia em ninguém, não dá pra confiar nem na polícia, cara", não mentiu. Ao serem entrevistados, eles não têm tabu, nem medo de se expor ou falar sobre as maiores atrocidades que já cometeram, sobre seus erros. O que poderia acontecer de pior do que estar ali? Outra fala que me marcou é quando o Deputado está lá na escola e fala sobre os votos, sobre proteger os bens do cidadão, perguntando "Quem vai proteger os seus bens, sua liberdade?". Meu irmão, os meninos não têm mais nada, não têm família que se importe, não têm apoio do sistema, não têm dinheiro, bens, liberdade. Isso é um luxo inacessível pra eles. Fiquei com dó deles nessa hora. Os quartos são bem pessoais e a ambientação é ótima, mesmo os meninos sendo delinquentes, dá um incômodo ver a jornalista invadindo a privacidade deles. Nada justifica. Outra cena boa é a que começa calma com a bolinha no chão, o Steve tapa os ouvidos, então os meninos chegam quando toca o sinal, é um caos. O filme alimenta uma certa ansiedade em quem está assistindo, mas puxada pra um lado crítico, você fica agitado assistindo, mas reflexivo também. O Shy é o personagem mais cativante e real de todos os alunos. Começa com ele dançando chateado e termina com ele desmoronando completamente, e o caminho de um extremo ao outro é muito bem desenvolvido. O ator Jay Lycurgo entregou muito, só não mais que o Cillian. É só um menino em busca de afeto, mas quando recebe alguma dose, não consegue administrar. Quando ele se abriga na música, eu me identifico muito, eu amo música e quando tudo vai mal, eu coloco o meu fone e fico ali no meu mundo. A cena do futebol com certa coloração nas camisetas e a dele preta se destacando, andando triste no meio deles, a chuva caindo, bem dramática e sombria, a câmera em rotação, a edição e montagem, o take acelerado, o zoom, o campinho de ponta-cabeça, a bateria da música engatando cada vez mais alto na trilha sonora. Perfeito demais. Essa e a da lavanderia são as mais bem editadas. Faz sentido, a vida de todo mundo ali tá de ponta-cabeça também. São muito tristes as sequências do Shy, muito boa a referência ao lago pelo frasco de remédio, como se fosse um presságio para o espectador, toda a cena da lavanderia até o Shy entrando na água é muito bem dirigida. Ele tão perto de achar o Shy, mas estava tão fora de si que não conseguia chegar. Desesperador, a gente torcendo pra ele tentar só mais um pouquinho. O Shy quis tirar a própria vida aos 17 anos, porque mesmo se ele zerasse e se tornasse uma pessoa melhor, a sociedade nunca validaria isso, as pessoas o julgariam pra sempre (mais). Nem o apoio da família ele tinha mais, esse tipo de pessoa não tem nada a perder, então desistir parece ser o caminho difícil mais fácil. No final, fiquei feliz de ver que o Shy estava vivo. É muito difícil ser depressivo em um mundo onde ninguém te entende, pessoas que acordam bem e vão viver suas vidas, enquanto você acorda e a primeira coisa do dia é tentar se convencer de que aquele dia vale a pena, de que você vale a pena. Ninguém entende, só julga, exceto aqueles que também tenham depressão, que sabem minimamente qual é o sentimento. Mesmo em frangalhos e todo arrebentado, lutar pela vida, quando o suicídio parece ser a opção mais segura e indolor, é um ato de coragem enorme e requer uma força absurda. Ele gritando quando os meninos se jogaram felizes em cima dele foi pesado, um grito que veio da alma, um pedido de socorro carregado de desespero. O abraço dele no Steve no final, lindo! O folheto Coastal Carvings na parede desde o início avisando pra gente o que viria, detalhismo. O Steve é o personagem mais complexo, o Cillian deu tudo de si, e o resultado foi ótimo. O personagem consegue ver sempre o melhor das pessoas (que valem a pena), a saúde mental dele completamente esgotada, que até dentro da própria casa no final, recorre ao vício, é muito triste a cena que ele sobe com a garrafa na mão. Ele entrega alívio cômico em frases como "é bom que a cadeira não vai prestar queixa" ou imitando o Jamie, ele entra na vibe dos meninos, é o único jeito de ultrapassar o muro emocional que eles construíram. Tenta bancar a máscara de apaziguador, mas em seus vícios e nas fitas se revela como é. Cobra muito de si, como se tivesse que resolver os problemas do mundo todo, não consegue desligar. E quem resolve os dele? Ninguém. O vício em oxicodona é só o reflexo da fuga de alguém que não suporta mais viver o que vive, mas sabe que se pular fora do barco, tudo desmorona, ele é o "por um fio" que tá segurando tudo. O filme é uma baita crítica social ao sistema e como eles tratam essas pessoas. Ao salário baixo dos professores e diretores que aguentam todo tipo de situação, agressão verbal e física, assédio sexual e moral, mas principalmente ao burnout e esgotamento da sanidade mental de quem lida com alunos dessa faixa etária entre 13 e 18 anos. Fica claro que quem é da área de pedagogia, faz por amor, remuneração adequada esse povo não tem, muito menos apoio dos órgãos responsáveis. O filme não tem final feliz, é um soco no estômago e tchau. Acredito que tenha sido o objetivo, então a direção entregou com maestria tudo o que o roteiro pediu. Maravilhoso!
Ótima direção de fotografia de Lito Mendes. A ambientação impecável. Gosto muito da interpretação do Miklos, até porque ele tem uma bagagem musical muito ampla, de muitos anos, nada parece forçado e soa muito natural. A cena final em que eles perderam tudo, mas não a companhia um dos outros é linda demais de assistir, dá uma nostalgia. O filme mostra tão bem como a vida, a memória e as canções das pessoas são tratadas apenas como entulhos e tralhas por essas grandes empresas, que se importavam apenas com o possuir coisas, uma sociedade que valorizava apenas o ter e não o ser. O progresso beneficia apenas quem está esmagando os sonhos do outro. Essas pessoas periféricas são invisíveis para o sistema. Adoniran transformava essas pessoas e suas histórias de vida em arte, um legado que marca a gente até hoje.
Adoro o Keanu Reeves, mas não consegui assistir até o final, o filme é horrível. 1 estrela só porque valeu ver o Scorsese. Jonah Hill dirigiu o Keanu mas esqueceu de contratar alguém bom para dirigir a si mesmo. Confundiram fazer piada com virar uma.
"Looks like you've popped into a hornet's nest", essa frase resume o filme todo. A direção de fotografia e a atuação do Farrell são pontos altos, mas é carregado de machismo, agressões e alguns momentos confusos. Ao verificar o contexto da época histórica e bastidores do próprio filme tudo faz sentido, mas não dá para ignorar certas coisas só porque o filme tem uma estética linda e é um clássico, é sufocante assistir sendo mulher, mesmo considerando a época. Esse puritanismo religioso rural e estrutura patriarcal não passam despercebidos. [Spoilers] Vi a idealização de uma esperança de romance nos primeiros minutos e um homem que invalidou a esposa durante a trama toda tentando reconquistar e trazer ela de volta no final, como se nada tivesse acontecido. Cheguei a me perguntar se o filme era uma sátira (à figura do pai), mas não. O filme ia se chamar Our Daily Bread, onde o Murnau mostraria que o campo era um lugar grandioso e a cidade bonita, vibrante e cheia de emoções, porém a Fox achou o filme artístico demais e que não era muito comercial, não venderia. Mudaram o nome para City Girl e forçaram as novas cenas e diálogos que representassem melhor a ideologia americana que eles queriam vender, o Murnau abandonou o projeto antes de terminar a edição e foi gravar outro filme (Tabu). Como resultado, temos o visual lindo, mas um roteiro totalmente desrespeitoso. Saindo dos bastidores e indo para o contexto da época, para entender melhor esse tradicionalismo (se é que é possível entender tanta falta de respeito e machismo), como o roteiro faz o pai do Lem parecer certo, mesmo batendo nas pessoas, ameaçando funcionários de morte, inventando mentiras pra lá e pra cá, tudo isso com a bíblia numa mão e a arma na outra. Pesquisei e li que entre 1920 e 1930 existia uma divisão entre o campo e a cidade na América, na cidade o período conhecido como Roaring Twenties, que resumindo seria Jazz, mulheres independentes, bebidas e liberdade era visto pelo povo do interior como um pecado terrível. Provavelmente o pai do Lem associou a Kate esses boatos exagerados sobre a cidade sem dar chance de conhecê-la (como se ela fosse corromper o Lem). Outra coisa é que a quebra da Bolsa foi em 1929 e o filme é de um ano depois. Não podemos esquecer do código Hays (que ditava o que aparecia ou não nos filmes), já estava começando a aparecer em 1930, as regras diziam que por exemplo pais, juízes e clero não poderiam ser ridicularizados nos enredos e que a moralidade deveria sempre vencer e ser aclamada no final da produção. Isso explica muito o motivo de ninguém ter feito nada contra o Tustine, nem mesmo o filho, que age com uma passividade irritante durante o enredo todo. O Murnau queria que o filme fosse mudo, mas a Fox queria transição para o falado, a versão falada não fez sucesso. Mesmo já tendo direito ao voto, no filme as mulheres são vistas como algo, como nada, alguém para ser subordinada ao marido, lavar, passar, cozinhar, costurar remendos de roupas, cuidar do filho e só, tendo que concordar com todas as decisões do marido sem poder dar opinião em nada, o filme pode até ter falas, mas a mãe do Lem está em um filme mudo, ela só aparece fazendo essas coisas e impedindo o filho de confrontar o pai. Dá pra perceber que mesmo ao discordar de algumas ações do marido, ela recua. O pai fica revoltado quando lê a palavra waitress na cartinha do Lem, eles tratam o Lem como se ele fosse um filho adolescente que tivesse ido viajar, o mesmo, que já se sentia adulto suficiente até para pedir alguém em casamento. O roteiro primeiro prega que o Lem defenda ela, em situações de assédio no trabalho (foi super gentil), onde ela poderia, inclusive, se defender sozinha, mas quando surge a oportunidade de defender sendo esposo dela, ele não faz nada, nem contra os homens, acreditando neles e não nela, nem contra o pai. O roteiro tenta se redimir no final colocando ele batendo no Mac, mas só após ela ir embora, por pura pressão da partida e não por vontade própria. Se o pai conseguiu causar esse desconforto todo em quem assiste, é porque entregou muito no papel, um mérito total do ator David Torrence. Muito pesada a sequência em que a Kate apanha dele, assim que chega, sem apoio de ninguém, dá muita dó quando ela fala "And this is our honeymoon!", ela quebrada por fora e por dentro. De qualquer forma, algumas coisas no filme me marcaram muito, positivamente. A trilha sonora é muito boa, crescente no piano para momentos de drama e romance, violão mais suave para momentos engraçados e alegres. O som casou muito bem com o visual na cena da Kate na janela do lugar onde ela morava, quando passa o trem. A ambientação é muito bem produzida, tem uma planta morta e empoeirada representando a tristeza e vazio que era a vida dela, tem também no quarto uma gaiola de metal com um pássaro, representando essa prisão que ela sentia, mas o mais interessante é que a gaiola segue com ela até o final do filme, representando que mesmo ao chegar no interior, após se casar, ela ainda estava presa, muito mais, aliás. No início eles brincam girando a engrenagem e o passarinho canta, depois dos acontecidos de agressão e assédio, o roteiro nunca mais faz isso, uma ótima alegoria à Kate nunca mais ter sido feliz ali, oprimida e presa. A cidade, as estações de embarque, o restaurante, a banca de jornal, simplesmente perfeito cada detalhe ambientado, me senti em 1930. Os figurantes (não economizaram, são muitos), bem vestidos, bem dirigidos, a cena dele pela cidade é linda, é de uma beleza diferenciada. Apesar do desconforto assistindo, o enredo rendeu alguns momentos de descontração no início, eu ri em algumas cenas no restaurante. Achei ótima a cena deles pelos campos, muito bem dirigida. Essas gravações em campos de trigo, de rosas, girassóis, nunca falham, funcionam muito em romances. Precisamos enaltecer a atuação do gatinho. Também ri muito na cena que o velho fofoqueiro conta pra todo mundo que ele casou e os feiosos começam a se arrumar na carroça, porém depois durante o filme, quando mostra que eles são assediadores é muito desconfortável, todo mundo dando em cima dela, pegando no corpo, nas roupas, como se ela fosse um pedaço de carne pendurado no mercado. Outra cena linda é a da colheita, é muito boa, tem muitos detalhes, desde o recolhimento até o ensacamento do trigo, a cena com os cavalos, as montanhas. Outra cena engraçada é a que o trabalhador lava o rosto na água que o cavalo tá bebendo e quando vai dar a água de volta o cavalo vira a cara e não quer mais, é muito cômica, é muito engraçada. A atuação da Mary Duncan como Kate foi impecável, ela oprimida, encolhida, com o olhar caído. A cena do abajur, em que o Mac entra na casa é muito desconfortável, muito bem dirigida, a iluminação direcionada à parede simulando apenas a luz do objeto em cena, as sombras, deixou a cena muito mais tensa do que já seria, um grande acerto. Quando o Mac passa a mão nela, é muito apavorante. O assédio sexual que ela sofria é desesperador porque a pessoa está no meio do nada, em uma fazenda, na cidade você tem para onde correr atrás de ajuda, de pessoas. Acho muito forte quando o Lem pergunta se ela não tem nada a dizer e ela apenas sinaliza com o rosto que não, uma hora a pessoa cansa e desiste de justificar. Também quando ela diz que qualquer homem pode arrumar uma mulher, mas é necessário muito mais que um anel e um documento para segurá-la. É uma das frases mais reais e profundas representando a situação dela, ali ele já tinha perdido ela. Como em todo filme que vi de 1927 à 1930, a redenção do marido sempre vem nos últimos dois segundos do roteiro. A cena dos cavalos correndo com o Lem e o Mac brigando na carroça é muito bem feita, cena com animais são difíceis de gravar, o pai dele atirando, entrando em pânico, aparece "father" na tela, depois mostra que o tiro não acertou no Lem, ele indo atrás dela, a sequência ficou muito boa. O Lem pareceu genuinamente arrependido, porém sinto que ter feito isso tão tarde prejudicou muito o roteiro. Eu não ousaria comparar City Girl com Sunrise, em Sunrise a gente vê o Murnau em tudo, aqui só em alguns detalhes, nada é tão marcante como é no outro filme, a Fox interferiu muito.
Guillaume Cassuto arrasa muito! Os visuais do Patrick O'Keefe ficaram lindos demais, eu já havia amado a direção dele no Aranhaverso. Espetacular ver o trabalho do Renan Porto representando o Brasil no filme. O Bowser rouba a cena, igual no primeiro filme, a voz do Jack Black imprime muita personalidade na dublagem. Mesmo sendo uma animação, o roteiro fez questão de inserir tantas camadas, o personagem aparece mais emocional em alguns momentos fofos com o filho. O pai ausente mais presente que temos! Sou muito fã dos jogos desde pequena, mas não esperei uma adaptação muito robusta nessa sequência, então gostei muito do filme. Quem não jogou Wii pode se perder em alguns momentos. Cheio de referências nostálgicas. Os gráficos estão lindos, o neon, os planetas. Ótima direção de Aaron Horvath e Michael Jelenic.
Bem melhor que o primeiro, aqui o enredo flui, o espectador já sabe como o jogo funciona, então é só se adaptar às novas regras. [Spoilers] Com a Faith em cena, a Grace tem uma motivação maior, que é proteger alguém no jogo, diferente do primeiro, que é cair aleatoriamente no jogo apenas pela sobrevivência crua. Não que isso não seja importante, mas cativa mais quem tá assistindo. A tensão emocional entre as duas é interessante, mas um pouco cansativa. O ponto alto pra mim é o roteiro satirizando os ricos, esse povo se mata entre si, sem precisar de nenhum motivo específico além do financeiro. O gore está na medida certa. As piadas sobre as explosões de sangue trazem alívio cômico. O ritual e a cena do casamento são muito boas, me surpreendeu, eu não esperava tanto da sequência, mas entregaram, a última cena em que eles se matam atrás do anel é a melhor do filme. Ótima atuação da Samara Weaving. Não é um filme memorável, mas é um gore leve pra rir.
É desastroso! Foi saturado acompanhar por duas horas. [Spoiler] O ritmo do filme é péssimo, e as atuações completamente mornas e sem sal do Brandon Sklenar e da Sydney Sweeney só arruinam tudo ainda mais. Ela não entregou na atuação e nem na narração. Até Beyoncé em Obsessiva conseguiu entregar mais no final. Mas claro, o público que assiste com o cérebro desligado (ou apenas para vê-la pelada) vai dizer que foi a melhor atuação de todos os tempos. Não foi. Quando a atuação não vende a ideia, a gente simplesmente para de se importar com o que vai acontecer com os personagens. A atuação da Amanda Seyfried carregou o filme nas costas, mas não foi suficiente pra salvar o enredo corrido da última meia hora, que atropelou o timing de tudo. Para que a reviravolta funcionasse, deveriam ter preparado o espectador, com atuações mais convincentes. Como há inexpressividade por má atuação em boa parte do enredo, no final não convence, pois não vendeu àquela ideia em momento algum, não cativou no espectador algo que compensasse a surpresa do plot. Por sorte, a Amanda rendeu ótimas (poucas) cenas. Apesar de tudo, gosto do roteiro empoderando mulheres contra homens abusivos, e também mostrando que o comportamento narcisista e sociopata quase sempre vem da influência da criação dos pais. O roteiro reforça isso usando a mesma frase várias vezes, uma em cada geração. Não li o livro da Freida McFadden. A entrevista da Amanda falando sobre descobrir que era produtora 3 semanas depois, faz tanto sentido. De qualquer forma, é um filme totalmente esquecível.
Outra direção primorosa do Murnau! Que filme maravilhoso! [Spoilers] Uma das primeiras frases da Ellen é "Why did you kill them... such beautiful flowers?", e não está ali por acaso, aliás, nada em um filme do Murnau é por acaso, a frase se conecta tão bem com ela se sacrificando no final para salvar a vida de todo mundo. Só uma pessoa que prefere ver as flores vivas no jardim do que em um buquê se importaria o suficiente para se entregar e salvar a cidade. Gosto como o conto vai passando na tela, como se estivéssemos lendo o livro, o detalhe das páginas rasgadas. Dividir o filme em atos também é um acerto, combina muito com a vibe gótica do Expressionismo Alemão, observei que dá tempo de lermos a página toda, tem filmes mudos da mesma época que não respeitam o tempo de leitura do espectador. Achei muito importante o romance entre o casal contrastando com as mortes, equilibra, é um alívio na trama. Ela correndo pra se despedir dele (de novo), abraços, beijos, cartas. Imagina você viajar para uma cidadezinha e no quarto que você se hospeda, tem um livro contando basicamente tudo que vai acontecer com você nos próximos dias, que você vai ser atacado e mesmo assim continuar lá. Admiro a audácia do Hutter de jogar o livro no chão, fingir normalidade e rir do perigo, se eu fosse o Conde também atacaria quem debochasse do meu livrinho, uma falta de respeito com nosso vamp-mor. Achei muito engraçado os cavalos fantasmagóricos com os rostinhos tampados e só os olhos de fora (espero que não tenha sido desconfortável para os bichinhos). Até os figurantes nesse filme são super expressivos, que produção detalhista. Eu achei genial terem misturado imagens no set com cenas reais no castelo eslovaco e em pontos na Alemanha, o Murnau realmente se compromete. O chão quadriculado, as cadeiras longas, a caveira no relógio, os quadros e tapetes pendurados. Além da casa do Conde, também me chamou a atenção a ambientação da sala de reuniões com as miniaturas de barcos na estante e na parede, o tridente e o quadro. Lindo. A direção de figurino acerta em tudo, o contraste das roupas claras do Hutter com as sombrias do Conde. Os óculos redondos da época. A maquiagem esbranquiçada do velho e o cabelo todo ouriçado, dele e de metade do elenco, esse visual desleixado e descabelado combina muito com o gênero horror, diferencia o filme totalmente dos filmes americanos da época, que se preocupavam muito com a aparência dos personagens principais, super polidas e alinhadas, pelo menos os que eu assisti até agora. Os rabiscos nas paredes onde o Knock está, a cidade toda suja, as unhas das pessoas, tudo isso passa esse clima de peste e praga pela cidade, inclusive, o desespero do povo lembra o da Peste Bubônica, é muito similar, todo o caos. O filme é de 1922, a Gripe Espanhola de 1918, imagina esse povo assistindo a um filme que relata a chegada de uma doença sem solução por meio de navios, isso é assustador por si só, o Conde acaba sendo a representação física desse medo. Algumas cenas me marcaram muito, mas sem dúvidas a que mais marcou com relação a isso foi a sequência em que as portas são marcadas com cruzes representando quem morreu, os caixões sendo carregados pelos homens de sobretudos pretos, cartolas, expressão bem triste, e a quantidade de caixões posteriormente toma conta da rua inteira, visualmente muito forte. O Dr. Sievers explicando um pouco sobre os experimentos também muito representativo, tentar desvendar algo sobrenatural através da ciência, a gente vê isso em The Walking Dead e The Last of Us, em todos eles a ciência falha pra fazer sentido no enredo. Mas é bom trazer esse outro lado para quem assiste. Quando tudo fica explicadinho e a medicina ou ciência apresenta uma solução, parece que o terror perde a graça, pelo menos pra mim, o mistério e a incerteza entretém muito mais, até porque quem quer roteiro redondinho e previsível vai ver filme de romance. Terror tem essa aura enigmática, de deixar a gente o mais agoniado possível (terror bom, porque tem uns que só pela misericórdia de tão ruim. Pode entrar, The Nun!). As atuações estão impecáveis, o destaque, claro, é a do Max Schreck como Conde Orlok (na época, as pessoas achavam que ele era um vampiro, de tão bom em cena), do Gustav Von Wangenheim como Hutter e da Greta Schroder como Ellen, os atores entregaram muito! O Nosferatu com a postura encurvada quando o Hutter chega no castelo, as mãos pra dentro com aquelas unhas gigantes, os olhos arregalados. Sempre desconfiem de pessoas que disserem "Your wife has a lovely neck". A cena do Nosfe dormindo em pé à noite é uma com o visual mais legal, a iluminação, a projeção de sombra, ficou linda. O andado dele de costas, assustador. A imagem centralizada na porta, e o resto da tela escura, ótima direção de fotografia de Fritz Arno. Sequência surreal de boa a que ele vê o Conde no caixão, só o rostinho. Ele se arrastando na escada, perturbado no quarto, o Nosfe indo atrás da Ellen. O Conde levantando no barco também e aparece "the dead ship had a new Captain", muito bom! Inclusive, a tipografia estilo Fraktur usada é algo marcante, nós, designers, usamos até hoje esse tipo de fonte no Adobe pra criar convites de festas, flyers, etc. Claro, a do filme foi feita à mão pelos artistas, mas mesmo assim vale lembrar que um século depois, ainda usamos no nosso dia a dia. Outra coisa linda é o uso do stop motion, aquela cena da porta se abrindo ficou perfeita. Essa coisa do quem vai chegar primeiro até a Ellen é muito bem construída no roteiro. Achei apavorante ele com a cara na janela quando a Ellen olha, misericórdia! A coreografia das mãos do Nosfe no filme, me lembrou muito a que o Michael Jackson usa no clipe Thriller. Talvez o diretor do clipe tenha se inspirado. A cena mais icônica do filme é provavelmente quando ele chega na casa da Ellen, a da sombra. Ele subindo, a sombra na parede, entrando no quarto até o corpo dela, o olhar dele fixado na câmera diretamente para o espectador, ele se jogando ao ver o sol. É dramática, mas combina muito com o tom do conto. Diferente de filmes dos anos 20 que dramatizam por dramatizar, sem justificativa. Ele virando fumaça, pode ter sido uma referência do Murnau a Le voyage dans la lune do Méliès, porque 20 anos antes ele criou o mesmo efeito transformando os selenitas em fumaça. A trilha sonora se encaixa perfeitamente. A montagem e edição ficaram muito bem executadas, o filme é preto & branco, mas puxado para tons, e eles vão mudando a tintagem de acordo com o clima do filme, percebi que em momentos mais tranquilos ou de dia, ele fica amarelado, quando a cena pede algo mais sombrio ou noturno, fica azulada meio acinzentada, como por exemplo quando ele desce da carroça está amarelado, entra no terreno do Conde, fica azulado, tirando a alegria e o calor da cena. Em alguns momentos também notei o uso do Magenta. O mais interessante é que isso só acontece até certo ponto, um hora essas edições se embaralham e o ambiente amarelado que era o seguro, não é mais, e isso causa pânico em quem assiste, deve ter sido o objetivo de quem editou. Por exemplo dentro do castelo o Conde aparece em alguns takes amarelados, é como se o ambiente tranquilo tivesse sido contaminado pela praga e ninguém mais está seguro em lugar nenhum. A cena do espantalho e do mar cria um link na gente direto para Sunrise, também do Murnau. Esse filme tem uma fórmula, que vejo replicada em uma imensidão de filmes ao longo desses 100 anos. Um lunático comentando sobre algo assustador, alguém viaja, descobre ou revive esse algo ou alguém, que ataca todo mundo, o protagonista sobrevive (esfarrapado) ou se sacrifica para salvar a todos. O Spielberg e o George Lucas têm tantos. Nosferatu já fazia isso no século passado. O filme é reconhecido até hoje como o clássico pai desse tipo de terror, mas tem a história muito triste. Eu li sobre a Prana Film, que convidou o Murnau pra fazer esse filme, um plágio não autorizado de Bram Stoker (Drácula), só fez um filme em todo o seu tempo de duração como produtora, faliram em seguida. A Florence Stoker processou e ganhou a causa, óbvio. As cópias foram destruídas e a gente só tem acesso ao filme porque algumas escondidas se salvaram. Um dos melhores filmes de terror que assisti.
Direção maravilhosa do Hugo Carvana! Aquela voz de locutor no início já faz a gente rir. [Spoilers] Direção de fotografia impecável de José Medeiros, os grãos na tela dos anos 70 também ajudam muito a levar a gente para a década, dá vontade de estar lá no bar com eles. Regis Monteiro acerta muito nos figurinos e cenografia. Cabelo bagunçado, camisa aberta, correntinha, calça flare e a atuação tão precisa do Carvana, nem parece que leu um roteiro, de tão boa você jura que ele é malandro. O enredo te prende do início ao fim. Ainda falando sobre o Hugo em cena, o cara se desdobra em mil facetas, um artista com repertório muito completo, entrega tudo, ex-presidiário, conquistador, comendador, padre (picareta), cachaceiro, filósofo, autoconfiante, negociador, até bondade. Vontade de ver as pessoas de quem gosta conquistando coisas (claro, pra ele não importa de onde esse dinheiro venha). Confesso que a pós-sincronização das vozes incomoda demais, eu tenho o hábito de estar atenta ao que está sendo dito, e muitas vezes os lábios não estavam sincronizados. Mas acredito que naquela época era mais cômodo e comum esse tipo de pós-edição de montagem e som. Não prejudicou o filme em nada. Algumas críticas sociais estão muito presentes, apesar de parecer ser um filme despreocupado, a cena em que eles falam sobre as empresas que vão tirar as pessoas de suas casas para fazerem construções. O momento em que o Dino rouba a grana, mas compra presentes e leva de volta para as crianças da vila que vivem nos barracos, quase um Robin Hood da malandragem. Eu adorei a cena em que ele e a Zezé Motta estão na casa dos patrões dela, ele abrindo as portas sincronizado com a música é bom demais, depois eles dois dançando Ella Fitzgerald. Eu queria namorar o Carvana em 1973 só pra ele dançar comigo igual ele dançou com a Shirley. Como pode um conquistador barato entregar mais momentos românticos do que a maioria dos homens? Essa cena foi muito leve. Inclusive, o Hugo nesse filme tem um charme em cena, não consigo imaginar outro ator no papel. Em 1 hora e meia de duração, perdi as contas de quantas pessoas ele paquerou (lembrando que não dá pra ignorar, apesar de ser engraçado no roteiro, também do contexto e da época, em alguns casos soa como assédio e o jeito que ele fala de mulheres com os amigos como machismo. Olhando do nosso contexto atual, falas como a de que o corpo da esposa tá se acabando (Babaloo), mulher como troféu de partida, ele pedindo pra ela expor o corpo em troca da pizza, são péssimas. Embora o próprio enredo traga certa redenção quando a gente vê que ele é gente boa, mas vale a menção). Algumas frases do nosso "filósofo" que me mataram de rir: "aquela ali é um bagulho perto de você minha santa", "Não desperta o gigante, não desperta o gigante", "cobra que não anda, não engole sapo", "Camões, comendador? Não. Dom Gustavo, poeta espanhol e aventureiro", "Dona Heloísa, me devoras o coração". A maior ironia é ele cantar "vai trabalhar, vagabundo" pra todo mundo, e ele mesmo não trabalha, e ainda responde "eu não vou que eu não sou louco. Ou sou?". Uma cena muito fluída é a que eles estão contando o que acontecia no passado no bar, eles andando e interagindo com o passado. Cinema! Outra que gostei foi no final, o bar é o elemento central físico, as sequências entregaram tudo: saudade, felicidade, tensão, brigas, silêncio, conveniência, tiroteio, bandidagem, romances. A direção das cenas com muitos atores em cena são muito boas. É um caos, mas muito bem organizado por quem sabe o que está fazendo. Nelson Xavier, Paulo César Peréio e Valentina Godoy também brilharam muito. E misericórdia, como essa Valentina é bonita, não conhecia essa atriz. O filme exala liberdade, liberdade de corpo, de alma, de mente. Isso é atraente demais. O roteiro conseguiu fazer duas pessoas comendo pizza e tomando cerveja ser extremamente sexy. O filme começa em p&b indicando a cor que a vida perde quando se está preso e se encerra com cores, calor, sorrisos na escadaria e no calçadão do rio. Que coisa linda! Esse filme merecia mais visibilidade, nunca fui ao Rio e me senti moradora de lá, mesmo caótico, é muito aconchegante. Na música final ouvi o nome dos personagens, fui pesquisar e vi que o Chico Buarque compôs especificamente para a obra, achei muito legal, gostei muito dessa energia toda de 1973. Se amanhã eu acordar querendo usar só calça flare, cabelo desleixado de rockstar dos anos 70 e passar o dia jogando sinuca, a culpa é desse filme.
Que coisa boa ouvir o Carvana, ir vendo as imagens e documentos dos anos 70 e 80 e a evolução do cinema brasileiro. O que mais gosto no Carvana é que ele não conta mentira nos filmes, ele mostra a realidade brasileira, muita gente precisa do jeitinho brasileiro pra ter o mínimo pra viver. Ele debocha da burguesia sempre que pode. Trilha sonora maravilhosa! Por trás do sorriso do malandro existe desigualdade e luta, é preciso usar toda a malandragem que puder pra sobreviver. Essa é a essência do Lourival, no filme Vai Trabalhar, Vagabundo, que, inclusive, foi corajoso em confrontar a ditadura e mostrar no filme um Brasil real. Isso é resistência! A melhor música da trilha do documentário retrata tudo o que o Carvana pensa e representa como militante e amante da Democracia, já que ele foi ativista, e mesmo depois do sucesso continuou usando a sátira e o humor como armas políticas para trazer luz para as pessoas que nem sabiam o básico sobre consciência de classe. Gosto muito dessa música, ela é tão forte, toca na ferida sem dó. "Canção do subdesenvolvido", por Carlos Lyra, 1962: [...] Santa Cruz...hoje o Brasil Mas um dia o gigante despertou Deixou de ser gigante adormecido E dele um anão se levantou Era um país subdesenvolvido Subdesenvolvido, subdesenvolvido. [...] O povo brasileiro embora pense, dance e cante como americano Não come como americano Não bebe como americano Vive menos, sofre mais Isso é muito importante Muito mais do que importante Pois difere os brasileiros dos demais Personalidade, personalidade Personalidade sem igual Porém... subdesenvolvida, subdesenvolvida E essa é que é a vida nacional!
James Cameron não brinca em serviço! Um dos filmes com os visuais mais lindos que eu já vi no gênero. Uma obra de arte! A história deste me cativou mais que a dos outros dois. [Spoilers] A Varang é uma ótima vilã, deu muito certo ela com o Coronel Miles, que quem diria... se apaixonou! Hahahh. O Coronel aqui tem novas camadas e desperta vários sentimentos na gente, ódio, empatia, desespero, humanidade (ou pelo menos uma tentativa), tristeza, dó. Acho que o personagem se despede muito bem da saga. Do filme todo o desenvolvimento dele é um dos meus favoritos, o enredo investiu muito e o resultado ficou ótimo. Alguns personagens tiveram um tempo considerável de tela e não entregaram tanto. Na minha opinião o Jack Champion, que faz o Spider é engolido pelos outros atores. Os efeitos visuais também deram um toque de expressividade muito grande para os personagens digitais, o que potencializa ainda mais o contraste com a atuação dele, que parece travada, falta intensidade emocional quando comparado ao resto do elenco, falta carisma pra segurar tanto tempo de tela. O Stephen Lang entrega muito em cena, não teve nenhuma cena que ele não marcasse território e comprovasse o talento que tem. O ator conseguiu entregar um vilão intimidador, mas que conquista a gente, que se vê torcendo o tempo todo pela redenção dele e fica triste quando vê ele preferindo se jogar no fogo (ainda acho que ele deve sobreviver) do que aceitar que perdeu a Guerra. Um cara que viveria muito bem ali no meio deles, mas que sempre foi tomado por memórias passadas que lá no fundo, nem importavam nesse nível, mas ele se apegou tanto àquilo e transformou em destino. Ele acabou virando uma versão de tudo o que mais odiou por tanto tempo. Ansiosa para ver ele nos dois próximos capítulos, já que o ator confirmou que vai estar. Gostei muito da humanidade que vem sendo construída no personagem quando está junto com o Spider. O Quaritch está psicologicamente abalado, mas como já saiu por aí falando que é impiedoso e que tem zero misericórdia se sente inferior se voltar atrás. O Lo'ak amadureceu tanto, o filme desenvolve essa trajetória muito bem, mesmo que os meios para isso tenham sido a teimosia, rebeldia e ter que enfrentar todos os adultos, ele tinha um ponto e foi atrás até provar que estava certo e todo mundo respeitar. Os filhos do Jake em vários momentos acabam agindo como mãe e pai um dos outros, acho legal como o filme faz isso de forma natural, não como se fosse algo errado, mas mostrando que está tudo bem ser quando a família tá no meio de uma Guerra. Os Na'vi tem muito isso, essa independência, é cada um por si, mas se alguém mexer com você, todo mundo vai estar ali. Senti negligência por parte do Jake em alguns momentos, o filme até trouxe essa redenção no final, ele sempre castigando o filho pela morte do outro, o coitado procura validação do pai o tempo todo, e nada. Chega uma hora que ele desiste de ser alguém como o pai e descobre uma versão de si bem melhor que a dele. Todos nesse filme têm crises de identidade, e vão resolvendo aos poucos, o bom é que o roteiro inclui a gente nessas descobertas. Direção de arte e design impecável de Dylan Cole e Ben Procter. Que coisa linda Pandora! A direção de animação e efeitos visuais me marcaram demais, eu não esperava menos do Joe Letteri já que ele esteve em O Senhor dos Anéis, ele é o melhor que temos! Edição e montagem impecáveis! O James gosta de ficar em cima, cuidando de cada detalhe, o resultado fica incrível! Tudo lindo! São 3 horas de duração sem piscar, e poderia tranquilamente ter mais duas.
Tive que pesquisar o que era Coquette e descobri que basicamente é (ou era) uma mulher que se arruma muito, flerta com todo mundo, mas não fica com nenhum deles, não era algo ofensivo, às vezes usado como julgamento para dizer que alguém era manipuladora ou vaidosa, mas só. Acho que o termo de hoje mais próximo seria o biscoiteira. Achei que a personagem seria fútil do início ao fim, mas em certo momento a atuação da Mary Pickford entregou profundidade. Considerando que o filme é um dos primeiros migrando do cinema mudo para o falado, foi um baita desafio para a carreira, acho que ela se saiu muito bem. Não ficou teatral e dramático em excesso como alguns da época, mesmo sendo uma adaptação de uma peça da Broadway para o cinema. Vi a menção ao Assistant Dramatic Director Earle Browne nos créditos do início, nunca tinha visto nos outros filmes antigos que estou assistindo, pesquisei e foi um termo criado para nomear quem ajudasse a adaptar o filme para o cinema falado, o técnico e o artístico, esse cargo era pra quem fazia a transição, garantindo que nada se perdesse nas atuações e nos sons. Equilibrando a dramatização em todos os aspectos do filme, sem exageros e sem a falta dele. A direção de fotografia é mais estática do que a maioria dos filmes anteriores de cinema mudo, acredito que pela da falta de locomoção da câmera mesmo, por conta de ruídos ou peso. Não é ruim para o filme, até combina, dá uma sensação de sufocamento dentro da casa e da vida da protagonista, que é um caos emocional. Uma casa cheia de hipocrisias, assim como a sociedade dos anos 20. As mulheres criaram coragem de cortar o cabelo (as flappers) ali em 1918, 1929 está bem pertinho, então a sociedade ainda via isso com cara feia, muito corajoso a Mary cortar o cabelo longo e se arriscar em um papel totalmente diferente dos fofinhos que fazia. Vi que ser Coquette não era necessariamente mal visto, claro, no meio dos ricos, assim como hoje em dia, vai um pobre fazer o que quer, é julgado em tudo. Mas a riquinha da época que decidisse ficar com todo mundo, encher a cara, etc, não se dava mal, desde que ninguém descobrisse, já a pobre, era jogada na sarjeta, perdia a vida social (que nem tinha) e nunca mais arrumava ninguém. Me pergunto se tudo isso tivesse acontecido entre a Norma e o Stanley, se o pai dela faria algo. Provavelmente não. Analisando a personagem Norma, é uma pessoa muito mentirosa e manipuladora, brinca com os sentimentos de todo mundo pra manter o próprio ego em dia. Um século depois e muita gente ainda faz o mesmo. Acho que nem ela achou que algo que era pra ser só curtição resultaria nela viúva e órfã, virando mãe do irmão. O filme tem dois pontos fortes de atuação pra mim, quando ela perde o Michael e quando ela mente no tribunal. Quando ela perde ele e se sente desolada e diz "I don't care" sobre o pai, dá pra sentir os primeiros indícios de que havia sentimento real ali. Quando ela mente a gente vê que o medo da repressão social e tentativa de agradar o pai era maior que qualquer ponta de caráter. Fiquei sem acreditar que ela teve coragem de acusar um cara tão bom de abuso sexual. Pesado! Imagino a revolta do povo de 1929 assistindo isso, basicamente todo mundo ali assistindo se importava horrores com a própria honra, honra essa que definia quem você era, onde trabalhava, quem andava com você, em quais lugares era bem-vindo, etc. O espectador sabia que a maior dor da época era ter a honra manchada, acabava com a família. Tudo em prol de manter as aparências de uma vida tradicional e hipócrita do lar conservador (que de conservador não tinha nada). Não sei como ela conseguiu, porque nem o pai, que era super egoísta e preconceituoso, conseguiu ver ela inventando tamanha falta de respeito contra o Michael, caiu em si e percebeu o mini monstro que criou (cópia dele). O pai é tão culpado quanto, um cara que prefere tirar a própria vida do que ser preso e encarar as consequências de seus atos. Ninguém saiu ganhando. O Michael era a única pessoa que tinha integridade, o resto, cada um tinha seus traços tóxicos. Para o pai, a reputação da família e a virgindade da Norma eram mais importante que tudo, inclusive, vidas. Mas me pergunto, se ela tivesse feito tudo isso com o Stanley, que era rico, ele faria vista grossa e seria o primeiro na fila do cartório de manhã querendo casar os dois. Hipócrita! Quando a Norma mente sobre o abuso, acho que ele entende que a honra que ele tanto queria salvar matando o Michael não existia, ela era mentirosa e desonesta, assassinou um cara legal e inocente em troca de nada com nada, de controle moral. A filha era um troféu, uma bonequinha que ele idealizava como pura, mesmo vendo ela dando condição e recebendo flores de vários caras. Tanto o pai, como a filha, destruíram tudo que diziam amar. Fora que usava dois pesos e duas medidas entre os filhos, quando o filho homem fala que estava "fooling around" até 4 da manhã, e ele achou que era acompanhado de mulher, ele se mostrou super orgulhoso do filho e a raiva evaporou em segundos. Homem galinha? "Esse é meu garoto". Mulher apaixonada por alguém que ele não quer? Crime. Moral seletiva: qualquer semelhança com os dias de hoje é pura coincidência. Dinâmica familiar totalmente disfuncional. A Norma busca por validação externa de todos com quem flerta pra tentar fugir do ambiente sufocante que o pai cria. Mentira patológica, a solução que ela encontra pra tudo é mentir, isso, até a cena final. Como o pai é super repressor, ela entende que precisa criar um mundo fake onde agrade todo mundo, principalmente ele. Ainda mais naquela época, onde a narrativa dos pais é a que valia na vida de alguém. Na verdade ela usa as mesmas ferramentas de manipulação que aprendeu com o pai. É importante na cena final o filme mostrar a Norma recusando o casamento com o Stanley, pois mostra que após todas as mortes, houve um colapso total na persona que ela criou, os flertes, namoros e casamentos não eram mais importantes, ficou só o vazio da solidão e da melancolia das perdas. As prioridades mudaram. O amor, mal administrado, acabou envenenando as pessoas e a saúde mental de todos os envolvidos. As atuações dos pretendentes, dos atores John Mack Brown e Matt Moore são bem medianas, ficam ali quase como figurantes, a Mary se sobressai em todas as cenas. Atuações mecânicas demais, muito teatrais, no mal sentido. Já ela, mesmo vindo do cinema mudo que é muito teatral e expressivo com o corpo, soube equilibrar, principalmente do meio para o final. Sobre o Oscar que ela ganhou. Se não fosse uma pessoa poderosa, influente e dona do estúdio United Artists, ela teria ganhado? Fica aí o questionamento, pelas atuações que vi da época em filmes de 1928 e 1929, não achei que a dela nesse filme merecia um Oscar. Isso, considerando o meu pensamento atual. Talvez em 1929 as pessoas acharam o filme incrível e viam ela como pobrezinha que sofre na trama e o pai como homem que se matou pela honra. Um destaque pra mim é a atuação do John St. Polis, muito polida, só abria a boca pra me irritar, e isso é bom. O filme não é tão ruim, considerando a época. Mas levar Oscar?
Manipulação emocional em seu mais alto nível! [Spoilers] Como essa mulher teve coragem de arrumar as malas e fazer todo aquele drama, sabendo que estava mentindo em cada palavra? Medo de gente assim. Ela ignorou qualquer traço de humanidade que restava, tudo isso pra proteger o próprio ego das consequências das escolhas que tomou. Fora, claro, o crime do abuso da relação de confiança e autoridade, vindo da responsável legal. Abuso de vulnerabilidade emocional e familiar, assédio sexual hierárquico. Um marido machista que foi baixando a guarda no decorrer da trama para se adaptar às necessidades dela e do filho. Muito omisso e frio, que não entregava um pingo de afeto, mas mesmo com todos os defeitos, consegue a empatia do espectador, por estar sendo duplamente traído. Magnus Krepper não entrega a melhor atuação quando comparado com a Trine Dyrholm que engole todo mundo nas sequências. Você sabe que a atuação foi boa quando sente repulsa e vontade de esganar o personagem. Gustav Lindh entrega o que o roteiro pede, personagem muito frágil que vive cometendo uma série de idiotices para chamar a atenção porque no fundo se sente incompreendido e consumido pela depressão (pais divorciados e ausentes, drogas, não se situa em lugar nenhum). Quando você é esse tipo de pessoa problemática, mesmo quando você fala a verdade, infelizmente ninguém acredita. Uma coisa que me pega é isso dos casarões dos ricos, essas pessoas têm uma casa enorme, mas sempre vazia, monótona, sem vida, é um loop de: trabalho em troca de uma grana que não compra nada que os faça felizes, cigarro, bebidas (whisky e espumantes), falta de diálogo, festas artificiais para receber amigos artificiais, e no outro dia a mesma coisa. A paleta de cores e a ambientação é muito boa, essa frieza estética combina com a sensação de terror e impunidade que o filme deixa na gente (de propósito). Vi a sugestão na tela inicial da minha tv entre os filmes mais vendidos da semana, fui assistir com zero expectativa, até porque não conhecia a diretora dinamarquesa May el-Toukhy, foi uma surpresa boa.
Ótima atuação da Janet Gaynor, muito superior às duas anteriores. Ela naturalmente tem esse rosto angelical, combinou muito com a temática do filme. Senti muita vulnerabilidade na atuação dela no início, na fase de pobreza extrema. Ela e o Charles Farrell têm uma química enorme em cena. Essa vibe de Itália romântica é mérito do Frank Borzage, a névoa, os jogos de luzes bem posicionados. Direção técnica e artística impecáveis! O enredo é dramático demais considerando os dias de hoje, mas para a época serviu muito bem. Prefiro esse, inclusive, do que outros da época que tenho assistido, muito teatrais e exagerados. A direção de figurinos brilha muito, considerando que o filme é preto e branco e as roupas tiveram um papel importante na consolidação de sinalizar o passar de uma fase para a outra. O filme parece uma pintura em movimento, e faz total sentido já que estamos falando de um pintor e uma artista circense se apaixonando. Dá pra sentir toda a força do expressionismo europeu aqui, funciona muito porque cria um universo deles dois paralelo ao mundo ruim em que vivem, quase como que um sonho mesmo. As atuações da Janet exigiram muitas mudanças, primeiro ela era uma filha desesperada por remédio, depois saiu pelas ruas se passando por acompanhante, depois é acolhida e se torna artista, desconfiada e durona, depois se apaixona, vai se tornando doce, volta a ficar desesperada, no final entrega muita agonia naquela cena do reencontro deles. São muitas fases e isso exige uma qualidade técnica absurda do ator pra não parecer ter a mesma cara em todas elas, a Janet conseguiu transitar de uma para a outra de uma forma espetacular. Ela é uma artista completa! A história do casal é legal, mas tem alguns pontos que me pegam, a questão dos bens materiais, tudo girando em torno do dinheiro, fama, etc. A falta de sinceridade da parte dela, quando foi informada de que seria levada, bastaria um "vamos conversar?", sentar e contar o que aconteceu e a vida deles teria sido totalmente diferente. Gosto de como ele a vê com a beleza de uma Monalisa, quando a pessoa ama tende a ver o que há de melhor no outro sempre, isso é legal. O final acaba sendo um pouco decepcionante, ele demora tanto para redefinir o que sente, principalmente no momento em que pega ela pelo pescoço. A sequência na rua parece mais de um filme de terror, embora eu entenda que ele passou muito tempo alimentando um ódio mortal por ela achando que tinha sido enganado e só queria se vingar, acaba vendo nela só um fantasma do passado, algo ruim que representava a traição. Dá pra sentir que o cinema mudo usa muito isso de indicar o que se passa no psicológico dos personagens através da ambientação do lugar, o diretor criou isso muito bem nas cenas finais, tudo muito agoniante, pra gente e pra eles. Entendo que se ele reconhecesse ela de imediato iria perder o clímax da redenção e o final não seria como o público de 1928 estava acostumado, cheio de drama e romance em excesso. Em algumas cenas o machismo aparece de forma muito estruturada, na cena em que a cartomante está com o cara dentro da carroça. É bem desconfortável de assistir. O Gino também vê a Angela como uma mulher normal com problemas e percebe que não é o anjo que ele projetou na mente dele, trata ela totalmente diferente de uma forma punitiva e injusta. Tudo fica nas costas da Angela, o enredo humilha ela, destrói emocionalmente para ser digna do perdão do Gino, que inclusive, se coloca no direito de achar que pode julgar ela. Como na maioria dos filmes da época, a mulher que passa o filme todo em busca de conquistar o perdão do homem que ama, que ainda sai como herói. Enfim, estereótipos da época. Mesmo com essa problemática, o filme é bom.
Gente bonita dançando rockabilly dos anos 60. Amo essa estética de filmagem dos anos 80, esses takes dos pézinhos aparecem na maioria dos filmes. Todo mundo vive em prol apenas de dançar e fingir que está feliz enquanto o mundo desaba. Muito nostálgico, nem vivi essa época e sinto saudade, aliás, das duas, anos 80 e 60.
Direção impecável do Murnau! Toda a edição e ambientação combinam com o tom do filme, a fonte usada nas letras, a iluminação, os cortes. A trilha sonora ajuda muito a transitar entre sentir ódio pelo protagonista, desespero, ternura, pena, tudo vai se encaixando tão bem. [Spoilers] Dá pra sentir a luta interna do homem. O George O'Brien é muito expressivo, o olhar dele no barco segundos antes de querer matá-la me lembra muito o do Jack em The Shining, contrasta tanto com o olhar dele no final super triste e amuado quando ele acha que a esposa morreu. Um ator muito completo, entregou tantas facetas, um filme que conseguiu explorar todo tipo de gênero no ator, drama, ação, terror, comédia, musical. Não faltou nada, do início ao fim o George entrega com perfeição tudo que o roteiro pede. Janet Gaynor aqui está bem melhor do que em 7th Heaven, a atuação está dramática, mas não tanto a ponto de ser teatral, é mais fluida, mais natural. A direção de arte arrasa tanto, considerando que é 1927, esse povo fez tanto tendo os poucos recursos que tinham. O barco como elemento físico central funciona tão bem. A primeira viagem quando ele quer assassinar ela carrega terror e drama, a segunda com eles voltando da cidade romance e arrependimento genuíno e a terceira quando a tempestade chega carrega caos e desespero, seguido de luto e tristeza, na cena final do velhinho o barco volta à cena carregando esperança. Muito bom! Mérito do roteiro e direção. Outro elemento que indica as mudanças do tom do enredo é o tocar do sino, em todas as vezes que tocou o filme entrou em outra fase. O trem não apareceu muito, mas também teve importância nisso, primeiro eles entram logo após a cena do pântano que também foi ótima e cheia de desespero, o casal está desestruturado, afastado, ela triste, sem laço algum e mais tarde na cidade o casal volta para o mesmo lugar no trem unido, com a confiança restaurada, ela feliz. Claramente proposital o roteiro ter escolhido o mesmo lugar. Cada detalhe nesse filme foi pensado e isso encanta muito. A Margaret Livingston atuou bem, mas não teve muito destaque, comparando com os protagonistas, então nem merece muita menção. Oscar para o cachorrinho que atuou tão bem. Algumas cenas me fizeram rir, a do velhinho barbeiro que era muito expressivo, a do cozinheiro e o porquinho ficando bêbados e a da casa de fotografias. Diferente de The Racket, aparecem pouquíssimos diálogos em tela, senti essa diferença, não prejudica o filme, pois ele é bom o suficiente para explicar tudo dizendo quase nada. Obviamente, não dá pra ignorar os pontos ruins do filme, se considerarmos 2026, dá pra ignorar certos pontos do roteiro levando em conta o ano 1927, mas incomoda sim ver certas coisas como as personagens femininas são construídas por exemplo e como a violência masculina é tratada. De um lado a esposa que representa a pureza, submissão, a doméstica que não sai de casa e vive em prol do marido (que a ignora o tempo todo), desarrumada, de avental usando um coque de velha. Do outro lado, a mulher da cidade, bonita, arrumada, sedutora, pintada pelo roteiro como a mulher terrível que seduz ele, a corrupta que desvia o pobre homem do seu caminho de "bom esposo". A escolha de trair foi dele, não? O que me incomoda nesse tipo de estrutura no enredo é que tira a responsabilidade moral total do homem, dando a entender que ele é uma pobre vítima passiva que foi influenciada externamente por uma mulher. Claro que o ponto mais crítico aqui é a tentativa de feminicídio, após o marido tentar assassiná-la, houve espaço para romance e reconciliação, o que é um absurdo. Seria hoje em dia considerada a fase da lua-de-mel no ciclo abusivo de um relacionamento, em que há esse morde e assopra entre tratar bem e mal o tempo todo, em loop. A narrativa não leva dias ou meses, mas apenas UM DIA de romance na cidade para a redenção do protagonista. O machismo se manifestando na ideia de que todo esse trauma e violência cometidos podem ser deletados só porque a vítima recebeu gestos de afeto em seguida. É uma red flag enorme. Sei que tem a ver com a cultura da época, mas a mulher é colocada como a que perdoa incondicionalmente, mesmo quando não havia reciprocidade alguma anteriormente. E quem merece viver um relacionamento sem reciprocidade? Onde a pessoa faz o que quer, vem com migalhas de afeto, é perdoada e faz de novo? O ciclo continua. Tudo isso reforça essa expectativa social, que inclusive existe até hoje, de que a mulher deve ter compreensão e ser resiliente, mesmo diante dos abusos. Outro ponto é, ele não conversou sobre o que fez, não teve diálogo, não teve pedido de perdão, não houve uma conversa sobre arrependimento, e muito menos tempo para que fosse provado de que o arrependimento era real. O filme consegue fazer a gente sentir empatia pelo marido e isso acaba sendo um problema (considerando a sociedade atual), ele tendo um conflito interno em dúvida "trair (mais) ou não trair? matar ou não matar? Eis a questão." Oi? Já traía, cogitou matar para viver com a amante, quem quer conviver com alguém depois disso? Não há nada de bom em um marido desse. A esposa fica em segundo plano servindo apenas como escora, como um símbolo. Os desejos e pensamentos dela não são explorados, exceto pelo de ser amada pelo esposo. O filme vem pra reafirmar essa coisa do casamento patriarcal, onde tudo dá certo e a harmonia do casal é restaurada sem que o homem tenha que enfrentar as consequências pelos atos de violência. Claro, o filme não foi feito em 2026 e sim 100 anos antes, por isso não afetou tanto a minha nota (em 7th Heaven afetou, realmente a mulher era escrava ali), mas vale refletir sobre.
É impossível assistir a um documentário como esse e não mudar o estilo de vida. A maioria dos documentários que assisti mudaram completamente a minha vida, pra melhor, claro. Eu sempre tomei cuidado com plástico como não esquentar alimentos em pratos de plástico, preferir produtos reciclados, mas jamais imaginaria que basicamente em tudo vai microplástico. Eu fiquei chocada ao descobrir que no perfume tem dietilftalato pra poder ajudar na fixação, pesquisei e por sorte o perfume que uso tem componentes naturais pra isso e não contém plástico. Como assim as empresas não são obrigadas por lei a listar esse tipo de componente para o consumidor? Absurdo! Descobri que chá de saquinho libera uma quantidade enorme de plástico e que a maioria dos saquinhos que a gente acha que é de seda, é de nylon ou pet. Como é possível em notas fiscais conterem Bisfenol A? A gente pega nisso o dia todo em todos os lugares! O povo comprando garrafinha de água mineral onde vai, sem saber dos riscos. Eu parei de comprar quando assisti um documentário chamado Rotten na Netflix que mostrava a Nestlé usando a água do povo de uma cidadezinha, lucrando números astronômicos e os reservatórios dos cidadãos diminuindo dia após dia. Agora, fico sabendo que libera plástico também. Parece que a gente não está a salvo de nada, né? Qualquer produto alimentício ou não que a gente der uma cavada, vamos encontrar muita sujeira, em prol da indústria. Tudo gira em torno do dinheiro, igual nos anos 50 quando a maioria dos produtos que hoje são consolidados no mercado estavam em fase de nascimento, não havia pesquisa sobre nada e a população consumiu de lá pra cá os maiores causadores de doenças no pulmão, intestino, etc. Hoje em dia temos pesquisas, a maioria dos estudos são abafados e nem chegam à população, um ou outro corajoso como a Dra. Shanna Swan cria documentários de alerta, mas comparado ao mundo de produtos que existe, é nada. É surreal que a Europa tenha proibido mais de 1000 componentes versus apenas 9 dos EUA. Nosso país não passa longe não, pesquisei e vi que o Brasil permite vários conservantes e ftalatos que até mesmo nos EUA já foram banidos. Recentemente até houve um boom no assunto por aqui, com a viralização dos vídeos sobre plástico no glitter de bolo de festas, mas o assunto já morreu e ninguém mais lembra. Mas os produtos? Continuam chegando às prateleiras dos mercados normalmente. A ANVISA ainda permite muito plástico em embalagens, alimentos e cosméticos. A quantidade permitida aqui é de até milhares de vezes maiores do que a autorizada na União Europeia. Vergonhoso demais! Na indústria de roupas a maioria das peças mais baratas contém microplásticos, não tem para onde correr. É o que a maioria pode pagar. Sinto que se a gente for deixar de usar ou comer tudo que faz mal, ninguém faz mais nada e não sai no lugar. É desesperador! O documentário é ótimo, um soco no estômago. Ótima direção de Louie Psihoyos.
Comédia muito boa, cheia de críticas satíricas. Acredito que seja mais culturalmente envolvente para quem é francês, mas mesmo assim vale muito a pena assistir. É interessante ver essa época de um ponto de vista menos dramático, normalmente visto em filmes e docs de Guerra. O filme faz críticas com piadas sobre a ocupação alemã, trazendo estereótipos (alemães e franceses). É um humor mais teatral e caricato, apresentando os choques-culturais dos moradores que receberam e dos invasores que eram muito espaçosos. Os filmes que mostram esse período normalmente são bem delicados, e é necessário tomar cuidado para não ofender as vítimas do regime nazista. Mas aqui não, o filme segue essa pegada sátira mesmo, focando mais na hipocrisia e no ridículo das coisas do que ofender ou desrespeitar as vítimas, o filme debocha da própria resistência francesa, e até dos ricos que viviam de aparência fingindo que nada acontecia. Fui pesquisar e vi que foi um grupo de comédia chamado Le Splendid que escreveu o roteiro. É uma forma de lidar com o trauma da Guerra por meio do humor. É bom, mas quem não é francês pode perder uma ou outra piada por ser regional. Me lembrou um pouco um documentário que assisti chamado Como se tornar um tirano, que segue a mesma vibe de usar o escárnio e o absurdo para desconstruir vilões e figuras de autoridade ditadoras. A atuação do Michel Galabru é a que mais se destaca no filme, o timing do ator é perfeito.
Trilha sonora impecável! [Spoilers] O homem merecia descansar, depois de ter perdido basicamente todo mundo e estar só sobrevivendo cheio de memórias pesadíssimas e fantasmas do passado. Ótima atuação e produção do Cillian Murphy. Boa direção do Tom Harper. A direção de fotografia ficou tão linda. Gostei muito de quando ele estava se arrumando, a câmera abordando todos os ângulos, o andar idêntico àquele que ele fez com os meninos no início da série pisando na poça de água, mas aqui, solitário, claro com o mesmo impacto, respeitado pelo espectador. É um personagem imponente, mas frágil, cheio de dores. Humanizado. Gostei muito da cena no bar, a ambientação magistral dos anos 40. Senti que faltou desenvolver melhor alguns personagens. O final bem impactante, a série merecia esse final sim. Uma fala que me marcou foi "Todos os irmãos mortos, menos aquele que queria estar morto", pesado demais, frases como essa ditam o tom do filme e já prepara a gente para o que está por vir. Outra fala que me marcou foi "Pesada é a coroa", ninguém melhor do que o pai pra saber disso, afinal, o cara perdeu tudo por causa desse peso. O encerramento é muito cuidadoso em respeitar a trajetória do Tommy, ele queria a paz mais que tudo na vida, que nem era uma vida mais. O enredo não desenvolveu tão bem uma relação que justificasse a bondade no filho, a não ser que fosse apenas algo de sangue, de legado familiar. Muito boa a cena em que o Tommy bate nele no meio da lama, um Peaky Blinder é a pior pessoa que você vai conhecer, mas eles tinham valores e certos princípios seguidos dentro da organização. Ao mesmo tempo o filho não tinha a obrigação de seguir já que ficou jogado sem os familiares, a solidão das próprias regras o tornou diferente do resto, mas ainda havia a falta de tudo que era humano, ficava claro que a ausência do pai o feria. Quanto mais ele tentava se convencer de que não importava, mais importante a dor da ausência se tornava. Muito bom rever os personagens. A cena em que ele chega no cavalo mesmo depois de muito tempo honrou bastante a série, o respeito do povo recebendo ele. Só me pegou em algo, todo mundo ali conhecia ele e o pessoal do bar não? O filme é bom, pra quem é fã da série. O Tommy morreu emocionalmente tantas vezes nas temporadas, finalmente teve um desfecho de decanso com a família. O último take é bem comovente, a chama se apagando aos poucos na carroça. Lindo! O contraste entre a vida que começou com o barulho das fábricas e das armas, terminando com o silêncio e o fogo se apagando, reforça essa ideia de descanso. É uma cena muito poética para um personagem que viveu em chamas por tanto tempo. Quando ele pede para não continuarem o negócio adiante, fica claro que o barulho acabava ali. O que sobrou de um homem imortal é a narrativa, e não o império de sangue que ele construiu, restou apenas as palavras relatando as memórias vividas.
Ótima adaptação da Broadway para o cinema. [Spoilers] Diferente dos outros filmes da época, que tenho assistido, carregados de melancolia e expressões faciais super exageradas, aqui sinto mais sobriedade nas atuações, é mais sobre o que está acontecendo do que sobre as atuações faciais em si. Inclusive, quando a atriz Marie Prevost que faz a Helen força um pouco mais a expressão, destoa um pouco do resto do elenco, que traz mais sutileza. O Louis Wolheim tem uma vibe natural de mafioso, ele tem muita classe, gosto muito da atuação dele como Nick Scarsi. Não é um filme 5 estrelas, mas também não é um 2,5 como vi por aí, acho injusta essa avaliação tão baixa. É um ótimo filme, que inclusive serviu de referência para clássicos como Scarface e Inimigos Públicos. Talvez o público atual tenha alguma dificuldade com o ritmo do cinema mudo, que requer um pouco mais de paciência (algo praticamente extinto na geração da tela infinita e que recebe recompensa dopamínica de 15 em 15 segundos mofando em rede social), imagino que na época o filme tenha sido considerado ágil e moderno. A montagem da sequência de cenas ficou muito boa. Essa coisa de Chicago banir o filme na época por achar realista demais e que queimaria a imagem da polícia, me parece mais medo da população ficar atenta e descobrir que eles faziam as mesmas coisas. O filme escancara tão bem a corrupção dentro do sistema todo, o Nick tem todo mundo no bolso, manda e desmanda. A cena em que ele tenta subornar o capitão McQuigg é tão boa, dando a entender que vai dar certo, ele devolvendo o dinheiro em seguida. O alívio cômico no meio das tensões, entra de uma forma muito fluida, não forçada. Em muitos filmes e séries, quase um século depois, ainda aparecem os jornalistas que estão no enredo de séries policiais, de investigação e noir, apenas para trazer essa leveza contrastando com uma história em que muita gente morre, funciona muito, assim como o Miller e o Ames fizeram no filme. Tem uma cena que acho que captura muito bem a coreografia do cinema mudo, foi uma das que mais gostei com relação à organização dos papéis de cada um em uma cena maior (com muita gente), quando no meio da festa do Joe o pessoal ouve o tiro e começa a correr pra lá e pra cá, um salve-se quem puder. A direção do Lewis Milestone brilhou demais. Ele saiu da calmaria do suspense, a tranquilidade de todos na festa, para uma movimentação de massa frenética e cheia de caos em segundos. Não é à toa que ele ganhou um Oscar de melhor diretor dois anos depois, por outro filme. Achei marcante as cenas de fugas, hoje isso é comum, mas na época, fazer uma sequência de perseguição e fuga mostra uma habilidade técnica impressionante. Os ângulos deram uma sensação de velocidade e perigo, fuga de gângsters mesmo. Entendo quem acha o filme estático, com "falas" longas, ou o estilo de atuação do capitão muito contido. Eu achei que combinou com o tom mais sóbrio do filme, a única decepção é o final, eu esperava mais, foi muito abrupto e seco. O destino do Nick foi resolvido de uma forma quase administrativa dentro da delegacia. Embora isso reforce a ideia de que, naquele mundo, o crime e a lei são engrenagens de uma mesma máquina política e suja, fica aquele sentimento de "queria mais", já que o filme havia preparado a gente com cenas mais caóticas. O capitão não termina o filme como um herói, mas sim exausto, e se dando conta de que fez, fez, fez e o sistema seguiu intacto e corrupto do mesmo jeito. Não ironicamente, isso espelha a vida real, mesmo hoje, um século depois. É um encerramento mais pé no chão, talvez incomode quem gosta de finais com desfiles dos policiais sendo condecorados e aplaudidos numa cerimônia com famosos e presidentes, sorrisos e medalhas. Outra coisa é que a justiça no final me parece mais acidental do que qualquer outra coisa, nada foi planejado, vem de uma sucessão de erros e pressões políticas. Isso tira todo aquele glamour que as pessoas esperam em filmes de gângsters, no fim das contas, ele era só mais uma peça descartável para quem realmente mandava na cidade. Sobre a Helen, no enredo às vezes me pareceu perdida na dinâmica, como se fosse um acessório pra ligar os pontos entre os homens. Pelo menos não ficou como escrava trabalhando o filme todo como a Diane em 7th Heaven, já é um avanço enorme, a Helen se impõe quando acha que deve. O ponto ruim é que ela não toma nenhuma decisão que muda o rumo da história por iniciativa própria. O mundo é dos homens, o crime é dos homens e a lei é dos homens. As mulheres entram para dar um toque feminino ou ser pivô de briga entre eles, mas raramente com uma história só delas dentro do enredo. A Helen tem a malandragem de quem sobrevive na noite, diferente da Diane que ficava lá aguardando um homem para dar um passo até a calçada. Ela não tem aura de coitadinha, nem de pureza. Dá pra ver que entre os dois filmes de 1927 para 1928 o cinema transitou para menos angelicalidade e mais malícia, mesmo que mantendo a mulher em segundo plano. O filme é bom, ele é o pai de tudo que amamos no cinema policial moderno. Provou que o cinema mudo não precisa ser parado ou teatral demais e não vendeu conto de fadas, foi corajoso. Personagens endurecidos pela cidade, onde a justiça é só um mero detalhe burocrático num jogo de poder.
Ter pais e sogros omissos muitas vezes é tão sufocante quanto conviver com um homem abusador. Pessoas que deveriam dar suporte, ajudam a criar uma camada ainda mais profunda de violência psicológica para as vítimas. Os sogros além de ignorarem a Fran, ainda validavam o comportamento do filho. E que mãe é essa? Quem precisa de inimigo na vida, quando se tem uma mãe como a dela? Uma figura que deveria representar proteção, dizendo para a filha sempre voltar para o inferno e dar chances para o Mickey é a maior forma de abandono que existe. O sistema fazendo o possível e o impossível para dificultar a ajuda. Essa coisa dos anos 80 e 90 que a sociedade tinha de "briga de casal, ninguém se mete, o lar é um lugar sagrado" é muito irritante. A sensação de injustiça é muito grande, sempre que a Fran procurava ajuda as pessoas criavam um muro enorme pra ela escalar, uma burocracia, falta de vontade. A polícia é a mais omissa de todos. A coitada, querendo fazer a denúncia sobre a tentativa de homicídio e o policial "aham, tá, qualquer coisa vai avisando". Morto avisa? O Mickey era tão manipulador, tão triste o filme ser baseado na história real da Fran, uma mulher (e milhares todos os dias) passando por tudo isso. Chantagem emocional, o cara teve a coragem de causar um acidente só pra trazer a vítima de volta ao ciclo. Típico de agressor, usar a própria vulnerabilidade (real ou forjada) como arma. Sempre que ele percebe que está perdendo o controle sobre ela, precisava de algo que necessitasse que ela voltasse como cuidadora, usando a bondade dela contra ela mesma. A cena que mais me marcou foi a das crianças no beliche, a sequência com elas ali até a polícia chegando é pesadíssima, o olhar delas, os gritos em som de fundo, ela correndo pra fora da casa, o Mickey correndo atrás, as crianças indo para a janela, vendo tudo, completamente imóveis, a agressão acontecendo a poucos metros delas e elas sem poder fazer nada para ajudar. A Fran tentando entrar no carro, não consegue e começa a apanhar de uma forma muito cruel e brutal. Os pais dele chegando e protegendo o filho agressor, tentando impedir os policiais de levá-lo, que nojo! O trauma dessas crianças virou rotina, o quarto que era pra ser um lugar de proteção, virou um camarote para o horror que dava direto na vida de tortura da mãe (e deles, claro, haja psicológico!). O abuso doméstico nunca atinge só uma pessoa, ele estilhaça toda a estrutura familiar. Quando o Mickey agride a Fran lá fora, reforça aquela sensação de que não havia lugar seguro, dentro de casa, nem fora. Outra cena muito boa é quando ele colocou fogo na cama que ele dormia e sai, dá uma sensação boa, de paz, de tranquilidade, de que ela nunca mais vai passar aquilo na vida. Isso, junto com o momento em que ela é absolvida, traz o ápice de toda a espera do espectador por um mísero momento feliz. É um misto de alívio e melancolia, ela consegue liberdade, mas custou tudo o que ela tinha. O desfecho no tribunal na vida real foi histórico, a criação da lei Francine Hughes foi muito impactante, uma mudança estrutural na forma como o judiciário e a polícia lidavam com a violência doméstica, e claro, refletindo no mundo todo. O legado do caso através da consolidação e reconhecimento jurídico da Síndrome da Mulher Espancada sempre será lembrado. O caso provou que uma mulher que vive sob tortura constante está em estado de perigo iminente o tempo todo, o que justifica a reação da vítima em busca da sobrevivência. Vale lembrar que a condução da polícia também sofreu alteração após o caso, já que eles eram negligentes e omissos. Foram criados protocolos onde a polícia passou a ser obrigada a prender o agressor em vez de falar "vai tomar um ar", de acordo com a nova lei precisa levar preso. A atuação da Farrah Fawcett foi gigantesca no papel da Fran. Os momentos de maior entrega foram quando havia silêncio, ela passou uma inquietude no olhar, uma perturbação, honrou bastante a história real. O jeito que ela encolhia os ombros, trejeitos com os dedos, tiques, impecável! Senti que ela humanizou a Francine de uma forma que transformou a personagem em algo a mais, um símbolo de resistência, e não só mais uma vítima passiva. Assisti por indicação de uma amiga e gostei muito.
Sempre que assisto a um filme tento levar em consideração a época em que foi lançado, o contexto cultural, econômico, etc. Faço em contraste uma comparação com a época em que vivo e entendo se faz sentido ou não os temas abordados, pois existem filmes que mesmo considerando a época, são indefensáveis. No caso de 7th Heaven, sinto um mix de sentimentos, se eu fosse de 1927 iria gostar, assistindo com a mentalidade e bagagem de 2026 fica detestável. A Primeira Guerra Mundial terminou em 1918, o filme foi lançado apenas nove anos depois, observar esse tempo é importante, para nós é um capítulo distante presente apenas nos livros de história, mas para o público alvo, era um evento de ontem, provavelmente a maioria dos homens que assistiram tinham idade para ter lutado na Guerra, ou irmãos, ou amigos, parentes, e as mulheres, muitas delas viveram uma década antes, esse momento de espera em casa, aguardando notícias. Em 1927 ainda havia resquícios, cidades ainda estavam sendo reconstruídas na Europa, isso até explica o filme não ter se dedicado tanto a explicar sobre a Guerra, isso estava muito fresco na memória de todos ali. A dor ainda era aguda, mas uma década era tempo suficiente para o povo querer transformar as marcas em algo bom. Na mesma década ainda havia segregação, principalmente em Hollywood, no filme não há personagens pretos. Naquela época os filmes estreavam primeiro para quem tinha poder aquisitivo, nos Movie Palaces, não acho que esse pessoal se identificava com a parte da pobreza no filme, mas certamente com a parte da Guerra, da espera e talvez com o romance. Gastavam com ingresso o que um pobre usava para comer por dois ou três dias. Algum tempo depois o filme ia para os cinemas de bairro, o preço caía drasticamente. Nesses cinemas mais populares havia mais identificação financeira e emocional por parte dos espectadores, galera imigrante, operária, que passava o dia todo em condições péssimas de trabalho, acredito que para esse público, ver a imagem do Chico, um limpador de esgotos, e da Diane que era uma jovem miserável e ferrada. O filme passa a mensagem de que mesmo não tendo nada, ainda dava tempo de encontrar o amor e ter uma vida simples, mas digna. É um prato cheio para o público classe média baixa. Escapismo puro. É importante entender esse contexto todo, o luto coletivo tem uma força que silencia nosso senso crítico, todo mundo ali tinha alguém que nunca voltou das trincheiras ou que voltou quebrado tanto física quanto emocionalmente. Para as mulheres que esperaram anos por uma carta que nunca chegou, ver o Chico chegando cego, mesmo após o anúncio da morte dele era um anestésico emocional. Novamente, levando em consideração a época, supondo que somos cidadãos de 1927. Quando as pessoas têm dores profundas demais, a racionalidade e as pautas políticas dão lugar a um sentimento de desejo de que o impossível aconteça. As pessoas religiosas usam a fé como sobrevivência em tempos difíceis e seus quartinhos humildes como abrigo do mundo lá fora cheio de fome, guerras e morte. Por isso acho tão complexo assistir a clássicos, meu olhar ateu e de alguém que acredita em direitos iguais enxerga correntes invisíveis que prendem a Diane a uma manipulação religiosa. Mas com o olhar de época, meu eu de 1927 se tivesse perdido o marido iria se identificar com as lágrimas da Janet. A esperança é um sentimento muito sedutor, os diretores de cinema sempre souberam explorar isso muito bem, ainda mais na época do cinema mudo. O filme acaba sendo um lembrete de como o contexto histórico pode mudar completamente a nossa régua moral, hoje o filme nos irrita pela passividade, antigamente consolava pela resiliência. Claro que isso não diminui a problemática, mas justifica, de certa forma. Li que as pessoas saíam do cinema chorando, dizendo que o filme lavava a alma, também que as mulheres imitavam o visual da Janet, que quando a irmã dela dava chicotadas vaiavam a tela e gritaram no final quando ela se vingou. Definitivamente um sucesso de bilheteria. Uma das coisas que me chamou a atenção foi o olhar da Janet ao atuar, claro que havia técnica cinematográfica para dar esse efeito vidro, um trabalho de iluminação muito bem feito, mas a atuação dela é bem dramática, dá uma pena da Diane, imediatamente ela cria vínculo de empatia com quem está assistindo. As roupas trouxeram uma textura muito linda para o filme, o vestido branco ficou impecável na atriz e contrastou bastante com o preto que ela usava no começo. A cena da escadaria é definitivamente a minha favorita, a direção de Frank Borzage ficou sensível e visualmente impecável. Achei o direcionamento de câmera super fluido, o uso de sombras e luz suave ficou tão bem aplicado. A química entre os atores Janet Gaynor e Charles Farrell é indiscutível, não é à toa que fizeram mais de dez filmes juntos, transmitiram muita vulnerabilidade equilibrando o pessimismo da vida dos personagens com o otimismo de terem encontrado alguém pra amenizar os sofrimentos. A transformação da Diane passiva para a corajosa é um ponto muito forte na atuação da Janet. O filme tem alivios cômicos estratégicos e eles funcionam muito bem, meu favorito é o "é por isso que sou ateu, deus me deve dez francos" e o momento em que ele joga água na cara do lavador de rua. Agora falando sobre a problemática, o filme é um choque cultural e ideológico. Assistindo com o olhar de hoje, especialmente com uma perspectiva de quem é ateu e mulher, é quase como entrar em um campo de batalha de valores. De um lado levar em consideração que o filme é lindo visualmente e possui ótimas atuações, do outro, uma narrativa que para os nossos padrões modernos parece um manual de "como ser uma mulher submissa e devota Vol. 1." Esse arquétipo da Diane como pobre coitada que depende totalmente da validação e do teto de um homem, a jovem desamparada que só vai ser feliz se um homem ajudar. Inclusive vejo muito isso no cinema mudo. Essa fragilidade feminina sendo vendida no filme como virtude. Ver essa dependência emocional extrema é cansativo, a salvação da personagem nunca vem de nada dela, não vem de uma força própria, mas sim de se tornar a peça que faltava no quebra-cabeça doméstico de um homem. O Chico sempre aparecendo no roteiro como salvador mesmo fazendo nada mais que o mínimo. Ele fala que ela é esposa dele pra salvar ela de ir para a cadeia, ela não pediu. Em outro momento, chega com um vestido de casamento, como se isso já os fizesse marido e mulher. Não existe conversa antes, não existe escolha, e muito menos um pedido formal. Aí ela menciona que ele nunca falou eu te amo, sequer uma vez. De costas para ela ele informa que o vestido é sim para ela, e quando tenta falar eu te amo, fica com vergonha e não sai. Essa coisa do homem durão que não pode falar de sentimentos é algo muito típico da época, posteriormente ele até fala eu te amo no filme, mas sabemos que o homem da década de 20 e 30 era bem conservador para esse tipo de coisa e o casamento era realmente um exibicionismo de mulher do lar que só serve para cozinhar e ser empregada doméstica da própria casa. A Diane desde que chega na casa cozinha, lava, costura, corta cabelo, ajuda ele a colocar as próprias roupas e não vemos nada de demonstração da parte dele fazendo coisas por ela dentro de casa. Vale lembrar que ele fala no início que a mulher que ele queria era loira e bonita, ou seja, a Diane seria tecnicamente o resto e sobras que ninguém quis, então "é o que tem pra hoje". Quando ele dá o vestido é um sequestro emocional com figurino de luxo. Ele dita as regras e ela aceita o pacote completo porque a alternativa era a sarjeta. É uma dinâmica de poder totalmente desequilibrada. Esse clichê do cara durão que não consegue nem dizer eu te amo era muito vendido como charme, vejo isso em muitos filmes da época, na verdade não passa de uma imaturidade emocional profunda, medo de admitir vulnerabilidade para uma mulher. Quem quer estar com um cara assim? Que sente algo, mas finge que não. Isso cria uma tensão muito artificial onde no enredo o afeto vira uma concessão, quase um prêmio que ele vai entregando para ela em doses homeopáticas para mantê-la sempre nessa posição de expectativa e carência (por migalhas). A romantização da Guerra é um ponto bem distante da realidade, a gente sabe que a Primeira Guerra Mundial foi um moedor de carne humana, mas aqui parece só um teste espiritual para fortalecer a fé do casal. A esposa fofa, pura e devota esperando o herói enquanto olha para o céu é obviamente peça fundamental da propaganda patriarcal da época. Esse patriotismo místico é difícil de engolir, pois transforma toda a tragédia histórica em pano de fundo para espalhar afirmação religiosa. Outra coisa sobre a passividade da Diane que gera revolta é a falta do mínimo de instinto de sobrevivência ou de dignidade humana. Entendo que o roteiro precisava que ela fosse essa vítima, mas na maioria das vezes ela age como alguém morta-viva, que só vegeta e obedece os outros, ou reduzida a um corpo que sofre para que o homem possa ter o prazer de salvá-la. Essa mulher-criança que precisa de proteção masculina o tempo incomoda demais. A ideia de que ela deve aceitar o castigo e esperar por um milagre (ou por um marido) é uma mensagem de submissão total que o filme empurra como se fosse algo poético e lindo. É a negação dos nossos instintos básicos de autodefesa em nome de um ideal de pureza, que na prática, é só um convite ao abuso contínuo. Incomoda porque a narrativa sugere para a gente que a força dela está em aguentar o chicote, os sofrimentos, quando a verdadeira força seria reagir e sair dessa por conta própria. O filme prefere manter a personagem quebrada para que o Chico possa montá-la do jeito dele depois. Fora que depois ela usa o mesmo método que a irmã usava com ela, se rebaixando ao mesmo nível da abusadora, usando a mesma arma física que a oprimiu, aceitando que aquela era a única linguagem possível, mas ela tinha mais opções (essa parte felizmente não estraga o roteiro). Uma coisa que me incomodou é que a religião aqui é usada como solução para todos os conflitos, o que tira a autonomia dos personagens e coloca tudo nas mãos de providências divinas. Várias cenas estão ali apenas para convencer o espectador a buscar crenças. É irônico o filme tentar ser uma lição de espiritualidade elevada, mas usa recursos tão agressivos como chicote para marcar os pontos de mudança do personagem, só lembra da religião quando convém. É um filme tecnicamente bom e importante, mas o enredo é datado e não envelheceu tão bem. Possui falhas ideológicas e de roteiro que me impedem de gostar completamente da obra.
1984
3.7 560 Assista Agora"Até que se conscientizem, não se rebelarão; e até que se rebelem, não poderão se conscientizar."
"Nada era seu, exceto os poucos centímetros cúbicos dentro do seu crânio"
George Orwell sempre vai ter meu coração. Um século depois e esse livro escancara nossa realidade social tão perfeitamente. Nada mudou, as pessoas continuam sendo oprimidas e desinformadas, mas com ferramentas diferentes e modernas. Esse excesso de telas, mutação de informações acontecendo o tempo todo, a privacidade se tornou um artigo de luxo. Esse monitoramento era imposto, era forçado, hoje em dia é quase sempre voluntário. As bolhas sociais fortaleceram o extremismo, para reforçar algo que a pessoa pense, um pensamento em formação logo toma um caminho de radicalismo, ou para combater, o entorno daquele cidadão vai atropelar o pensamento que está se formando de todas as formas possíveis, até que ele pense de acordo com o conformismo social, impossibilitando a conclusão de um raciocínio autoral. Surge tanta coisa tão rápido que as pessoas não conseguem amadurecer ideias e pensamentos sobre nenhum fato, as pessoas não pensam profundamente. Outro ponto é que o autoritarismo está mais vivo do que nunca, mas em 1984 era caótico, barulhento, estrondoso. Hoje em dia é silencioso, sutil, o algoritmo define o que você vai ver, o que vai ler, o que vai fazer parte do seu dia a dia. É um controle muito eficaz, as pessoas sequer percebem. Quantas vezes as plataformas silenciaram pessoas e suas opiniões? Isso é poder autoritário. Quando alguém deixa de postar o que pensa por medo da repressão também está sendo vítima do sistema, mesmo que indiretamente. Cada acesso nosso online e localização recolhidos são formas de abusos autoritários, até porque, se não aceitarmos essas diretrizes não conseguimos acessar aplicativo algum em nossos aparelhos. Os dados são coletados a todo segundo, e me pergunto quem de nós sabe para onde vão? Ninguém sabe. É muito mais fácil controlar as massas sabendo que querem, o que fazem e onde estão. Cada opção que temos já foi decidida por alguém que conhece nossos gostos e fraquezas. É assustador! O objetivo principal hoje em dia é o mesmo de 100 anos atrás. Tornar-nos pessoas não pensantes, conformistas e cegas. Eu sempre digo: o terror dos autoritários é lidar com a revolução dos que pensam. Quem pensa, não consegue prosseguir conformado! Nasce um sentimento de revolta, uma inquietude, vontade de lutar. Admito que surge, junto a isso, um sentimento de incapacidade. É que é tão difícil conversar com pessoas conformadas. Mesmo sabendo que a nossa verdade é a verdade no meio de 1 milhão de mentiras, é difícil ser ouvido, ter voz. A gente faz o que pode. Sinto falta da liberdade de discordar sem ser punido socialmente. Na nossa sociedade é quase um crime duvidar das coisas. Outra coisa que notei de semelhança com os dias atuais é que há sempre embates, os governos estão sempre providenciando conflitos para distrair o povo do que realmente está sendo feito por trás dos panos. As pessoas também gostavam de gritar com o Goldstein, e hoje em dia parece que as redes sociais sempre nos apresentam ódios em comum, é como se isso engajasse muito mais do que a paz. O algoritmo lota o feed de conteúdo onde as pessoas possam se juntar para tacar hate em algo ou alguém. O Winston de hoje em dia é todo cidadão que vive esgotado e já não aguenta mais o cansaço mental diário. Ele tentava esconder seu diário e hoje as pessoas tentam apagar seus históricos, suas vidas online, mas é impossível. Mesmo se alguém deletasse todos os arquivos e redes referentes à vida, ainda assim estaria tudo salvo em algum servidor e por último "deletou todas as redes e histórico no dia xx/xx". É creepy, você pode criptografar, trocar de e-mail regularmente, usar VPN, mas isso não muda nada, no fundo a gente sabe que tudo é armazenado. A gente vive a mesma coisa que ele. O Winston de hoje é o cara que tenta viver uma vida garimpando coisas físicas e reais, tentando algum contato com o mundo de verdade, conexões verdadeiras, algo que a inteligência artificial ainda não tenha moldado. O 2+2=5 de hoje em dia aparece de forma mais sutil, o Winston foi torturado fisicamente e psicologicamente, como as pessoas não passam por isso hoje em dia (a maioria), algumas nem percebem que estão condicionadas. Aparece quando uma pessoa aceita uma ideia porque todo mundo aceitou, porque essa mentira se tornou conveniente, o grupo decidiu que é assim e pronto. Essa falta de contraponto é o medo mais comum dos dias de hoje. Até em lugares básicos como grupo de família, amigos ou colegas de trabalho as pessoas têm medo de se posicionar. Outro ponto é que se alguma mentira é dita por uma figura política ou famosa, ela se prolifera rapidamente como uma verdade através dos impulsionamentos midiáticos. Se o pensamento pode ser moldado por sistemas políticos, a raiz desse mesmo pensamento se enfraquece rapidamente e o emburrecimento da população se torna mais fácil de ser gerenciado. E uma das partes mais tristes do livro e do filme que reflete nos tempos atuais, a destruição total dos laços entre as pessoas. Eles queriam criar pessoas que amassem apenas o Grande Irmão, elas não podiam cultivar amizades e nem amores, assim como em Admirável Mundo Novo do Aldous Huxley, é algo que fugiria do controle deles. Hoje em dia não é diferente, o Bauman fala muito sobre essa modernidade líquida, amores líquidos, onde nada é feito para durar. As conexões são artificiais e se dissolvem rápido. As pessoas são solitárias, e isso é ótimo para quem está no controle, é mais fácil manipular essas pessoas isoladamente. "A pior coisa do mundo" que o livro cita no quarto 101 pode ser qualquer coisa pra qualquer um, mas quem coleta nossos dados conhece melhor que nós mesmos quais são nossos medos, erros e inseguranças. E já é usado contra a gente de forma indireta, para manter-nos conformados. A pergunta é: Onde a tecnologia e o monitoramento ainda não chegou? Sobrou algum lugar seguro? Fica aí o questionamento. Não é à toa que Black Mirror é minha série favorita. Aquilo tudo já é real. A gente já vive na sociedade Black Mirror. Ainda prefiro o livro, mas amo muito esse filme. Pena que não fizeram uma adaptação boa de Admirável Mundo Novo ainda. Quem sabe um dia...
Steve
3.0 44 Assista AgoraÉ um filme pesado, o ambiente é caótico, quase sufocante. Boa direção do belga Tim Mielants. A carga emocional desse filme me lembrou de "Preciosa". [Spoilers] Ótima direção de fotografia do Robrecht Heyvaert. Os ângulos abordando diferentes perspectivas, ora por trás das câmeras, ora através delas, ora pela tela, em alguns momentos estamos espiando, em outros nos sentimos na própria situação. A câmera não ser estável é um acerto enorme, tudo em constante movimento. "Tá no topo da lista, eu prometo", e no final não sobra tempo pra nada, é uma correria. Gosto muito do horário passando na tela, é um lugar tão atípico que acontece tanta coisa em um único dia, chega a ser desconfortável, comparando com a nossa vida, sem eventos. A sequência silenciosa deles na mesa, cortando para ele na entrevista lacrimejando, voltando para a mesa e a cena do "Cala a boca" é muito boa. A atuação do Cillian brilhou muito ali. Essa cena e a do Shy no final são as duas melhores pra mim. Não li Shy, do Max Porter, vi apenas o filme. Acho muito amoroso da parte do Steve estar sempre tentando proteger os meninos do julgamento da sociedade, impedindo os câmeras de filmarem momentos ruins. A jornalista, inclusive, em alguns momentos representa essa voz social mais preconceituosa. A cena dos meninos na janela parecendo animais selvagens é tão forte, é lamentável. Detalhes como o Shy rabiscando o caderno, uma alegoria à mente dele. Anotações na mão do Steve, representando a correria do dia dele. O Tyrone esvaziando pauta racial dizendo que estava sendo tratado injustamente por ser preto, quando na verdade, a psicóloga confirma que ele estava ali sim por importunação sexual. O filme foi corajoso de colocar essa cena. Quando ele começa a falar isso, a gente já cria uma empatia pela situação social dele, achando super injusto julgarem ele pela cor, aí quando ela confirma que ele realmente fez, que não é injustiça, fica um gosto amargo, ele engana a gente. Injusto mesmo é ele usar um problema estrutural real pra se esconder dos crimes. Em seguida a briga dele com o Jamie, que é uma sequência muito boa, sem muitos cortes. A entrevista do Steve é muito comovente, ele dizendo que eles são extraordinariamente complexos, a da Amanda também é sincera, apesar de gostar deles, tenho certeza que muitos professores se sentiram representados por ela. Ela cita o trabalho que eles dão, a falta de recursos do sistema, salários baixos, tudo isso é tão real no mundo. A entrevista dos meninos traz um lado mais humano de alguns deles, uma fala do Jamie que me marcou foi "não confia em ninguém, não dá pra confiar nem na polícia, cara", não mentiu. Ao serem entrevistados, eles não têm tabu, nem medo de se expor ou falar sobre as maiores atrocidades que já cometeram, sobre seus erros. O que poderia acontecer de pior do que estar ali? Outra fala que me marcou é quando o Deputado está lá na escola e fala sobre os votos, sobre proteger os bens do cidadão, perguntando "Quem vai proteger os seus bens, sua liberdade?". Meu irmão, os meninos não têm mais nada, não têm família que se importe, não têm apoio do sistema, não têm dinheiro, bens, liberdade. Isso é um luxo inacessível pra eles. Fiquei com dó deles nessa hora. Os quartos são bem pessoais e a ambientação é ótima, mesmo os meninos sendo delinquentes, dá um incômodo ver a jornalista invadindo a privacidade deles. Nada justifica. Outra cena boa é a que começa calma com a bolinha no chão, o Steve tapa os ouvidos, então os meninos chegam quando toca o sinal, é um caos. O filme alimenta uma certa ansiedade em quem está assistindo, mas puxada pra um lado crítico, você fica agitado assistindo, mas reflexivo também. O Shy é o personagem mais cativante e real de todos os alunos. Começa com ele dançando chateado e termina com ele desmoronando completamente, e o caminho de um extremo ao outro é muito bem desenvolvido. O ator Jay Lycurgo entregou muito, só não mais que o Cillian. É só um menino em busca de afeto, mas quando recebe alguma dose, não consegue administrar. Quando ele se abriga na música, eu me identifico muito, eu amo música e quando tudo vai mal, eu coloco o meu fone e fico ali no meu mundo. A cena do futebol com certa coloração nas camisetas e a dele preta se destacando, andando triste no meio deles, a chuva caindo, bem dramática e sombria, a câmera em rotação, a edição e montagem, o take acelerado, o zoom, o campinho de ponta-cabeça, a bateria da música engatando cada vez mais alto na trilha sonora. Perfeito demais. Essa e a da lavanderia são as mais bem editadas. Faz sentido, a vida de todo mundo ali tá de ponta-cabeça também. São muito tristes as sequências do Shy, muito boa a referência ao lago pelo frasco de remédio, como se fosse um presságio para o espectador, toda a cena da lavanderia até o Shy entrando na água é muito bem dirigida. Ele tão perto de achar o Shy, mas estava tão fora de si que não conseguia chegar. Desesperador, a gente torcendo pra ele tentar só mais um pouquinho. O Shy quis tirar a própria vida aos 17 anos, porque mesmo se ele zerasse e se tornasse uma pessoa melhor, a sociedade nunca validaria isso, as pessoas o julgariam pra sempre (mais). Nem o apoio da família ele tinha mais, esse tipo de pessoa não tem nada a perder, então desistir parece ser o caminho difícil mais fácil. No final, fiquei feliz de ver que o Shy estava vivo. É muito difícil ser depressivo em um mundo onde ninguém te entende, pessoas que acordam bem e vão viver suas vidas, enquanto você acorda e a primeira coisa do dia é tentar se convencer de que aquele dia vale a pena, de que você vale a pena. Ninguém entende, só julga, exceto aqueles que também tenham depressão, que sabem minimamente qual é o sentimento. Mesmo em frangalhos e todo arrebentado, lutar pela vida, quando o suicídio parece ser a opção mais segura e indolor, é um ato de coragem enorme e requer uma força absurda. Ele gritando quando os meninos se jogaram felizes em cima dele foi pesado, um grito que veio da alma, um pedido de socorro carregado de desespero. O abraço dele no Steve no final, lindo! O folheto Coastal Carvings na parede desde o início avisando pra gente o que viria, detalhismo. O Steve é o personagem mais complexo, o Cillian deu tudo de si, e o resultado foi ótimo. O personagem consegue ver sempre o melhor das pessoas (que valem a pena), a saúde mental dele completamente esgotada, que até dentro da própria casa no final, recorre ao vício, é muito triste a cena que ele sobe com a garrafa na mão. Ele entrega alívio cômico em frases como "é bom que a cadeira não vai prestar queixa" ou imitando o Jamie, ele entra na vibe dos meninos, é o único jeito de ultrapassar o muro emocional que eles construíram. Tenta bancar a máscara de apaziguador, mas em seus vícios e nas fitas se revela como é. Cobra muito de si, como se tivesse que resolver os problemas do mundo todo, não consegue desligar. E quem resolve os dele? Ninguém. O vício em oxicodona é só o reflexo da fuga de alguém que não suporta mais viver o que vive, mas sabe que se pular fora do barco, tudo desmorona, ele é o "por um fio" que tá segurando tudo. O filme é uma baita crítica social ao sistema e como eles tratam essas pessoas. Ao salário baixo dos professores e diretores que aguentam todo tipo de situação, agressão verbal e física, assédio sexual e moral, mas principalmente ao burnout e esgotamento da sanidade mental de quem lida com alunos dessa faixa etária entre 13 e 18 anos. Fica claro que quem é da área de pedagogia, faz por amor, remuneração adequada esse povo não tem, muito menos apoio dos órgãos responsáveis. O filme não tem final feliz, é um soco no estômago e tchau. Acredito que tenha sido o objetivo, então a direção entregou com maestria tudo o que o roteiro pediu. Maravilhoso!
Saudosa Maloca
3.3 46Ótima direção de fotografia de Lito Mendes. A ambientação impecável. Gosto muito da interpretação do Miklos, até porque ele tem uma bagagem musical muito ampla, de muitos anos, nada parece forçado e soa muito natural. A cena final em que eles perderam tudo, mas não a companhia um dos outros é linda demais de assistir, dá uma nostalgia. O filme mostra tão bem como a vida, a memória e as canções das pessoas são tratadas apenas como entulhos e tralhas por essas grandes empresas, que se importavam apenas com o possuir coisas, uma sociedade que valorizava apenas o ter e não o ser. O progresso beneficia apenas quem está esmagando os sonhos do outro. Essas pessoas periféricas são invisíveis para o sistema. Adoniran transformava essas pessoas e suas histórias de vida em arte, um legado que marca a gente até hoje.
Consequência
2.1 25 Assista AgoraAdoro o Keanu Reeves, mas não consegui assistir até o final, o filme é horrível. 1 estrela só porque valeu ver o Scorsese. Jonah Hill dirigiu o Keanu mas esqueceu de contratar alguém bom para dirigir a si mesmo. Confundiram fazer piada com virar uma.
O Pão Nosso de Cada Dia
4.2 19"Looks like you've popped into a hornet's nest", essa frase resume o filme todo. A direção de fotografia e a atuação do Farrell são pontos altos, mas é carregado de machismo, agressões e alguns momentos confusos. Ao verificar o contexto da época histórica e bastidores do próprio filme tudo faz sentido, mas não dá para ignorar certas coisas só porque o filme tem uma estética linda e é um clássico, é sufocante assistir sendo mulher, mesmo considerando a época. Esse puritanismo religioso rural e estrutura patriarcal não passam despercebidos. [Spoilers] Vi a idealização de uma esperança de romance nos primeiros minutos e um homem que invalidou a esposa durante a trama toda tentando reconquistar e trazer ela de volta no final, como se nada tivesse acontecido. Cheguei a me perguntar se o filme era uma sátira (à figura do pai), mas não. O filme ia se chamar Our Daily Bread, onde o Murnau mostraria que o campo era um lugar grandioso e a cidade bonita, vibrante e cheia de emoções, porém a Fox achou o filme artístico demais e que não era muito comercial, não venderia. Mudaram o nome para City Girl e forçaram as novas cenas e diálogos que representassem melhor a ideologia americana que eles queriam vender, o Murnau abandonou o projeto antes de terminar a edição e foi gravar outro filme (Tabu). Como resultado, temos o visual lindo, mas um roteiro totalmente desrespeitoso. Saindo dos bastidores e indo para o contexto da época, para entender melhor esse tradicionalismo (se é que é possível entender tanta falta de respeito e machismo), como o roteiro faz o pai do Lem parecer certo, mesmo batendo nas pessoas, ameaçando funcionários de morte, inventando mentiras pra lá e pra cá, tudo isso com a bíblia numa mão e a arma na outra. Pesquisei e li que entre 1920 e 1930 existia uma divisão entre o campo e a cidade na América, na cidade o período conhecido como Roaring Twenties, que resumindo seria Jazz, mulheres independentes, bebidas e liberdade era visto pelo povo do interior como um pecado terrível. Provavelmente o pai do Lem associou a Kate esses boatos exagerados sobre a cidade sem dar chance de conhecê-la (como se ela fosse corromper o Lem). Outra coisa é que a quebra da Bolsa foi em 1929 e o filme é de um ano depois. Não podemos esquecer do código Hays (que ditava o que aparecia ou não nos filmes), já estava começando a aparecer em 1930, as regras diziam que por exemplo pais, juízes e clero não poderiam ser ridicularizados nos enredos e que a moralidade deveria sempre vencer e ser aclamada no final da produção. Isso explica muito o motivo de ninguém ter feito nada contra o Tustine, nem mesmo o filho, que age com uma passividade irritante durante o enredo todo. O Murnau queria que o filme fosse mudo, mas a Fox queria transição para o falado, a versão falada não fez sucesso. Mesmo já tendo direito ao voto, no filme as mulheres são vistas como algo, como nada, alguém para ser subordinada ao marido, lavar, passar, cozinhar, costurar remendos de roupas, cuidar do filho e só, tendo que concordar com todas as decisões do marido sem poder dar opinião em nada, o filme pode até ter falas, mas a mãe do Lem está em um filme mudo, ela só aparece fazendo essas coisas e impedindo o filho de confrontar o pai. Dá pra perceber que mesmo ao discordar de algumas ações do marido, ela recua. O pai fica revoltado quando lê a palavra waitress na cartinha do Lem, eles tratam o Lem como se ele fosse um filho adolescente que tivesse ido viajar, o mesmo, que já se sentia adulto suficiente até para pedir alguém em casamento. O roteiro primeiro prega que o Lem defenda ela, em situações de assédio no trabalho (foi super gentil), onde ela poderia, inclusive, se defender sozinha, mas quando surge a oportunidade de defender sendo esposo dela, ele não faz nada, nem contra os homens, acreditando neles e não nela, nem contra o pai. O roteiro tenta se redimir no final colocando ele batendo no Mac, mas só após ela ir embora, por pura pressão da partida e não por vontade própria. Se o pai conseguiu causar esse desconforto todo em quem assiste, é porque entregou muito no papel, um mérito total do ator David Torrence. Muito pesada a sequência em que a Kate apanha dele, assim que chega, sem apoio de ninguém, dá muita dó quando ela fala "And this is our honeymoon!", ela quebrada por fora e por dentro. De qualquer forma, algumas coisas no filme me marcaram muito, positivamente. A trilha sonora é muito boa, crescente no piano para momentos de drama e romance, violão mais suave para momentos engraçados e alegres. O som casou muito bem com o visual na cena da Kate na janela do lugar onde ela morava, quando passa o trem. A ambientação é muito bem produzida, tem uma planta morta e empoeirada representando a tristeza e vazio que era a vida dela, tem também no quarto uma gaiola de metal com um pássaro, representando essa prisão que ela sentia, mas o mais interessante é que a gaiola segue com ela até o final do filme, representando que mesmo ao chegar no interior, após se casar, ela ainda estava presa, muito mais, aliás. No início eles brincam girando a engrenagem e o passarinho canta, depois dos acontecidos de agressão e assédio, o roteiro nunca mais faz isso, uma ótima alegoria à Kate nunca mais ter sido feliz ali, oprimida e presa. A cidade, as estações de embarque, o restaurante, a banca de jornal, simplesmente perfeito cada detalhe ambientado, me senti em 1930. Os figurantes (não economizaram, são muitos), bem vestidos, bem dirigidos, a cena dele pela cidade é linda, é de uma beleza diferenciada. Apesar do desconforto assistindo, o enredo rendeu alguns momentos de descontração no início, eu ri em algumas cenas no restaurante. Achei ótima a cena deles pelos campos, muito bem dirigida. Essas gravações em campos de trigo, de rosas, girassóis, nunca falham, funcionam muito em romances. Precisamos enaltecer a atuação do gatinho. Também ri muito na cena que o velho fofoqueiro conta pra todo mundo que ele casou e os feiosos começam a se arrumar na carroça, porém depois durante o filme, quando mostra que eles são assediadores é muito desconfortável, todo mundo dando em cima dela, pegando no corpo, nas roupas, como se ela fosse um pedaço de carne pendurado no mercado. Outra cena linda é a da colheita, é muito boa, tem muitos detalhes, desde o recolhimento até o ensacamento do trigo, a cena com os cavalos, as montanhas. Outra cena engraçada é a que o trabalhador lava o rosto na água que o cavalo tá bebendo e quando vai dar a água de volta o cavalo vira a cara e não quer mais, é muito cômica, é muito engraçada. A atuação da Mary Duncan como Kate foi impecável, ela oprimida, encolhida, com o olhar caído. A cena do abajur, em que o Mac entra na casa é muito desconfortável, muito bem dirigida, a iluminação direcionada à parede simulando apenas a luz do objeto em cena, as sombras, deixou a cena muito mais tensa do que já seria, um grande acerto. Quando o Mac passa a mão nela, é muito apavorante. O assédio sexual que ela sofria é desesperador porque a pessoa está no meio do nada, em uma fazenda, na cidade você tem para onde correr atrás de ajuda, de pessoas. Acho muito forte quando o Lem pergunta se ela não tem nada a dizer e ela apenas sinaliza com o rosto que não, uma hora a pessoa cansa e desiste de justificar. Também quando ela diz que qualquer homem pode arrumar uma mulher, mas é necessário muito mais que um anel e um documento para segurá-la. É uma das frases mais reais e profundas representando a situação dela, ali ele já tinha perdido ela. Como em todo filme que vi de 1927 à 1930, a redenção do marido sempre vem nos últimos dois segundos do roteiro. A cena dos cavalos correndo com o Lem e o Mac brigando na carroça é muito bem feita, cena com animais são difíceis de gravar, o pai dele atirando, entrando em pânico, aparece "father" na tela, depois mostra que o tiro não acertou no Lem, ele indo atrás dela, a sequência ficou muito boa. O Lem pareceu genuinamente arrependido, porém sinto que ter feito isso tão tarde prejudicou muito o roteiro. Eu não ousaria comparar City Girl com Sunrise, em Sunrise a gente vê o Murnau em tudo, aqui só em alguns detalhes, nada é tão marcante como é no outro filme, a Fox interferiu muito.
Super Mario Galaxy: O Filme
3.4 103 Assista AgoraGuillaume Cassuto arrasa muito! Os visuais do Patrick O'Keefe ficaram lindos demais, eu já havia amado a direção dele no Aranhaverso. Espetacular ver o trabalho do Renan Porto representando o Brasil no filme. O Bowser rouba a cena, igual no primeiro filme, a voz do Jack Black imprime muita personalidade na dublagem. Mesmo sendo uma animação, o roteiro fez questão de inserir tantas camadas, o personagem aparece mais emocional em alguns momentos fofos com o filho. O pai ausente mais presente que temos! Sou muito fã dos jogos desde pequena, mas não esperei uma adaptação muito robusta nessa sequência, então gostei muito do filme. Quem não jogou Wii pode se perder em alguns momentos. Cheio de referências nostálgicas. Os gráficos estão lindos, o neon, os planetas. Ótima direção de Aaron Horvath e Michael Jelenic.
Casamento Sangrento: A Viúva
3.3 104Bem melhor que o primeiro, aqui o enredo flui, o espectador já sabe como o jogo funciona, então é só se adaptar às novas regras. [Spoilers] Com a Faith em cena, a Grace tem uma motivação maior, que é proteger alguém no jogo, diferente do primeiro, que é cair aleatoriamente no jogo apenas pela sobrevivência crua. Não que isso não seja importante, mas cativa mais quem tá assistindo. A tensão emocional entre as duas é interessante, mas um pouco cansativa. O ponto alto pra mim é o roteiro satirizando os ricos, esse povo se mata entre si, sem precisar de nenhum motivo específico além do financeiro. O gore está na medida certa. As piadas sobre as explosões de sangue trazem alívio cômico. O ritual e a cena do casamento são muito boas, me surpreendeu, eu não esperava tanto da sequência, mas entregaram, a última cena em que eles se matam atrás do anel é a melhor do filme. Ótima atuação da Samara Weaving. Não é um filme memorável, mas é um gore leve pra rir.
A Empregada
3.4 604 Assista AgoraÉ desastroso! Foi saturado acompanhar por duas horas. [Spoiler] O ritmo do filme é péssimo, e as atuações completamente mornas e sem sal do Brandon Sklenar e da Sydney Sweeney só arruinam tudo ainda mais. Ela não entregou na atuação e nem na narração. Até Beyoncé em Obsessiva conseguiu entregar mais no final. Mas claro, o público que assiste com o cérebro desligado (ou apenas para vê-la pelada) vai dizer que foi a melhor atuação de todos os tempos. Não foi. Quando a atuação não vende a ideia, a gente simplesmente para de se importar com o que vai acontecer com os personagens. A atuação da Amanda Seyfried carregou o filme nas costas, mas não foi suficiente pra salvar o enredo corrido da última meia hora, que atropelou o timing de tudo. Para que a reviravolta funcionasse, deveriam ter preparado o espectador, com atuações mais convincentes. Como há inexpressividade por má atuação em boa parte do enredo, no final não convence, pois não vendeu àquela ideia em momento algum, não cativou no espectador algo que compensasse a surpresa do plot. Por sorte, a Amanda rendeu ótimas (poucas) cenas. Apesar de tudo, gosto do roteiro empoderando mulheres contra homens abusivos, e também mostrando que o comportamento narcisista e sociopata quase sempre vem da influência da criação dos pais. O roteiro reforça isso usando a mesma frase várias vezes, uma em cada geração. Não li o livro da Freida McFadden. A entrevista da Amanda falando sobre descobrir que era produtora 3 semanas depois, faz tanto sentido. De qualquer forma, é um filme totalmente esquecível.
Nosferatu
4.1 676 Assista AgoraOutra direção primorosa do Murnau! Que filme maravilhoso! [Spoilers] Uma das primeiras frases da Ellen é "Why did you kill them... such beautiful flowers?", e não está ali por acaso, aliás, nada em um filme do Murnau é por acaso, a frase se conecta tão bem com ela se sacrificando no final para salvar a vida de todo mundo. Só uma pessoa que prefere ver as flores vivas no jardim do que em um buquê se importaria o suficiente para se entregar e salvar a cidade. Gosto como o conto vai passando na tela, como se estivéssemos lendo o livro, o detalhe das páginas rasgadas. Dividir o filme em atos também é um acerto, combina muito com a vibe gótica do Expressionismo Alemão, observei que dá tempo de lermos a página toda, tem filmes mudos da mesma época que não respeitam o tempo de leitura do espectador. Achei muito importante o romance entre o casal contrastando com as mortes, equilibra, é um alívio na trama. Ela correndo pra se despedir dele (de novo), abraços, beijos, cartas. Imagina você viajar para uma cidadezinha e no quarto que você se hospeda, tem um livro contando basicamente tudo que vai acontecer com você nos próximos dias, que você vai ser atacado e mesmo assim continuar lá. Admiro a audácia do Hutter de jogar o livro no chão, fingir normalidade e rir do perigo, se eu fosse o Conde também atacaria quem debochasse do meu livrinho, uma falta de respeito com nosso vamp-mor. Achei muito engraçado os cavalos fantasmagóricos com os rostinhos tampados e só os olhos de fora (espero que não tenha sido desconfortável para os bichinhos). Até os figurantes nesse filme são super expressivos, que produção detalhista. Eu achei genial terem misturado imagens no set com cenas reais no castelo eslovaco e em pontos na Alemanha, o Murnau realmente se compromete. O chão quadriculado, as cadeiras longas, a caveira no relógio, os quadros e tapetes pendurados. Além da casa do Conde, também me chamou a atenção a ambientação da sala de reuniões com as miniaturas de barcos na estante e na parede, o tridente e o quadro. Lindo. A direção de figurino acerta em tudo, o contraste das roupas claras do Hutter com as sombrias do Conde. Os óculos redondos da época. A maquiagem esbranquiçada do velho e o cabelo todo ouriçado, dele e de metade do elenco, esse visual desleixado e descabelado combina muito com o gênero horror, diferencia o filme totalmente dos filmes americanos da época, que se preocupavam muito com a aparência dos personagens principais, super polidas e alinhadas, pelo menos os que eu assisti até agora. Os rabiscos nas paredes onde o Knock está, a cidade toda suja, as unhas das pessoas, tudo isso passa esse clima de peste e praga pela cidade, inclusive, o desespero do povo lembra o da Peste Bubônica, é muito similar, todo o caos. O filme é de 1922, a Gripe Espanhola de 1918, imagina esse povo assistindo a um filme que relata a chegada de uma doença sem solução por meio de navios, isso é assustador por si só, o Conde acaba sendo a representação física desse medo. Algumas cenas me marcaram muito, mas sem dúvidas a que mais marcou com relação a isso foi a sequência em que as portas são marcadas com cruzes representando quem morreu, os caixões sendo carregados pelos homens de sobretudos pretos, cartolas, expressão bem triste, e a quantidade de caixões posteriormente toma conta da rua inteira, visualmente muito forte. O Dr. Sievers explicando um pouco sobre os experimentos também muito representativo, tentar desvendar algo sobrenatural através da ciência, a gente vê isso em The Walking Dead e The Last of Us, em todos eles a ciência falha pra fazer sentido no enredo. Mas é bom trazer esse outro lado para quem assiste. Quando tudo fica explicadinho e a medicina ou ciência apresenta uma solução, parece que o terror perde a graça, pelo menos pra mim, o mistério e a incerteza entretém muito mais, até porque quem quer roteiro redondinho e previsível vai ver filme de romance. Terror tem essa aura enigmática, de deixar a gente o mais agoniado possível (terror bom, porque tem uns que só pela misericórdia de tão ruim. Pode entrar, The Nun!). As atuações estão impecáveis, o destaque, claro, é a do Max Schreck como Conde Orlok (na época, as pessoas achavam que ele era um vampiro, de tão bom em cena), do Gustav Von Wangenheim como Hutter e da Greta Schroder como Ellen, os atores entregaram muito! O Nosferatu com a postura encurvada quando o Hutter chega no castelo, as mãos pra dentro com aquelas unhas gigantes, os olhos arregalados. Sempre desconfiem de pessoas que disserem "Your wife has a lovely neck". A cena do Nosfe dormindo em pé à noite é uma com o visual mais legal, a iluminação, a projeção de sombra, ficou linda. O andado dele de costas, assustador. A imagem centralizada na porta, e o resto da tela escura, ótima direção de fotografia de Fritz Arno. Sequência surreal de boa a que ele vê o Conde no caixão, só o rostinho. Ele se arrastando na escada, perturbado no quarto, o Nosfe indo atrás da Ellen. O Conde levantando no barco também e aparece "the dead ship had a new Captain", muito bom! Inclusive, a tipografia estilo Fraktur usada é algo marcante, nós, designers, usamos até hoje esse tipo de fonte no Adobe pra criar convites de festas, flyers, etc. Claro, a do filme foi feita à mão pelos artistas, mas mesmo assim vale lembrar que um século depois, ainda usamos no nosso dia a dia. Outra coisa linda é o uso do stop motion, aquela cena da porta se abrindo ficou perfeita. Essa coisa do quem vai chegar primeiro até a Ellen é muito bem construída no roteiro. Achei apavorante ele com a cara na janela quando a Ellen olha, misericórdia! A coreografia das mãos do Nosfe no filme, me lembrou muito a que o Michael Jackson usa no clipe Thriller. Talvez o diretor do clipe tenha se inspirado. A cena mais icônica do filme é provavelmente quando ele chega na casa da Ellen, a da sombra. Ele subindo, a sombra na parede, entrando no quarto até o corpo dela, o olhar dele fixado na câmera diretamente para o espectador, ele se jogando ao ver o sol. É dramática, mas combina muito com o tom do conto. Diferente de filmes dos anos 20 que dramatizam por dramatizar, sem justificativa. Ele virando fumaça, pode ter sido uma referência do Murnau a Le voyage dans la lune do Méliès, porque 20 anos antes ele criou o mesmo efeito transformando os selenitas em fumaça. A trilha sonora se encaixa perfeitamente. A montagem e edição ficaram muito bem executadas, o filme é preto & branco, mas puxado para tons, e eles vão mudando a tintagem de acordo com o clima do filme, percebi que em momentos mais tranquilos ou de dia, ele fica amarelado, quando a cena pede algo mais sombrio ou noturno, fica azulada meio acinzentada, como por exemplo quando ele desce da carroça está amarelado, entra no terreno do Conde, fica azulado, tirando a alegria e o calor da cena. Em alguns momentos também notei o uso do Magenta. O mais interessante é que isso só acontece até certo ponto, um hora essas edições se embaralham e o ambiente amarelado que era o seguro, não é mais, e isso causa pânico em quem assiste, deve ter sido o objetivo de quem editou. Por exemplo dentro do castelo o Conde aparece em alguns takes amarelados, é como se o ambiente tranquilo tivesse sido contaminado pela praga e ninguém mais está seguro em lugar nenhum. A cena do espantalho e do mar cria um link na gente direto para Sunrise, também do Murnau. Esse filme tem uma fórmula, que vejo replicada em uma imensidão de filmes ao longo desses 100 anos. Um lunático comentando sobre algo assustador, alguém viaja, descobre ou revive esse algo ou alguém, que ataca todo mundo, o protagonista sobrevive (esfarrapado) ou se sacrifica para salvar a todos. O Spielberg e o George Lucas têm tantos. Nosferatu já fazia isso no século passado. O filme é reconhecido até hoje como o clássico pai desse tipo de terror, mas tem a história muito triste. Eu li sobre a Prana Film, que convidou o Murnau pra fazer esse filme, um plágio não autorizado de Bram Stoker (Drácula), só fez um filme em todo o seu tempo de duração como produtora, faliram em seguida. A Florence Stoker processou e ganhou a causa, óbvio. As cópias foram destruídas e a gente só tem acesso ao filme porque algumas escondidas se salvaram. Um dos melhores filmes de terror que assisti.
Vai Trabalhar, Vagabundo
3.4 28 Assista AgoraDireção maravilhosa do Hugo Carvana! Aquela voz de locutor no início já faz a gente rir. [Spoilers] Direção de fotografia impecável de José Medeiros, os grãos na tela dos anos 70 também ajudam muito a levar a gente para a década, dá vontade de estar lá no bar com eles. Regis Monteiro acerta muito nos figurinos e cenografia. Cabelo bagunçado, camisa aberta, correntinha, calça flare e a atuação tão precisa do Carvana, nem parece que leu um roteiro, de tão boa você jura que ele é malandro. O enredo te prende do início ao fim. Ainda falando sobre o Hugo em cena, o cara se desdobra em mil facetas, um artista com repertório muito completo, entrega tudo, ex-presidiário, conquistador, comendador, padre (picareta), cachaceiro, filósofo, autoconfiante, negociador, até bondade. Vontade de ver as pessoas de quem gosta conquistando coisas (claro, pra ele não importa de onde esse dinheiro venha). Confesso que a pós-sincronização das vozes incomoda demais, eu tenho o hábito de estar atenta ao que está sendo dito, e muitas vezes os lábios não estavam sincronizados. Mas acredito que naquela época era mais cômodo e comum esse tipo de pós-edição de montagem e som. Não prejudicou o filme em nada. Algumas críticas sociais estão muito presentes, apesar de parecer ser um filme despreocupado, a cena em que eles falam sobre as empresas que vão tirar as pessoas de suas casas para fazerem construções. O momento em que o Dino rouba a grana, mas compra presentes e leva de volta para as crianças da vila que vivem nos barracos, quase um Robin Hood da malandragem. Eu adorei a cena em que ele e a Zezé Motta estão na casa dos patrões dela, ele abrindo as portas sincronizado com a música é bom demais, depois eles dois dançando Ella Fitzgerald. Eu queria namorar o Carvana em 1973 só pra ele dançar comigo igual ele dançou com a Shirley. Como pode um conquistador barato entregar mais momentos românticos do que a maioria dos homens? Essa cena foi muito leve. Inclusive, o Hugo nesse filme tem um charme em cena, não consigo imaginar outro ator no papel. Em 1 hora e meia de duração, perdi as contas de quantas pessoas ele paquerou (lembrando que não dá pra ignorar, apesar de ser engraçado no roteiro, também do contexto e da época, em alguns casos soa como assédio e o jeito que ele fala de mulheres com os amigos como machismo. Olhando do nosso contexto atual, falas como a de que o corpo da esposa tá se acabando (Babaloo), mulher como troféu de partida, ele pedindo pra ela expor o corpo em troca da pizza, são péssimas. Embora o próprio enredo traga certa redenção quando a gente vê que ele é gente boa, mas vale a menção). Algumas frases do nosso "filósofo" que me mataram de rir: "aquela ali é um bagulho perto de você minha santa", "Não desperta o gigante, não desperta o gigante", "cobra que não anda, não engole sapo", "Camões, comendador? Não. Dom Gustavo, poeta espanhol e aventureiro", "Dona Heloísa, me devoras o coração". A maior ironia é ele cantar "vai trabalhar, vagabundo" pra todo mundo, e ele mesmo não trabalha, e ainda responde "eu não vou que eu não sou louco. Ou sou?". Uma cena muito fluída é a que eles estão contando o que acontecia no passado no bar, eles andando e interagindo com o passado. Cinema! Outra que gostei foi no final, o bar é o elemento central físico, as sequências entregaram tudo: saudade, felicidade, tensão, brigas, silêncio, conveniência, tiroteio, bandidagem, romances. A direção das cenas com muitos atores em cena são muito boas. É um caos, mas muito bem organizado por quem sabe o que está fazendo. Nelson Xavier, Paulo César Peréio e Valentina Godoy também brilharam muito. E misericórdia, como essa Valentina é bonita, não conhecia essa atriz. O filme exala liberdade, liberdade de corpo, de alma, de mente. Isso é atraente demais. O roteiro conseguiu fazer duas pessoas comendo pizza e tomando cerveja ser extremamente sexy. O filme começa em p&b indicando a cor que a vida perde quando se está preso e se encerra com cores, calor, sorrisos na escadaria e no calçadão do rio. Que coisa linda! Esse filme merecia mais visibilidade, nunca fui ao Rio e me senti moradora de lá, mesmo caótico, é muito aconchegante. Na música final ouvi o nome dos personagens, fui pesquisar e vi que o Chico Buarque compôs especificamente para a obra, achei muito legal, gostei muito dessa energia toda de 1973. Se amanhã eu acordar querendo usar só calça flare, cabelo desleixado de rockstar dos anos 70 e passar o dia jogando sinuca, a culpa é desse filme.
Carvana
3.6 5Que coisa boa ouvir o Carvana, ir vendo as imagens e documentos dos anos 70 e 80 e a evolução do cinema brasileiro.
O que mais gosto no Carvana é que ele não conta mentira nos filmes, ele mostra a realidade brasileira, muita gente precisa do jeitinho brasileiro pra ter o mínimo pra viver. Ele debocha da burguesia sempre que pode. Trilha sonora maravilhosa! Por trás do sorriso do malandro existe desigualdade e luta, é preciso usar toda a malandragem que puder pra sobreviver. Essa é a essência do Lourival, no filme Vai Trabalhar, Vagabundo, que, inclusive, foi corajoso em confrontar a ditadura e mostrar no filme um Brasil real. Isso é resistência!
A melhor música da trilha do documentário retrata tudo o que o Carvana pensa e representa como militante e amante da Democracia, já que ele foi ativista, e mesmo depois do sucesso continuou usando a sátira e o humor como armas políticas para trazer luz para as pessoas que nem sabiam o básico sobre consciência de classe. Gosto muito dessa música, ela é tão forte, toca na ferida sem dó.
"Canção do subdesenvolvido", por Carlos Lyra, 1962:
[...] Santa Cruz...hoje o Brasil
Mas um dia o gigante despertou
Deixou de ser gigante adormecido
E dele um anão se levantou
Era um país subdesenvolvido
Subdesenvolvido, subdesenvolvido.
[...] O povo brasileiro embora pense, dance e cante
como americano
Não come como americano
Não bebe como americano
Vive menos, sofre mais
Isso é muito importante
Muito mais do que importante
Pois difere os brasileiros dos demais
Personalidade, personalidade
Personalidade sem igual
Porém... subdesenvolvida, subdesenvolvida
E essa é que é a vida nacional!
Avatar: Fogo e Cinzas
3.5 305 Assista AgoraJames Cameron não brinca em serviço! Um dos filmes com os visuais mais lindos que eu já vi no gênero. Uma obra de arte! A história deste me cativou mais que a dos outros dois. [Spoilers] A Varang é uma ótima vilã, deu muito certo ela com o Coronel Miles, que quem diria... se apaixonou! Hahahh. O Coronel aqui tem novas camadas e desperta vários sentimentos na gente, ódio, empatia, desespero, humanidade (ou pelo menos uma tentativa), tristeza, dó. Acho que o personagem se despede muito bem da saga. Do filme todo o desenvolvimento dele é um dos meus favoritos, o enredo investiu muito e o resultado ficou ótimo. Alguns personagens tiveram um tempo considerável de tela e não entregaram tanto. Na minha opinião o Jack Champion, que faz o Spider é engolido pelos outros atores. Os efeitos visuais também deram um toque de expressividade muito grande para os personagens digitais, o que potencializa ainda mais o contraste com a atuação dele, que parece travada, falta intensidade emocional quando comparado ao resto do elenco, falta carisma pra segurar tanto tempo de tela. O Stephen Lang entrega muito em cena, não teve nenhuma cena que ele não marcasse território e comprovasse o talento que tem. O ator conseguiu entregar um vilão intimidador, mas que conquista a gente, que se vê torcendo o tempo todo pela redenção dele e fica triste quando vê ele preferindo se jogar no fogo (ainda acho que ele deve sobreviver) do que aceitar que perdeu a Guerra. Um cara que viveria muito bem ali no meio deles, mas que sempre foi tomado por memórias passadas que lá no fundo, nem importavam nesse nível, mas ele se apegou tanto àquilo e transformou em destino. Ele acabou virando uma versão de tudo o que mais odiou por tanto tempo. Ansiosa para ver ele nos dois próximos capítulos, já que o ator confirmou que vai estar. Gostei muito da humanidade que vem sendo construída no personagem quando está junto com o Spider. O Quaritch está psicologicamente abalado, mas como já saiu por aí falando que é impiedoso e que tem zero misericórdia se sente inferior se voltar atrás. O Lo'ak amadureceu tanto, o filme desenvolve essa trajetória muito bem, mesmo que os meios para isso tenham sido a teimosia, rebeldia e ter que enfrentar todos os adultos, ele tinha um ponto e foi atrás até provar que estava certo e todo mundo respeitar. Os filhos do Jake em vários momentos acabam agindo como mãe e pai um dos outros, acho legal como o filme faz isso de forma natural, não como se fosse algo errado, mas mostrando que está tudo bem ser quando a família tá no meio de uma Guerra. Os Na'vi tem muito isso, essa independência, é cada um por si, mas se alguém mexer com você, todo mundo vai estar ali. Senti negligência por parte do Jake em alguns momentos, o filme até trouxe essa redenção no final, ele sempre castigando o filho pela morte do outro, o coitado procura validação do pai o tempo todo, e nada. Chega uma hora que ele desiste de ser alguém como o pai e descobre uma versão de si bem melhor que a dele. Todos nesse filme têm crises de identidade, e vão resolvendo aos poucos, o bom é que o roteiro inclui a gente nessas descobertas. Direção de arte e design impecável de Dylan Cole e Ben Procter. Que coisa linda Pandora! A direção de animação e efeitos visuais me marcaram demais, eu não esperava menos do Joe Letteri já que ele esteve em O Senhor dos Anéis, ele é o melhor que temos! Edição e montagem impecáveis! O James gosta de ficar em cima, cuidando de cada detalhe, o resultado fica incrível! Tudo lindo! São 3 horas de duração sem piscar, e poderia tranquilamente ter mais duas.
Coquete
3.1 15Tive que pesquisar o que era Coquette e descobri que basicamente é (ou era) uma mulher que se arruma muito, flerta com todo mundo, mas não fica com nenhum deles, não era algo ofensivo, às vezes usado como julgamento para dizer que alguém era manipuladora ou vaidosa, mas só. Acho que o termo de hoje mais próximo seria o biscoiteira. Achei que a personagem seria fútil do início ao fim, mas em certo momento a atuação da Mary Pickford entregou profundidade. Considerando que o filme é um dos primeiros migrando do cinema mudo para o falado, foi um baita desafio para a carreira, acho que ela se saiu muito bem. Não ficou teatral e dramático em excesso como alguns da época, mesmo sendo uma adaptação de uma peça da Broadway para o cinema. Vi a menção ao Assistant Dramatic Director Earle Browne nos créditos do início, nunca tinha visto nos outros filmes antigos que estou assistindo, pesquisei e foi um termo criado para nomear quem ajudasse a adaptar o filme para o cinema falado, o técnico e o artístico, esse cargo era pra quem fazia a transição, garantindo que nada se perdesse nas atuações e nos sons. Equilibrando a dramatização em todos os aspectos do filme, sem exageros e sem a falta dele. A direção de fotografia é mais estática do que a maioria dos filmes anteriores de cinema mudo, acredito que pela da falta de locomoção da câmera mesmo, por conta de ruídos ou peso. Não é ruim para o filme, até combina, dá uma sensação de sufocamento dentro da casa e da vida da protagonista, que é um caos emocional. Uma casa cheia de hipocrisias, assim como a sociedade dos anos 20. As mulheres criaram coragem de cortar o cabelo (as flappers) ali em 1918, 1929 está bem pertinho, então a sociedade ainda via isso com cara feia, muito corajoso a Mary cortar o cabelo longo e se arriscar em um papel totalmente diferente dos fofinhos que fazia. Vi que ser Coquette não era necessariamente mal visto, claro, no meio dos ricos, assim como hoje em dia, vai um pobre fazer o que quer, é julgado em tudo. Mas a riquinha da época que decidisse ficar com todo mundo, encher a cara, etc, não se dava mal, desde que ninguém descobrisse, já a pobre, era jogada na sarjeta, perdia a vida social (que nem tinha) e nunca mais arrumava ninguém. Me pergunto se tudo isso tivesse acontecido entre a Norma e o Stanley, se o pai dela faria algo. Provavelmente não. Analisando a personagem Norma, é uma pessoa muito mentirosa e manipuladora, brinca com os sentimentos de todo mundo pra manter o próprio ego em dia. Um século depois e muita gente ainda faz o mesmo. Acho que nem ela achou que algo que era pra ser só curtição resultaria nela viúva e órfã, virando mãe do irmão. O filme tem dois pontos fortes de atuação pra mim, quando ela perde o Michael e quando ela mente no tribunal. Quando ela perde ele e se sente desolada e diz "I don't care" sobre o pai, dá pra sentir os primeiros indícios de que havia sentimento real ali. Quando ela mente a gente vê que o medo da repressão social e tentativa de agradar o pai era maior que qualquer ponta de caráter. Fiquei sem acreditar que ela teve coragem de acusar um cara tão bom de abuso sexual. Pesado! Imagino a revolta do povo de 1929 assistindo isso, basicamente todo mundo ali assistindo se importava horrores com a própria honra, honra essa que definia quem você era, onde trabalhava, quem andava com você, em quais lugares era bem-vindo, etc. O espectador sabia que a maior dor da época era ter a honra manchada, acabava com a família. Tudo em prol de manter as aparências de uma vida tradicional e hipócrita do lar conservador (que de conservador não tinha nada). Não sei como ela conseguiu, porque nem o pai, que era super egoísta e preconceituoso, conseguiu ver ela inventando tamanha falta de respeito contra o Michael, caiu em si e percebeu o mini monstro que criou (cópia dele). O pai é tão culpado quanto, um cara que prefere tirar a própria vida do que ser preso e encarar as consequências de seus atos. Ninguém saiu ganhando. O Michael era a única pessoa que tinha integridade, o resto, cada um tinha seus traços tóxicos. Para o pai, a reputação da família e a virgindade da Norma eram mais importante que tudo, inclusive, vidas. Mas me pergunto, se ela tivesse feito tudo isso com o Stanley, que era rico, ele faria vista grossa e seria o primeiro na fila do cartório de manhã querendo casar os dois. Hipócrita! Quando a Norma mente sobre o abuso, acho que ele entende que a honra que ele tanto queria salvar matando o Michael não existia, ela era mentirosa e desonesta, assassinou um cara legal e inocente em troca de nada com nada, de controle moral. A filha era um troféu, uma bonequinha que ele idealizava como pura, mesmo vendo ela dando condição e recebendo flores de vários caras. Tanto o pai, como a filha, destruíram tudo que diziam amar. Fora que usava dois pesos e duas medidas entre os filhos, quando o filho homem fala que estava "fooling around" até 4 da manhã, e ele achou que era acompanhado de mulher, ele se mostrou super orgulhoso do filho e a raiva evaporou em segundos. Homem galinha? "Esse é meu garoto". Mulher apaixonada por alguém que ele não quer? Crime. Moral seletiva: qualquer semelhança com os dias de hoje é pura coincidência. Dinâmica familiar totalmente disfuncional. A Norma busca por validação externa de todos com quem flerta pra tentar fugir do ambiente sufocante que o pai cria. Mentira patológica, a solução que ela encontra pra tudo é mentir, isso, até a cena final. Como o pai é super repressor, ela entende que precisa criar um mundo fake onde agrade todo mundo, principalmente ele. Ainda mais naquela época, onde a narrativa dos pais é a que valia na vida de alguém. Na verdade ela usa as mesmas ferramentas de manipulação que aprendeu com o pai. É importante na cena final o filme mostrar a Norma recusando o casamento com o Stanley, pois mostra que após todas as mortes, houve um colapso total na persona que ela criou, os flertes, namoros e casamentos não eram mais importantes, ficou só o vazio da solidão e da melancolia das perdas. As prioridades mudaram. O amor, mal administrado, acabou envenenando as pessoas e a saúde mental de todos os envolvidos. As atuações dos pretendentes, dos atores John Mack Brown e Matt Moore são bem medianas, ficam ali quase como figurantes, a Mary se sobressai em todas as cenas. Atuações mecânicas demais, muito teatrais, no mal sentido. Já ela, mesmo vindo do cinema mudo que é muito teatral e expressivo com o corpo, soube equilibrar, principalmente do meio para o final. Sobre o Oscar que ela ganhou. Se não fosse uma pessoa poderosa, influente e dona do estúdio United Artists, ela teria ganhado? Fica aí o questionamento, pelas atuações que vi da época em filmes de 1928 e 1929, não achei que a dela nesse filme merecia um Oscar. Isso, considerando o meu pensamento atual. Talvez em 1929 as pessoas acharam o filme incrível e viam ela como pobrezinha que sofre na trama e o pai como homem que se matou pela honra. Um destaque pra mim é a atuação do John St. Polis, muito polida, só abria a boca pra me irritar, e isso é bom. O filme não é tão ruim, considerando a época. Mas levar Oscar?
Rainha de Copas
3.8 108 Assista AgoraManipulação emocional em seu mais alto nível! [Spoilers] Como essa mulher teve coragem de arrumar as malas e fazer todo aquele drama, sabendo que estava mentindo em cada palavra? Medo de gente assim. Ela ignorou qualquer traço de humanidade que restava, tudo isso pra proteger o próprio ego das consequências das escolhas que tomou. Fora, claro, o crime do abuso da relação de confiança e autoridade, vindo da responsável legal. Abuso de vulnerabilidade emocional e familiar, assédio sexual hierárquico. Um marido machista que foi baixando a guarda no decorrer da trama para se adaptar às necessidades dela e do filho. Muito omisso e frio, que não entregava um pingo de afeto, mas mesmo com todos os defeitos, consegue a empatia do espectador, por estar sendo duplamente traído. Magnus Krepper não entrega a melhor atuação quando comparado com a Trine Dyrholm que engole todo mundo nas sequências. Você sabe que a atuação foi boa quando sente repulsa e vontade de esganar o personagem. Gustav Lindh entrega o que o roteiro pede, personagem muito frágil que vive cometendo uma série de idiotices para chamar a atenção porque no fundo se sente incompreendido e consumido pela depressão (pais divorciados e ausentes, drogas, não se situa em lugar nenhum). Quando você é esse tipo de pessoa problemática, mesmo quando você fala a verdade, infelizmente ninguém acredita. Uma coisa que me pega é isso dos casarões dos ricos, essas pessoas têm uma casa enorme, mas sempre vazia, monótona, sem vida, é um loop de: trabalho em troca de uma grana que não compra nada que os faça felizes, cigarro, bebidas (whisky e espumantes), falta de diálogo, festas artificiais para receber amigos artificiais, e no outro dia a mesma coisa. A paleta de cores e a ambientação é muito boa, essa frieza estética combina com a sensação de terror e impunidade que o filme deixa na gente (de propósito). Vi a sugestão na tela inicial da minha tv entre os filmes mais vendidos da semana, fui assistir com zero expectativa, até porque não conhecia a diretora dinamarquesa May el-Toukhy, foi uma surpresa boa.
O Anjo das Ruas
4.0 26 Assista AgoraÓtima atuação da Janet Gaynor, muito superior às duas anteriores. Ela naturalmente tem esse rosto angelical, combinou muito com a temática do filme. Senti muita vulnerabilidade na atuação dela no início, na fase de pobreza extrema. Ela e o Charles Farrell têm uma química enorme em cena. Essa vibe de Itália romântica é mérito do Frank Borzage, a névoa, os jogos de luzes bem posicionados. Direção técnica e artística impecáveis! O enredo é dramático demais considerando os dias de hoje, mas para a época serviu muito bem. Prefiro esse, inclusive, do que outros da época que tenho assistido, muito teatrais e exagerados. A direção de figurinos brilha muito, considerando que o filme é preto e branco e as roupas tiveram um papel importante na consolidação de sinalizar o passar de uma fase para a outra. O filme parece uma pintura em movimento, e faz total sentido já que estamos falando de um pintor e uma artista circense se apaixonando. Dá pra sentir toda a força do expressionismo europeu aqui, funciona muito porque cria um universo deles dois paralelo ao mundo ruim em que vivem, quase como que um sonho mesmo. As atuações da Janet exigiram muitas mudanças, primeiro ela era uma filha desesperada por remédio, depois saiu pelas ruas se passando por acompanhante, depois é acolhida e se torna artista, desconfiada e durona, depois se apaixona, vai se tornando doce, volta a ficar desesperada, no final entrega muita agonia naquela cena do reencontro deles. São muitas fases e isso exige uma qualidade técnica absurda do ator pra não parecer ter a mesma cara em todas elas, a Janet conseguiu transitar de uma para a outra de uma forma espetacular. Ela é uma artista completa! A história do casal é legal, mas tem alguns pontos que me pegam, a questão dos bens materiais, tudo girando em torno do dinheiro, fama, etc. A falta de sinceridade da parte dela, quando foi informada de que seria levada, bastaria um "vamos conversar?", sentar e contar o que aconteceu e a vida deles teria sido totalmente diferente. Gosto de como ele a vê com a beleza de uma Monalisa, quando a pessoa ama tende a ver o que há de melhor no outro sempre, isso é legal. O final acaba sendo um pouco decepcionante, ele demora tanto para redefinir o que sente, principalmente no momento em que pega ela pelo pescoço. A sequência na rua parece mais de um filme de terror, embora eu entenda que ele passou muito tempo alimentando um ódio mortal por ela achando que tinha sido enganado e só queria se vingar, acaba vendo nela só um fantasma do passado, algo ruim que representava a traição. Dá pra sentir que o cinema mudo usa muito isso de indicar o que se passa no psicológico dos personagens através da ambientação do lugar, o diretor criou isso muito bem nas cenas finais, tudo muito agoniante, pra gente e pra eles. Entendo que se ele reconhecesse ela de imediato iria perder o clímax da redenção e o final não seria como o público de 1928 estava acostumado, cheio de drama e romance em excesso. Em algumas cenas o machismo aparece de forma muito estruturada, na cena em que a cartomante está com o cara dentro da carroça. É bem desconfortável de assistir. O Gino também vê a Angela como uma mulher normal com problemas e percebe que não é o anjo que ele projetou na mente dele, trata ela totalmente diferente de uma forma punitiva e injusta. Tudo fica nas costas da Angela, o enredo humilha ela, destrói emocionalmente para ser digna do perdão do Gino, que inclusive, se coloca no direito de achar que pode julgar ela. Como na maioria dos filmes da época, a mulher que passa o filme todo em busca de conquistar o perdão do homem que ama, que ainda sai como herói. Enfim, estereótipos da época. Mesmo com essa problemática, o filme é bom.
Dance Party - Festa Quente
3.6 1Gente bonita dançando rockabilly dos anos 60. Amo essa estética de filmagem dos anos 80, esses takes dos pézinhos aparecem na maioria dos filmes. Todo mundo vive em prol apenas de dançar e fingir que está feliz enquanto o mundo desaba. Muito nostálgico, nem vivi essa época e sinto saudade, aliás, das duas, anos 80 e 60.
Aurora
4.4 214 Assista AgoraDireção impecável do Murnau! Toda a edição e ambientação combinam com o tom do filme, a fonte usada nas letras, a iluminação, os cortes. A trilha sonora ajuda muito a transitar entre sentir ódio pelo protagonista, desespero, ternura, pena, tudo vai se encaixando tão bem. [Spoilers] Dá pra sentir a luta interna do homem. O George O'Brien é muito expressivo, o olhar dele no barco segundos antes de querer matá-la me lembra muito o do Jack em The Shining, contrasta tanto com o olhar dele no final super triste e amuado quando ele acha que a esposa morreu. Um ator muito completo, entregou tantas facetas, um filme que conseguiu explorar todo tipo de gênero no ator, drama, ação, terror, comédia, musical. Não faltou nada, do início ao fim o George entrega com perfeição tudo que o roteiro pede. Janet Gaynor aqui está bem melhor do que em 7th Heaven, a atuação está dramática, mas não tanto a ponto de ser teatral, é mais fluida, mais natural. A direção de arte arrasa tanto, considerando que é 1927, esse povo fez tanto tendo os poucos recursos que tinham. O barco como elemento físico central funciona tão bem. A primeira viagem quando ele quer assassinar ela carrega terror e drama, a segunda com eles voltando da cidade romance e arrependimento genuíno e a terceira quando a tempestade chega carrega caos e desespero, seguido de luto e tristeza, na cena final do velhinho o barco volta à cena carregando esperança. Muito bom! Mérito do roteiro e direção. Outro elemento que indica as mudanças do tom do enredo é o tocar do sino, em todas as vezes que tocou o filme entrou em outra fase. O trem não apareceu muito, mas também teve importância nisso, primeiro eles entram logo após a cena do pântano que também foi ótima e cheia de desespero, o casal está desestruturado, afastado, ela triste, sem laço algum e mais tarde na cidade o casal volta para o mesmo lugar no trem unido, com a confiança restaurada, ela feliz. Claramente proposital o roteiro ter escolhido o mesmo lugar. Cada detalhe nesse filme foi pensado e isso encanta muito. A Margaret Livingston atuou bem, mas não teve muito destaque, comparando com os protagonistas, então nem merece muita menção. Oscar para o cachorrinho que atuou tão bem. Algumas cenas me fizeram rir, a do velhinho barbeiro que era muito expressivo, a do cozinheiro e o porquinho ficando bêbados e a da casa de fotografias. Diferente de The Racket, aparecem pouquíssimos diálogos em tela, senti essa diferença, não prejudica o filme, pois ele é bom o suficiente para explicar tudo dizendo quase nada. Obviamente, não dá pra ignorar os pontos ruins do filme, se considerarmos 2026, dá pra ignorar certos pontos do roteiro levando em conta o ano 1927, mas incomoda sim ver certas coisas como as personagens femininas são construídas por exemplo e como a violência masculina é tratada. De um lado a esposa que representa a pureza, submissão, a doméstica que não sai de casa e vive em prol do marido (que a ignora o tempo todo), desarrumada, de avental usando um coque de velha. Do outro lado, a mulher da cidade, bonita, arrumada, sedutora, pintada pelo roteiro como a mulher terrível que seduz ele, a corrupta que desvia o pobre homem do seu caminho de "bom esposo". A escolha de trair foi dele, não? O que me incomoda nesse tipo de estrutura no enredo é que tira a responsabilidade moral total do homem, dando a entender que ele é uma pobre vítima passiva que foi influenciada externamente por uma mulher. Claro que o ponto mais crítico aqui é a tentativa de feminicídio, após o marido tentar assassiná-la, houve espaço para romance e reconciliação, o que é um absurdo. Seria hoje em dia considerada a fase da lua-de-mel no ciclo abusivo de um relacionamento, em que há esse morde e assopra entre tratar bem e mal o tempo todo, em loop. A narrativa não leva dias ou meses, mas apenas UM DIA de romance na cidade para a redenção do protagonista. O machismo se manifestando na ideia de que todo esse trauma e violência cometidos podem ser deletados só porque a vítima recebeu gestos de afeto em seguida. É uma red flag enorme. Sei que tem a ver com a cultura da época, mas a mulher é colocada como a que perdoa incondicionalmente, mesmo quando não havia reciprocidade alguma anteriormente. E quem merece viver um relacionamento sem reciprocidade? Onde a pessoa faz o que quer, vem com migalhas de afeto, é perdoada e faz de novo? O ciclo continua. Tudo isso reforça essa expectativa social, que inclusive existe até hoje, de que a mulher deve ter compreensão e ser resiliente, mesmo diante dos abusos. Outro ponto é, ele não conversou sobre o que fez, não teve diálogo, não teve pedido de perdão, não houve uma conversa sobre arrependimento, e muito menos tempo para que fosse provado de que o arrependimento era real. O filme consegue fazer a gente sentir empatia pelo marido e isso acaba sendo um problema (considerando a sociedade atual), ele tendo um conflito interno em dúvida "trair (mais) ou não trair? matar ou não matar? Eis a questão." Oi? Já traía, cogitou matar para viver com a amante, quem quer conviver com alguém depois disso? Não há nada de bom em um marido desse. A esposa fica em segundo plano servindo apenas como escora, como um símbolo. Os desejos e pensamentos dela não são explorados, exceto pelo de ser amada pelo esposo. O filme vem pra reafirmar essa coisa do casamento patriarcal, onde tudo dá certo e a harmonia do casal é restaurada sem que o homem tenha que enfrentar as consequências pelos atos de violência. Claro, o filme não foi feito em 2026 e sim 100 anos antes, por isso não afetou tanto a minha nota (em 7th Heaven afetou, realmente a mulher era escrava ali), mas vale refletir sobre.
Detox de Plástico
3.5 5 Assista AgoraÉ impossível assistir a um documentário como esse e não mudar o estilo de vida. A maioria dos documentários que assisti mudaram completamente a minha vida, pra melhor, claro. Eu sempre tomei cuidado com plástico como não esquentar alimentos em pratos de plástico, preferir produtos reciclados, mas jamais imaginaria que basicamente em tudo vai microplástico. Eu fiquei chocada ao descobrir que no perfume tem dietilftalato pra poder ajudar na fixação, pesquisei e por sorte o perfume que uso tem componentes naturais pra isso e não contém plástico. Como assim as empresas não são obrigadas por lei a listar esse tipo de componente para o consumidor? Absurdo! Descobri que chá de saquinho libera uma quantidade enorme de plástico e que a maioria dos saquinhos que a gente acha que é de seda, é de nylon ou pet. Como é possível em notas fiscais conterem Bisfenol A? A gente pega nisso o dia todo em todos os lugares! O povo comprando garrafinha de água mineral onde vai, sem saber dos riscos. Eu parei de comprar quando assisti um documentário chamado Rotten na Netflix que mostrava a Nestlé usando a água do povo de uma cidadezinha, lucrando números astronômicos e os reservatórios dos cidadãos diminuindo dia após dia. Agora, fico sabendo que libera plástico também. Parece que a gente não está a salvo de nada, né? Qualquer produto alimentício ou não que a gente der uma cavada, vamos encontrar muita sujeira, em prol da indústria. Tudo gira em torno do dinheiro, igual nos anos 50 quando a maioria dos produtos que hoje são consolidados no mercado estavam em fase de nascimento, não havia pesquisa sobre nada e a população consumiu de lá pra cá os maiores causadores de doenças no pulmão, intestino, etc. Hoje em dia temos pesquisas, a maioria dos estudos são abafados e nem chegam à população, um ou outro corajoso como a Dra. Shanna Swan cria documentários de alerta, mas comparado ao mundo de produtos que existe, é nada. É surreal que a Europa tenha proibido mais de 1000 componentes versus apenas 9 dos EUA. Nosso país não passa longe não, pesquisei e vi que o Brasil permite vários conservantes e ftalatos que até mesmo nos EUA já foram banidos. Recentemente até houve um boom no assunto por aqui, com a viralização dos vídeos sobre plástico no glitter de bolo de festas, mas o assunto já morreu e ninguém mais lembra. Mas os produtos? Continuam chegando às prateleiras dos mercados normalmente. A ANVISA ainda permite muito plástico em embalagens, alimentos e cosméticos. A quantidade permitida aqui é de até milhares de vezes maiores do que a autorizada na União Europeia. Vergonhoso demais! Na indústria de roupas a maioria das peças mais baratas contém microplásticos, não tem para onde correr. É o que a maioria pode pagar. Sinto que se a gente for deixar de usar ou comer tudo que faz mal, ninguém faz mais nada e não sai no lugar. É desesperador! O documentário é ótimo, um soco no estômago. Ótima direção de Louie Psihoyos.
O Vovô É da Resistência
3.7 1Comédia muito boa, cheia de críticas satíricas. Acredito que seja mais culturalmente envolvente para quem é francês, mas mesmo assim vale muito a pena assistir. É interessante ver essa época de um ponto de vista menos dramático, normalmente visto em filmes e docs de Guerra. O filme faz críticas com piadas sobre a ocupação alemã, trazendo estereótipos (alemães e franceses). É um humor mais teatral e caricato, apresentando os choques-culturais dos moradores que receberam e dos invasores que eram muito espaçosos. Os filmes que mostram esse período normalmente são bem delicados, e é necessário tomar cuidado para não ofender as vítimas do regime nazista. Mas aqui não, o filme segue essa pegada sátira mesmo, focando mais na hipocrisia e no ridículo das coisas do que ofender ou desrespeitar as vítimas, o filme debocha da própria resistência francesa, e até dos ricos que viviam de aparência fingindo que nada acontecia. Fui pesquisar e vi que foi um grupo de comédia chamado Le Splendid que escreveu o roteiro. É uma forma de lidar com o trauma da Guerra por meio do humor. É bom, mas quem não é francês pode perder uma ou outra piada por ser regional. Me lembrou um pouco um documentário que assisti chamado Como se tornar um tirano, que segue a mesma vibe de usar o escárnio e o absurdo para desconstruir vilões e figuras de autoridade ditadoras. A atuação do Michel Galabru é a que mais se destaca no filme, o timing do ator é perfeito.
Peaky Blinders: O Homem Imortal
3.2 118 Assista AgoraTrilha sonora impecável! [Spoilers] O homem merecia descansar, depois de ter perdido basicamente todo mundo e estar só sobrevivendo cheio de memórias pesadíssimas e fantasmas do passado. Ótima atuação e produção do Cillian Murphy. Boa direção do Tom Harper. A direção de fotografia ficou tão linda. Gostei muito de quando ele estava se arrumando, a câmera abordando todos os ângulos, o andar idêntico àquele que ele fez com os meninos no início da série pisando na poça de água, mas aqui, solitário, claro com o mesmo impacto, respeitado pelo espectador. É um personagem imponente, mas frágil, cheio de dores. Humanizado. Gostei muito da cena no bar, a ambientação magistral dos anos 40. Senti que faltou desenvolver melhor alguns personagens. O final bem impactante, a série merecia esse final sim. Uma fala que me marcou foi "Todos os irmãos mortos, menos aquele que queria estar morto", pesado demais, frases como essa ditam o tom do filme e já prepara a gente para o que está por vir. Outra fala que me marcou foi "Pesada é a coroa", ninguém melhor do que o pai pra saber disso, afinal, o cara perdeu tudo por causa desse peso. O encerramento é muito cuidadoso em respeitar a trajetória do Tommy, ele queria a paz mais que tudo na vida, que nem era uma vida mais. O enredo não desenvolveu tão bem uma relação que justificasse a bondade no filho, a não ser que fosse apenas algo de sangue, de legado familiar. Muito boa a cena em que o Tommy bate nele no meio da lama, um Peaky Blinder é a pior pessoa que você vai conhecer, mas eles tinham valores e certos princípios seguidos dentro da organização. Ao mesmo tempo o filho não tinha a obrigação de seguir já que ficou jogado sem os familiares, a solidão das próprias regras o tornou diferente do resto, mas ainda havia a falta de tudo que era humano, ficava claro que a ausência do pai o feria. Quanto mais ele tentava se convencer de que não importava, mais importante a dor da ausência se tornava. Muito bom rever os personagens. A cena em que ele chega no cavalo mesmo depois de muito tempo honrou bastante a série, o respeito do povo recebendo ele. Só me pegou em algo, todo mundo ali conhecia ele e o pessoal do bar não? O filme é bom, pra quem é fã da série. O Tommy morreu emocionalmente tantas vezes nas temporadas, finalmente teve um desfecho de decanso com a família. O último take é bem comovente, a chama se apagando aos poucos na carroça. Lindo! O contraste entre a vida que começou com o barulho das fábricas e das armas, terminando com o silêncio e o fogo se apagando, reforça essa ideia de descanso. É uma cena muito poética para um personagem que viveu em chamas por tanto tempo. Quando ele pede para não continuarem o negócio adiante, fica claro que o barulho acabava ali. O que sobrou de um homem imortal é a narrativa, e não o império de sangue que ele construiu, restou apenas as palavras relatando as memórias vividas.
Pânico 7
2.7 392 Assista AgoraGENÉRICO! Só dei 2,5 por ver as meninas e matar a saudade. Não chega aos pés dos bons que a franquia já fez.
A Lei dos Fortes
3.1 10Ótima adaptação da Broadway para o cinema. [Spoilers] Diferente dos outros filmes da época, que tenho assistido, carregados de melancolia e expressões faciais super exageradas, aqui sinto mais sobriedade nas atuações, é mais sobre o que está acontecendo do que sobre as atuações faciais em si. Inclusive, quando a atriz Marie Prevost que faz a Helen força um pouco mais a expressão, destoa um pouco do resto do elenco, que traz mais sutileza. O Louis Wolheim tem uma vibe natural de mafioso, ele tem muita classe, gosto muito da atuação dele como Nick Scarsi. Não é um filme 5 estrelas, mas também não é um 2,5 como vi por aí, acho injusta essa avaliação tão baixa. É um ótimo filme, que inclusive serviu de referência para clássicos como Scarface e Inimigos Públicos. Talvez o público atual tenha alguma dificuldade com o ritmo do cinema mudo, que requer um pouco mais de paciência (algo praticamente extinto na geração da tela infinita e que recebe recompensa dopamínica de 15 em 15 segundos mofando em rede social), imagino que na época o filme tenha sido considerado ágil e moderno. A montagem da sequência de cenas ficou muito boa. Essa coisa de Chicago banir o filme na época por achar realista demais e que queimaria a imagem da polícia, me parece mais medo da população ficar atenta e descobrir que eles faziam as mesmas coisas. O filme escancara tão bem a corrupção dentro do sistema todo, o Nick tem todo mundo no bolso, manda e desmanda. A cena em que ele tenta subornar o capitão McQuigg é tão boa, dando a entender que vai dar certo, ele devolvendo o dinheiro em seguida. O alívio cômico no meio das tensões, entra de uma forma muito fluida, não forçada. Em muitos filmes e séries, quase um século depois, ainda aparecem os jornalistas que estão no enredo de séries policiais, de investigação e noir, apenas para trazer essa leveza contrastando com uma história em que muita gente morre, funciona muito, assim como o Miller e o Ames fizeram no filme. Tem uma cena que acho que captura muito bem a coreografia do cinema mudo, foi uma das que mais gostei com relação à organização dos papéis de cada um em uma cena maior (com muita gente), quando no meio da festa do Joe o pessoal ouve o tiro e começa a correr pra lá e pra cá, um salve-se quem puder. A direção do Lewis Milestone brilhou demais. Ele saiu da calmaria do suspense, a tranquilidade de todos na festa, para uma movimentação de massa frenética e cheia de caos em segundos. Não é à toa que ele ganhou um Oscar de melhor diretor dois anos depois, por outro filme. Achei marcante as cenas de fugas, hoje isso é comum, mas na época, fazer uma sequência de perseguição e fuga mostra uma habilidade técnica impressionante. Os ângulos deram uma sensação de velocidade e perigo, fuga de gângsters mesmo. Entendo quem acha o filme estático, com "falas" longas, ou o estilo de atuação do capitão muito contido. Eu achei que combinou com o tom mais sóbrio do filme, a única decepção é o final, eu esperava mais, foi muito abrupto e seco. O destino do Nick foi resolvido de uma forma quase administrativa dentro da delegacia. Embora isso reforce a ideia de que, naquele mundo, o crime e a lei são engrenagens de uma mesma máquina política e suja, fica aquele sentimento de "queria mais", já que o filme havia preparado a gente com cenas mais caóticas. O capitão não termina o filme como um herói, mas sim exausto, e se dando conta de que fez, fez, fez e o sistema seguiu intacto e corrupto do mesmo jeito. Não ironicamente, isso espelha a vida real, mesmo hoje, um século depois. É um encerramento mais pé no chão, talvez incomode quem gosta de finais com desfiles dos policiais sendo condecorados e aplaudidos numa cerimônia com famosos e presidentes, sorrisos e medalhas. Outra coisa é que a justiça no final me parece mais acidental do que qualquer outra coisa, nada foi planejado, vem de uma sucessão de erros e pressões políticas. Isso tira todo aquele glamour que as pessoas esperam em filmes de gângsters, no fim das contas, ele era só mais uma peça descartável para quem realmente mandava na cidade. Sobre a Helen, no enredo às vezes me pareceu perdida na dinâmica, como se fosse um acessório pra ligar os pontos entre os homens. Pelo menos não ficou como escrava trabalhando o filme todo como a Diane em 7th Heaven, já é um avanço enorme, a Helen se impõe quando acha que deve. O ponto ruim é que ela não toma nenhuma decisão que muda o rumo da história por iniciativa própria. O mundo é dos homens, o crime é dos homens e a lei é dos homens. As mulheres entram para dar um toque feminino ou ser pivô de briga entre eles, mas raramente com uma história só delas dentro do enredo. A Helen tem a malandragem de quem sobrevive na noite, diferente da Diane que ficava lá aguardando um homem para dar um passo até a calçada. Ela não tem aura de coitadinha, nem de pureza. Dá pra ver que entre os dois filmes de 1927 para 1928 o cinema transitou para menos angelicalidade e mais malícia, mesmo que mantendo a mulher em segundo plano. O filme é bom, ele é o pai de tudo que amamos no cinema policial moderno. Provou que o cinema mudo não precisa ser parado ou teatral demais e não vendeu conto de fadas, foi corajoso. Personagens endurecidos pela cidade, onde a justiça é só um mero detalhe burocrático num jogo de poder.
Cama Ardente
3.4 48Ter pais e sogros omissos muitas vezes é tão sufocante quanto conviver com um homem abusador. Pessoas que deveriam dar suporte, ajudam a criar uma camada ainda mais profunda de violência psicológica para as vítimas. Os sogros além de ignorarem a Fran, ainda validavam o comportamento do filho. E que mãe é essa? Quem precisa de inimigo na vida, quando se tem uma mãe como a dela? Uma figura que deveria representar proteção, dizendo para a filha sempre voltar para o inferno e dar chances para o Mickey é a maior forma de abandono que existe. O sistema fazendo o possível e o impossível para dificultar a ajuda. Essa coisa dos anos 80 e 90 que a sociedade tinha de "briga de casal, ninguém se mete, o lar é um lugar sagrado" é muito irritante. A sensação de injustiça é muito grande, sempre que a Fran procurava ajuda as pessoas criavam um muro enorme pra ela escalar, uma burocracia, falta de vontade. A polícia é a mais omissa de todos. A coitada, querendo fazer a denúncia sobre a tentativa de homicídio e o policial "aham, tá, qualquer coisa vai avisando". Morto avisa? O Mickey era tão manipulador, tão triste o filme ser baseado na história real da Fran, uma mulher (e milhares todos os dias) passando por tudo isso. Chantagem emocional, o cara teve a coragem de causar um acidente só pra trazer a vítima de volta ao ciclo. Típico de agressor, usar a própria vulnerabilidade (real ou forjada) como arma. Sempre que ele percebe que está perdendo o controle sobre ela, precisava de algo que necessitasse que ela voltasse como cuidadora, usando a bondade dela contra ela mesma. A cena que mais me marcou foi a das crianças no beliche, a sequência com elas ali até a polícia chegando é pesadíssima, o olhar delas, os gritos em som de fundo, ela correndo pra fora da casa, o Mickey correndo atrás, as crianças indo para a janela, vendo tudo, completamente imóveis, a agressão acontecendo a poucos metros delas e elas sem poder fazer nada para ajudar. A Fran tentando entrar no carro, não consegue e começa a apanhar de uma forma muito cruel e brutal. Os pais dele chegando e protegendo o filho agressor, tentando impedir os policiais de levá-lo, que nojo! O trauma dessas crianças virou rotina, o quarto que era pra ser um lugar de proteção, virou um camarote para o horror que dava direto na vida de tortura da mãe (e deles, claro, haja psicológico!). O abuso doméstico nunca atinge só uma pessoa, ele estilhaça toda a estrutura familiar. Quando o Mickey agride a Fran lá fora, reforça aquela sensação de que não havia lugar seguro, dentro de casa, nem fora. Outra cena muito boa é quando ele colocou fogo na cama que ele dormia e sai, dá uma sensação boa, de paz, de tranquilidade, de que ela nunca mais vai passar aquilo na vida. Isso, junto com o momento em que ela é absolvida, traz o ápice de toda a espera do espectador por um mísero momento feliz. É um misto de alívio e melancolia, ela consegue liberdade, mas custou tudo o que ela tinha. O desfecho no tribunal na vida real foi histórico, a criação da lei Francine Hughes foi muito impactante, uma mudança estrutural na forma como o judiciário e a polícia lidavam com a violência doméstica, e claro, refletindo no mundo todo. O legado do caso através da consolidação e reconhecimento jurídico da Síndrome da Mulher Espancada sempre será lembrado. O caso provou que uma mulher que vive sob tortura constante está em estado de perigo iminente o tempo todo, o que justifica a reação da vítima em busca da sobrevivência. Vale lembrar que a condução da polícia também sofreu alteração após o caso, já que eles eram negligentes e omissos. Foram criados protocolos onde a polícia passou a ser obrigada a prender o agressor em vez de falar "vai tomar um ar", de acordo com a nova lei precisa levar preso. A atuação da Farrah Fawcett foi gigantesca no papel da Fran. Os momentos de maior entrega foram quando havia silêncio, ela passou uma inquietude no olhar, uma perturbação, honrou bastante a história real. O jeito que ela encolhia os ombros, trejeitos com os dedos, tiques, impecável! Senti que ela humanizou a Francine de uma forma que transformou a personagem em algo a mais, um símbolo de resistência, e não só mais uma vítima passiva. Assisti por indicação de uma amiga e gostei muito.
Sétimo Céu
3.9 28 Assista AgoraSempre que assisto a um filme tento levar em consideração a época em que foi lançado, o contexto cultural, econômico, etc. Faço em contraste uma comparação com a época em que vivo e entendo se faz sentido ou não os temas abordados, pois existem filmes que mesmo considerando a época, são indefensáveis. No caso de 7th Heaven, sinto um mix de sentimentos, se eu fosse de 1927 iria gostar, assistindo com a mentalidade e bagagem de 2026 fica detestável. A Primeira Guerra Mundial terminou em 1918, o filme foi lançado apenas nove anos depois, observar esse tempo é importante, para nós é um capítulo distante presente apenas nos livros de história, mas para o público alvo, era um evento de ontem, provavelmente a maioria dos homens que assistiram tinham idade para ter lutado na Guerra, ou irmãos, ou amigos, parentes, e as mulheres, muitas delas viveram uma década antes, esse momento de espera em casa, aguardando notícias. Em 1927 ainda havia resquícios, cidades ainda estavam sendo reconstruídas na Europa, isso até explica o filme não ter se dedicado tanto a explicar sobre a Guerra, isso estava muito fresco na memória de todos ali. A dor ainda era aguda, mas uma década era tempo suficiente para o povo querer transformar as marcas em algo bom. Na mesma década ainda havia segregação, principalmente em Hollywood, no filme não há personagens pretos. Naquela época os filmes estreavam primeiro para quem tinha poder aquisitivo, nos Movie Palaces, não acho que esse pessoal se identificava com a parte da pobreza no filme, mas certamente com a parte da Guerra, da espera e talvez com o romance. Gastavam com ingresso o que um pobre usava para comer por dois ou três dias. Algum tempo depois o filme ia para os cinemas de bairro, o preço caía drasticamente. Nesses cinemas mais populares havia mais identificação financeira e emocional por parte dos espectadores, galera imigrante, operária, que passava o dia todo em condições péssimas de trabalho, acredito que para esse público, ver a imagem do Chico, um limpador de esgotos, e da Diane que era uma jovem miserável e ferrada. O filme passa a mensagem de que mesmo não tendo nada, ainda dava tempo de encontrar o amor e ter uma vida simples, mas digna. É um prato cheio para o público classe média baixa. Escapismo puro. É importante entender esse contexto todo, o luto coletivo tem uma força que silencia nosso senso crítico, todo mundo ali tinha alguém que nunca voltou das trincheiras ou que voltou quebrado tanto física quanto emocionalmente. Para as mulheres que esperaram anos por uma carta que nunca chegou, ver o Chico chegando cego, mesmo após o anúncio da morte dele era um anestésico emocional. Novamente, levando em consideração a época, supondo que somos cidadãos de 1927. Quando as pessoas têm dores profundas demais, a racionalidade e as pautas políticas dão lugar a um sentimento de desejo de que o impossível aconteça. As pessoas religiosas usam a fé como sobrevivência em tempos difíceis e seus quartinhos humildes como abrigo do mundo lá fora cheio de fome, guerras e morte. Por isso acho tão complexo assistir a clássicos, meu olhar ateu e de alguém que acredita em direitos iguais enxerga correntes invisíveis que prendem a Diane a uma manipulação religiosa. Mas com o olhar de época, meu eu de 1927 se tivesse perdido o marido iria se identificar com as lágrimas da Janet. A esperança é um sentimento muito sedutor, os diretores de cinema sempre souberam explorar isso muito bem, ainda mais na época do cinema mudo. O filme acaba sendo um lembrete de como o contexto histórico pode mudar completamente a nossa régua moral, hoje o filme nos irrita pela passividade, antigamente consolava pela resiliência. Claro que isso não diminui a problemática, mas justifica, de certa forma. Li que as pessoas saíam do cinema chorando, dizendo que o filme lavava a alma, também que as mulheres imitavam o visual da Janet, que quando a irmã dela dava chicotadas vaiavam a tela e gritaram no final quando ela se vingou. Definitivamente um sucesso de bilheteria. Uma das coisas que me chamou a atenção foi o olhar da Janet ao atuar, claro que havia técnica cinematográfica para dar esse efeito vidro, um trabalho de iluminação muito bem feito, mas a atuação dela é bem dramática, dá uma pena da Diane, imediatamente ela cria vínculo de empatia com quem está assistindo. As roupas trouxeram uma textura muito linda para o filme, o vestido branco ficou impecável na atriz e contrastou bastante com o preto que ela usava no começo. A cena da escadaria é definitivamente a minha favorita, a direção de Frank Borzage ficou sensível e visualmente impecável. Achei o direcionamento de câmera super fluido, o uso de sombras e luz suave ficou tão bem aplicado. A química entre os atores Janet Gaynor e Charles Farrell é indiscutível, não é à toa que fizeram mais de dez filmes juntos, transmitiram muita vulnerabilidade equilibrando o pessimismo da vida dos personagens com o otimismo de terem encontrado alguém pra amenizar os sofrimentos. A transformação da Diane passiva para a corajosa é um ponto muito forte na atuação da Janet. O filme tem alivios cômicos estratégicos e eles funcionam muito bem, meu favorito é o "é por isso que sou ateu, deus me deve dez francos" e o momento em que ele joga água na cara do lavador de rua.
Agora falando sobre a problemática, o filme é um choque cultural e ideológico. Assistindo com o olhar de hoje, especialmente com uma perspectiva de quem é ateu e mulher, é quase como entrar em um campo de batalha de valores. De um lado levar em consideração que o filme é lindo visualmente e possui ótimas atuações, do outro, uma narrativa que para os nossos padrões modernos parece um manual de "como ser uma mulher submissa e devota Vol. 1." Esse arquétipo da Diane como pobre coitada que depende totalmente da validação e do teto de um homem, a jovem desamparada que só vai ser feliz se um homem ajudar. Inclusive vejo muito isso no cinema mudo. Essa fragilidade feminina sendo vendida no filme como virtude. Ver essa dependência emocional extrema é cansativo, a salvação da personagem nunca vem de nada dela, não vem de uma força própria, mas sim de se tornar a peça que faltava no quebra-cabeça doméstico de um homem. O Chico sempre aparecendo no roteiro como salvador mesmo fazendo nada mais que o mínimo. Ele fala que ela é esposa dele pra salvar ela de ir para a cadeia, ela não pediu. Em outro momento, chega com um vestido de casamento, como se isso já os fizesse marido e mulher. Não existe conversa antes, não existe escolha, e muito menos um pedido formal. Aí ela menciona que ele nunca falou eu te amo, sequer uma vez. De costas para ela ele informa que o vestido é sim para ela, e quando tenta falar eu te amo, fica com vergonha e não sai. Essa coisa do homem durão que não pode falar de sentimentos é algo muito típico da época, posteriormente ele até fala eu te amo no filme, mas sabemos que o homem da década de 20 e 30 era bem conservador para esse tipo de coisa e o casamento era realmente um exibicionismo de mulher do lar que só serve para cozinhar e ser empregada doméstica da própria casa. A Diane desde que chega na casa cozinha, lava, costura, corta cabelo, ajuda ele a colocar as próprias roupas e não vemos nada de demonstração da parte dele fazendo coisas por ela dentro de casa. Vale lembrar que ele fala no início que a mulher que ele queria era loira e bonita, ou seja, a Diane seria tecnicamente o resto e sobras que ninguém quis, então "é o que tem pra hoje". Quando ele dá o vestido é um sequestro emocional com figurino de luxo. Ele dita as regras e ela aceita o pacote completo porque a alternativa era a sarjeta. É uma dinâmica de poder totalmente desequilibrada. Esse clichê do cara durão que não consegue nem dizer eu te amo era muito vendido como charme, vejo isso em muitos filmes da época, na verdade não passa de uma imaturidade emocional profunda, medo de admitir vulnerabilidade para uma mulher. Quem quer estar com um cara assim? Que sente algo, mas finge que não. Isso cria uma tensão muito artificial onde no enredo o afeto vira uma concessão, quase um prêmio que ele vai entregando para ela em doses homeopáticas para mantê-la sempre nessa posição de expectativa e carência (por migalhas). A romantização da Guerra é um ponto bem distante da realidade, a gente sabe que a Primeira Guerra Mundial foi um moedor de carne humana, mas aqui parece só um teste espiritual para fortalecer a fé do casal. A esposa fofa, pura e devota esperando o herói enquanto olha para o céu é obviamente peça fundamental da propaganda patriarcal da época. Esse patriotismo místico é difícil de engolir, pois transforma toda a tragédia histórica em pano de fundo para espalhar afirmação religiosa. Outra coisa sobre a passividade da Diane que gera revolta é a falta do mínimo de instinto de sobrevivência ou de dignidade humana. Entendo que o roteiro precisava que ela fosse essa vítima, mas na maioria das vezes ela age como alguém morta-viva, que só vegeta e obedece os outros, ou reduzida a um corpo que sofre para que o homem possa ter o prazer de salvá-la. Essa mulher-criança que precisa de proteção masculina o tempo incomoda demais. A ideia de que ela deve aceitar o castigo e esperar por um milagre (ou por um marido) é uma mensagem de submissão total que o filme empurra como se fosse algo poético e lindo. É a negação dos nossos instintos básicos de autodefesa em nome de um ideal de pureza, que na prática, é só um convite ao abuso contínuo. Incomoda porque a narrativa sugere para a gente que a força dela está em aguentar o chicote, os sofrimentos, quando a verdadeira força seria reagir e sair dessa por conta própria. O filme prefere manter a personagem quebrada para que o Chico possa montá-la do jeito dele depois. Fora que depois ela usa o mesmo método que a irmã usava com ela, se rebaixando ao mesmo nível da abusadora, usando a mesma arma física que a oprimiu, aceitando que aquela era a única linguagem possível, mas ela tinha mais opções (essa parte felizmente não estraga o roteiro). Uma coisa que me incomodou é que a religião aqui é usada como solução para todos os conflitos, o que tira a autonomia dos personagens e coloca tudo nas mãos de providências divinas. Várias cenas estão ali apenas para convencer o espectador a buscar crenças. É irônico o filme tentar ser uma lição de espiritualidade elevada, mas usa recursos tão agressivos como chicote para marcar os pontos de mudança do personagem, só lembra da religião quando convém. É um filme tecnicamente bom e importante, mas o enredo é datado e não envelheceu tão bem. Possui falhas ideológicas e de roteiro que me impedem de gostar completamente da obra.