Um filme sobre autossabotagem! Essas pessoas simplesmente são inimigas da estabilidade dentro dos relacionamentos. [Spoilers] Sempre que a coisa tá começando a dar certo, eles começam a cavar a cova do relacionamento até ele morrer. Confessar algo de forma tranquila ou como ato de arrependimento, ok, mas aqui, os personagens fazem isso de forma forçada, é o que falei da autossabotagem, pra quê querer detalhes de algo que vai ferir tão fortemente? Péssimo. Esse tipo de controle é punitivo. A Alice apesar de tudo, é a mais estável ali. Sinto que ela tem muitos problemas psicológicos, feridas do passado, mas mesmo assim tenta se manter forte no meio de tudo o que acontece na dinâmica dos relacionamentos conturbados entre os quatro. Narcisismo, controle, frieza, infidelidade, mentiras, acabam virando coisas comuns na rotina deles. Coisas que eu considero pesadíssimas e que não deveriam passar nem perto das pessoas. Todo mundo se diminuindo e se desdobrando em partes pra caber no mundo do outro, e quando consegue, começa a construir alguma intimidade, simplesmente destrói a relação e sai fora com qualquer desculpa que encontra. A Alice usa nome falso desde o início, mas parando pra pensar em tudo que a personagem já passou, acaba sendo aceitável, pois foi pra se proteger. E sair do jeito que ela saiu, sem inventar desculpas quaisquer, mandando a real na cara do outro, requer muita coragem. É a minha atuação favorita no filme, há uma entrega genuína por parte da Natalie em todas as cenas, são marcantes. Gosto de como estão montadas de forma desordenada passando pra gente essa sensação de bagunça que é reflexo do que o enredo conta. Tá tudo sempre bagunçado, a Alice sempre com visuais e cabelos diferentes, em busca de uma identidade nova, tentando se encaixar em algo que faça sentido. Com certeza a maior cena é a do Clube, ela como stripper, que é uma profissão de vulnerabilidade, onde a mulher está à mercê de tantos perigos mesmo com câmeras, reagindo com estabilidade emocional a todas as tentativas do Larry de desestabilizar ela. E isso que ele faz infelizmente é muito comum, quando a gente se decepciona muito com algo tende a descontar nossas frustrações no outro, parece mais fácil do que culpabilizar a si mesmo. Todos eles parecem ter medo de relações e laços genuínos, encontram fugas em chat online, em casos passageiros, beijar estranhos sem conexão. A Anna usa o estúdio fotográfico como QG da solidão. A relação dela com todos é sempre tão confusa. Ela parece querer algo, mas ter marcas que a fere demais pra conseguir abrir espaço para que o novo a preencha. Esse triângulo amoroso entre ela, o Larry e o Dan só serve pra confundi-la ainda mais, e a dependência emocional acaba fazendo com que eles se prendam um ao outro sem amor algum. Todos nós queremos alguém, ninguém quer a solidão da falta de afeto, mas ter alguém e viver numa solidão maior do que a de solteiro, não é pior? Se sentir sozinho pelo fruto do vazio entre duas pessoas é ainda mais doloroso. Achei tão patético quando os homens ficam competindo por território e explanando a parte sexual um para o outro. É só pra ferir o ego do outro, é violência psicológica gratuita. Fiquei muito revoltada quando o Dan bate na Alice. Dá pra sentir o quanto ela suportou toda a situação entre os casais para que no final tudo desse "certo" pra todos, até que ela se dá conta de que não é aquilo que ela quer pra ela. É possível deixar de amar alguém tão rápido? Acredito que sim. O amor tem que ser leve e não inclui suportar comportamentos abusivos e narcisistas, tais como desentendimentos diários, agradar o ego do outro o tempo todo, estar sob controle emocional, submissão forçada, e o mais grave: violência doméstica. Aquele tapa foi tão egoísta, era 100% sobre a masculinidade frágil dele de não ter aguentado saber os detalhes da relação sexual dela com o Dan, detalhes que ele fez questão de implorar por. Ele faz de tudo pra que ela conte e em seguida a pune, é de uma covardia! O Dan mesmo é um dos personagens completamente sem ética moral pra querer vir exigir isso dos outros, se interessou pela Alice quando ele namorava, depois tendo algo com ela se interessou pela Anna, depois aparentemente ficou interessado no Larry (que só chegou na vida delas porque foi enganado por ele), depois ficava nesse vai e vem brigando pela Anna, que quis o Larry e como sobra e impulsionado pelo mesmo, foi atrás da Alice. Ninguém tá certo, só há egoísmo por parte de quase todos. Tudo gira em torno das vontades e desejos, nada em torno do sentido emocional verdadeiro de amar. A Alice percebe que tá sendo usada pelos dois, disputada como um troféu qualquer, coisa inclusive muito comum entre a sociedade atual ( infelizmente, 20 anos depois e o mundo é o mesmo), ela impõe limites e as pessoas não querem respeitar. No estúdio da Anna ela pede pra ser respeitada, na boate, no quarto com o Dan no final, após momentos dolorosos a personagem aprendeu a criar esses limites e a decidir sair de verdade da vida de quem não os respeitasse. Por isso, inclusive, que no final a Jane (abandonou a identidade de Alice) caminha sorrindo, ela não está triste, ela está de branco, arrumada, alegre. A pessoa que aprende a delimitar a linha que não pode ser ultrapassada nas relações afetivas (todas na vida) é uma pessoa com uma inteligência emocional absurda. Não há arrependimentos, quem estabelece limites está fazendo o maior bem que pode fazer a si mesmo na vida. Limites desrespeitados geram dano emocional, autossabotagem, depressão, ansiedade. Sair da vida de quem fere a gente é provavelmente a decisão mais dolorosa e mais prazerosa do mundo. A Liberdade é nosso bem mais precioso. Atuações impecáveis de Jude Law, Natalie Portman, Julia Roberts e Clive Owen. As roupas dessa época são tão retrôs, eu gosto muito, é nostálgico, principalmente os relógios e sobretudos. Tem uma frase no filme que me marcou muito: "Onde está esse amor? Eu não consigo ver, não consigo tocar, não consigo sentir." O filósofo Bauman fala muito sobre a liquidez das relações da sociedade atual, e faz muito sentido, ele diz: "O amor não é cego, simplesmente aprendeu a fechar os olhos quando necessário", o ruim é que quem definiu essa necessidade é o próprio indivíduo que diz amar, de acordo com a conveniência, quando o preço de entrega emocional sai alto demais, as pessoas jogam as outras fora (ou ficam na abusividade) como se fossem nada. O amor não é tangível, mas precisa ser percebido. O sentimento amor pode até ser algo intangível, mas o que o outro faz por nós precisa ser completamente perceptível, memorável, estável, tão leve quanto uma pena pousando lentamente diante dos nossos olhos. Essas ações do dia a dia, gestos pequenos como um café, um abraço, palavras de ânimo, vulnerabilidade, intimidade, toque (além do sexo); são coisas acessíveis, necessárias, porque elas definem a presença do outro, quem o outro está sendo na nossa vida. Aos poucos vai criando um ambiente seguro onde quem é amado abaixa a guarda e a proteção após se sentir refugiado dos traumas passados. Quando isso não acontece, o parceiro serve apenas como gatilho, causando mais sofrimento e aumentando esse trauma. O oposto de uma relação líquida é a sólida. Onde você e o parceiro criaram uma base, uma planta firme para que algo seja construído em cima e não caia com o sopro de ventos ou tempestades, coisa que ninguém quis fazer pela relação ali. Apesar de sair de tudo aquilo, o filme não tem final feliz, os créditos passam enquanto o espectador digere essa coisa ruim que as relações disfuncionais deixam.
Que filme maravilhoso! Cheio de detalhes técnicos que fizeram toda a diferença no resultado. Eu amei demais a forma como o Daniel Roher usou coisas do dia a dia que passam despercebidas para quem tem uma audição normal para demonstrar o impacto na vida de quem tem Hiperacusia. [Spoilers] A direção de fotografia é linda, câmeras desfocando o fundo e a profundidade, mantendo apenas um objeto em destaque, os barulhos isolados uns dos outros, ruídos apavorantes, agudos ensurdecedores. Fiz algumas anotações de detalhes que me marcaram e um deles definitivamente foi o contraste do macacão azul com o nome Harry H. Piano estampado naquela vibe de macacão de operário dos anos 50, contrastando fortemente com as cores usadas nas casas. Brancos, móveis amadeirados, vermelhos, laranjas, amarelos, todos na mesma paleta do aconchegante, do clássico, da riqueza dos teatros, das óperas, dos concertos. Essa briga entre essas duas cores que se contrastam no círculo cromático mostram o deslocamento do Niki ali. Um rapaz pobre, lutando para ajudar o Harry e a família, imerso em um mundo de milionários. Em um filme tão detalhista, algo assim não é colocado à toa. Ver a foto do Dustin Hoffman mais novo tocando piano é muito nostálgico já que ele é um ótimo pianista na vida real há muitos anos. O detalhe da tatuagem do peixe aparecer tantas vezes retratando essa visão de reparar só em uma coisa e esquecer o resto, o bonequinho sempre em primeiro plano. Os pianos da Yamaha estão lindíssimos, são um show à parte. O Niki possui algumas características similares ao TEA, percebi que em interações emocionais iniciais ele se sentia completamente perdido, como no abraço que a Ruthie deu, e ele não teve reação de reciprocidade alguma e também não sabia o que falar em situações comuns de interações básicas de relacionamentos que requerem mais afeto. Uma coisa interessante é observar a resposta emocional dele ao Harry e comparar com a resposta a outras pessoas. Por conhecer muito o Harry, o Niki sente-se em uma zona de confiança e segurança pra demonstrar afeto roubando pra ajudá-lo. No início as cenas inserem essa demonstração em coisas menos corporais como comer juntos, ouvir o que o Harry tem pra falar. Mas no geral o Niki é sempre mais calado, mais introspectivo, menos afetivo (até sentir segurança ou que o outro demonstre algo antes), sem intensidade de demonstração emocional, quando inclusive o relacionamento acaba, mesmo indo ao local de trabalho da Ruthie não há um pedido afetivo pra voltarem a se relacionar, etc. A sensibilidade auditiva, dificuldade ou demora em interpretar algumas emoções faciais e o hiper-foco não são características exclusivas do TEA, mas são as principais. É indiferente o personagem ter ou não. O importante é que esse tipo de filme ajuda o espectador a entender melhor como funciona o universo de quem tem, tenho um sobrinho que tem e é exatamente como no filme. A cena dele acertando tudo por ter ouvido absoluto é muito legal (decorando a senha também), eu admiro muito quem consegue identificar todas as notas e reproduzir músicas sem uma partitura. Eu amo música, então esse tipo de filme é o que eu gosto. Na trilha sonora muito Jazz de qualidade, tem Nina Simone, Herbie Hancock, Charles Mingus, conheço há muitos anos esse tipo de música. O ponto alto musical é definitivamente o Niki tocando e fiquei muito surpresa ao descobrir que o ator Leo Woodall não tocava antes do filme e aprendeu somente os trejeitos mais impactantes pra fazer a cena. Convenceu demais, a cena ficou absurdamente linda, tocante. Já não posso dizer o mesmo da Havana Rose Liu. A atuação não foi muito convincente, mas principalmente, como casal não senti química alguma entre ela e o Leo. A entrega da atriz foi muito fraca dentro do que o filme merecia. Poxa, se você está contracenando com Dustin Hoffman, você precisa se destacar pra não ser engolida. A atriz foi engolida em cena pelos outros atores, após o filme, a gente só lembra cenas que marcaram envolvendo o Niki e o Harry, não senti empolgação pelo relacionamento deles, pelo sonho dela de fluir na carreira, nada impactou, além da cena em que ela toca enquanto o Niki sofre muito com os bandidos. Mas ali o impacto é porque o Niki está se dando mal, e não pela apresentação dela em si. De qualquer forma, a montagem situação versus música clássica fica muito boa. Em O Lagosta eu gosto muito das cenas em que as pessoas correm desesperadas pela paisagem verde enquanto toca a música lentamente. É um contraste muito bom. A questão do relógio não me convenceu tanto, coincidência demais de roteiro o relógio ser logo da pessoa que ela encontraria depois da apresentação. O espectador é mais inteligente que isso, é injusto com a gente essas coincidências meio boas demais para serem verdades. Sobre a atuação do Leo Woodall, eu achei brilhante! É de uma entrega! O ator conseguiu o tempo todo me passar essa inocência no olhar, na feição. E quando ela perguntou do relógio, se era roubado, eu tinha certeza que ele não insistiria na mentira, pois o roteiro e a atuação prepararam a gente pra comprar essa bondade e doçura dele, e o enredo vendeu isso muito bem do início ao fim. A ingenuidade que o ator entregou. Não digo que foi no mesmo nível de Whiplash, que é um filme absolutamente incrível e a química entre o Miles Teller e o J.K. Simmons é impecável, mas é bom sim a ponto de ser marcante. Quem sabe se o Leo tivesse tido com a Havana a mesma química que teve com o Dustin o resultado teria sido tão bom quanto. O roteiro apesar de ser muito bom, também perde para o de Whiplash. Aquele bandido que gosta de cachorrinhos quase ganha a nossa empatia, mas ao matar o tio do parceiro dono das criptos o filme nos lembra de que são pessoas más sim. Acredito que quem mandou o relógio foi ele. Os ladrões entregaram o básico do básico, irrelevantes. Na verdade ele também roubou, e muito, mas na vibe Robin Hood. Um momento que achei triste foi quando o bandido usou a bondade do Niki contra ele, é de um golpe tão baixo. Ainda estou apaixonada pela direção de fotografia, esses takes de menos de 1 segundo como os da cafeteria com o isolamento dos sons ficou perfeito! A cena acelerada do teste ficou boa, mas não casou tanto com a proposta do resto inteiro do filme, talvez tenha sido pra retratar melhor que ele conseguiria concluir antes do tempo. No geral, o filme cativa bastante e traz um olhar mais cuidadoso para o tema abordado, o da sensibilidade auditiva e visual. Lindo!
A régua estava alta, pois gostei muito do anterior. Achei o filme bom, mas não é melhor que o de 2023. [Spoilers] Logo no início temos cenas ótimas e a atuação marcante da Greta van der Brink como Jessica. O olhar, a expressão, o andar, muita entrega. Houve também entrega por parte da Tandi Wright e do Erroll Shand que protagonizaram takes absolutamente nojentos de beijos gosmentos e sangrentos. Me lembrou aquela cena de Saltburn onde o Oli fica com a Venetia enquanto ela está no período. Não senti o Hunter Doohan no mesmo nível de atuação dos demais, a Alice e o Will não me convenceram como casal, faltou química. Gostei muito da atuação da Maude Davey como Polly Price, pois era o mais desafiador, como o espectador ia ver toda a fragilidade dela como idosa, fraca, precisando de ajuda pra tudo, sem memória. Haveria esse contraste dela possessa forte, lembrando de tudo, usando as fraquezas das pessoas contra elas. Gosto dessa dualidade, pois a gente sempre vê idosos como o elo mais fraco nesse tipo de situação onde é necessário correr pra se salvar, aqui não, as pessoas que fogem dela com medo. A equipe responsável pela maquiagem fez um trabalho incrível, porém gostaria de ter visto mais maquiagens e menos CGI. O CGI em excesso tirou um pouco da empolgação para quem consegue identificar, acaba ficando menos assustador do que poderia ter sido. Em muitos momentos no final eu senti essa falta. Gostei muito das referências no filme, uma coisa que me fez lembrar muito o primeiro é essa câmera mais intimista no chão de pertinho, do Sam Raimi nos anos 80, como se o espectador também estivesse ali se escondendo. No primeiro filme da franquia tinha muito esse tipo de ângulo. O meu favorito continua sendo o de 2013. Não fui tão impactada pelas últimas cenas do Will. O filme precisava de algo à altura das cenas da Jessica no lago e na estrada. Gostei também da referência do bicho correndo no meio do mato para chegar até a casa, é bem nostálgica. As cenas de meio corpo se arrastando me lembraram o primeiro episódio de The Walking Dead, a da corrida do Erroll em cima da mesa muito parecida com a de Bugonia. No geral, a direção de fotografia e edição foram muito bem, senti uma vibe de Invocação do mal em algumas cenas, na casa e na colorimetria. Se fosse um filme sozinho, minha nota seria maior, mas a franquia é enorme e tem muito filme bom pra competir com esse. As cenas pós créditos são ótimas, quero ver o próximo já, só me pergunto como a a Ellie estava ali se ela foi completamente triturada, mas lógica em Evil Dead pra quê, né? É engraçado. Sinto que comparando com Scream, Evil Dead se destaca muito, pois há uma evolução, mesmo após muitos filmes, a direção sempre tenta manter um certo nível de qualidade na produção. Não sinto isso nos últimos de Scream, e olha que gosto bastante. Sobre o roteiro, poderia ter mais profundidade, os personagens não são marcantes no nível dos outros filmes. Não entendi o motivo de terem citado violência doméstica e abusividade, se depois o assunto só surgiria de novo de forma superficial. Não dá tempo de cativar o espectador, aí vira uma salada de temas tratados de forma rasa, sem desenvolvimento. Além disso, o final é bem apressado, não combina com o ritmo que o filme estava tendo até então. Aguardo cenas do próximo explicando isso da Ellie ter voltado, se foi por portal de espelhos ou não. Se algum pedaço do corpo não foi triturado... só nos resta esperar!
Falsos boatos acabam com a reputação das pessoas e mancham a vida delas pra sempre. [Spoilers] Atuação impecável do Mads Mikkelsen, que entregou uma vulnerabilidade e sensibilidade em cena. O personagem conseguiu imprimir esse pavor e medo de ser julgado no espectador, ao mesmo tempo em que a direção e enredo do Vinterberg nos colocam no papel do julgador muitas vezes. Mesmo sabendo da injustiça que estava sendo feita, nos perguntamos várias vezes se ele era inocente mesmo e procuramos outros culpados durante o filme. Essa necessidade de apontar alguém para o abate é o que faz pessoas inocentes sofrerem linchamento público em situações que ainda estão em processo na Justiça. A comunidade se junta e cria um júri coletivo na rua e decreta o que vai ser da vida (ou morte) da pessoa. É necessário ter muita cautela em situações como essa, nosso raciocínio moral lógico versus o emocional entra em atrito constante. Temas delicados geram revolta imediata na população quando divulgados pela mídia. Essa sensação de impunidade e proteção do Estado reverbera nos cidadãos que agem com independência. Esse filme me lembra muito o episódio White Bear de Black Mirror, porque o esquema de punição é o mesmo. Ainda nem havia investigação adequada e a comunidade já estava punindo o Lucas e a família dele, agredindo, matando o cachorro, espalhando o boato como dado verdadeiro (e nem era). Em Black Mirror o processo é outro, mas a semelhança é em como as pessoas assistem a tudo, sem interferir em nada (no sentido de parar a punição coletiva), essa coisa de fazer justiça com as próprias mãos acaba transformando as pessoas em seres tão cruéis quanto quem tá sendo acusado justamente ou injustamente (falando com imparcialidade sobre o filme, pois minha opinião é super radical com relação a pessoas que encostam em crianças, eu não tenho pena). É compreensível certo comportamento da população em lugares onde a justiça é lenta e a sensação é de impunidade eterna, ainda mais em países onde o Estado tem toda uma estrutura que protege abusadores, pedófilos, traficantes de pessoas, entre outros criminosos. Em BM a Victória é culpada, mas sem memória e sem saber o que fez, ela é torturada diariamente pela população como se punir os outros fosse um espetáculo divertido, quando na verdade transforma quem pune em uma espécie de pessoa tão cruel quanto (no sentido de cometer crimes, obviamente o nível do crime dela é muito pior). As pessoas vão condenar aquela pessoa pra sempre, seja ela culpada como a personagem de BM ou inocente como o Lucas em The Hunt. O final escancara isso, a sensação de segurança pra quem conseguiu provar a própria inocência continua nula. Onde a pessoa estiver, vai receber olhares estranhos, vai sentir a rejeição no ar, não vai ter a família incluída em quase nada e sempre vai ter alguém perseguindo online ou presencialmente. No caso de quem cometeu algum crime não tão grave, essa sensação de opressão ainda vai criar uma barreira impedindo a pessoa de se ressocializar e se reabilitar. Um bom exemplo disso está no filme Steve, alguns jovens nem querem mais mudar porque a sociedade já definiu que eles são delinquentes e sem solução, então alguns abraçam esse destino definido pela sociedade. A pessoa simplesmente aceita de vez aquela identidade que todo mundo impôs pra ela por falta de forças pra lutar contra (não é o caso do Lucas, porque ele realmente é inocente, mas é importante abordar esse outro lado, que acaba sendo uma consequência a longo prazo). Até o último segundo que pôde o Lucas se esforçou contra esse rótulo que foi imposto a ele, mas na última cena fica nítido que tudo o que ele fez durante o enredo inteiro não valeu de nada e que esse título injusto não vai sair da vida dele nunca. Sobre o roteiro, é brilhante! Mas sinto que as cenas de nudez total se fossem retiradas não fariam a menor diferença na trama, não agregam em nada. O roteiro acerta muito em mostrar diferentes perspectivas de julgadores. As pessoas eram extremamente unidas e depois em poucas horas já crucificaram o Lucas sem nem ter certeza de nada. Outra coisa que o roteiro destrincha muito bem, o fato de que crianças mentem. Há uma tendência natural de acharmos que crianças não mentem sobre temas sérios, mas a verdade é que a criança tem um nível de agreeableness altíssimo. Logo, diante de qualquer frase terminada em "foi isso que aconteceu?", a maioria das crianças vai responder que sim sem nem analisar o que foi, pois crianças não têm maturidade de pensamento formada, não fazem ideia das consequências das mentiras que contam na vida do outro. O interrogatório foi feito de forma inadequada, o correto seria deixar a criança falar, ao invés de colocar palavras na boca da criança. Sobre a falsa acusação, a criança deve ter tido algum background ligado a esse tema pesado, pois dificilmente coisas graves sairiam da boca de uma criança sem que ela tenha visto ou ouvido algo semelhante, por isso todo cuidado é pouco quando os envolvidos são da idade delas. Trabalhar com crianças por si só já é um desafio, crianças tem um imaginário enorme e fértil, mas muitas são puras e não mentem. O importante é analisar a situação com cautela e abrir uma investigação. Lembrando que como eu citei, alguns lugares não colaboram, o que acaba "justificando" a iniciativa popular de querer ver algo sendo feito para parar aquilo. No Brasil, por exemplo, fazer justiça com as próprias mãos é crime previsto em lei. O artigo 345 chamado de "Exercício arbitrário das próprias razões" e a sentença está relacionada ao crime cometido (homicídio, por exemplo), então na ânsia de ser um juiz protetor, a comunidade acaba cometendo crimes também. E com isso, qual a diferença entre ela e o criminoso? Que realmente cometeu o crime ou não. Francis Bacon tem uma frase que se encaixa perfeitamente aqui, "A vingança é uma forma de justiça selvagem. Quanto mais a natureza humana corre em direção a ela, mais a lei deve eliminá-la". Nietzsche também disse que quando a gente luta com monstros devemos ter cautela pra não virarmos um, porque se olharmos muito para um abismo, ele vai olhar de volta pra gente. Essa obsessão por justiça vai consumindo e acabando com a pessoa, pessoas "de bem" matam cachorros, agridem pessoas e maltratam inocentes e suas famílias? Fica o questionamento. O filme passa essa vibe de opressão com as cores da edição e a paleta de roupas, ambientação e objetos é toda pálida do início ao fim das acusações contrastando com a alegria inicial na floresta e no lago. Os lugares são fechados e claustrofóbicos em certos momentos aumentando essa agonia em quem está assistindo. Lugares em que a gente conhece como seguros: igreja, mercado, casa própria, a escolinha, acabam se tornando extremamente opressivos conforme tudo acontece. Ótima direção de fotografia da Charlotte Bruss. As cenas filmadas bem de perto são um acerto enorme. O final do filme é bem frio, um soco no estômago, não tem alegria e nem vingança como na maioria dos filmes, deixado assim pra provocar a gente, propositadamente. Mesmo com todo o esforço do protagonista pra fazer tudo certinho, a mentira, assim como na vida real, não tem freio. Um papel comprovando inocência não é o bastante pra limpar totalmente uma má reputação. Os créditos passam deixando esse desconforto, não há final feliz.
É um filme espetacular, mas deveria ser uma série, afinal são 24 cantos. [Spoilers] Os diálogos simplificados em excesso tiraram um pouco do brilhantismo do enredo. Entendo que foi proposital para atingir o público e vender mais bilheteria, mas prejudica a obra num geral. O filme não representou Odisseu no nível que o personagem merecia. Esse é o tipo de obra que quando adaptada, quem deseja produzir adequa-se à magnificência da arte, não o contrário, que é reduzi-la pra caber num roteiro apressado. Na adaptação, a obra perdeu parte da beleza do encanto e da poesia que ultrapassou tantas gerações, nesses 2800 anos. Esse é definitivamente o papel da carreira do Matt Damon, o ator se entregou tanto, e deu pra sentir, amo papéis em que o personagem está em várias fases, pois dá pra explorar todos os níveis de expressões do ator. É inegável que o Matt deu tudo de si e brilhou em cada momento que teve. Robert Pattinson se saiu muito bem, combinou muito com o Antinous, divertido, traíra, um caos. Mas confesso que eu esperava muito mais, por conta do marketing que fizeram por aí. O Elliot Page brilhou demais como Sinon, eu achei muito especial ele receber um papel de destaque representando a diversidade da comunidade dele. Senti uma crescente do Tom Holland, de cara não convenceu muito, atuação bem morna no primeiro ato, mas depois quando Telêmaco saiu em busca do pai foi melhorando e conseguiu se recuperar a tempo de entregar uma ótima performance nos momentos finais quando eles se reencontram. O papel da Anne como Penélope, foi um dos únicos que senti que teve respiro e tempo suficiente de tela, entregou tudo que a personagem pedia e ainda teve uma química enorme com Matt Damon em cena. A Zendaya me lembrou muito o papel dela em Duna como Chani, não sei se é porque as roupas e cenários quando editados nesse tipo de coloração me lembram a mesma ambientação, mas me remeteu muito à personagem dela de lá. Adoro ela e sei que é uma ótima atriz, pois já a vi em papéis que exigiam mais entrega, mas aqui senti mais do mesmo, até o jeito de olhar e se expressar ficou igualzinho, de qualquer forma, o visual da Atena ficou ótimo. Um dos meus momentos favoritos do filme com certeza foi o da feiticeira Circe transformando as pessoas em animais, não tem jeito, a Samantha Morton definitivamente merece todo o holofote que vem recebendo depois do lançamento. A atuação dela engoliu a dos outros atores em cena. Acho que foi uma das únicas que realmente trouxe o tom que a obra original pedia, teve pouco tempo de tela e aproveitou cada segundo. Também gostei bastante da cena do ciclope, e fica muito evidente o detalhismo e cuidado do Nolan, preferindo usar uma marionete para que as cenas ficassem super realistas, deu certo e ficou impactante. Uma cena que realmente me chateou por ter sido curta foi a das sereias, eu tinha muita expectativa com essa parte, eu esperava que o filme tivesse se aprofundado nos mitos envolvendo elas, pois são super aclamados pelo público, teria ficado incrível. Mas não, a cena foi apresentada de longe e super apressada, não deu tempo pra nada, não houve conexão do espectador com o momento. O pouco que vi nos filmes cenas de sereias eu gostei tanto, lembro que se destacaram a de Lighthouse e as de Piratas do Caribe. Embora no livro seja totalmente diferente, é mais sobre atrair com conhecimento do que com a beleza, mas combinava muito com Odisseu por ser alguém que amava a sabedoria e o conhecimento, era o tipo de armadilha em que ele se enfiaria. É uma parte épica dos livros e merecia mais, eu acabei esperando que fosse uma cena maior porque a Circe até reforça com eles que elas eram perigosas e que quem ouvia o canto delas nunca mais voltava pra casa. Um dos momentos mais tensos que deveria vir logo em seguida foi super rápido, perdeu completamente a graça de acompanhar, o estreito de Cila e Caribdes nem teve destaque algum, nem deu pra ver o corpo direito. Apesar de toda a correria e alguns diálogos serem sem profundidade alguma, o filme ficou muito bom, as paisagens são lindas e imagino o trabalho que deu levar todo o elenco e materiais cenográficos e equipamentos de produção para todos esses lugares do mundo, o Nolan sempre sabe o que faz, os 800 milhões de bilheteria respondem por si só. As cenas do cavalo em Tróia são muito bem produzidas e passam aquela sensação de agonia do início ao fim. Fico feliz de ver tanta gente que nem conhecia a obra, buscando comprar e ler Homero. Ótima direção de ambientação, sonografia, edição, coloração e figurino. Uma obra-prima!
Completamente dilacerador! Que história (real) triste! O enredo é alinhado com o objetivo do filme que é passar a mensagem crua e bruta, sem dó nem piedade de quem está assistindo. Fica aquele gosto amargo ao desligar a TV, e você nunca mais vai poder desconsiderar isso. Impossível querer seguir em frente sem levar em consideração que nesse momento em que escrevo isso uma pessoa está sendo traficada em algum lugar no mundo e outras estão em trabalho escravo ou prostituição forçada. Andei pesquisando e fiquei mais triste ao constatar que o número citado no final do filme aumentou, quando o filme foi lançado, o tráfico de pessoas movimentava 150 bilhões por ano, segundo o último relatório da OIT (2024), o número já havia saltado para 236 bilhões de dólares por ano. Isso explica completamente a questão de ser tão burocrático lutar contra esse tipo de crime. Tudo que traz tanto lucro, carrega dedos e mãos de integrantes de entidades que deveriam proteger as pessoas. Ninguém lucra tanto sem a ajuda de policiais corruptos, políticos, órgãos governamentais federais, estaduais e locais. Não é só sobre a menina que é levada voluntariamente por um pai inocente até uma agência de talentos e modelos, mas também sobre as que desaparecem na calçada de casa, levadas por pessoas muito bem remuneradas para esse tipo de "caçada". Esse lucro não subiu 37% à toa. Há mais e mais colaboração desses órgãos que são facilitadores do crime. Saber que os EUA são o país que mais consome esse tipo de exploração é ainda mais triste. Acha mesmo que um país grande como esse não teria condições de combater e exterminar esse tipo de crime, se quisesse? Policiais como o Tim são 1 em 1 milhão (e olhe lá). A corrupção está espalhada aos montes no Estado. Muitos desses órgãos também são consumidores da exploração dessas crianças e adultos. Todos já vimos reportagens nos noticiários sobre políticos que visitam ilhas com crianças exploradas. Vimos no Brasil (como em Marajó), vimos nos EUA (em casos como o do Epstein), algumas poucas pessoas foram presas e nada mais, o dinheiro do tráfico aumentando e esse povo do colarinho branco solto por aí comprando crianças como quem compra pão numa padaria. Tudo isso é muito triste, e pior, pouco noticiado. A mídia não dá a devida atenção que esse assunto merece. O relatório global sobre escravidão moderna estima que 50 milhões de pessoas estão em situação de escravidão e mais de 27 milhões fazendo trabalho forçado e sendo exploradas sexualmente. É um número enorme. Os dados mostram que 1 pessoa é vítima de tráfico humano a cada 30 segundos no mundo, 2 pessoas são traficadas na fronteira por minuto e 1 criança é vendida para exploradores a cada 2 minutos. São dados assustadores! É um negócio rápido e que acontece o tempo todo. No fim do dia sabe-se lá onde essas 720 crianças vão estar. Enquanto isso, a gente seguindo a vida preocupado com o que foi ou deixou de ser assunto no entretenimento hoje. Criador de conteúdo divulgando casas de apostas enquanto poderia dar visibilidade para causas como essa. É vergonhoso! Ser adulto não livra ninguém de nada, 42% a 46% das vítimas são mulheres (adultas), se somarmos às crianças do sexo feminino o número chega entre 60% e 65%. É muito lamentável! Você sai pra viajar para a Europa e ninguém nunca mais te vê. Mas você continua viva e dopada em algum lugar do mundo sofrendo abusos íntimos ininterruptos. Alguns filmes que eu lembro ter assistido recentemente que retratam o assunto são Taken (Busca Implacável) e Amber Alert (história real). Tem também Extraction, O Vazio de Lilith, Turistas e Sem Saída. Cada um do seu jeito e gênero expondo o assunto de forma nada sutil. Me incomoda que em alguns sempre apareça no final o herói americano salvando o mundo, ora, acabamos de ler nos créditos do filme que os EUA são os que mais exploram essas pessoas. A finalidade é levar pra lá. Soa meio hipócrita! (Não no caso real de Som da Liberdade, mas no geral). O norte-americano entra no cinema, assiste, sai com a consciência aliviada porque está com a filha bem e sã na cadeira ao lado, enquanto o pai latino ou europeu não dorme há anos porque teve a filha raptada e levada como objeto pelos criminosos patrocinados por eles. Soa injusto! Sinto falta de filmes mais realistas no tema, que terminem deixando aquela sensação horrível que incomoda todo mundo e tira o sono por dias (embora esse faça isso). Em Som da Liberdade ele busca a Rocio, mas na mesma ilha milhares de pessoas ainda continuam traficadas, é a dor da realidade. Não tem como encerrar o filme feliz com ela sendo salva, e a Maria, e a Bruna, e a Lucia, e todas as outras? Quem vai salvar? Ótima direção, ótimas atuações do Jim Caviezel e do Bill Camp, vale ressaltar que em alguns momentos o Jim exagerou, eu diria que no terceiro ato, às vezes menos é mais. Ótima edição, coloração, trilha sonora e ambientação!
Genérico! Como pode alguém desrespeitar uma das melhores obras literárias já escritas? O livro Animal Farm do George Orwell foi escrito com o objetivo de trazer impacto, não é à toa que mudou a minha vida, eu claramente sou uma antes e outra depois de ter lido, aprendi a me posicionar e notei a importância de me manifestar, de observar, de opinar, de cobrar, de querer uma sociedade mais igualitária mesmo sabendo que praticamente não existe, uma vez que o ser humano é corrupto. Também aprendi meu lugar na sociedade enquanto cidadã pensante. [Spoilers] Um filme com piadinhas e momentos de descontração sem sentido algum, desfocando completamente da mensagem principal não representa a obra e o autor em NADA! Não há impacto em momento algum, e em poucos momentos sérios como o da despedida do Boxer não cativam a gente completamente como deveriam, pois o sacrifício deveria ser algo cruel e pesado representando a maldade do sistema. Há um vazio assistindo ao filme, um gosto de "cadê o básico?", não entregaram nem o mínimo. Não achei as dublagens boas (assisti em inglês). Faltou aquele soco no estômago que esse tipo de adaptação dá. O final sem nexo algum, o famoso "tudo deu certo e foram felizes pra sempre". Adivinha? George Orwell acertou e na sociedade atual ninguém está feliz. O final era pra ser brutal e cruel, não esperançoso. As pessoas trabalham dia e noite pra ter o prato principal na mesa, e algumas nem isso têm. As pessoas morrem em nome da revolução, em prol do que acreditam, lutando por uma sociedade melhor. Políticos perseguem civis à luz do dia. Não senti que cada personagem representou bem o seu papel a ponto de o espectador que não leu o livro entender a missão de cada um ali, quando o Snowball é traído pelos colegas, o filme não enfatizou como deveria, e era algo importante. A fazenda não passou a sensação de opressão e escravidão que deveria ter passado. O correto é sair de um filme desse questionando o sistema todo, reconhecendo quem dos personagens é a gente e trabalhando em cima da ideia de lutar por um mundo melhor. O livro faz nascer nos leitores pensamentos revolucionários. A animação não serve pra crianças, que não entenderiam nem 30%, e nem para adultos que aguardavam a adaptação, pois é vazia e sem respeito aos personagens originais. Nomes de peso fazem parte do elenco e mesmo assim é um desastre. Vi algumas entrevistas do diretor após assistir e é basicamente ele tentando justificar o fiasco. Ele diz que queria muito fazer, pois lia o livro quando era mais novo, e isso é o que mais me pega negativamente, como pode alguém que admira tanto o Orwell pisar tanto na obra dele? Fica aí o questionamento. Direção de cor não é boa, parece feliz demais ao invés de passar o tom opressivo, roteiro péssimo, produção também. Foi difícil acompanhar até o final. O totalitarismo no livro não é piada, pessoas morreram e morrem todos os dias vítimas desse tipo de regime. Transformaram a denúncia que a obra fez em diversão descartável e nada memorável. O filme parece ter sido feito pra ser um produto, que é o contrário do que exatamente deveria criticar. O George Orwell não tinha medo de escancarar as coisas de forma crua e direta, e essa é justamente sua essência e legado. Nota zero.
Esse filme me lembrou "I don't wanna miss a thing" do Aerosmith. A dependência emocional foi tão bem representada! Que crítica incrível! Direção de fotografia e iluminação impecáveis! Edição maravilhosa, gostei da coloração amarelada contrastando com magenta. Ambientação e figurinos bem Indie, assim como a trilha sonora, que inclui até Current Joys que eu ouço há tantos anos. Tudo aqui flui e nada é por acaso, todos os pequenos detalhes fazem diferença no enredo. [Spoilers] O roteiro prova que até mesmo o amor, que é algo considerado bom e e basicamente a essência que move o mundo, em doses erradas aterroriza a alma de qualquer um. O filme traz temas fortíssimos como dificuldade em lidar com a rejeição, dependência emocional, narcisismo e desespero por validação. A verdade é que todo mundo quer ser amado, mas lidar com o amor é como jogar na loteria, você ganha tudo ou perde tudo, na maioria das vezes é a saúde mental. Quem precisa de objeto encantado dos desejos quando se tem dopamina? Lidar com o efeito dopamínico da paixão no cérebro é uma das coisas mais difíceis do mundo, não é à toa que comparam cientificamente com o efeito do uso de drogas. O ser humano deveria vir com um aviso de "Cuidado: amar causa dependência e danos colaterais". É importante reforçar que muita gente entra saudável em relacionamentos que terminam em um ponto de drenagem emocional que acaba com os dois envolvidos. O adoecido adoece o outro aos poucos. Narcisistas tratam as pessoas bem e de repente começam com a indiferença, a pessoa se vê em uma situação mental de vínculo traumático onde há a maior dificuldade de se afastar, a dependência emocional age como um imã adoecendo o apaixonado que já não consegue se ver em uma vida sem o outro e serve de suprimento para o narcisista que não consegue viver sem arrancar isso da vítima, sempre prometendo que vai mudar, mas nunca muda ou libera o outro, a não ser que seja na fase de descarte. O Baron não consegue lidar com a rejeição e deseja que ela o ame muito, mas ao receber todo esse amor percebe que ele não queria ser a pessoa mais amada do mundo, mas sim amava a ideia de ser a pessoa mais amada do mundo. Por várias vezes teve a oportunidade de liberar ela, no sentido contar para os amigos e pedir ajuda. Mas a validação de ter alguém disponível 24 horas por dia acabava falando mais forte (no início). O amor é uma ideia, não é algo real, como as pessoas administram os sentimentos diante da ideia de amar que é real. Na maioria das vezes as pessoas confundem paixão com amor. O amor é leve, é estável e recíproco. A idealização dele é pesada, amarga e trágica, porque carrega uma ligação não genuína, é apenas dopamina descarregada pelo cérebro através da expectativa gerada pelo desejo de ser validado. Os que conseguem administrar a dopamina migram para a estabilidade de ter algo que valha a pena e seja duradouro (talvez). Mas por que mesmo quando algo foi bom dói quando termina? É porque a ideia de ser validado se vai e a pessoa volta a lidar com a solidão e o desespero de viver sem algo a mais que "faça a vida ter sentido". Uma coisa muito importante é que o enredo traz a dinâmica do briga e fica bem, o clássico dos relacionamentos abusivos. A pessoa grita, sobe o tom de voz, e em seguida pede desculpas, o casal se relaciona e no outro dia tudo de novo, o ciclo vai se repetindo e os níveis de maus-tratos vão piorando. Há casos em que o parceiro construiu essa insegurança e a pessoa age por defesa e medo do abandono, principalmente as que citei que eram saudáveis antes de conhecer a pessoa. Mas na maior parte das vezes o abusivo age de caso pensado e tem noção do que está fazendo. A vítima se afunda interpretando um personagem irreconhecível, destoando da realidade de quem se é, perdida em fragmentos, momentos intercalados de si e do que o outro fez de si. Porque lembremos que a Nikki não fez essa escolha, o Baron pensando apenas em si mesmo, a fez por ambos. Lá no fundo, em seu interior, a Nikki ainda estava e gritava desesperadamente para sair dessa dinâmica abusiva, mas não conseguia, porque o controle disso está quase sempre na mão do narcisista, que mesmo diante do que todo mundo percebia sempre respondia que na relação estava tudo bem. Na cena em que ele come a carne de gato, me veio à mente que se a gente entra em algo após uma situação de vulnerabilidade como tentativa de escape, ela sempre vai estar ali, aquele gosto amargo e sem vida daquilo não é curado com um relacionamento, e sim com a terapia. No terceiro ato há tentativas de ambas as partes saírem do relacionamento, a Nikki deseja mais morrer do que estar nisso, e ele se mata, pois a morte parece a escolha mais feliz do que uma vida infeliz e depressiva, abusiva e violenta ao lado de alguém. Na vida real, muita gente não aguenta mais essa dinâmica de maus-tratos e acaba tirando a própria vida, muitas Nikkis (mulheres que após tanta violência psicológica, verbal ou física preferiram morrer), outras Nikkis com a entidade (pessoas que tiraram a vida do parceiro ou parceira por ciúme obsessivo) e muitos Barons (já vimos casos até do homem que matou a família toda e se matou em seguida), sem ferramentas para lidar com o "amor", o ser humano é apenas um peão descartável num jogo que libera dopamina barata e escraviza os envolvidos. Acho a última cena importantíssima, a Nikki consegue sair de tudo isso, mas... como lidar com a vida após o terror de um relacionamento abusivo? Você fica sem rumo, sem saber por onde começar, com o emocional em frangalhos e com a mente toda danificada. Haja antidepressivo e terapia. A trama me lembrou Together que retratou também a dependência emocional. As atuações de Michael Johnston e da Inde Navarrette estão impecáveis. A cena da mesa do restaurante, da noite de trívia e definitivamente aquela em que ela sorri enquanto faz xixi nas calças são os destaques pra mim. Já o Michael, entrega muito nas expressões, sem precisar falar nada. Há uma ótima química em cena entre os dois. O espectador sai do filme com essa consciência de tentar tratar das emoções ao gostar de alguém de forma mais equilibrada, mais pé no chão, com espaço e individualidade. Com a certeza de que a má administração do amor gera caos e sofrimento para todos que estão ao redor. Direção esplêndida de Curry Barker. Nota máxima e com certeza entrou para o meu top de filmes favoritos nessa vibe de terror.
Um filme sobre amor, amizade, esperança e recomeços. Que jeito lindo de representar o processo de superação do luto. Foi uma ótima surpresa! Não prometeu nada e entregou muito. Confesso que achei que seria mais um romance clichê chato, a indústria cinematográfica não tem entregado muitos romances bons ultimamente. [Spoiler] Gostei muito que o foco aqui foi nos laços de amor, e não na objetificação do amor romântico em si, há muito mais momentos da protagonista sozinha, em família ou lidando com as adversidades das perdas do que com o par dela em cena, o que não prejudicou em nada o enredo, pelo contrário. Há um estranhamento no tom do filme, a parte da cozinha do Chef não acrescenta tanto ao roteiro, mas acaba fazendo sentido no terceiro ato. É que destoa um pouco da empatia que o luto que a Jill tá enfrentando causa na gente, essa compaixão sentida pelo espectador acaba sendo atropelada pelo contraste das cenas na confeitaria inicialmente. O filme aborda temas como machismo, sexismo, invasão de privacidade e bullying, vale lembrar que ouvir as conversas da caixa postal de alguém é completamente sem noção e não deve ser romantizado jamais, é bom que o roteiro coloca a Jill infeliz ao perceber que o Wes fez isso. Satiriza os participantes de programas como o Masterchef que saem achando que são o próprio Gordon, vale lembrar que em cozinha profissional desses restaurantes caros de SP o que mais tem é gente humilhando funcionário nesse nível, promovendo homens, e mulheres há anos na mesma função secundária. Foi um acerto enorme do roteiro focar na Izzy, tudo gira em torno dela no enredo, mas não fica forçado, até porque foi outro acerto da produção ter escolhido quase 2 horas de duração, tempo suficiente para contar a história sem pressa, sem interrupções, sem deixar pontas soltas. Amei a referência a The Notebook, que é meu filme favorito de romance, citando a frase icônica "If you're a bird, I'm a bird", que o Noah fala para a Allie, peguei assim que ela disse. O mais legal aqui é que ela fala isso para a irmã e não para um cara, mas no final ela inclui ele como um pássaro também. O filme retrata o amor de irmãos, o amor-próprio que a Jill vai encontrando aos poucos, o amor de amigos que o Wes encontra na Breeda e no Andy e o amor romântico, que às vezes nasce mesmo sem você nunca ter visto o rosto de alguém. Acho que amar é sobre isso, sobre vibrar na mesma sintonia que alguém, independentemente de qual seja seu laço com essa pessoa. Sobre a Breeda e o Andy, faltou um pouco de entrega nas atuações do Harry Shum Jr. e da Leah McKendrick, apareceram pouco, mas a química não estava tão presente, os atores pareciam desorganizados na cena em que falavam juntos, as primeiras falas muito artificiais. Zoey Deutch entregou muito do início ao fim, alegria, tristeza, revolta, paixão e uma pitadinha de loucura. Tudo que o roteiro pediu ela entregou com muita naturalidade e zero quietude. O Nick Robinson como Wes é aquela coisa: qualquer ator poderia fazer, não é um papel que exige tanta entrega, acho que o roteiro só precisava mesmo de um rostinho bonito que entregasse o básico, e que bom que o filme não foi tanto sobre ele. De qualquer forma o casal "convenceu" (teve química, mas não foi memorável), ele atua bem, mas, por exemplo, se destacou muito mais em Maid do que aqui, aqui é zona de conforto, lá ele fazia um cara abusivo e agressivo, que exigia muito mais dele. É um romance dos bons, mil vezes melhor do que Office Romance lançado recentemente com a JLo, que falhou miseravelmente em entregar até mesmo o básico. Nick Offerman, como sempre, pegando papéis em que a gente vai odiar o personagem, coitado. Tanis Dolman não me convenceu nas cenas do hospital, foi engolida pela Zoey. Destaque para a Alice Comer que fez a Jill criança. Trilha sonora maravilhosa com curadoria da Este da banda Haim, ficou muito boa. No geral, é um filme que dá pra ver em família sem constrangimentos, e todos vão sair querendo abraçar a protagonista, se identificando com muita coisa. Reforçando: ouvir mensagens e seguir alguém logo depois é crime de stalker, é importante não confundir roteiro com vida real. O roteiro ficou aguardando alguém gravar desde 2019 eu relevei, as pessoas normais não levavam a tecnologia tão para esse lado de perigo como hoje, mas em 2026 todos nós sabemos que a tecnologia tem suas armadilhas, tipo um doido ver suas coisas nas redes sociais e começar a te seguir. O roteiro abordou o tema quando ela se chateia, mas faltou ser um pouco mais enfático e rígido quanto a isso. Afinal, stalkear alguém assim, se infiltrando na vida da pessoa após invadir a privacidade é crime.
A mensagem desse filme é muito boa, pena que as atuações não são as melhores. Sempre indico ele para quem tem filho pequeno, para que tudo que a verdadeira Amber passou não tenha sido em vão. O Amber Alert existe e avisa aos pais quando há atividade incomum ali na localidade. É importantíssimo porque ajuda a salvar vidas. Só porque as pessoas andam por aí em suas redes sociais fingindo que não existem sequestros, abusos, pedofilia, tráfico humano, entre outras coisas horríveis no mundo, não faz com que não existam. Esse filme é de utilidade pública. Sinto que fico mais e mais desconfiada com o tempo, eu sempre observo tudo ao meu redor, principalmente se os meus sobrinhos estiverem por perto, olho com atenção quem tá olhando pra eles, até mesmo gente de "confiança" que está sempre por ali. Atenção redobrada nunca é demais, as crianças são as mais visadas no antro das maldades humanas. Aqui o cinema exerce sua função de comunicador informante, se cada pai que assistir ficar um pouquinho mais atento, o objetivo do filme terá sido concluído com sucesso. O Tyler James Williams é um ator talentoso, mas aqui não entregou muito, a direção não soube trazer o melhor dele à tona. Hayden Panettiere não me convenceu em nada, acho que a vibe toda dela não se encaixou muito bem com o que o personagem pedia. Não houve química entre o elenco. O espectador assiste ao filme tenso e preso à tela pelo fato de o tema ser algo que mexe muito com qualquer um, e não porque as atuações estão brilhando. Afinal, ninguém quer ter o filho sequestrado jamais. É um filme que soca o estômago, ainda mais quando há milhares de artigos jornalísticos na vida real sobre crianças engaioladas e traficadas nas mesmas condições. É um conteúdo pesado, mas necessário para quem quer estar sempre atento e prevenido.
"Até que se conscientizem, não se rebelarão; e até que se rebelem, não poderão se conscientizar." "Nada era seu, exceto os poucos centímetros cúbicos dentro do seu crânio" George Orwell sempre vai ter meu coração. Um século depois e esse livro escancara nossa realidade social tão perfeitamente. Nada mudou, as pessoas continuam sendo oprimidas e desinformadas, mas com ferramentas diferentes e modernas. Esse excesso de telas, mutação de informações acontecendo o tempo todo, a privacidade se tornou um artigo de luxo. Esse monitoramento era imposto, era forçado, hoje em dia é quase sempre voluntário. As bolhas sociais fortaleceram o extremismo, para reforçar algo que a pessoa pense, um pensamento em formação logo toma um caminho de radicalismo, ou para combater, o entorno daquele cidadão vai atropelar o pensamento que está se formando de todas as formas possíveis, até que ele pense de acordo com o conformismo social, impossibilitando a conclusão de um raciocínio autoral. Surge tanta coisa tão rápido que as pessoas não conseguem amadurecer ideias e pensamentos sobre nenhum fato, as pessoas não pensam profundamente. Outro ponto é que o autoritarismo está mais vivo do que nunca, mas em 1984 era caótico, barulhento, estrondoso. Hoje em dia é silencioso, sutil, o algoritmo define o que você vai ver, o que vai ler, o que vai fazer parte do seu dia a dia. É um controle muito eficaz, as pessoas sequer percebem. Quantas vezes as plataformas silenciaram pessoas e suas opiniões? Isso é poder autoritário. Quando alguém deixa de postar o que pensa por medo da repressão também está sendo vítima do sistema, mesmo que indiretamente. Cada acesso nosso online e localização recolhidos são formas de abusos autoritários, até porque, se não aceitarmos essas diretrizes não conseguimos acessar aplicativo algum em nossos aparelhos. Os dados são coletados a todo segundo, e me pergunto quem de nós sabe para onde vão? Ninguém sabe. É muito mais fácil controlar as massas sabendo que querem, o que fazem e onde estão. Cada opção que temos já foi decidida por alguém que conhece nossos gostos e fraquezas. É assustador! O objetivo principal hoje em dia é o mesmo de 100 anos atrás. Tornar-nos pessoas não pensantes, conformistas e cegas. Eu sempre digo: o terror dos autoritários é lidar com a revolução dos que pensam. Quem pensa, não consegue prosseguir conformado! Nasce um sentimento de revolta, uma inquietude, vontade de lutar. Admito que surge, junto a isso, um sentimento de incapacidade. É que é tão difícil conversar com pessoas conformadas. Mesmo sabendo que a nossa verdade é a verdade no meio de 1 milhão de mentiras, é difícil ser ouvido, ter voz. A gente faz o que pode. Sinto falta da liberdade de discordar sem ser punido socialmente. Na nossa sociedade é quase um crime duvidar das coisas. Outra coisa que notei de semelhança com os dias atuais é que há sempre embates, os governos estão sempre providenciando conflitos para distrair o povo do que realmente está sendo feito por trás dos panos. As pessoas também gostavam de gritar com o Goldstein, e hoje em dia parece que as redes sociais sempre nos apresentam ódios em comum, é como se isso engajasse muito mais do que a paz. O algoritmo lota o feed de conteúdo onde as pessoas possam se juntar para tacar hate em algo ou alguém. O Winston de hoje em dia é todo cidadão que vive esgotado e já não aguenta mais o cansaço mental diário. Ele tentava esconder seu diário e hoje as pessoas tentam apagar seus históricos, suas vidas online, mas é impossível. Mesmo se alguém deletasse todos os arquivos e redes referentes à vida, ainda assim estaria tudo salvo em algum servidor e por último "deletou todas as redes e histórico no dia xx/xx". É creepy, você pode criptografar, trocar de e-mail regularmente, usar VPN, mas isso não muda nada, no fundo a gente sabe que tudo é armazenado. A gente vive a mesma coisa que ele. O Winston de hoje é o cara que tenta viver uma vida garimpando coisas físicas e reais, tentando algum contato com o mundo de verdade, conexões verdadeiras, algo que a inteligência artificial ainda não tenha moldado. O 2+2=5 de hoje em dia aparece de forma mais sutil, o Winston foi torturado fisicamente e psicologicamente, como as pessoas não passam por isso hoje em dia (a maioria), algumas nem percebem que estão condicionadas. Aparece quando uma pessoa aceita uma ideia porque todo mundo aceitou, porque essa mentira se tornou conveniente, o grupo decidiu que é assim e pronto. Essa falta de contraponto é o medo mais comum dos dias de hoje. Até em lugares básicos como grupo de família, amigos ou colegas de trabalho as pessoas têm medo de se posicionar. Outro ponto é que se alguma mentira é dita por uma figura política ou famosa, ela se prolifera rapidamente como uma verdade através dos impulsionamentos midiáticos. Se o pensamento pode ser moldado por sistemas políticos, a raiz desse mesmo pensamento se enfraquece rapidamente e o emburrecimento da população se torna mais fácil de ser gerenciado. E uma das partes mais tristes do livro e do filme que reflete nos tempos atuais, a destruição total dos laços entre as pessoas. Eles queriam criar pessoas que amassem apenas o Grande Irmão, elas não podiam cultivar amizades e nem amores, assim como em Admirável Mundo Novo do Aldous Huxley, é algo que fugiria do controle deles. Hoje em dia não é diferente, o Bauman fala muito sobre essa modernidade líquida, amores líquidos, onde nada é feito para durar. As conexões são artificiais e se dissolvem rápido. As pessoas são solitárias, e isso é ótimo para quem está no controle, é mais fácil manipular essas pessoas isoladamente. "A pior coisa do mundo" que o livro cita no quarto 101 pode ser qualquer coisa pra qualquer um, mas quem coleta nossos dados conhece melhor que nós mesmos quais são nossos medos, erros e inseguranças. E já é usado contra a gente de forma indireta, para manter-nos conformados. A pergunta é: Onde a tecnologia e o monitoramento ainda não chegou? Sobrou algum lugar seguro? Fica aí o questionamento. Não é à toa que Black Mirror é minha série favorita. Aquilo tudo já é real. A gente já vive na sociedade Black Mirror. Ainda prefiro o livro, mas amo muito esse filme. Pena que não fizeram uma adaptação boa de Admirável Mundo Novo ainda. Quem sabe um dia...
É um filme pesado, o ambiente é caótico, quase sufocante. Boa direção do belga Tim Mielants. A carga emocional desse filme me lembrou de "Preciosa". [Spoilers] Ótima direção de fotografia do Robrecht Heyvaert. Os ângulos abordando diferentes perspectivas, ora por trás das câmeras, ora através delas, ora pela tela, em alguns momentos estamos espiando, em outros nos sentimos na própria situação. A câmera não ser estável é um acerto enorme, tudo em constante movimento. "Tá no topo da lista, eu prometo", e no final não sobra tempo pra nada, é uma correria. Gosto muito do horário passando na tela, é um lugar tão atípico que acontece tanta coisa em um único dia, chega a ser desconfortável, comparando com a nossa vida, sem eventos. A sequência silenciosa deles na mesa, cortando para ele na entrevista lacrimejando, voltando para a mesa e a cena do "Cala a boca" é muito boa. A atuação do Cillian brilhou muito ali. Essa cena e a do Shy no final são as duas melhores pra mim. Não li Shy, do Max Porter, vi apenas o filme. Acho muito amoroso da parte do Steve estar sempre tentando proteger os meninos do julgamento da sociedade, impedindo os câmeras de filmarem momentos ruins. A jornalista, inclusive, em alguns momentos representa essa voz social mais preconceituosa. A cena dos meninos na janela parecendo animais selvagens é tão forte, é lamentável. Detalhes como o Shy rabiscando o caderno, uma alegoria à mente dele. Anotações na mão do Steve, representando a correria do dia dele. O Tyrone esvaziando pauta racial dizendo que estava sendo tratado injustamente por ser preto, quando na verdade, a psicóloga confirma que ele estava ali sim por importunação sexual. O filme foi corajoso de colocar essa cena. Quando ele começa a falar isso, a gente já cria uma empatia pela situação social dele, achando super injusto julgarem ele pela cor, aí quando ela confirma que ele realmente fez, que não é injustiça, fica um gosto amargo, ele engana a gente. Injusto mesmo é ele usar um problema estrutural real pra se esconder dos crimes. Em seguida a briga dele com o Jamie, que é uma sequência muito boa, sem muitos cortes. A entrevista do Steve é muito comovente, ele dizendo que eles são extraordinariamente complexos, a da Amanda também é sincera, apesar de gostar deles, tenho certeza que muitos professores se sentiram representados por ela. Ela cita o trabalho que eles dão, a falta de recursos do sistema, salários baixos, tudo isso é tão real no mundo. A entrevista dos meninos traz um lado mais humano de alguns deles, uma fala do Jamie que me marcou foi "não confia em ninguém, não dá pra confiar nem na polícia, cara", não mentiu. Ao serem entrevistados, eles não têm tabu, nem medo de se expor ou falar sobre as maiores atrocidades que já cometeram, sobre seus erros. O que poderia acontecer de pior do que estar ali? Outra fala que me marcou é quando o Deputado está lá na escola e fala sobre os votos, sobre proteger os bens do cidadão, perguntando "Quem vai proteger os seus bens, sua liberdade?". Meu irmão, os meninos não têm mais nada, não têm família que se importe, não têm apoio do sistema, não têm dinheiro, bens, liberdade. Isso é um luxo inacessível pra eles. Fiquei com dó deles nessa hora. Os quartos são bem pessoais e a ambientação é ótima, mesmo os meninos sendo delinquentes, dá um incômodo ver a jornalista invadindo a privacidade deles. Nada justifica. Outra cena boa é a que começa calma com a bolinha no chão, o Steve tapa os ouvidos, então os meninos chegam quando toca o sinal, é um caos. O filme alimenta uma certa ansiedade em quem está assistindo, mas puxada pra um lado crítico, você fica agitado assistindo, mas reflexivo também. O Shy é o personagem mais cativante e real de todos os alunos. Começa com ele dançando chateado e termina com ele desmoronando completamente, e o caminho de um extremo ao outro é muito bem desenvolvido. O ator Jay Lycurgo entregou muito, só não mais que o Cillian. É só um menino em busca de afeto, mas quando recebe alguma dose, não consegue administrar. Quando ele se abriga na música, eu me identifico muito, eu amo música e quando tudo vai mal, eu coloco o meu fone e fico ali no meu mundo. A cena do futebol com certa coloração nas camisetas e a dele preta se destacando, andando triste no meio deles, a chuva caindo, bem dramática e sombria, a câmera em rotação, a edição e montagem, o take acelerado, o zoom, o campinho de ponta-cabeça, a bateria da música engatando cada vez mais alto na trilha sonora. Perfeito demais. Essa e a da lavanderia são as mais bem editadas. Faz sentido, a vida de todo mundo ali tá de ponta-cabeça também. São muito tristes as sequências do Shy, muito boa a referência ao lago pelo frasco de remédio, como se fosse um presságio para o espectador, toda a cena da lavanderia até o Shy entrando na água é muito bem dirigida. Ele tão perto de achar o Shy, mas estava tão fora de si que não conseguia chegar. Desesperador, a gente torcendo pra ele tentar só mais um pouquinho. O Shy quis tirar a própria vida aos 17 anos, porque mesmo se ele zerasse e se tornasse uma pessoa melhor, a sociedade nunca validaria isso, as pessoas o julgariam pra sempre (mais). Nem o apoio da família ele tinha mais, esse tipo de pessoa não tem nada a perder, então desistir parece ser o caminho difícil mais fácil. No final, fiquei feliz de ver que o Shy estava vivo. É muito difícil ser depressivo em um mundo onde ninguém te entende, pessoas que acordam bem e vão viver suas vidas, enquanto você acorda e a primeira coisa do dia é tentar se convencer de que aquele dia vale a pena, de que você vale a pena. Ninguém entende, só julga, exceto aqueles que também tenham depressão, que sabem minimamente qual é o sentimento. Mesmo em frangalhos e todo arrebentado, lutar pela vida, quando o suicídio parece ser a opção mais segura e indolor, é um ato de coragem enorme e requer uma força absurda. Ele gritando quando os meninos se jogaram felizes em cima dele foi pesado, um grito que veio da alma, um pedido de socorro carregado de desespero. O abraço dele no Steve no final, lindo! O folheto Coastal Carvings na parede desde o início avisando pra gente o que viria, detalhismo. O Steve é o personagem mais complexo, o Cillian deu tudo de si, e o resultado foi ótimo. O personagem consegue ver sempre o melhor das pessoas (que valem a pena), a saúde mental dele completamente esgotada, que até dentro da própria casa no final, recorre ao vício, é muito triste a cena que ele sobe com a garrafa na mão. Ele entrega alívio cômico em frases como "é bom que a cadeira não vai prestar queixa" ou imitando o Jamie, ele entra na vibe dos meninos, é o único jeito de ultrapassar o muro emocional que eles construíram. Tenta bancar a máscara de apaziguador, mas em seus vícios e nas fitas se revela como é. Cobra muito de si, como se tivesse que resolver os problemas do mundo todo, não consegue desligar. E quem resolve os dele? Ninguém. O vício em oxicodona é só o reflexo da fuga de alguém que não suporta mais viver o que vive, mas sabe que se pular fora do barco, tudo desmorona, ele é o "por um fio" que tá segurando tudo. O filme é uma baita crítica social ao sistema e como eles tratam essas pessoas. Ao salário baixo dos professores e diretores que aguentam todo tipo de situação, agressão verbal e física, assédio sexual e moral, mas principalmente ao burnout e esgotamento da sanidade mental de quem lida com alunos dessa faixa etária entre 13 e 18 anos. Fica claro que quem é da área de pedagogia, faz por amor, remuneração adequada esse povo não tem, muito menos apoio dos órgãos responsáveis. O filme não tem final feliz, é um soco no estômago e tchau. Acredito que tenha sido o objetivo, então a direção entregou com maestria tudo o que o roteiro pediu. Maravilhoso!
Ótima direção de fotografia de Lito Mendes. A ambientação impecável. Gosto muito da interpretação do Miklos, até porque ele tem uma bagagem musical muito ampla, de muitos anos, nada parece forçado e soa muito natural. A cena final em que eles perderam tudo, mas não a companhia um dos outros é linda demais de assistir, dá uma nostalgia. O filme mostra tão bem como a vida, a memória e as canções das pessoas são tratadas apenas como entulhos e tralhas por essas grandes empresas, que se importavam apenas com o possuir coisas, uma sociedade que valorizava apenas o ter e não o ser. O progresso beneficia apenas quem está esmagando os sonhos do outro. Essas pessoas periféricas são invisíveis para o sistema. Adoniran transformava essas pessoas e suas histórias de vida em arte, um legado que marca a gente até hoje.
Adoro o Keanu Reeves, mas não consegui assistir até o final, o filme é horrível. 1 estrela só porque valeu ver o Scorsese. Jonah Hill dirigiu o Keanu mas esqueceu de contratar alguém bom para dirigir a si mesmo. Confundiram fazer piada com virar uma.
"Looks like you've popped into a hornet's nest", essa frase resume o filme todo. A direção de fotografia e a atuação do Farrell são pontos altos, mas é carregado de machismo, agressões e alguns momentos confusos. Ao verificar o contexto da época histórica e bastidores do próprio filme tudo faz sentido, mas não dá para ignorar certas coisas só porque o filme tem uma estética linda e é um clássico, é sufocante assistir sendo mulher, mesmo considerando a época. Esse puritanismo religioso rural e estrutura patriarcal não passam despercebidos. [Spoilers] Vi a idealização de uma esperança de romance nos primeiros minutos e um homem que invalidou a esposa durante a trama toda tentando reconquistar e trazer ela de volta no final, como se nada tivesse acontecido. Cheguei a me perguntar se o filme era uma sátira (à figura do pai), mas não. O filme ia se chamar Our Daily Bread, onde o Murnau mostraria que o campo era um lugar grandioso e a cidade bonita, vibrante e cheia de emoções, porém a Fox achou o filme artístico demais e que não era muito comercial, não venderia. Mudaram o nome para City Girl e forçaram as novas cenas e diálogos que representassem melhor a ideologia americana que eles queriam vender, o Murnau abandonou o projeto antes de terminar a edição e foi gravar outro filme (Tabu). Como resultado, temos o visual lindo, mas um roteiro totalmente desrespeitoso. Saindo dos bastidores e indo para o contexto da época, para entender melhor esse tradicionalismo (se é que é possível entender tanta falta de respeito e machismo), como o roteiro faz o pai do Lem parecer certo, mesmo batendo nas pessoas, ameaçando funcionários de morte, inventando mentiras pra lá e pra cá, tudo isso com a bíblia numa mão e a arma na outra. Pesquisei e li que entre 1920 e 1930 existia uma divisão entre o campo e a cidade na América, na cidade o período conhecido como Roaring Twenties, que resumindo seria Jazz, mulheres independentes, bebidas e liberdade era visto pelo povo do interior como um pecado terrível. Provavelmente o pai do Lem associou a Kate esses boatos exagerados sobre a cidade sem dar chance de conhecê-la (como se ela fosse corromper o Lem). Outra coisa é que a quebra da Bolsa foi em 1929 e o filme é de um ano depois. Não podemos esquecer do código Hays (que ditava o que aparecia ou não nos filmes), já estava começando a aparecer em 1930, as regras diziam que por exemplo pais, juízes e clero não poderiam ser ridicularizados nos enredos e que a moralidade deveria sempre vencer e ser aclamada no final da produção. Isso explica muito o motivo de ninguém ter feito nada contra o Tustine, nem mesmo o filho, que age com uma passividade irritante durante o enredo todo. O Murnau queria que o filme fosse mudo, mas a Fox queria transição para o falado, a versão falada não fez sucesso. Mesmo já tendo direito ao voto, no filme as mulheres são vistas como algo, como nada, alguém para ser subordinada ao marido, lavar, passar, cozinhar, costurar remendos de roupas, cuidar do filho e só, tendo que concordar com todas as decisões do marido sem poder dar opinião em nada, o filme pode até ter falas, mas a mãe do Lem está em um filme mudo, ela só aparece fazendo essas coisas e impedindo o filho de confrontar o pai. Dá pra perceber que mesmo ao discordar de algumas ações do marido, ela recua. O pai fica revoltado quando lê a palavra waitress na cartinha do Lem, eles tratam o Lem como se ele fosse um filho adolescente que tivesse ido viajar, o mesmo, que já se sentia adulto suficiente até para pedir alguém em casamento. O roteiro primeiro prega que o Lem defenda ela, em situações de assédio no trabalho (foi super gentil), onde ela poderia, inclusive, se defender sozinha, mas quando surge a oportunidade de defender sendo esposo dela, ele não faz nada, nem contra os homens, acreditando neles e não nela, nem contra o pai. O roteiro tenta se redimir no final colocando ele batendo no Mac, mas só após ela ir embora, por pura pressão da partida e não por vontade própria. Se o pai conseguiu causar esse desconforto todo em quem assiste, é porque entregou muito no papel, um mérito total do ator David Torrence. Muito pesada a sequência em que a Kate apanha dele, assim que chega, sem apoio de ninguém, dá muita dó quando ela fala "And this is our honeymoon!", ela quebrada por fora e por dentro. De qualquer forma, algumas coisas no filme me marcaram muito, positivamente. A trilha sonora é muito boa, crescente no piano para momentos de drama e romance, violão mais suave para momentos engraçados e alegres. O som casou muito bem com o visual na cena da Kate na janela do lugar onde ela morava, quando passa o trem. A ambientação é muito bem produzida, tem uma planta morta e empoeirada representando a tristeza e vazio que era a vida dela, tem também no quarto uma gaiola de metal com um pássaro, representando essa prisão que ela sentia, mas o mais interessante é que a gaiola segue com ela até o final do filme, representando que mesmo ao chegar no interior, após se casar, ela ainda estava presa, muito mais, aliás. No início eles brincam girando a engrenagem e o passarinho canta, depois dos acontecidos de agressão e assédio, o roteiro nunca mais faz isso, uma ótima alegoria à Kate nunca mais ter sido feliz ali, oprimida e presa. A cidade, as estações de embarque, o restaurante, a banca de jornal, simplesmente perfeito cada detalhe ambientado, me senti em 1930. Os figurantes (não economizaram, são muitos), bem vestidos, bem dirigidos, a cena dele pela cidade é linda, é de uma beleza diferenciada. Apesar do desconforto assistindo, o enredo rendeu alguns momentos de descontração no início, eu ri em algumas cenas no restaurante. Achei ótima a cena deles pelos campos, muito bem dirigida. Essas gravações em campos de trigo, de rosas, girassóis, nunca falham, funcionam muito em romances. Precisamos enaltecer a atuação do gatinho. Também ri muito na cena que o velho fofoqueiro conta pra todo mundo que ele casou e os feiosos começam a se arrumar na carroça, porém depois durante o filme, quando mostra que eles são assediadores é muito desconfortável, todo mundo dando em cima dela, pegando no corpo, nas roupas, como se ela fosse um pedaço de carne pendurado no mercado. Outra cena linda é a da colheita, é muito boa, tem muitos detalhes, desde o recolhimento até o ensacamento do trigo, a cena com os cavalos, as montanhas. Outra cena engraçada é a que o trabalhador lava o rosto na água que o cavalo tá bebendo e quando vai dar a água de volta o cavalo vira a cara e não quer mais, é muito cômica, é muito engraçada. A atuação da Mary Duncan como Kate foi impecável, ela oprimida, encolhida, com o olhar caído. A cena do abajur, em que o Mac entra na casa é muito desconfortável, muito bem dirigida, a iluminação direcionada à parede simulando apenas a luz do objeto em cena, as sombras, deixou a cena muito mais tensa do que já seria, um grande acerto. Quando o Mac passa a mão nela, é muito apavorante. O assédio sexual que ela sofria é desesperador porque a pessoa está no meio do nada, em uma fazenda, na cidade você tem para onde correr atrás de ajuda, de pessoas. Acho muito forte quando o Lem pergunta se ela não tem nada a dizer e ela apenas sinaliza com o rosto que não, uma hora a pessoa cansa e desiste de justificar. Também quando ela diz que qualquer homem pode arrumar uma mulher, mas é necessário muito mais que um anel e um documento para segurá-la. É uma das frases mais reais e profundas representando a situação dela, ali ele já tinha perdido ela. Como em todo filme que vi de 1927 à 1930, a redenção do marido sempre vem nos últimos dois segundos do roteiro. A cena dos cavalos correndo com o Lem e o Mac brigando na carroça é muito bem feita, cena com animais são difíceis de gravar, o pai dele atirando, entrando em pânico, aparece "father" na tela, depois mostra que o tiro não acertou no Lem, ele indo atrás dela, a sequência ficou muito boa. O Lem pareceu genuinamente arrependido, porém sinto que ter feito isso tão tarde prejudicou muito o roteiro. Eu não ousaria comparar City Girl com Sunrise, em Sunrise a gente vê o Murnau em tudo, aqui só em alguns detalhes, nada é tão marcante como é no outro filme, a Fox interferiu muito.
Guillaume Cassuto arrasa muito! Os visuais do Patrick O'Keefe ficaram lindos demais, eu já havia amado a direção dele no Aranhaverso. Espetacular ver o trabalho do Renan Porto representando o Brasil no filme. O Bowser rouba a cena, igual no primeiro filme, a voz do Jack Black imprime muita personalidade na dublagem. Mesmo sendo uma animação, o roteiro fez questão de inserir tantas camadas, o personagem aparece mais emocional em alguns momentos fofos com o filho. O pai ausente mais presente que temos! Sou muito fã dos jogos desde pequena, mas não esperei uma adaptação muito robusta nessa sequência, então gostei muito do filme. Quem não jogou Wii pode se perder em alguns momentos. Cheio de referências nostálgicas. Os gráficos estão lindos, o neon, os planetas. Ótima direção de Aaron Horvath e Michael Jelenic.
Bem melhor que o primeiro, aqui o enredo flui, o espectador já sabe como o jogo funciona, então é só se adaptar às novas regras. [Spoilers] Com a Faith em cena, a Grace tem uma motivação maior, que é proteger alguém no jogo, diferente do primeiro, que é cair aleatoriamente no jogo apenas pela sobrevivência crua. Não que isso não seja importante, mas cativa mais quem tá assistindo. A tensão emocional entre as duas é interessante, mas um pouco cansativa. O ponto alto pra mim é o roteiro satirizando os ricos, esse povo se mata entre si, sem precisar de nenhum motivo específico além do financeiro. O gore está na medida certa. As piadas sobre as explosões de sangue trazem alívio cômico. O ritual e a cena do casamento são muito boas, me surpreendeu, eu não esperava tanto da sequência, mas entregaram, a última cena em que eles se matam atrás do anel é a melhor do filme. Ótima atuação da Samara Weaving. Não é um filme memorável, mas é um gore leve pra rir.
É desastroso! Foi saturado acompanhar por duas horas. [Spoiler] O ritmo do filme é péssimo, e as atuações completamente mornas e sem sal do Brandon Sklenar e da Sydney Sweeney só arruinam tudo ainda mais. Ela não entregou na atuação e nem na narração. Até Beyoncé em Obsessiva conseguiu entregar mais no final. Mas claro, o público que assiste com o cérebro desligado (ou apenas para vê-la pelada) vai dizer que foi a melhor atuação de todos os tempos. Não foi. Quando a atuação não vende a ideia, a gente simplesmente para de se importar com o que vai acontecer com os personagens. A atuação da Amanda Seyfried carregou o filme nas costas, mas não foi suficiente pra salvar o enredo corrido da última meia hora, que atropelou o timing de tudo. Para que a reviravolta funcionasse, deveriam ter preparado o espectador, com atuações mais convincentes. Como há inexpressividade por má atuação em boa parte do enredo, no final não convence, pois não vendeu àquela ideia em momento algum, não cativou no espectador algo que compensasse a surpresa do plot. Por sorte, a Amanda rendeu ótimas (poucas) cenas. Apesar de tudo, gosto do roteiro empoderando mulheres contra homens abusivos, e também mostrando que o comportamento narcisista e sociopata quase sempre vem da influência da criação dos pais. O roteiro reforça isso usando a mesma frase várias vezes, uma em cada geração. Não li o livro da Freida McFadden. A entrevista da Amanda falando sobre descobrir que era produtora 3 semanas depois, faz tanto sentido. De qualquer forma, é um filme totalmente esquecível.
Outra direção primorosa do Murnau! Que filme maravilhoso! [Spoilers] Uma das primeiras frases da Ellen é "Why did you kill them... such beautiful flowers?", e não está ali por acaso, aliás, nada em um filme do Murnau é por acaso, a frase se conecta tão bem com ela se sacrificando no final para salvar a vida de todo mundo. Só uma pessoa que prefere ver as flores vivas no jardim do que em um buquê se importaria o suficiente para se entregar e salvar a cidade. Gosto como o conto vai passando na tela, como se estivéssemos lendo o livro, o detalhe das páginas rasgadas. Dividir o filme em atos também é um acerto, combina muito com a vibe gótica do Expressionismo Alemão, observei que dá tempo de lermos a página toda, tem filmes mudos da mesma época que não respeitam o tempo de leitura do espectador. Achei muito importante o romance entre o casal contrastando com as mortes, equilibra, é um alívio na trama. Ela correndo pra se despedir dele (de novo), abraços, beijos, cartas. Imagina você viajar para uma cidadezinha e no quarto que você se hospeda, tem um livro contando basicamente tudo que vai acontecer com você nos próximos dias, que você vai ser atacado e mesmo assim continuar lá. Admiro a audácia do Hutter de jogar o livro no chão, fingir normalidade e rir do perigo, se eu fosse o Conde também atacaria quem debochasse do meu livrinho, uma falta de respeito com nosso vamp-mor. Achei muito engraçado os cavalos fantasmagóricos com os rostinhos tampados e só os olhos de fora (espero que não tenha sido desconfortável para os bichinhos). Até os figurantes nesse filme são super expressivos, que produção detalhista. Eu achei genial terem misturado imagens no set com cenas reais no castelo eslovaco e em pontos na Alemanha, o Murnau realmente se compromete. O chão quadriculado, as cadeiras longas, a caveira no relógio, os quadros e tapetes pendurados. Além da casa do Conde, também me chamou a atenção a ambientação da sala de reuniões com as miniaturas de barcos na estante e na parede, o tridente e o quadro. Lindo. A direção de figurino acerta em tudo, o contraste das roupas claras do Hutter com as sombrias do Conde. Os óculos redondos da época. A maquiagem esbranquiçada do velho e o cabelo todo ouriçado, dele e de metade do elenco, esse visual desleixado e descabelado combina muito com o gênero horror, diferencia o filme totalmente dos filmes americanos da época, que se preocupavam muito com a aparência dos personagens principais, super polidas e alinhadas, pelo menos os que eu assisti até agora. Os rabiscos nas paredes onde o Knock está, a cidade toda suja, as unhas das pessoas, tudo isso passa esse clima de peste e praga pela cidade, inclusive, o desespero do povo lembra o da Peste Bubônica, é muito similar, todo o caos. O filme é de 1922, a Gripe Espanhola de 1918, imagina esse povo assistindo a um filme que relata a chegada de uma doença sem solução por meio de navios, isso é assustador por si só, o Conde acaba sendo a representação física desse medo. Algumas cenas me marcaram muito, mas sem dúvidas a que mais marcou com relação a isso foi a sequência em que as portas são marcadas com cruzes representando quem morreu, os caixões sendo carregados pelos homens de sobretudos pretos, cartolas, expressão bem triste, e a quantidade de caixões posteriormente toma conta da rua inteira, visualmente muito forte. O Dr. Sievers explicando um pouco sobre os experimentos também muito representativo, tentar desvendar algo sobrenatural através da ciência, a gente vê isso em The Walking Dead e The Last of Us, em todos eles a ciência falha pra fazer sentido no enredo. Mas é bom trazer esse outro lado para quem assiste. Quando tudo fica explicadinho e a medicina ou ciência apresenta uma solução, parece que o terror perde a graça, pelo menos pra mim, o mistério e a incerteza entretém muito mais, até porque quem quer roteiro redondinho e previsível vai ver filme de romance. Terror tem essa aura enigmática, de deixar a gente o mais agoniado possível (terror bom, porque tem uns que só pela misericórdia de tão ruim. Pode entrar, The Nun!). As atuações estão impecáveis, o destaque, claro, é a do Max Schreck como Conde Orlok (na época, as pessoas achavam que ele era um vampiro, de tão bom em cena), do Gustav Von Wangenheim como Hutter e da Greta Schroder como Ellen, os atores entregaram muito! O Nosferatu com a postura encurvada quando o Hutter chega no castelo, as mãos pra dentro com aquelas unhas gigantes, os olhos arregalados. Sempre desconfiem de pessoas que disserem "Your wife has a lovely neck". A cena do Nosfe dormindo em pé à noite é uma com o visual mais legal, a iluminação, a projeção de sombra, ficou linda. O andado dele de costas, assustador. A imagem centralizada na porta, e o resto da tela escura, ótima direção de fotografia de Fritz Arno. Sequência surreal de boa a que ele vê o Conde no caixão, só o rostinho. Ele se arrastando na escada, perturbado no quarto, o Nosfe indo atrás da Ellen. O Conde levantando no barco também e aparece "the dead ship had a new Captain", muito bom! Inclusive, a tipografia estilo Fraktur usada é algo marcante, nós, designers, usamos até hoje esse tipo de fonte no Adobe pra criar convites de festas, flyers, etc. Claro, a do filme foi feita à mão pelos artistas, mas mesmo assim vale lembrar que um século depois, ainda usamos no nosso dia a dia. Outra coisa linda é o uso do stop motion, aquela cena da porta se abrindo ficou perfeita. Essa coisa do quem vai chegar primeiro até a Ellen é muito bem construída no roteiro. Achei apavorante ele com a cara na janela quando a Ellen olha, misericórdia! A coreografia das mãos do Nosfe no filme, me lembrou muito a que o Michael Jackson usa no clipe Thriller. Talvez o diretor do clipe tenha se inspirado. A cena mais icônica do filme é provavelmente quando ele chega na casa da Ellen, a da sombra. Ele subindo, a sombra na parede, entrando no quarto até o corpo dela, o olhar dele fixado na câmera diretamente para o espectador, ele se jogando ao ver o sol. É dramática, mas combina muito com o tom do conto. Diferente de filmes dos anos 20 que dramatizam por dramatizar, sem justificativa. Ele virando fumaça, pode ter sido uma referência do Murnau a Le voyage dans la lune do Méliès, porque 20 anos antes ele criou o mesmo efeito transformando os selenitas em fumaça. A trilha sonora se encaixa perfeitamente. A montagem e edição ficaram muito bem executadas, o filme é preto & branco, mas puxado para tons, e eles vão mudando a tintagem de acordo com o clima do filme, percebi que em momentos mais tranquilos ou de dia, ele fica amarelado, quando a cena pede algo mais sombrio ou noturno, fica azulada meio acinzentada, como por exemplo quando ele desce da carroça está amarelado, entra no terreno do Conde, fica azulado, tirando a alegria e o calor da cena. Em alguns momentos também notei o uso do Magenta. O mais interessante é que isso só acontece até certo ponto, um hora essas edições se embaralham e o ambiente amarelado que era o seguro, não é mais, e isso causa pânico em quem assiste, deve ter sido o objetivo de quem editou. Por exemplo dentro do castelo o Conde aparece em alguns takes amarelados, é como se o ambiente tranquilo tivesse sido contaminado pela praga e ninguém mais está seguro em lugar nenhum. A cena do espantalho e do mar cria um link na gente direto para Sunrise, também do Murnau. Esse filme tem uma fórmula, que vejo replicada em uma imensidão de filmes ao longo desses 100 anos. Um lunático comentando sobre algo assustador, alguém viaja, descobre ou revive esse algo ou alguém, que ataca todo mundo, o protagonista sobrevive (esfarrapado) ou se sacrifica para salvar a todos. O Spielberg e o George Lucas têm tantos. Nosferatu já fazia isso no século passado. O filme é reconhecido até hoje como o clássico pai desse tipo de terror, mas tem a história muito triste. Eu li sobre a Prana Film, que convidou o Murnau pra fazer esse filme, um plágio não autorizado de Bram Stoker (Drácula), só fez um filme em todo o seu tempo de duração como produtora, faliram em seguida. A Florence Stoker processou e ganhou a causa, óbvio. As cópias foram destruídas e a gente só tem acesso ao filme porque algumas escondidas se salvaram. Um dos melhores filmes de terror que assisti.
Direção maravilhosa do Hugo Carvana! Aquela voz de locutor no início já faz a gente rir. [Spoilers] Direção de fotografia impecável de José Medeiros, os grãos na tela dos anos 70 também ajudam muito a levar a gente para a década, dá vontade de estar lá no bar com eles. Regis Monteiro acerta muito nos figurinos e cenografia. Cabelo bagunçado, camisa aberta, correntinha, calça flare e a atuação tão precisa do Carvana, nem parece que leu um roteiro, de tão boa você jura que ele é malandro. O enredo te prende do início ao fim. Ainda falando sobre o Hugo em cena, o cara se desdobra em mil facetas, um artista com repertório muito completo, entrega tudo, ex-presidiário, conquistador, comendador, padre (picareta), cachaceiro, filósofo, autoconfiante, negociador, até bondade. Vontade de ver as pessoas de quem gosta conquistando coisas (claro, pra ele não importa de onde esse dinheiro venha). Confesso que a pós-sincronização das vozes incomoda demais, eu tenho o hábito de estar atenta ao que está sendo dito, e muitas vezes os lábios não estavam sincronizados. Mas acredito que naquela época era mais cômodo e comum esse tipo de pós-edição de montagem e som. Não prejudicou o filme em nada. Algumas críticas sociais estão muito presentes, apesar de parecer ser um filme despreocupado, a cena em que eles falam sobre as empresas que vão tirar as pessoas de suas casas para fazerem construções. O momento em que o Dino rouba a grana, mas compra presentes e leva de volta para as crianças da vila que vivem nos barracos, quase um Robin Hood da malandragem. Eu adorei a cena em que ele e a Zezé Motta estão na casa dos patrões dela, ele abrindo as portas sincronizado com a música é bom demais, depois eles dois dançando Ella Fitzgerald. Eu queria namorar o Carvana em 1973 só pra ele dançar comigo igual ele dançou com a Shirley. Como pode um conquistador barato entregar mais momentos românticos do que a maioria dos homens? Essa cena foi muito leve. Inclusive, o Hugo nesse filme tem um charme em cena, não consigo imaginar outro ator no papel. Em 1 hora e meia de duração, perdi as contas de quantas pessoas ele paquerou (lembrando que não dá pra ignorar, apesar de ser engraçado no roteiro, também do contexto e da época, em alguns casos soa como assédio e o jeito que ele fala de mulheres com os amigos como machismo. Olhando do nosso contexto atual, falas como a de que o corpo da esposa tá se acabando (Babaloo), mulher como troféu de partida, ele pedindo pra ela expor o corpo em troca da pizza, são péssimas. Embora o próprio enredo traga certa redenção quando a gente vê que ele é gente boa, mas vale a menção). Algumas frases do nosso "filósofo" que me mataram de rir: "aquela ali é um bagulho perto de você minha santa", "Não desperta o gigante, não desperta o gigante", "cobra que não anda, não engole sapo", "Camões, comendador? Não. Dom Gustavo, poeta espanhol e aventureiro", "Dona Heloísa, me devoras o coração". A maior ironia é ele cantar "vai trabalhar, vagabundo" pra todo mundo, e ele mesmo não trabalha, e ainda responde "eu não vou que eu não sou louco. Ou sou?". Uma cena muito fluída é a que eles estão contando o que acontecia no passado no bar, eles andando e interagindo com o passado. Cinema! Outra que gostei foi no final, o bar é o elemento central físico, as sequências entregaram tudo: saudade, felicidade, tensão, brigas, silêncio, conveniência, tiroteio, bandidagem, romances. A direção das cenas com muitos atores em cena são muito boas. É um caos, mas muito bem organizado por quem sabe o que está fazendo. Nelson Xavier, Paulo César Peréio e Valentina Godoy também brilharam muito. E misericórdia, como essa Valentina é bonita, não conhecia essa atriz. O filme exala liberdade, liberdade de corpo, de alma, de mente. Isso é atraente demais. O roteiro conseguiu fazer duas pessoas comendo pizza e tomando cerveja ser extremamente sexy. O filme começa em p&b indicando a cor que a vida perde quando se está preso e se encerra com cores, calor, sorrisos na escadaria e no calçadão do rio. Que coisa linda! Esse filme merecia mais visibilidade, nunca fui ao Rio e me senti moradora de lá, mesmo caótico, é muito aconchegante. Na música final ouvi o nome dos personagens, fui pesquisar e vi que o Chico Buarque compôs especificamente para a obra, achei muito legal, gostei muito dessa energia toda de 1973. Se amanhã eu acordar querendo usar só calça flare, cabelo desleixado de rockstar dos anos 70 e passar o dia jogando sinuca, a culpa é desse filme.
Que coisa boa ouvir o Carvana, ir vendo as imagens e documentos dos anos 70 e 80 e a evolução do cinema brasileiro. O que mais gosto no Carvana é que ele não conta mentira nos filmes, ele mostra a realidade brasileira, muita gente precisa do jeitinho brasileiro pra ter o mínimo pra viver. Ele debocha da burguesia sempre que pode. Trilha sonora maravilhosa! Por trás do sorriso do malandro existe desigualdade e luta, é preciso usar toda a malandragem que puder pra sobreviver. Essa é a essência do Lourival, no filme Vai Trabalhar, Vagabundo, que, inclusive, foi corajoso em confrontar a ditadura e mostrar no filme um Brasil real. Isso é resistência! A melhor música da trilha do documentário retrata tudo o que o Carvana pensa e representa como militante e amante da Democracia, já que ele foi ativista, e mesmo depois do sucesso continuou usando a sátira e o humor como armas políticas para trazer luz para as pessoas que nem sabiam o básico sobre consciência de classe. Gosto muito dessa música, ela é tão forte, toca na ferida sem dó. "Canção do subdesenvolvido", por Carlos Lyra, 1962: [...] Santa Cruz...hoje o Brasil Mas um dia o gigante despertou Deixou de ser gigante adormecido E dele um anão se levantou Era um país subdesenvolvido Subdesenvolvido, subdesenvolvido. [...] O povo brasileiro embora pense, dance e cante como americano Não come como americano Não bebe como americano Vive menos, sofre mais Isso é muito importante Muito mais do que importante Pois difere os brasileiros dos demais Personalidade, personalidade Personalidade sem igual Porém... subdesenvolvida, subdesenvolvida E essa é que é a vida nacional!
James Cameron não brinca em serviço! Um dos filmes com os visuais mais lindos que eu já vi no gênero. Uma obra de arte! A história deste me cativou mais que a dos outros dois. [Spoilers] A Varang é uma ótima vilã, deu muito certo ela com o Coronel Miles, que quem diria... se apaixonou! Hahahh. O Coronel aqui tem novas camadas e desperta vários sentimentos na gente, ódio, empatia, desespero, humanidade (ou pelo menos uma tentativa), tristeza, dó. Acho que o personagem se despede muito bem da saga. Do filme todo o desenvolvimento dele é um dos meus favoritos, o enredo investiu muito e o resultado ficou ótimo. Alguns personagens tiveram um tempo considerável de tela e não entregaram tanto. Na minha opinião o Jack Champion, que faz o Spider é engolido pelos outros atores. Os efeitos visuais também deram um toque de expressividade muito grande para os personagens digitais, o que potencializa ainda mais o contraste com a atuação dele, que parece travada, falta intensidade emocional quando comparado ao resto do elenco, falta carisma pra segurar tanto tempo de tela. O Stephen Lang entrega muito em cena, não teve nenhuma cena que ele não marcasse território e comprovasse o talento que tem. O ator conseguiu entregar um vilão intimidador, mas que conquista a gente, que se vê torcendo o tempo todo pela redenção dele e fica triste quando vê ele preferindo se jogar no fogo (ainda acho que ele deve sobreviver) do que aceitar que perdeu a Guerra. Um cara que viveria muito bem ali no meio deles, mas que sempre foi tomado por memórias passadas que lá no fundo, nem importavam nesse nível, mas ele se apegou tanto àquilo e transformou em destino. Ele acabou virando uma versão de tudo o que mais odiou por tanto tempo. Ansiosa para ver ele nos dois próximos capítulos, já que o ator confirmou que vai estar. Gostei muito da humanidade que vem sendo construída no personagem quando está junto com o Spider. O Quaritch está psicologicamente abalado, mas como já saiu por aí falando que é impiedoso e que tem zero misericórdia se sente inferior se voltar atrás. O Lo'ak amadureceu tanto, o filme desenvolve essa trajetória muito bem, mesmo que os meios para isso tenham sido a teimosia, rebeldia e ter que enfrentar todos os adultos, ele tinha um ponto e foi atrás até provar que estava certo e todo mundo respeitar. Os filhos do Jake em vários momentos acabam agindo como mãe e pai um dos outros, acho legal como o filme faz isso de forma natural, não como se fosse algo errado, mas mostrando que está tudo bem ser quando a família tá no meio de uma Guerra. Os Na'vi tem muito isso, essa independência, é cada um por si, mas se alguém mexer com você, todo mundo vai estar ali. Senti negligência por parte do Jake em alguns momentos, o filme até trouxe essa redenção no final, ele sempre castigando o filho pela morte do outro, o coitado procura validação do pai o tempo todo, e nada. Chega uma hora que ele desiste de ser alguém como o pai e descobre uma versão de si bem melhor que a dele. Todos nesse filme têm crises de identidade, e vão resolvendo aos poucos, o bom é que o roteiro inclui a gente nessas descobertas. Direção de arte e design impecável de Dylan Cole e Ben Procter. Que coisa linda Pandora! A direção de animação e efeitos visuais me marcaram demais, eu não esperava menos do Joe Letteri já que ele esteve em O Senhor dos Anéis, ele é o melhor que temos! Edição e montagem impecáveis! O James gosta de ficar em cima, cuidando de cada detalhe, o resultado fica incrível! Tudo lindo! São 3 horas de duração sem piscar, e poderia tranquilamente ter mais duas.
Tive que pesquisar o que era Coquette e descobri que basicamente é (ou era) uma mulher que se arruma muito, flerta com todo mundo, mas não fica com nenhum deles, não era algo ofensivo, às vezes usado como julgamento para dizer que alguém era manipuladora ou vaidosa, mas só. Acho que o termo de hoje mais próximo seria o biscoiteira. Achei que a personagem seria fútil do início ao fim, mas em certo momento a atuação da Mary Pickford entregou profundidade. Considerando que o filme é um dos primeiros migrando do cinema mudo para o falado, foi um baita desafio para a carreira, acho que ela se saiu muito bem. Não ficou teatral e dramático em excesso como alguns da época, mesmo sendo uma adaptação de uma peça da Broadway para o cinema. Vi a menção ao Assistant Dramatic Director Earle Browne nos créditos do início, nunca tinha visto nos outros filmes antigos que estou assistindo, pesquisei e foi um termo criado para nomear quem ajudasse a adaptar o filme para o cinema falado, o técnico e o artístico, esse cargo era pra quem fazia a transição, garantindo que nada se perdesse nas atuações e nos sons. Equilibrando a dramatização em todos os aspectos do filme, sem exageros e sem a falta dele. A direção de fotografia é mais estática do que a maioria dos filmes anteriores de cinema mudo, acredito que pela da falta de locomoção da câmera mesmo, por conta de ruídos ou peso. Não é ruim para o filme, até combina, dá uma sensação de sufocamento dentro da casa e da vida da protagonista, que é um caos emocional. Uma casa cheia de hipocrisias, assim como a sociedade dos anos 20. As mulheres criaram coragem de cortar o cabelo (as flappers) ali em 1918, 1929 está bem pertinho, então a sociedade ainda via isso com cara feia, muito corajoso a Mary cortar o cabelo longo e se arriscar em um papel totalmente diferente dos fofinhos que fazia. Vi que ser Coquette não era necessariamente mal visto, claro, no meio dos ricos, assim como hoje em dia, vai um pobre fazer o que quer, é julgado em tudo. Mas a riquinha da época que decidisse ficar com todo mundo, encher a cara, etc, não se dava mal, desde que ninguém descobrisse, já a pobre, era jogada na sarjeta, perdia a vida social (que nem tinha) e nunca mais arrumava ninguém. Me pergunto se tudo isso tivesse acontecido entre a Norma e o Stanley, se o pai dela faria algo. Provavelmente não. Analisando a personagem Norma, é uma pessoa muito mentirosa e manipuladora, brinca com os sentimentos de todo mundo pra manter o próprio ego em dia. Um século depois e muita gente ainda faz o mesmo. Acho que nem ela achou que algo que era pra ser só curtição resultaria nela viúva e órfã, virando mãe do irmão. O filme tem dois pontos fortes de atuação pra mim, quando ela perde o Michael e quando ela mente no tribunal. Quando ela perde ele e se sente desolada e diz "I don't care" sobre o pai, dá pra sentir os primeiros indícios de que havia sentimento real ali. Quando ela mente a gente vê que o medo da repressão social e tentativa de agradar o pai era maior que qualquer ponta de caráter. Fiquei sem acreditar que ela teve coragem de acusar um cara tão bom de abuso sexual. Pesado! Imagino a revolta do povo de 1929 assistindo isso, basicamente todo mundo ali assistindo se importava horrores com a própria honra, honra essa que definia quem você era, onde trabalhava, quem andava com você, em quais lugares era bem-vindo, etc. O espectador sabia que a maior dor da época era ter a honra manchada, acabava com a família. Tudo em prol de manter as aparências de uma vida tradicional e hipócrita do lar conservador (que de conservador não tinha nada). Não sei como ela conseguiu, porque nem o pai, que era super egoísta e preconceituoso, conseguiu ver ela inventando tamanha falta de respeito contra o Michael, caiu em si e percebeu o mini monstro que criou (cópia dele). O pai é tão culpado quanto, um cara que prefere tirar a própria vida do que ser preso e encarar as consequências de seus atos. Ninguém saiu ganhando. O Michael era a única pessoa que tinha integridade, o resto, cada um tinha seus traços tóxicos. Para o pai, a reputação da família e a virgindade da Norma eram mais importante que tudo, inclusive, vidas. Mas me pergunto, se ela tivesse feito tudo isso com o Stanley, que era rico, ele faria vista grossa e seria o primeiro na fila do cartório de manhã querendo casar os dois. Hipócrita! Quando a Norma mente sobre o abuso, acho que ele entende que a honra que ele tanto queria salvar matando o Michael não existia, ela era mentirosa e desonesta, assassinou um cara legal e inocente em troca de nada com nada, de controle moral. A filha era um troféu, uma bonequinha que ele idealizava como pura, mesmo vendo ela dando condição e recebendo flores de vários caras. Tanto o pai, como a filha, destruíram tudo que diziam amar. Fora que usava dois pesos e duas medidas entre os filhos, quando o filho homem fala que estava "fooling around" até 4 da manhã, e ele achou que era acompanhado de mulher, ele se mostrou super orgulhoso do filho e a raiva evaporou em segundos. Homem galinha? "Esse é meu garoto". Mulher apaixonada por alguém que ele não quer? Crime. Moral seletiva: qualquer semelhança com os dias de hoje é pura coincidência. Dinâmica familiar totalmente disfuncional. A Norma busca por validação externa de todos com quem flerta pra tentar fugir do ambiente sufocante que o pai cria. Mentira patológica, a solução que ela encontra pra tudo é mentir, isso, até a cena final. Como o pai é super repressor, ela entende que precisa criar um mundo fake onde agrade todo mundo, principalmente ele. Ainda mais naquela época, onde a narrativa dos pais é a que valia na vida de alguém. Na verdade ela usa as mesmas ferramentas de manipulação que aprendeu com o pai. É importante na cena final o filme mostrar a Norma recusando o casamento com o Stanley, pois mostra que após todas as mortes, houve um colapso total na persona que ela criou, os flertes, namoros e casamentos não eram mais importantes, ficou só o vazio da solidão e da melancolia das perdas. As prioridades mudaram. O amor, mal administrado, acabou envenenando as pessoas e a saúde mental de todos os envolvidos. As atuações dos pretendentes, dos atores John Mack Brown e Matt Moore são bem medianas, ficam ali quase como figurantes, a Mary se sobressai em todas as cenas. Atuações mecânicas demais, muito teatrais, no mal sentido. Já ela, mesmo vindo do cinema mudo que é muito teatral e expressivo com o corpo, soube equilibrar, principalmente do meio para o final. Sobre o Oscar que ela ganhou. Se não fosse uma pessoa poderosa, influente e dona do estúdio United Artists, ela teria ganhado? Fica aí o questionamento, pelas atuações que vi da época em filmes de 1928 e 1929, não achei que a dela nesse filme merecia um Oscar. Isso, considerando o meu pensamento atual. Talvez em 1929 as pessoas acharam o filme incrível e viam ela como pobrezinha que sofre na trama e o pai como homem que se matou pela honra. Um destaque pra mim é a atuação do John St. Polis, muito polida, só abria a boca pra me irritar, e isso é bom. O filme não é tão ruim, considerando a época. Mas levar Oscar?
Manipulação emocional em seu mais alto nível! [Spoilers] Como essa mulher teve coragem de arrumar as malas e fazer todo aquele drama, sabendo que estava mentindo em cada palavra? Medo de gente assim. Ela ignorou qualquer traço de humanidade que restava, tudo isso pra proteger o próprio ego das consequências das escolhas que tomou. Fora, claro, o crime do abuso da relação de confiança e autoridade, vindo da responsável legal. Abuso de vulnerabilidade emocional e familiar, assédio sexual hierárquico. Um marido machista que foi baixando a guarda no decorrer da trama para se adaptar às necessidades dela e do filho. Muito omisso e frio, que não entregava um pingo de afeto, mas mesmo com todos os defeitos, consegue a empatia do espectador, por estar sendo duplamente traído. Magnus Krepper não entrega a melhor atuação quando comparado com a Trine Dyrholm que engole todo mundo nas sequências. Você sabe que a atuação foi boa quando sente repulsa e vontade de esganar o personagem. Gustav Lindh entrega o que o roteiro pede, personagem muito frágil que vive cometendo uma série de idiotices para chamar a atenção porque no fundo se sente incompreendido e consumido pela depressão (pais divorciados e ausentes, drogas, não se situa em lugar nenhum). Quando você é esse tipo de pessoa problemática, mesmo quando você fala a verdade, infelizmente ninguém acredita. Uma coisa que me pega é isso dos casarões dos ricos, essas pessoas têm uma casa enorme, mas sempre vazia, monótona, sem vida, é um loop de: trabalho em troca de uma grana que não compra nada que os faça felizes, cigarro, bebidas (whisky e espumantes), falta de diálogo, festas artificiais para receber amigos artificiais, e no outro dia a mesma coisa. A paleta de cores e a ambientação é muito boa, essa frieza estética combina com a sensação de terror e impunidade que o filme deixa na gente (de propósito). Vi a sugestão na tela inicial da minha tv entre os filmes mais vendidos da semana, fui assistir com zero expectativa, até porque não conhecia a diretora dinamarquesa May el-Toukhy, foi uma surpresa boa.
Closer: Perto Demais
3.9 3,3K Assista AgoraUm filme sobre autossabotagem! Essas pessoas simplesmente são inimigas da estabilidade dentro dos relacionamentos. [Spoilers] Sempre que a coisa tá começando a dar certo, eles começam a cavar a cova do relacionamento até ele morrer. Confessar algo de forma tranquila ou como ato de arrependimento, ok, mas aqui, os personagens fazem isso de forma forçada, é o que falei da autossabotagem, pra quê querer detalhes de algo que vai ferir tão fortemente? Péssimo. Esse tipo de controle é punitivo. A Alice apesar de tudo, é a mais estável ali. Sinto que ela tem muitos problemas psicológicos, feridas do passado, mas mesmo assim tenta se manter forte no meio de tudo o que acontece na dinâmica dos relacionamentos conturbados entre os quatro. Narcisismo, controle, frieza, infidelidade, mentiras, acabam virando coisas comuns na rotina deles. Coisas que eu considero pesadíssimas e que não deveriam passar nem perto das pessoas. Todo mundo se diminuindo e se desdobrando em partes pra caber no mundo do outro, e quando consegue, começa a construir alguma intimidade, simplesmente destrói a relação e sai fora com qualquer desculpa que encontra. A Alice usa nome falso desde o início, mas parando pra pensar em tudo que a personagem já passou, acaba sendo aceitável, pois foi pra se proteger. E sair do jeito que ela saiu, sem inventar desculpas quaisquer, mandando a real na cara do outro, requer muita coragem. É a minha atuação favorita no filme, há uma entrega genuína por parte da Natalie em todas as cenas, são marcantes. Gosto de como estão montadas de forma desordenada passando pra gente essa sensação de bagunça que é reflexo do que o enredo conta. Tá tudo sempre bagunçado, a Alice sempre com visuais e cabelos diferentes, em busca de uma identidade nova, tentando se encaixar em algo que faça sentido. Com certeza a maior cena é a do Clube, ela como stripper, que é uma profissão de vulnerabilidade, onde a mulher está à mercê de tantos perigos mesmo com câmeras, reagindo com estabilidade emocional a todas as tentativas do Larry de desestabilizar ela. E isso que ele faz infelizmente é muito comum, quando a gente se decepciona muito com algo tende a descontar nossas frustrações no outro, parece mais fácil do que culpabilizar a si mesmo. Todos eles parecem ter medo de relações e laços genuínos, encontram fugas em chat online, em casos passageiros, beijar estranhos sem conexão. A Anna usa o estúdio fotográfico como QG da solidão. A relação dela com todos é sempre tão confusa. Ela parece querer algo, mas ter marcas que a fere demais pra conseguir abrir espaço para que o novo a preencha. Esse triângulo amoroso entre ela, o Larry e o Dan só serve pra confundi-la ainda mais, e a dependência emocional acaba fazendo com que eles se prendam um ao outro sem amor algum. Todos nós queremos alguém, ninguém quer a solidão da falta de afeto, mas ter alguém e viver numa solidão maior do que a de solteiro, não é pior? Se sentir sozinho pelo fruto do vazio entre duas pessoas é ainda mais doloroso. Achei tão patético quando os homens ficam competindo por território e explanando a parte sexual um para o outro. É só pra ferir o ego do outro, é violência psicológica gratuita. Fiquei muito revoltada quando o Dan bate na Alice. Dá pra sentir o quanto ela suportou toda a situação entre os casais para que no final tudo desse "certo" pra todos, até que ela se dá conta de que não é aquilo que ela quer pra ela. É possível deixar de amar alguém tão rápido? Acredito que sim. O amor tem que ser leve e não inclui suportar comportamentos abusivos e narcisistas, tais como desentendimentos diários, agradar o ego do outro o tempo todo, estar sob controle emocional, submissão forçada, e o mais grave: violência doméstica. Aquele tapa foi tão egoísta, era 100% sobre a masculinidade frágil dele de não ter aguentado saber os detalhes da relação sexual dela com o Dan, detalhes que ele fez questão de implorar por. Ele faz de tudo pra que ela conte e em seguida a pune, é de uma covardia! O Dan mesmo é um dos personagens completamente sem ética moral pra querer vir exigir isso dos outros, se interessou pela Alice quando ele namorava, depois tendo algo com ela se interessou pela Anna, depois aparentemente ficou interessado no Larry (que só chegou na vida delas porque foi enganado por ele), depois ficava nesse vai e vem brigando pela Anna, que quis o Larry e como sobra e impulsionado pelo mesmo, foi atrás da Alice. Ninguém tá certo, só há egoísmo por parte de quase todos. Tudo gira em torno das vontades e desejos, nada em torno do sentido emocional verdadeiro de amar. A Alice percebe que tá sendo usada pelos dois, disputada como um troféu qualquer, coisa inclusive muito comum entre a sociedade atual ( infelizmente, 20 anos depois e o mundo é o mesmo), ela impõe limites e as pessoas não querem respeitar. No estúdio da Anna ela pede pra ser respeitada, na boate, no quarto com o Dan no final, após momentos dolorosos a personagem aprendeu a criar esses limites e a decidir sair de verdade da vida de quem não os respeitasse. Por isso, inclusive, que no final a Jane (abandonou a identidade de Alice) caminha sorrindo, ela não está triste, ela está de branco, arrumada, alegre. A pessoa que aprende a delimitar a linha que não pode ser ultrapassada nas relações afetivas (todas na vida) é uma pessoa com uma inteligência emocional absurda. Não há arrependimentos, quem estabelece limites está fazendo o maior bem que pode fazer a si mesmo na vida. Limites desrespeitados geram dano emocional, autossabotagem, depressão, ansiedade. Sair da vida de quem fere a gente é provavelmente a decisão mais dolorosa e mais prazerosa do mundo. A Liberdade é nosso bem mais precioso. Atuações impecáveis de Jude Law, Natalie Portman, Julia Roberts e Clive Owen. As roupas dessa época são tão retrôs, eu gosto muito, é nostálgico, principalmente os relógios e sobretudos. Tem uma frase no filme que me marcou muito: "Onde está esse amor? Eu não consigo ver, não consigo tocar, não consigo sentir." O filósofo Bauman fala muito sobre a liquidez das relações da sociedade atual, e faz muito sentido, ele diz: "O amor não é cego, simplesmente aprendeu a fechar os olhos quando necessário", o ruim é que quem definiu essa necessidade é o próprio indivíduo que diz amar, de acordo com a conveniência, quando o preço de entrega emocional sai alto demais, as pessoas jogam as outras fora (ou ficam na abusividade) como se fossem nada. O amor não é tangível, mas precisa ser percebido. O sentimento amor pode até ser algo intangível, mas o que o outro faz por nós precisa ser completamente perceptível, memorável, estável, tão leve quanto uma pena pousando lentamente diante dos nossos olhos. Essas ações do dia a dia, gestos pequenos como um café, um abraço, palavras de ânimo, vulnerabilidade, intimidade, toque (além do sexo); são coisas acessíveis, necessárias, porque elas definem a presença do outro, quem o outro está sendo na nossa vida. Aos poucos vai criando um ambiente seguro onde quem é amado abaixa a guarda e a proteção após se sentir refugiado dos traumas passados. Quando isso não acontece, o parceiro serve apenas como gatilho, causando mais sofrimento e aumentando esse trauma. O oposto de uma relação líquida é a sólida. Onde você e o parceiro criaram uma base, uma planta firme para que algo seja construído em cima e não caia com o sopro de ventos ou tempestades, coisa que ninguém quis fazer pela relação ali. Apesar de sair de tudo aquilo, o filme não tem final feliz, os créditos passam enquanto o espectador digere essa coisa ruim que as relações disfuncionais deixam.
O Afinador
3.5 40 Assista AgoraQue filme maravilhoso! Cheio de detalhes técnicos que fizeram toda a diferença no resultado. Eu amei demais a forma como o Daniel Roher usou coisas do dia a dia que passam despercebidas para quem tem uma audição normal para demonstrar o impacto na vida de quem tem Hiperacusia. [Spoilers] A direção de fotografia é linda, câmeras desfocando o fundo e a profundidade, mantendo apenas um objeto em destaque, os barulhos isolados uns dos outros, ruídos apavorantes, agudos ensurdecedores. Fiz algumas anotações de detalhes que me marcaram e um deles definitivamente foi o contraste do macacão azul com o nome Harry H. Piano estampado naquela vibe de macacão de operário dos anos 50, contrastando fortemente com as cores usadas nas casas. Brancos, móveis amadeirados, vermelhos, laranjas, amarelos, todos na mesma paleta do aconchegante, do clássico, da riqueza dos teatros, das óperas, dos concertos. Essa briga entre essas duas cores que se contrastam no círculo cromático mostram o deslocamento do Niki ali. Um rapaz pobre, lutando para ajudar o Harry e a família, imerso em um mundo de milionários. Em um filme tão detalhista, algo assim não é colocado à toa. Ver a foto do Dustin Hoffman mais novo tocando piano é muito nostálgico já que ele é um ótimo pianista na vida real há muitos anos. O detalhe da tatuagem do peixe aparecer tantas vezes retratando essa visão de reparar só em uma coisa e esquecer o resto, o bonequinho sempre em primeiro plano. Os pianos da Yamaha estão lindíssimos, são um show à parte. O Niki possui algumas características similares ao TEA, percebi que em interações emocionais iniciais ele se sentia completamente perdido, como no abraço que a Ruthie deu, e ele não teve reação de reciprocidade alguma e também não sabia o que falar em situações comuns de interações básicas de relacionamentos que requerem mais afeto. Uma coisa interessante é observar a resposta emocional dele ao Harry e comparar com a resposta a outras pessoas. Por conhecer muito o Harry, o Niki sente-se em uma zona de confiança e segurança pra demonstrar afeto roubando pra ajudá-lo. No início as cenas inserem essa demonstração em coisas menos corporais como comer juntos, ouvir o que o Harry tem pra falar. Mas no geral o Niki é sempre mais calado, mais introspectivo, menos afetivo (até sentir segurança ou que o outro demonstre algo antes), sem intensidade de demonstração emocional, quando inclusive o relacionamento acaba, mesmo indo ao local de trabalho da Ruthie não há um pedido afetivo pra voltarem a se relacionar, etc. A sensibilidade auditiva, dificuldade ou demora em interpretar algumas emoções faciais e o hiper-foco não são características exclusivas do TEA, mas são as principais. É indiferente o personagem ter ou não. O importante é que esse tipo de filme ajuda o espectador a entender melhor como funciona o universo de quem tem, tenho um sobrinho que tem e é exatamente como no filme. A cena dele acertando tudo por ter ouvido absoluto é muito legal (decorando a senha também), eu admiro muito quem consegue identificar todas as notas e reproduzir músicas sem uma partitura. Eu amo música, então esse tipo de filme é o que eu gosto. Na trilha sonora muito Jazz de qualidade, tem Nina Simone, Herbie Hancock, Charles Mingus, conheço há muitos anos esse tipo de música. O ponto alto musical é definitivamente o Niki tocando e fiquei muito surpresa ao descobrir que o ator Leo Woodall não tocava antes do filme e aprendeu somente os trejeitos mais impactantes pra fazer a cena. Convenceu demais, a cena ficou absurdamente linda, tocante. Já não posso dizer o mesmo da Havana Rose Liu. A atuação não foi muito convincente, mas principalmente, como casal não senti química alguma entre ela e o Leo. A entrega da atriz foi muito fraca dentro do que o filme merecia. Poxa, se você está contracenando com Dustin Hoffman, você precisa se destacar pra não ser engolida. A atriz foi engolida em cena pelos outros atores, após o filme, a gente só lembra cenas que marcaram envolvendo o Niki e o Harry, não senti empolgação pelo relacionamento deles, pelo sonho dela de fluir na carreira, nada impactou, além da cena em que ela toca enquanto o Niki sofre muito com os bandidos. Mas ali o impacto é porque o Niki está se dando mal, e não pela apresentação dela em si. De qualquer forma, a montagem situação versus música clássica fica muito boa. Em O Lagosta eu gosto muito das cenas em que as pessoas correm desesperadas pela paisagem verde enquanto toca a música lentamente. É um contraste muito bom. A questão do relógio não me convenceu tanto, coincidência demais de roteiro o relógio ser logo da pessoa que ela encontraria depois da apresentação. O espectador é mais inteligente que isso, é injusto com a gente essas coincidências meio boas demais para serem verdades. Sobre a atuação do Leo Woodall, eu achei brilhante! É de uma entrega! O ator conseguiu o tempo todo me passar essa inocência no olhar, na feição. E quando ela perguntou do relógio, se era roubado, eu tinha certeza que ele não insistiria na mentira, pois o roteiro e a atuação prepararam a gente pra comprar essa bondade e doçura dele, e o enredo vendeu isso muito bem do início ao fim. A ingenuidade que o ator entregou. Não digo que foi no mesmo nível de Whiplash, que é um filme absolutamente incrível e a química entre o Miles Teller e o J.K. Simmons é impecável, mas é bom sim a ponto de ser marcante. Quem sabe se o Leo tivesse tido com a Havana a mesma química que teve com o Dustin o resultado teria sido tão bom quanto. O roteiro apesar de ser muito bom, também perde para o de Whiplash. Aquele bandido que gosta de cachorrinhos quase ganha a nossa empatia, mas ao matar o tio do parceiro dono das criptos o filme nos lembra de que são pessoas más sim. Acredito que quem mandou o relógio foi ele. Os ladrões entregaram o básico do básico, irrelevantes. Na verdade ele também roubou, e muito, mas na vibe Robin Hood. Um momento que achei triste foi quando o bandido usou a bondade do Niki contra ele, é de um golpe tão baixo. Ainda estou apaixonada pela direção de fotografia, esses takes de menos de 1 segundo como os da cafeteria com o isolamento dos sons ficou perfeito! A cena acelerada do teste ficou boa, mas não casou tanto com a proposta do resto inteiro do filme, talvez tenha sido pra retratar melhor que ele conseguiria concluir antes do tempo. No geral, o filme cativa bastante e traz um olhar mais cuidadoso para o tema abordado, o da sensibilidade auditiva e visual. Lindo!
A Morte do Demônio: Em Chamas
3.2 281 Assista AgoraA régua estava alta, pois gostei muito do anterior. Achei o filme bom, mas não é melhor que o de 2023. [Spoilers] Logo no início temos cenas ótimas e a atuação marcante da Greta van der Brink como Jessica. O olhar, a expressão, o andar, muita entrega. Houve também entrega por parte da Tandi Wright e do Erroll Shand que protagonizaram takes absolutamente nojentos de beijos gosmentos e sangrentos. Me lembrou aquela cena de Saltburn onde o Oli fica com a Venetia enquanto ela está no período. Não senti o Hunter Doohan no mesmo nível de atuação dos demais, a Alice e o Will não me convenceram como casal, faltou química. Gostei muito da atuação da Maude Davey como Polly Price, pois era o mais desafiador, como o espectador ia ver toda a fragilidade dela como idosa, fraca, precisando de ajuda pra tudo, sem memória. Haveria esse contraste dela possessa forte, lembrando de tudo, usando as fraquezas das pessoas contra elas. Gosto dessa dualidade, pois a gente sempre vê idosos como o elo mais fraco nesse tipo de situação onde é necessário correr pra se salvar, aqui não, as pessoas que fogem dela com medo. A equipe responsável pela maquiagem fez um trabalho incrível, porém gostaria de ter visto mais maquiagens e menos CGI. O CGI em excesso tirou um pouco da empolgação para quem consegue identificar, acaba ficando menos assustador do que poderia ter sido. Em muitos momentos no final eu senti essa falta. Gostei muito das referências no filme, uma coisa que me fez lembrar muito o primeiro é essa câmera mais intimista no chão de pertinho, do Sam Raimi nos anos 80, como se o espectador também estivesse ali se escondendo. No primeiro filme da franquia tinha muito esse tipo de ângulo. O meu favorito continua sendo o de 2013. Não fui tão impactada pelas últimas cenas do Will. O filme precisava de algo à altura das cenas da Jessica no lago e na estrada. Gostei também da referência do bicho correndo no meio do mato para chegar até a casa, é bem nostálgica. As cenas de meio corpo se arrastando me lembraram o primeiro episódio de The Walking Dead, a da corrida do Erroll em cima da mesa muito parecida com a de Bugonia. No geral, a direção de fotografia e edição foram muito bem, senti uma vibe de Invocação do mal em algumas cenas, na casa e na colorimetria. Se fosse um filme sozinho, minha nota seria maior, mas a franquia é enorme e tem muito filme bom pra competir com esse. As cenas pós créditos são ótimas, quero ver o próximo já, só me pergunto como a a Ellie estava ali se ela foi completamente triturada, mas lógica em Evil Dead pra quê, né? É engraçado. Sinto que comparando com Scream, Evil Dead se destaca muito, pois há uma evolução, mesmo após muitos filmes, a direção sempre tenta manter um certo nível de qualidade na produção. Não sinto isso nos últimos de Scream, e olha que gosto bastante. Sobre o roteiro, poderia ter mais profundidade, os personagens não são marcantes no nível dos outros filmes. Não entendi o motivo de terem citado violência doméstica e abusividade, se depois o assunto só surgiria de novo de forma superficial. Não dá tempo de cativar o espectador, aí vira uma salada de temas tratados de forma rasa, sem desenvolvimento. Além disso, o final é bem apressado, não combina com o ritmo que o filme estava tendo até então. Aguardo cenas do próximo explicando isso da Ellie ter voltado, se foi por portal de espelhos ou não. Se algum pedaço do corpo não foi triturado... só nos resta esperar!
A Caça
4.2 2,1K Assista AgoraFalsos boatos acabam com a reputação das pessoas e mancham a vida delas pra sempre. [Spoilers] Atuação impecável do Mads Mikkelsen, que entregou uma vulnerabilidade e sensibilidade em cena. O personagem conseguiu imprimir esse pavor e medo de ser julgado no espectador, ao mesmo tempo em que a direção e enredo do Vinterberg nos colocam no papel do julgador muitas vezes. Mesmo sabendo da injustiça que estava sendo feita, nos perguntamos várias vezes se ele era inocente mesmo e procuramos outros culpados durante o filme. Essa necessidade de apontar alguém para o abate é o que faz pessoas inocentes sofrerem linchamento público em situações que ainda estão em processo na Justiça. A comunidade se junta e cria um júri coletivo na rua e decreta o que vai ser da vida (ou morte) da pessoa. É necessário ter muita cautela em situações como essa, nosso raciocínio moral lógico versus o emocional entra em atrito constante. Temas delicados geram revolta imediata na população quando divulgados pela mídia. Essa sensação de impunidade e proteção do Estado reverbera nos cidadãos que agem com independência. Esse filme me lembra muito o episódio White Bear de Black Mirror, porque o esquema de punição é o mesmo. Ainda nem havia investigação adequada e a comunidade já estava punindo o Lucas e a família dele, agredindo, matando o cachorro, espalhando o boato como dado verdadeiro (e nem era). Em Black Mirror o processo é outro, mas a semelhança é em como as pessoas assistem a tudo, sem interferir em nada (no sentido de parar a punição coletiva), essa coisa de fazer justiça com as próprias mãos acaba transformando as pessoas em seres tão cruéis quanto quem tá sendo acusado justamente ou injustamente (falando com imparcialidade sobre o filme, pois minha opinião é super radical com relação a pessoas que encostam em crianças, eu não tenho pena). É compreensível certo comportamento da população em lugares onde a justiça é lenta e a sensação é de impunidade eterna, ainda mais em países onde o Estado tem toda uma estrutura que protege abusadores, pedófilos, traficantes de pessoas, entre outros criminosos. Em BM a Victória é culpada, mas sem memória e sem saber o que fez, ela é torturada diariamente pela população como se punir os outros fosse um espetáculo divertido, quando na verdade transforma quem pune em uma espécie de pessoa tão cruel quanto (no sentido de cometer crimes, obviamente o nível do crime dela é muito pior). As pessoas vão condenar aquela pessoa pra sempre, seja ela culpada como a personagem de BM ou inocente como o Lucas em The Hunt. O final escancara isso, a sensação de segurança pra quem conseguiu provar a própria inocência continua nula. Onde a pessoa estiver, vai receber olhares estranhos, vai sentir a rejeição no ar, não vai ter a família incluída em quase nada e sempre vai ter alguém perseguindo online ou presencialmente. No caso de quem cometeu algum crime não tão grave, essa sensação de opressão ainda vai criar uma barreira impedindo a pessoa de se ressocializar e se reabilitar. Um bom exemplo disso está no filme Steve, alguns jovens nem querem mais mudar porque a sociedade já definiu que eles são delinquentes e sem solução, então alguns abraçam esse destino definido pela sociedade. A pessoa simplesmente aceita de vez aquela identidade que todo mundo impôs pra ela por falta de forças pra lutar contra (não é o caso do Lucas, porque ele realmente é inocente, mas é importante abordar esse outro lado, que acaba sendo uma consequência a longo prazo). Até o último segundo que pôde o Lucas se esforçou contra esse rótulo que foi imposto a ele, mas na última cena fica nítido que tudo o que ele fez durante o enredo inteiro não valeu de nada e que esse título injusto não vai sair da vida dele nunca. Sobre o roteiro, é brilhante! Mas sinto que as cenas de nudez total se fossem retiradas não fariam a menor diferença na trama, não agregam em nada. O roteiro acerta muito em mostrar diferentes perspectivas de julgadores. As pessoas eram extremamente unidas e depois em poucas horas já crucificaram o Lucas sem nem ter certeza de nada. Outra coisa que o roteiro destrincha muito bem, o fato de que crianças mentem. Há uma tendência natural de acharmos que crianças não mentem sobre temas sérios, mas a verdade é que a criança tem um nível de agreeableness altíssimo. Logo, diante de qualquer frase terminada em "foi isso que aconteceu?", a maioria das crianças vai responder que sim sem nem analisar o que foi, pois crianças não têm maturidade de pensamento formada, não fazem ideia das consequências das mentiras que contam na vida do outro. O interrogatório foi feito de forma inadequada, o correto seria deixar a criança falar, ao invés de colocar palavras na boca da criança. Sobre a falsa acusação, a criança deve ter tido algum background ligado a esse tema pesado, pois dificilmente coisas graves sairiam da boca de uma criança sem que ela tenha visto ou ouvido algo semelhante, por isso todo cuidado é pouco quando os envolvidos são da idade delas. Trabalhar com crianças por si só já é um desafio, crianças tem um imaginário enorme e fértil, mas muitas são puras e não mentem. O importante é analisar a situação com cautela e abrir uma investigação. Lembrando que como eu citei, alguns lugares não colaboram, o que acaba "justificando" a iniciativa popular de querer ver algo sendo feito para parar aquilo. No Brasil, por exemplo, fazer justiça com as próprias mãos é crime previsto em lei. O artigo 345 chamado de "Exercício arbitrário das próprias razões" e a sentença está relacionada ao crime cometido (homicídio, por exemplo), então na ânsia de ser um juiz protetor, a comunidade acaba cometendo crimes também. E com isso, qual a diferença entre ela e o criminoso? Que realmente cometeu o crime ou não. Francis Bacon tem uma frase que se encaixa perfeitamente aqui, "A vingança é uma forma de justiça selvagem. Quanto mais a natureza humana corre em direção a ela, mais a lei deve eliminá-la". Nietzsche também disse que quando a gente luta com monstros devemos ter cautela pra não virarmos um, porque se olharmos muito para um abismo, ele vai olhar de volta pra gente. Essa obsessão por justiça vai consumindo e acabando com a pessoa, pessoas "de bem" matam cachorros, agridem pessoas e maltratam inocentes e suas famílias? Fica o questionamento. O filme passa essa vibe de opressão com as cores da edição e a paleta de roupas, ambientação e objetos é toda pálida do início ao fim das acusações contrastando com a alegria inicial na floresta e no lago. Os lugares são fechados e claustrofóbicos em certos momentos aumentando essa agonia em quem está assistindo. Lugares em que a gente conhece como seguros: igreja, mercado, casa própria, a escolinha, acabam se tornando extremamente opressivos conforme tudo acontece. Ótima direção de fotografia da Charlotte Bruss. As cenas filmadas bem de perto são um acerto enorme. O final do filme é bem frio, um soco no estômago, não tem alegria e nem vingança como na maioria dos filmes, deixado assim pra provocar a gente, propositadamente. Mesmo com todo o esforço do protagonista pra fazer tudo certinho, a mentira, assim como na vida real, não tem freio. Um papel comprovando inocência não é o bastante pra limpar totalmente uma má reputação. Os créditos passam deixando esse desconforto, não há final feliz.
A Odisseia
4.2 583É um filme espetacular, mas deveria ser uma série, afinal são 24 cantos. [Spoilers] Os diálogos simplificados em excesso tiraram um pouco do brilhantismo do enredo. Entendo que foi proposital para atingir o público e vender mais bilheteria, mas prejudica a obra num geral. O filme não representou Odisseu no nível que o personagem merecia. Esse é o tipo de obra que quando adaptada, quem deseja produzir adequa-se à magnificência da arte, não o contrário, que é reduzi-la pra caber num roteiro apressado. Na adaptação, a obra perdeu parte da beleza do encanto e da poesia que ultrapassou tantas gerações, nesses 2800 anos. Esse é definitivamente o papel da carreira do Matt Damon, o ator se entregou tanto, e deu pra sentir, amo papéis em que o personagem está em várias fases, pois dá pra explorar todos os níveis de expressões do ator. É inegável que o Matt deu tudo de si e brilhou em cada momento que teve. Robert Pattinson se saiu muito bem, combinou muito com o Antinous, divertido, traíra, um caos. Mas confesso que eu esperava muito mais, por conta do marketing que fizeram por aí. O Elliot Page brilhou demais como Sinon, eu achei muito especial ele receber um papel de destaque representando a diversidade da comunidade dele. Senti uma crescente do Tom Holland, de cara não convenceu muito, atuação bem morna no primeiro ato, mas depois quando Telêmaco saiu em busca do pai foi melhorando e conseguiu se recuperar a tempo de entregar uma ótima performance nos momentos finais quando eles se reencontram. O papel da Anne como Penélope, foi um dos únicos que senti que teve respiro e tempo suficiente de tela, entregou tudo que a personagem pedia e ainda teve uma química enorme com Matt Damon em cena. A Zendaya me lembrou muito o papel dela em Duna como Chani, não sei se é porque as roupas e cenários quando editados nesse tipo de coloração me lembram a mesma ambientação, mas me remeteu muito à personagem dela de lá. Adoro ela e sei que é uma ótima atriz, pois já a vi em papéis que exigiam mais entrega, mas aqui senti mais do mesmo, até o jeito de olhar e se expressar ficou igualzinho, de qualquer forma, o visual da Atena ficou ótimo. Um dos meus momentos favoritos do filme com certeza foi o da feiticeira Circe transformando as pessoas em animais, não tem jeito, a Samantha Morton definitivamente merece todo o holofote que vem recebendo depois do lançamento. A atuação dela engoliu a dos outros atores em cena. Acho que foi uma das únicas que realmente trouxe o tom que a obra original pedia, teve pouco tempo de tela e aproveitou cada segundo. Também gostei bastante da cena do ciclope, e fica muito evidente o detalhismo e cuidado do Nolan, preferindo usar uma marionete para que as cenas ficassem super realistas, deu certo e ficou impactante. Uma cena que realmente me chateou por ter sido curta foi a das sereias, eu tinha muita expectativa com essa parte, eu esperava que o filme tivesse se aprofundado nos mitos envolvendo elas, pois são super aclamados pelo público, teria ficado incrível. Mas não, a cena foi apresentada de longe e super apressada, não deu tempo pra nada, não houve conexão do espectador com o momento. O pouco que vi nos filmes cenas de sereias eu gostei tanto, lembro que se destacaram a de Lighthouse e as de Piratas do Caribe. Embora no livro seja totalmente diferente, é mais sobre atrair com conhecimento do que com a beleza, mas combinava muito com Odisseu por ser alguém que amava a sabedoria e o conhecimento, era o tipo de armadilha em que ele se enfiaria. É uma parte épica dos livros e merecia mais, eu acabei esperando que fosse uma cena maior porque a Circe até reforça com eles que elas eram perigosas e que quem ouvia o canto delas nunca mais voltava pra casa. Um dos momentos mais tensos que deveria vir logo em seguida foi super rápido, perdeu completamente a graça de acompanhar, o estreito de Cila e Caribdes nem teve destaque algum, nem deu pra ver o corpo direito. Apesar de toda a correria e alguns diálogos serem sem profundidade alguma, o filme ficou muito bom, as paisagens são lindas e imagino o trabalho que deu levar todo o elenco e materiais cenográficos e equipamentos de produção para todos esses lugares do mundo, o Nolan sempre sabe o que faz, os 800 milhões de bilheteria respondem por si só. As cenas do cavalo em Tróia são muito bem produzidas e passam aquela sensação de agonia do início ao fim. Fico feliz de ver tanta gente que nem conhecia a obra, buscando comprar e ler Homero. Ótima direção de ambientação, sonografia, edição, coloração e figurino. Uma obra-prima!
Som da Liberdade
3.8 510 Assista AgoraCompletamente dilacerador! Que história (real) triste! O enredo é alinhado com o objetivo do filme que é passar a mensagem crua e bruta, sem dó nem piedade de quem está assistindo. Fica aquele gosto amargo ao desligar a TV, e você nunca mais vai poder desconsiderar isso. Impossível querer seguir em frente sem levar em consideração que nesse momento em que escrevo isso uma pessoa está sendo traficada em algum lugar no mundo e outras estão em trabalho escravo ou prostituição forçada. Andei pesquisando e fiquei mais triste ao constatar que o número citado no final do filme aumentou, quando o filme foi lançado, o tráfico de pessoas movimentava 150 bilhões por ano, segundo o último relatório da OIT (2024), o número já havia saltado para 236 bilhões de dólares por ano. Isso explica completamente a questão de ser tão burocrático lutar contra esse tipo de crime. Tudo que traz tanto lucro, carrega dedos e mãos de integrantes de entidades que deveriam proteger as pessoas. Ninguém lucra tanto sem a ajuda de policiais corruptos, políticos, órgãos governamentais federais, estaduais e locais. Não é só sobre a menina que é levada voluntariamente por um pai inocente até uma agência de talentos e modelos, mas também sobre as que desaparecem na calçada de casa, levadas por pessoas muito bem remuneradas para esse tipo de "caçada". Esse lucro não subiu 37% à toa. Há mais e mais colaboração desses órgãos que são facilitadores do crime. Saber que os EUA são o país que mais consome esse tipo de exploração é ainda mais triste. Acha mesmo que um país grande como esse não teria condições de combater e exterminar esse tipo de crime, se quisesse? Policiais como o Tim são 1 em 1 milhão (e olhe lá). A corrupção está espalhada aos montes no Estado. Muitos desses órgãos também são consumidores da exploração dessas crianças e adultos. Todos já vimos reportagens nos noticiários sobre políticos que visitam ilhas com crianças exploradas. Vimos no Brasil (como em Marajó), vimos nos EUA (em casos como o do Epstein), algumas poucas pessoas foram presas e nada mais, o dinheiro do tráfico aumentando e esse povo do colarinho branco solto por aí comprando crianças como quem compra pão numa padaria. Tudo isso é muito triste, e pior, pouco noticiado. A mídia não dá a devida atenção que esse assunto merece. O relatório global sobre escravidão moderna estima que 50 milhões de pessoas estão em situação de escravidão e mais de 27 milhões fazendo trabalho forçado e sendo exploradas sexualmente. É um número enorme. Os dados mostram que 1 pessoa é vítima de tráfico humano a cada 30 segundos no mundo, 2 pessoas são traficadas na fronteira por minuto e 1 criança é vendida para exploradores a cada 2 minutos. São dados assustadores! É um negócio rápido e que acontece o tempo todo. No fim do dia sabe-se lá onde essas 720 crianças vão estar. Enquanto isso, a gente seguindo a vida preocupado com o que foi ou deixou de ser assunto no entretenimento hoje. Criador de conteúdo divulgando casas de apostas enquanto poderia dar visibilidade para causas como essa. É vergonhoso! Ser adulto não livra ninguém de nada, 42% a 46% das vítimas são mulheres (adultas), se somarmos às crianças do sexo feminino o número chega entre 60% e 65%. É muito lamentável! Você sai pra viajar para a Europa e ninguém nunca mais te vê. Mas você continua viva e dopada em algum lugar do mundo sofrendo abusos íntimos ininterruptos. Alguns filmes que eu lembro ter assistido recentemente que retratam o assunto são Taken (Busca Implacável) e Amber Alert (história real). Tem também Extraction, O Vazio de Lilith, Turistas e Sem Saída. Cada um do seu jeito e gênero expondo o assunto de forma nada sutil. Me incomoda que em alguns sempre apareça no final o herói americano salvando o mundo, ora, acabamos de ler nos créditos do filme que os EUA são os que mais exploram essas pessoas. A finalidade é levar pra lá. Soa meio hipócrita! (Não no caso real de Som da Liberdade, mas no geral). O norte-americano entra no cinema, assiste, sai com a consciência aliviada porque está com a filha bem e sã na cadeira ao lado, enquanto o pai latino ou europeu não dorme há anos porque teve a filha raptada e levada como objeto pelos criminosos patrocinados por eles. Soa injusto! Sinto falta de filmes mais realistas no tema, que terminem deixando aquela sensação horrível que incomoda todo mundo e tira o sono por dias (embora esse faça isso). Em Som da Liberdade ele busca a Rocio, mas na mesma ilha milhares de pessoas ainda continuam traficadas, é a dor da realidade. Não tem como encerrar o filme feliz com ela sendo salva, e a Maria, e a Bruna, e a Lucia, e todas as outras? Quem vai salvar? Ótima direção, ótimas atuações do Jim Caviezel e do Bill Camp, vale ressaltar que em alguns momentos o Jim exagerou, eu diria que no terceiro ato, às vezes menos é mais. Ótima edição, coloração, trilha sonora e ambientação!
A Revolução dos Bichos
2.1 18Genérico! Como pode alguém desrespeitar uma das melhores obras literárias já escritas? O livro Animal Farm do George Orwell foi escrito com o objetivo de trazer impacto, não é à toa que mudou a minha vida, eu claramente sou uma antes e outra depois de ter lido, aprendi a me posicionar e notei a importância de me manifestar, de observar, de opinar, de cobrar, de querer uma sociedade mais igualitária mesmo sabendo que praticamente não existe, uma vez que o ser humano é corrupto. Também aprendi meu lugar na sociedade enquanto cidadã pensante. [Spoilers] Um filme com piadinhas e momentos de descontração sem sentido algum, desfocando completamente da mensagem principal não representa a obra e o autor em NADA! Não há impacto em momento algum, e em poucos momentos sérios como o da despedida do Boxer não cativam a gente completamente como deveriam, pois o sacrifício deveria ser algo cruel e pesado representando a maldade do sistema. Há um vazio assistindo ao filme, um gosto de "cadê o básico?", não entregaram nem o mínimo. Não achei as dublagens boas (assisti em inglês). Faltou aquele soco no estômago que esse tipo de adaptação dá. O final sem nexo algum, o famoso "tudo deu certo e foram felizes pra sempre". Adivinha? George Orwell acertou e na sociedade atual ninguém está feliz. O final era pra ser brutal e cruel, não esperançoso. As pessoas trabalham dia e noite pra ter o prato principal na mesa, e algumas nem isso têm. As pessoas morrem em nome da revolução, em prol do que acreditam, lutando por uma sociedade melhor. Políticos perseguem civis à luz do dia. Não senti que cada personagem representou bem o seu papel a ponto de o espectador que não leu o livro entender a missão de cada um ali, quando o Snowball é traído pelos colegas, o filme não enfatizou como deveria, e era algo importante. A fazenda não passou a sensação de opressão e escravidão que deveria ter passado. O correto é sair de um filme desse questionando o sistema todo, reconhecendo quem dos personagens é a gente e trabalhando em cima da ideia de lutar por um mundo melhor. O livro faz nascer nos leitores pensamentos revolucionários. A animação não serve pra crianças, que não entenderiam nem 30%, e nem para adultos que aguardavam a adaptação, pois é vazia e sem respeito aos personagens originais. Nomes de peso fazem parte do elenco e mesmo assim é um desastre. Vi algumas entrevistas do diretor após assistir e é basicamente ele tentando justificar o fiasco. Ele diz que queria muito fazer, pois lia o livro quando era mais novo, e isso é o que mais me pega negativamente, como pode alguém que admira tanto o Orwell pisar tanto na obra dele? Fica aí o questionamento. Direção de cor não é boa, parece feliz demais ao invés de passar o tom opressivo, roteiro péssimo, produção também. Foi difícil acompanhar até o final. O totalitarismo no livro não é piada, pessoas morreram e morrem todos os dias vítimas desse tipo de regime. Transformaram a denúncia que a obra fez em diversão descartável e nada memorável. O filme parece ter sido feito pra ser um produto, que é o contrário do que exatamente deveria criticar. O George Orwell não tinha medo de escancarar as coisas de forma crua e direta, e essa é justamente sua essência e legado. Nota zero.
Obsessão
3.9 932 Assista AgoraEsse filme me lembrou "I don't wanna miss a thing" do Aerosmith. A dependência emocional foi tão bem representada! Que crítica incrível! Direção de fotografia e iluminação impecáveis! Edição maravilhosa, gostei da coloração amarelada contrastando com magenta. Ambientação e figurinos bem Indie, assim como a trilha sonora, que inclui até Current Joys que eu ouço há tantos anos. Tudo aqui flui e nada é por acaso, todos os pequenos detalhes fazem diferença no enredo. [Spoilers] O roteiro prova que até mesmo o amor, que é algo considerado bom e e basicamente a essência que move o mundo, em doses erradas aterroriza a alma de qualquer um. O filme traz temas fortíssimos como dificuldade em lidar com a rejeição, dependência emocional, narcisismo e desespero por validação. A verdade é que todo mundo quer ser amado, mas lidar com o amor é como jogar na loteria, você ganha tudo ou perde tudo, na maioria das vezes é a saúde mental. Quem precisa de objeto encantado dos desejos quando se tem dopamina? Lidar com o efeito dopamínico da paixão no cérebro é uma das coisas mais difíceis do mundo, não é à toa que comparam cientificamente com o efeito do uso de drogas. O ser humano deveria vir com um aviso de "Cuidado: amar causa dependência e danos colaterais". É importante reforçar que muita gente entra saudável em relacionamentos que terminam em um ponto de drenagem emocional que acaba com os dois envolvidos. O adoecido adoece o outro aos poucos. Narcisistas tratam as pessoas bem e de repente começam com a indiferença, a pessoa se vê em uma situação mental de vínculo traumático onde há a maior dificuldade de se afastar, a dependência emocional age como um imã adoecendo o apaixonado que já não consegue se ver em uma vida sem o outro e serve de suprimento para o narcisista que não consegue viver sem arrancar isso da vítima, sempre prometendo que vai mudar, mas nunca muda ou libera o outro, a não ser que seja na fase de descarte. O Baron não consegue lidar com a rejeição e deseja que ela o ame muito, mas ao receber todo esse amor percebe que ele não queria ser a pessoa mais amada do mundo, mas sim amava a ideia de ser a pessoa mais amada do mundo. Por várias vezes teve a oportunidade de liberar ela, no sentido contar para os amigos e pedir ajuda. Mas a validação de ter alguém disponível 24 horas por dia acabava falando mais forte (no início). O amor é uma ideia, não é algo real, como as pessoas administram os sentimentos diante da ideia de amar que é real. Na maioria das vezes as pessoas confundem paixão com amor. O amor é leve, é estável e recíproco. A idealização dele é pesada, amarga e trágica, porque carrega uma ligação não genuína, é apenas dopamina descarregada pelo cérebro através da expectativa gerada pelo desejo de ser validado. Os que conseguem administrar a dopamina migram para a estabilidade de ter algo que valha a pena e seja duradouro (talvez). Mas por que mesmo quando algo foi bom dói quando termina? É porque a ideia de ser validado se vai e a pessoa volta a lidar com a solidão e o desespero de viver sem algo a mais que "faça a vida ter sentido". Uma coisa muito importante é que o enredo traz a dinâmica do briga e fica bem, o clássico dos relacionamentos abusivos. A pessoa grita, sobe o tom de voz, e em seguida pede desculpas, o casal se relaciona e no outro dia tudo de novo, o ciclo vai se repetindo e os níveis de maus-tratos vão piorando. Há casos em que o parceiro construiu essa insegurança e a pessoa age por defesa e medo do abandono, principalmente as que citei que eram saudáveis antes de conhecer a pessoa. Mas na maior parte das vezes o abusivo age de caso pensado e tem noção do que está fazendo. A vítima se afunda interpretando um personagem irreconhecível, destoando da realidade de quem se é, perdida em fragmentos, momentos intercalados de si e do que o outro fez de si. Porque lembremos que a Nikki não fez essa escolha, o Baron pensando apenas em si mesmo, a fez por ambos. Lá no fundo, em seu interior, a Nikki ainda estava e gritava desesperadamente para sair dessa dinâmica abusiva, mas não conseguia, porque o controle disso está quase sempre na mão do narcisista, que mesmo diante do que todo mundo percebia sempre respondia que na relação estava tudo bem. Na cena em que ele come a carne de gato, me veio à mente que se a gente entra em algo após uma situação de vulnerabilidade como tentativa de escape, ela sempre vai estar ali, aquele gosto amargo e sem vida daquilo não é curado com um relacionamento, e sim com a terapia. No terceiro ato há tentativas de ambas as partes saírem do relacionamento, a Nikki deseja mais morrer do que estar nisso, e ele se mata, pois a morte parece a escolha mais feliz do que uma vida infeliz e depressiva, abusiva e violenta ao lado de alguém. Na vida real, muita gente não aguenta mais essa dinâmica de maus-tratos e acaba tirando a própria vida, muitas Nikkis (mulheres que após tanta violência psicológica, verbal ou física preferiram morrer), outras Nikkis com a entidade (pessoas que tiraram a vida do parceiro ou parceira por ciúme obsessivo) e muitos Barons (já vimos casos até do homem que matou a família toda e se matou em seguida), sem ferramentas para lidar com o "amor", o ser humano é apenas um peão descartável num jogo que libera dopamina barata e escraviza os envolvidos. Acho a última cena importantíssima, a Nikki consegue sair de tudo isso, mas... como lidar com a vida após o terror de um relacionamento abusivo? Você fica sem rumo, sem saber por onde começar, com o emocional em frangalhos e com a mente toda danificada. Haja antidepressivo e terapia. A trama me lembrou Together que retratou também a dependência emocional. As atuações de Michael Johnston e da Inde Navarrette estão impecáveis. A cena da mesa do restaurante, da noite de trívia e definitivamente aquela em que ela sorri enquanto faz xixi nas calças são os destaques pra mim. Já o Michael, entrega muito nas expressões, sem precisar falar nada. Há uma ótima química em cena entre os dois. O espectador sai do filme com essa consciência de tentar tratar das emoções ao gostar de alguém de forma mais equilibrada, mais pé no chão, com espaço e individualidade. Com a certeza de que a má administração do amor gera caos e sofrimento para todos que estão ao redor. Direção esplêndida de Curry Barker. Nota máxima e com certeza entrou para o meu top de filmes favoritos nessa vibe de terror.
Mensagens para Isabelle
3.7 137 Assista AgoraUm filme sobre amor, amizade, esperança e recomeços. Que jeito lindo de representar o processo de superação do luto. Foi uma ótima surpresa! Não prometeu nada e entregou muito. Confesso que achei que seria mais um romance clichê chato, a indústria cinematográfica não tem entregado muitos romances bons ultimamente. [Spoiler] Gostei muito que o foco aqui foi nos laços de amor, e não na objetificação do amor romântico em si, há muito mais momentos da protagonista sozinha, em família ou lidando com as adversidades das perdas do que com o par dela em cena, o que não prejudicou em nada o enredo, pelo contrário. Há um estranhamento no tom do filme, a parte da cozinha do Chef não acrescenta tanto ao roteiro, mas acaba fazendo sentido no terceiro ato. É que destoa um pouco da empatia que o luto que a Jill tá enfrentando causa na gente, essa compaixão sentida pelo espectador acaba sendo atropelada pelo contraste das cenas na confeitaria inicialmente. O filme aborda temas como machismo, sexismo, invasão de privacidade e bullying, vale lembrar que ouvir as conversas da caixa postal de alguém é completamente sem noção e não deve ser romantizado jamais, é bom que o roteiro coloca a Jill infeliz ao perceber que o Wes fez isso. Satiriza os participantes de programas como o Masterchef que saem achando que são o próprio Gordon, vale lembrar que em cozinha profissional desses restaurantes caros de SP o que mais tem é gente humilhando funcionário nesse nível, promovendo homens, e mulheres há anos na mesma função secundária. Foi um acerto enorme do roteiro focar na Izzy, tudo gira em torno dela no enredo, mas não fica forçado, até porque foi outro acerto da produção ter escolhido quase 2 horas de duração, tempo suficiente para contar a história sem pressa, sem interrupções, sem deixar pontas soltas. Amei a referência a The Notebook, que é meu filme favorito de romance, citando a frase icônica "If you're a bird, I'm a bird", que o Noah fala para a Allie, peguei assim que ela disse. O mais legal aqui é que ela fala isso para a irmã e não para um cara, mas no final ela inclui ele como um pássaro também. O filme retrata o amor de irmãos, o amor-próprio que a Jill vai encontrando aos poucos, o amor de amigos que o Wes encontra na Breeda e no Andy e o amor romântico, que às vezes nasce mesmo sem você nunca ter visto o rosto de alguém. Acho que amar é sobre isso, sobre vibrar na mesma sintonia que alguém, independentemente de qual seja seu laço com essa pessoa. Sobre a Breeda e o Andy, faltou um pouco de entrega nas atuações do Harry Shum Jr. e da Leah McKendrick, apareceram pouco, mas a química não estava tão presente, os atores pareciam desorganizados na cena em que falavam juntos, as primeiras falas muito artificiais. Zoey Deutch entregou muito do início ao fim, alegria, tristeza, revolta, paixão e uma pitadinha de loucura. Tudo que o roteiro pediu ela entregou com muita naturalidade e zero quietude. O Nick Robinson como Wes é aquela coisa: qualquer ator poderia fazer, não é um papel que exige tanta entrega, acho que o roteiro só precisava mesmo de um rostinho bonito que entregasse o básico, e que bom que o filme não foi tanto sobre ele. De qualquer forma o casal "convenceu" (teve química, mas não foi memorável), ele atua bem, mas, por exemplo, se destacou muito mais em Maid do que aqui, aqui é zona de conforto, lá ele fazia um cara abusivo e agressivo, que exigia muito mais dele. É um romance dos bons, mil vezes melhor do que Office Romance lançado recentemente com a JLo, que falhou miseravelmente em entregar até mesmo o básico. Nick Offerman, como sempre, pegando papéis em que a gente vai odiar o personagem, coitado. Tanis Dolman não me convenceu nas cenas do hospital, foi engolida pela Zoey. Destaque para a Alice Comer que fez a Jill criança. Trilha sonora maravilhosa com curadoria da Este da banda Haim, ficou muito boa. No geral, é um filme que dá pra ver em família sem constrangimentos, e todos vão sair querendo abraçar a protagonista, se identificando com muita coisa. Reforçando: ouvir mensagens e seguir alguém logo depois é crime de stalker, é importante não confundir roteiro com vida real. O roteiro ficou aguardando alguém gravar desde 2019 eu relevei, as pessoas normais não levavam a tecnologia tão para esse lado de perigo como hoje, mas em 2026 todos nós sabemos que a tecnologia tem suas armadilhas, tipo um doido ver suas coisas nas redes sociais e começar a te seguir. O roteiro abordou o tema quando ela se chateia, mas faltou ser um pouco mais enfático e rígido quanto a isso. Afinal, stalkear alguém assim, se infiltrando na vida da pessoa após invadir a privacidade é crime.
Alerta Âmbar
3.0 38A mensagem desse filme é muito boa, pena que as atuações não são as melhores. Sempre indico ele para quem tem filho pequeno, para que tudo que a verdadeira Amber passou não tenha sido em vão. O Amber Alert existe e avisa aos pais quando há atividade incomum ali na localidade. É importantíssimo porque ajuda a salvar vidas. Só porque as pessoas andam por aí em suas redes sociais fingindo que não existem sequestros, abusos, pedofilia, tráfico humano, entre outras coisas horríveis no mundo, não faz com que não existam. Esse filme é de utilidade pública. Sinto que fico mais e mais desconfiada com o tempo, eu sempre observo tudo ao meu redor, principalmente se os meus sobrinhos estiverem por perto, olho com atenção quem tá olhando pra eles, até mesmo gente de "confiança" que está sempre por ali. Atenção redobrada nunca é demais, as crianças são as mais visadas no antro das maldades humanas. Aqui o cinema exerce sua função de comunicador informante, se cada pai que assistir ficar um pouquinho mais atento, o objetivo do filme terá sido concluído com sucesso. O Tyler James Williams é um ator talentoso, mas aqui não entregou muito, a direção não soube trazer o melhor dele à tona. Hayden Panettiere não me convenceu em nada, acho que a vibe toda dela não se encaixou muito bem com o que o personagem pedia. Não houve química entre o elenco. O espectador assiste ao filme tenso e preso à tela pelo fato de o tema ser algo que mexe muito com qualquer um, e não porque as atuações estão brilhando. Afinal, ninguém quer ter o filho sequestrado jamais. É um filme que soca o estômago, ainda mais quando há milhares de artigos jornalísticos na vida real sobre crianças engaioladas e traficadas nas mesmas condições. É um conteúdo pesado, mas necessário para quem quer estar sempre atento e prevenido.
1984
3.7 561 Assista Agora"Até que se conscientizem, não se rebelarão; e até que se rebelem, não poderão se conscientizar."
"Nada era seu, exceto os poucos centímetros cúbicos dentro do seu crânio"
George Orwell sempre vai ter meu coração. Um século depois e esse livro escancara nossa realidade social tão perfeitamente. Nada mudou, as pessoas continuam sendo oprimidas e desinformadas, mas com ferramentas diferentes e modernas. Esse excesso de telas, mutação de informações acontecendo o tempo todo, a privacidade se tornou um artigo de luxo. Esse monitoramento era imposto, era forçado, hoje em dia é quase sempre voluntário. As bolhas sociais fortaleceram o extremismo, para reforçar algo que a pessoa pense, um pensamento em formação logo toma um caminho de radicalismo, ou para combater, o entorno daquele cidadão vai atropelar o pensamento que está se formando de todas as formas possíveis, até que ele pense de acordo com o conformismo social, impossibilitando a conclusão de um raciocínio autoral. Surge tanta coisa tão rápido que as pessoas não conseguem amadurecer ideias e pensamentos sobre nenhum fato, as pessoas não pensam profundamente. Outro ponto é que o autoritarismo está mais vivo do que nunca, mas em 1984 era caótico, barulhento, estrondoso. Hoje em dia é silencioso, sutil, o algoritmo define o que você vai ver, o que vai ler, o que vai fazer parte do seu dia a dia. É um controle muito eficaz, as pessoas sequer percebem. Quantas vezes as plataformas silenciaram pessoas e suas opiniões? Isso é poder autoritário. Quando alguém deixa de postar o que pensa por medo da repressão também está sendo vítima do sistema, mesmo que indiretamente. Cada acesso nosso online e localização recolhidos são formas de abusos autoritários, até porque, se não aceitarmos essas diretrizes não conseguimos acessar aplicativo algum em nossos aparelhos. Os dados são coletados a todo segundo, e me pergunto quem de nós sabe para onde vão? Ninguém sabe. É muito mais fácil controlar as massas sabendo que querem, o que fazem e onde estão. Cada opção que temos já foi decidida por alguém que conhece nossos gostos e fraquezas. É assustador! O objetivo principal hoje em dia é o mesmo de 100 anos atrás. Tornar-nos pessoas não pensantes, conformistas e cegas. Eu sempre digo: o terror dos autoritários é lidar com a revolução dos que pensam. Quem pensa, não consegue prosseguir conformado! Nasce um sentimento de revolta, uma inquietude, vontade de lutar. Admito que surge, junto a isso, um sentimento de incapacidade. É que é tão difícil conversar com pessoas conformadas. Mesmo sabendo que a nossa verdade é a verdade no meio de 1 milhão de mentiras, é difícil ser ouvido, ter voz. A gente faz o que pode. Sinto falta da liberdade de discordar sem ser punido socialmente. Na nossa sociedade é quase um crime duvidar das coisas. Outra coisa que notei de semelhança com os dias atuais é que há sempre embates, os governos estão sempre providenciando conflitos para distrair o povo do que realmente está sendo feito por trás dos panos. As pessoas também gostavam de gritar com o Goldstein, e hoje em dia parece que as redes sociais sempre nos apresentam ódios em comum, é como se isso engajasse muito mais do que a paz. O algoritmo lota o feed de conteúdo onde as pessoas possam se juntar para tacar hate em algo ou alguém. O Winston de hoje em dia é todo cidadão que vive esgotado e já não aguenta mais o cansaço mental diário. Ele tentava esconder seu diário e hoje as pessoas tentam apagar seus históricos, suas vidas online, mas é impossível. Mesmo se alguém deletasse todos os arquivos e redes referentes à vida, ainda assim estaria tudo salvo em algum servidor e por último "deletou todas as redes e histórico no dia xx/xx". É creepy, você pode criptografar, trocar de e-mail regularmente, usar VPN, mas isso não muda nada, no fundo a gente sabe que tudo é armazenado. A gente vive a mesma coisa que ele. O Winston de hoje é o cara que tenta viver uma vida garimpando coisas físicas e reais, tentando algum contato com o mundo de verdade, conexões verdadeiras, algo que a inteligência artificial ainda não tenha moldado. O 2+2=5 de hoje em dia aparece de forma mais sutil, o Winston foi torturado fisicamente e psicologicamente, como as pessoas não passam por isso hoje em dia (a maioria), algumas nem percebem que estão condicionadas. Aparece quando uma pessoa aceita uma ideia porque todo mundo aceitou, porque essa mentira se tornou conveniente, o grupo decidiu que é assim e pronto. Essa falta de contraponto é o medo mais comum dos dias de hoje. Até em lugares básicos como grupo de família, amigos ou colegas de trabalho as pessoas têm medo de se posicionar. Outro ponto é que se alguma mentira é dita por uma figura política ou famosa, ela se prolifera rapidamente como uma verdade através dos impulsionamentos midiáticos. Se o pensamento pode ser moldado por sistemas políticos, a raiz desse mesmo pensamento se enfraquece rapidamente e o emburrecimento da população se torna mais fácil de ser gerenciado. E uma das partes mais tristes do livro e do filme que reflete nos tempos atuais, a destruição total dos laços entre as pessoas. Eles queriam criar pessoas que amassem apenas o Grande Irmão, elas não podiam cultivar amizades e nem amores, assim como em Admirável Mundo Novo do Aldous Huxley, é algo que fugiria do controle deles. Hoje em dia não é diferente, o Bauman fala muito sobre essa modernidade líquida, amores líquidos, onde nada é feito para durar. As conexões são artificiais e se dissolvem rápido. As pessoas são solitárias, e isso é ótimo para quem está no controle, é mais fácil manipular essas pessoas isoladamente. "A pior coisa do mundo" que o livro cita no quarto 101 pode ser qualquer coisa pra qualquer um, mas quem coleta nossos dados conhece melhor que nós mesmos quais são nossos medos, erros e inseguranças. E já é usado contra a gente de forma indireta, para manter-nos conformados. A pergunta é: Onde a tecnologia e o monitoramento ainda não chegou? Sobrou algum lugar seguro? Fica aí o questionamento. Não é à toa que Black Mirror é minha série favorita. Aquilo tudo já é real. A gente já vive na sociedade Black Mirror. Ainda prefiro o livro, mas amo muito esse filme. Pena que não fizeram uma adaptação boa de Admirável Mundo Novo ainda. Quem sabe um dia...
Steve
3.0 47 Assista AgoraÉ um filme pesado, o ambiente é caótico, quase sufocante. Boa direção do belga Tim Mielants. A carga emocional desse filme me lembrou de "Preciosa". [Spoilers] Ótima direção de fotografia do Robrecht Heyvaert. Os ângulos abordando diferentes perspectivas, ora por trás das câmeras, ora através delas, ora pela tela, em alguns momentos estamos espiando, em outros nos sentimos na própria situação. A câmera não ser estável é um acerto enorme, tudo em constante movimento. "Tá no topo da lista, eu prometo", e no final não sobra tempo pra nada, é uma correria. Gosto muito do horário passando na tela, é um lugar tão atípico que acontece tanta coisa em um único dia, chega a ser desconfortável, comparando com a nossa vida, sem eventos. A sequência silenciosa deles na mesa, cortando para ele na entrevista lacrimejando, voltando para a mesa e a cena do "Cala a boca" é muito boa. A atuação do Cillian brilhou muito ali. Essa cena e a do Shy no final são as duas melhores pra mim. Não li Shy, do Max Porter, vi apenas o filme. Acho muito amoroso da parte do Steve estar sempre tentando proteger os meninos do julgamento da sociedade, impedindo os câmeras de filmarem momentos ruins. A jornalista, inclusive, em alguns momentos representa essa voz social mais preconceituosa. A cena dos meninos na janela parecendo animais selvagens é tão forte, é lamentável. Detalhes como o Shy rabiscando o caderno, uma alegoria à mente dele. Anotações na mão do Steve, representando a correria do dia dele. O Tyrone esvaziando pauta racial dizendo que estava sendo tratado injustamente por ser preto, quando na verdade, a psicóloga confirma que ele estava ali sim por importunação sexual. O filme foi corajoso de colocar essa cena. Quando ele começa a falar isso, a gente já cria uma empatia pela situação social dele, achando super injusto julgarem ele pela cor, aí quando ela confirma que ele realmente fez, que não é injustiça, fica um gosto amargo, ele engana a gente. Injusto mesmo é ele usar um problema estrutural real pra se esconder dos crimes. Em seguida a briga dele com o Jamie, que é uma sequência muito boa, sem muitos cortes. A entrevista do Steve é muito comovente, ele dizendo que eles são extraordinariamente complexos, a da Amanda também é sincera, apesar de gostar deles, tenho certeza que muitos professores se sentiram representados por ela. Ela cita o trabalho que eles dão, a falta de recursos do sistema, salários baixos, tudo isso é tão real no mundo. A entrevista dos meninos traz um lado mais humano de alguns deles, uma fala do Jamie que me marcou foi "não confia em ninguém, não dá pra confiar nem na polícia, cara", não mentiu. Ao serem entrevistados, eles não têm tabu, nem medo de se expor ou falar sobre as maiores atrocidades que já cometeram, sobre seus erros. O que poderia acontecer de pior do que estar ali? Outra fala que me marcou é quando o Deputado está lá na escola e fala sobre os votos, sobre proteger os bens do cidadão, perguntando "Quem vai proteger os seus bens, sua liberdade?". Meu irmão, os meninos não têm mais nada, não têm família que se importe, não têm apoio do sistema, não têm dinheiro, bens, liberdade. Isso é um luxo inacessível pra eles. Fiquei com dó deles nessa hora. Os quartos são bem pessoais e a ambientação é ótima, mesmo os meninos sendo delinquentes, dá um incômodo ver a jornalista invadindo a privacidade deles. Nada justifica. Outra cena boa é a que começa calma com a bolinha no chão, o Steve tapa os ouvidos, então os meninos chegam quando toca o sinal, é um caos. O filme alimenta uma certa ansiedade em quem está assistindo, mas puxada pra um lado crítico, você fica agitado assistindo, mas reflexivo também. O Shy é o personagem mais cativante e real de todos os alunos. Começa com ele dançando chateado e termina com ele desmoronando completamente, e o caminho de um extremo ao outro é muito bem desenvolvido. O ator Jay Lycurgo entregou muito, só não mais que o Cillian. É só um menino em busca de afeto, mas quando recebe alguma dose, não consegue administrar. Quando ele se abriga na música, eu me identifico muito, eu amo música e quando tudo vai mal, eu coloco o meu fone e fico ali no meu mundo. A cena do futebol com certa coloração nas camisetas e a dele preta se destacando, andando triste no meio deles, a chuva caindo, bem dramática e sombria, a câmera em rotação, a edição e montagem, o take acelerado, o zoom, o campinho de ponta-cabeça, a bateria da música engatando cada vez mais alto na trilha sonora. Perfeito demais. Essa e a da lavanderia são as mais bem editadas. Faz sentido, a vida de todo mundo ali tá de ponta-cabeça também. São muito tristes as sequências do Shy, muito boa a referência ao lago pelo frasco de remédio, como se fosse um presságio para o espectador, toda a cena da lavanderia até o Shy entrando na água é muito bem dirigida. Ele tão perto de achar o Shy, mas estava tão fora de si que não conseguia chegar. Desesperador, a gente torcendo pra ele tentar só mais um pouquinho. O Shy quis tirar a própria vida aos 17 anos, porque mesmo se ele zerasse e se tornasse uma pessoa melhor, a sociedade nunca validaria isso, as pessoas o julgariam pra sempre (mais). Nem o apoio da família ele tinha mais, esse tipo de pessoa não tem nada a perder, então desistir parece ser o caminho difícil mais fácil. No final, fiquei feliz de ver que o Shy estava vivo. É muito difícil ser depressivo em um mundo onde ninguém te entende, pessoas que acordam bem e vão viver suas vidas, enquanto você acorda e a primeira coisa do dia é tentar se convencer de que aquele dia vale a pena, de que você vale a pena. Ninguém entende, só julga, exceto aqueles que também tenham depressão, que sabem minimamente qual é o sentimento. Mesmo em frangalhos e todo arrebentado, lutar pela vida, quando o suicídio parece ser a opção mais segura e indolor, é um ato de coragem enorme e requer uma força absurda. Ele gritando quando os meninos se jogaram felizes em cima dele foi pesado, um grito que veio da alma, um pedido de socorro carregado de desespero. O abraço dele no Steve no final, lindo! O folheto Coastal Carvings na parede desde o início avisando pra gente o que viria, detalhismo. O Steve é o personagem mais complexo, o Cillian deu tudo de si, e o resultado foi ótimo. O personagem consegue ver sempre o melhor das pessoas (que valem a pena), a saúde mental dele completamente esgotada, que até dentro da própria casa no final, recorre ao vício, é muito triste a cena que ele sobe com a garrafa na mão. Ele entrega alívio cômico em frases como "é bom que a cadeira não vai prestar queixa" ou imitando o Jamie, ele entra na vibe dos meninos, é o único jeito de ultrapassar o muro emocional que eles construíram. Tenta bancar a máscara de apaziguador, mas em seus vícios e nas fitas se revela como é. Cobra muito de si, como se tivesse que resolver os problemas do mundo todo, não consegue desligar. E quem resolve os dele? Ninguém. O vício em oxicodona é só o reflexo da fuga de alguém que não suporta mais viver o que vive, mas sabe que se pular fora do barco, tudo desmorona, ele é o "por um fio" que tá segurando tudo. O filme é uma baita crítica social ao sistema e como eles tratam essas pessoas. Ao salário baixo dos professores e diretores que aguentam todo tipo de situação, agressão verbal e física, assédio sexual e moral, mas principalmente ao burnout e esgotamento da sanidade mental de quem lida com alunos dessa faixa etária entre 13 e 18 anos. Fica claro que quem é da área de pedagogia, faz por amor, remuneração adequada esse povo não tem, muito menos apoio dos órgãos responsáveis. O filme não tem final feliz, é um soco no estômago e tchau. Acredito que tenha sido o objetivo, então a direção entregou com maestria tudo o que o roteiro pediu. Maravilhoso!
Saudosa Maloca
3.2 48Ótima direção de fotografia de Lito Mendes. A ambientação impecável. Gosto muito da interpretação do Miklos, até porque ele tem uma bagagem musical muito ampla, de muitos anos, nada parece forçado e soa muito natural. A cena final em que eles perderam tudo, mas não a companhia um dos outros é linda demais de assistir, dá uma nostalgia. O filme mostra tão bem como a vida, a memória e as canções das pessoas são tratadas apenas como entulhos e tralhas por essas grandes empresas, que se importavam apenas com o possuir coisas, uma sociedade que valorizava apenas o ter e não o ser. O progresso beneficia apenas quem está esmagando os sonhos do outro. Essas pessoas periféricas são invisíveis para o sistema. Adoniran transformava essas pessoas e suas histórias de vida em arte, um legado que marca a gente até hoje.
Consequência
2.1 33 Assista AgoraAdoro o Keanu Reeves, mas não consegui assistir até o final, o filme é horrível. 1 estrela só porque valeu ver o Scorsese. Jonah Hill dirigiu o Keanu mas esqueceu de contratar alguém bom para dirigir a si mesmo. Confundiram fazer piada com virar uma.
O Pão Nosso de Cada Dia
4.1 19 Assista Agora"Looks like you've popped into a hornet's nest", essa frase resume o filme todo. A direção de fotografia e a atuação do Farrell são pontos altos, mas é carregado de machismo, agressões e alguns momentos confusos. Ao verificar o contexto da época histórica e bastidores do próprio filme tudo faz sentido, mas não dá para ignorar certas coisas só porque o filme tem uma estética linda e é um clássico, é sufocante assistir sendo mulher, mesmo considerando a época. Esse puritanismo religioso rural e estrutura patriarcal não passam despercebidos. [Spoilers] Vi a idealização de uma esperança de romance nos primeiros minutos e um homem que invalidou a esposa durante a trama toda tentando reconquistar e trazer ela de volta no final, como se nada tivesse acontecido. Cheguei a me perguntar se o filme era uma sátira (à figura do pai), mas não. O filme ia se chamar Our Daily Bread, onde o Murnau mostraria que o campo era um lugar grandioso e a cidade bonita, vibrante e cheia de emoções, porém a Fox achou o filme artístico demais e que não era muito comercial, não venderia. Mudaram o nome para City Girl e forçaram as novas cenas e diálogos que representassem melhor a ideologia americana que eles queriam vender, o Murnau abandonou o projeto antes de terminar a edição e foi gravar outro filme (Tabu). Como resultado, temos o visual lindo, mas um roteiro totalmente desrespeitoso. Saindo dos bastidores e indo para o contexto da época, para entender melhor esse tradicionalismo (se é que é possível entender tanta falta de respeito e machismo), como o roteiro faz o pai do Lem parecer certo, mesmo batendo nas pessoas, ameaçando funcionários de morte, inventando mentiras pra lá e pra cá, tudo isso com a bíblia numa mão e a arma na outra. Pesquisei e li que entre 1920 e 1930 existia uma divisão entre o campo e a cidade na América, na cidade o período conhecido como Roaring Twenties, que resumindo seria Jazz, mulheres independentes, bebidas e liberdade era visto pelo povo do interior como um pecado terrível. Provavelmente o pai do Lem associou a Kate esses boatos exagerados sobre a cidade sem dar chance de conhecê-la (como se ela fosse corromper o Lem). Outra coisa é que a quebra da Bolsa foi em 1929 e o filme é de um ano depois. Não podemos esquecer do código Hays (que ditava o que aparecia ou não nos filmes), já estava começando a aparecer em 1930, as regras diziam que por exemplo pais, juízes e clero não poderiam ser ridicularizados nos enredos e que a moralidade deveria sempre vencer e ser aclamada no final da produção. Isso explica muito o motivo de ninguém ter feito nada contra o Tustine, nem mesmo o filho, que age com uma passividade irritante durante o enredo todo. O Murnau queria que o filme fosse mudo, mas a Fox queria transição para o falado, a versão falada não fez sucesso. Mesmo já tendo direito ao voto, no filme as mulheres são vistas como algo, como nada, alguém para ser subordinada ao marido, lavar, passar, cozinhar, costurar remendos de roupas, cuidar do filho e só, tendo que concordar com todas as decisões do marido sem poder dar opinião em nada, o filme pode até ter falas, mas a mãe do Lem está em um filme mudo, ela só aparece fazendo essas coisas e impedindo o filho de confrontar o pai. Dá pra perceber que mesmo ao discordar de algumas ações do marido, ela recua. O pai fica revoltado quando lê a palavra waitress na cartinha do Lem, eles tratam o Lem como se ele fosse um filho adolescente que tivesse ido viajar, o mesmo, que já se sentia adulto suficiente até para pedir alguém em casamento. O roteiro primeiro prega que o Lem defenda ela, em situações de assédio no trabalho (foi super gentil), onde ela poderia, inclusive, se defender sozinha, mas quando surge a oportunidade de defender sendo esposo dela, ele não faz nada, nem contra os homens, acreditando neles e não nela, nem contra o pai. O roteiro tenta se redimir no final colocando ele batendo no Mac, mas só após ela ir embora, por pura pressão da partida e não por vontade própria. Se o pai conseguiu causar esse desconforto todo em quem assiste, é porque entregou muito no papel, um mérito total do ator David Torrence. Muito pesada a sequência em que a Kate apanha dele, assim que chega, sem apoio de ninguém, dá muita dó quando ela fala "And this is our honeymoon!", ela quebrada por fora e por dentro. De qualquer forma, algumas coisas no filme me marcaram muito, positivamente. A trilha sonora é muito boa, crescente no piano para momentos de drama e romance, violão mais suave para momentos engraçados e alegres. O som casou muito bem com o visual na cena da Kate na janela do lugar onde ela morava, quando passa o trem. A ambientação é muito bem produzida, tem uma planta morta e empoeirada representando a tristeza e vazio que era a vida dela, tem também no quarto uma gaiola de metal com um pássaro, representando essa prisão que ela sentia, mas o mais interessante é que a gaiola segue com ela até o final do filme, representando que mesmo ao chegar no interior, após se casar, ela ainda estava presa, muito mais, aliás. No início eles brincam girando a engrenagem e o passarinho canta, depois dos acontecidos de agressão e assédio, o roteiro nunca mais faz isso, uma ótima alegoria à Kate nunca mais ter sido feliz ali, oprimida e presa. A cidade, as estações de embarque, o restaurante, a banca de jornal, simplesmente perfeito cada detalhe ambientado, me senti em 1930. Os figurantes (não economizaram, são muitos), bem vestidos, bem dirigidos, a cena dele pela cidade é linda, é de uma beleza diferenciada. Apesar do desconforto assistindo, o enredo rendeu alguns momentos de descontração no início, eu ri em algumas cenas no restaurante. Achei ótima a cena deles pelos campos, muito bem dirigida. Essas gravações em campos de trigo, de rosas, girassóis, nunca falham, funcionam muito em romances. Precisamos enaltecer a atuação do gatinho. Também ri muito na cena que o velho fofoqueiro conta pra todo mundo que ele casou e os feiosos começam a se arrumar na carroça, porém depois durante o filme, quando mostra que eles são assediadores é muito desconfortável, todo mundo dando em cima dela, pegando no corpo, nas roupas, como se ela fosse um pedaço de carne pendurado no mercado. Outra cena linda é a da colheita, é muito boa, tem muitos detalhes, desde o recolhimento até o ensacamento do trigo, a cena com os cavalos, as montanhas. Outra cena engraçada é a que o trabalhador lava o rosto na água que o cavalo tá bebendo e quando vai dar a água de volta o cavalo vira a cara e não quer mais, é muito cômica, é muito engraçada. A atuação da Mary Duncan como Kate foi impecável, ela oprimida, encolhida, com o olhar caído. A cena do abajur, em que o Mac entra na casa é muito desconfortável, muito bem dirigida, a iluminação direcionada à parede simulando apenas a luz do objeto em cena, as sombras, deixou a cena muito mais tensa do que já seria, um grande acerto. Quando o Mac passa a mão nela, é muito apavorante. O assédio sexual que ela sofria é desesperador porque a pessoa está no meio do nada, em uma fazenda, na cidade você tem para onde correr atrás de ajuda, de pessoas. Acho muito forte quando o Lem pergunta se ela não tem nada a dizer e ela apenas sinaliza com o rosto que não, uma hora a pessoa cansa e desiste de justificar. Também quando ela diz que qualquer homem pode arrumar uma mulher, mas é necessário muito mais que um anel e um documento para segurá-la. É uma das frases mais reais e profundas representando a situação dela, ali ele já tinha perdido ela. Como em todo filme que vi de 1927 à 1930, a redenção do marido sempre vem nos últimos dois segundos do roteiro. A cena dos cavalos correndo com o Lem e o Mac brigando na carroça é muito bem feita, cena com animais são difíceis de gravar, o pai dele atirando, entrando em pânico, aparece "father" na tela, depois mostra que o tiro não acertou no Lem, ele indo atrás dela, a sequência ficou muito boa. O Lem pareceu genuinamente arrependido, porém sinto que ter feito isso tão tarde prejudicou muito o roteiro. Eu não ousaria comparar City Girl com Sunrise, em Sunrise a gente vê o Murnau em tudo, aqui só em alguns detalhes, nada é tão marcante como é no outro filme, a Fox interferiu muito.
Super Mario Galaxy: O Filme
3.4 151 Assista AgoraGuillaume Cassuto arrasa muito! Os visuais do Patrick O'Keefe ficaram lindos demais, eu já havia amado a direção dele no Aranhaverso. Espetacular ver o trabalho do Renan Porto representando o Brasil no filme. O Bowser rouba a cena, igual no primeiro filme, a voz do Jack Black imprime muita personalidade na dublagem. Mesmo sendo uma animação, o roteiro fez questão de inserir tantas camadas, o personagem aparece mais emocional em alguns momentos fofos com o filho. O pai ausente mais presente que temos! Sou muito fã dos jogos desde pequena, mas não esperei uma adaptação muito robusta nessa sequência, então gostei muito do filme. Quem não jogou Wii pode se perder em alguns momentos. Cheio de referências nostálgicas. Os gráficos estão lindos, o neon, os planetas. Ótima direção de Aaron Horvath e Michael Jelenic.
Casamento Sangrento: A Viúva
3.2 198 Assista AgoraBem melhor que o primeiro, aqui o enredo flui, o espectador já sabe como o jogo funciona, então é só se adaptar às novas regras. [Spoilers] Com a Faith em cena, a Grace tem uma motivação maior, que é proteger alguém no jogo, diferente do primeiro, que é cair aleatoriamente no jogo apenas pela sobrevivência crua. Não que isso não seja importante, mas cativa mais quem tá assistindo. A tensão emocional entre as duas é interessante, mas um pouco cansativa. O ponto alto pra mim é o roteiro satirizando os ricos, esse povo se mata entre si, sem precisar de nenhum motivo específico além do financeiro. O gore está na medida certa. As piadas sobre as explosões de sangue trazem alívio cômico. O ritual e a cena do casamento são muito boas, me surpreendeu, eu não esperava tanto da sequência, mas entregaram, a última cena em que eles se matam atrás do anel é a melhor do filme. Ótima atuação da Samara Weaving. Não é um filme memorável, mas é um gore leve pra rir.
A Empregada
3.4 667 Assista AgoraÉ desastroso! Foi saturado acompanhar por duas horas. [Spoiler] O ritmo do filme é péssimo, e as atuações completamente mornas e sem sal do Brandon Sklenar e da Sydney Sweeney só arruinam tudo ainda mais. Ela não entregou na atuação e nem na narração. Até Beyoncé em Obsessiva conseguiu entregar mais no final. Mas claro, o público que assiste com o cérebro desligado (ou apenas para vê-la pelada) vai dizer que foi a melhor atuação de todos os tempos. Não foi. Quando a atuação não vende a ideia, a gente simplesmente para de se importar com o que vai acontecer com os personagens. A atuação da Amanda Seyfried carregou o filme nas costas, mas não foi suficiente pra salvar o enredo corrido da última meia hora, que atropelou o timing de tudo. Para que a reviravolta funcionasse, deveriam ter preparado o espectador, com atuações mais convincentes. Como há inexpressividade por má atuação em boa parte do enredo, no final não convence, pois não vendeu àquela ideia em momento algum, não cativou no espectador algo que compensasse a surpresa do plot. Por sorte, a Amanda rendeu ótimas (poucas) cenas. Apesar de tudo, gosto do roteiro empoderando mulheres contra homens abusivos, e também mostrando que o comportamento narcisista e sociopata quase sempre vem da influência da criação dos pais. O roteiro reforça isso usando a mesma frase várias vezes, uma em cada geração. Não li o livro da Freida McFadden. A entrevista da Amanda falando sobre descobrir que era produtora 3 semanas depois, faz tanto sentido. De qualquer forma, é um filme totalmente esquecível.
Nosferatu
4.1 678 Assista AgoraOutra direção primorosa do Murnau! Que filme maravilhoso! [Spoilers] Uma das primeiras frases da Ellen é "Why did you kill them... such beautiful flowers?", e não está ali por acaso, aliás, nada em um filme do Murnau é por acaso, a frase se conecta tão bem com ela se sacrificando no final para salvar a vida de todo mundo. Só uma pessoa que prefere ver as flores vivas no jardim do que em um buquê se importaria o suficiente para se entregar e salvar a cidade. Gosto como o conto vai passando na tela, como se estivéssemos lendo o livro, o detalhe das páginas rasgadas. Dividir o filme em atos também é um acerto, combina muito com a vibe gótica do Expressionismo Alemão, observei que dá tempo de lermos a página toda, tem filmes mudos da mesma época que não respeitam o tempo de leitura do espectador. Achei muito importante o romance entre o casal contrastando com as mortes, equilibra, é um alívio na trama. Ela correndo pra se despedir dele (de novo), abraços, beijos, cartas. Imagina você viajar para uma cidadezinha e no quarto que você se hospeda, tem um livro contando basicamente tudo que vai acontecer com você nos próximos dias, que você vai ser atacado e mesmo assim continuar lá. Admiro a audácia do Hutter de jogar o livro no chão, fingir normalidade e rir do perigo, se eu fosse o Conde também atacaria quem debochasse do meu livrinho, uma falta de respeito com nosso vamp-mor. Achei muito engraçado os cavalos fantasmagóricos com os rostinhos tampados e só os olhos de fora (espero que não tenha sido desconfortável para os bichinhos). Até os figurantes nesse filme são super expressivos, que produção detalhista. Eu achei genial terem misturado imagens no set com cenas reais no castelo eslovaco e em pontos na Alemanha, o Murnau realmente se compromete. O chão quadriculado, as cadeiras longas, a caveira no relógio, os quadros e tapetes pendurados. Além da casa do Conde, também me chamou a atenção a ambientação da sala de reuniões com as miniaturas de barcos na estante e na parede, o tridente e o quadro. Lindo. A direção de figurino acerta em tudo, o contraste das roupas claras do Hutter com as sombrias do Conde. Os óculos redondos da época. A maquiagem esbranquiçada do velho e o cabelo todo ouriçado, dele e de metade do elenco, esse visual desleixado e descabelado combina muito com o gênero horror, diferencia o filme totalmente dos filmes americanos da época, que se preocupavam muito com a aparência dos personagens principais, super polidas e alinhadas, pelo menos os que eu assisti até agora. Os rabiscos nas paredes onde o Knock está, a cidade toda suja, as unhas das pessoas, tudo isso passa esse clima de peste e praga pela cidade, inclusive, o desespero do povo lembra o da Peste Bubônica, é muito similar, todo o caos. O filme é de 1922, a Gripe Espanhola de 1918, imagina esse povo assistindo a um filme que relata a chegada de uma doença sem solução por meio de navios, isso é assustador por si só, o Conde acaba sendo a representação física desse medo. Algumas cenas me marcaram muito, mas sem dúvidas a que mais marcou com relação a isso foi a sequência em que as portas são marcadas com cruzes representando quem morreu, os caixões sendo carregados pelos homens de sobretudos pretos, cartolas, expressão bem triste, e a quantidade de caixões posteriormente toma conta da rua inteira, visualmente muito forte. O Dr. Sievers explicando um pouco sobre os experimentos também muito representativo, tentar desvendar algo sobrenatural através da ciência, a gente vê isso em The Walking Dead e The Last of Us, em todos eles a ciência falha pra fazer sentido no enredo. Mas é bom trazer esse outro lado para quem assiste. Quando tudo fica explicadinho e a medicina ou ciência apresenta uma solução, parece que o terror perde a graça, pelo menos pra mim, o mistério e a incerteza entretém muito mais, até porque quem quer roteiro redondinho e previsível vai ver filme de romance. Terror tem essa aura enigmática, de deixar a gente o mais agoniado possível (terror bom, porque tem uns que só pela misericórdia de tão ruim. Pode entrar, The Nun!). As atuações estão impecáveis, o destaque, claro, é a do Max Schreck como Conde Orlok (na época, as pessoas achavam que ele era um vampiro, de tão bom em cena), do Gustav Von Wangenheim como Hutter e da Greta Schroder como Ellen, os atores entregaram muito! O Nosferatu com a postura encurvada quando o Hutter chega no castelo, as mãos pra dentro com aquelas unhas gigantes, os olhos arregalados. Sempre desconfiem de pessoas que disserem "Your wife has a lovely neck". A cena do Nosfe dormindo em pé à noite é uma com o visual mais legal, a iluminação, a projeção de sombra, ficou linda. O andado dele de costas, assustador. A imagem centralizada na porta, e o resto da tela escura, ótima direção de fotografia de Fritz Arno. Sequência surreal de boa a que ele vê o Conde no caixão, só o rostinho. Ele se arrastando na escada, perturbado no quarto, o Nosfe indo atrás da Ellen. O Conde levantando no barco também e aparece "the dead ship had a new Captain", muito bom! Inclusive, a tipografia estilo Fraktur usada é algo marcante, nós, designers, usamos até hoje esse tipo de fonte no Adobe pra criar convites de festas, flyers, etc. Claro, a do filme foi feita à mão pelos artistas, mas mesmo assim vale lembrar que um século depois, ainda usamos no nosso dia a dia. Outra coisa linda é o uso do stop motion, aquela cena da porta se abrindo ficou perfeita. Essa coisa do quem vai chegar primeiro até a Ellen é muito bem construída no roteiro. Achei apavorante ele com a cara na janela quando a Ellen olha, misericórdia! A coreografia das mãos do Nosfe no filme, me lembrou muito a que o Michael Jackson usa no clipe Thriller. Talvez o diretor do clipe tenha se inspirado. A cena mais icônica do filme é provavelmente quando ele chega na casa da Ellen, a da sombra. Ele subindo, a sombra na parede, entrando no quarto até o corpo dela, o olhar dele fixado na câmera diretamente para o espectador, ele se jogando ao ver o sol. É dramática, mas combina muito com o tom do conto. Diferente de filmes dos anos 20 que dramatizam por dramatizar, sem justificativa. Ele virando fumaça, pode ter sido uma referência do Murnau a Le voyage dans la lune do Méliès, porque 20 anos antes ele criou o mesmo efeito transformando os selenitas em fumaça. A trilha sonora se encaixa perfeitamente. A montagem e edição ficaram muito bem executadas, o filme é preto & branco, mas puxado para tons, e eles vão mudando a tintagem de acordo com o clima do filme, percebi que em momentos mais tranquilos ou de dia, ele fica amarelado, quando a cena pede algo mais sombrio ou noturno, fica azulada meio acinzentada, como por exemplo quando ele desce da carroça está amarelado, entra no terreno do Conde, fica azulado, tirando a alegria e o calor da cena. Em alguns momentos também notei o uso do Magenta. O mais interessante é que isso só acontece até certo ponto, um hora essas edições se embaralham e o ambiente amarelado que era o seguro, não é mais, e isso causa pânico em quem assiste, deve ter sido o objetivo de quem editou. Por exemplo dentro do castelo o Conde aparece em alguns takes amarelados, é como se o ambiente tranquilo tivesse sido contaminado pela praga e ninguém mais está seguro em lugar nenhum. A cena do espantalho e do mar cria um link na gente direto para Sunrise, também do Murnau. Esse filme tem uma fórmula, que vejo replicada em uma imensidão de filmes ao longo desses 100 anos. Um lunático comentando sobre algo assustador, alguém viaja, descobre ou revive esse algo ou alguém, que ataca todo mundo, o protagonista sobrevive (esfarrapado) ou se sacrifica para salvar a todos. O Spielberg e o George Lucas têm tantos. Nosferatu já fazia isso no século passado. O filme é reconhecido até hoje como o clássico pai desse tipo de terror, mas tem a história muito triste. Eu li sobre a Prana Film, que convidou o Murnau pra fazer esse filme, um plágio não autorizado de Bram Stoker (Drácula), só fez um filme em todo o seu tempo de duração como produtora, faliram em seguida. A Florence Stoker processou e ganhou a causa, óbvio. As cópias foram destruídas e a gente só tem acesso ao filme porque algumas escondidas se salvaram. Um dos melhores filmes de terror que assisti.
Vai Trabalhar, Vagabundo
3.4 29 Assista AgoraDireção maravilhosa do Hugo Carvana! Aquela voz de locutor no início já faz a gente rir. [Spoilers] Direção de fotografia impecável de José Medeiros, os grãos na tela dos anos 70 também ajudam muito a levar a gente para a década, dá vontade de estar lá no bar com eles. Regis Monteiro acerta muito nos figurinos e cenografia. Cabelo bagunçado, camisa aberta, correntinha, calça flare e a atuação tão precisa do Carvana, nem parece que leu um roteiro, de tão boa você jura que ele é malandro. O enredo te prende do início ao fim. Ainda falando sobre o Hugo em cena, o cara se desdobra em mil facetas, um artista com repertório muito completo, entrega tudo, ex-presidiário, conquistador, comendador, padre (picareta), cachaceiro, filósofo, autoconfiante, negociador, até bondade. Vontade de ver as pessoas de quem gosta conquistando coisas (claro, pra ele não importa de onde esse dinheiro venha). Confesso que a pós-sincronização das vozes incomoda demais, eu tenho o hábito de estar atenta ao que está sendo dito, e muitas vezes os lábios não estavam sincronizados. Mas acredito que naquela época era mais cômodo e comum esse tipo de pós-edição de montagem e som. Não prejudicou o filme em nada. Algumas críticas sociais estão muito presentes, apesar de parecer ser um filme despreocupado, a cena em que eles falam sobre as empresas que vão tirar as pessoas de suas casas para fazerem construções. O momento em que o Dino rouba a grana, mas compra presentes e leva de volta para as crianças da vila que vivem nos barracos, quase um Robin Hood da malandragem. Eu adorei a cena em que ele e a Zezé Motta estão na casa dos patrões dela, ele abrindo as portas sincronizado com a música é bom demais, depois eles dois dançando Ella Fitzgerald. Eu queria namorar o Carvana em 1973 só pra ele dançar comigo igual ele dançou com a Shirley. Como pode um conquistador barato entregar mais momentos românticos do que a maioria dos homens? Essa cena foi muito leve. Inclusive, o Hugo nesse filme tem um charme em cena, não consigo imaginar outro ator no papel. Em 1 hora e meia de duração, perdi as contas de quantas pessoas ele paquerou (lembrando que não dá pra ignorar, apesar de ser engraçado no roteiro, também do contexto e da época, em alguns casos soa como assédio e o jeito que ele fala de mulheres com os amigos como machismo. Olhando do nosso contexto atual, falas como a de que o corpo da esposa tá se acabando (Babaloo), mulher como troféu de partida, ele pedindo pra ela expor o corpo em troca da pizza, são péssimas. Embora o próprio enredo traga certa redenção quando a gente vê que ele é gente boa, mas vale a menção). Algumas frases do nosso "filósofo" que me mataram de rir: "aquela ali é um bagulho perto de você minha santa", "Não desperta o gigante, não desperta o gigante", "cobra que não anda, não engole sapo", "Camões, comendador? Não. Dom Gustavo, poeta espanhol e aventureiro", "Dona Heloísa, me devoras o coração". A maior ironia é ele cantar "vai trabalhar, vagabundo" pra todo mundo, e ele mesmo não trabalha, e ainda responde "eu não vou que eu não sou louco. Ou sou?". Uma cena muito fluída é a que eles estão contando o que acontecia no passado no bar, eles andando e interagindo com o passado. Cinema! Outra que gostei foi no final, o bar é o elemento central físico, as sequências entregaram tudo: saudade, felicidade, tensão, brigas, silêncio, conveniência, tiroteio, bandidagem, romances. A direção das cenas com muitos atores em cena são muito boas. É um caos, mas muito bem organizado por quem sabe o que está fazendo. Nelson Xavier, Paulo César Peréio e Valentina Godoy também brilharam muito. E misericórdia, como essa Valentina é bonita, não conhecia essa atriz. O filme exala liberdade, liberdade de corpo, de alma, de mente. Isso é atraente demais. O roteiro conseguiu fazer duas pessoas comendo pizza e tomando cerveja ser extremamente sexy. O filme começa em p&b indicando a cor que a vida perde quando se está preso e se encerra com cores, calor, sorrisos na escadaria e no calçadão do rio. Que coisa linda! Esse filme merecia mais visibilidade, nunca fui ao Rio e me senti moradora de lá, mesmo caótico, é muito aconchegante. Na música final ouvi o nome dos personagens, fui pesquisar e vi que o Chico Buarque compôs especificamente para a obra, achei muito legal, gostei muito dessa energia toda de 1973. Se amanhã eu acordar querendo usar só calça flare, cabelo desleixado de rockstar dos anos 70 e passar o dia jogando sinuca, a culpa é desse filme.
Carvana
3.6 5Que coisa boa ouvir o Carvana, ir vendo as imagens e documentos dos anos 70 e 80 e a evolução do cinema brasileiro.
O que mais gosto no Carvana é que ele não conta mentira nos filmes, ele mostra a realidade brasileira, muita gente precisa do jeitinho brasileiro pra ter o mínimo pra viver. Ele debocha da burguesia sempre que pode. Trilha sonora maravilhosa! Por trás do sorriso do malandro existe desigualdade e luta, é preciso usar toda a malandragem que puder pra sobreviver. Essa é a essência do Lourival, no filme Vai Trabalhar, Vagabundo, que, inclusive, foi corajoso em confrontar a ditadura e mostrar no filme um Brasil real. Isso é resistência!
A melhor música da trilha do documentário retrata tudo o que o Carvana pensa e representa como militante e amante da Democracia, já que ele foi ativista, e mesmo depois do sucesso continuou usando a sátira e o humor como armas políticas para trazer luz para as pessoas que nem sabiam o básico sobre consciência de classe. Gosto muito dessa música, ela é tão forte, toca na ferida sem dó.
"Canção do subdesenvolvido", por Carlos Lyra, 1962:
[...] Santa Cruz...hoje o Brasil
Mas um dia o gigante despertou
Deixou de ser gigante adormecido
E dele um anão se levantou
Era um país subdesenvolvido
Subdesenvolvido, subdesenvolvido.
[...] O povo brasileiro embora pense, dance e cante
como americano
Não come como americano
Não bebe como americano
Vive menos, sofre mais
Isso é muito importante
Muito mais do que importante
Pois difere os brasileiros dos demais
Personalidade, personalidade
Personalidade sem igual
Porém... subdesenvolvida, subdesenvolvida
E essa é que é a vida nacional!
Avatar: Fogo e Cinzas
3.5 355 Assista AgoraJames Cameron não brinca em serviço! Um dos filmes com os visuais mais lindos que eu já vi no gênero. Uma obra de arte! A história deste me cativou mais que a dos outros dois. [Spoilers] A Varang é uma ótima vilã, deu muito certo ela com o Coronel Miles, que quem diria... se apaixonou! Hahahh. O Coronel aqui tem novas camadas e desperta vários sentimentos na gente, ódio, empatia, desespero, humanidade (ou pelo menos uma tentativa), tristeza, dó. Acho que o personagem se despede muito bem da saga. Do filme todo o desenvolvimento dele é um dos meus favoritos, o enredo investiu muito e o resultado ficou ótimo. Alguns personagens tiveram um tempo considerável de tela e não entregaram tanto. Na minha opinião o Jack Champion, que faz o Spider é engolido pelos outros atores. Os efeitos visuais também deram um toque de expressividade muito grande para os personagens digitais, o que potencializa ainda mais o contraste com a atuação dele, que parece travada, falta intensidade emocional quando comparado ao resto do elenco, falta carisma pra segurar tanto tempo de tela. O Stephen Lang entrega muito em cena, não teve nenhuma cena que ele não marcasse território e comprovasse o talento que tem. O ator conseguiu entregar um vilão intimidador, mas que conquista a gente, que se vê torcendo o tempo todo pela redenção dele e fica triste quando vê ele preferindo se jogar no fogo (ainda acho que ele deve sobreviver) do que aceitar que perdeu a Guerra. Um cara que viveria muito bem ali no meio deles, mas que sempre foi tomado por memórias passadas que lá no fundo, nem importavam nesse nível, mas ele se apegou tanto àquilo e transformou em destino. Ele acabou virando uma versão de tudo o que mais odiou por tanto tempo. Ansiosa para ver ele nos dois próximos capítulos, já que o ator confirmou que vai estar. Gostei muito da humanidade que vem sendo construída no personagem quando está junto com o Spider. O Quaritch está psicologicamente abalado, mas como já saiu por aí falando que é impiedoso e que tem zero misericórdia se sente inferior se voltar atrás. O Lo'ak amadureceu tanto, o filme desenvolve essa trajetória muito bem, mesmo que os meios para isso tenham sido a teimosia, rebeldia e ter que enfrentar todos os adultos, ele tinha um ponto e foi atrás até provar que estava certo e todo mundo respeitar. Os filhos do Jake em vários momentos acabam agindo como mãe e pai um dos outros, acho legal como o filme faz isso de forma natural, não como se fosse algo errado, mas mostrando que está tudo bem ser quando a família tá no meio de uma Guerra. Os Na'vi tem muito isso, essa independência, é cada um por si, mas se alguém mexer com você, todo mundo vai estar ali. Senti negligência por parte do Jake em alguns momentos, o filme até trouxe essa redenção no final, ele sempre castigando o filho pela morte do outro, o coitado procura validação do pai o tempo todo, e nada. Chega uma hora que ele desiste de ser alguém como o pai e descobre uma versão de si bem melhor que a dele. Todos nesse filme têm crises de identidade, e vão resolvendo aos poucos, o bom é que o roteiro inclui a gente nessas descobertas. Direção de arte e design impecável de Dylan Cole e Ben Procter. Que coisa linda Pandora! A direção de animação e efeitos visuais me marcaram demais, eu não esperava menos do Joe Letteri já que ele esteve em O Senhor dos Anéis, ele é o melhor que temos! Edição e montagem impecáveis! O James gosta de ficar em cima, cuidando de cada detalhe, o resultado fica incrível! Tudo lindo! São 3 horas de duração sem piscar, e poderia tranquilamente ter mais duas.
Coquete
3.1 15Tive que pesquisar o que era Coquette e descobri que basicamente é (ou era) uma mulher que se arruma muito, flerta com todo mundo, mas não fica com nenhum deles, não era algo ofensivo, às vezes usado como julgamento para dizer que alguém era manipuladora ou vaidosa, mas só. Acho que o termo de hoje mais próximo seria o biscoiteira. Achei que a personagem seria fútil do início ao fim, mas em certo momento a atuação da Mary Pickford entregou profundidade. Considerando que o filme é um dos primeiros migrando do cinema mudo para o falado, foi um baita desafio para a carreira, acho que ela se saiu muito bem. Não ficou teatral e dramático em excesso como alguns da época, mesmo sendo uma adaptação de uma peça da Broadway para o cinema. Vi a menção ao Assistant Dramatic Director Earle Browne nos créditos do início, nunca tinha visto nos outros filmes antigos que estou assistindo, pesquisei e foi um termo criado para nomear quem ajudasse a adaptar o filme para o cinema falado, o técnico e o artístico, esse cargo era pra quem fazia a transição, garantindo que nada se perdesse nas atuações e nos sons. Equilibrando a dramatização em todos os aspectos do filme, sem exageros e sem a falta dele. A direção de fotografia é mais estática do que a maioria dos filmes anteriores de cinema mudo, acredito que pela da falta de locomoção da câmera mesmo, por conta de ruídos ou peso. Não é ruim para o filme, até combina, dá uma sensação de sufocamento dentro da casa e da vida da protagonista, que é um caos emocional. Uma casa cheia de hipocrisias, assim como a sociedade dos anos 20. As mulheres criaram coragem de cortar o cabelo (as flappers) ali em 1918, 1929 está bem pertinho, então a sociedade ainda via isso com cara feia, muito corajoso a Mary cortar o cabelo longo e se arriscar em um papel totalmente diferente dos fofinhos que fazia. Vi que ser Coquette não era necessariamente mal visto, claro, no meio dos ricos, assim como hoje em dia, vai um pobre fazer o que quer, é julgado em tudo. Mas a riquinha da época que decidisse ficar com todo mundo, encher a cara, etc, não se dava mal, desde que ninguém descobrisse, já a pobre, era jogada na sarjeta, perdia a vida social (que nem tinha) e nunca mais arrumava ninguém. Me pergunto se tudo isso tivesse acontecido entre a Norma e o Stanley, se o pai dela faria algo. Provavelmente não. Analisando a personagem Norma, é uma pessoa muito mentirosa e manipuladora, brinca com os sentimentos de todo mundo pra manter o próprio ego em dia. Um século depois e muita gente ainda faz o mesmo. Acho que nem ela achou que algo que era pra ser só curtição resultaria nela viúva e órfã, virando mãe do irmão. O filme tem dois pontos fortes de atuação pra mim, quando ela perde o Michael e quando ela mente no tribunal. Quando ela perde ele e se sente desolada e diz "I don't care" sobre o pai, dá pra sentir os primeiros indícios de que havia sentimento real ali. Quando ela mente a gente vê que o medo da repressão social e tentativa de agradar o pai era maior que qualquer ponta de caráter. Fiquei sem acreditar que ela teve coragem de acusar um cara tão bom de abuso sexual. Pesado! Imagino a revolta do povo de 1929 assistindo isso, basicamente todo mundo ali assistindo se importava horrores com a própria honra, honra essa que definia quem você era, onde trabalhava, quem andava com você, em quais lugares era bem-vindo, etc. O espectador sabia que a maior dor da época era ter a honra manchada, acabava com a família. Tudo em prol de manter as aparências de uma vida tradicional e hipócrita do lar conservador (que de conservador não tinha nada). Não sei como ela conseguiu, porque nem o pai, que era super egoísta e preconceituoso, conseguiu ver ela inventando tamanha falta de respeito contra o Michael, caiu em si e percebeu o mini monstro que criou (cópia dele). O pai é tão culpado quanto, um cara que prefere tirar a própria vida do que ser preso e encarar as consequências de seus atos. Ninguém saiu ganhando. O Michael era a única pessoa que tinha integridade, o resto, cada um tinha seus traços tóxicos. Para o pai, a reputação da família e a virgindade da Norma eram mais importante que tudo, inclusive, vidas. Mas me pergunto, se ela tivesse feito tudo isso com o Stanley, que era rico, ele faria vista grossa e seria o primeiro na fila do cartório de manhã querendo casar os dois. Hipócrita! Quando a Norma mente sobre o abuso, acho que ele entende que a honra que ele tanto queria salvar matando o Michael não existia, ela era mentirosa e desonesta, assassinou um cara legal e inocente em troca de nada com nada, de controle moral. A filha era um troféu, uma bonequinha que ele idealizava como pura, mesmo vendo ela dando condição e recebendo flores de vários caras. Tanto o pai, como a filha, destruíram tudo que diziam amar. Fora que usava dois pesos e duas medidas entre os filhos, quando o filho homem fala que estava "fooling around" até 4 da manhã, e ele achou que era acompanhado de mulher, ele se mostrou super orgulhoso do filho e a raiva evaporou em segundos. Homem galinha? "Esse é meu garoto". Mulher apaixonada por alguém que ele não quer? Crime. Moral seletiva: qualquer semelhança com os dias de hoje é pura coincidência. Dinâmica familiar totalmente disfuncional. A Norma busca por validação externa de todos com quem flerta pra tentar fugir do ambiente sufocante que o pai cria. Mentira patológica, a solução que ela encontra pra tudo é mentir, isso, até a cena final. Como o pai é super repressor, ela entende que precisa criar um mundo fake onde agrade todo mundo, principalmente ele. Ainda mais naquela época, onde a narrativa dos pais é a que valia na vida de alguém. Na verdade ela usa as mesmas ferramentas de manipulação que aprendeu com o pai. É importante na cena final o filme mostrar a Norma recusando o casamento com o Stanley, pois mostra que após todas as mortes, houve um colapso total na persona que ela criou, os flertes, namoros e casamentos não eram mais importantes, ficou só o vazio da solidão e da melancolia das perdas. As prioridades mudaram. O amor, mal administrado, acabou envenenando as pessoas e a saúde mental de todos os envolvidos. As atuações dos pretendentes, dos atores John Mack Brown e Matt Moore são bem medianas, ficam ali quase como figurantes, a Mary se sobressai em todas as cenas. Atuações mecânicas demais, muito teatrais, no mal sentido. Já ela, mesmo vindo do cinema mudo que é muito teatral e expressivo com o corpo, soube equilibrar, principalmente do meio para o final. Sobre o Oscar que ela ganhou. Se não fosse uma pessoa poderosa, influente e dona do estúdio United Artists, ela teria ganhado? Fica aí o questionamento, pelas atuações que vi da época em filmes de 1928 e 1929, não achei que a dela nesse filme merecia um Oscar. Isso, considerando o meu pensamento atual. Talvez em 1929 as pessoas acharam o filme incrível e viam ela como pobrezinha que sofre na trama e o pai como homem que se matou pela honra. Um destaque pra mim é a atuação do John St. Polis, muito polida, só abria a boca pra me irritar, e isso é bom. O filme não é tão ruim, considerando a época. Mas levar Oscar?
Rainha de Copas
3.8 109 Assista AgoraManipulação emocional em seu mais alto nível! [Spoilers] Como essa mulher teve coragem de arrumar as malas e fazer todo aquele drama, sabendo que estava mentindo em cada palavra? Medo de gente assim. Ela ignorou qualquer traço de humanidade que restava, tudo isso pra proteger o próprio ego das consequências das escolhas que tomou. Fora, claro, o crime do abuso da relação de confiança e autoridade, vindo da responsável legal. Abuso de vulnerabilidade emocional e familiar, assédio sexual hierárquico. Um marido machista que foi baixando a guarda no decorrer da trama para se adaptar às necessidades dela e do filho. Muito omisso e frio, que não entregava um pingo de afeto, mas mesmo com todos os defeitos, consegue a empatia do espectador, por estar sendo duplamente traído. Magnus Krepper não entrega a melhor atuação quando comparado com a Trine Dyrholm que engole todo mundo nas sequências. Você sabe que a atuação foi boa quando sente repulsa e vontade de esganar o personagem. Gustav Lindh entrega o que o roteiro pede, personagem muito frágil que vive cometendo uma série de idiotices para chamar a atenção porque no fundo se sente incompreendido e consumido pela depressão (pais divorciados e ausentes, drogas, não se situa em lugar nenhum). Quando você é esse tipo de pessoa problemática, mesmo quando você fala a verdade, infelizmente ninguém acredita. Uma coisa que me pega é isso dos casarões dos ricos, essas pessoas têm uma casa enorme, mas sempre vazia, monótona, sem vida, é um loop de: trabalho em troca de uma grana que não compra nada que os faça felizes, cigarro, bebidas (whisky e espumantes), falta de diálogo, festas artificiais para receber amigos artificiais, e no outro dia a mesma coisa. A paleta de cores e a ambientação é muito boa, essa frieza estética combina com a sensação de terror e impunidade que o filme deixa na gente (de propósito). Vi a sugestão na tela inicial da minha tv entre os filmes mais vendidos da semana, fui assistir com zero expectativa, até porque não conhecia a diretora dinamarquesa May el-Toukhy, foi uma surpresa boa.