WASTEMAN Direção: Cal McMau Ano: 2025 Assistido em: 24/05/2026
Eu sou fascinado por histórias de prisão há muitos e muitos anos. Minha série favorita é Prison Break (2005–2017), meu livro favorito é O Conde de Monte Cristo, e eu me lembro de como as chamadas de Oz (1997–2003) na programação do SBT me deixavam completamente fascinado. Então, quando tomei conhecimento deste filme, fiquei com uma expectativa enorme para assisti-lo. E é muito bom quando você termina um longa percebendo que a espera valeu a pena, que ele conseguiu te cativar em todos os aspectos e entregar exatamente aquilo que prometia. Foi exatamente essa sensação que eu tive com Wasteman, e é muito gratificante quando se é recompensado dessa forma.
Taylor é um presidiário britânico que acaba criando uma relação intensa e perigosa com Dee, outro detento marcado pela violência e pela desesperança, recém-transferido para sua cela. Enquanto tentam sobreviver ao ambiente opressor da cadeia, ambos enfrentam seus próprios limites emocionais e psicológicos.
O mais interessante aqui é que a história é extremamente crua. Não existem muitos floreios nem tentativas de suavizar o que estamos vendo. O longa mostra pessoas que estão cumprindo pena, e o roteiro não perde tempo tentando criar desculpas emocionais ou cenas melodramáticas para amenizar os crimes cometidos por aqueles personagens. Não existe essa tentativa desesperada de transformar ninguém em vítima. Sabemos que todos estão ali porque fizeram algo errado e, portanto, merecem estar naquele ambiente. Não há inocentes, e o filme acompanha justamente os desdobramentos das atitudes dessas pessoas dentro daquele mundo brutal e selvagem.
Dizem que amizades construídas em situações extremas costumam ser as mais fortes, mas o roteiro também deixa muito claro que pessoas complicadas existem em qualquer lugar. E essa talvez seja a principal mensagem da história: ter cuidado com quem colocamos para dentro da nossa vida, com quem confiamos nossos medos, fragilidades e segredos. Muitas vezes, sem perceber, acabamos entregando armas para que essas pessoas usem contra nós no futuro.
Como protagonistas temos a excelente dupla David Johnson e Tom Blyth (um verdadeiro espetáculo aqui). Eu já conhecia o trabalho de ambos em outras produções, mas aqui sinto que os dois entregam performances muito mais maduras e intensas. Existe uma entrega emocional muito maior, e acredito que, se continuarem sendo desafiados com papéis assim, ainda podem apresentar trabalhos extremamente interessantes no futuro. A direção também merece elogios por construir um clima genuinamente claustrofóbico. Os espaços são apertados, a câmera permanece constantemente próxima dos protagonistas, quase nos sufocando junto com eles, e isso faz com que a gente sinta cada momento de tensão, desespero e brutalidade de maneira muito intensa.
Para não dizer que nada me incomodou, confesso que aqueles vídeos de celular inseridos entre algumas cenas, principalmente no início, me pareceram bastante deslocados e quebravam um pouco a imersão. Ainda assim, isso está longe de comprometer o resultado final.
Wasteman foi uma grata surpresa. É um filme que despertou meu interesse desde o momento em que ouvi falar dele, ainda na metade do ano passado, e só consegui assistir agora, mas a espera valeu completamente a pena. Trata-se de um drama extremamente interessante, com um roteiro que nos joga dentro de um mundo cruel, onde decisões precisam ser tomadas rapidamente para sobreviver. Toda a trajetória leva seus personagens ao limite e os obriga a tomar atitudes sem volta. E histórias assim, capazes de provocar impacto e reflexão ao mesmo tempo, representam justamente o cinema atingindo o seu ponto mais alto.
Eu sou um homem adepto a segundas chances. Costumo revisitar filmes e histórias que não me conquistaram para tentar entender se não era apenas coisa do momento. Eu assisti a Vanilla Sky (2001) há muitos anos e lembro de não ter gostado nem um pouco. Não consegui me conectar com os personagens nem com a história, e admito que tenho sérios problemas com o cinema de Cameron Crowe. Não foi o primeiro, nem o último filme dele de que eu não gostei. Então eu já estava convencido de que essa história simplesmente não era para mim. Porém, recentemente escutei num podcast elogios extremamente rasgados ao original, e resolvi dar uma oportunidade. Quem sabe esse não era um daqueles casos em que o remake era muito inferior ao material de origem? Então decidi assistir, mas, para meu azar, o mesmo descontentamento que o remake me causou também apareceu aqui.
César é um jovem rico e mulherengo que vê sua vida desmoronar após um acidente provocado por Nuria, uma mulher obcecada. Desfigurado e consumido pela paranoia, ele começa a perder a noção entre realidade, sonho e delírio enquanto tenta entender o que realmente aconteceu com sua amada Sofía e consigo mesmo.
Não vou mentir: cheguei aqui de mente aberta, querendo gostar e desejando, por tudo o que é mais sagrado, que ele fosse muito diferente de sua versão americana. Entretanto, para meu desgosto, o remake foi bem fiel, tanto que esse aqui e me incomoda exatamente nos mesmos aspectos que a versão com Tom Cruise me incomodava. É uma história lenta, arrastada, com personagens de carisma negativo e dramas superficiais extremamente chatos. O roteiro é muito focado em vaidade, na não aceitação de que nem tudo o dinheiro pode comprar e de que nem tudo está ao seu alcance. Enfim, é uma trama recheada de personagens com conflitos extremamente fúteis e uma reviravolta que, honestamente, achei completamente tirada do vento, ainda mais para um filme que parecia relativamente realista e com os pés no chão, do fim da década de 1990.
Sobre o elenco, esse talvez seja o ponto mais alto do filme. A belíssima Penélope Cruz interpreta aqui, pela primeira vez, a Sofía, personagem que reprisaria anos depois em Vanilla Sky. Porém, não existe ator bom capaz de salvar personagens tão desinteressantes, e infelizmente ninguém aqui consegue fazer milagre. Outra coisa que me incomoda bastante é o fato de César ser vendido como um conquistador irresistível, um homem absurdamente sedutor e magnético. Gente, isso até funcionava em Vanilla Sky, porque ali o protagonista era o Tom Cruise. Aqui simplesmente não existe esse atenuante, longo não convence.
Sabemos que Hollywood tem uma resistência absurda a legendas, e a solução deles toda vez que um filme faz sucesso em outro país é produzir uma versão própria. Eu particularmente sou bastante avesso a isso, mas sou obrigado a admitir que, muitas vezes, eles entregam trabalhos excelentes e, em alguns casos, até superiores aos originais. Como eu disse, eu não gosto do remake, mas jamais imaginei que um dia acharia o original ainda mais fraco. E foi justamente isso que me deixou perplexo. Sobre essa história, acredito que duas chances já foram mais do que suficientes, porque infelizmente ela jamais terá uma terceira comigo.
JACK RYAN: GHOST WAR Direção: Andrew Bernstein Ano: 2026 Assistido em: 24/05/2026
Jack Ryan é um personagem icônico da literatura que foi levado ao cinema inúmeras vezes, com inúmeros intérpretes. Entretanto, a franquia não estava no auge da popularidade na década passada, e os detentores dos direitos resolveram reavivá-la na televisão, desta vez com John Krasinski no papel. O que foi uma ideia muito boa e acabou gerando uma primeira temporada bastante sólida e muito bacana de assistir. Porém, o sucesso levou o show a ser renovado para novas temporadas que infelizmente não conseguiram acompanhar o mesmo ritmo da primeira, e a acabou terminando sem muito do prestígio que tinha conquistado no princípio. Portanto, o anúncio de um filme não soou lá muito bem aos ouvidos, mas eu decidi dar uma chance de qualquer forma.
Jack Ryan é forçado a voltar ao mundo da espionagem quando uma missão internacional encoberta revela uma conspiração mortal ligada a uma unidade clandestina fora de controle. Ao lado de poucos aliados, ele precisa impedir um ataque enquanto enfrenta traições e fantasmas do próprio passado.
Apesar de as coisas já terem mudado muito, Hollywood ainda tem uma questão elitista muito forte de que cinema é a "primeira classe" e TV são os produtos de qualidade duvidosa. E nós sabemos que isso não é verdade, porque existem séries espetaculares. Mas mesmo assim, resolveram fazer um filme protagonizado pelo Krasinski, já que ele era o único intérprete do personagem que ainda não tinha estrelado um longa-metragem. O problema é que a série-mãe já vinha dando sinais de desgaste, e as últimas temporadas tinham sido muito fraquinhas. Então, trazer esse personagem para um longa demandava um roteiro que realmente justificasse a existência do projeto, e não foi o que aconteceu. A impressão que eu tive foi a de assistir a um episódio de uma hora e quarenta minutos de um show que já tinha dado o que tinha para dar, há muito tempo.
Não há nada de novo aqui. Estão presentes todos os clichês possíveis de cinema de ação: o agente aposentado que é obrigado a retornar ao serviço, o pedido de ajuda de um velho amigo, a missão que só ele consegue cumprir, a organização que deveria apoiá-lo se voltando contra ele, viagens incessantes de um lado para o outro. Enfim, é uma amálgama de tudo o que vemos em no gênero há pelo menos vinte anos. E, se você não tem um motivo real para contar uma nova história, para que mexer nisso? Apenas requentar algo que já estava frio há muito tempo?! Não faz sentido algum.
Eu gosto do John. Sou fã dele desde que conheci The Office (2005–2013). Ele também é um ótimo diretor, mas, convenhamos: entre todos os Jack Ryans, e foram muitos, infelizmente o dele está entre os mais fracos. O que é uma pena, porque seria muito bom vê-lo protagonizando um filme da franquia que realmente fosse planejado e executado como uma produção cinematográfica, e não como um arremedo de série, que é exatamente o que vemos aqui. Espero que ele deixe as ondas levarem esse barco e foque em outros rumos da carreira. O personagem precisa descansar um pouco e, quem sabe, no futuro possa retornar com outro intérprete e uma nova equipe criativa por trás. Porque Jack Ryan é um personagem bacana, gostoso de acompanhar, mas nesta Ghost War o resultado foi um verdadeiro desastre.
LEE CRONIN'S THE MUMMY Direção: Lee Cronin Ano: 2026 Assistido em: 23/05/2026
Como cria dos anos 90, meu primeiro contato com uma história de múmia foi no episódio clássico do Chapolin e, mais tarde, com o clássico do Stephen Sommers protagonizado por Brendan Fraser e Rachel Weisz. Então é óbvio que múmias são um dos meus monstros clássicos favoritos. Toda vez que anunciam um filme envolvendo essa criatura, eu vou atrás cheio de expectativa, animado, querendo adorar como adorei o de 1999. E geralmente eu quebro a cara quase todas as vezes. Ainda assim, meu fascínio por esse tipo de história nunca diminuiu. Eu não tive a oportunidade de assistir a esse nos cinemas, porque ele não chegou à minha cidade, mas assim que saiu nas plataformas digitais fui correndo conferir. E puta que pariu, eu não podia ter ficado mais indignado com o que encontrei.
Após o desaparecimento da filha Katie enquanto viviam no Egito, Charlie Cannon e sua esposa Larissa passam anos tentando lidar com a tragédia. Quando a garota reaparece misteriosamente dentro de um antigo sarcófago, o casal logo percebe que algo maligno voltou com ela.
Gente, lendo um pouco dos bastidores do filme, descobri que o título original nem era The Mummy. Era outra coisa qualquer, até que os executivos surtaram e resolveram transformar isso em um filme de múmia, com direito a egomania no nome e tudo. E isso fica completamente evidente na história, porque o que nós temos aqui não é uma história de múmia. Nós temos uma história de possessão. Isso aqui poderia facilmente ser encaixado no subgênero de exorcismo ou virar uma daquelas infinitas porcarias genéricas dos spin-offs de Invocação do Mal, mas jamais deveria carregar o nome de "A Múmia".
A história mal se passa no Egito ou em qualquer outro país que tenha alguma ligação histórica com múmias. A menina nem morta de verdade está. Ela não tem milhares de anos, ela é só uma adolescente. A maquiagem é horrível, o visual da criatura não faz o menor sentido e o roteiro insiste em transformar tudo numa trama sobrenatural genérica que poderia servir para literalmente qualquer outro monstro.
E eu sei que existem diferentes interpretações da criatura no cinema. Existe o modelo clássico criado lá nos anos 1930 com Boris Karloff, e desde então já fizeram mil releituras diferentes. Só que você espera que algumas regrinhas básicas sejam respeitadas. Como diria o Chapolin, uma múmia precisa ser "bastante egípcia", antiga e, no mínimo, enrolada em ataduras. Mas aqui, meu Deus, é tudo tão esquizofrênico e desconexo que parece que ninguém sabia que estava fazendo.
Tudo funciona mal. A fotografia é escura de um jeito irritante, os personagens são insuportáveis, não existe carisma algum e você simplesmente não se importa com ninguém daquela família. Sinceramente, se morressem todos, talvez a história até melhorasse. Eu gosto muito do Jack Reynor e da Laia Costa, mas a química deles aqui é nula. Outro problema gigantesco é a trilha sonora, que não ajuda em absolutamente nada na construção do clima de tensão. A edição é sofrível. O filme tem mais de duas horas e parece não sair do lugar nunca. Faltou uma tesoura muito afiada para cortar pelo menos quarenta minutos dessa enrolação.
Os sustos são os mais ordinários possíveis, exatamente daquele tipo que você encontra em qualquer terror genérico lançado semanalmente nos cinemas ou streamings. E é até cansativo ficar aqui só reclamando, mas sinceramente eu não consigo encontrar quase nada que funcione nesse desastre.
Mas uma coisa eu não vou permitir: esse filme mequetrefe não vai destruir o meu fascínio por múmias. Inclusive, estou extremamente animado para o ano que vem, quando teremos o retorno da franquia noventista com Brendan Fraser e Rachel Weisz. E eu realmente espero não me decepcionar, porque os dois originais têm um valor afetivo gigantesco para mim.
Não cheguei aqui esperando uma grande aventura. Sei que a propostas era completamente diferentes. A ideia era fazer terror mais clássico. Mas eu esperava pelo menos o básico do que já está estabelecido sobre o conceito de uma múmia. E infelizmente não existe absolutamente nada disso aqui. A decepção bateu forte. E espero sinceramente que essa porcaria desapareça da minha cabeça o mais rápido possível.
Infelizmente eu não consegui assistir a esse filme lá em 2017, quando estava correndo atrás de todos os indicados ao Oscar daquela temporada. Com isso, o tempo passou, meu interesse arrefeceu e ele acabou ficando para trás. Só que ele nunca saiu da minha listinha de pendências, e finalmente olhei para ele novamente e decidi que era hora de assisti-lo. E caramba, como eu me arrependo de não ter ido atrás antes, porque fiquei simplesmente encantado com o que encontrei, principalmente com a força dessa história.
Katherine Johnson, Dorothy Vaughan e Mary Jackson são três brilhantes matemáticas que trabalham na NASA durante a corrida espacial dos anos 1960. Enquanto enfrentam o racismo e o machismo dentro da instituição, elas se tornam fundamentais para uma das missões mais importantes da história americana.
Hidden Figures é um filme que mexe com você em diversas camadas. Primeiramente, você fica indignado ao ver, mesmo que minimamente, o quão nojentos eram o preconceito e a segregação racial existentes no início da década de 1960. Não que hoje em dia isso também não exista e continue sendo asqueroso, mas é assustador lembrar que naquela época o racismo era praticamente legitimado pela própria lei. Ao mesmo tempo, o roteiro nunca descamba para o excessivamente dramático. Ele expõe muitos dos problemas da época, não tantos quanto deveria, talvez, mas não deixa que isso sobrecarregue a história.
Nós temos três protagonistas e, mesmo diante de inúmeras injustiças, elas levam a vida com muita leveza. Você não vê cenas delas sofrendo caladas; pelo contrário, elas são reativas, vão atrás, lutam e se impõem da maneira que podem. E essa é justamente a parte recompensadora, porque o filme não se resume apenas ao sofrimento. Existe também a satisfação de ver essas três mulheres negras, sendo, como a própria Mary diz, “as primeiras”. E isso é muito gostoso de assistir.
É revoltante que essa história só tenha chegado ao grande público nas últimas décadas e que, por mais de quarenta ou cinquenta anos, o mundo simplesmente não conhecesse o trabalho delas. E aí vem o questionamento: quantas Katherines, quantas Marys e quantas Dorothys não existem por aí, com trabalhos pioneiros, revolucionários, que nunca receberam o devido reconhecimento? Isso é triste. E, por mais que o filme seja uma celebração à vida delas e de todas as mulheres que trabalharam na NASA, o que é extremamente positivo e merece ser celebrado, ainda dói perceber que, para algumas pessoas, apenas por causa do gênero, da cor da pele ou do local onde nasceram, a estrada é muito mais complicada. É muito impactante a cena em que Mary fala que, se fosse um homem branco, ela não precisaria nem sonhar em ser engenheira, porque simplesmente já seria uma. Isso é brutal de assistir.
A parte técnica é brilhante. Os figurinos são muito bem feitos, os cenários e objetos remetem bastante à década de 1960, e você consegue comparar com fotos reais e perceber que existe uma preocupação evidente com a precisão histórica. A edição e a montagem são maravilhosas, extremamente dinâmicas, e até mesmo cenas desesperadoras, como as várias vezes em que Katherine precisa correr para usar o banheiro, acabam ganhando um tom levemente divertido e descontraído. E acredito que essa era justamente a intenção do roteiro, porque é impossível não rir em certos momentos, o que ajuda a desarmar o peso sem diminuir a gravidade da situação. E claro, tudo culmina naquela cena maravilhosa em que ela finalmente explode e fala sobre o problema sem medo.
A direção sabe extrair o melhor do elenco. E que elenco. Mesmo nos papéis menores, há atores extremamente talentosos entregando performances excelentes. Mas obviamente o trio de protagonistas, Taraji P. Henson, Octavia Spencer e Janelle Monáe, está simplesmente irretocável.
Eu só não dou uma nota ainda mais alta porque existem dois pontos que infelizmente me incomodaram e que não consigo deixar passar despercebidos. O primeiro é que senti uma suavização muito grande no retrato do racismo institucional dentro da NASA. Em muitos momentos, parece que todo mundo ali era compreensivo, amigável e bonzinho. Não sei se isso partiu de um receio dos roteiristas por estarem lidando com pessoas reais, mas achei tudo muito condescendente, principalmente sabendo que a realidade provavelmente era muito pior.
O segundo ponto é a trilha sonora. E me dói na alma dizer isso, porque Hans Zimmer é o meu compositor favorito da vida. Só que este talvez seja um dos trabalhos mais anêmicos dele que eu já ouvi. A trilha simplesmente não aparece. A única cena em que ela realmente chama atenção é durante o lançamento do Mercury-Atlas 6. De resto, é tudo muito apagado e sem impacto.
Eu adorei Hidden Figures e me arrependo muito de não ter assistido a ele antes. É um filme que, depois de todas as pancadas, te recompensa. E no final o saldo é extremamente positivo quando você vê que aquelas três mulheres conseguiram deixar sua marca e finalmente receberam reconhecimento, tardio, infelizmente, mas ainda assim merecido. É muito bom saber que a história delas saiu do anonimato, ganhou o mundo, ganhou um livro, ganhou um filme indicado ao Oscar e foi tratada com muito cuidado, carinho e respeito.
Esse é daqueles títulos que deveriam ser obrigatórios, que todo mundo deveria assistir. Esse sim merecia fazer um puta sucesso, e não tanta tranqueira que vemos por aí. Mas infelizmente a vida é injusta, assim como foi muito injusta com as nossas protagonistas. Ainda assim, acredito que qualquer pessoa que o descubra, vai terminá-lo com um sorriso de orelha a orelha. E isso não tem preço.
MONSTER-IN-LAW Direção: Robert Luketic Ano: 2005 Assistido em: 17/05/2026
Eu lembro que, no final da década de 2000, o SBT repetia esse filme em várias ocasiões, mas eu nunca tive a oportunidade de assistir. Ainda assim, eu ficava interessado, afinal uma comédia que coloca uma nora contra a sogra é um tropo bastante comum no humor e, se bem executado, pode render grandes gargalhadas. Entretanto, eu nunca tinha parado para assistir até que, zapeando pela HBOMax, encontrei o filme e decidi finalmente dar uma chance. Só não imaginava que fosse me arrepender amargamente disso.
Charlotte finalmente acredita ter encontrado o homem perfeito ao ficar noiva de Kevin, mas tudo muda quando conhece Viola, a mãe dele. Incapaz de aceitar a ideia de perder o controle sobre o filho, Viola transforma a vida da futura nora em um verdadeiro pesadelo, usando manipulações, humilhações e armadilhas para destruir o relacionamento. Enquanto Kevin tenta equilibrar a situação, Charlotte se vê presa em uma disputa cada vez mais absurda e agressiva.
O mínimo que uma comédia precisa fazer é ser engraçada. Ela não precisa necessariamente ser hilária a ponto de arrancar lágrimas de tanto rir, mas ao menos alguns sorrisos discretos deveriam surgir naturalmente. Quando você passa uma hora e quarenta minutos sem sequer esboçar a menor reação, é porque existe um problema muito sério. E foi exatamente isso que aconteceu comigo aqui. Os personagens são tão ruins e irritantes que simplesmente se torna impossível se divertir com qualquer coisa que acontece.
Lendo algumas curiosidades no IMDb, descobri que esse foi o primeiro filme de Jane Fonda em quinze anos e que ela aceitou participar mesmo sabendo que o roteiro era ruim. E sinceramente, se ela própria reconhecia isso, por que eu fingiria o contrário? Porque este filme é de uma chatice impressionante. Nada do que acontece na história desperta interesse, e todos os planos elaborados por Viola para prejudicar Charlotte são bobos, sem graça e extremamente infantis. A impressão que tive é que essas situações foram escritas por crianças de dez anos de tão pouco refinadas que são.
A direção de Robert Luketic é completamente insípida. Até dou um desconto por ser um dos primeiros trabalhos dele, já que no futuro conseguiria entregar produções mais interessantes, mas aqui tudo parece artificial e sem personalidade. Sobre o elenco, a única observação que consigo fazer é que Jane Fonda é atriz demais para um material tão fraco, e sinceramente, esperar quinze anos para retornar ao cinema com um projeto desses chega a ser deprimente. Jennifer Lopez entrega exatamente o que o roteiro pede dela, e Michael Vartan também não compromete completamente, mas nada aqui funciona de verdade.
Esse é facilmente um dos piores filmes que assisti neste ano. E eu sei que a recepção dele lá em 2005 já tinha sido bastante negativa, mas nunca é demais reforçar: ficou ruim mesmo. Passei mais de vinte anos curioso para descobrir como seria essa joça, e a única conclusão a que chego é que teria sido muito melhor continuar sem matar essa curiosidade. Simplesmente horripilante.
CHEAPER BY THE DOZEN Direção: Shawn Levy Ano: 2003 Assistido em: 17/05/2026
Assisti a esse filme pela primeira vez em meados dos anos 2000, provavelmente em um domingo à tarde na TV Globo. E, sendo adolescente, eu não tinha muita bagagem ou conhecimento para discernir o que era um filme realmente bom de algo apenas mediano. Entretanto, quando decidi reassistir a Doze é Demais, fui de coração aberto, decidido a gostar da mesma forma que gostei no passado. Só que o amadurecimento faz a gente enxergar o mundo por outras perspectivas.
Tom e Kate Baker vivem tentando equilibrar a rotina caótica de criar doze filhos extremamente diferentes entre si. Quando uma grande oportunidade profissional surge para os dois ao mesmo tempo, a família inteira acaba mergulhando em uma sequência interminável de confusões, rivalidades e desastres domésticos. Enquanto tentam manter a união da casa, os pais precisam lidar com as dificuldades da convivência, os problemas da adolescência e os desafios de administrar uma família enorme sem deixar que o amor entre todos se perca no caos diário.
Honestamente, eu sei que este filme é um remake de um clássico da década de 1950, que por sua vez é uma adaptação de um livro levemente inspirado em uma história real. Obviamente existem extrapolações intencionais, porque o cinema precisa entreter o público acima de qualquer coisa. Mas infelizmente essa versão de 2003, apesar de ainda ter um lugarzinho especial na minha memória afetiva, não funcionou comigo dessa vez. Eu consegui esboçar alguns sorrisos discretos aqui e ali, mas gargalhar ou realmente achar graça foi algo que simplesmente não aconteceu.
O mais impressionante para mim nem foi o fato de o casal precisar dar conta de doze crianças — o que já seria um pesadelo para qualquer adulto funcional. O mais surpreendente é perceber como praticamente todos esses filhos conseguem ser completamente insuportáveis. Com exceção da mais velha, não existe um minimamente tolerável. Quando eu era criança/adolescente, tinha horror ao personagem do Ashton Kutcher, mas hoje em dia eu consigo entendê-lo. Não concordo totalmente com seu comportamento, mas entendo-o. São vários monstrinhos fazendo barbaridades o tempo inteiro enquanto os pais simplesmente passam a mão na cabeça.
Entendo que o modelo de criação norte-americano é diferente do nosso no Brasil, mas é impossível não pensar que, em terras tupiniquins, essa história dificilmente aconteceria da mesma forma, porque essas crianças certamente não teriam o mesmo comportamento.
Eu sei que tudo isso pode soar como papo de adulto chato, mas infelizmente, quando você ultrapassa certa idade, fica impossível não analisar as coisas com um olhar mais crítico. Reassistir a esse filme tantos anos depois me deixou com a impressão de que praticamente todos os personagens são insuportáveis e de que muitos dos problemas daquela família seriam evitados se existissem mais limites dentro daquela casa. Ainda assim, creio que esse seja exatamente o tipo de produção que te conquista de uma maneira na juventude e ganha um significado completamente diferente na vida adulta. Afinal, as pessoas mudam, amadurecem e passam a enxergar determinadas situações sob novas perspectivas. E, sinceramente, isso é absolutamente normal.
FACES OF DEATH Direção: Daniel Goldhaber Ano: 2026 Assistido em: 16/05/2026
Nos anos 2000, tivemos uma verdadeira onda de remakes e reboots de clássicos do terror. Faces of Death nunca foi exatamente um grande clássico do gênero, mas sempre esteve naquela lista dos filmes mais peculiares. Quando anunciaram esse "remake", eu não estava nem um pouco interessado, mas confesso que as boas críticas me fizeram ir atrás dele. E acontece aquele velho problema: quando você cria expectativa demais e ela não é atingida, a decepção acaba sendo muito maior.
Margot trabalha moderando vídeos violentos para uma plataforma, removendo conteúdos perturbadores diariamente. Sua rotina muda quando ela encontra gravações extremamente realistas que parecem recriar mortes famosas do antigo Faces of Death. Conforme novos vídeos surgem, Margot passa a desconfiar que os assassinatos podem estar acontecendo de verdade. Obcecada em descobrir quem está por trás das filmagens, ela mergulha em uma investigação perigosa que a coloca diante de um assassino cruel, disposto a transformar violência real em entretenimento para a internet.
Levando em consideração a proposta do original, creio que essa atualização foi muito bem pensada. Não temos mais vídeos avulsos e desconectados; agora tudo está ligado a uma narrativa central. O problema é que, honestamente, eu não consegui me importar muito com a trama apresentada.
Temos uma protagonista que tenta fazer o correto e encontrar esse serial killer completamente perturbado, que, convenhamos, mata pessoas de maneiras criativas. Ainda assim, eu simplesmente não consegui me conectar com a história nem dar muita importância ao que estava acontecendo. E nem acho que seja um problema de atuação, porque Barbie Ferreira está bem no papel. A questão é que a personagem nunca convence completamente.
Por outro lado, Dacre Montgomery entrega uma figura interessante, mas muito caricata. É uma pena que o roteiro não dê nuances suficientes para que ele consiga fugir dos estereótipos clássicos de serial killer desequilibrado.
Honestamente, eu esperava muito mais deste longa, principalmente por causa das críticas positivas e também porque praticamente todo ano surge algum terror pouco comentado e de baixo orçamento que explode de maneira inesperada e acaba se transformando em um grande sucesso. Entretanto, essa nova versão do original dos anos 70 definitivamente não será esse filme. Dentro do contexto de 2026, essa vaga continua em aberto.
1917 Direção: Sam Mendes Ano: 2019 Assistido em: 16/05/2026
Recentemente li um livro sobre a Primeira Guerra Mundial e fiquei com o hiperfoco nesse assunto mais uma vez, já que essa não foi a primeira ocasião em que isso aconteceu. Quando terminei a leitura, fui atrás de alguns títulos que retratassem um pouquinho de toda aquela carnificina que, nas páginas, tem um outro peso. Foi aí que percebi que nunca tinha assistido a 1917, um dos filmes mais famosos da era atual sobre esse conflito, então fui atrás com muitas expectativas, e é muito bom quando você pode dizer que elas foram devidamente atendidas.
Dois jovens soldados britânicos recebem uma missão quase impossível durante a Primeira Guerra Mundial: atravessar território inimigo para entregar uma mensagem capaz de impedir um ataque devastador. Correndo contra o tempo, eles enfrentam trincheiras destruídas, armadilhas, cadáveres e o constante risco da morte em uma jornada marcada pelo desespero e pela urgência. Enquanto avançam por um cenário devastado pela guerra, ambos precisam lidar com o medo, o cansaço e a pressão de salvar centenas de companheiros antes que seja tarde demais.
O filme parte de uma história simples, mas que exige uma execução particularmente complexa. Basicamente, temos dois soldados britânicos que recebem a missão de atravessar o campo de batalha para chegar a outro destacamento e entregar uma mensagem. Na teoria, seria uma história relativamente fácil de ser filmada, entretanto Sam Mendes decide tornar as coisas muito diferentes ao simular um plano-sequência sem cortes do começo ao fim. O tempo inteiro estamos acompanhando Blake ou Schofield, e tudo o que vemos é através da perspectiva dos dois. Isso gera uma conexão muito forte entre o espectador e os personagens, porque, quando presenciamos tudo o que eles passam, fica muito mais fácil nos relacionarmos com ambos.
O roteiro, apesar de teoricamente simples, não pega leve. É uma trama pesada, densa, e que mostra um lado brutal da guerra. Isso me pega muito, porque frequentemente temos uma visão romantizada desses conflitos, quando na verdade aquilo era uma matança sem precedentes. Os personagens estão em risco constante, e nunca sabemos em que momento algum deles pode morrer. O estado de alerta e tensão permanece no máximo o tempo inteiro.
Tecnicamente falando, tudo é esplendoroso. A direção de Mendes é espetacular, e ele consegue criar enquadramentos deslumbrantes. E é justamente aí que brilha a fotografia de Roger Deakins. Existe um momento, durante a sequência noturna em uma cidade destruída, em que vemos Schofield contra a luz do fogo enquanto suas sombras dominam a composição da cena, criando algo de uma beleza absoluta.
Outro grande destaque é a trilha sonora de Thomas Newman, que consegue nos deixar tensos e nervosos sem descanso. O ritmo é excelente, a montagem é dinâmica, e ela poderia facilmente se tornar cansativa por conta da forma como Mendes decidiu filmá-lo, mas acontece justamente o contrário: tudo passa voando. Mesmo contando com um elenco recheado de nomes famosos, as grandes participações são extremamente pontuais. Alguns atores aparecem tão rapidamente que, se você piscar, talvez nem perceba quem é. Ainda assim, isso não é um problema, porque George MacKay e Dean-Charles Chapman sustentam muito bem o protagonismo.
Infelizmente, eu não tive a oportunidade de assistir a esse filmaço no cinema, mas mesmo vendo tudo na pequena televisão do meu quarto ficou muito claro que esse é um daqueles casos em que a experiência na sala potencializa completamente o impacto da obra. Quem conseguiu assistir na maior tela possível e com o melhor sistema de som certamente teve uma experiência cinematográfica diferenciada, principalmente durante a última grande sequência de ação, que é arrebatadora. 1917 é um filme belíssimo, que retrata com muita sutileza sentimentos extremamente bonitos surgindo em meio a um dos momentos mais horripilantes da história da humanidade. Quem dera o cinema tivesse com mais frequência o hábito de nos encantar com histórias tão poderosas em cenários onde a esperança parece simplesmente não existir.
MORTAL KOMBAT II Direção: Simon McQuoid Ano: 2026 Assistido em: 15/05/2026
Como toda boa cria dos anos 90, eu não passei imune ao fenômeno Mortal Kombat. O que eu mais guardo de recordação é do terceiro jogo em diante, com os quais eu tive maior contato e joguei bastante com amigos. Quando o assunto é cinema, eu assisti às duas primeiras adaptações com bastante frequência, porque elas eram figurinhas garantidas na televisão. Portanto, eu fiquei muito animado quando, no meio da pandemia, entrei na sala de cinema para assistir àquela adaptação de 2021. Saí cuspindo marimbondos, porque é um filme muito ruim. Eu tinha jurado que não queria mais perder meu tempo nem gastar dinheiro com sequências daquele lixo atômico, mas fui convencido pelo marketing desse segundo. E lá estava eu na sala de cinema para dar mais uma chance e, apesar de este novo ser melhor do que o anterior, ele ainda deixa muito a desejar.
Após os eventos do primeiro filme, os campeões do Reino da Terra precisam enfrentar uma nova ameaça quando o torneio Mortal Kombat finalmente começa. Com a chegada de Johnny Cage, os guerreiros liderados por Raiden enfrentam Shao Kahn e as forças da Exoterra em batalhas brutais que definirão o destino da humanidade.
Não sou louco de cobrar um roteiro elaborado de um filme desses. Eu sei muito bem que o foco principal aqui é ver porradaria, mas o mínimo é obrigatório, e é justamente esse mínimo que está sendo difícil. A história é uma pataquada só. Ao invés de aproveitar a lore já estabelecida dos videogames, os roteiristas ficam tentando inventar moda, como se quisessem se provar de alguma forma, e o resultado é uma ideia mais estapafúrdia do que a outra. Aqui, por exemplo, Liu Kang, protagonista dos primeiros jogos da franquia, tirado pra merda, DE NOVO, mal tem tempo de tela. Scorpion e Bi-Han, cuja rivalidade é o plot mais interessante de toda a franquia, aparecem meio que por obrigação, mas, se não estivessem aqui, também não fariam falta, porque eles simplesmente não têm história nenhuma. Já Shao Kahn, o grande vilão da saga, também é bastante rebaixado: praticamente o colocam como um incompetente. Enfim, é tudo feito de qualquer jeito.
Para não dizer que eu só vou reclamar, como eu disse, ele consegue ser melhor que o anterior porque proporciona algumas melhorias. Por exemplo: aquele conceito estúpido de “arcana” que inventaram foi descartado daqui. O Cole Young não teve a mesma sorte que a Alice de Resident Evil, ou então não contou com a mesma falta de escrúpulos da atriz, e foi descartado sem dó nem piedade. Do ponto de vista técnico, o visual do filme continua sendo o ponto alto. As roupas estão lindíssimas, os cenários estão incríveis e uma luta ou outra possui boa coreografia, mas, no geral, não são todas. Ou seja: ele melhora os poucos pontos positivos do anterior, mas continua errando justamente no principal, que é o roteiro.
Esse segundo filme não está sendo o estouro de bilheteria que a Warner Bros. Pictures gostaria, então eu sinceramente não sei se teremos um terceiro longa. Honestamente, nem sei se vale a pena. Depois de um desastre no primeiro e de um filme meia-boca no segundo, eu não apostaria minhas fichas em uma continuação. Mas, caso resolvam insistir, seria muito interessante uma troca completa da equipe principal: tira esse diretor mequetrefe, sumir com esse compositor fraco, trazer roteiristas mais tarimbados e, pelo amor de Deus, vamos fazer o que é certo. Façam um torneio de Mortal Kombat clássico, sem muita firula. Coloquem Liu Kang como protagonista pelo menos uma vez. Ludi Lin é um bom ator; o bichinho merece uma oportunidade. Chega a ser triste ver a covardia que estão fazendo com ele.
Se nós estamos na chamada “era dos videogames”, eu espero que Mortal Kombat não seja um exemplo, porque ele tem uma embalagem bonita, mas um conteúdo bem ruim. E seria muito mais interessante se o roteiro fosse prioridade, ao invés de tentarem conquistar o público apenas com easter eggs. Mas acho que isso já é pedir demais para os estúdios de Hollywood.
DUPLEX Direção: Danny DeVito Ano: 2003 Assistido em: 10/05/2026
A primeira vez que assisti a esse filme foi em uma sessão da Tela Quente lá pela meiuca dos anos 2000, e de lá para cá eu nunca tinha feito uma revisão. Agora, mais de vinte anos depois do lançamento, decidi que era hora de dar uma nova chance ao longa de Danny DeVito para descobrir se ele ainda tinha o mesmo poder de me encantar que teve originalmente. E, para minha surpresa, apesar de eu não ter morrido de gargalhar, Duplex continua bastante funcional.
Alex e Nancy acreditam finalmente ter encontrado o apartamento perfeito para começarem uma nova vida juntos no Brooklyn. Porém, a felicidade do casal rapidamente desaparece por causa da idosa que vive no andar superior e transforma a rotina dos dois em uma sequência constante de situações irritantes, desesperadoras e cada vez mais fora de controle.
A marca registrada de Danny DeVito sempre foi o humor negro. Ele constantemente leva esse tipo de narrativa para seus trabalhos, como aconteceu em Throw Momma from the Train (1987) e The War of the Roses (1989), e aqui não poderia ser diferente. Em Duplex, vemos um elemento muito comum em sua filmografia: pessoas normais sendo empurradas para situações cada vez mais absurdas até tudo sair completamente do controle. E o roteiro possui os ingredientes perfeitos para isso funcionar.
Alex e Nancy são um casal jovem e inocente que precisa lidar com a senhora Connelly, uma idosa aparentemente frágil e indefesa. Em um primeiro momento, os dois tentam agir com educação e paciência, evitando serem grosseiros com uma pobre velhinha. O problema é que, aos poucos, ela se revela um verdadeiro demônio disfarçado de senhora simpática, e é justamente dessa escalada absurda que o filme tira boa parte de seu humor.
O ponto mais interessante da trama é justamente como ela brinca com a questão da moralidade. Os protagonistas começam preocupados em não ofender nem magoar a pobre idosa, mas lentamente vão sendo empurrados para situações tão extremas que passam a cogitar maneiras de se livrar dela de uma vez por todas. Eu sou naturalmente desconfiado e me recordo de que, já na primeira vez em que assisti, nunca confiei totalmente na senhora Connelly. Então, quando as reviravoltas começam a surgir, eu não fui exatamente pego de surpresa.
Particularmente, eu nunca fui muito fã de Ben Stiller. Não acho que ele seja um ator engraçado. Em compensação, gosto bastante da Drew Barrymore, mas, sinceramente, ninguém aqui rouba mais a cena do que a veterana Eileen Essell. Para mim, ela é a grande surpresa. A atriz consegue transmitir toda a fragilidade e inocência de uma senhora idosa ao mesmo tempo que, quando necessário, se transforma em um verdadeiro Satanás com uma facilidade impressionante.
No frigir dos ovos, Duplex ainda funciona para mim. Não vou dizer que gargalhei, porque isso realmente não aconteceu em momento algum, mas vários sorrisos e risadas pontuais surgiram naturalmente durante a sessão. Entretanto, também entendo perfeitamente que esse tipo de humor não funciona para todos os públicos. Trata-se de uma comédia de humor negro que pode soar ofensiva em determinados momentos, principalmente para parte do público atual, que costuma ser muito mais sensível a certos temas do que o público do início dos anos 2000, mas acredito que quem resolve assisti-lo já sabe exatamente o que vai encontrar, e provavelmente receberá exatamente aquilo que procura.
Eu tenho um problema que me mete em algumas furadas, que é assistir filmes apenas pelo elenco, sem levar em consideração outros fatores. Se tiver alguém de quem eu gosto, eu simplesmente não me preocupo em procurar diretor, roteirista ou qualquer outra informação. Coloco na minha lista e vou embora. Esse caso específico reunia duas pessoas cujo trabalho acompanho há muitos anos e de quem sou profundamente fã: Charlize Theron e Taron Egerton. Então, eu já estava decidido a assistir pelo simples fato de os dois estarem no elenco. Quando descobri que a direção seria de Baltasar Kormákur, responsável pelo excelente Everest (2015), imaginei que poderia estar diante de um grande trabalho. Infelizmente, as coisas não foram tão positivas assim no resultado final.
Sasha decide viajar sozinha para uma remota região montanhosa da Austrália após sofrer com a morte traumática do namorado durante uma escalada. O que deveria ser uma jornada de reflexão se transforma em um pesadelo quando ela passa a ser perseguida por Ben, um homem violento, iniciando uma brutal luta pela própria sobrevivência em meio à natureza selvagem.
Infelizmente, eu não consegui sentir uma conexão verdadeira com essa história. Sasha possui um trauma forte e uma relação quase obsessiva com adrenalina, mas o roteiro nunca parece realmente interessado em explorar isso de forma mais profunda. Existe uma confiança exagerada de que apenas o conceito básico da trama já seria suficiente para sustentar tudo sozinho. E, por mais que eu adore Taron Egerton e saiba que ele é um grande ator, seu Ben nunca me convenceu como um vilão realmente ameaçador.
E deixando claro: esses problemas não são culpa do elenco, que é extremamente carismático e praticamente segura o filme nas costas, especialmente porque os dois passam quase o tempo inteiro sozinhos em cena. O problema está mesmo na construção dos personagens, que nunca se tornam cativantes o suficiente para gerar envolvimento emocional.
A parte técnica é bem realizada, e a direção de Baltasar Kormákur continua competente em cenas de tensão e ambientação. Porém, existe um elemento que me incomodou profundamente: os efeitos especiais. O longa já abre mostrando uma sequência de alpinismo envolvendo Sasha e o personagem de Eric Bana, e praticamente não existe esforço para esconder o CGI extremamente artificial. Isso imediatamente quebra a imersão da história.
O problema piora nas cenas finais, quando os personagens estão escalando um enorme paredão. Existem cenas que entram completamente no vale da estranheza, e a produção perde muito impacto justamente por causa disso.
Apex pode funcionar como entretenimento para quem busca apenas uma diversão simples e despretensiosa. Porém, se você entrar com algum tipo de expectativa maior, como eu entrei, a decepção pode ser considerável. No final das contas, é uma história simples demais, sem profundidade suficiente e incapaz de fazer o público realmente se envolver com seus personagens. E isso é uma pena, porque, nas mãos de um roteirista mais inspirado, essa premissa poderia facilmente render um grande sucesso.
TOP SECRET! Direção: Jim Abrahams, David Zucker e Jerry Zucker Ano: 1984 Assistido em: 09/05/2026
O trio ZAZ revolucionou a comédia durante a década de 1980 com filmes repletos de histórias absurdas, com piadas a todo momento e personagens completamente absurdos. Eles foram responsáveis por clássicos como Airplane! (1980) e a franquia The Naked Gun (1988-1994). No meio disso tudo, tivemos Top Secret!, um longa que acaba ficando um pouco deslocado quando falamos dos maiores sucessos do trio. Como eu nunca tinha assistido, sempre me perguntei por que ele não possuía a mesma repercussão de seus pares, e agora isso ficou muito claro: infelizmente, este aqui é um trabalho menor desses lendários diretores.
Nick Rivers, um popular cantor americano de rock, viaja para a Alemanha Oriental para participar de um festival cultural promovido pelo governo local. Durante sua estadia, ele conhece integrantes da resistência francesa e acaba envolvido em uma absurda conspiração militar, precisando impedir os planos secretos de um grupo ligado ao regime nazista.
Tal como fizeram com os filmes-catástrofe em Airplane! e fariam com as tramas policiais em The Naked Gun, aqui nós temos uma sátira voltada ao gênero de espionagem. Estávamos em plena década de 1980, a Guerra Fria ainda era uma realidade e existia toda aquela paranoia envolvendo a Alemanha Oriental e, principalmente, a União Soviética. Esse era um tema recorrente no cinema da época, então transformar tudo isso em piada parecia um prato cheio que poderia render algo brilhante. E, de fato, encontramos praticamente todos os elementos recorrentes da filmografia do trio: piadas físicas, cenários ajudando a compor as gags visuais, roteiro ágil e o máximo possível de piadas por minuto. O problema é que, aqui, a soma desses fatores não funciona tão bem quanto deveria.
O microcosmo criado pelo roteiro simplesmente não é tão interessante assim, e não senti que a linha narrativa principal realmente funcionasse. Nick Rivers é um protagonista extremamente sem graça, e isso pesa demais no resultado final. Val Kilmer, apesar de carismático e talentoso, claramente não era um grande ás da comédia, e aqui isso fica bastante evidente. Seu personagem não possui presença suficiente para sustentar o projeto, algo especialmente problemático em uma obra que depende tanto do timing cômico de seu protagonista.
Top Secret! não é um filme ruim, mas infelizmente, quando colocado lado a lado com os trabalhos anteriores e posteriores de seus realizadores, fica nítido que ele é inferior. Trata-se de uma produção pouco inspirada, sem muito brilho e com piadas que, principalmente as físicas, me pareceram bastante fracas. Ainda assim, até mesmo os grandes têm seus dias de fraqueza, e, para mim, este é claramente o ponto mais baixo da carreira do trio ZAZ. Felizmente, os acertos deles foram tão numerosos e marcantes que é muito mais fácil celebrar seus grandes êxitos do que ficar preso aos poucos deslizes que cometeram.
MISS SLOANE Direção: John Madden Ano: 2016 Assistido em: 09/05/2026
Política é algo bastante escuso, e isso não é segredo para ninguém. Os bastidores do poder são repletos de histórias escabrosas das quais muitas vezes nem fazemos ideia. E muito mais perigosos do que aqueles que dão a cara a tapa são justamente os que ficam por trás, puxando as cordinhas. Miss Sloane trata exatamente disso: da briga por poder que muitas vezes passa despercebida pelo grande público e de como somos profundamente afetados por interesses particulares e rixas entre figurões.
Elizabeth Sloane é uma estrategista política extremamente respeitada em Washington, conhecida por sua inteligência, frieza e habilidade em manipular adversários. Ao assumir uma campanha em defesa do controle de armas, ela passa a enfrentar políticos influentes, lobistas poderosos e uma intensa pressão pública que ameaça destruir sua carreira e sua reputação.
Eu sei que o que vemos no cinema muitas vezes é uma ficção extrapolada até um limite que faça algum sentido narrativamente e torne a história mais interessante. Mas eu costumo dizer que, de política e de políticos, eu sempre espero o pior e nunca duvido de absolutamente nada. Não duvido que, na vida real, existam manipulações muito mais escabrosas do que as que vemos aqui simplesmente para atender aos interesses de magnatas que estão pouco se importando com o que vai acontecer com as esferas mais externas da sociedade, especialmente com as camadas mais humildes, traduzindo: nós, o grande público.
Apesar de o filme ser muito interessante e possuir bons elementos, como um elenco escolhido a dedo e extremamente talentoso, eu tive um problema de conexão com o roteiro. Por mais importante que seja o tema abordado, eu não senti que era uma história realmente imersiva, daquelas que despertam interesse genuíno em acompanhar o próximo passo de Elizabeth, e dos demais personagens. Sim, nós temos um final muito interessante, que inclusive representa o ponto máximo da trama, mas, no miolo da narrativa, achei os diálogos muito cansativos e os desdobramentos pouco explicados de uma maneira dinâmica. É um filme que claramente precisava de uma polidez maior no roteiro.
Miss Sloane não é ruim, longe disso, mas também não é uma obra para todos os públicos e gostos. Trata-se de um filme bastante nichado, que provavelmente agradará mais a um microcosmo interessado nessas articulações e tramoias dos bastidores políticos, dos lobistas e tudo que gira em torno desse universo. Achei interessante, mas creio que a trama teria funcionado muito melhor com uma duração menos excessiva e com uma condução mais sutil por parte de John Madden. Faltou um pouco mais de refinamento na forma de levar essa história às telas, algo que teria feito bastante diferença no resultado final.
THE DEVIL WEARS PRADA 2 Direção: David Frankel Ano: 2026 Assistido em: 04/05/2026
O Diabo Veste Prada original foi daqueles longas que chegaram sem ninguém dar muita bola, muita confiança, e que conseguiram conquistar um espaço gigante na cultura pop. Seus personagens icônicos, seu roteiro inteligente e seus diálogos afiadíssimos fizeram com que ele se tornasse uma das produções queridinhas do público da década de 2000 em diante. E, com o tempo, ele foi angariando ainda mais fãs, ao ponto de se tornar referência. Agora, passados 20 anos, esses personagens voltam com uma nova história que vai muito além da simples nostalgia, e com muito a ser dito.
Anos após deixar a revista Runway, Andy Sachs retorna ao universo comandado por Miranda Priestly em meio à decadência das revistas impressas e à transformação digital da indústria da moda. Agora uma jornalista reconhecida, Andy é chamada para ajudar a restaurar a credibilidade da publicação enquanto Miranda tenta manter sua influência em um mercado cada vez mais dominado por redes sociais, inteligência artificial e grandes conglomerados.
Nós vivemos uma época bem complicada para o cinema. Toda semana os estúdios desovam sequências, reboots e remakes na tela para o grande público, e uma das modinhas mais comuns são as chamadas legacy sequels, que trazem o elenco original de volta, mas muitas vezes sem propósito algum. Entretanto, isso não foi o que aconteceu aqui. Tal qual o original tinha muito a falar sobre ambiente corporativo e relações pessoais, esse projeto também tem muito a dizer. Pode não parecer, mas já se passaram 20 anos. O mundo não é mais o mesmo que era em 2006, todos precisamos nos adaptar, e é justamente sobre isso que essa nova história trata: adaptação.
A Miranda atual não é mais a mesma. Ela não pode mais fazer os mesmos comentários ácidos e sarcásticos de antes, porque agora o trabalhador sabe o que é assédio moral. Ela não pode jogar seu casaco e sua bolsa em cima da mesa sem que isso lhe cause um processo. Outro ponto interessante é que o jornalismo físico praticamente acabou. A forma como consumimos notícias hoje em dia é muito diferente. É preciso se adequar, é preciso rebolar para poder conquistar a atenção das gerações que vêm nascendo, que cada vez menos têm paciência para qualquer coisa. Ela precisa se reorganizar, e é aí que entra a nossa querida Andrea, que chega como uma forma de garantir que essa nova mudança funcione e aconteça.
Um dos pontos mais debatidos nesses 20 anos foi o final do primeiro filme. A nossa mentalidade de 2006 não é mais a mesma de hoje. Naquela época, Miranda era vista apenas como uma chefe que era um verdadeiro diabo. Hoje as coisas mudaram. As pessoas interpretam que ela muitas vezes precisava ser dura para ser respeitada. Aquele final da Andy, convenhamos, era horrível. Todo mundo sabia que ela tinha potencial, todo mundo sabia que ela poderia muito bem fazer diferente da Miranda, equilibrar a sua vida pessoal com a brilhante carreira que teria. E agora, nessa sequência, nós vemos justamente isso. A obra nos mostra que ela é incrível e que pode fazer as coisas de outra maneira. Uma pena que demoraram 20 anos para perceber isso.
Eu não gostaria de ficar comparando com o primeiro filme, mas, se tratando de uma sequência, é impossível não fazer isso. O original é uma sucessão de acertos: roteiro com diálogos interessantíssimos, elenco excelente, trilha sonora marcante e direção inspirada. Aqui quase chega lá, mas ainda ficaram algumas arestas. O elenco é maravilhoso, impecável. Todo mundo que voltou continua extremamente carismático, extremamente afiado, e entregou o seu papel como se não houvesse uma distância de tempo tão grande entre uma produção e outra.
Infelizmente, algumas coisas não funcionaram tão bem. A trilha sonora, por exemplo, é uma delas. A de 2006 é um clássico atrás do outro, mas como hoje em dia as músicas não são tão boas, ela acabou ficando muito apagada, o que reforça o trabalho de Theodore Shapiro, que nessa nova trilha traz muito da original, criando uma identificação sonora com o público. Outro probleminha é a direção. Nós vimos até uma tentativa de recriar a lendária cena de Vogue, só que dessa vez não deu tão certo assim. E temos atores muito grandes subaproveitados, caso de Kenneth Branagh, Justin Theroux e Lucy Liu, os três em papéis não muito interessantes.
Sequências são complicadas, ainda mais quando se trata de filmes clássicos. Eu geralmente vou com a expectativa muito baixa, principalmente quando o sarrafo é tão alto se tratando de uma produção que eu adoro tanto quanto o primeiro The Devil Wears Prada. Não vou dizer que esse segundo título está no mesmo nível do original, porque não está. Creio que o fator novidade e o fator audácia não foram repetidos, e nem tinham como ser. Eram outros tempos, a nossa mentalidade era outra. Mas o filme se propõe a fazer uma discussão sobre o nós de hoje, seja nas relações profissionais, seja nas relações pessoais, e nesse ponto eles arrebentaram. Fizeram o dever de casa direitinho, e o resultado ficou bem satisfatório.
THE DEVIL WEARS PRADA Direção: David Frankel Ano: 2006 Reassistido em: 03/05/2026
O ano era 2006, e o que parecia ser apenas mais uma comédiazinha da semana a estrear nos cinemas acabou se revelando uma história extremamente inteligente, com personagens para lá de carismáticos, e que acabou arrebatando uma legião considerável de fãs que, ao longo dos anos, foi aumentando à medida que novos fãs iam descobrindo esses icônicos personagens e se apaixonando por eles. Não é nenhum exagero dizer que O Diabo Veste Prada já nasceu gigante, e digo mais: a cada revisita ele fica melhor.
Andy é uma jovem jornalista recém-formada que consegue emprego na renomada revista de moda Runway, mesmo sem qualquer interesse pelo universo fashion. Trabalhando como assistente da poderosa e temida editora Miranda Priestly, ela passa a enfrentar uma rotina sufocante marcada por humilhações, exigências absurdas e pressão constante. Conforme mergulha naquele mundo de luxo e aparência, Andy começa a mudar seu comportamento, afetando seus relacionamentos e os próprios valores.
O grande trunfo desse filme é que a protagonista, Andrea, é extremamente carismática e facilmente relacionável, porque qualquer pessoa que já trabalhou na vida esteve em alguma situação semelhante àquelas às quais ela teve que se submeter. Quem nunca teve um chefe carrasco que pede o impossível, que te julga, que te olha torto? Um colega de trabalho torcendo pela sua derrocada? Ou mesmo trabalhou em um lugar totalmente tóxico e foi obrigado a se provar? É claro que o filme possui exageros, ele precisa ter isso porque está falando de uma empresa gigante, de um universo muito diferente da nossa realidade, mas tudo o que acontece em cena é facilmente espelhável no mundo real.
A Miranda pode ser um verdadeiro diabo, mas ela é o tipo de pessoa que você admira quando deixa de ser adolescente e passa a enxergar o mundo com olhos de adulto. Ela faz o possível para sobreviver, para se destacar. É excelente no que faz, e quem é bom no que faz sabe o que merece, sabe o que consegue entregar. Muitas vezes, por causa disso, você é taxado de chato, então acaba precisando criar uma espécie de proteção. A Andy, por sua vez, traz uma abordagem diferente. Ela é mais romântica, mais idealista, e não está errada por isso. Ela também é muito competente, só possui uma visão diferente. E é justamente essa dualidade entre as duas protagonistas, o fato de serem tão diferentes, que faz a química entre elas funcionar absurdamente bem, fazendo com que o público adore as duas sem precisar escolher um lado. A gente gosta de ambas.
Esse filme pode ser classificado como um daqueles raríssimos casos em que praticamente tudo funciona. O elenco dispensa comentários. Meryl Streep, Anne Hathaway e Emily Blunt estão perfeitas e totalmente adequadas aos seus papéis. O roteiro é sensacional: divertido, leve, com piadas ágeis e frases icônicas que entraram para a cultura pop, mas sem deixar de criar pausas de respiro nos momentos que precisam ser mais tensos ou dramáticos, o que valoriza muito a narrativa. A trilha sonora é um espetáculo, recheada de músicas icônicas daquela metade dos anos 2000, e a montagem ágil e dinâmica extrai o melhor da direção, fazendo com que o filme passe voando sem que você perceba.
O Diabo Veste Prada é uma aula. Ele vai te ensinar como funciona o mundo corporativo, como é lidar e conviver com pessoas. É um filme inteligentíssimo que ainda vem embalado em um universo sobre moda, algo do qual eu não entendo absolutamente nada, mas que aqui consegue ser fascinante. E tudo isso acontece porque a produção sabe como apresentar uma história, contá-la e nos cativar. Sem sombra de dúvidas, é uma das melhores, mais divertidas e mais gostosas comédias dos anos 2000, e todo o status de clássico que conquistou nesses vinte anos é mais do que merecido. Ele é indispensável, porque, assim como uma grande Miranda Priestly, se mostra extremamente impecável em tudo o que se propõe.
BATMAN: MASK OF THE PHANTASM Direção: Eric Radomski e Bruce Timm Ano: 1993 Assistido em: 03/05/2026
Como uma boa cria dos anos 90, um dos meus primeiros contatos com o Batman foi através da icônica série animada lançada em 1992. Uma porta de entrada excepcional para o universo do Homem-Morcego, que acabou se tornando referência com o passar dos anos. Durante muito tempo eu ouvi falar sobre este filme, mas o máximo que havia assistido eram alguns trechos no falecido Cartoon Network. Nunca tive a oportunidade de assisti-lo completo até hoje. Eu estava com uma expectativa absurda, afinal de contas é muito comum ouvir fãs defenderem que este é o melhor longa animado do nosso herói. Mas, como expectativa é a mãe da decepção...
Gotham City passa a ser aterrorizada por uma figura misteriosa conhecida como Phantasm, responsável por assassinar chefes da máfia e deixar Batman como principal suspeito dos crimes. Enquanto tenta descobrir a identidade do vigilante, Bruce Wayne revive lembranças de seu passado, especialmente o romance com Andrea Beaumont, mulher que quase o fez abandonar sua cruzada contra o crime.
O grande problema dessa história, para mim, está no roteiro. Que vai além do simples, beira o bobo e chega até a ser ofensivo ao Batman em muitos pontos. Nós temos tramas paralelas, uma onde vemos o começo de carreira do nosso herói e seus tropeços, e isso é muito bom, mas no futuro ele já aparece maduro, experiente e, ainda assim, cometendo erros que um Batman com anos de carreira jamais cometeria.
Como Bruce Timm e Paul Dini foram os responsáveis pela criação do primeiro universo compartilhado baseado em histórias em quadrinhos, Liga da Justiça Sem Limites já havia me dado spoiler sobre a verdadeira identidade da Phantasm, então eu não fui pego de surpresa por esse detalhe específico. Ainda assim, confesso que ver a personagem praticamente dizendo ao Bruce Wayne que ele não estava agindo como o maior detetive do mundo foi extremamente frustrante. O Bruce aqui parece um adolescente tolo apaixonado, e não um homem com dez anos de experiência e uma mente completamente paranoica, que ao menos desconfiaria do papinho mole da vilã.
Visualmente, nós temos a mesma estética da série animada, que continua incrível e muito bonita. A dublagem do saudoso Kevin Conroy e do Mark Hamill no papel do Coringa está excelente e enriquece bastante o filme, mas infelizmente, com um roteiro tão fraquinho, ele tem dificuldade para se sustentar. No fim, Mask of the Phantasm lembra muito um episódio menor da série animada, quase um filler, e não uma aventura verdadeiramente memorável do Cavaleiro das Trevas.
PATRIOTS DAY Direção: Peter Berg Ano: 2016 Assistido em: 02/05/2026
O começo da década de 2010 foi um período muito turbulento na minha vida: faculdade, trabalho, o período em que fui militar do Exército... Enfim, meus dias eram tão curtos que a última coisa para a qual eu tinha tempo era acompanhar noticiários. Entretanto, o atentado terrorista na Maratona de Boston foi algo que não me passou despercebido. Eu escutei alguns detalhes sobre a tragédia na época e, poucos dias depois, veio a notícia de que a polícia havia conseguido prender um dos culpados. O que eu não tinha a menor noção era do quão gigantesca foi toda essa situação. Bom, pelo menos é isso que o diretor Peter Berg nos faz acreditar através do seu filme Patriots Day.
Durante a Maratona de Boston de 2013, duas bombas explodem próximas à linha de chegada, matando espectadores e deixando centenas de feridos em meio ao caos e ao pânico generalizado. Nos dias seguintes, a cidade entra em estado de alerta enquanto o sargento Tommy Saunders acompanha a investigação que mobiliza o FBI, a polícia local e agentes federais na tentativa de localizar os irmãos responsáveis pelo atentado antes que eles façam novas vítimas.
O Berg é um diretor que gosta bastante de trabalhar tragédias em suas produções, principalmente com Mark Wahlberg como protagonista. Mas o fato que mais me chamou atenção é como Hollywood parece estar perdendo a sensibilidade para tratar situações tão delicadas. Antigamente, quando ocorria uma tragédia e eles resolviam levá-la para o cinema, existia um intervalo um pouco mais considerável. Hoje em dia, parece que a desgraça acontece e eles já anunciam o projeto. Este aqui, por exemplo, chegou apenas três anos após o ocorrido e, convenhamos, é um tempo muito curto para apresentar uma dramatização. Mas, enfim, não estou aqui para julgar isso, apenas para reforçar que americano gosta muito de ter suas feridas nacionais abertas ao ver grandes tragédias retratadas no cinema.
A guerra entre os Estados Unidos e o islamismo não começou hoje, tampouco em 2013. É algo muito mais antigo e, infelizmente, ainda vemos reflexos disso em 2026. Uma passagem da obra que achei absurdamente surreal, e que só poderia mesmo ter saído da mente de roteiristas de cinema, é quando um dos terroristas diz que o 11 de setembro foi fabricado pelo governo americano e que o islamismo não foi responsável pelos ataques. A ironia é que eles querem “provar” isso justamente matando inúmeros civis.
Mark Wahlberg é um colaborador recorrente do Berg, que muitas vezes o escala para papéis nos quais ele não seria nem de longe o ator mais adequado. E aqui, convenhamos, ele é o protagonista, mas meio que sobra na história. O roteiro tenta cobrir o máximo possível dos elementos que levaram àquela tragédia, e não são poucos. São várias pessoas envolvidas, e Berg opta por algo bastante incomum em filmes desse tipo. Ao invés de apenas mostrar os personagens em cena quando a ação começa, ele dedica um pequeno background para cada uma daquelas vidas. Isso acaba tomando tempo do protagonista, mas não é algo ruim. Nós não precisamos acompanhar profundamente a vida do policial Tommy; o que interessa é a ação dele no dia do atentado, e a produção entende isso muito bem. Justamente por isso, o roteiro fica dinâmico, está sempre em constante movimento.
A direção é muito boa. Ela é ágil, cria excelentes momentos de tensão e nos mantém bastante entretidos diante da tela. O elenco também dispensa comentários: há muitos atores bons, embora, infelizmente, exista gente demais para que todos tenham espaço suficiente. A trilha sonora de Trent Reznor e Atticus Ross é muito boa, a edição é eficiente e você não fica perdido em meio a tantos acontecimentos. Tecnicamente, é um trabalho muito bem realizado e executado.
O resultado final só não é melhor por conta da cena final. Já é recorrente nas obras do diretor inspiradas em fatos reais trazer alguns dos envolvidos para dar depoimentos. Isso funcionaria bem em um documentário, mas aqui não é o caso. Mostrar um card final com fotos e informações das pessoas reais já seria suficiente, como normalmente acontece. Porém, a produção toma um tempo excessivo exibindo depoimentos, e isso, ao invés de enriquecer, enfraquece a narrativa. Berg deveria confiar mais no próprio trabalho, no roteiro e nos atores para fazer o público compreender o peso da história. Trazer as pessoas reais acaba sendo desnecessário e prolonga demais algo que já havia terminado no momento certo.
KNOCK AT THE CABIN Direção: M. Night Shyamalan Ano: 2023 Assistido em: 26/04/2026
M. Night Shyamalan não é um diretor de meios-termos, ele é muito 8 ou 80. Ou se gosta bastante de um trabalho dele, ou simplesmente detesta. Eu queria ter assistido este no cinema, entretanto ele não veio para a minha cidade, e acabou que eu perdi um pouco do entusiasmo e esperei passar esses três anos. Agora que tive a oportunidade de assistir, percebi que ele teve um efeito em mim que eu adoro quando acontece, que é o efeito da indignação. Eu amo quando um filme me deixa puto, me deixa revoltado, me deixa indignado, porque é sinal de que ele conseguiu conversar comigo de uma forma muito particular.
Durante uma viagem a uma cabana isolada, Wen e seus pais, Eric e Andrew, têm a rotina interrompida quando Leonard e outros três desconhecidos invadem o local e os fazem reféns. Alegando agir para evitar o fim do mundo, os invasores apresentam uma escolha impossível: a família deve decidir qual deles será sacrificado voluntariamente. Enquanto eventos catastróficos começam a acontecer, Eric e Andrew entram em conflito sobre acreditar ou não na ameaça, sabendo que qualquer decisão terá consequências irreversíveis.
Como um homem gay, eu sempre quis ver produções onde houvesse protagonistas homossexuais, mas sem todo o drama comum a isso. Sim, porque Hollywood parece só saber fazer longas dramáticos extremamente pesados ou comédias escrachadas, então ver uma produção onde o casal protagonista é gay em um roteiro de suspense e terror, onde a questão da sexualidade é pouco explorada ou nem chega a ser a base, é algo que eu vejo como positivo. Você consegue colocar um casal hetero ali naquela história que vai funcionar da mesma maneira.
É o tipo de normalidade que nós esperamos ver, esperamos ser representados. Entretanto, ainda é pertinente uma crítica: Andrew e Eric são um casal que não tem nenhum tipo de interação como tal. Se você me dissesse que eles são amigos, eu iria acreditar. Eu não sei se o livro é dessa forma, mas no filme, Shyamalan deixou a desejar.
O grande dilema moral que o filme traz é a questão entre você ser um crente e um descrente. Eu, particularmente, sou o Andrew encarnado. Eu tenho zero, aliás, não zero, eu tenho uma carga negativa de crença espiritual, no sobrenatural ou em qualquer coisa não física, não material. Logo, quando eu falei que o filme me despertou muita indignação, é porque os protagonistas tiveram inúmeras oportunidades de se livrar daqueles doidos e não fizeram. Eu sei que, no final, o roteiro toma um lado, mas eu me conheço, eu seria daqueles que, com absoluta certeza, iria pagar para ver.
Tecnicamente falando, a produção é bem simples. O elenco é pequeno, o cenário é basicamente único, mas isso não é um problema. Shyamalan consegue criar um bom clima de tensão, nos deixar apreensivos, a trilha sonora colabora também e o ritmo é muito bom, fazendo com que o tempo passe sem você nem perceber. Quanto ao elenco, eu fiquei surpreso com o Dave Bautista. Não gosto dele como ator, acho fraquíssimo, mas aqui ele até esteve bem. O Jonathan Groff está excelente, mas seu personagem, Eric, é bem chatinho, talvez porque ele represente o oposto daquilo em que eu acredito, o que fez com que eu me encantasse muito pelo personagem Andrew, que o excelente Ben Aldridge deu muita personalidade. Mas, como um Potterhead assumido, eu confesso que esperava mais da participação do Rupert Grint.
Repetindo o que eu disse lá no começo, Shyamalan é muito ame ou odeie. Eu não diria que amei este aqui, mas ele com certeza cai no grupo dos que me agradaram. É claro que algumas arestas do roteiro deveriam ter sido aparadas para deixar o tudo mais redondinho, como, por exemplo, explorar melhor os ditos desastres que acontecem ao longo da trama, para que nós ficássemos ainda mais em dúvida em relação ao que estava acontecendo, reforçando a proposta, que era nos deixar em constante incerteza sobre se aquelas pessoas estavam falando a verdade ou se eram apenas um bando de lunáticos fanáticos surtados.
Ou, ainda, trabalhar mais a carga psicológica dos protagonistas, porque não existe uma justificativa clara do porquê eles colocariam a própria família em risco por um mundo que os rejeita, e não reagiriam de forma mais direta na primeira oportunidade que tiveram, e foram muitas. Mas, mesmo com essas falhas, o resultado final ainda é positivo, e eu classifico Knock at the Cabin como um dos melhores trabalhos recentes do Shyamalan, que após anos de irregularidades, parece ser encontrar em uma melhor situação.
HOW TO MAKE A KILLING Direção: John Patton Ford Ano: 2026 Assistido em: 26/04/2026
Após ler a sinopse desse filme, eu fiquei muito interessado em assisti-lo, não só porque sou fã do Glen Powell, mas porque achei a história muito interessante. Foi impossível não me lembrar imediatamente de um espetacular clássico da comédia britânica chamado Kind Hearts and Coronets (1949), protagonizado pelo saudoso Alec Guinness, que traz basicamente a mesma ideia. Curioso por essa semelhança, fui pesquisar e descobri que tanto How to Make a Killing quanto o filme dos anos 40 são baseados no mesmo livro. Infelizmente, a partir desse momento, não consegui mais não comparar os dois filmes, mesmo sabendo que a execução deles são bem diferentes.
Becket Redfellow é um homem de origem humilde que foi rejeitado ainda ao nascer por sua família extremamente rica. Anos depois, obcecado pela ideia de recuperar a herança que acredita ser sua por direito, ele decide se reaproximar dos Redfellow e passa a eliminar, um a um, os parentes que estão à sua frente na linha sucessória. À medida que executa seu plano, Becket se envolve em uma escalada de manipulação, violência e ambição, disposto a atravessar qualquer limite para alcançar a fortuna.
Trazendo Kind Hearts and Coronets (1949) mais uma vez, o mais interessante daquele filme é que ele era acima de tudo uma comédia. Ele entendia que a proposta era extremamente absurda e, por isso, precisava fazer escárnio, precisava fazer piada do que acontecia em cena. O personagem do Alec Guinness se travestia, se fantasiava das figuras mais estapafúrdias e hilárias possíveis, e o riso era garantido porque cada morte era mais alucinada que a anterior.
Entretanto, nesta adaptação americana, o humor foi completamente removido. Desta vez, o protagonista tem um motivo mais “nobre” para agir. E confesso que perder a diversão foi a parte mais triste. E o pior de tudo é que o Powell manda muito bem na comédia, e o roteiro poderia ter se aproveitado disso.
E, por falar no roteiro, ele é muito comportado. Eu achei todas as mortes muito fáceis. Por exemplo, a primeira de todas ocorre em um iate de luxo. Não tem nenhuma câmera de segurança para averiguar o que aconteceu?! Aí, de repente, nas mortes seguintes, as câmeras aparecem, mas não pegam nada. E me tiram uma pessoa que estava seguindo o Becket do vento, e essa pessoa consegue provas que a polícia não tinha conseguido. Tudo muito conveniente, o que tira o espectador da história. E, novamente, se eles tivessem abraçado a galhofa, nada disso teria incomodado.
O elenco é recheado de estrelas. Gosto muito do Glen Powell, além de bonito, é um excelente ator. A Margaret Qualley poderia ter sido melhor utilizada, assim como o Ed Harris, que é um monstro da atuação e de quem adoraria ter recebido mais. Quando o assunto é a parte técnica, nós temos uma montagem muito boa, que faz com que o filme fique dinâmico e você nem perceba o tempo passando. Os figurinos são excelentes, e as mortes são muito bem filmadas, dá para entender direitinho os movimentos do Becket. Os cenários também são bons. Eu só senti falta de uma trilha sonora mais efetiva.
Fiquei muito triste quando vi que esse filme foi um fiasco, seja de crítica, seja de bilheteria. Creio que as pessoas não estavam preparadas para uma produção séria sobre alguém que decide exterminar toda a própria família em busca de vingança moralmente nobre. Caso a situação tivesse sido mostrada com mais leveza, a recepção talvez tivesse sido melhor. Sobre o final, para mim esse foi o melhor momento do filme. Só não gostou quem não entendeu o que estava assistindo, porque, convenhamos, uma pessoa que faz tudo o que o Becket fez não teria o menor problema em fazer o que ele faz no final. Foi extremamente condizente com o que o filme estava contando. Ele sempre quis o dinheiro, não ia deixar um relacionamento bobo atrapalhar seus planos.
Entendo que existem filmes e filmes. Alguns funcionam para muitos, outros funcionam para poucos, e é assim. Particularmente, gostei muito do que vi, mas, se eu quiser ter novamente um contato com essa história doida, não vou pensar duas vezes antes de ir atrás do clássico britânico em preto e branco.
REMINDERS OF HIM Direção: Vanessa Caswill Ano: 2026 Assistido em: 25/04/2026
Colleen Hoover se tornou a nova queridinha dos fãs de romances dessa geração. Eu a enxergo da mesma forma que Nicholas Sparks era nos anos 2000: aquele autor que aposta no seguro, entrega sempre os clichês e, ainda assim, consegue fazer sucesso. Não estou dizendo que existe problema algum nisso; afinal, é sempre melhor apostar no seguro, não é mesmo? E, sem ter nada melhor como opção, decidi dar uma chance a este, porque confesso que achei a sinopse interessante. Mas, daí a ter uma boa execução, estamos falando de outro assunto.
Após cumprir pena por um erro devastador, Kenna Rowan retorna à cidade onde tudo aconteceu, determinada a se reconectar com sua filha, Diem. No entanto, ela enfrenta a resistência de todos ao seu redor, especialmente de Ledger Ward, enquanto lida com as consequências de seu passado e tenta provar que merece uma segunda chance.
Como eu disse, fui atraído pela expectativa de uma trama mais séria, mais madura, não aquela mesmice de um casalzinho adolescente apaixonado que não pode ficar junto pelo motivo mais estúpido possível. Mas querer um romance sem os clichês, sem os vícios já inerentes ao gênero, é pedir demais. Então, mesmo partindo de uma boa ideia, nós chegamos ao mesmo lugar. Temos uma protagonista sofredora que se apaixona pelo melhor amigo do namorado morto e, sabe-se lá por que diabos, eles colocam isso como um grande impedimento, como se ambos não fossem adultos, donos do próprio nariz e pudessem simplesmente fazer o que bem entendessem.
O ponto mais interessante do roteiro é a questão da guarda da criança e, curiosamente, ele nem é tão bem explorado. Quando disseram no começo do filme que a Kenna tinha sido a responsável pela morte do Scotty, eu entendi perfeitamente o porquê de os pais dele e o Ledger quererem que a garota se afastasse da mulher, e isso seria muito interessante: ver como ela, sendo responsável pela morte do pai da criança, poderia ter um relacionamento com a filha. Mas não é bem isso. Lá para o final, a gente descobre que as coisas não são tão óbvias assim e que, na realidade, os avós da Diem estavam fazendo um grande carnaval por nada, sendo apenas dois grandes pau no cu que simplesmente estavam querendo roubar da criança a oportunidade de ter uma mãe. E, para piorar, todo esse plot é resolvido com um passe de mágica, da forma mais preguiçosa possível. Sério, que só ler uma cartinha safada mudou o comportamento de todo mundo?! Então tá.
Enfim, ficar reclamando de roteiro de filme de romance é dar tiros na água. Sobre a parte técnica, direção, fotografia e montagem, tudo é básico. Não tem nada de excepcional, é tudo feito no padrão, no conforme, sem inovação nenhuma. E o objetivo não é esse, é oferecer ao público corriqueiro desse tipo de filme aquilo que eles já estão acostumados a consumir. Mas o grande problema é que o casal protagonista não tem química nenhuma. Para uma produção romântica funcionar, o público tem que gostar, tem que torcer pelo casal central, e Maika Monroe e Tyriq Withers não têm isso. Eles são bonitinhos, mas não deu liga.
Reminders of Him é inofensivo, não vai cruzar nenhuma linha moral ou ética que vá ofender alguém. É aquele romance previsível, com uma mensagem bobinha de redenção. Não estou dizendo que isso é algo ruim, apenas que é mais do mesmo. Se você não se incomodar, ótimo. Se gosta desse tipo de filme, vai ser um prato cheio. Agora, para um espectador convencional, é só mais uma história como muitas outras que você vai assistir e vai esquecer. Eu espero que as próximas adaptações da Colleen Hoover sejam um pouco mais intensas, porque, das que vi até agora, só com muito esforço para justificar o barulho que andam fazendo.
MICHAEL Direção: Antoine Fuqua Ano: 2025 Assistido em: 24/04/2026
Como cria dos anos 90, a figura de Michael Jackson sempre foi complexa para a minha geração. Eu já nasci na fase “Wacko Jacko”, quando ele já havia sido acusado de pedofilia, com a vida completamente esmiuçada, as esquisitices expostas e sob perseguição intensa da mídia. Nunca vivi o auge da “Michaelmania”. Para mim, os períodos mais marcantes foram o início dos anos 2000, quando ele tentou uma retomada que não foi para frente, a segunda leva de acusações com o julgamento em 2005 e a expectativa frustrada de retorno em 2009. Só tive dimensão real do tamanho desse cara em 25 de junho de 2009, quando ele morreu, e parou o planeta inteiro. Foi ali que fui atrás, e me tornei fã, daquele artista de músicas excelentes, mas cercado por controvérsias. Passados 17 anos, o filme chega para relembrar o quão gigante foi (e ainda é) o Rei do Pop.
Na década de 1960, Joe Jackson, um homem simples de Gary, Indiana, decide transformar seus cinco filhos em artistas de sucesso, mesmo enfrentando todo o peso do racismo. Rapidamente, os olhares se voltam para o pequeno Michael, o mais novo, mas claramente o mais talentoso. Ao longo dos anos, ele desenvolve esse talento até se tornar o maior artista de todos os tempos — o inigualável rei do pop.
Quando anunciaram que os responsáveis pelo filme seriam os mesmos de Bohemian Rhapsody (2018), já dava para prever a higienização da história. É o mesmo procedimento: varrer as polêmicas para debaixo do tapete e focar apenas no legado, na glória e na fama. O problema é que Michael Jackson não é qualquer artista, ele é provavelmente a figura mais exposta da história. Sabemos demais sobre a vida dele. Então, quando o filme reduz Joseph Jackson a algumas cenas brandas de intimidação e a uma miserável ceninha de agressão física, fica evidente o abismo entre representação e realidade. O mesmo vale para os irmãos, mostrados de forma suavizada, ignorando tensões e inveja já admitidas pelo próprio Michael quando vivo. Ao encerrar na era Bad (1987), evitando falar sobre a onda de críticas após o "embranquecimento", evitando os anos 90, com as acusações de pedofilia e a perseguição midiática, o filme se enfraquece. O público já conhece a história, ninguém vai ao cinema para descobri-la, mas para vê-la dramatizada. E o filme foge de tudo isso.
Fica claro que nunca houve intenção de fazer uma cinebiografia convencional. Com a família envolvida, era previsível que os pontos mais delicados seriam excluídos. O que resta é o espetáculo, e é aí que o filme funciona. Jaafar Jackson impressiona fisicamente, não tanto pelas feições, mas pelo porte, pela atitude e, principalmente, pela performance. Ele dança muito bem, tem presença de palco e consegue emular com eficiência os trejeitos do tio. Evidentemente, o original é inalcançável, estamos falando talvez do artista mais completo da história, então as comparações são inevitáveis. Ainda assim, o que ele entrega é sólido. A cena final, com Bad, é genuinamente impactante. Colman Domingo está repugnante no papel de Joe, mesmo não mostrando um terço do quão desgraçado o outro era, e isso é a prova de como ele está ótimo no papel.
Tecnicamente, o filme confirma minhas baixas expectativas em relação a Antoine Fuqua. Para mim, ele sempre foi um diretor irregular, que acerta pontualmente, mas, no geral, entrega trabalhos fracos. Aqui não é diferente. A montagem é particularmente problemática: anos e eventos são despejados na tela de forma mecânica, sem construção narrativa. É a estrutura típica das cinebiografias mais preguiçosas, que se apoiam em marcos cronológicos em vez de desenvolver uma linha dramática consistente.
No fim, o que sustenta o filme é o carisma de Michael Jackson. Décadas podem passar, acusações podem surgir, nada apaga o brilho que ele tinha. Basta começarem os primeiros acordes dos maiores hits, para o impacto ser imediato. Por isso, Michael não funciona como cinebiografia. Funciona como um clipe estendido, um show costurado por fragmentos da vida do artista, embalado por uma trilha sonora imortal. É isso que vai garantir o sucesso e também enganar muita gente: a emoção de rever aquelas músicas, aqueles figurinos, aquela presença. Há um apelo quase ilusório de estar diante dele novamente, e isso fisga. Mas, sem esse encantamento, sobra um filme frágil. Faltou coragem, faltou conteúdo — e todo mundo sabe disso.
Warren Beatty é um dos grandes galãs da história do cinema e também um dos pioneiros nesse movimento de atores que entendem que a beleza tem prazo de validade e que, em algum momento, é preciso migrar para os bastidores. Como diretor, construiu uma carreira respeitada, mas passou muitos anos afastado, o que gerou uma expectativa considerável quando anunciou seu retorno em 2016. O problema é que esse retorno veio como um belo banho de água fria quando Rules Don't Apply chegou aos cinemas, um filme que, uma década depois, dificilmente é lembrado por alguém.
Em Hollywood, nos anos 1950, a aspirante a atriz Marla Mabrey chega à cidade sob contrato com o excêntrico magnata Howard Hughes e conhece seu motorista Frank Forbes. A atração entre os dois desafia as rígidas regras impostas por Hughes, enquanto ambos tentam lidar com suas ambições, crenças e o comportamento imprevisível do empresário.
O grande problema aqui é a história. Ela é fraca, chata, sem graça e arrastada ao extremo. Parece uma trama que já estaria ultrapassada nos anos 1940, centrada em um relacionamento pouco interessante entre protagonistas igualmente desinteressantes. Nada evolui de forma envolvente, tudo soa distante e sem impacto. Isso sem falar nos personagens principais, que têm o carisma de um chuchu. E o curioso é que os atores não são ruins. Em outros contextos, já provaram que conseguem entregar mais, mas aqui o roteiro simplesmente não ajuda em nada.
Se há algum ponto positivo, são os figurinos e os cenários, que ao menos demonstram algum cuidado visual. Mas para por aí. A caracterização, de modo geral, não funciona, especialmente no caso do próprio Warren Beatty interpretando Howard Hughes. Hughes é uma das figuras mais emblemáticas dos Estados Unidos no Século XX, um magnata extremamente influente e cuja imagem é amplamente conhecida até hoje. Ver Beatty caracterizado e não reconhecer absolutamente nada dessa figura histórica compromete completamente a imersão.
Rules Don't Apply cai na pior categoria possível. Não é um filme que irrita, nem que diverte ou que provoca qualquer tipo de reação mais forte. Ele simplesmente não causa nada. Quando uma obra te deixa feliz ou revoltado, ao menos ela te marcou de alguma forma. Aqui, o que fica é a apatia. Quando o filme termina, seja no cinema ou na televisão da sala, a sensação é de vazio. É morto, sem vida, não respira e não tem pulsação. No fim das contas, sobra apenas a impressão de que tudo aquilo foi uma grande perda de tempo.
THE DISAPPOINTMENTS ROOM Direção: D. J. Caruso Ano: 2016 Assistido em: 18/04/2026
Na época em que comecei a assistir Prison Break (2005-2009; 2017), fiquei absolutamente obcecado. Provavelmente foi a série que mais me deixou imerso, e a coisa mais próxima de um vício que já experimentei. Fiquei tão fã de Wentworth Miller que passei a ir atrás de absolutamente tudo que ele fazia. Quando ele diminuiu o ritmo como ator e passou a focar na carreira de roteirista, continuei acompanhando com interesse.
Quando esse filme saiu, eu estava muito ansioso para assistir, mas confesso que, ao ver as críticas desastrosas, preferi evitar para não me irritar. Passados dez anos, decidi finalmente dar uma chance a esse filme tão mal falado e preciso admitir que, dessa vez, as críticas estavam certas.
Uma arquiteta, Dana, muda-se com o marido David e o filho Lucas para uma antiga mansão após a morte traumática da filha. Ao explorar a casa, ela descobre um quarto secreto escondido no sótão e passa a vivenciar fenômenos perturbadores ligados ao passado sombrio do lugar, enquanto sua sanidade e a segurança da família são colocadas em risco.
Um grande problema do filme é que ele inteiro soa como uma daquelas produções feitas diretamente para DVD do começo dos anos 2000, sem um pingo de cuidado ou esmero. Tudo parece feito de qualquer jeito. Os cenários são pobres, a fotografia é escura em excesso, o roteiro é terrivelmente clichê e a trilha sonora é completamente esquecível. O pior de tudo são as atuações.
A Kate Beckinsale nunca foi exatamente um primor, sempre foi limitada, mas aqui atinge níveis constrangedores. E a caracterização não ajuda em nada. Não parece nem de longe que aquele cabelo seja real, dá a impressão de ser uma peruca de baixíssima qualidade. O elenco de apoio também sofre com o roteiro preguiçoso e com uma direção pouquíssimo inspirada.
Como eu disse, ainda sou muito fã do Wentworth Miller e sei que, como roteirista, ele pode entregar muito mais. Seu primeiro trabalho na área, Stoker (2013), que ele escreveu sozinho, foi muito bom. Aqui, no entanto, dividir os créditos com D. J. Caruso claramente não funcionou. O resultado é um filme genérico, sem alma, sem vida, que termina exatamente como começa e deixa a sensação de um enorme desperdício de potencial.
O Código da Cadeia
3.2 3WASTEMAN
Direção: Cal McMau
Ano: 2025
Assistido em: 24/05/2026
Eu sou fascinado por histórias de prisão há muitos e muitos anos. Minha série favorita é Prison Break (2005–2017), meu livro favorito é O Conde de Monte Cristo, e eu me lembro de como as chamadas de Oz (1997–2003) na programação do SBT me deixavam completamente fascinado. Então, quando tomei conhecimento deste filme, fiquei com uma expectativa enorme para assisti-lo. E é muito bom quando você termina um longa percebendo que a espera valeu a pena, que ele conseguiu te cativar em todos os aspectos e entregar exatamente aquilo que prometia. Foi exatamente essa sensação que eu tive com Wasteman, e é muito gratificante quando se é recompensado dessa forma.
Taylor é um presidiário britânico que acaba criando uma relação intensa e perigosa com Dee, outro detento marcado pela violência e pela desesperança, recém-transferido para sua cela. Enquanto tentam sobreviver ao ambiente opressor da cadeia, ambos enfrentam seus próprios limites emocionais e psicológicos.
O mais interessante aqui é que a história é extremamente crua. Não existem muitos floreios nem tentativas de suavizar o que estamos vendo. O longa mostra pessoas que estão cumprindo pena, e o roteiro não perde tempo tentando criar desculpas emocionais ou cenas melodramáticas para amenizar os crimes cometidos por aqueles personagens. Não existe essa tentativa desesperada de transformar ninguém em vítima. Sabemos que todos estão ali porque fizeram algo errado e, portanto, merecem estar naquele ambiente. Não há inocentes, e o filme acompanha justamente os desdobramentos das atitudes dessas pessoas dentro daquele mundo brutal e selvagem.
Dizem que amizades construídas em situações extremas costumam ser as mais fortes, mas o roteiro também deixa muito claro que pessoas complicadas existem em qualquer lugar. E essa talvez seja a principal mensagem da história: ter cuidado com quem colocamos para dentro da nossa vida, com quem confiamos nossos medos, fragilidades e segredos. Muitas vezes, sem perceber, acabamos entregando armas para que essas pessoas usem contra nós no futuro.
Como protagonistas temos a excelente dupla David Johnson e Tom Blyth (um verdadeiro espetáculo aqui). Eu já conhecia o trabalho de ambos em outras produções, mas aqui sinto que os dois entregam performances muito mais maduras e intensas. Existe uma entrega emocional muito maior, e acredito que, se continuarem sendo desafiados com papéis assim, ainda podem apresentar trabalhos extremamente interessantes no futuro. A direção também merece elogios por construir um clima genuinamente claustrofóbico. Os espaços são apertados, a câmera permanece constantemente próxima dos protagonistas, quase nos sufocando junto com eles, e isso faz com que a gente sinta cada momento de tensão, desespero e brutalidade de maneira muito intensa.
Para não dizer que nada me incomodou, confesso que aqueles vídeos de celular inseridos entre algumas cenas, principalmente no início, me pareceram bastante deslocados e quebravam um pouco a imersão. Ainda assim, isso está longe de comprometer o resultado final.
Wasteman foi uma grata surpresa. É um filme que despertou meu interesse desde o momento em que ouvi falar dele, ainda na metade do ano passado, e só consegui assistir agora, mas a espera valeu completamente a pena. Trata-se de um drama extremamente interessante, com um roteiro que nos joga dentro de um mundo cruel, onde decisões precisam ser tomadas rapidamente para sobreviver. Toda a trajetória leva seus personagens ao limite e os obriga a tomar atitudes sem volta. E histórias assim, capazes de provocar impacto e reflexão ao mesmo tempo, representam justamente o cinema atingindo o seu ponto mais alto.
Preso na Escuridão
4.1 505 Assista AgoraABRE LOS OJOS
Direção: Alejandro Amenábar
Ano: 1997
Assistido em: 24/05/2026
Eu sou um homem adepto a segundas chances. Costumo revisitar filmes e histórias que não me conquistaram para tentar entender se não era apenas coisa do momento. Eu assisti a Vanilla Sky (2001) há muitos anos e lembro de não ter gostado nem um pouco. Não consegui me conectar com os personagens nem com a história, e admito que tenho sérios problemas com o cinema de Cameron Crowe. Não foi o primeiro, nem o último filme dele de que eu não gostei. Então eu já estava convencido de que essa história simplesmente não era para mim. Porém, recentemente escutei num podcast elogios extremamente rasgados ao original, e resolvi dar uma oportunidade. Quem sabe esse não era um daqueles casos em que o remake era muito inferior ao material de origem? Então decidi assistir, mas, para meu azar, o mesmo descontentamento que o remake me causou também apareceu aqui.
César é um jovem rico e mulherengo que vê sua vida desmoronar após um acidente provocado por Nuria, uma mulher obcecada. Desfigurado e consumido pela paranoia, ele começa a perder a noção entre realidade, sonho e delírio enquanto tenta entender o que realmente aconteceu com sua amada Sofía e consigo mesmo.
Não vou mentir: cheguei aqui de mente aberta, querendo gostar e desejando, por tudo o que é mais sagrado, que ele fosse muito diferente de sua versão americana. Entretanto, para meu desgosto, o remake foi bem fiel, tanto que esse aqui e me incomoda exatamente nos mesmos aspectos que a versão com Tom Cruise me incomodava. É uma história lenta, arrastada, com personagens de carisma negativo e dramas superficiais extremamente chatos. O roteiro é muito focado em vaidade, na não aceitação de que nem tudo o dinheiro pode comprar e de que nem tudo está ao seu alcance. Enfim, é uma trama recheada de personagens com conflitos extremamente fúteis e uma reviravolta que, honestamente, achei completamente tirada do vento, ainda mais para um filme que parecia relativamente realista e com os pés no chão, do fim da década de 1990.
Sobre o elenco, esse talvez seja o ponto mais alto do filme. A belíssima Penélope Cruz interpreta aqui, pela primeira vez, a Sofía, personagem que reprisaria anos depois em Vanilla Sky. Porém, não existe ator bom capaz de salvar personagens tão desinteressantes, e infelizmente ninguém aqui consegue fazer milagre. Outra coisa que me incomoda bastante é o fato de César ser vendido como um conquistador irresistível, um homem absurdamente sedutor e magnético. Gente, isso até funcionava em Vanilla Sky, porque ali o protagonista era o Tom Cruise. Aqui simplesmente não existe esse atenuante, longo não convence.
Sabemos que Hollywood tem uma resistência absurda a legendas, e a solução deles toda vez que um filme faz sucesso em outro país é produzir uma versão própria. Eu particularmente sou bastante avesso a isso, mas sou obrigado a admitir que, muitas vezes, eles entregam trabalhos excelentes e, em alguns casos, até superiores aos originais. Como eu disse, eu não gosto do remake, mas jamais imaginei que um dia acharia o original ainda mais fraco. E foi justamente isso que me deixou perplexo. Sobre essa história, acredito que duas chances já foram mais do que suficientes, porque infelizmente ela jamais terá uma terceira comigo.
Jack Ryan: Guerra Fantasma
2.7 24 Assista AgoraJACK RYAN: GHOST WAR
Direção: Andrew Bernstein
Ano: 2026
Assistido em: 24/05/2026
Jack Ryan é um personagem icônico da literatura que foi levado ao cinema inúmeras vezes, com inúmeros intérpretes. Entretanto, a franquia não estava no auge da popularidade na década passada, e os detentores dos direitos resolveram reavivá-la na televisão, desta vez com John Krasinski no papel. O que foi uma ideia muito boa e acabou gerando uma primeira temporada bastante sólida e muito bacana de assistir. Porém, o sucesso levou o show a ser renovado para novas temporadas que infelizmente não conseguiram acompanhar o mesmo ritmo da primeira, e a acabou terminando sem muito do prestígio que tinha conquistado no princípio. Portanto, o anúncio de um filme não soou lá muito bem aos ouvidos, mas eu decidi dar uma chance de qualquer forma.
Jack Ryan é forçado a voltar ao mundo da espionagem quando uma missão internacional encoberta revela uma conspiração mortal ligada a uma unidade clandestina fora de controle. Ao lado de poucos aliados, ele precisa impedir um ataque enquanto enfrenta traições e fantasmas do próprio passado.
Apesar de as coisas já terem mudado muito, Hollywood ainda tem uma questão elitista muito forte de que cinema é a "primeira classe" e TV são os produtos de qualidade duvidosa. E nós sabemos que isso não é verdade, porque existem séries espetaculares. Mas mesmo assim, resolveram fazer um filme protagonizado pelo Krasinski, já que ele era o único intérprete do personagem que ainda não tinha estrelado um longa-metragem. O problema é que a série-mãe já vinha dando sinais de desgaste, e as últimas temporadas tinham sido muito fraquinhas. Então, trazer esse personagem para um longa demandava um roteiro que realmente justificasse a existência do projeto, e não foi o que aconteceu. A impressão que eu tive foi a de assistir a um episódio de uma hora e quarenta minutos de um show que já tinha dado o que tinha para dar, há muito tempo.
Não há nada de novo aqui. Estão presentes todos os clichês possíveis de cinema de ação: o agente aposentado que é obrigado a retornar ao serviço, o pedido de ajuda de um velho amigo, a missão que só ele consegue cumprir, a organização que deveria apoiá-lo se voltando contra ele, viagens incessantes de um lado para o outro. Enfim, é uma amálgama de tudo o que vemos em no gênero há pelo menos vinte anos. E, se você não tem um motivo real para contar uma nova história, para que mexer nisso? Apenas requentar algo que já estava frio há muito tempo?! Não faz sentido algum.
Eu gosto do John. Sou fã dele desde que conheci The Office (2005–2013). Ele também é um ótimo diretor, mas, convenhamos: entre todos os Jack Ryans, e foram muitos, infelizmente o dele está entre os mais fracos. O que é uma pena, porque seria muito bom vê-lo protagonizando um filme da franquia que realmente fosse planejado e executado como uma produção cinematográfica, e não como um arremedo de série, que é exatamente o que vemos aqui. Espero que ele deixe as ondas levarem esse barco e foque em outros rumos da carreira. O personagem precisa descansar um pouco e, quem sabe, no futuro possa retornar com outro intérprete e uma nova equipe criativa por trás. Porque Jack Ryan é um personagem bacana, gostoso de acompanhar, mas nesta Ghost War o resultado foi um verdadeiro desastre.
Maldição da Múmia
3.2 168 Assista AgoraLEE CRONIN'S THE MUMMY
Direção: Lee Cronin
Ano: 2026
Assistido em: 23/05/2026
Como cria dos anos 90, meu primeiro contato com uma história de múmia foi no episódio clássico do Chapolin e, mais tarde, com o clássico do Stephen Sommers protagonizado por Brendan Fraser e Rachel Weisz. Então é óbvio que múmias são um dos meus monstros clássicos favoritos. Toda vez que anunciam um filme envolvendo essa criatura, eu vou atrás cheio de expectativa, animado, querendo adorar como adorei o de 1999. E geralmente eu quebro a cara quase todas as vezes. Ainda assim, meu fascínio por esse tipo de história nunca diminuiu. Eu não tive a oportunidade de assistir a esse nos cinemas, porque ele não chegou à minha cidade, mas assim que saiu nas plataformas digitais fui correndo conferir. E puta que pariu, eu não podia ter ficado mais indignado com o que encontrei.
Após o desaparecimento da filha Katie enquanto viviam no Egito, Charlie Cannon e sua esposa Larissa passam anos tentando lidar com a tragédia. Quando a garota reaparece misteriosamente dentro de um antigo sarcófago, o casal logo percebe que algo maligno voltou com ela.
Gente, lendo um pouco dos bastidores do filme, descobri que o título original nem era The Mummy. Era outra coisa qualquer, até que os executivos surtaram e resolveram transformar isso em um filme de múmia, com direito a egomania no nome e tudo. E isso fica completamente evidente na história, porque o que nós temos aqui não é uma história de múmia. Nós temos uma história de possessão. Isso aqui poderia facilmente ser encaixado no subgênero de exorcismo ou virar uma daquelas infinitas porcarias genéricas dos spin-offs de Invocação do Mal, mas jamais deveria carregar o nome de "A Múmia".
A história mal se passa no Egito ou em qualquer outro país que tenha alguma ligação histórica com múmias. A menina nem morta de verdade está. Ela não tem milhares de anos, ela é só uma adolescente. A maquiagem é horrível, o visual da criatura não faz o menor sentido e o roteiro insiste em transformar tudo numa trama sobrenatural genérica que poderia servir para literalmente qualquer outro monstro.
E eu sei que existem diferentes interpretações da criatura no cinema. Existe o modelo clássico criado lá nos anos 1930 com Boris Karloff, e desde então já fizeram mil releituras diferentes. Só que você espera que algumas regrinhas básicas sejam respeitadas. Como diria o Chapolin, uma múmia precisa ser "bastante egípcia", antiga e, no mínimo, enrolada em ataduras. Mas aqui, meu Deus, é tudo tão esquizofrênico e desconexo que parece que ninguém sabia que estava fazendo.
Tudo funciona mal. A fotografia é escura de um jeito irritante, os personagens são insuportáveis, não existe carisma algum e você simplesmente não se importa com ninguém daquela família. Sinceramente, se morressem todos, talvez a história até melhorasse. Eu gosto muito do Jack Reynor e da Laia Costa, mas a química deles aqui é nula. Outro problema gigantesco é a trilha sonora, que não ajuda em absolutamente nada na construção do clima de tensão. A edição é sofrível. O filme tem mais de duas horas e parece não sair do lugar nunca. Faltou uma tesoura muito afiada para cortar pelo menos quarenta minutos dessa enrolação.
Os sustos são os mais ordinários possíveis, exatamente daquele tipo que você encontra em qualquer terror genérico lançado semanalmente nos cinemas ou streamings. E é até cansativo ficar aqui só reclamando, mas sinceramente eu não consigo encontrar quase nada que funcione nesse desastre.
Mas uma coisa eu não vou permitir: esse filme mequetrefe não vai destruir o meu fascínio por múmias. Inclusive, estou extremamente animado para o ano que vem, quando teremos o retorno da franquia noventista com Brendan Fraser e Rachel Weisz. E eu realmente espero não me decepcionar, porque os dois originais têm um valor afetivo gigantesco para mim.
Não cheguei aqui esperando uma grande aventura. Sei que a propostas era completamente diferentes. A ideia era fazer terror mais clássico. Mas eu esperava pelo menos o básico do que já está estabelecido sobre o conceito de uma múmia. E infelizmente não existe absolutamente nada disso aqui. A decepção bateu forte. E espero sinceramente que essa porcaria desapareça da minha cabeça o mais rápido possível.
Estrelas Além do Tempo
4.3 1,5K Assista AgoraHIDDEN FIGURES
Direção: Theodore Melfi
Ano: 2016
Assistido em: 23/05/2026
Infelizmente eu não consegui assistir a esse filme lá em 2017, quando estava correndo atrás de todos os indicados ao Oscar daquela temporada. Com isso, o tempo passou, meu interesse arrefeceu e ele acabou ficando para trás. Só que ele nunca saiu da minha listinha de pendências, e finalmente olhei para ele novamente e decidi que era hora de assisti-lo. E caramba, como eu me arrependo de não ter ido atrás antes, porque fiquei simplesmente encantado com o que encontrei, principalmente com a força dessa história.
Katherine Johnson, Dorothy Vaughan e Mary Jackson são três brilhantes matemáticas que trabalham na NASA durante a corrida espacial dos anos 1960. Enquanto enfrentam o racismo e o machismo dentro da instituição, elas se tornam fundamentais para uma das missões mais importantes da história americana.
Hidden Figures é um filme que mexe com você em diversas camadas. Primeiramente, você fica indignado ao ver, mesmo que minimamente, o quão nojentos eram o preconceito e a segregação racial existentes no início da década de 1960. Não que hoje em dia isso também não exista e continue sendo asqueroso, mas é assustador lembrar que naquela época o racismo era praticamente legitimado pela própria lei. Ao mesmo tempo, o roteiro nunca descamba para o excessivamente dramático. Ele expõe muitos dos problemas da época, não tantos quanto deveria, talvez, mas não deixa que isso sobrecarregue a história.
Nós temos três protagonistas e, mesmo diante de inúmeras injustiças, elas levam a vida com muita leveza. Você não vê cenas delas sofrendo caladas; pelo contrário, elas são reativas, vão atrás, lutam e se impõem da maneira que podem. E essa é justamente a parte recompensadora, porque o filme não se resume apenas ao sofrimento. Existe também a satisfação de ver essas três mulheres negras, sendo, como a própria Mary diz, “as primeiras”. E isso é muito gostoso de assistir.
É revoltante que essa história só tenha chegado ao grande público nas últimas décadas e que, por mais de quarenta ou cinquenta anos, o mundo simplesmente não conhecesse o trabalho delas. E aí vem o questionamento: quantas Katherines, quantas Marys e quantas Dorothys não existem por aí, com trabalhos pioneiros, revolucionários, que nunca receberam o devido reconhecimento? Isso é triste. E, por mais que o filme seja uma celebração à vida delas e de todas as mulheres que trabalharam na NASA, o que é extremamente positivo e merece ser celebrado, ainda dói perceber que, para algumas pessoas, apenas por causa do gênero, da cor da pele ou do local onde nasceram, a estrada é muito mais complicada. É muito impactante a cena em que Mary fala que, se fosse um homem branco, ela não precisaria nem sonhar em ser engenheira, porque simplesmente já seria uma. Isso é brutal de assistir.
A parte técnica é brilhante. Os figurinos são muito bem feitos, os cenários e objetos remetem bastante à década de 1960, e você consegue comparar com fotos reais e perceber que existe uma preocupação evidente com a precisão histórica. A edição e a montagem são maravilhosas, extremamente dinâmicas, e até mesmo cenas desesperadoras, como as várias vezes em que Katherine precisa correr para usar o banheiro, acabam ganhando um tom levemente divertido e descontraído. E acredito que essa era justamente a intenção do roteiro, porque é impossível não rir em certos momentos, o que ajuda a desarmar o peso sem diminuir a gravidade da situação. E claro, tudo culmina naquela cena maravilhosa em que ela finalmente explode e fala sobre o problema sem medo.
A direção sabe extrair o melhor do elenco. E que elenco. Mesmo nos papéis menores, há atores extremamente talentosos entregando performances excelentes. Mas obviamente o trio de protagonistas, Taraji P. Henson, Octavia Spencer e Janelle Monáe, está simplesmente irretocável.
Eu só não dou uma nota ainda mais alta porque existem dois pontos que infelizmente me incomodaram e que não consigo deixar passar despercebidos. O primeiro é que senti uma suavização muito grande no retrato do racismo institucional dentro da NASA. Em muitos momentos, parece que todo mundo ali era compreensivo, amigável e bonzinho. Não sei se isso partiu de um receio dos roteiristas por estarem lidando com pessoas reais, mas achei tudo muito condescendente, principalmente sabendo que a realidade provavelmente era muito pior.
O segundo ponto é a trilha sonora. E me dói na alma dizer isso, porque Hans Zimmer é o meu compositor favorito da vida. Só que este talvez seja um dos trabalhos mais anêmicos dele que eu já ouvi. A trilha simplesmente não aparece. A única cena em que ela realmente chama atenção é durante o lançamento do Mercury-Atlas 6. De resto, é tudo muito apagado e sem impacto.
Eu adorei Hidden Figures e me arrependo muito de não ter assistido a ele antes. É um filme que, depois de todas as pancadas, te recompensa. E no final o saldo é extremamente positivo quando você vê que aquelas três mulheres conseguiram deixar sua marca e finalmente receberam reconhecimento, tardio, infelizmente, mas ainda assim merecido. É muito bom saber que a história delas saiu do anonimato, ganhou o mundo, ganhou um livro, ganhou um filme indicado ao Oscar e foi tratada com muito cuidado, carinho e respeito.
Esse é daqueles títulos que deveriam ser obrigatórios, que todo mundo deveria assistir. Esse sim merecia fazer um puta sucesso, e não tanta tranqueira que vemos por aí. Mas infelizmente a vida é injusta, assim como foi muito injusta com as nossas protagonistas. Ainda assim, acredito que qualquer pessoa que o descubra, vai terminá-lo com um sorriso de orelha a orelha. E isso não tem preço.
A Sogra
2.9 493 Assista AgoraMONSTER-IN-LAW
Direção: Robert Luketic
Ano: 2005
Assistido em: 17/05/2026
Eu lembro que, no final da década de 2000, o SBT repetia esse filme em várias ocasiões, mas eu nunca tive a oportunidade de assistir. Ainda assim, eu ficava interessado, afinal uma comédia que coloca uma nora contra a sogra é um tropo bastante comum no humor e, se bem executado, pode render grandes gargalhadas. Entretanto, eu nunca tinha parado para assistir até que, zapeando pela HBOMax, encontrei o filme e decidi finalmente dar uma chance. Só não imaginava que fosse me arrepender amargamente disso.
Charlotte finalmente acredita ter encontrado o homem perfeito ao ficar noiva de Kevin, mas tudo muda quando conhece Viola, a mãe dele. Incapaz de aceitar a ideia de perder o controle sobre o filho, Viola transforma a vida da futura nora em um verdadeiro pesadelo, usando manipulações, humilhações e armadilhas para destruir o relacionamento. Enquanto Kevin tenta equilibrar a situação, Charlotte se vê presa em uma disputa cada vez mais absurda e agressiva.
O mínimo que uma comédia precisa fazer é ser engraçada. Ela não precisa necessariamente ser hilária a ponto de arrancar lágrimas de tanto rir, mas ao menos alguns sorrisos discretos deveriam surgir naturalmente. Quando você passa uma hora e quarenta minutos sem sequer esboçar a menor reação, é porque existe um problema muito sério. E foi exatamente isso que aconteceu comigo aqui. Os personagens são tão ruins e irritantes que simplesmente se torna impossível se divertir com qualquer coisa que acontece.
Lendo algumas curiosidades no IMDb, descobri que esse foi o primeiro filme de Jane Fonda em quinze anos e que ela aceitou participar mesmo sabendo que o roteiro era ruim. E sinceramente, se ela própria reconhecia isso, por que eu fingiria o contrário? Porque este filme é de uma chatice impressionante. Nada do que acontece na história desperta interesse, e todos os planos elaborados por Viola para prejudicar Charlotte são bobos, sem graça e extremamente infantis. A impressão que tive é que essas situações foram escritas por crianças de dez anos de tão pouco refinadas que são.
A direção de Robert Luketic é completamente insípida. Até dou um desconto por ser um dos primeiros trabalhos dele, já que no futuro conseguiria entregar produções mais interessantes, mas aqui tudo parece artificial e sem personalidade. Sobre o elenco, a única observação que consigo fazer é que Jane Fonda é atriz demais para um material tão fraco, e sinceramente, esperar quinze anos para retornar ao cinema com um projeto desses chega a ser deprimente. Jennifer Lopez entrega exatamente o que o roteiro pede dela, e Michael Vartan também não compromete completamente, mas nada aqui funciona de verdade.
Esse é facilmente um dos piores filmes que assisti neste ano. E eu sei que a recepção dele lá em 2005 já tinha sido bastante negativa, mas nunca é demais reforçar: ficou ruim mesmo. Passei mais de vinte anos curioso para descobrir como seria essa joça, e a única conclusão a que chego é que teria sido muito melhor continuar sem matar essa curiosidade. Simplesmente horripilante.
Doze é Demais
3.1 688 Assista AgoraCHEAPER BY THE DOZEN
Direção: Shawn Levy
Ano: 2003
Assistido em: 17/05/2026
Assisti a esse filme pela primeira vez em meados dos anos 2000, provavelmente em um domingo à tarde na TV Globo. E, sendo adolescente, eu não tinha muita bagagem ou conhecimento para discernir o que era um filme realmente bom de algo apenas mediano. Entretanto, quando decidi reassistir a Doze é Demais, fui de coração aberto, decidido a gostar da mesma forma que gostei no passado. Só que o amadurecimento faz a gente enxergar o mundo por outras perspectivas.
Tom e Kate Baker vivem tentando equilibrar a rotina caótica de criar doze filhos extremamente diferentes entre si. Quando uma grande oportunidade profissional surge para os dois ao mesmo tempo, a família inteira acaba mergulhando em uma sequência interminável de confusões, rivalidades e desastres domésticos. Enquanto tentam manter a união da casa, os pais precisam lidar com as dificuldades da convivência, os problemas da adolescência e os desafios de administrar uma família enorme sem deixar que o amor entre todos se perca no caos diário.
Honestamente, eu sei que este filme é um remake de um clássico da década de 1950, que por sua vez é uma adaptação de um livro levemente inspirado em uma história real. Obviamente existem extrapolações intencionais, porque o cinema precisa entreter o público acima de qualquer coisa. Mas infelizmente essa versão de 2003, apesar de ainda ter um lugarzinho especial na minha memória afetiva, não funcionou comigo dessa vez. Eu consegui esboçar alguns sorrisos discretos aqui e ali, mas gargalhar ou realmente achar graça foi algo que simplesmente não aconteceu.
O mais impressionante para mim nem foi o fato de o casal precisar dar conta de doze crianças — o que já seria um pesadelo para qualquer adulto funcional. O mais surpreendente é perceber como praticamente todos esses filhos conseguem ser completamente insuportáveis. Com exceção da mais velha, não existe um minimamente tolerável. Quando eu era criança/adolescente, tinha horror ao personagem do Ashton Kutcher, mas hoje em dia eu consigo entendê-lo. Não concordo totalmente com seu comportamento, mas entendo-o. São vários monstrinhos fazendo barbaridades o tempo inteiro enquanto os pais simplesmente passam a mão na cabeça.
Entendo que o modelo de criação norte-americano é diferente do nosso no Brasil, mas é impossível não pensar que, em terras tupiniquins, essa história dificilmente aconteceria da mesma forma, porque essas crianças certamente não teriam o mesmo comportamento.
Eu sei que tudo isso pode soar como papo de adulto chato, mas infelizmente, quando você ultrapassa certa idade, fica impossível não analisar as coisas com um olhar mais crítico. Reassistir a esse filme tantos anos depois me deixou com a impressão de que praticamente todos os personagens são insuportáveis e de que muitos dos problemas daquela família seriam evitados se existissem mais limites dentro daquela casa. Ainda assim, creio que esse seja exatamente o tipo de produção que te conquista de uma maneira na juventude e ganha um significado completamente diferente na vida adulta. Afinal, as pessoas mudam, amadurecem e passam a enxergar determinadas situações sob novas perspectivas. E, sinceramente, isso é absolutamente normal.
Faces of Death
2.8 45FACES OF DEATH
Direção: Daniel Goldhaber
Ano: 2026
Assistido em: 16/05/2026
Nos anos 2000, tivemos uma verdadeira onda de remakes e reboots de clássicos do terror. Faces of Death nunca foi exatamente um grande clássico do gênero, mas sempre esteve naquela lista dos filmes mais peculiares. Quando anunciaram esse "remake", eu não estava nem um pouco interessado, mas confesso que as boas críticas me fizeram ir atrás dele. E acontece aquele velho problema: quando você cria expectativa demais e ela não é atingida, a decepção acaba sendo muito maior.
Margot trabalha moderando vídeos violentos para uma plataforma, removendo conteúdos perturbadores diariamente. Sua rotina muda quando ela encontra gravações extremamente realistas que parecem recriar mortes famosas do antigo Faces of Death. Conforme novos vídeos surgem, Margot passa a desconfiar que os assassinatos podem estar acontecendo de verdade. Obcecada em descobrir quem está por trás das filmagens, ela mergulha em uma investigação perigosa que a coloca diante de um assassino cruel, disposto a transformar violência real em entretenimento para a internet.
Levando em consideração a proposta do original, creio que essa atualização foi muito bem pensada. Não temos mais vídeos avulsos e desconectados; agora tudo está ligado a uma narrativa central. O problema é que, honestamente, eu não consegui me importar muito com a trama apresentada.
Temos uma protagonista que tenta fazer o correto e encontrar esse serial killer completamente perturbado, que, convenhamos, mata pessoas de maneiras criativas. Ainda assim, eu simplesmente não consegui me conectar com a história nem dar muita importância ao que estava acontecendo. E nem acho que seja um problema de atuação, porque Barbie Ferreira está bem no papel. A questão é que a personagem nunca convence completamente.
Por outro lado, Dacre Montgomery entrega uma figura interessante, mas muito caricata. É uma pena que o roteiro não dê nuances suficientes para que ele consiga fugir dos estereótipos clássicos de serial killer desequilibrado.
Honestamente, eu esperava muito mais deste longa, principalmente por causa das críticas positivas e também porque praticamente todo ano surge algum terror pouco comentado e de baixo orçamento que explode de maneira inesperada e acaba se transformando em um grande sucesso. Entretanto, essa nova versão do original dos anos 70 definitivamente não será esse filme. Dentro do contexto de 2026, essa vaga continua em aberto.
1917
4.2 1,8K Assista Agora1917
Direção: Sam Mendes
Ano: 2019
Assistido em: 16/05/2026
Recentemente li um livro sobre a Primeira Guerra Mundial e fiquei com o hiperfoco nesse assunto mais uma vez, já que essa não foi a primeira ocasião em que isso aconteceu. Quando terminei a leitura, fui atrás de alguns títulos que retratassem um pouquinho de toda aquela carnificina que, nas páginas, tem um outro peso. Foi aí que percebi que nunca tinha assistido a 1917, um dos filmes mais famosos da era atual sobre esse conflito, então fui atrás com muitas expectativas, e é muito bom quando você pode dizer que elas foram devidamente atendidas.
Dois jovens soldados britânicos recebem uma missão quase impossível durante a Primeira Guerra Mundial: atravessar território inimigo para entregar uma mensagem capaz de impedir um ataque devastador. Correndo contra o tempo, eles enfrentam trincheiras destruídas, armadilhas, cadáveres e o constante risco da morte em uma jornada marcada pelo desespero e pela urgência. Enquanto avançam por um cenário devastado pela guerra, ambos precisam lidar com o medo, o cansaço e a pressão de salvar centenas de companheiros antes que seja tarde demais.
O filme parte de uma história simples, mas que exige uma execução particularmente complexa. Basicamente, temos dois soldados britânicos que recebem a missão de atravessar o campo de batalha para chegar a outro destacamento e entregar uma mensagem. Na teoria, seria uma história relativamente fácil de ser filmada, entretanto Sam Mendes decide tornar as coisas muito diferentes ao simular um plano-sequência sem cortes do começo ao fim. O tempo inteiro estamos acompanhando Blake ou Schofield, e tudo o que vemos é através da perspectiva dos dois. Isso gera uma conexão muito forte entre o espectador e os personagens, porque, quando presenciamos tudo o que eles passam, fica muito mais fácil nos relacionarmos com ambos.
O roteiro, apesar de teoricamente simples, não pega leve. É uma trama pesada, densa, e que mostra um lado brutal da guerra. Isso me pega muito, porque frequentemente temos uma visão romantizada desses conflitos, quando na verdade aquilo era uma matança sem precedentes. Os personagens estão em risco constante, e nunca sabemos em que momento algum deles pode morrer. O estado de alerta e tensão permanece no máximo o tempo inteiro.
Tecnicamente falando, tudo é esplendoroso. A direção de Mendes é espetacular, e ele consegue criar enquadramentos deslumbrantes. E é justamente aí que brilha a fotografia de Roger Deakins. Existe um momento, durante a sequência noturna em uma cidade destruída, em que vemos Schofield contra a luz do fogo enquanto suas sombras dominam a composição da cena, criando algo de uma beleza absoluta.
Outro grande destaque é a trilha sonora de Thomas Newman, que consegue nos deixar tensos e nervosos sem descanso. O ritmo é excelente, a montagem é dinâmica, e ela poderia facilmente se tornar cansativa por conta da forma como Mendes decidiu filmá-lo, mas acontece justamente o contrário: tudo passa voando. Mesmo contando com um elenco recheado de nomes famosos, as grandes participações são extremamente pontuais. Alguns atores aparecem tão rapidamente que, se você piscar, talvez nem perceba quem é. Ainda assim, isso não é um problema, porque George MacKay e Dean-Charles Chapman sustentam muito bem o protagonismo.
Infelizmente, eu não tive a oportunidade de assistir a esse filmaço no cinema, mas mesmo vendo tudo na pequena televisão do meu quarto ficou muito claro que esse é um daqueles casos em que a experiência na sala potencializa completamente o impacto da obra. Quem conseguiu assistir na maior tela possível e com o melhor sistema de som certamente teve uma experiência cinematográfica diferenciada, principalmente durante a última grande sequência de ação, que é arrebatadora. 1917 é um filme belíssimo, que retrata com muita sutileza sentimentos extremamente bonitos surgindo em meio a um dos momentos mais horripilantes da história da humanidade. Quem dera o cinema tivesse com mais frequência o hábito de nos encantar com histórias tão poderosas em cenários onde a esperança parece simplesmente não existir.
Mortal Kombat 2
3.3 144MORTAL KOMBAT II
Direção: Simon McQuoid
Ano: 2026
Assistido em: 15/05/2026
Como toda boa cria dos anos 90, eu não passei imune ao fenômeno Mortal Kombat. O que eu mais guardo de recordação é do terceiro jogo em diante, com os quais eu tive maior contato e joguei bastante com amigos. Quando o assunto é cinema, eu assisti às duas primeiras adaptações com bastante frequência, porque elas eram figurinhas garantidas na televisão. Portanto, eu fiquei muito animado quando, no meio da pandemia, entrei na sala de cinema para assistir àquela adaptação de 2021. Saí cuspindo marimbondos, porque é um filme muito ruim. Eu tinha jurado que não queria mais perder meu tempo nem gastar dinheiro com sequências daquele lixo atômico, mas fui convencido pelo marketing desse segundo. E lá estava eu na sala de cinema para dar mais uma chance e, apesar de este novo ser melhor do que o anterior, ele ainda deixa muito a desejar.
Após os eventos do primeiro filme, os campeões do Reino da Terra precisam enfrentar uma nova ameaça quando o torneio Mortal Kombat finalmente começa. Com a chegada de Johnny Cage, os guerreiros liderados por Raiden enfrentam Shao Kahn e as forças da Exoterra em batalhas brutais que definirão o destino da humanidade.
Não sou louco de cobrar um roteiro elaborado de um filme desses. Eu sei muito bem que o foco principal aqui é ver porradaria, mas o mínimo é obrigatório, e é justamente esse mínimo que está sendo difícil. A história é uma pataquada só. Ao invés de aproveitar a lore já estabelecida dos videogames, os roteiristas ficam tentando inventar moda, como se quisessem se provar de alguma forma, e o resultado é uma ideia mais estapafúrdia do que a outra. Aqui, por exemplo, Liu Kang, protagonista dos primeiros jogos da franquia, tirado pra merda, DE NOVO, mal tem tempo de tela. Scorpion e Bi-Han, cuja rivalidade é o plot mais interessante de toda a franquia, aparecem meio que por obrigação, mas, se não estivessem aqui, também não fariam falta, porque eles simplesmente não têm história nenhuma. Já Shao Kahn, o grande vilão da saga, também é bastante rebaixado: praticamente o colocam como um incompetente. Enfim, é tudo feito de qualquer jeito.
Para não dizer que eu só vou reclamar, como eu disse, ele consegue ser melhor que o anterior porque proporciona algumas melhorias. Por exemplo: aquele conceito estúpido de “arcana” que inventaram foi descartado daqui. O Cole Young não teve a mesma sorte que a Alice de Resident Evil, ou então não contou com a mesma falta de escrúpulos da atriz, e foi descartado sem dó nem piedade. Do ponto de vista técnico, o visual do filme continua sendo o ponto alto. As roupas estão lindíssimas, os cenários estão incríveis e uma luta ou outra possui boa coreografia, mas, no geral, não são todas. Ou seja: ele melhora os poucos pontos positivos do anterior, mas continua errando justamente no principal, que é o roteiro.
Esse segundo filme não está sendo o estouro de bilheteria que a Warner Bros. Pictures gostaria, então eu sinceramente não sei se teremos um terceiro longa. Honestamente, nem sei se vale a pena. Depois de um desastre no primeiro e de um filme meia-boca no segundo, eu não apostaria minhas fichas em uma continuação. Mas, caso resolvam insistir, seria muito interessante uma troca completa da equipe principal: tira esse diretor mequetrefe, sumir com esse compositor fraco, trazer roteiristas mais tarimbados e, pelo amor de Deus, vamos fazer o que é certo. Façam um torneio de Mortal Kombat clássico, sem muita firula. Coloquem Liu Kang como protagonista pelo menos uma vez. Ludi Lin é um bom ator; o bichinho merece uma oportunidade. Chega a ser triste ver a covardia que estão fazendo com ele.
Se nós estamos na chamada “era dos videogames”, eu espero que Mortal Kombat não seja um exemplo, porque ele tem uma embalagem bonita, mas um conteúdo bem ruim. E seria muito mais interessante se o roteiro fosse prioridade, ao invés de tentarem conquistar o público apenas com easter eggs. Mas acho que isso já é pedir demais para os estúdios de Hollywood.
Duplex
3.2 815 Assista AgoraDUPLEX
Direção: Danny DeVito
Ano: 2003
Assistido em: 10/05/2026
A primeira vez que assisti a esse filme foi em uma sessão da Tela Quente lá pela meiuca dos anos 2000, e de lá para cá eu nunca tinha feito uma revisão. Agora, mais de vinte anos depois do lançamento, decidi que era hora de dar uma nova chance ao longa de Danny DeVito para descobrir se ele ainda tinha o mesmo poder de me encantar que teve originalmente. E, para minha surpresa, apesar de eu não ter morrido de gargalhar, Duplex continua bastante funcional.
Alex e Nancy acreditam finalmente ter encontrado o apartamento perfeito para começarem uma nova vida juntos no Brooklyn. Porém, a felicidade do casal rapidamente desaparece por causa da idosa que vive no andar superior e transforma a rotina dos dois em uma sequência constante de situações irritantes, desesperadoras e cada vez mais fora de controle.
A marca registrada de Danny DeVito sempre foi o humor negro. Ele constantemente leva esse tipo de narrativa para seus trabalhos, como aconteceu em Throw Momma from the Train (1987) e The War of the Roses (1989), e aqui não poderia ser diferente. Em Duplex, vemos um elemento muito comum em sua filmografia: pessoas normais sendo empurradas para situações cada vez mais absurdas até tudo sair completamente do controle. E o roteiro possui os ingredientes perfeitos para isso funcionar.
Alex e Nancy são um casal jovem e inocente que precisa lidar com a senhora Connelly, uma idosa aparentemente frágil e indefesa. Em um primeiro momento, os dois tentam agir com educação e paciência, evitando serem grosseiros com uma pobre velhinha. O problema é que, aos poucos, ela se revela um verdadeiro demônio disfarçado de senhora simpática, e é justamente dessa escalada absurda que o filme tira boa parte de seu humor.
O ponto mais interessante da trama é justamente como ela brinca com a questão da moralidade. Os protagonistas começam preocupados em não ofender nem magoar a pobre idosa, mas lentamente vão sendo empurrados para situações tão extremas que passam a cogitar maneiras de se livrar dela de uma vez por todas. Eu sou naturalmente desconfiado e me recordo de que, já na primeira vez em que assisti, nunca confiei totalmente na senhora Connelly. Então, quando as reviravoltas começam a surgir, eu não fui exatamente pego de surpresa.
Particularmente, eu nunca fui muito fã de Ben Stiller. Não acho que ele seja um ator engraçado. Em compensação, gosto bastante da Drew Barrymore, mas, sinceramente, ninguém aqui rouba mais a cena do que a veterana Eileen Essell. Para mim, ela é a grande surpresa. A atriz consegue transmitir toda a fragilidade e inocência de uma senhora idosa ao mesmo tempo que, quando necessário, se transforma em um verdadeiro Satanás com uma facilidade impressionante.
No frigir dos ovos, Duplex ainda funciona para mim. Não vou dizer que gargalhei, porque isso realmente não aconteceu em momento algum, mas vários sorrisos e risadas pontuais surgiram naturalmente durante a sessão. Entretanto, também entendo perfeitamente que esse tipo de humor não funciona para todos os públicos. Trata-se de uma comédia de humor negro que pode soar ofensiva em determinados momentos, principalmente para parte do público atual, que costuma ser muito mais sensível a certos temas do que o público do início dos anos 2000, mas acredito que quem resolve assisti-lo já sabe exatamente o que vai encontrar, e provavelmente receberá exatamente aquilo que procura.
O Jogo do Predador
2.8 173 Assista AgoraAPEX
Direção: Baltasar Kormákur
Ano: 2026
Assistido em: 10/05/2026
Eu tenho um problema que me mete em algumas furadas, que é assistir filmes apenas pelo elenco, sem levar em consideração outros fatores. Se tiver alguém de quem eu gosto, eu simplesmente não me preocupo em procurar diretor, roteirista ou qualquer outra informação. Coloco na minha lista e vou embora. Esse caso específico reunia duas pessoas cujo trabalho acompanho há muitos anos e de quem sou profundamente fã: Charlize Theron e Taron Egerton. Então, eu já estava decidido a assistir pelo simples fato de os dois estarem no elenco. Quando descobri que a direção seria de Baltasar Kormákur, responsável pelo excelente Everest (2015), imaginei que poderia estar diante de um grande trabalho. Infelizmente, as coisas não foram tão positivas assim no resultado final.
Sasha decide viajar sozinha para uma remota região montanhosa da Austrália após sofrer com a morte traumática do namorado durante uma escalada. O que deveria ser uma jornada de reflexão se transforma em um pesadelo quando ela passa a ser perseguida por Ben, um homem violento, iniciando uma brutal luta pela própria sobrevivência em meio à natureza selvagem.
Infelizmente, eu não consegui sentir uma conexão verdadeira com essa história. Sasha possui um trauma forte e uma relação quase obsessiva com adrenalina, mas o roteiro nunca parece realmente interessado em explorar isso de forma mais profunda. Existe uma confiança exagerada de que apenas o conceito básico da trama já seria suficiente para sustentar tudo sozinho. E, por mais que eu adore Taron Egerton e saiba que ele é um grande ator, seu Ben nunca me convenceu como um vilão realmente ameaçador.
E deixando claro: esses problemas não são culpa do elenco, que é extremamente carismático e praticamente segura o filme nas costas, especialmente porque os dois passam quase o tempo inteiro sozinhos em cena. O problema está mesmo na construção dos personagens, que nunca se tornam cativantes o suficiente para gerar envolvimento emocional.
A parte técnica é bem realizada, e a direção de Baltasar Kormákur continua competente em cenas de tensão e ambientação. Porém, existe um elemento que me incomodou profundamente: os efeitos especiais. O longa já abre mostrando uma sequência de alpinismo envolvendo Sasha e o personagem de Eric Bana, e praticamente não existe esforço para esconder o CGI extremamente artificial. Isso imediatamente quebra a imersão da história.
O problema piora nas cenas finais, quando os personagens estão escalando um enorme paredão. Existem cenas que entram completamente no vale da estranheza, e a produção perde muito impacto justamente por causa disso.
Apex pode funcionar como entretenimento para quem busca apenas uma diversão simples e despretensiosa. Porém, se você entrar com algum tipo de expectativa maior, como eu entrei, a decepção pode ser considerável. No final das contas, é uma história simples demais, sem profundidade suficiente e incapaz de fazer o público realmente se envolver com seus personagens. E isso é uma pena, porque, nas mãos de um roteirista mais inspirado, essa premissa poderia facilmente render um grande sucesso.
Top Secret! Super Confidencial
3.8 226TOP SECRET!
Direção: Jim Abrahams, David Zucker e Jerry Zucker
Ano: 1984
Assistido em: 09/05/2026
O trio ZAZ revolucionou a comédia durante a década de 1980 com filmes repletos de histórias absurdas, com piadas a todo momento e personagens completamente absurdos. Eles foram responsáveis por clássicos como Airplane! (1980) e a franquia The Naked Gun (1988-1994). No meio disso tudo, tivemos Top Secret!, um longa que acaba ficando um pouco deslocado quando falamos dos maiores sucessos do trio. Como eu nunca tinha assistido, sempre me perguntei por que ele não possuía a mesma repercussão de seus pares, e agora isso ficou muito claro: infelizmente, este aqui é um trabalho menor desses lendários diretores.
Nick Rivers, um popular cantor americano de rock, viaja para a Alemanha Oriental para participar de um festival cultural promovido pelo governo local. Durante sua estadia, ele conhece integrantes da resistência francesa e acaba envolvido em uma absurda conspiração militar, precisando impedir os planos secretos de um grupo ligado ao regime nazista.
Tal como fizeram com os filmes-catástrofe em Airplane! e fariam com as tramas policiais em The Naked Gun, aqui nós temos uma sátira voltada ao gênero de espionagem. Estávamos em plena década de 1980, a Guerra Fria ainda era uma realidade e existia toda aquela paranoia envolvendo a Alemanha Oriental e, principalmente, a União Soviética. Esse era um tema recorrente no cinema da época, então transformar tudo isso em piada parecia um prato cheio que poderia render algo brilhante. E, de fato, encontramos praticamente todos os elementos recorrentes da filmografia do trio: piadas físicas, cenários ajudando a compor as gags visuais, roteiro ágil e o máximo possível de piadas por minuto. O problema é que, aqui, a soma desses fatores não funciona tão bem quanto deveria.
O microcosmo criado pelo roteiro simplesmente não é tão interessante assim, e não senti que a linha narrativa principal realmente funcionasse. Nick Rivers é um protagonista extremamente sem graça, e isso pesa demais no resultado final. Val Kilmer, apesar de carismático e talentoso, claramente não era um grande ás da comédia, e aqui isso fica bastante evidente. Seu personagem não possui presença suficiente para sustentar o projeto, algo especialmente problemático em uma obra que depende tanto do timing cômico de seu protagonista.
Top Secret! não é um filme ruim, mas infelizmente, quando colocado lado a lado com os trabalhos anteriores e posteriores de seus realizadores, fica nítido que ele é inferior. Trata-se de uma produção pouco inspirada, sem muito brilho e com piadas que, principalmente as físicas, me pareceram bastante fracas. Ainda assim, até mesmo os grandes têm seus dias de fraqueza, e, para mim, este é claramente o ponto mais baixo da carreira do trio ZAZ. Felizmente, os acertos deles foram tão numerosos e marcantes que é muito mais fácil celebrar seus grandes êxitos do que ficar preso aos poucos deslizes que cometeram.
Armas na Mesa
4.0 226 Assista AgoraMISS SLOANE
Direção: John Madden
Ano: 2016
Assistido em: 09/05/2026
Política é algo bastante escuso, e isso não é segredo para ninguém. Os bastidores do poder são repletos de histórias escabrosas das quais muitas vezes nem fazemos ideia. E muito mais perigosos do que aqueles que dão a cara a tapa são justamente os que ficam por trás, puxando as cordinhas. Miss Sloane trata exatamente disso: da briga por poder que muitas vezes passa despercebida pelo grande público e de como somos profundamente afetados por interesses particulares e rixas entre figurões.
Elizabeth Sloane é uma estrategista política extremamente respeitada em Washington, conhecida por sua inteligência, frieza e habilidade em manipular adversários. Ao assumir uma campanha em defesa do controle de armas, ela passa a enfrentar políticos influentes, lobistas poderosos e uma intensa pressão pública que ameaça destruir sua carreira e sua reputação.
Eu sei que o que vemos no cinema muitas vezes é uma ficção extrapolada até um limite que faça algum sentido narrativamente e torne a história mais interessante. Mas eu costumo dizer que, de política e de políticos, eu sempre espero o pior e nunca duvido de absolutamente nada. Não duvido que, na vida real, existam manipulações muito mais escabrosas do que as que vemos aqui simplesmente para atender aos interesses de magnatas que estão pouco se importando com o que vai acontecer com as esferas mais externas da sociedade, especialmente com as camadas mais humildes, traduzindo: nós, o grande público.
Apesar de o filme ser muito interessante e possuir bons elementos, como um elenco escolhido a dedo e extremamente talentoso, eu tive um problema de conexão com o roteiro. Por mais importante que seja o tema abordado, eu não senti que era uma história realmente imersiva, daquelas que despertam interesse genuíno em acompanhar o próximo passo de Elizabeth, e dos demais personagens. Sim, nós temos um final muito interessante, que inclusive representa o ponto máximo da trama, mas, no miolo da narrativa, achei os diálogos muito cansativos e os desdobramentos pouco explicados de uma maneira dinâmica. É um filme que claramente precisava de uma polidez maior no roteiro.
Miss Sloane não é ruim, longe disso, mas também não é uma obra para todos os públicos e gostos. Trata-se de um filme bastante nichado, que provavelmente agradará mais a um microcosmo interessado nessas articulações e tramoias dos bastidores políticos, dos lobistas e tudo que gira em torno desse universo. Achei interessante, mas creio que a trama teria funcionado muito melhor com uma duração menos excessiva e com uma condução mais sutil por parte de John Madden. Faltou um pouco mais de refinamento na forma de levar essa história às telas, algo que teria feito bastante diferença no resultado final.
O Diabo Veste Prada 2
3.6 216THE DEVIL WEARS PRADA 2
Direção: David Frankel
Ano: 2026
Assistido em: 04/05/2026
O Diabo Veste Prada original foi daqueles longas que chegaram sem ninguém dar muita bola, muita confiança, e que conseguiram conquistar um espaço gigante na cultura pop. Seus personagens icônicos, seu roteiro inteligente e seus diálogos afiadíssimos fizeram com que ele se tornasse uma das produções queridinhas do público da década de 2000 em diante. E, com o tempo, ele foi angariando ainda mais fãs, ao ponto de se tornar referência. Agora, passados 20 anos, esses personagens voltam com uma nova história que vai muito além da simples nostalgia, e com muito a ser dito.
Anos após deixar a revista Runway, Andy Sachs retorna ao universo comandado por Miranda Priestly em meio à decadência das revistas impressas e à transformação digital da indústria da moda. Agora uma jornalista reconhecida, Andy é chamada para ajudar a restaurar a credibilidade da publicação enquanto Miranda tenta manter sua influência em um mercado cada vez mais dominado por redes sociais, inteligência artificial e grandes conglomerados.
Nós vivemos uma época bem complicada para o cinema. Toda semana os estúdios desovam sequências, reboots e remakes na tela para o grande público, e uma das modinhas mais comuns são as chamadas legacy sequels, que trazem o elenco original de volta, mas muitas vezes sem propósito algum. Entretanto, isso não foi o que aconteceu aqui. Tal qual o original tinha muito a falar sobre ambiente corporativo e relações pessoais, esse projeto também tem muito a dizer. Pode não parecer, mas já se passaram 20 anos. O mundo não é mais o mesmo que era em 2006, todos precisamos nos adaptar, e é justamente sobre isso que essa nova história trata: adaptação.
A Miranda atual não é mais a mesma. Ela não pode mais fazer os mesmos comentários ácidos e sarcásticos de antes, porque agora o trabalhador sabe o que é assédio moral. Ela não pode jogar seu casaco e sua bolsa em cima da mesa sem que isso lhe cause um processo. Outro ponto interessante é que o jornalismo físico praticamente acabou. A forma como consumimos notícias hoje em dia é muito diferente. É preciso se adequar, é preciso rebolar para poder conquistar a atenção das gerações que vêm nascendo, que cada vez menos têm paciência para qualquer coisa. Ela precisa se reorganizar, e é aí que entra a nossa querida Andrea, que chega como uma forma de garantir que essa nova mudança funcione e aconteça.
Um dos pontos mais debatidos nesses 20 anos foi o final do primeiro filme. A nossa mentalidade de 2006 não é mais a mesma de hoje. Naquela época, Miranda era vista apenas como uma chefe que era um verdadeiro diabo. Hoje as coisas mudaram. As pessoas interpretam que ela muitas vezes precisava ser dura para ser respeitada. Aquele final da Andy, convenhamos, era horrível. Todo mundo sabia que ela tinha potencial, todo mundo sabia que ela poderia muito bem fazer diferente da Miranda, equilibrar a sua vida pessoal com a brilhante carreira que teria. E agora, nessa sequência, nós vemos justamente isso. A obra nos mostra que ela é incrível e que pode fazer as coisas de outra maneira. Uma pena que demoraram 20 anos para perceber isso.
Eu não gostaria de ficar comparando com o primeiro filme, mas, se tratando de uma sequência, é impossível não fazer isso. O original é uma sucessão de acertos: roteiro com diálogos interessantíssimos, elenco excelente, trilha sonora marcante e direção inspirada. Aqui quase chega lá, mas ainda ficaram algumas arestas. O elenco é maravilhoso, impecável. Todo mundo que voltou continua extremamente carismático, extremamente afiado, e entregou o seu papel como se não houvesse uma distância de tempo tão grande entre uma produção e outra.
Infelizmente, algumas coisas não funcionaram tão bem. A trilha sonora, por exemplo, é uma delas. A de 2006 é um clássico atrás do outro, mas como hoje em dia as músicas não são tão boas, ela acabou ficando muito apagada, o que reforça o trabalho de Theodore Shapiro, que nessa nova trilha traz muito da original, criando uma identificação sonora com o público. Outro probleminha é a direção. Nós vimos até uma tentativa de recriar a lendária cena de Vogue, só que dessa vez não deu tão certo assim. E temos atores muito grandes subaproveitados, caso de Kenneth Branagh, Justin Theroux e Lucy Liu, os três em papéis não muito interessantes.
Sequências são complicadas, ainda mais quando se trata de filmes clássicos. Eu geralmente vou com a expectativa muito baixa, principalmente quando o sarrafo é tão alto se tratando de uma produção que eu adoro tanto quanto o primeiro The Devil Wears Prada. Não vou dizer que esse segundo título está no mesmo nível do original, porque não está. Creio que o fator novidade e o fator audácia não foram repetidos, e nem tinham como ser. Eram outros tempos, a nossa mentalidade era outra. Mas o filme se propõe a fazer uma discussão sobre o nós de hoje, seja nas relações profissionais, seja nas relações pessoais, e nesse ponto eles arrebentaram. Fizeram o dever de casa direitinho, e o resultado ficou bem satisfatório.
O Diabo Veste Prada
3.8 2,5K Assista AgoraTHE DEVIL WEARS PRADA
Direção: David Frankel
Ano: 2006
Reassistido em: 03/05/2026
O ano era 2006, e o que parecia ser apenas mais uma comédiazinha da semana a estrear nos cinemas acabou se revelando uma história extremamente inteligente, com personagens para lá de carismáticos, e que acabou arrebatando uma legião considerável de fãs que, ao longo dos anos, foi aumentando à medida que novos fãs iam descobrindo esses icônicos personagens e se apaixonando por eles. Não é nenhum exagero dizer que O Diabo Veste Prada já nasceu gigante, e digo mais: a cada revisita ele fica melhor.
Andy é uma jovem jornalista recém-formada que consegue emprego na renomada revista de moda Runway, mesmo sem qualquer interesse pelo universo fashion. Trabalhando como assistente da poderosa e temida editora Miranda Priestly, ela passa a enfrentar uma rotina sufocante marcada por humilhações, exigências absurdas e pressão constante. Conforme mergulha naquele mundo de luxo e aparência, Andy começa a mudar seu comportamento, afetando seus relacionamentos e os próprios valores.
O grande trunfo desse filme é que a protagonista, Andrea, é extremamente carismática e facilmente relacionável, porque qualquer pessoa que já trabalhou na vida esteve em alguma situação semelhante àquelas às quais ela teve que se submeter. Quem nunca teve um chefe carrasco que pede o impossível, que te julga, que te olha torto? Um colega de trabalho torcendo pela sua derrocada? Ou mesmo trabalhou em um lugar totalmente tóxico e foi obrigado a se provar? É claro que o filme possui exageros, ele precisa ter isso porque está falando de uma empresa gigante, de um universo muito diferente da nossa realidade, mas tudo o que acontece em cena é facilmente espelhável no mundo real.
A Miranda pode ser um verdadeiro diabo, mas ela é o tipo de pessoa que você admira quando deixa de ser adolescente e passa a enxergar o mundo com olhos de adulto. Ela faz o possível para sobreviver, para se destacar. É excelente no que faz, e quem é bom no que faz sabe o que merece, sabe o que consegue entregar. Muitas vezes, por causa disso, você é taxado de chato, então acaba precisando criar uma espécie de proteção. A Andy, por sua vez, traz uma abordagem diferente. Ela é mais romântica, mais idealista, e não está errada por isso. Ela também é muito competente, só possui uma visão diferente. E é justamente essa dualidade entre as duas protagonistas, o fato de serem tão diferentes, que faz a química entre elas funcionar absurdamente bem, fazendo com que o público adore as duas sem precisar escolher um lado. A gente gosta de ambas.
Esse filme pode ser classificado como um daqueles raríssimos casos em que praticamente tudo funciona. O elenco dispensa comentários. Meryl Streep, Anne Hathaway e Emily Blunt estão perfeitas e totalmente adequadas aos seus papéis. O roteiro é sensacional: divertido, leve, com piadas ágeis e frases icônicas que entraram para a cultura pop, mas sem deixar de criar pausas de respiro nos momentos que precisam ser mais tensos ou dramáticos, o que valoriza muito a narrativa. A trilha sonora é um espetáculo, recheada de músicas icônicas daquela metade dos anos 2000, e a montagem ágil e dinâmica extrai o melhor da direção, fazendo com que o filme passe voando sem que você perceba.
O Diabo Veste Prada é uma aula. Ele vai te ensinar como funciona o mundo corporativo, como é lidar e conviver com pessoas. É um filme inteligentíssimo que ainda vem embalado em um universo sobre moda, algo do qual eu não entendo absolutamente nada, mas que aqui consegue ser fascinante. E tudo isso acontece porque a produção sabe como apresentar uma história, contá-la e nos cativar. Sem sombra de dúvidas, é uma das melhores, mais divertidas e mais gostosas comédias dos anos 2000, e todo o status de clássico que conquistou nesses vinte anos é mais do que merecido. Ele é indispensável, porque, assim como uma grande Miranda Priestly, se mostra extremamente impecável em tudo o que se propõe.
Batman: A Máscara do Fantasma
3.7 148 Assista AgoraBATMAN: MASK OF THE PHANTASM
Direção: Eric Radomski e Bruce Timm
Ano: 1993
Assistido em: 03/05/2026
Como uma boa cria dos anos 90, um dos meus primeiros contatos com o Batman foi através da icônica série animada lançada em 1992. Uma porta de entrada excepcional para o universo do Homem-Morcego, que acabou se tornando referência com o passar dos anos. Durante muito tempo eu ouvi falar sobre este filme, mas o máximo que havia assistido eram alguns trechos no falecido Cartoon Network. Nunca tive a oportunidade de assisti-lo completo até hoje. Eu estava com uma expectativa absurda, afinal de contas é muito comum ouvir fãs defenderem que este é o melhor longa animado do nosso herói. Mas, como expectativa é a mãe da decepção...
Gotham City passa a ser aterrorizada por uma figura misteriosa conhecida como Phantasm, responsável por assassinar chefes da máfia e deixar Batman como principal suspeito dos crimes. Enquanto tenta descobrir a identidade do vigilante, Bruce Wayne revive lembranças de seu passado, especialmente o romance com Andrea Beaumont, mulher que quase o fez abandonar sua cruzada contra o crime.
O grande problema dessa história, para mim, está no roteiro. Que vai além do simples, beira o bobo e chega até a ser ofensivo ao Batman em muitos pontos. Nós temos tramas paralelas, uma onde vemos o começo de carreira do nosso herói e seus tropeços, e isso é muito bom, mas no futuro ele já aparece maduro, experiente e, ainda assim, cometendo erros que um Batman com anos de carreira jamais cometeria.
Como Bruce Timm e Paul Dini foram os responsáveis pela criação do primeiro universo compartilhado baseado em histórias em quadrinhos, Liga da Justiça Sem Limites já havia me dado spoiler sobre a verdadeira identidade da Phantasm, então eu não fui pego de surpresa por esse detalhe específico. Ainda assim, confesso que ver a personagem praticamente dizendo ao Bruce Wayne que ele não estava agindo como o maior detetive do mundo foi extremamente frustrante. O Bruce aqui parece um adolescente tolo apaixonado, e não um homem com dez anos de experiência e uma mente completamente paranoica, que ao menos desconfiaria do papinho mole da vilã.
Visualmente, nós temos a mesma estética da série animada, que continua incrível e muito bonita. A dublagem do saudoso Kevin Conroy e do Mark Hamill no papel do Coringa está excelente e enriquece bastante o filme, mas infelizmente, com um roteiro tão fraquinho, ele tem dificuldade para se sustentar. No fim, Mask of the Phantasm lembra muito um episódio menor da série animada, quase um filler, e não uma aventura verdadeiramente memorável do Cavaleiro das Trevas.
O Dia do Atentado
3.6 201 Assista AgoraPATRIOTS DAY
Direção: Peter Berg
Ano: 2016
Assistido em: 02/05/2026
O começo da década de 2010 foi um período muito turbulento na minha vida: faculdade, trabalho, o período em que fui militar do Exército... Enfim, meus dias eram tão curtos que a última coisa para a qual eu tinha tempo era acompanhar noticiários. Entretanto, o atentado terrorista na Maratona de Boston foi algo que não me passou despercebido. Eu escutei alguns detalhes sobre a tragédia na época e, poucos dias depois, veio a notícia de que a polícia havia conseguido prender um dos culpados. O que eu não tinha a menor noção era do quão gigantesca foi toda essa situação. Bom, pelo menos é isso que o diretor Peter Berg nos faz acreditar através do seu filme Patriots Day.
Durante a Maratona de Boston de 2013, duas bombas explodem próximas à linha de chegada, matando espectadores e deixando centenas de feridos em meio ao caos e ao pânico generalizado. Nos dias seguintes, a cidade entra em estado de alerta enquanto o sargento Tommy Saunders acompanha a investigação que mobiliza o FBI, a polícia local e agentes federais na tentativa de localizar os irmãos responsáveis pelo atentado antes que eles façam novas vítimas.
O Berg é um diretor que gosta bastante de trabalhar tragédias em suas produções, principalmente com Mark Wahlberg como protagonista. Mas o fato que mais me chamou atenção é como Hollywood parece estar perdendo a sensibilidade para tratar situações tão delicadas. Antigamente, quando ocorria uma tragédia e eles resolviam levá-la para o cinema, existia um intervalo um pouco mais considerável. Hoje em dia, parece que a desgraça acontece e eles já anunciam o projeto. Este aqui, por exemplo, chegou apenas três anos após o ocorrido e, convenhamos, é um tempo muito curto para apresentar uma dramatização. Mas, enfim, não estou aqui para julgar isso, apenas para reforçar que americano gosta muito de ter suas feridas nacionais abertas ao ver grandes tragédias retratadas no cinema.
A guerra entre os Estados Unidos e o islamismo não começou hoje, tampouco em 2013. É algo muito mais antigo e, infelizmente, ainda vemos reflexos disso em 2026. Uma passagem da obra que achei absurdamente surreal, e que só poderia mesmo ter saído da mente de roteiristas de cinema, é quando um dos terroristas diz que o 11 de setembro foi fabricado pelo governo americano e que o islamismo não foi responsável pelos ataques. A ironia é que eles querem “provar” isso justamente matando inúmeros civis.
Mark Wahlberg é um colaborador recorrente do Berg, que muitas vezes o escala para papéis nos quais ele não seria nem de longe o ator mais adequado. E aqui, convenhamos, ele é o protagonista, mas meio que sobra na história. O roteiro tenta cobrir o máximo possível dos elementos que levaram àquela tragédia, e não são poucos. São várias pessoas envolvidas, e Berg opta por algo bastante incomum em filmes desse tipo. Ao invés de apenas mostrar os personagens em cena quando a ação começa, ele dedica um pequeno background para cada uma daquelas vidas. Isso acaba tomando tempo do protagonista, mas não é algo ruim. Nós não precisamos acompanhar profundamente a vida do policial Tommy; o que interessa é a ação dele no dia do atentado, e a produção entende isso muito bem. Justamente por isso, o roteiro fica dinâmico, está sempre em constante movimento.
A direção é muito boa. Ela é ágil, cria excelentes momentos de tensão e nos mantém bastante entretidos diante da tela. O elenco também dispensa comentários: há muitos atores bons, embora, infelizmente, exista gente demais para que todos tenham espaço suficiente. A trilha sonora de Trent Reznor e Atticus Ross é muito boa, a edição é eficiente e você não fica perdido em meio a tantos acontecimentos. Tecnicamente, é um trabalho muito bem realizado e executado.
O resultado final só não é melhor por conta da cena final. Já é recorrente nas obras do diretor inspiradas em fatos reais trazer alguns dos envolvidos para dar depoimentos. Isso funcionaria bem em um documentário, mas aqui não é o caso. Mostrar um card final com fotos e informações das pessoas reais já seria suficiente, como normalmente acontece. Porém, a produção toma um tempo excessivo exibindo depoimentos, e isso, ao invés de enriquecer, enfraquece a narrativa. Berg deveria confiar mais no próprio trabalho, no roteiro e nos atores para fazer o público compreender o peso da história. Trazer as pessoas reais acaba sendo desnecessário e prolonga demais algo que já havia terminado no momento certo.
Batem à Porta
3.1 672 Assista AgoraKNOCK AT THE CABIN
Direção: M. Night Shyamalan
Ano: 2023
Assistido em: 26/04/2026
M. Night Shyamalan não é um diretor de meios-termos, ele é muito 8 ou 80. Ou se gosta bastante de um trabalho dele, ou simplesmente detesta. Eu queria ter assistido este no cinema, entretanto ele não veio para a minha cidade, e acabou que eu perdi um pouco do entusiasmo e esperei passar esses três anos. Agora que tive a oportunidade de assistir, percebi que ele teve um efeito em mim que eu adoro quando acontece, que é o efeito da indignação. Eu amo quando um filme me deixa puto, me deixa revoltado, me deixa indignado, porque é sinal de que ele conseguiu conversar comigo de uma forma muito particular.
Durante uma viagem a uma cabana isolada, Wen e seus pais, Eric e Andrew, têm a rotina interrompida quando Leonard e outros três desconhecidos invadem o local e os fazem reféns. Alegando agir para evitar o fim do mundo, os invasores apresentam uma escolha impossível: a família deve decidir qual deles será sacrificado voluntariamente. Enquanto eventos catastróficos começam a acontecer, Eric e Andrew entram em conflito sobre acreditar ou não na ameaça, sabendo que qualquer decisão terá consequências irreversíveis.
Como um homem gay, eu sempre quis ver produções onde houvesse protagonistas homossexuais, mas sem todo o drama comum a isso. Sim, porque Hollywood parece só saber fazer longas dramáticos extremamente pesados ou comédias escrachadas, então ver uma produção onde o casal protagonista é gay em um roteiro de suspense e terror, onde a questão da sexualidade é pouco explorada ou nem chega a ser a base, é algo que eu vejo como positivo. Você consegue colocar um casal hetero ali naquela história que vai funcionar da mesma maneira.
É o tipo de normalidade que nós esperamos ver, esperamos ser representados. Entretanto, ainda é pertinente uma crítica: Andrew e Eric são um casal que não tem nenhum tipo de interação como tal. Se você me dissesse que eles são amigos, eu iria acreditar. Eu não sei se o livro é dessa forma, mas no filme, Shyamalan deixou a desejar.
O grande dilema moral que o filme traz é a questão entre você ser um crente e um descrente. Eu, particularmente, sou o Andrew encarnado. Eu tenho zero, aliás, não zero, eu tenho uma carga negativa de crença espiritual, no sobrenatural ou em qualquer coisa não física, não material. Logo, quando eu falei que o filme me despertou muita indignação, é porque os protagonistas tiveram inúmeras oportunidades de se livrar daqueles doidos e não fizeram. Eu sei que, no final, o roteiro toma um lado, mas eu me conheço, eu seria daqueles que, com absoluta certeza, iria pagar para ver.
Tecnicamente falando, a produção é bem simples. O elenco é pequeno, o cenário é basicamente único, mas isso não é um problema. Shyamalan consegue criar um bom clima de tensão, nos deixar apreensivos, a trilha sonora colabora também e o ritmo é muito bom, fazendo com que o tempo passe sem você nem perceber. Quanto ao elenco, eu fiquei surpreso com o Dave Bautista. Não gosto dele como ator, acho fraquíssimo, mas aqui ele até esteve bem. O Jonathan Groff está excelente, mas seu personagem, Eric, é bem chatinho, talvez porque ele represente o oposto daquilo em que eu acredito, o que fez com que eu me encantasse muito pelo personagem Andrew, que o excelente Ben Aldridge deu muita personalidade. Mas, como um Potterhead assumido, eu confesso que esperava mais da participação do Rupert Grint.
Repetindo o que eu disse lá no começo, Shyamalan é muito ame ou odeie. Eu não diria que amei este aqui, mas ele com certeza cai no grupo dos que me agradaram. É claro que algumas arestas do roteiro deveriam ter sido aparadas para deixar o tudo mais redondinho, como, por exemplo, explorar melhor os ditos desastres que acontecem ao longo da trama, para que nós ficássemos ainda mais em dúvida em relação ao que estava acontecendo, reforçando a proposta, que era nos deixar em constante incerteza sobre se aquelas pessoas estavam falando a verdade ou se eram apenas um bando de lunáticos fanáticos surtados.
Ou, ainda, trabalhar mais a carga psicológica dos protagonistas, porque não existe uma justificativa clara do porquê eles colocariam a própria família em risco por um mundo que os rejeita, e não reagiriam de forma mais direta na primeira oportunidade que tiveram, e foram muitas. Mas, mesmo com essas falhas, o resultado final ainda é positivo, e eu classifico Knock at the Cabin como um dos melhores trabalhos recentes do Shyamalan, que após anos de irregularidades, parece ser encontrar em uma melhor situação.
Manual Prático da Vingança Lucrativa
3.1 32 Assista AgoraHOW TO MAKE A KILLING
Direção: John Patton Ford
Ano: 2026
Assistido em: 26/04/2026
Após ler a sinopse desse filme, eu fiquei muito interessado em assisti-lo, não só porque sou fã do Glen Powell, mas porque achei a história muito interessante. Foi impossível não me lembrar imediatamente de um espetacular clássico da comédia britânica chamado Kind Hearts and Coronets (1949), protagonizado pelo saudoso Alec Guinness, que traz basicamente a mesma ideia. Curioso por essa semelhança, fui pesquisar e descobri que tanto How to Make a Killing quanto o filme dos anos 40 são baseados no mesmo livro. Infelizmente, a partir desse momento, não consegui mais não comparar os dois filmes, mesmo sabendo que a execução deles são bem diferentes.
Becket Redfellow é um homem de origem humilde que foi rejeitado ainda ao nascer por sua família extremamente rica. Anos depois, obcecado pela ideia de recuperar a herança que acredita ser sua por direito, ele decide se reaproximar dos Redfellow e passa a eliminar, um a um, os parentes que estão à sua frente na linha sucessória. À medida que executa seu plano, Becket se envolve em uma escalada de manipulação, violência e ambição, disposto a atravessar qualquer limite para alcançar a fortuna.
Trazendo Kind Hearts and Coronets (1949) mais uma vez, o mais interessante daquele filme é que ele era acima de tudo uma comédia. Ele entendia que a proposta era extremamente absurda e, por isso, precisava fazer escárnio, precisava fazer piada do que acontecia em cena. O personagem do Alec Guinness se travestia, se fantasiava das figuras mais estapafúrdias e hilárias possíveis, e o riso era garantido porque cada morte era mais alucinada que a anterior.
Entretanto, nesta adaptação americana, o humor foi completamente removido. Desta vez, o protagonista tem um motivo mais “nobre” para agir. E confesso que perder a diversão foi a parte mais triste. E o pior de tudo é que o Powell manda muito bem na comédia, e o roteiro poderia ter se aproveitado disso.
E, por falar no roteiro, ele é muito comportado. Eu achei todas as mortes muito fáceis. Por exemplo, a primeira de todas ocorre em um iate de luxo. Não tem nenhuma câmera de segurança para averiguar o que aconteceu?! Aí, de repente, nas mortes seguintes, as câmeras aparecem, mas não pegam nada. E me tiram uma pessoa que estava seguindo o Becket do vento, e essa pessoa consegue provas que a polícia não tinha conseguido. Tudo muito conveniente, o que tira o espectador da história. E, novamente, se eles tivessem abraçado a galhofa, nada disso teria incomodado.
O elenco é recheado de estrelas. Gosto muito do Glen Powell, além de bonito, é um excelente ator. A Margaret Qualley poderia ter sido melhor utilizada, assim como o Ed Harris, que é um monstro da atuação e de quem adoraria ter recebido mais. Quando o assunto é a parte técnica, nós temos uma montagem muito boa, que faz com que o filme fique dinâmico e você nem perceba o tempo passando. Os figurinos são excelentes, e as mortes são muito bem filmadas, dá para entender direitinho os movimentos do Becket. Os cenários também são bons. Eu só senti falta de uma trilha sonora mais efetiva.
Fiquei muito triste quando vi que esse filme foi um fiasco, seja de crítica, seja de bilheteria. Creio que as pessoas não estavam preparadas para uma produção séria sobre alguém que decide exterminar toda a própria família em busca de vingança moralmente nobre. Caso a situação tivesse sido mostrada com mais leveza, a recepção talvez tivesse sido melhor. Sobre o final, para mim esse foi o melhor momento do filme. Só não gostou quem não entendeu o que estava assistindo, porque, convenhamos, uma pessoa que faz tudo o que o Becket fez não teria o menor problema em fazer o que ele faz no final. Foi extremamente condizente com o que o filme estava contando. Ele sempre quis o dinheiro, não ia deixar um relacionamento bobo atrapalhar seus planos.
Entendo que existem filmes e filmes. Alguns funcionam para muitos, outros funcionam para poucos, e é assim. Particularmente, gostei muito do que vi, mas, se eu quiser ter novamente um contato com essa história doida, não vou pensar duas vezes antes de ir atrás do clássico britânico em preto e branco.
Uma Segunda Chance
3.1 28 Assista AgoraREMINDERS OF HIM
Direção: Vanessa Caswill
Ano: 2026
Assistido em: 25/04/2026
Colleen Hoover se tornou a nova queridinha dos fãs de romances dessa geração. Eu a enxergo da mesma forma que Nicholas Sparks era nos anos 2000: aquele autor que aposta no seguro, entrega sempre os clichês e, ainda assim, consegue fazer sucesso. Não estou dizendo que existe problema algum nisso; afinal, é sempre melhor apostar no seguro, não é mesmo? E, sem ter nada melhor como opção, decidi dar uma chance a este, porque confesso que achei a sinopse interessante. Mas, daí a ter uma boa execução, estamos falando de outro assunto.
Após cumprir pena por um erro devastador, Kenna Rowan retorna à cidade onde tudo aconteceu, determinada a se reconectar com sua filha, Diem. No entanto, ela enfrenta a resistência de todos ao seu redor, especialmente de Ledger Ward, enquanto lida com as consequências de seu passado e tenta provar que merece uma segunda chance.
Como eu disse, fui atraído pela expectativa de uma trama mais séria, mais madura, não aquela mesmice de um casalzinho adolescente apaixonado que não pode ficar junto pelo motivo mais estúpido possível. Mas querer um romance sem os clichês, sem os vícios já inerentes ao gênero, é pedir demais. Então, mesmo partindo de uma boa ideia, nós chegamos ao mesmo lugar. Temos uma protagonista sofredora que se apaixona pelo melhor amigo do namorado morto e, sabe-se lá por que diabos, eles colocam isso como um grande impedimento, como se ambos não fossem adultos, donos do próprio nariz e pudessem simplesmente fazer o que bem entendessem.
O ponto mais interessante do roteiro é a questão da guarda da criança e, curiosamente, ele nem é tão bem explorado. Quando disseram no começo do filme que a Kenna tinha sido a responsável pela morte do Scotty, eu entendi perfeitamente o porquê de os pais dele e o Ledger quererem que a garota se afastasse da mulher, e isso seria muito interessante: ver como ela, sendo responsável pela morte do pai da criança, poderia ter um relacionamento com a filha. Mas não é bem isso. Lá para o final, a gente descobre que as coisas não são tão óbvias assim e que, na realidade, os avós da Diem estavam fazendo um grande carnaval por nada, sendo apenas dois grandes pau no cu que simplesmente estavam querendo roubar da criança a oportunidade de ter uma mãe. E, para piorar, todo esse plot é resolvido com um passe de mágica, da forma mais preguiçosa possível. Sério, que só ler uma cartinha safada mudou o comportamento de todo mundo?! Então tá.
Enfim, ficar reclamando de roteiro de filme de romance é dar tiros na água. Sobre a parte técnica, direção, fotografia e montagem, tudo é básico. Não tem nada de excepcional, é tudo feito no padrão, no conforme, sem inovação nenhuma. E o objetivo não é esse, é oferecer ao público corriqueiro desse tipo de filme aquilo que eles já estão acostumados a consumir. Mas o grande problema é que o casal protagonista não tem química nenhuma. Para uma produção romântica funcionar, o público tem que gostar, tem que torcer pelo casal central, e Maika Monroe e Tyriq Withers não têm isso. Eles são bonitinhos, mas não deu liga.
Reminders of Him é inofensivo, não vai cruzar nenhuma linha moral ou ética que vá ofender alguém. É aquele romance previsível, com uma mensagem bobinha de redenção. Não estou dizendo que isso é algo ruim, apenas que é mais do mesmo. Se você não se incomodar, ótimo. Se gosta desse tipo de filme, vai ser um prato cheio. Agora, para um espectador convencional, é só mais uma história como muitas outras que você vai assistir e vai esquecer. Eu espero que as próximas adaptações da Colleen Hoover sejam um pouco mais intensas, porque, das que vi até agora, só com muito esforço para justificar o barulho que andam fazendo.
Michael
3.8 333MICHAEL
Direção: Antoine Fuqua
Ano: 2025
Assistido em: 24/04/2026
Como cria dos anos 90, a figura de Michael Jackson sempre foi complexa para a minha geração. Eu já nasci na fase “Wacko Jacko”, quando ele já havia sido acusado de pedofilia, com a vida completamente esmiuçada, as esquisitices expostas e sob perseguição intensa da mídia. Nunca vivi o auge da “Michaelmania”. Para mim, os períodos mais marcantes foram o início dos anos 2000, quando ele tentou uma retomada que não foi para frente, a segunda leva de acusações com o julgamento em 2005 e a expectativa frustrada de retorno em 2009. Só tive dimensão real do tamanho desse cara em 25 de junho de 2009, quando ele morreu, e parou o planeta inteiro. Foi ali que fui atrás, e me tornei fã, daquele artista de músicas excelentes, mas cercado por controvérsias. Passados 17 anos, o filme chega para relembrar o quão gigante foi (e ainda é) o Rei do Pop.
Na década de 1960, Joe Jackson, um homem simples de Gary, Indiana, decide transformar seus cinco filhos em artistas de sucesso, mesmo enfrentando todo o peso do racismo. Rapidamente, os olhares se voltam para o pequeno Michael, o mais novo, mas claramente o mais talentoso. Ao longo dos anos, ele desenvolve esse talento até se tornar o maior artista de todos os tempos — o inigualável rei do pop.
Quando anunciaram que os responsáveis pelo filme seriam os mesmos de Bohemian Rhapsody (2018), já dava para prever a higienização da história. É o mesmo procedimento: varrer as polêmicas para debaixo do tapete e focar apenas no legado, na glória e na fama. O problema é que Michael Jackson não é qualquer artista, ele é provavelmente a figura mais exposta da história. Sabemos demais sobre a vida dele. Então, quando o filme reduz Joseph Jackson a algumas cenas brandas de intimidação e a uma miserável ceninha de agressão física, fica evidente o abismo entre representação e realidade. O mesmo vale para os irmãos, mostrados de forma suavizada, ignorando tensões e inveja já admitidas pelo próprio Michael quando vivo. Ao encerrar na era Bad (1987), evitando falar sobre a onda de críticas após o "embranquecimento", evitando os anos 90, com as acusações de pedofilia e a perseguição midiática, o filme se enfraquece. O público já conhece a história, ninguém vai ao cinema para descobri-la, mas para vê-la dramatizada. E o filme foge de tudo isso.
Fica claro que nunca houve intenção de fazer uma cinebiografia convencional. Com a família envolvida, era previsível que os pontos mais delicados seriam excluídos. O que resta é o espetáculo, e é aí que o filme funciona. Jaafar Jackson impressiona fisicamente, não tanto pelas feições, mas pelo porte, pela atitude e, principalmente, pela performance. Ele dança muito bem, tem presença de palco e consegue emular com eficiência os trejeitos do tio. Evidentemente, o original é inalcançável, estamos falando talvez do artista mais completo da história, então as comparações são inevitáveis. Ainda assim, o que ele entrega é sólido. A cena final, com Bad, é genuinamente impactante. Colman Domingo está repugnante no papel de Joe, mesmo não mostrando um terço do quão desgraçado o outro era, e isso é a prova de como ele está ótimo no papel.
Tecnicamente, o filme confirma minhas baixas expectativas em relação a Antoine Fuqua. Para mim, ele sempre foi um diretor irregular, que acerta pontualmente, mas, no geral, entrega trabalhos fracos. Aqui não é diferente. A montagem é particularmente problemática: anos e eventos são despejados na tela de forma mecânica, sem construção narrativa. É a estrutura típica das cinebiografias mais preguiçosas, que se apoiam em marcos cronológicos em vez de desenvolver uma linha dramática consistente.
No fim, o que sustenta o filme é o carisma de Michael Jackson. Décadas podem passar, acusações podem surgir, nada apaga o brilho que ele tinha. Basta começarem os primeiros acordes dos maiores hits, para o impacto ser imediato. Por isso, Michael não funciona como cinebiografia. Funciona como um clipe estendido, um show costurado por fragmentos da vida do artista, embalado por uma trilha sonora imortal. É isso que vai garantir o sucesso e também enganar muita gente: a emoção de rever aquelas músicas, aqueles figurinos, aquela presença. Há um apelo quase ilusório de estar diante dele novamente, e isso fisga. Mas, sem esse encantamento, sobra um filme frágil. Faltou coragem, faltou conteúdo — e todo mundo sabe disso.
Regras Não Se Aplicam
2.5 53 Assista AgoraRULES DON'T APPLY
Direção: Warren Beatty
Ano: 2016
Assistido em: 18/04/2026
Warren Beatty é um dos grandes galãs da história do cinema e também um dos pioneiros nesse movimento de atores que entendem que a beleza tem prazo de validade e que, em algum momento, é preciso migrar para os bastidores. Como diretor, construiu uma carreira respeitada, mas passou muitos anos afastado, o que gerou uma expectativa considerável quando anunciou seu retorno em 2016. O problema é que esse retorno veio como um belo banho de água fria quando Rules Don't Apply chegou aos cinemas, um filme que, uma década depois, dificilmente é lembrado por alguém.
Em Hollywood, nos anos 1950, a aspirante a atriz Marla Mabrey chega à cidade sob contrato com o excêntrico magnata Howard Hughes e conhece seu motorista Frank Forbes. A atração entre os dois desafia as rígidas regras impostas por Hughes, enquanto ambos tentam lidar com suas ambições, crenças e o comportamento imprevisível do empresário.
O grande problema aqui é a história. Ela é fraca, chata, sem graça e arrastada ao extremo. Parece uma trama que já estaria ultrapassada nos anos 1940, centrada em um relacionamento pouco interessante entre protagonistas igualmente desinteressantes. Nada evolui de forma envolvente, tudo soa distante e sem impacto. Isso sem falar nos personagens principais, que têm o carisma de um chuchu. E o curioso é que os atores não são ruins. Em outros contextos, já provaram que conseguem entregar mais, mas aqui o roteiro simplesmente não ajuda em nada.
Se há algum ponto positivo, são os figurinos e os cenários, que ao menos demonstram algum cuidado visual. Mas para por aí. A caracterização, de modo geral, não funciona, especialmente no caso do próprio Warren Beatty interpretando Howard Hughes. Hughes é uma das figuras mais emblemáticas dos Estados Unidos no Século XX, um magnata extremamente influente e cuja imagem é amplamente conhecida até hoje. Ver Beatty caracterizado e não reconhecer absolutamente nada dessa figura histórica compromete completamente a imersão.
Rules Don't Apply cai na pior categoria possível. Não é um filme que irrita, nem que diverte ou que provoca qualquer tipo de reação mais forte. Ele simplesmente não causa nada. Quando uma obra te deixa feliz ou revoltado, ao menos ela te marcou de alguma forma. Aqui, o que fica é a apatia. Quando o filme termina, seja no cinema ou na televisão da sala, a sensação é de vazio. É morto, sem vida, não respira e não tem pulsação. No fim das contas, sobra apenas a impressão de que tudo aquilo foi uma grande perda de tempo.
O Quarto dos Esquecidos
1.9 336 Assista AgoraTHE DISAPPOINTMENTS ROOM
Direção: D. J. Caruso
Ano: 2016
Assistido em: 18/04/2026
Na época em que comecei a assistir Prison Break (2005-2009; 2017), fiquei absolutamente obcecado. Provavelmente foi a série que mais me deixou imerso, e a coisa mais próxima de um vício que já experimentei. Fiquei tão fã de Wentworth Miller que passei a ir atrás de absolutamente tudo que ele fazia. Quando ele diminuiu o ritmo como ator e passou a focar na carreira de roteirista, continuei acompanhando com interesse.
Quando esse filme saiu, eu estava muito ansioso para assistir, mas confesso que, ao ver as críticas desastrosas, preferi evitar para não me irritar. Passados dez anos, decidi finalmente dar uma chance a esse filme tão mal falado e preciso admitir que, dessa vez, as críticas estavam certas.
Uma arquiteta, Dana, muda-se com o marido David e o filho Lucas para uma antiga mansão após a morte traumática da filha. Ao explorar a casa, ela descobre um quarto secreto escondido no sótão e passa a vivenciar fenômenos perturbadores ligados ao passado sombrio do lugar, enquanto sua sanidade e a segurança da família são colocadas em risco.
Um grande problema do filme é que ele inteiro soa como uma daquelas produções feitas diretamente para DVD do começo dos anos 2000, sem um pingo de cuidado ou esmero. Tudo parece feito de qualquer jeito. Os cenários são pobres, a fotografia é escura em excesso, o roteiro é terrivelmente clichê e a trilha sonora é completamente esquecível. O pior de tudo são as atuações.
A Kate Beckinsale nunca foi exatamente um primor, sempre foi limitada, mas aqui atinge níveis constrangedores. E a caracterização não ajuda em nada. Não parece nem de longe que aquele cabelo seja real, dá a impressão de ser uma peruca de baixíssima qualidade. O elenco de apoio também sofre com o roteiro preguiçoso e com uma direção pouquíssimo inspirada.
Como eu disse, ainda sou muito fã do Wentworth Miller e sei que, como roteirista, ele pode entregar muito mais. Seu primeiro trabalho na área, Stoker (2013), que ele escreveu sozinho, foi muito bom. Aqui, no entanto, dividir os créditos com D. J. Caruso claramente não funcionou. O resultado é um filme genérico, sem alma, sem vida, que termina exatamente como começa e deixa a sensação de um enorme desperdício de potencial.